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10 de out de 2017

Show: Jethro Tull Performed by Ian Anderson | 9 de outubro de 2017 | Auditório Araújo Vianna | Porto Alegre

terça-feira, outubro 10, 2017

Lembro da minha frustração em 2 de agosto de 1988, data do lendário show do Jethro Tull no Gigantinho em Porto Alegre. Na época, Ian Anderson e sua trupe divulgavam Crest of Knave (1987), um dos discos medianos que o Tull lançou naquela década. "Foram os três solos de flauta mais longos que vi num show de uma banda de rock! E o público enlouqueceu", relembra o músico Rafael Ritzel, que nessa noite de 9 de outubro está ao meu lado. De todo o modo, ele ainda se orgulha de ser uma das testemunhas daquele evento histórico na capital gaúcha, época em que o RS estava longe de ser um corredor de passagem para bandas internacionais. 

Voltando a 2017, todos sabemos que rock e o mercado da música pop mudaram, as formas de ouvir música são outras. Álbuns não vendem tanto quanto há 30 anos, e hoje, artistas que construíram sua história nas décadas de 1960/70 não apenas precisam cair na estrada para reaquecer o interesse pelas suas obras. Eles sabem que os tours passaram a ser pilares de conexão, isso tanto com os fãs devotos, como também frente a novos públicos. Digressões também são potentes veículos de divulgação de bandas/artistas, e o mais importante: fonte de renovação para eles próprios.   


21h em ponto: quando vemos Ian Anderson, 70 anos, corpo ainda esguio, coreografando as cenas clássicas que conhecemos das capas do discos/fotos/vídeos de shows antigos, a sensação é de que essa magia estradeira realmente é essencial para muitos artistas. Se aos 29 anos o compositor de "Too Old to Rock and Roll, Too Young to Die” cantava a decadência do rock e questionava o futuro do gênero, 40 anos depois cá está Ian cantando a mesma canção e ainda fazendo o seu trabalho à moda antiga. E muito bem! Instrumentalmente, o líder do Tull continua sendo um artista impressionante. Já a garganta, apesar de ainda guardar o conhecido timbre, perdeu a potência, revelando um vocalista mais cuidadoso. Nada que o desabone sua capacidade de encantar uma audiência. Esse talento permanece intacto. "Com a carreira que o Ian tem, ele pode fazer o que quiser", avisa o brother Ritzel ao pé do ouvido.   

No palco, além de Ian Anderson (flauta, voz e violão), temos dois integrantes que prestam serviços ao Tull a uma década - David Goodier (baixo e voz) e John O'Hara (teclado). Já o músico alemão Florian Opahle (guitarra), com passagem pela banda de Greg Lake, fixou residência no Tull desde 2003. Completa o time Scott Hammond (bateria), desde 2010 no grupo. A apresentação começa com "Living in the Past", seguida de "Nothing is Easy" e "Heavy Horses", temas pinçados a dedo da joia da coroa da obra desenhada desde 1968 por Ian Anderson. Aos primeiros acordes do violão base de "Thick As a Brick", previsivelmente o público efervesce. 

Uma das maiores virtudes da trajetória musical do grupo britânico é justamente o cruzamento da tradicional linha de montagem de uma banda de rock com a música erudita e folclórica europeia. E não estão aí um dos pilares do rock progressivo? E esse é um dos pontos altos da noite, quando instrumentalmente a música do Tull ainda soa assombrosa meio século depois de seu descobrimento. É justamente essa teia sonora que nos deixa impressionados em "Bourée" e "Pastime in Good Company", quando fica fácil associar a figura hiperativa de Ian Anderson com antigas lendas do velho mundo. Iconicamente sua performance também colabora para essa associação, quando a cada movimento e soprada na flauta transversal novas caretas e olhares são lançados a audiência.  


Depois de um breve intervalo de 20 minutos (chance pra colocar o papo em dia com vários amigos presentes), às 22h16 as imagens vampirescas no telão colorem ainda mais "Sweet Dream". Capitaneado pela guitarra de Florian Ophale, essa conversa entre a sonoridade medieval e o rock pesado explicita o modus operandi do Jethro Tull, recurso que ao vivo a torna ainda mais impressionante e translúcida. E há um equilíbrio entre performance e malabarismos musicais, pois tanto as geniais intervenções da flauta de Anderson, quanto os solos de bateria ("Dharma For One") e até mesmo o ápice guitarrístico de Ophale ("Tocatta and Fugue in D Minor") surgem equalizados numa proporção exata, sem excessos. Também é necessário lembrar da raiz blues do Tull, uma memória alinhavada por exemplo na gaita de boca de Ian em "A New Day Yesterday", outro momento especial do set.    

E toda as percepções eclodem rumo ao clímax perfeito: "My God", momento em que a primeira música do lado B de Aqualung faz o preâmbulo e prepara a cama para a faixa título, um dos momentos mais esperados da apresentação. "Quem nunca ouviu Aqualung que atire a primeira pedra!". Quem nunca topou com a capa de um dos mendigos mais célebres do rock? E no bis, "Locomotive Breath" surge como um trem bala rumo ao desconhecido, deslizando para uma fronteira além das nossas expectativas iniciais. 

