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7 de nov de 2017

Review: Lennon Fernandes - Abstrato Sensível (2017)

terça-feira, novembro 07, 2017

Estreia do músico paulista Lennon Fernandes, Abstrato Sensível é um disco de rock com a presença de diversos elementos psicodélicos, o que resulta em um trabalho muito bonito e carregado de lirismo.

Lançado no início de 2017, o trabalho traz dez faixas autorais que mostram as diferentes facetas do guitarrista, que já passou por bandas como Tomada, Skywalkers, Dudé e a Máfia e inúmeras outras. Em Abstrato Sensível, Lennon toca todos os instrumentos e ainda assina a produção, evidenciando o caráter pessoal do trabalho.


De um modo geral temos um disco que tem como base o rock, mas que se permite experimentar por diferentes sonoridades familiares aos ouvintes do estilo. Assim, além dos ecos psicodélicos citados no primeiro parágrafo, temos também características de hard rock, pop, progressivo e até mesmo blues, em um CD que entrega uma sonoridade bastante variada e que agrada pelo ousadia constante.

Abstrato Sensível é um álbum forte e sólido, de um músico que há tempos vem construindo uma carreira cheia de conquistas. Provavelmente é um trabalho que irá passar batido pela grande mídia, muito mais interessada em artistas que exploram as tendências em voga no momento. Azar deles, mas não seu: vá atrás do álbum porque ele está cheio de música de qualidade e que vale a pena conhecer.



26 de out de 2017

Review: Motherwood - Motherwood (2017)

quinta-feira, outubro 26, 2017

O Brasil sempre foi um grande celeiro de bandas de metal extremo. De nomes pioneiros como Sarcófago até novos ícones como Krisiun, sempre tivemos ótimos representantes no death e black metal. E, mais importante: as bandas brasileiras sempre trouxeram um sopro de criatividade e de inovação para as searas mais radicais do metal.

Essa tradição se mantém viva com o Motherwood. O grupo formado em 2016 pela dupla Guilherme Malosso (vocal, guitarra, baixo e bateria) e Yuri Camargo (sintetizadores, bateria e ambiência) lançou este ano tanto o seu primeiro EP (sobre o qual falamos aqui) quanto o seu primeiro álbum completo.

A ótima impressão deixada pelo EP é intensificada com o debut, que além das duas faixas já lançadas anteriormente - “Coldness" e “Sadness" - traz mais cinco canções. As influências da escola norueguesa de black metal seguem fortes, principalmente de nomes como Burzum e Emperor. Aliadas à elas temos inspirações também em nomes que são conhecidos por levar o metal a novos caminhos, como o Katatonia (nas partes mais calmas e climáticas) e o Opeth (na união da pancadaria característica do estilo à uma sadia pretensão de se aventurar por novos ares). 

Todos esses elementos tornam a música do Motherwood bastante rica, colocando a banda em um estágio superior em relação à boa parte dos nomes extremos atuais. Malosso e Camargo dominam a arte de construir atmosferas hipnóticas que levam a banda a um estágio posterior à violência musical. 

Talvez o fato que mais chame a atenção neste auto-intitulado disco de estreia seja a maturidade musical, lírica e artística mostrada pela banda. Em todos esses aspectos temos um trabalho que está em um nível elevado de qualidade, com direito a uma linda faixa instrumental que é pura ambient music para fechar com chave de ouro uma estreia praticamente perfeita.

Se você é fã de metal extremo, este primeiro álbum do Motherwood é uma joia preciosa que não pode faltar na sua coleção.



25 de out de 2017

Review: Rotting Christ - Abyssic Black Cult (2017)

quarta-feira, outubro 25, 2017

Lançada exclusivamente no Brasil pelo selo Heavy Metal Rock, a compilação Abyssic Black Cult reúne três demos do início da carreira da banda grega Rotting Christ. O material traz as músicas de Satanas Tedeum (1989), Ade’s Winds (1992) e Snowing Still (1995), totalizando dez faixas.

Como é comum em materiais deste tipo, a qualidade sonora não é das melhores - afinal, a banda estava no início da carreira e estamos falando de fitas demo, que não possuem a mesma produção de álbuns completos. A curiosidade é muito mais arqueológica, um mergulho gratificante nos porões de uma das mais celebradas bandas do black metal contemporâneo, onde é possível identificar a inquietude e a pretensão artística que levaram o Rotting Christ a desenvolver uma música com forte personalidade própria.

Pessoalmente, acho que a banda liderada pelo vocalista e guitarrista Sakis Tolis encontrou o seu ápice criativo a partir do álbum Aealo, lançado em fevereiro de 2010 e que mostrou a banda unindo o metal extremo à música grega, criando um som original e sem paralelo em nenhum outro grupo. Logicamente, as canções presentes em Abyssic Black Cult não trazem essa abordagem, porém mostram elementos que o Rotting Christ exploraria de maneira marcante nos anos seguintes, como a forte presença de melodias, por exemplo.

