Mostrando postagens com marcador Review de Shows. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Review de Shows. Mostrar todas as postagens

23 de fev de 2017

Show: Renato Bandeira & Som de Madeira | 17 de fevereiro de 2017 | Paço do Frevo | Recife

quinta-feira, fevereiro 23, 2017

Na sexta-feira pré-carnaval, quarteto pernambucano apresentou sua potência monolítica em vibrante apresentação ao vivo no templo do frevo.

A definição de uma identidade. O duro empreendimento de prover contornos nítidos a um todo cultural tão difuso quanto possível. Se tem uma coisa que impressiona no show deste grupo é a constatação de sua insólita e aparentemente espontânea habilidade de encontrar sua unidade no exercício da dispersão.
Dito isto, esqueça o rótulo "música regional", pois no final das contas, ele não se mostrará nada mais que uma camisa de força usada para amarrar as mil e uma nuances que este quarteto pernambucano explora com sete fôlegos e ampla coragem.

O chassis é, de fato, o regionalismo, o explorar do encanto, mágica e carisma que possui a cultura popular. Só que no lugar de seguir reto nesta via única, os pernambucanos acabam por buscar seu caminho próprio na torta e incerta trilha que leva o regional ao universal.

A formação é exuberante. Na linha de frente há Renato Bandeira, proeminência da guitarra brasileira que ao longo de mais de três décadas de uma sólida carreira, tem se estabelecido como um dos maiores expoentes não só no seu instrumento, como também no campo da composição, arranjo, produção e direção musical.

Compondo a tapeçaria sonora junto ao guitarrista, temos o sanguíneo acordeon do excelente Júlio César, um dos máximos denominadores entre os contemporâneos talentos da música nordestina. Na cozinha, uma dupla dos sonhos: o originalíssimo Hélio Silva, com seu inominável estilo serpenteante, por vezes funkeado ao contrabaixo e o sobrehumano Augusto Silva, dono de uma técnica excêntrica a tal ponto que atinge as raias do inclassificável.

Uma excentricidade: todos os instrumentistas compõe a base sonora, ao passo que cada um destes também detêm a liberdade para alçar vôos em solos, não raro, mais de um por vez. Algo ainda mais excêntrico: cada solo realizado pelos músicos denota um claro e genuíno exercício de expressão da individualidade intrínseca a cada componente a tangenciar de maneira curiosa a entidade coletiva. Anos luz do lugar cada vez mais comum entre músicos virtuosos de render-se ao insosso exercício da auto-indulgência. Aqui não há espaço para o trivial ou para o fútil. Cada nota significa algo.

De fato, os maiores trunfos do grupo residem no inusitado: conseguem ser extremamente acessíveis sem em momento algum cederem às tentações dos atalhos fáceis e banais. Sua música não ficaria deslocada num bloco de carnaval de rua, nem numa requintada apresentação num restrito club. Fazem parte, para encerrar este prelúdio, do cada vez mais restrito ecossistema de artistas cuja arte produzida detêm apelo tanto sobre as massas, quanto sobre o público mais seleto e crítico.

O minucioso exercício do tecer de sua música, a despeito de ser minucioso num nível preciosista, ocorre de forma natural e absolutamente fluida. A guitarra e o acordeon se dividem em sofisticadas interações, ora revezando-se no tecer das texturas sonoras, ora distribuindo-se em solos dos mais expressivos.


Sobrepondo-se em camadas, os instrumentos viajam por diferentes níveis hipnóticos repletos de vastidão gerando uma perspetiva visual a partir do som. Uma experiência sensitiva.


A gama sonora é de tal maneira abrangente que qualquer tentativa de interpretação crítica acaba caindo invariavelmente de cabeça no ridículo. As referências ao rico imaginário da cultura nordestina abundam, só que o tratamento que recebem é de tal maneira inusitado que estas acabam por se tornarem capazes de soar igualmente familiares tanto ao nativo quanto aquele completamente alheio a este universo.

A apresentação teve início pouco depois do meio dia na tradicional Hora do Frevo, excelente programa no qual o célebre museu abre espaço para a tão negligenciada, porém efervescente cena de música instrumental brasileira. A beldade pernambucana Naara Santos, produtora cultural e cantora de expressivo talento- que ainda há de ser descortinado ao grande público- dá as boas vindas à audiência, cuja composição sempre é realmente diversa, constatação que me fez pensar, durante a ocasião, que programas como este são os que verdadeiramente promovem o democrático acesso à cultura, sem as demagogias que costumeiramente cercam o tema.

Palavras iniciais trocadas, clima agradável, todos em seus lugares e o show começa. O primeiro bloco da apresentação é um rolo compressor. A começar pela exclamativa "De Cabeça pra Baixo", com suas finas e singulares células rítmicas se alternando em momentos de suavidade e vigor; fazendo uso de uma métrica de tal maneira entortante que no exercício de tentar seguir cada sagaz movimento de sua intensa trama, acaba de fato por deixar o atônito ouvinte de cabeça pra baixo.

A versão dos pernambucanos para "Mexe Com Tudo" do lendário Levi Fernandes, com arranjo próprio da banda, nada mais é que um pujante comboio sonoro, uma locomotiva desvairada indo em sua direção. Neste momento de plena celebração e reverência aos mestres, grupo e audiência entram em sublime sinergia. Todos em estado de extâse, músicos possessos. Renato se debulhando em seu vibrante estilo desconcertantemente intuitivo, o acordeon de Júnior a transpirar sangue e suor, Hélio distribuindo-se entre golpes percusivos, marcações angulares e solos sinuosos e sincopados numa peformance de independência de espírito simplesmente arrasadora e um prodigiosamente detonador Augusto a disparar rajadas potentes com um estilo que une a um só tempo, o vigor sanguíneo do frevo de rua e a genuína e intrínseca sofisticação oriunda do jazz.

A seguir, mais uma pérola de Levino Ferreira, "Último Dia", mais que merecidamente considerada o frevo mais belo do século. Nas mãos do grupo, a composição sai a navegar por toadas ricamente atmosféricas no mar de uma noite recifense como que deslizando por sobre um espelho embaçado.