Em sua oitava passagem pelo país, finalmente o garoto de 1988 ressuscitou no plateia de um show do Jethro Tull. Lá estava ele, bem em frente ao palco, envelhecido, hipnotizado a registrar tudo com seus olhos e ouvidos. Parado como uma estátua barbuda saída diretamente da imagem do LP.

Nossos agradecimentos à Agência Cigana pelo suporte e credenciamento.       


Set 1:
Living in the Past
Nothing Is Easy
Heavy Horses
Thick as a Brick
Banker Bets, Banker Wins
Bourrée in E minor
Farm on the Freeway
Too Old to Rock 'n' Roll, Too Young to Die
Songs From the Wood

Set 2:
Sweet Dream
Pastime With Good Company
Fruits of Frankenfield
Dharma for One
A New Day Yesterday
Toccata and Fugue in D Minor
My God
Aqualung

Bis:
Locomotive Breath



23 de fev de 2017

Show: Renato Bandeira & Som de Madeira | 17 de fevereiro de 2017 | Paço do Frevo | Recife

quinta-feira, fevereiro 23, 2017

Na sexta-feira pré-carnaval, quarteto pernambucano apresentou sua potência monolítica em vibrante apresentação ao vivo no templo do frevo.

A definição de uma identidade. O duro empreendimento de prover contornos nítidos a um todo cultural tão difuso quanto possível. Se tem uma coisa que impressiona no show deste grupo é a constatação de sua insólita e aparentemente espontânea habilidade de encontrar sua unidade no exercício da dispersão.
Dito isto, esqueça o rótulo "música regional", pois no final das contas, ele não se mostrará nada mais que uma camisa de força usada para amarrar as mil e uma nuances que este quarteto pernambucano explora com sete fôlegos e ampla coragem.

O chassis é, de fato, o regionalismo, o explorar do encanto, mágica e carisma que possui a cultura popular. Só que no lugar de seguir reto nesta via única, os pernambucanos acabam por buscar seu caminho próprio na torta e incerta trilha que leva o regional ao universal.

A formação é exuberante. Na linha de frente há Renato Bandeira, proeminência da guitarra brasileira que ao longo de mais de três décadas de uma sólida carreira, tem se estabelecido como um dos maiores expoentes não só no seu instrumento, como também no campo da composição, arranjo, produção e direção musical.

Compondo a tapeçaria sonora junto ao guitarrista, temos o sanguíneo acordeon do excelente Júlio César, um dos máximos denominadores entre os contemporâneos talentos da música nordestina. Na cozinha, uma dupla dos sonhos: o originalíssimo Hélio Silva, com seu inominável estilo serpenteante, por vezes funkeado ao contrabaixo e o sobrehumano Augusto Silva, dono de uma técnica excêntrica a tal ponto que atinge as raias do inclassificável.

Uma excentricidade: todos os instrumentistas compõe a base sonora, ao passo que cada um destes também detêm a liberdade para alçar vôos em solos, não raro, mais de um por vez. Algo ainda mais excêntrico: cada solo realizado pelos músicos denota um claro e genuíno exercício de expressão da individualidade intrínseca a cada componente a tangenciar de maneira curiosa a entidade coletiva. Anos luz do lugar cada vez mais comum entre músicos virtuosos de render-se ao insosso exercício da auto-indulgência. Aqui não há espaço para o trivial ou para o fútil. Cada nota significa algo.

De fato, os maiores trunfos do grupo residem no inusitado: conseguem ser extremamente acessíveis sem em momento algum cederem às tentações dos atalhos fáceis e banais. Sua música não ficaria deslocada num bloco de carnaval de rua, nem numa requintada apresentação num restrito club. Fazem parte, para encerrar este prelúdio, do cada vez mais restrito ecossistema de artistas cuja arte produzida detêm apelo tanto sobre as massas, quanto sobre o público mais seleto e crítico.

O minucioso exercício do tecer de sua música, a despeito de ser minucioso num nível preciosista, ocorre de forma natural e absolutamente fluida. A guitarra e o acordeon se dividem em sofisticadas interações, ora revezando-se no tecer das texturas sonoras, ora distribuindo-se em solos dos mais expressivos.


Sobrepondo-se em camadas, os instrumentos viajam por diferentes níveis hipnóticos repletos de vastidão gerando uma perspetiva visual a partir do som. Uma experiência sensitiva.


A gama sonora é de tal maneira abrangente que qualquer tentativa de interpretação crítica acaba caindo invariavelmente de cabeça no ridículo. As referências ao rico imaginário da cultura nordestina abundam, só que o tratamento que recebem é de tal maneira inusitado que estas acabam por se tornarem capazes de soar igualmente familiares tanto ao nativo quanto aquele completamente alheio a este universo.

A apresentação teve início pouco depois do meio dia na tradicional Hora do Frevo, excelente programa no qual o célebre museu abre espaço para a tão negligenciada, porém efervescente cena de música instrumental brasileira. A beldade pernambucana Naara Santos, produtora cultural e cantora de expressivo talento- que ainda há de ser descortinado ao grande público- dá as boas vindas à audiência, cuja composição sempre é realmente diversa, constatação que me fez pensar, durante a ocasião, que programas como este são os que verdadeiramente promovem o democrático acesso à cultura, sem as demagogias que costumeiramente cercam o tema.