Se você é fã dos gregos, este item é imperdível pelas raridades que traz e por ser um CD que saiu apenas no Brasil. 

24 de out de 2017

Review: Trivium - The Sin and the Sentence (2017)

terça-feira, outubro 24, 2017

Oitavo álbum do Trivium, The Sin and the Sentence foi lançado dia 20 de outubro pela Roadrunner. O disco é o sucessor de Silence in the Snow (2015) e tem produção de Josh Wilbur, que já havia trabalhado com a banda no CD anterior e assinou também álbuns de nomes como Lamb of God, Killed Be Killed e KoRn. O disco marca a estreia do novo baterista do quarteto, Alex Bent (ex-Battlecross). A formação é completada pelo time de sempre: Matt Heafy (vocal e guitarra), Corey Beaulieu (guitarra) e Paolo Gregoletto (baixo).

Segundo a Metal Hammer, The Sin and the Sentence é o primeiro álbum do Trivium “a fundir todas as versões anteriores da banda em uma espécie de best of da sua carreira”. Acho que essa definição é certeira. As onze músicas trazem toda a história e a evolução de uma carreira iniciada em 1999 e que passou por mudanças de sonoridade marcantes nesse tempo todo. A melodia dos primeiros discos anda lado a lado com o apelo mais moderno e atual de In Waves (2011), tudo embalado com uma dose de agressividade e violência que não era ouvida já há algum tempo em um álbum do Trivium.

Os vocais guturais estão de volta após ficarem de fora de Silence in the Snow devido a um problema nas cordas vocais de Heafy, e eles fazem uma grande diferença. Outro ponto digno de nota é o uso constante de blast beats, que não apenas mostram as credenciais de Alex Bent como tornam a música dos norte-americanos ainda mais forte. E tudo, claro, vem embalado com a principal característica da sonoridade do Trivium: a capacidade inerente de criar belas melodias que adornam cada uma das canções, criando assim faixas cativantes e que caem no gosto do ouvinte quase de maneira imediata.

Heafy está especialmente inspirado em The Sin and the Sentence. Suas linhas vocais soam sempre inspiradas em todo o disco, enquanto os problemas de voz parecem que ficaram definitivamente no passado. Além disso, a interação com Beaulieu segue como um dos alicerces da música do Trivium, com guitarras entrelaçadas que se complementam como se fossem um só instrumento. As harmonias de guitarra são invariavelmente belas e dão um clima especial para o trabalho. Já os riffs exploram estruturas mais sincopadas como as já apresentadas em In Waves, devidamente acompanhadas por melodias que os tornam ainda mais eficientes.

Há de se destacar a capacidade da banda em criar um tracklist contagiante do início ao fim, sem a inclusão de músicas supérfluas e desnecessárias, algo raro de se ouvir hoje em dia. Por esse motivo, The Sin and the Sentence funciona muito bem como um álbum completo, justamente em uma época e que o conceito de álbum está ruindo com o lançamento cada vez mais frequente de músicas isoladas pelos maiores nomes do pop e do rock. O Trivium mostra em seu novo disco que esse conceito ainda funciona quando vem acompanhado de inspiração e do já conhecido enorme talento da banda.

De modo geral, o Trivium entrega um trabalho maduro e que é uma evolução natural de sua trajetória. A melodia onipresente de discos como Ascendancy (2005) e Shogun (2008) caminha lado a lado com a pegada mais atual e agressiva de In Waves (2011), com a banda unindo os pontos de sua sonoridade e construindo um de seus melhores discos.

Com absoluta certeza, The Sin and the Sentence é um dos grandes álbuns de metal lançados este ano. Um enorme acerto de Matt Heafy e companhia, reforçando o status do Trivium como uma das melhores bandas do metal moderno.

17 de out de 2017

Review: Caligula’s Horse - In Contact (2017)

terça-feira, outubro 17, 2017

Um dos melhores discos de prog metal lançados em 2017 não vem de uma banda norte-americana ou inglesa. Os responsáveis pelo trabalho são australianos e atendem pelo nome de Caligula’s Horse. Na estrada desde 2011, o quinteto lançou em este ano o seu quarto álbum, In Contact. E já peço desculpas pelo inevitável trocadilho oportunista, já que foi com esse CD que tive o meu primeiro contato com o som do grupo.

In Contact é o sucessor de Moments from Ephemeral City (2011), The Tide, The Thief & River’s End (2013) e Bloom (2015), sendo que este último foi aclamado pela crítica de maneira quase unânime. Ao ouvir as onze faixas de In Contact, não causará surpresa alguma se o álbum também tiver uma receptividade tão positiva quanto o seu antecessor.