Sem dar tempo para respirar, o grupo saiu emendando com mais uma notável composição histórica. Desta vez, investiram por sobre "Forró Novo", notável gema de Mestre Camarão. Júlio assume a direção predominante na canção e segue pegando fogo numa intensidade frenética. Há uma verdadeira cartase em ação. Os mais velhos se emocionam, os mais novos vibram ao descortinar de uma nova descoberta. Difícil é conter o impulso de sair dançando e se segurar no assento (como brinde, tivemos ainda um irreverente senhor bradando ao cabo da canção palavras de excitação no melhor do léxico nordestino: "É pra lascar, meu filho! Aqui é madeira! Bota pra lascar!!").

O momento máximo da apresentação vem a seguir com mais uma homenagem. Desta vez ao professor Nilton Rangel, com "Morena". Encostando a guitarra, Renato assume a viola de dez cordas numa arrepiante introdução solo com timbres ressoantes numa intensidade maníaca. Seus escudeiros asseclas o acompanham passado certo tempo e no break, um alucinado Augusto comete o mais expressivos dos solos de bateria que já ouvi em minha vida, que acaba por arrancar do público fogosas palmas antes mesmo da canção findar. Incrível! (alguém conserve o material genético deste homem para termos a matéria-prima para clona-lo num futuro em que tivermos tecnologia necessária para isto!).

Contra qualquer acusação tola possível de trilharem um percurso estritamente dentro da casinha, o grupo ainda tira um ás da manga, com a execução em primeira mão de novíssima composição própria, o excelente frevo de bloco "Duas Estrelas". 
Na fração final da apresentação temos mais um clímax com a tresloucada "Maluvida".

O bis veio magro, porém apoteótico, com os quatro colocando a casa abaixo novamente com um número de "Mexe Tudo" ainda mais energético, e então ao remate, as palavras finais de agradecimento e então uma exultante platéia explode em comoção como um estádio na hora do gol com a tradicional apresentação dos componentes da banda.

Sigo meu caminho. Na saída dois rapazes imberbes atônitos com o que presenciaram gesticulam e falam animadamente, quase saltitando. Da conversa deles, flagro um trecho no qual um deles diz para o outro: "Meu irmão, que cacete da mulesta!!!"- como eu amo o léxico nordestino!

É um trabalho magnífico, é um belo dia, a paisagem do Recife Antigo é tão lírica quanto sempre. Sou um homem de sorte e é isso aí.

Renato Bandeira e seu Som de Madeira estão indo para um lugar diferente na música. Mesmo em versão para composições alheias, as idéias são sempre surpreendentes e arejadas, e quando em fruto próprio, sente-se o sabor cada vez mais raro da inventividade. É isso aí, é vida que segue, só que agora mais bela.

Por Artur Barros

5 de dez de 2016

Show: Black Sabbath | 5 de dezembro de 2016 | Estádio do Morumbi | São Paulo

segunda-feira, dezembro 05, 2016

A noite prometia: a última vez que veríamos Ozzy Osbourne, Tony Iommi e Geezer Butler juntos num palco sul-americano. Depois de um dia de calor intenso, uma queda brutal de temperatura no final da tarde acompanhada de ventos frios, chuviscos e tempestades veio dar o tom macabro apropriado a um especialmente emocionante show do Black Sabbath. O público atendeu à expectativa e encheu o estádio do Morumbi. Só o cenário poderia ser melhor.

Não é novidade ao paulistano que o Morumbi é um estádio obsoleto, numa área da cidade mal servida de transporte público ou de ruas adequadas ao fluxo das mais de 60 mil pessoas que foram ao show do Black Sabbath. A estrutura da casa do São Paulo Futebol Clube também não é boa: para entrar e sair, não há portões em quantidade razoável para dar vazão rápida às filas. Do lado interno há poucos banheiros para a alta demanda, precários e de difícil acesso, opções reduzidas e escassas de alimentação. A visibilidade é ruim em quase todos os setores, com arquibancadas e cadeiras muito distantes do palco, bem como um setor “premium” que divide quase pela metade a pista sobre o gramado.

Todos detalhes que atrapalham a plena experiência, mas pouco influem na atuação da banda em cima do palco. A percepção, porém, piora quando a qualidade de som deixa a desejar como neste domingo. A guitarra de Tony Iommi por vários momentos embolava com o baixo de Geezer Butler. A bateria de Tommy Clufetos demorou a sair dos PAs com o peso necessário, ao contrário da proeminência muitas vezes descabida para o teclado do escondido Adam Wakeman. O volume geral variava conforme a intensidade do vento e da chuva. Apenas a voz de Ozzy, inconfundível como sempre, reinava soberana.

Antes, porém, tivemos o Rival Sons que, por quarenta minutos, quase passou despercebido do público no estádio. Ainda que telões indicando apenas o nome do grupo sem mostrá-lo não tenham colaborado, o descaso também denota um pouco da má vontade do roqueiro típico paulistano com bandas novas, brasileiras ou não. Enquanto os americanos conquistam cada vez mais adeptos no mundo fazendo seu rock retrô soar organicamente moderno com uma altiva performance de palco de seu vocalista Jay Buchanan, as pessoas em geral preferiram ficar conversando nas enormes filas de bebida como se estivessem num boteco ouvindo um Emmerson Nogueira da vida. Azar o delas.


O Black Sabbath entrou no palco quase pontualmente às oito e meia da já fria noite. Um vídeo meio nebuloso com cidades sendo destruídas no telão não preparava tão bem a atmosfera quanto o vento e a garoa que já castigavam o público quando Tony Iommi empunhou sua guitarra e pudemos ouvir, com certa dificuldade, aquelas três malditas notas infernais da canção auto-intitulada que revolucionou o mundo e abriu a apresentação do grupo neste domingo.