Palavras iniciais trocadas, clima agradável, todos em seus lugares e o show começa. O primeiro bloco da apresentação é um rolo compressor. A começar pela exclamativa "De Cabeça pra Baixo", com suas finas e singulares células rítmicas se alternando em momentos de suavidade e vigor; fazendo uso de uma métrica de tal maneira entortante que no exercício de tentar seguir cada sagaz movimento de sua intensa trama, acaba de fato por deixar o atônito ouvinte de cabeça pra baixo.

A versão dos pernambucanos para "Mexe Com Tudo" do lendário Levi Fernandes, com arranjo próprio da banda, nada mais é que um pujante comboio sonoro, uma locomotiva desvairada indo em sua direção. Neste momento de plena celebração e reverência aos mestres, grupo e audiência entram em sublime sinergia. Todos em estado de extâse, músicos possessos. Renato se debulhando em seu vibrante estilo desconcertantemente intuitivo, o acordeon de Júnior a transpirar sangue e suor, Hélio distribuindo-se entre golpes percusivos, marcações angulares e solos sinuosos e sincopados numa peformance de independência de espírito simplesmente arrasadora e um prodigiosamente detonador Augusto a disparar rajadas potentes com um estilo que une a um só tempo, o vigor sanguíneo do frevo de rua e a genuína e intrínseca sofisticação oriunda do jazz.

A seguir, mais uma pérola de Levino Ferreira, "Último Dia", mais que merecidamente considerada o frevo mais belo do século. Nas mãos do grupo, a composição sai a navegar por toadas ricamente atmosféricas no mar de uma noite recifense como que deslizando por sobre um espelho embaçado.


Sem dar tempo para respirar, o grupo saiu emendando com mais uma notável composição histórica. Desta vez, investiram por sobre "Forró Novo", notável gema de Mestre Camarão. Júlio assume a direção predominante na canção e segue pegando fogo numa intensidade frenética. Há uma verdadeira cartase em ação. Os mais velhos se emocionam, os mais novos vibram ao descortinar de uma nova descoberta. Difícil é conter o impulso de sair dançando e se segurar no assento (como brinde, tivemos ainda um irreverente senhor bradando ao cabo da canção palavras de excitação no melhor do léxico nordestino: "É pra lascar, meu filho! Aqui é madeira! Bota pra lascar!!").

O momento máximo da apresentação vem a seguir com mais uma homenagem. Desta vez ao professor Nilton Rangel, com "Morena". Encostando a guitarra, Renato assume a viola de dez cordas numa arrepiante introdução solo com timbres ressoantes numa intensidade maníaca. Seus escudeiros asseclas o acompanham passado certo tempo e no break, um alucinado Augusto comete o mais expressivos dos solos de bateria que já ouvi em minha vida, que acaba por arrancar do público fogosas palmas antes mesmo da canção findar. Incrível! (alguém conserve o material genético deste homem para termos a matéria-prima para clona-lo num futuro em que tivermos tecnologia necessária para isto!).

Contra qualquer acusação tola possível de trilharem um percurso estritamente dentro da casinha, o grupo ainda tira um ás da manga, com a execução em primeira mão de novíssima composição própria, o excelente frevo de bloco "Duas Estrelas". 
Na fração final da apresentação temos mais um clímax com a tresloucada "Maluvida".

O bis veio magro, porém apoteótico, com os quatro colocando a casa abaixo novamente com um número de "Mexe Tudo" ainda mais energético, e então ao remate, as palavras finais de agradecimento e então uma exultante platéia explode em comoção como um estádio na hora do gol com a tradicional apresentação dos componentes da banda.

Sigo meu caminho. Na saída dois rapazes imberbes atônitos com o que presenciaram gesticulam e falam animadamente, quase saltitando. Da conversa deles, flagro um trecho no qual um deles diz para o outro: "Meu irmão, que cacete da mulesta!!!"- como eu amo o léxico nordestino!

É um trabalho magnífico, é um belo dia, a paisagem do Recife Antigo é tão lírica quanto sempre. Sou um homem de sorte e é isso aí.

Renato Bandeira e seu Som de Madeira estão indo para um lugar diferente na música. Mesmo em versão para composições alheias, as idéias são sempre surpreendentes e arejadas, e quando em fruto próprio, sente-se o sabor cada vez mais raro da inventividade. É isso aí, é vida que segue, só que agora mais bela.

Por Artur Barros

5 de dez de 2016

Show: Black Sabbath | 5 de dezembro de 2016 | Estádio do Morumbi | São Paulo

segunda-feira, dezembro 05, 2016

A noite prometia: a última vez que veríamos Ozzy Osbourne, Tony Iommi e Geezer Butler juntos num palco sul-americano. Depois de um dia de calor intenso, uma queda brutal de temperatura no final da tarde acompanhada de ventos frios, chuviscos e tempestades veio dar o tom macabro apropriado a um especialmente emocionante show do Black Sabbath. O público atendeu à expectativa e encheu o estádio do Morumbi. Só o cenário poderia ser melhor.