A música do Caligula’s Horse é um metal progressivo com a tradicional riqueza musical e exuberância técnica do estilo, porém acompanhada de uma pegada bastante acessível. Não há trechos de inúteis exibições de habilidades musicais que soam mais adequadas a um freak show do que a um disco de rock, por exemplo. Além disso, o grupo equilibra elementos de outros estilos, principalmente hard rock e AOR, na construção de uma sonoridade que possui enorme probabilidade de conquistar o ouvinte de imediato.

O uso de melodias que têm as suas raízes no hard rock (mais) e no AOR (um pouco menos) veste as músicas como uma aura mais amigável, com a banda despejando a sua pegada prog no interior destas canções. E então dá-lhe riffs de guitarra sincopados que ficam mais encorpados com o acompanhamento das batidas de bateria, sempre intercalados por momentos mais calmos onde tudo que está acontecendo abre espaço para momentos onde a música pode respirar de maneira mais tranquila.

O vocal de Jim Grey, com um timbre limpo e muito gostoso de ouvir, passeia por sobre a intrincada tecelagem instrumental, destacando-se durante todo o disco. O mesmo pode ser dito da bateria de Josh Griffin, estreando em In Contact com uma pegada e uma técnica que faz as passagens mais elaboradas parecerem simples.

Ao contrário da maioria das bandas de prog metal, o Caligula’s Horse não conta com um tecladista em sua formação oficial. É possível ouvir camas de teclados ao fundo em diversas músicas, mas o instrumento nunca vem para a linha de frente. Esse protagonismo acaba sendo dividido entre os guitarristas Sam Vallen e Adrian Goleby, que mostram o quanto ouviram os nomes clássicos do prog como Genesis e Yes, ao mesmo tempo que não negam a inspiração em referências mais atuais como John Petrucci e o próprio Joe Satriani (ouça “Fill My Heart”).  E pra não dizer que eu não falei do baixista Dave Couper, ele torna as quatro (ou seriam mais?) cordas do seu instrumento a cola que une todos os vários ingredientes da música da banda.

Como todo álbum de rock ou metal progressivo que se preze, In Contact tem no conjunto a sua principal força. O disco está repleto de ótimas faixas, mas é a união destas composições que torna o trabalho algo especial.

Eu gostaria que você ouvisse esse disco. Seja para conhecer um álbum realmente acima da média ou para perceber que o prog metal vai além dos mesmos ícones de sempre. Seja lá o motivo, o fato é que In Contact é um trabalho com cara de futuro clássico.


Review: Axes Connection - A Glimpse of Illumination (2017)

terça-feira, outubro 17, 2017

Eu entendo o sonho. Sério: compreendo totalmente o objetivo de toda banda em eternizar a sua música em um álbum, recortando um momento de sua trajetória e guardando-o para posteridade. E entendo também as dificuldades que vem junto com isso: a procura por um bom estúdio, uma boa produção, a prensagem dos CDs/LPs, os custos que todas essas coisas geram. Mas tem uma coisa que eu não entendo: é preciso ter senso crítico antes de colocar o seu trabalho na rua. E, infelizmente, esse fator faltou para a banda gaúcha Axes Connection.

Apesar de estar na estrada há bastante tempo, o quarteto formado por Márcio Machado (vocal), Marcos Machado (guitarra, ex-Distraught), Magoo Wise (baixo, ex-The Wise, Distraught e Apocalypse) e Cristiano Hulk (bateria, ex-Vômitos e Náuseas e Grosseria) escorrega feio em A Glimpse of Illumination, seu disco de estreia.

Ok, admito que eu tenho um problema sério com vocalistas de timbre agudo, mas se o cara souber cantar isso não afeta o meu julgamento. O problema é que Márcio Machado só grita durante todo o disco, parecendo uma versão ruim do patético Detonator. Instrumentalmente, a banda não apresenta nada de novo e se limita a reciclar décadas de história e evolução do heavy metal, com o agravante de uma gravação que compromete consideravelmente o resultado final do material.

Mais uma vez, reitero: entendo o desejo de realizar o sonho de gravar um álbum e também sei os custos que uma boa produção geram. Mas em uma época em que dezenas e dezenas de bandas surgem e não apenas apostam, mas conseguem entregar discos de um nível criativo mais elevado e com produções infinitamente superiores, o debut do Axes Connection soa como uma grande perda de tempo. É difícil não usar palavras duras para definir as onze faixas de A Glimpse of Illumination, no entanto considero muito pior ser hipócrita e não apontar os problemas que a banda demonstra de maneira clara, como li em alguns reviews. 