A sequência foi um deleite para os fãs. Enquanto uma tempestade desabava sobre nossas cabeças e prejudicava a visão e o som, aumentava a empolgação a cada mínimo acorde reconhecível de “Fairies Wear Boots”, “Into the Void”, “After Forever”, “Snowblind” e ”Behind the Wall of Sleep”, que soavam como uma aula a tantos imitadores do som típico do Black Sabbath nesses últimos quase cinquenta anos, mesmo sentida a ausência de Bill Ward - Tommy Clufetos é um baterista sólido suficiente para qualquer ótima banda de metal, mas é gritante a falta daquele swing jazzístico único da formação original, até hoje ainda não reproduzido a contento nos inúmeros seguidores no doom metal ou stoner rock, nem pelo próprio grupo nesta noite.

De resto, foi um típico show do Sabbath, sem surpresas para o iniciado, não por isso menos emocionante. Ignorando o celebrado disco 13 e com um telão alternando imagens ora psicodélicas, ora distópicas, ao longo de pouco mais de uma hora e meia clássicos foram executados beirando à perfeição para um público animado, que se atrapalhava e se divertia nas palmas ao cantar em jogral com Ozzy os versos de “War Pigs”, ou explodia catártico ao solo de baixo de Geezer Butler que iniciou “N.I.B.” para um dos coros mais bonitos da noite em seu macabro refrão, ou ainda ao entoar a plenos pulmões as melodias da morosa “Iron Man” e da apocalíptica “Children of the Grave”, até a frenesi final avassaladora da incendiária “Paranoid”.


Nem tudo foram flores, como a inaceitável qualidade de som ou o insosso solo de bateria de quase dez intermináveis minutos de Clufetos, introduzido por “Rat Salad”, e até mesmo “Dirty Women”, um momento em que a banda claramente se divertia nas constantes mudanças de andamento enquanto segurava a base para o longo solo improvisado de Tony Iommi, que em vez de embasbacar o público, já exausto pelas condições climáticas, começava a dispersar mais do que nas intermináveis acrobacias do baterista pouco antes.

Todos detalhes insignificantes quando presenciamos o entrosamento absurdo de Iommi e Butler ao reproduzir todos aqueles sons que permeiam em maior ou menor grau toda a nossa coleção de discos de rock, cativados pelo carisma inabalável de Ozzy Osbourne, com sua característica voz já desgastada e sua alegria contagiante de quem, como seus dois velhos parceiros, não sabe o que teria feito da vida se não estivesse ali tocando juntos, talvez pelas últimas vezes.

É difícil apostar na seriedade da turnê de despedida quando uma raposa dos negócios musicais como Sharon Osbourne está envolvida, apesar de o tempo não correr a favor dos músicos e não haver muitos motivos para vender grandiosamente uma futura turnê de reunião. Também é improvável crer num retorno futuro à América do Sul, que só foi agraciado pela presença da formação quase original uma década e meia após sua tão esperada reunião.

Contudo, num ano em que a mortalidade de nossas referências culturais se evidencia com vários chutes na boca do estômago, quando deixamos o Morumbi encharcados pela chuva e, perdão pelo clichê, de alma lavada, éramos gratos não só pelo ótimo show ou pela carreira lendária de riffs eternos, ou ainda todo um estilo musical que esses hoje senhores de Birmingham criaram há quase meio século, mas por podermos guardar na memória a imagem do Black Sabbath triunfante, como os detentores de um legado tão importante merecem.

Por Thiago Martins


2 de dez de 2016

Show: Adrian Belew Power Trio | 27 de novembro de 2016 | Carioca Club | São Paulo

sexta-feira, dezembro 02, 2016

Não foram muitos os que presenciaram o show do power trio de Adrian Belew na festiva e quente noite do título palmeirense do último domingo de novembro em São Paulo. As aproximadamente 400 pessoas, maioria de homens nos seus 40 anos de idade, ocupavam, sem aperto, metade da pista do Carioca Club, e dividiam o espaço com algumas mesas ao fundo. Pouco para o que representa o lendário guitarrista. Menos ainda pela qualidade de sua apresentação.

Adrian Belew, hoje com 66 anos, aprendeu os truques do rock and roll com Frank Zappa e David Bowie nos anos 1970, colaborou com outros ícones como Talking Heads, Nine Inch Nails e Paul Simon, mas fez mesmo seu nome como o mais longevo parceiro de Robert Fripp no King Crimson, banda da qual fez parte entre 1981 e 2009. Desse período compreendeu quase a metade do repertório do show em São Paulo.

O power trio é completado por Tobias Ralph na bateria e pela baixista Julie Slick. Enquanto a moça usava seu instrumento mais como um espinha dorsal do som da banda, Tobias Ralph brilhava na reprodução dos complexos arranjos originais, bem como destruía seu kit sem dó quando os momentos de improvisação assim permitiam. Só um monstro chamaria mais a atenção do que o baterista. E, como esperado, Adrian Belew provou que não fez a sua carreira por acaso.


Mostrando carisma, bom humor e certa introversão aliada a um exibicionismo elegante e contido, Belew desfilou sua técnica que equilibra intensidade selvagem e inventividade minimalista de acento pop, exposta numa relação de certa forma lúdica com seu instrumento, às vezes empunhando-o no ar ou explorando diferentes texturas através de efeitos gerados por um iPad, sem deixar cair o ânimo em momento algum das quase duas horas de sua apresentação, dividida em dois sets e incluindo um pequeno intervalo entre eles.

Se a resposta do público às suas canções solo como "Young Lions", "Men in Helicopters" e "Ampersand" soava como um educado silêncio contemplativo à criatividade do guitarrista, a técnica do baterista e o visual e atitude despojada da baixista, quando faixas mais conhecidas de sua celebrada fase no King Crimson eram executadas, o clima para muitos ali era de realização de sonho.