Não é novidade ao paulistano que o Morumbi é um estádio obsoleto, numa área da cidade mal servida de transporte público ou de ruas adequadas ao fluxo das mais de 60 mil pessoas que foram ao show do Black Sabbath. A estrutura da casa do São Paulo Futebol Clube também não é boa: para entrar e sair, não há portões em quantidade razoável para dar vazão rápida às filas. Do lado interno há poucos banheiros para a alta demanda, precários e de difícil acesso, opções reduzidas e escassas de alimentação. A visibilidade é ruim em quase todos os setores, com arquibancadas e cadeiras muito distantes do palco, bem como um setor “premium” que divide quase pela metade a pista sobre o gramado.

Todos detalhes que atrapalham a plena experiência, mas pouco influem na atuação da banda em cima do palco. A percepção, porém, piora quando a qualidade de som deixa a desejar como neste domingo. A guitarra de Tony Iommi por vários momentos embolava com o baixo de Geezer Butler. A bateria de Tommy Clufetos demorou a sair dos PAs com o peso necessário, ao contrário da proeminência muitas vezes descabida para o teclado do escondido Adam Wakeman. O volume geral variava conforme a intensidade do vento e da chuva. Apenas a voz de Ozzy, inconfundível como sempre, reinava soberana.

Antes, porém, tivemos o Rival Sons que, por quarenta minutos, quase passou despercebido do público no estádio. Ainda que telões indicando apenas o nome do grupo sem mostrá-lo não tenham colaborado, o descaso também denota um pouco da má vontade do roqueiro típico paulistano com bandas novas, brasileiras ou não. Enquanto os americanos conquistam cada vez mais adeptos no mundo fazendo seu rock retrô soar organicamente moderno com uma altiva performance de palco de seu vocalista Jay Buchanan, as pessoas em geral preferiram ficar conversando nas enormes filas de bebida como se estivessem num boteco ouvindo um Emmerson Nogueira da vida. Azar o delas.


O Black Sabbath entrou no palco quase pontualmente às oito e meia da já fria noite. Um vídeo meio nebuloso com cidades sendo destruídas no telão não preparava tão bem a atmosfera quanto o vento e a garoa que já castigavam o público quando Tony Iommi empunhou sua guitarra e pudemos ouvir, com certa dificuldade, aquelas três malditas notas infernais da canção auto-intitulada que revolucionou o mundo e abriu a apresentação do grupo neste domingo.

A sequência foi um deleite para os fãs. Enquanto uma tempestade desabava sobre nossas cabeças e prejudicava a visão e o som, aumentava a empolgação a cada mínimo acorde reconhecível de “Fairies Wear Boots”, “Into the Void”, “After Forever”, “Snowblind” e ”Behind the Wall of Sleep”, que soavam como uma aula a tantos imitadores do som típico do Black Sabbath nesses últimos quase cinquenta anos, mesmo sentida a ausência de Bill Ward - Tommy Clufetos é um baterista sólido suficiente para qualquer ótima banda de metal, mas é gritante a falta daquele swing jazzístico único da formação original, até hoje ainda não reproduzido a contento nos inúmeros seguidores no doom metal ou stoner rock, nem pelo próprio grupo nesta noite.

De resto, foi um típico show do Sabbath, sem surpresas para o iniciado, não por isso menos emocionante. Ignorando o celebrado disco 13 e com um telão alternando imagens ora psicodélicas, ora distópicas, ao longo de pouco mais de uma hora e meia clássicos foram executados beirando à perfeição para um público animado, que se atrapalhava e se divertia nas palmas ao cantar em jogral com Ozzy os versos de “War Pigs”, ou explodia catártico ao solo de baixo de Geezer Butler que iniciou “N.I.B.” para um dos coros mais bonitos da noite em seu macabro refrão, ou ainda ao entoar a plenos pulmões as melodias da morosa “Iron Man” e da apocalíptica “Children of the Grave”, até a frenesi final avassaladora da incendiária “Paranoid”.


Nem tudo foram flores, como a inaceitável qualidade de som ou o insosso solo de bateria de quase dez intermináveis minutos de Clufetos, introduzido por “Rat Salad”, e até mesmo “Dirty Women”, um momento em que a banda claramente se divertia nas constantes mudanças de andamento enquanto segurava a base para o longo solo improvisado de Tony Iommi, que em vez de embasbacar o público, já exausto pelas condições climáticas, começava a dispersar mais do que nas intermináveis acrobacias do baterista pouco antes.

Todos detalhes insignificantes quando presenciamos o entrosamento absurdo de Iommi e Butler ao reproduzir todos aqueles sons que permeiam em maior ou menor grau toda a nossa coleção de discos de rock, cativados pelo carisma inabalável de Ozzy Osbourne, com sua característica voz já desgastada e sua alegria contagiante de quem, como seus dois velhos parceiros, não sabe o que teria feito da vida se não estivesse ali tocando juntos, talvez pelas últimas vezes.

É difícil apostar na seriedade da turnê de despedida quando uma raposa dos negócios musicais como Sharon Osbourne está envolvida, apesar de o tempo não correr a favor dos músicos e não haver muitos motivos para vender grandiosamente uma futura turnê de reunião. Também é improvável crer num retorno futuro à América do Sul, que só foi agraciado pela presença da formação quase original uma década e meia após sua tão esperada reunião.