Falta muito para o Axes Connection produzir um disco de qualidade, apesar da experiência dos músicos. Tanto em termos criativos quanto nos aspectos técnicos, a banda gaúcha precisa evoluir enormemente caso realmente almeje alguma coisa na sua carreira. 

Eu entendo o sonho. Espero que a banda entenda as críticas.

Você pode ouvir A Glimpse of Illumination no player abaixo e tirar as suas próprias conclusões:

16 de out de 2017

Review: Laventura - Gravidade (2017)

segunda-feira, outubro 16, 2017

Após dez anos, a banda paulista Laventura lançou no final de setembro o seu segundo disco, Gravidade. O álbum foi produzido pelo peruano Santiago Aliaga, conterrâneo do guitarrista Juan Anton. Diogo Campos (vocal e guitarra), Inti Ernesto (baixo) e Victor Vieira (bateria) completam a formação.

A sonoridade do quarteto é um rock bastante focado em guitarras, com riffs e solos constantes. Mas não dá pra classificar os caras como hard rock ou heavy metal, longe disso. O som tem uma pegada meio alternativa com uma leve aura indie. Em diversos momentos a banda usa o recurso de criar momentos contrastantes entre trechos mais calmos e explosões sonoras, criando um efeito de luz e sombra contínuo.

Totalmente cantado em português, Gravidade traz letras que falam sobre amor, ódio e revolta, explorando mais uma vez a dicotomia, agora em relação a sentimentos contrários uns aos outros. 

Há, sem dúvida, uma ambição artística no trabalho que o Laventura mostra em Gravidade, ainda que essa ambição não acerte a mão e acabe não funcionando muito bem em certas músicas. No entanto, é louvável que uma banda procure caminhar além dos atalhos mais óbvios e busque trilhar estradas mais difíceis. Esse é um ponto que precisa ser elogiado em Gravidade, e que, infelizmente, tem diminuído cada vez mais, o que faz com que a música atual acabe soando sem cara, sem identidade e bastante pasteurizada em muitos dos principais nomes que tem surgido nos últimos tempos.

A música que mais curti foi “O Gosto Dela”, mas bons momentos também estão em “Passiflora”, “Até o Fim” e “Labirinto”.

Você pode ouvir Gravidade no player abaixo:

13 de out de 2017

Review: Heavenless - Who Can’t Be Named (2017)

sexta-feira, outubro 13, 2017

Formado em 2015 em Mossoró, no Rio Grande do Norte, o Heavenless está lançando o seu primeiro disco, Who Can’t Be Named. E, sinceramente, se você gosta de metal deveria olhar com atenção para o trio formado por Kalyl Lamarck (vocal e baixo), Vinícius Martins (guitarra) e Vicente Andrade (bateria).

A praia da banda é o thrash metal, agressivo, rápido e cheio de variações. Com influências que vão de nomes clássicos como Exodus e Destruction e passam por ícones conterrâneos como o Sepultura, o Heavenless mostra em seu primeiro disco um trabalho digno de nota.

Who Can’t Be Named traz nove músicas, todas bastante diretas e extremamente agressivas - a exceção é “The Reclaim”, que inicia com um andamento mais calmo e meio doom para a partir de sua metade cair na pancadaria habitual. 

Baseando a sua música nos bons riffs construídos por Vinícius e na criatividade percussiva de Vicente (perceba a inserção das viradas de bateria na linha do que Iggor Cavalera fez no clássico Roots, por exemplo), o Heavenless consegue mostrar uma personalidade própria, ainda que em evidente construção. O vocal de Kalyl soa sempre caótico e amedrontador, característica muito bem-vinda em uma banda com a proposta musical do trio. Percebe-se uma certa influência do black metal norueguês em algumas passagens de guitarras, o que dá um toque ainda mais macabro à música do Heavenless.

Distante dos principais centros consumidores de heavy metal do Brasil, o Heavenless mostra um trabalho sólido e muito competente, com força para evoluir muito e que, mesmo assim, já deixa clara a capacidade criativa do trio potiguar.

Se você é fã de thrash metal e quer conhecer uma boa banda nacional do estilo, vai curtir pra caramba o trabalho do Heavenless.

11 de out de 2017

Review: A Olívia - Jardineiros de Concreto (2017)

quarta-feira, outubro 11, 2017

A Olívia é uma banda formada em São Paulo em 2013 e que conta com Luis Vidal (vocal e guitarra), Mateus Albino (guitarra), João Carvalho (baixo) e Murilo Fedele (bateria). A proposta do quarteto é tocar rock, ideia que o primeiro disco, Jardineiros de Concreto, entrega com sucesso.

São onze faixas que apresentam um trabalho de composição bem resolvido, resultando em canções sem excessos e momentos desnecessários. O grupo coloca influências brasileiras em sua sonoridade, mas sem cair na armadilha de batucadas e instrumentações exóticas. “Arruda" é um bom exemplo disso, onde a banda explora a riqueza musical do nosso país, mas sem exagerar na dose.