Infelizmente, outras bandas das quais o guitarrista participou não foram contempladas no repertório. E, numa formação com apenas três músicos, fica impossível reproduzir com precisão os detalhados arranjos de composições do King Crimson como "Frame by Frame", "Neurotica" e "Three of a Perfect Pair", executadas em versões mais diretas sem soarem descaracterizadas, ou o interlúdio cheio de camadas e sons da pesada "Dinosaur", deixado de lado na apresentação. Momentos teoricamente mais simples como o medley com "Heartbeat" e "Walking On Air" ou a introspectiva "One Time", por outro lado, ganharam faceta ainda mais emotiva no palco.

O final do show veio com a clássica "Indiscipline" do disco quase homônimo de 1981, repleta de berros do público acompanhando as falas do empolgado Belew e um espetáculo inesquecível do baterista Tobias Ralph destruindo os conceitos de tempo e contratempo de quem teve a sorte de presenciar uma lenda no palco e ainda guarda uma esperança de um dia ver o King Crimson com toda sua produção num palco brasileiro. Mas, com menos de quinhentos pagantes, vai ser impossível.


Por Thiago Martins


10 de nov de 2016

Show: Balaclava Fest | 9 de novembro de 2016 | Bar Opinião | Porto Alegre

quinta-feira, novembro 10, 2016

Porto Alegre é tida por muitos como a cidade do rock, mas à exceção dos grandes shows em estádios ou shows de bandas na linha stoner/metal em bares, anda carente de boas opções em matéria de shows de médio porte, principalmente dentro do que se pode chamar genericamente de indie rock.

Por isso, foi muito bem-vinda a mobilização, através das redes sociais, que resultou nos shows do Balaclava Fest, realizado no Opinião, uma das mais tradicionais casas de shows da capital do RS. No line up, a banda paulistana Ombu, a canadense TOPS e, como headliner da noite, a londrina Yuck.

Abrindo a noite, o Ombu apresentou, ainda para um público reduzido, o repertório do recém-lançado EP intitulado Pedro, onde apresenta influências de post-rock. Logo em seguida, a canadense TOPS apresentou seu dream pop, com muito uso de sintetizadores acompanhados do belo vocal de Jane Penny. O show segue de forma bastante linear até o final, onde a vocalista assume a guitarra e o repertório ganha em empolgação, tanto da banda como da plateia, especialmente em “Way to Be Loved”.

Finalizando a noite, já com um público razoável, o quarteto Yuck fez a sua primeira apresentação em terras gaúchas, com um show correto, com músicas de todos os discos de sua curta carreira, iniciada em 2009, e que pode ser dividida entre antes e depois da saída do membro fundador e vocalista Daniel Blumberg. Daniel gravou com a banda vários EPs e o auto-intitulado disco de estreia, lançado em 2011. 

O som é uma colcha de retalhos de várias influências que remetem imediatamente aos anos 1990, processadas de uma forma levemente mais pop, e se sobressai justamente nos momentos em que a banda executa as músicas do primeiro disco, como "Get Away", que teve uma das melhores recepções da noite. As faixas dos discos mais recentes, em especial de Stranger Things (2016), perdem muito em qualidade e, consequentemente, a resposta do público foi mais fria. Destacam-se em algumas canções os belos vocais da baixista Mariko Doi.

Com um line up razoável, com uma banda nacional ainda desenvolvendo sua sonoridade e duas internacionais que, se não são as melhores da atualidade, ao menos apresentam boas referências na sua sonoridade, o Balaclava Fest se coloca como uma boa opção para os fãs indies. 

Importante destacar também que todas as bandas tocaram no horário, num local tradicional na noite de Porto Alegre, o que deixa ainda maior a expectativa para mais iniciativas do tipo, na esperança de tenhamos um descanso das mesmas atrações que lotam as casas de shows da capital gaúcha, ano após ano.

Por Virgílio Moraes Migliavacca

Show: Guns N’ Roses | 8 de novembro de 2016 | Estádio Beira-Rio | Porto Alegre

quinta-feira, novembro 10, 2016

A passagem de uma das turnês mais esperadas do ano, a Not in This lifetime, reunião que marca a volta de Slash e Duff McKagan à formação do Guns N' Roses após 23 anos, levou cerca de 50 mil pessoas ao Beira-Rio, em Porto Alegre. O show, realizado na escaldante noite da última terça-feira (8), demarca também a terceira passagem do grupo norte-americano pelo RS.

Como alguém que conhece a carreira do Guns - porém não se declara um fã de carteirinha (longe disso!) – a primeira impressão é que muitas das canções que fizeram a fama do grupo continuam soando tão impressionantes ao vivo quanto na época em que foram lançadas, algumas há cerca de 30 anos. Com isso, o repertório é construído por hit atrás de hit, além de cartas marcadas que nunca saem da relação dos shows da banda. 

Com quase 30 minutos de atraso, o show começa com “It’s So easy” e “Mr. Browstone”, dois temas faiscantes do álbum de estreia, Appetite for Desctruction (1987). E se podemos apontar destaques do novo tour sul-americano, um deles passa pela presença de Slash, um dos últimos guitar heroes da história recente do rock. No palco, todos os brasões que o tornaram uma figura icônica do gênero: os óculos Ray-Ban espelhados, o piercing no nariz, a cartola, os cabelos escondendo traços de suas expressões, entre outros adereços e tiques. Acima de tudo, seja pela postura maquinada para coreografar frente às câmeras, mas principalmente pelo seu desempenho impecável como instrumentista, a chance de assistir bem de perto um dos grandes guitarristas do rock comendo a bola bem em frente aos nossos olhos. E digo mais: provavelmente tocando até melhor que na época de ouro do GNR. Curiosos vê-lo em “Chinese Democracy”, faixa-título do único álbum do Guns em que ele não participou. No entanto, bastam os primeiros acordes de “Welcome to The Jungle” para o público esquentar de vez. Slash está de volta!


Ainda como nos velhos tempos, Duff McKagan continua um baixista eficiente e participativo. Seja pelos vocais de apoio precisos, pela constante movimentação no palco ou pela interatividade e energia, ele ainda brilha em seu momento solo como vocal líder em um medley em que homenageia Johnny Thunders, guitarrista do New York Dolls (com "You Can't Put Your Arms Around a Memory") e o Misfits (com "Attitude"). Será que apenas eu acho Duff com a cara do David Bowie?