Contudo, num ano em que a mortalidade de nossas referências culturais se evidencia com vários chutes na boca do estômago, quando deixamos o Morumbi encharcados pela chuva e, perdão pelo clichê, de alma lavada, éramos gratos não só pelo ótimo show ou pela carreira lendária de riffs eternos, ou ainda todo um estilo musical que esses hoje senhores de Birmingham criaram há quase meio século, mas por podermos guardar na memória a imagem do Black Sabbath triunfante, como os detentores de um legado tão importante merecem.

Por Thiago Martins


2 de dez de 2016

Show: Adrian Belew Power Trio | 27 de novembro de 2016 | Carioca Club | São Paulo

sexta-feira, dezembro 02, 2016

Não foram muitos os que presenciaram o show do power trio de Adrian Belew na festiva e quente noite do título palmeirense do último domingo de novembro em São Paulo. As aproximadamente 400 pessoas, maioria de homens nos seus 40 anos de idade, ocupavam, sem aperto, metade da pista do Carioca Club, e dividiam o espaço com algumas mesas ao fundo. Pouco para o que representa o lendário guitarrista. Menos ainda pela qualidade de sua apresentação.

Adrian Belew, hoje com 66 anos, aprendeu os truques do rock and roll com Frank Zappa e David Bowie nos anos 1970, colaborou com outros ícones como Talking Heads, Nine Inch Nails e Paul Simon, mas fez mesmo seu nome como o mais longevo parceiro de Robert Fripp no King Crimson, banda da qual fez parte entre 1981 e 2009. Desse período compreendeu quase a metade do repertório do show em São Paulo.

O power trio é completado por Tobias Ralph na bateria e pela baixista Julie Slick. Enquanto a moça usava seu instrumento mais como um espinha dorsal do som da banda, Tobias Ralph brilhava na reprodução dos complexos arranjos originais, bem como destruía seu kit sem dó quando os momentos de improvisação assim permitiam. Só um monstro chamaria mais a atenção do que o baterista. E, como esperado, Adrian Belew provou que não fez a sua carreira por acaso.


Mostrando carisma, bom humor e certa introversão aliada a um exibicionismo elegante e contido, Belew desfilou sua técnica que equilibra intensidade selvagem e inventividade minimalista de acento pop, exposta numa relação de certa forma lúdica com seu instrumento, às vezes empunhando-o no ar ou explorando diferentes texturas através de efeitos gerados por um iPad, sem deixar cair o ânimo em momento algum das quase duas horas de sua apresentação, dividida em dois sets e incluindo um pequeno intervalo entre eles.

Se a resposta do público às suas canções solo como "Young Lions", "Men in Helicopters" e "Ampersand" soava como um educado silêncio contemplativo à criatividade do guitarrista, a técnica do baterista e o visual e atitude despojada da baixista, quando faixas mais conhecidas de sua celebrada fase no King Crimson eram executadas, o clima para muitos ali era de realização de sonho.

Infelizmente, outras bandas das quais o guitarrista participou não foram contempladas no repertório. E, numa formação com apenas três músicos, fica impossível reproduzir com precisão os detalhados arranjos de composições do King Crimson como "Frame by Frame", "Neurotica" e "Three of a Perfect Pair", executadas em versões mais diretas sem soarem descaracterizadas, ou o interlúdio cheio de camadas e sons da pesada "Dinosaur", deixado de lado na apresentação. Momentos teoricamente mais simples como o medley com "Heartbeat" e "Walking On Air" ou a introspectiva "One Time", por outro lado, ganharam faceta ainda mais emotiva no palco.

O final do show veio com a clássica "Indiscipline" do disco quase homônimo de 1981, repleta de berros do público acompanhando as falas do empolgado Belew e um espetáculo inesquecível do baterista Tobias Ralph destruindo os conceitos de tempo e contratempo de quem teve a sorte de presenciar uma lenda no palco e ainda guarda uma esperança de um dia ver o King Crimson com toda sua produção num palco brasileiro. Mas, com menos de quinhentos pagantes, vai ser impossível.


Por Thiago Martins


10 de nov de 2016

Show: Balaclava Fest | 9 de novembro de 2016 | Bar Opinião | Porto Alegre

quinta-feira, novembro 10, 2016

Porto Alegre é tida por muitos como a cidade do rock, mas à exceção dos grandes shows em estádios ou shows de bandas na linha stoner/metal em bares, anda carente de boas opções em matéria de shows de médio porte, principalmente dentro do que se pode chamar genericamente de indie rock.

Por isso, foi muito bem-vinda a mobilização, através das redes sociais, que resultou nos shows do Balaclava Fest, realizado no Opinião, uma das mais tradicionais casas de shows da capital do RS. No line up, a banda paulistana Ombu, a canadense TOPS e, como headliner da noite, a londrina Yuck.