De modo geral, dá pra classificar o som d’A Olívia como indie rock, porém a banda não traz o ar pedante da maioria dos nomes do estilo. Os caras não querem revolucionar nada, apenas almejam fazer um som. E esse ar despretensioso acaba sendo um dos maiores acertos em Jardineiros de Concreto.

Entre as faixas, destaque para “Arruda”, “Carne Crua”, “Festa de Merda”, “Briga de Bar” e "Bartolomeu", todas com letras que exploram situações do cotidiano e mostram uma banda com grande potencial e os dois pés fincados no chão.

Boa estreia, vale a audição!

10 de out de 2017

Review: Vuur - In This Moment We Are Free: Cities (2017)

terça-feira, outubro 10, 2017

O Vuur marca o retorno de Anneke van Giersbergen ao metal. Não que ela tenha se afastado do gênero, vide os discos que gravou ao lado de Devin Townsend, porém a banda é a primeira a contar com a liderança de Anneke a explorar o peso desde que ela deixou o The Gathering.

Mais de dez anos depois, a cantora está ao lado de um grupo formado totalmente por músicos holandeses, sendo eles Jord Otto (guitarra), Ferry Duijsens (guitarra), Johan van Stratrum (baixo) e Ed Warby (bateria). Além desses nomes, Anneke contou com a parceria de Mark Holcomb (guitarrista do Peryphery), Esa Holopainen (guitarrista do Amorphis) e Daniel Cardoso (multi-instrumentista, integrante do Anathema) na composição das músicas. Fechando, a produção deste primeiro disco foi assinada por Joost van den Broek, que também participou do processo de composição.

In This Moment We Are Free - Cities é o disco de estreia do Vuur e será lançado mundialmente no próximo dia 20 de outubro. O álbum sairá no Brasil pela Hellion Records algumas semanas mais tarde. Trata-se de um trabalho meio conceitual, com onze músicas que falam sobre liberdade e sua relação com diferentes cidades ao redor do planeta. As letras relatam as experiências e sensações de Anneke ao passar por estas metrópoles, incluindo o Rio de Janeiro em “Freedom - Rio”.

Musicalmente, o que temos é um metal com uma sutil pegada progressiva e abordagem bastante contemporânea. Os vocais de Anneke são o destaque óbvio, como não poderia deixar de ser. Apenas para comparação, há uma certa similaridade com o que Tarja Turunen vem fazendo em seus discos mais recentes, porém com bem menos vozes operísticas. O peso é constante e traz consigo um excepcional trabalho de guitarras, outro ponto que salta aos ouvidos durante a audição do álbum.

Alguns reviews gringos apontaram o fato de que o tracklist é bastante homogêneo e apresenta poucas variações. Isso realmente acontece, mas não chega a ser um problema, pelo menos no meu modo de vista. Gostei bastante do trabalho de composição, há uma proliferação de canções com andamento moderado e sempre calçadas em bons riffs, o que me agradou. Além disso, o Vuur ainda trilha caminhos mais calmos e contemplativos, e o principal exemplo dessa faceta é “Freedom - Rio”, uma linda canção que é um dos melhores momentos de In This Moment We Are Free. Na mesma linha, “Valley of the Diamonds - Mexico City” e “Reunite! - Paris” também diminuem o ritmo e andam por caminhos mais suaves.

Talvez o ponto que tenha levado alguns escribas norte-americanos e europeus a considerarem o disco apenas mediano seja justamente o vocal de Anneke. Ainda que isso possa parecer estranho, o fato é que a holandesa, reconhecidamente uma das mais belas vozes femininas do metal, não apresenta muitas variações não só no modo de cantar mas também nas próprias linhas vocais que cria ao longo do disco. Enquanto o instrumental vem com ideias diferentes a cada canção, Anneke parece repetir as mesmas soluções em diversos momentos do disco, e isso incomoda um pouco.

Entretanto, In This Moment We Are Free - Cities é uma boa estreia e mostra uma banda com enorme potencial para gravar discos ainda mais fortes no futuro. Este primeiro álbum vale a audição, e os próximos certamente valerão ainda mais.

5 de out de 2017

Review: Mastodon - Cold Dark Place (2017)

quinta-feira, outubro 05, 2017

Já vou começar esta resenha com uma afirmação que alguns poderão achar polêmica: Cold Dark Place, novo EP do Mastodon, é bastante superior ao disco mais recente do quarteto norte-americano, Emperor of Sand. Esta é a minha opinião, e ela talvez não seja igual a sua.