E o que dizer de Axl? Os comentários dos primeiros shows na América Latina e sua recente passagem pelo AC/DC, quando substituiu Brian Johnson, falavam no ressurgimento de sua voz. O que podemos perceber em Porto Alegre é que Axl continua pontuando traços de seus melhores momentos, e muitas vezes ele até se dá muito bem. É o caso de canções como “Double Talking Jive”, “Better” e “This I love” (pra mim as melhores músicas de Chinese Democracy), além de “Stranged”. 

“Live and Let Die”, releitura dos Wings, é perfeita para reaquecermos a memória da grandiloquência das turnês da banda durante a Use Your Illusion Tour, no início da década de 1990. Entretanto, em canções como “Rocket Queen” e “You Could Be Mine” e, principalmente, em “Nightrain”, a voz de Axl não chega nem perto dos velhos tempos. Seja pelo suporte técnico sabotando nossos ouvidos ou pelo volume de sua voz propositalmente abaixo da parafernália de instrumentos, muitas vezes seu vocal beira o constrangimento. De todo o modo, podemos perceber que a todo o momento o repertório propõe inteligentes refrescos para Axl: os instrumentais longos de “Coma”; a parte solo de Slash e sua reinvenção sobre base do tema “The Godfather” (de Nino Rota); a releitura em dueto de guitarras de “Wish You Were Here” (Pink Floyd); os mashups e enxertos que alongam canções - como no caso de “Baby I’m Gonna Leave You” (na versão do Led Zeppelin) relida na introdução instrumental em “Don’t Cry”;  ou a parte final de “Layla” (Derek & The Dominos) no início de “November Rain”. Ah, e Axl, apesar de não ser mais um garoto, continua correndo de um lado para o outro do palco, com uma disposição invejável. 

Se o público parece que foi esfriando ao longo da noite, se muitas vezes vemos pessoas dando mais importância a selfies e postagens em redes sociais do que em assistir de verdade um concerto, bem, isso são ações sintomáticas dos nossos tempos. Quem quiser ondular de verdade, pegue o avião e vá a Buenos Aires, pois os argentinos ainda são mestres em nos mostrar como uma plateia faz a diferença em eventos desse porte.


Voltando a Porto Alegre, apesar de ser até aqui o show mais curto da turnê, a passagem do Guns N’ Roses pelo RS foi um grande concerto de rock. Vale lembrar que, ao contrário de Buenos Aires, não tivemos a participação do primeiro baterista Steven Adler em "Outta Get Me”, e "Used to Love Her" ficou de fora do set. 

Em resumo: no parque diversões do pop, Axl, Slash, Duff e os seus ainda conseguem se utilizar de princípios básicos e subterfúgios para entreter a massa. 

Além do trio original, vale lembrar os nomes dos membros do time de apoio. Lá estão Dizzy Reed (teclados e percussão), velho colaborador de Axl; Richard Fortus (guitarra base); Frank Ferrer (bateria) e Melissa Reese (teclados).

Assim, a banda que reaqueceu e reinventou o hard rock na virada dos anos 1980/90, parece ainda ter lenha pra queimar. Essa é a minha impressão. Principalmente quando presenciamos instantes catárticos promovidos pelo hino “Sweet Child O Mine” ou pela versão de “Knockin’ on Heavens’s Door” (Bob Dylan). Também gostei muito da releitura de "The Seeker", do The Who, uma daquelas bandas dos sonhos que bem que poderia pintar por aqui, não acham? E "Paradise City" dá o tom final da noite. É verdade, viva aos paraísos artificiais construídos pelo rock and roll.

Quanto ao Guns N' Roses, aguardemos novidades no front. Posso estar enganado, mas eu acredito que ainda teremos boas novas vindas de Axl Rose e banda.

Setlist:

It's So Easy
Mr. Brownstone
Chinese Democracy
Welcome to the Jungle
Double Talkin' Jive
Better
Estranged
Live and Let Die
Rocket Queen
You Could Be Mine
You Can't Put Your Arms Around A Memory/Attitude 
This I Love
Civil War
Coma
Band intros into Slash solo - Speak Softly Love (Love Theme From The Godfather/Andy Williams)
Sweet Child O' Mine
Jam ("Wish You Were Here/Layla”) 
November Rain
Knockin' on Heaven's Door  
Nightrain

Encore:
Jam (Babe I'm Gonna Leave You)/Don't Cry
The Seeker 
Paradise City



19 de out de 2016

Show: Desert Trip Festival | 7, 8 e 9 de outubro de 2016 | Indio | Califórnia

quarta-feira, outubro 19, 2016

Estou de volta da Califórnia, onde acompanhei o primeiro fim de semana do histórico festival Desert Trip, realizado no deserto de Indio, situado no Coachella Valley. Abaixo, conto como foi a experiência.

Sexta-feira, dia 7, 18h50. Com um calor seco beirando os 30 graus, Bob Dylan abre o festival. Sentado ao piano, enfileirou clássicos para um público visivelmente emocionado, ao contrário do cantor americano, que não fez nenhuma saudação aos quase 70 mil presentes. Logo no começo do show mandou "Rainy Day Women #12 & 35", "Don't Think Twice, It's Alright", e "Highway 61 Revisited".  

A maioria cantava junto, mesmo que baixinho e aplaudia ao final de cada música, e Dylan sem mencionar nenhum boa noite.


O show continuou impecável, com uma banda afiadíssima. Bob Dylan alternou momentos entre o piano e a guitarra. No imenso telão, que ia de uma extremidade a outra do palco em formato côncavo, passavam imagens do começo da carreira do artista e de prédios e paisagens Nova York nos anos 1960 e 1970.

Após pouco mais de 90 minutos, o cantor encerrou a apresentação com "Masters of War" já no bis e saiu do palco, sem ainda se dirigir ao público, nem mesmo para um obrigado. Apesar da falta de carisma, tradicional nas apresentações do compositor, gênio e agora Prêmio Nobel de Literatura, seu show manteve um altíssimo nível do começo ao fim.