Abrindo a noite, o Ombu apresentou, ainda para um público reduzido, o repertório do recém-lançado EP intitulado Pedro, onde apresenta influências de post-rock. Logo em seguida, a canadense TOPS apresentou seu dream pop, com muito uso de sintetizadores acompanhados do belo vocal de Jane Penny. O show segue de forma bastante linear até o final, onde a vocalista assume a guitarra e o repertório ganha em empolgação, tanto da banda como da plateia, especialmente em “Way to Be Loved”.

Finalizando a noite, já com um público razoável, o quarteto Yuck fez a sua primeira apresentação em terras gaúchas, com um show correto, com músicas de todos os discos de sua curta carreira, iniciada em 2009, e que pode ser dividida entre antes e depois da saída do membro fundador e vocalista Daniel Blumberg. Daniel gravou com a banda vários EPs e o auto-intitulado disco de estreia, lançado em 2011. 

O som é uma colcha de retalhos de várias influências que remetem imediatamente aos anos 1990, processadas de uma forma levemente mais pop, e se sobressai justamente nos momentos em que a banda executa as músicas do primeiro disco, como "Get Away", que teve uma das melhores recepções da noite. As faixas dos discos mais recentes, em especial de Stranger Things (2016), perdem muito em qualidade e, consequentemente, a resposta do público foi mais fria. Destacam-se em algumas canções os belos vocais da baixista Mariko Doi.

Com um line up razoável, com uma banda nacional ainda desenvolvendo sua sonoridade e duas internacionais que, se não são as melhores da atualidade, ao menos apresentam boas referências na sua sonoridade, o Balaclava Fest se coloca como uma boa opção para os fãs indies. 

Importante destacar também que todas as bandas tocaram no horário, num local tradicional na noite de Porto Alegre, o que deixa ainda maior a expectativa para mais iniciativas do tipo, na esperança de tenhamos um descanso das mesmas atrações que lotam as casas de shows da capital gaúcha, ano após ano.

Por Virgílio Moraes Migliavacca

Show: Guns N’ Roses | 8 de novembro de 2016 | Estádio Beira-Rio | Porto Alegre

quinta-feira, novembro 10, 2016

A passagem de uma das turnês mais esperadas do ano, a Not in This lifetime, reunião que marca a volta de Slash e Duff McKagan à formação do Guns N' Roses após 23 anos, levou cerca de 50 mil pessoas ao Beira-Rio, em Porto Alegre. O show, realizado na escaldante noite da última terça-feira (8), demarca também a terceira passagem do grupo norte-americano pelo RS.

Como alguém que conhece a carreira do Guns - porém não se declara um fã de carteirinha (longe disso!) – a primeira impressão é que muitas das canções que fizeram a fama do grupo continuam soando tão impressionantes ao vivo quanto na época em que foram lançadas, algumas há cerca de 30 anos. Com isso, o repertório é construído por hit atrás de hit, além de cartas marcadas que nunca saem da relação dos shows da banda. 

Com quase 30 minutos de atraso, o show começa com “It’s So easy” e “Mr. Browstone”, dois temas faiscantes do álbum de estreia, Appetite for Desctruction (1987). E se podemos apontar destaques do novo tour sul-americano, um deles passa pela presença de Slash, um dos últimos guitar heroes da história recente do rock. No palco, todos os brasões que o tornaram uma figura icônica do gênero: os óculos Ray-Ban espelhados, o piercing no nariz, a cartola, os cabelos escondendo traços de suas expressões, entre outros adereços e tiques. Acima de tudo, seja pela postura maquinada para coreografar frente às câmeras, mas principalmente pelo seu desempenho impecável como instrumentista, a chance de assistir bem de perto um dos grandes guitarristas do rock comendo a bola bem em frente aos nossos olhos. E digo mais: provavelmente tocando até melhor que na época de ouro do GNR. Curiosos vê-lo em “Chinese Democracy”, faixa-título do único álbum do Guns em que ele não participou. No entanto, bastam os primeiros acordes de “Welcome to The Jungle” para o público esquentar de vez. Slash está de volta!


Ainda como nos velhos tempos, Duff McKagan continua um baixista eficiente e participativo. Seja pelos vocais de apoio precisos, pela constante movimentação no palco ou pela interatividade e energia, ele ainda brilha em seu momento solo como vocal líder em um medley em que homenageia Johnny Thunders, guitarrista do New York Dolls (com "You Can't Put Your Arms Around a Memory") e o Misfits (com "Attitude"). Será que apenas eu acho Duff com a cara do David Bowie?

E o que dizer de Axl? Os comentários dos primeiros shows na América Latina e sua recente passagem pelo AC/DC, quando substituiu Brian Johnson, falavam no ressurgimento de sua voz. O que podemos perceber em Porto Alegre é que Axl continua pontuando traços de seus melhores momentos, e muitas vezes ele até se dá muito bem. É o caso de canções como “Double Talking Jive”, “Better” e “This I love” (pra mim as melhores músicas de Chinese Democracy), além de “Stranged”. 