O disco possui apenas quatro músicas - “North Side Star”, “Blue Walsh”, “Toe to Toes” e “Cold Dark Place” - e foi produzido por Nick Raskulinecz e Brendan O’Brien. Três das músicas vem das sessões que geraram o álbum Once More ‘Round the Sun (2014), enquanto “Toe to Toes” é fruto das gravações de Emperor of Sand, lançado no final de março.

O que torna Cold Dark Place superior a Emperor of Sand é a variedade de caminhos que o Mastodon tomou neste EP, experimentando sonoridades e soando muito mais aventureiro do que no seu mais recente disco de estúdio. Desde o início achei Emperor of Sand muito monocromático, com uma sonoridade que às vezes me soou cansativa. Isso não acontece aqui. Claro que o fato de termos apenas quatro músicas ao invés de onze contribui, mas sempre preferi o lado mais viajante e psicodélico da banda.

É claro que Cold Dark Place não é uma obra tão fora da curva quanto Crack the Skye (2009), mas apresenta uma sadia variedade instrumental que o torna bastante especial. As influências psicodélicas permeiam todo o disco, mas sem nunca tornarem a obra algo impenetrável. A banda sabe como revesti-las com uma atraente camada pop, o que torna tudo muito acessível e palatável já na primeira audição.

A estrela aqui é Brent Hinds. O vocalista e guitarrista dá o tom para onde seus companheiros de banda devem seguir, assumindo o protagonismo e levando o quarteto a um nível altíssimo. Inovador por natureza, Hinds soa mals solto do que nunca em Cold Dark Place. E ganha os luxuosos vocais de Troy Sanders e Brann Dailor como companhia, em variações que colocam músicas como "Blue Walsh" e “North Side Star” nas alturas. E quando canta sozinho faz algo absolutamente incrível como “Toe to Toes”, cheia de variações que mostram toda a sua versatilidade.

Apesar de curto, Cold Dark Place é um dos melhores momentos do Mastodon nos últimos anos. Espero que a banda retome essa atmosfera mais psicodélica e experimental nos próximos discos, já que é inegável que os caras conseguem se sair muitíssimo bem quando exploram esse caminho.

4 de out de 2017

Review: Canábicos - Intenso (2017)

quarta-feira, outubro 04, 2017

Quarto álbum da banda mineira Canábicos, Intenso chega para fazer companhia a uma discografia que conta ainda com La Bomba (2013), Reféns da Pátria (2014) e Alienígena (2015). O trabalho foi gravado em Goiânia, no estúdio RockLab, tem produção de Gustavo Vazquez (Uganga, Black Drawing Chalks, Hellbenders) e é um lançamento da Monstro Discos.

A proposta do quarteto formado por Clandestino (vocal), Murcego Gonzalez (guitarra, também integrante do Uganga), MM (baixo) e Mestre Mustafá (bateria) é um rock pesado com letras em português e focado em riffs, que bebe bastante da tradição de grandes nomes dos anos 1970 como Black Sabbath, Led Zeppelin, Kiss e outros.

Trata-se de um álbum bastante conciso e com canções muito bem resolvidas, que demonstram a experiência dos músicos. Os destaques individuais ficam com os excelentes vocais e com o trabalho de guitarra, que dão o tom em um disco que agrada sem fazer muito esforço.

Eu gostei de todas as faixas, então é meio difícil escolher apenas uma como protagonista. Mas é inegável que o encerramento com “Eu Não Sei o Que Vai Ser de Mim” e seus quase 8 minutos de questionamentos sobre o que fazer da vida e de onde se quer chegar nesse mundo talvez seja o momento mais alto de um álbum muito bem feito.

Se você curte rock, eis aqui uma bela dica para a sua coleção.



3 de out de 2017

Review: Sons of Apollo - Psychotic Symphony (2017)

terça-feira, outubro 03, 2017

A figura central do Sons of Apollo é Mike Portnoy, e ele dispensa maiores apresentações. Ao lado do baterista estão Jeff Scott Soto (vocal, Talisman e Journey), Ron “Bumblefoot" Thal (guitarra, Guns N’ Roses), Billy Sheehan (baixo, Mr. Big) e Derek Sherinian (teclado, Dream Theater e Black Country Communion). O supergrupo está estreando com Psychotic Symphony, disco que chegará às lojas de todo o mundo no dia 20/10 e será lançado no Brasil pela Hellion Records no final do mês de outubro.

De modo geral, o que temos no Sons of Apollo é o retorno de Portnoy ao prog metal. Após passagens por inúmeras bandas, com destaque para o Adrenaline Mob e o The Winery Dogs, o baterista está de volta à seara musical que o consagrou nos 25 anos em que liderou o Dream Theater.