O relógio marcava 21h20 quando as luzes se apagaram e começou nos alto-falantes o batuque tradicional que introduziu o show que começaria a seguir: Ladies and Gentlemen, The Rolling Stones. Os ingleses abrem com "Start Me Up". A arena montada no deserto está absolutamente lotada e vai ao delírio com Jagger, Richards, Watts e Wood.

Na sequência vieram canções da fase anos 1990 como "You Got Me Rockin’" e "Out of Control”, seguida pela primeira surpresa da noite. Jagger fala sobre o disco de releituras de blues que será lançado no dia 2 de dezembro, e a banda manda "Ride 'Em On Down”, cover de Jimmy Reed que estará presente no novo album. O vocalista septuagenário, sempre exibindo um fôlego invejável para a sua avançada idade, anuncia então "Mixed Emotions”, que não era tocada pela banda desde a tour do álbum Steel Wheels (1989).

Em um determinado momento, o vocalista faz uma "gracinha" com a idade das bandas e pergunta se não era melhor chamar o festival de Dinosaur Park.

A segunda surpresa foi quando o grupo fez uma versão para "Come Together”, anunciada como uma canção de um grupo de que talvez vocês conheçam - com um certo tom de ironia, é claro.

Depois o que se viu e ouviu foi uma série de hits da fase 1960 e 1970 da banda, que completou 50 anos de atividade em 2012. Para o bis ficaram "You Can't Always Get What You Want" e "(I Can't Get No) Satisfaction".


No segundo dia de festival, sábado, o calor parecia ainda maior e os pequenos problemas como a fila na hora de pegar táxi ou Uber para deixar as dependências do festival foram todos resolvidos.

Após um atraso de quase 30 minutos, o show de Neil Young começa com o roqueiro canadense sozinho ao piano, em uma versão memorável de "After the Gold Rush". Na sequência, com o seu violão e gaita manda a emocionante "Heart of Gold".

Após algumas músicas sozinho no palco, Young passar a ser acompanhado, naquele que foi um dos shows mais rock and roll do festival, por sua excelente banda de apoio, chamada Promise of the Real. Banda essa liderada pelo filho de Willie Nelson, o guitarrista Lukas Nelson.

Saudando o público algumas vezes durante a apresentação intensa e enérgica que durou pouco mais de 1 hora e 40 minutos, Neil anuncia que tem 40 segundos para tocar "Rockin' in the Free World". Para a imensa alegria de uma plateia hipnotizada, ele não estava falando sério. Showzaço!


Pontualmente no horário previsto, as luzes se apagam. É a vez de Sir Paul McCartney entrar no palco e despejar seus hits, tanto de sua espetacular carreira solo quanto dos Beatles e dos Wings, banda que Paul montou com sua falecida esposa Linda após a dissolução do Fab Four.

Logo na abertura veio "A Hard Day's Night", mas o melhor momento foi quanto McCartney chamou Neil Young para o palco e executaram juntos a dobradinha "A Day in the Life / Give Peace a Chance" e "Why Don't We Do It in the Road", nunca antes tocada ao vivo.

Sempre falante e elegante, Paul lembra que na noite anterior os Stones tocaram "Come Together" e para retribuir ele e sua banda executam "I Wanna Be Your Man”, canção escrita por Lennon e McCartney e gravada pela banda de Mick Jagger no começo da carreira.


Chega o domingo. Terceiro e último dia do primeiro fim de semana do histórico festival, também apelidado de OldChella.

Exatamente no horário marcado para começar o show, surge no telão a mensagem "Keep Calm and Listen The Who”. Era o anúncio do que viria a seguir. Duas horas de um set list roqueiro, passando por quase todos os álbuns da também cinquentona banda inglesa, com destaque para os temas dos discos Tommy, Quadrophenia e Who's Next.

Destaque também para Zak Starkey, filho de Ringo Starr, arrebentando na bateria durante toda a apresentação ovacionado por todos no momento em que Pete Townshend apresentou os músicos.


Chega a hora do representante do Pink Floyd no line-up, que pode ser considerado como o mais clássico de todos os tempos reunido em um só evento. 

Em quase 3 horas de show, Roger Waters, assim como fez o The Who, tocou canções de quase todos os álbuns que gravou com a banda que fundou no começo dos anos 1960. Grande destaque para “Fearless”, faixa lançada em 1971 no disco Meddle.

Em uma mega produção, utilizando de aparatos tecnológicos, imagens psicodélicas no mega telão, luzes coloridas refletidas formando o prisma da capa de The Dark Side of the Moon sob a pista, Roger Waters não poupou xingamentos e ofensas ao candidato republicano à Presidência dos Estados Unidos, Donald Trump, inclusive em pixações no porco voador que marcou presença nos ares do Desert Trip.

A última canção foi "Comfortably Numb”, com o vocalista e guitarrista fazendo as partes de David Gilmour de cima do palco, como fazia o Floyd na tour de The Wall.

Apesar de os organizadores afirmarem que o festival foi único e não haverá uma segunda edição, já surgem rumores de conversas com Paul Simon, Steely Dan e Bruce Springsteen. Mas essa é uma outra história.

Por Jorge Simões, especial para a Collectors Room

14 de out de 2016

Show: Wilco - Popload Festival | 8 de outubro de 2016 | Urban Stage | São Paulo

sexta-feira, outubro 14, 2016

Que vida dura para o fanático por música ter de esperar anos para poder rever sua banda do coração. Nós não entendemos porque temos que sofrer e esperar tanto tempo para ver ao vivo nossos ídolos. Poxa economia, ajuda a gente a ser feliz!

Dez anos se passaram desde a última vinda dos americanos do Wilco ao Brasil, mas no último dia 8 de outubro a cidade de Chicago nunca esteve tão próxima de nós. Jeff Tweedy e sua trupe voltaram ao país para três apresentações, duas em Sampa e uma no Rio de Janeiro, para divulgar seu novo disco, Schmilco. A primeira parada na cidade da garoa foi dentro do Popload Festival.