“Live and Let Die”, releitura dos Wings, é perfeita para reaquecermos a memória da grandiloquência das turnês da banda durante a Use Your Illusion Tour, no início da década de 1990. Entretanto, em canções como “Rocket Queen” e “You Could Be Mine” e, principalmente, em “Nightrain”, a voz de Axl não chega nem perto dos velhos tempos. Seja pelo suporte técnico sabotando nossos ouvidos ou pelo volume de sua voz propositalmente abaixo da parafernália de instrumentos, muitas vezes seu vocal beira o constrangimento. De todo o modo, podemos perceber que a todo o momento o repertório propõe inteligentes refrescos para Axl: os instrumentais longos de “Coma”; a parte solo de Slash e sua reinvenção sobre base do tema “The Godfather” (de Nino Rota); a releitura em dueto de guitarras de “Wish You Were Here” (Pink Floyd); os mashups e enxertos que alongam canções - como no caso de “Baby I’m Gonna Leave You” (na versão do Led Zeppelin) relida na introdução instrumental em “Don’t Cry”;  ou a parte final de “Layla” (Derek & The Dominos) no início de “November Rain”. Ah, e Axl, apesar de não ser mais um garoto, continua correndo de um lado para o outro do palco, com uma disposição invejável. 

Se o público parece que foi esfriando ao longo da noite, se muitas vezes vemos pessoas dando mais importância a selfies e postagens em redes sociais do que em assistir de verdade um concerto, bem, isso são ações sintomáticas dos nossos tempos. Quem quiser ondular de verdade, pegue o avião e vá a Buenos Aires, pois os argentinos ainda são mestres em nos mostrar como uma plateia faz a diferença em eventos desse porte.


Voltando a Porto Alegre, apesar de ser até aqui o show mais curto da turnê, a passagem do Guns N’ Roses pelo RS foi um grande concerto de rock. Vale lembrar que, ao contrário de Buenos Aires, não tivemos a participação do primeiro baterista Steven Adler em "Outta Get Me”, e "Used to Love Her" ficou de fora do set. 

Em resumo: no parque diversões do pop, Axl, Slash, Duff e os seus ainda conseguem se utilizar de princípios básicos e subterfúgios para entreter a massa. 

Além do trio original, vale lembrar os nomes dos membros do time de apoio. Lá estão Dizzy Reed (teclados e percussão), velho colaborador de Axl; Richard Fortus (guitarra base); Frank Ferrer (bateria) e Melissa Reese (teclados).

Assim, a banda que reaqueceu e reinventou o hard rock na virada dos anos 1980/90, parece ainda ter lenha pra queimar. Essa é a minha impressão. Principalmente quando presenciamos instantes catárticos promovidos pelo hino “Sweet Child O Mine” ou pela versão de “Knockin’ on Heavens’s Door” (Bob Dylan). Também gostei muito da releitura de "The Seeker", do The Who, uma daquelas bandas dos sonhos que bem que poderia pintar por aqui, não acham? E "Paradise City" dá o tom final da noite. É verdade, viva aos paraísos artificiais construídos pelo rock and roll.

Quanto ao Guns N' Roses, aguardemos novidades no front. Posso estar enganado, mas eu acredito que ainda teremos boas novas vindas de Axl Rose e banda.

Setlist:

It's So Easy
Mr. Brownstone
Chinese Democracy
Welcome to the Jungle
Double Talkin' Jive
Better
Estranged
Live and Let Die
Rocket Queen
You Could Be Mine
You Can't Put Your Arms Around A Memory/Attitude 
This I Love
Civil War
Coma
Band intros into Slash solo - Speak Softly Love (Love Theme From The Godfather/Andy Williams)
Sweet Child O' Mine
Jam ("Wish You Were Here/Layla”) 
November Rain
Knockin' on Heaven's Door  
Nightrain

Encore:
Jam (Babe I'm Gonna Leave You)/Don't Cry
The Seeker 
Paradise City



19 de out de 2016

Show: Desert Trip Festival | 7, 8 e 9 de outubro de 2016 | Indio | Califórnia

quarta-feira, outubro 19, 2016

Estou de volta da Califórnia, onde acompanhei o primeiro fim de semana do histórico festival Desert Trip, realizado no deserto de Indio, situado no Coachella Valley. Abaixo, conto como foi a experiência.

Sexta-feira, dia 7, 18h50. Com um calor seco beirando os 30 graus, Bob Dylan abre o festival. Sentado ao piano, enfileirou clássicos para um público visivelmente emocionado, ao contrário do cantor americano, que não fez nenhuma saudação aos quase 70 mil presentes. Logo no começo do show mandou "Rainy Day Women #12 & 35", "Don't Think Twice, It's Alright", e "Highway 61 Revisited".  

A maioria cantava junto, mesmo que baixinho e aplaudia ao final de cada música, e Dylan sem mencionar nenhum boa noite.


O show continuou impecável, com uma banda afiadíssima. Bob Dylan alternou momentos entre o piano e a guitarra. No imenso telão, que ia de uma extremidade a outra do palco em formato côncavo, passavam imagens do começo da carreira do artista e de prédios e paisagens Nova York nos anos 1960 e 1970.

Após pouco mais de 90 minutos, o cantor encerrou a apresentação com "Masters of War" já no bis e saiu do palco, sem ainda se dirigir ao público, nem mesmo para um obrigado. Apesar da falta de carisma, tradicional nas apresentações do compositor, gênio e agora Prêmio Nobel de Literatura, seu show manteve um altíssimo nível do começo ao fim.