Isso fica claro desde o início, com a ótima “God of the Sun” abrindo o trabalho com um certeiro tempero oriental. Outro ponto que fica explícito de cara é a presença de elementos de hard rock por todo o disco, tornando o prog metal do Sons of Apollo menos auto-indulgente e muito mais palatável aos ouvidos. Isso se traduz através das sempre fortes linhas vocais de Jeff Scott Soto e pela presença constante de melodias e coros vocais, além de refrãos cativantes.

É claro que em um álbum que se enquadra em um gênero como o metal progressivo, as longas passagens instrumentais não só fazem parte do pacote como também ocupam lugar de destaque. E o Sons of Apollo utiliza com sabedoria essa característica, com trechos onde o foco não está no umbigo ou no ego dos músicos, mas sim no resultado que nasce da união de instrumentistas tão talentosos como os nomes aqui envolvidos.

Psychotic Symphony não tem nada de psicopatia em suas nove músicas. A união dessas canções resulta em um disco extremamente redondo e eficaz, que não perde o seu foco em praticamente nenhum momento e que tem força para trazer o prog metal para o topo novamente em um momento onde as principais referências recentes do estilo andam em baixa.


Para os fãs do Guns N’ Roses, um adendo: Ron Thal explora aqui um lado totalmente desconhecido de sua musicalidade, deixando de lado o hard rock escola Axl Rose e entrando de corpo e alma em um universo muito mais complexo. O guitarrista é um dos destaques de Psychotic Symphony, tanto pelos seus riffs quanto pelos solos inspirados que entrega. Aliás, essa ótima performance acaba sendo uma constante, pois todos os cinco músicos estavam em um momento particularmente inspirado. Soto dá a Portnoy a oportunidade de realizar um som mais agressivo devido à amplitude e ao timbre mais grave de sua voz, o que era impossível com o tom agudo de James LaBrie (e os mais maldosos afirmarão, não sem uma certa dose de verdade, que o baterista finalmente encontrou um bom vocalista para explorar todas as possibilidades do metal progressivo).

Já o trio Billy Sheehan, Derek Sherinian e Mike Portnoy funciona como o alicerce que sustante o Sons of Apollo. O entrosamento e a química entre os três é um ponto que chama a atenção durante todo o disco. Sheehan é um animal em seu instrumento, enquanto Sherinian pode aqui brincar muito mais com a sua criatividade do que no universo hard rock do Black Country Communion - “Lost in Oblivion”, “Divine Addiction” e “Opus Maximus" são ótimos exemplos. Já Portnoy retorna com a classe habitual ao seu mundo, com batidas e levadas que justificam todo o status de um dos maiores baterista do planeta. E confesso: é muito bom vê-lo novamente explorando a sua personalidade progressiva.

Psychotic Symphony abre e fecha com duas tour-de-force, “God of the Sun” e “Opus Maximus”, ambas com mais de dez minutos de duração. No meio do tracklist ainda temos “Labyrinth" e seus mais de nove minutos e instrincadas passagens instrumentais. Essas três peças são prog metal do mais alto quilate, com o tempero hard rock que acaba dando a personalidade única do Sons of Apollo. As demais faixas do disco soam mais concisas porém não menos complexas, e demonstram que a banda consegue ser objetiva equilibrando egos e currículos em composições que funcionam de maneira imediata.

Confesso que tinha uma expectativa bastante elevada em relação a esse disco, porém não imaginava que ele seria tão bom quanto realmente é. Com uma estreia de tão alto nível, o Sons of Apollo coloca-se de maneira instantânea como a provável prioridade das carreiras de todos os envolvidos - ok, talvez Billy Sheehan ainda deixe o Mr. Big um pouco mais à frente. Que vários novos álbuns venham no futuro: isso é o que desejo para os poderosos Filhos de Apollo!


2 de out de 2017

Review: Myrkur - Mareridt (2017)

segunda-feira, outubro 02, 2017

Alguém já ouviu falar de blackgaze ou post-black metal? Nesses últimos anos, o black metal tem tomado formas interessantes a fim ganhar novos seguidores. No entanto, a questão que fica no ar é: será que existe black metal além das fronteiras extremas? A resposta está no segundo álbum da banda Myrkur, chamado Mareridt, que significa pesadelo em português.

Por trás da banda existe uma mulher chamada Amalie Bruun, que tem 32 anos e 11 de atividade em carreira solo, com With Ex Cops e, o mais recente e mais famoso até aqui, Myrkur. Ela é a responsável por todos os arranjos que encorpam este disco durante seus 38 minutos e 19 segundos ou pouco mais de 52 minutos na versão deluxe. 

Em Mareridt, Amalie foge um pouco do black metal em M (disco de estreia, lançado em 2015) e reveza entre leveza e agressividade em alguns pontos. É importante salientar que este álbum foi produzido entre Copenhague e Seattle, o que dá um toque mais melancólico e trevoso nas canções, como iremos explicar nos próximos parágrafos.