Projetado para comportar até 8.000 pessoas, o Urban Stage esteva bem cheio quando exatamente às 20h30 a espera tinha acabado. Entra em cena aquela banda, grupo, seita ou religião que todo mundo aguardava. O que importa é que eles estão ali, na nossa frente. Parecia ser tão fácil. Porque demorou tanto? O público presente se reuniu em frente à grade ocupando todos os espaços livres para ficar mais perto do palco.

Era possível ver o quanto incrédulo estavam todos. Demorou praticamente três músicas para que alguma reação fosse esboçada pela galera. PQP, era verdade, eles estavam lá! Era hora de curtir.

Duas horas de show pra fã nenhum botar defeito. 


Choro, silêncio, frenesi, palmas, gritos, esperança no amanhã. Quantos sentimentos bons uma mesma banda pode proporcionar com sua pluralidade musical? Poderíamos passar horas tentando descrever a sonoridade das músicas que o sistema de som, claro e nítido, amplificava para todos.

Tivemos de tudo: do alt-country ao noise free-jazz até o folk calminho do interior dos Estados Unidos, como se tivesse sido feito na beira da estrada esperando a carona que iria te levar para um novo mundo ou um novo estado de espírito.

Não importa o caos do mundo. Queremos que esse momento dure para sempre. Porque um show tão bom tem que acabar? Se deixassem a gente escolher as verdades do mundo, certeza que as duas horas de show virariam oito. Oito virariam dez. Pergunta para a galera da grade como estava.

Já na metade do show, parecia que os sete mil presentes eram os melhores amigos do Jeff Tweedy. O maestro condutor de uma máquina de fazer músicas é uma simpatia de frontman que, além de tocar muito guitarra, sempre fazia questão de dizer o quanto estava feliz de tocar pela primeira vez na capital paulista. O guitarrista Nels Cline fez os presentes no festival ficarem de queixos caídos quando conseguiu melhorar o já ótimo solo de "Impossible Germany", com uma versão estendida de quase 10 minutos. O incrível foi ouvir todo mundo cantando as melodias do solo junto da banda. Tirando banda de metal, ninguém mais consegue essa proeza. Após 25 músicas, a banda deixa o palco sendo ovacionada pelo público que, de pronto, pediu o tradicional bis.



Quer mais? Sim!!! Então toma mais duas para finalizar esse show histórico. 

Valeu Popload pelo belo festival, dando show de organização e respeito pelo público. Agora, fã que é fã mesmo, tem que sofrer um pouco mais. Essa galera de Londrina teve que pegar 600 quilômetros de estrada para voltar pra casa. Tenho certeza que pelo sorriso, a volta foi boa!



Setlist:
Random Name Generator
The Joke Explained
I Am Trying to Break Your Heart
Art of Almost
Either Way
Misunderstood
If I Ever Was a Child
Cry All Day
Someone to Lose
Via Chicago
Impossible Germany
Hummingbird
Handshake Drugs
Side With the Seeds
Locator
Pickled Ginger
Forget the Flowers
Box Full of Letters
Heavy Metal Drummer
I’m the Man Who Loves You
Jesus, Tec.
Dawned on Me
Red-Eyed and Blue
I Got You(At the End of the Century)
Outtasite(Outta Mind)

Encore

Spiders(Kidsmoke)
The Late Greats

Por Denis Fonseca

19 de abr de 2014

Focus (Teatro Rival Petrobras, Rio de Janeiro, 15/04/2014)

sábado, abril 19, 2014

Na última terça-feira, o palco do Teatro Rival Petrobras recebeu os holandeses do Focus em sua única apresentação em solo carioca pela turnê de divulgação de seu novo trabalho, Focus X. Mesmo sob forte chuva e num horário que não facilitava muito a vida de quem talvez tivesse de cruzar a cidade para prestigiar seus ídolos, o que se viu foi a casa lotada a aguardar quase 40 minutos até os primeiros acordes de “Focus”, a primeira da noite. 

Thijs van Leer é uma figura caricata; um Chacrinha da Renascença com um quê de vovô legal que ensina os netos a jogar futebol de botão. Seu domínio tanto do teclado quanto da flauta — adquirido ao longo de anos de estudo em conservatório de música — só não é maior que a sua capacidade de entreter o público. Comunicativo, arrisca algumas palavras em português e procura fazer uma graça ou outra durante as músicas. Sorte de quem adquiriu as mesas do lado esquerdo do palco e pode ver suas caras e bocas bem de pertinho. 

Acompanhando o bom velhinho estavam o guitarrista Menno Gootjes, o baixista Bobby Jacobs e outro integrante que já pegaria ônibus de graça na cidade: Pierre van der Linden, batera que deixou sua marca em quatro álbuns da banda nos anos 1970, entre eles, a obra-prima Moving Picures. E foi justamente este o álbum que compareceu com mais músicas no repertório: “Focus II”, “Eruption” (tocada na íntegra, com impressionante fidelidade à gravação original) e, é claro, “Hocus Pocus”, com o novato Gootjes navegando pela escala de sua Les Paul seguindo o mapa desenhado por Jan Akkerman e van der Linden perdendo a noção num solo de quase 10 minutos. 

Do álbum que motiva a turnê, apenas uma canção, a modernosa “All Hens on Deck”, que van Leer dedicou aos presentes. Shows de rock progressivo como este equivalem a rituais de necromancia: assim como mortos que ressurgem de seus túmulos, aquele pessoal que aparentemente havia aposentado o hábito de ver bandas ao vivo, comparece em massa. O bom dessa gente é que respondem ao menor estímulo — vide a euforia que a dedicatória que ninguém entendeu provocou. 

Porém, os mesmos eufóricos são também os mais suscetíveis à dispersão. A noção de show é diferente para esta galera que não consegue esperar o intervalo entre uma música e outra para chamar o garçom ou levantar para ir ao banheiro. Agora, ninguém foi ousado o suficiente para interromper o silêncio que antecedeu a belíssima “La Cathedrale de Strasbourg”. Seguindo a ordem inversa de Hamburger Concerto, uma “Harem Scarem” repleta de improvisos individuais veio na sequência. 