O relógio marcava 21h20 quando as luzes se apagaram e começou nos alto-falantes o batuque tradicional que introduziu o show que começaria a seguir: Ladies and Gentlemen, The Rolling Stones. Os ingleses abrem com "Start Me Up". A arena montada no deserto está absolutamente lotada e vai ao delírio com Jagger, Richards, Watts e Wood.

Na sequência vieram canções da fase anos 1990 como "You Got Me Rockin’" e "Out of Control”, seguida pela primeira surpresa da noite. Jagger fala sobre o disco de releituras de blues que será lançado no dia 2 de dezembro, e a banda manda "Ride 'Em On Down”, cover de Jimmy Reed que estará presente no novo album. O vocalista septuagenário, sempre exibindo um fôlego invejável para a sua avançada idade, anuncia então "Mixed Emotions”, que não era tocada pela banda desde a tour do álbum Steel Wheels (1989).

Em um determinado momento, o vocalista faz uma "gracinha" com a idade das bandas e pergunta se não era melhor chamar o festival de Dinosaur Park.

A segunda surpresa foi quando o grupo fez uma versão para "Come Together”, anunciada como uma canção de um grupo de que talvez vocês conheçam - com um certo tom de ironia, é claro.

Depois o que se viu e ouviu foi uma série de hits da fase 1960 e 1970 da banda, que completou 50 anos de atividade em 2012. Para o bis ficaram "You Can't Always Get What You Want" e "(I Can't Get No) Satisfaction".


No segundo dia de festival, sábado, o calor parecia ainda maior e os pequenos problemas como a fila na hora de pegar táxi ou Uber para deixar as dependências do festival foram todos resolvidos.

Após um atraso de quase 30 minutos, o show de Neil Young começa com o roqueiro canadense sozinho ao piano, em uma versão memorável de "After the Gold Rush". Na sequência, com o seu violão e gaita manda a emocionante "Heart of Gold".

Após algumas músicas sozinho no palco, Young passar a ser acompanhado, naquele que foi um dos shows mais rock and roll do festival, por sua excelente banda de apoio, chamada Promise of the Real. Banda essa liderada pelo filho de Willie Nelson, o guitarrista Lukas Nelson.

Saudando o público algumas vezes durante a apresentação intensa e enérgica que durou pouco mais de 1 hora e 40 minutos, Neil anuncia que tem 40 segundos para tocar "Rockin' in the Free World". Para a imensa alegria de uma plateia hipnotizada, ele não estava falando sério. Showzaço!


Pontualmente no horário previsto, as luzes se apagam. É a vez de Sir Paul McCartney entrar no palco e despejar seus hits, tanto de sua espetacular carreira solo quanto dos Beatles e dos Wings, banda que Paul montou com sua falecida esposa Linda após a dissolução do Fab Four.

Logo na abertura veio "A Hard Day's Night", mas o melhor momento foi quanto McCartney chamou Neil Young para o palco e executaram juntos a dobradinha "A Day in the Life / Give Peace a Chance" e "Why Don't We Do It in the Road", nunca antes tocada ao vivo.

Sempre falante e elegante, Paul lembra que na noite anterior os Stones tocaram "Come Together" e para retribuir ele e sua banda executam "I Wanna Be Your Man”, canção escrita por Lennon e McCartney e gravada pela banda de Mick Jagger no começo da carreira.


Chega o domingo. Terceiro e último dia do primeiro fim de semana do histórico festival, também apelidado de OldChella.

Exatamente no horário marcado para começar o show, surge no telão a mensagem "Keep Calm and Listen The Who”. Era o anúncio do que viria a seguir. Duas horas de um set list roqueiro, passando por quase todos os álbuns da também cinquentona banda inglesa, com destaque para os temas dos discos Tommy, Quadrophenia e Who's Next.

Destaque também para Zak Starkey, filho de Ringo Starr, arrebentando na bateria durante toda a apresentação ovacionado por todos no momento em que Pete Townshend apresentou os músicos.


Chega a hora do representante do Pink Floyd no line-up, que pode ser considerado como o mais clássico de todos os tempos reunido em um só evento. 

Em quase 3 horas de show, Roger Waters, assim como fez o The Who, tocou canções de quase todos os álbuns que gravou com a banda que fundou no começo dos anos 1960. Grande destaque para “Fearless”, faixa lançada em 1971 no disco Meddle.

Em uma mega produção, utilizando de aparatos tecnológicos, imagens psicodélicas no mega telão, luzes coloridas refletidas formando o prisma da capa de The Dark Side of the Moon sob a pista, Roger Waters não poupou xingamentos e ofensas ao candidato republicano à Presidência dos Estados Unidos, Donald Trump, inclusive em pixações no porco voador que marcou presença nos ares do Desert Trip.

A última canção foi "Comfortably Numb”, com o vocalista e guitarrista fazendo as partes de David Gilmour de cima do palco, como fazia o Floyd na tour de The Wall.

Apesar de os organizadores afirmarem que o festival foi único e não haverá uma segunda edição, já surgem rumores de conversas com Paul Simon, Steely Dan e Bruce Springsteen. Mas essa é uma outra história.

Por Jorge Simões, especial para a Collectors Room

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