O intervalo entre o set normal e o bis foi ínfimo, mas já se via gente levantando para ir embora (!). A saideira veio na forma de “Focus III”, faixa homônima ao álbum que contém o hit “Sylvia”, que aliás, pegou todo mundo de surpresa ao ser executado logo no comecinho da apresentação. Em pouco mais de duas horas, o Focus transmitiu sua mensagem de nostalgia para os mais velhos quanto disse aos mais novos, em tom de ensinamento, que muito antes dos neoclássicos voarem baixo em seus instrumentos nos anos 1980, houve quem pensasse fora da caixa na década anterior e incorporasse de maneira acessível e surpreendente a música erudita ao rock.

Texto: Marcelo Vieira
Foto: Divulgação Teatro Rival Petrobras

27 de mar de 2014

Uli Jon Roth (Teatro Rival Petrobras, 25/03/2014, Rio de Janeiro)

quinta-feira, março 27, 2014
Uli Jon Roth chegou ao Scorpions em 1973, substituindo Michael Schenker na guitarra solo. Participou de quatro álbuns da banda entre 1974 a 1978, tendo sido o seu principal compositor no período. Insatisfeito com o direcionamento musical que estava sendo tomado — visando, obviamente, espaço nas rádios e destaque na mídia em geral —, pediu as contas pouco antes do lançamento do ao vivo Tokyo Tapes. Desde então, desviou o foco do rock em favor de sons mais psicodélicos e transcendentais, no que seria um meio termo entre Hendrix e o barroco europeu. Sua discografia pós-Scorpions conta com mais de dez trabalhos.

A atual turnê, que celebra os 40 anos de Fly to the Rainbow — segundo álbum do Scorpions e primeiro com Roth na guitarra — desembarcou na Cidade Maravilhosa na última terça-feira para única apresentação no palco do Teatro Rival Petrobras, casa que cada vez mais se estabelece como primeira opção para os produtores locais de shows de pequeno e médio porte. Em meio aos quase 200 presentes, era possível contar nos dedos as mulheres e as pessoas que aparentavam ter menos de 50 anos. Havia também um ou outro que pela maneira que assistiam aquilo tudo, deviam estar se perguntando que horas rolaria “Rock You Like A Hurricane”.


Estava na descrição do evento: Uli Jon Roth plays Scorpions. Capisce. Como explicar para o cidadão que só conhece a banda a partir das trilhas sonoras de novelas dos anos 1990 que as músicas que marcaram a sua vida não seriam tocadas — por razões óbvias — naquela noite? Meia dúzia deve ter saído com a sensação de ter jogado o dinheiro fora. E mesmo quem curte a fase setentista do Scorpions deve ter se surpreendido com a abordagem acid rock que Roth conferiu a canções como “Dark Lady”, na qual inseriu um improviso de quase 10 minutos. E não foi só nessa.

Ainda bem que ele saiu do Scorpions — disse um amigo, perplexo diante do que seria a banda caso Roth tivesse continuado nas seis cordas. Não dá para comparar o Scorpions dos anos 1980 em diante, dos refrões ganchudos feitos sob medida para arenas lotadas com o que Uli considerava o direcionamento correto a seguir. E achismos à parte, foi após a saída do guitarrista que o Scorpions lançou os seus melhores trabalhos e despontou para o estrelato mundial. A Roth, se faltaram os milhões de dólares e discos multiplatinados, veio o status perante a ala mais conservadora e caras como Yngwie Malmsteen apontando-o entre as suas principais influências.


No palco, é como se estivesse prestes a levitar. Vestido como uma divindade hippie trazida diretamente do pós-Woodstock, esmerilha sua Sky Guitar com leveza e elegância. Toca fácil, o Roth. Dá inveja. Sua banda também não é nada mal, sobretudo o seu vocalista e também guitarrista, com timbre meio Michael Sweet (Stryper) e gogó de sobra para se arriscar nos agudos mais ousados que Klaus Meine já registrou. A crítica fica para o som saturado que projetava o teclado em primeiríssimo plano, engolindo os demais instrumentos e as vozes.

Havia também grande expectativa com relação ao repertório, já que a fase do Scorpions em questão conta com uma porção de hits em menor escala — “Speedy's Coming”, “Virgin Killer”, “He's a Woman, She's a Man”, “Steamrock Fever”... todas essas ficaram de fora. Em compensação, marcaram presença “Catch Your Train”, “Fly to the Rainbow”, “Top of the Bill” e “In Trance”, envolta em belíssimo jogo de luzes alaranjadas. E, claro, não faltou “Pictured Life”. Teve até tiozão subindo em cadeira!



Um grande momento da apresentação foi a hexafônica “The Sails of Charon”; uma peça admirável, milimetricamente construída sobre intervalos de tons inteiros, desafiando o óbvio da teoria musical. “We'll Burn the Sky” veio na sequência, carregada de emoção. Para quem não sabe, a música originou-se a partir de um poema homônimo escrito por Monika Dannemann, a última namorada de Jimi Hendrix, em homenagem ao então recém-falecido músico. Com um background desses, somado a uma resposta tão positiva do público no coro e nas palmas, o resultado não poderia ser outro.

Falando em Hendrix, o bis consistiu num verdadeiro tributo ao reinventor da guitarra, com “All Along the Watchtower” — o próprio Bob Dylan reconhece que esta canção pertence a Jimi, ok?! — e um medley com “If 6 Was 9” e “Little Wing”. A saideira foi gélida, com a instrumental “Atlantis”. Não rolou agradecimento, não deu tempo de tirar foto. O último toque no aro foi a deixa para Uli e os outros virarem as costas rumo a escuridão dos bastidores.

Uli Jon Roth e sua banda seguem para São Paulo, onde se apresentam no próximo dia 29.

Por Marcelo Vieira
Fotos: Daniel Croce

ONLINE

PAGEVIEWS

PESQUISE