A primeira faixa “Mareridt”, que dá nome ao disco, começa com um cântico chamado kulning, uma antiga forma escandinava usada para chamar rebanhos, como se Amalie estivesse invocando alguma divindade dentro desse seu pesadelo. Em "Måneblôt", saímos da tormenta rumo a uma gritaria ensandecida em sua introdução, na qual ela volta a suavidade com o uso do Nyckelharpa, que é um instrumento de origem sueca, como se fosse o hurdy gurdy na música céltica e folclórica. “The Serpent” tem uma pegada gótica que faz você se sentir dentro de um seriado como Game of Thrones, num tom hipnotizante em que a vocalista exerce com qualidade. “Crown” faz uso de instrumentos como violino e percussão folclórica tocados com suavidade, em que nos faz sentir dentro de alguma floresta da Escandinávia. Em “Elleskudt” vemos Amalie te chamar para o campo de batalha em direção ao desconhecido, onde temos uma batida ora folk, ora doom metal. 

“De Tie Piker” abre a segunda parte do álbum com o kulning novamente sendo evocado com toques acústicos. “Funeral” mostra ritmos góticos com explosões sonoras de doom metal, em que conta com a participação da cantora Chelsea Wolfe, mostrando um ótimo entrosamento entre as duas, que, aliás, são grandes amigas. “Ulvinde”, umas das principais faixas do disco e lançada como single de divulgação, coloca a banda de volta ao pesadelo, cercada de um coro formada por várias vozes femininas e com Bruun transtornada aos berros, num excelente black metal. “Gladiatrix” é mais uma faixa que cai numa batida folclórica e desagua num ritmo blackgaze - olha o termo a que me referi no primeiro parágrafo? “Kætteren" é um mini epic folk que parece sair da trilha sonora do seriado Vikings. "Børnehjem" encerra o disco com vozes distorcidas saídas dentro de sua mente, como se estivéssemos entrando em paranoia. Na versão deluxe ainda temos mais quatro faixas: “Death of Days”, “Kvindelil” (com mais uma participação de Chelsea Wolfe), "Løven" e “Himlen Blev Sort”.

O Myrkur se destaca por toda a doação de Amalie Bruun nesse projeto, por meio de todos os arranjos feitos em instrumentos como mandola, violino, percussão folclórica, nyckelharpa e kulning. Aqui estão presentes ritmos como black metal (de maneira mais moderada), blackgaze (uma mistura de shoegaze com black metal), folk e gothic. Mareridt fala de sonhos e de batalhas mentais que travamos em nosso dia a dia. Se você tiver uma cabeça mais aberta a sonoridades diferentes dentro do metal, vai te hipnotizar do início ao fim. 

Por Renan Esteves

27 de set de 2017

Review: Greta Van Fleet - Black Smoke Rising (2017)

quarta-feira, setembro 27, 2017

Quando o Rival Sons surgiu há alguns anos, as comparações com o Led Zeppelin foram imediatas devido à enorme influência da banda de Jimmy Page no som do quarteto californiano. Some-se a isso um vocalista com o timbre agudo que lembrava Robert Plant, um guitarrista voador com riffs influenciados por Page e um baterista que fazia questão de emular com perfeição os timbres do saudoso John Bonham, e o pacote estava completo.

Tudo isso pra dizer que temos um novo herdeiro nessa dinastia. O Greta Van Fleet vem de Michigan e lançou no final de abril o seu segundo EP, Black Smoke Rising. A sonoridade é um hard blues que bebe direto da fonte do Led Zeppelin, de maneira até mais explícita que o Rival Sons. O disquinho tem apenas quatro músicas, todas excelentes, e que mostram que o grupo possui potencial para fazer muito barulho nos próximos anos.

Formado pelos irmão Joshua (vocal), Jacob (guitarra) e Samuel Kiszka (baixo e teclado), mais o baterista Daniel Wagner, o Greta Van Fleet entrega um rock puro e repleto de energia, que lembra muito os primeiros álbuns da banda de Page e Plant. A sensação é de estar ouvindo canções vindas diretamente do Led Zeppelin II, e isso é um tremendo elogio. 

Os principais pontos para isso tudo são a voz e a interpretação de Joshua. O rapaz soa como uma versão mais jovem de Robert Plant, incluindo na receita as explosões vocais típicas do Golden God. A semelhança chega a ser assustadora - ouça “Flower Power” e comprove.

Curiosamente, a única faixa em que a banda consegue se distanciar do universo do Led Zeppelin é a que batiza o disco. A música que dá nome ao EP é um hard meio funkeado e com cheiro de estrada, onde o quarteto tenta trilhar um caminho com mais personalidade e alcança um bom resultado.

Resumindo: este EP do Greta Van Fleet é ótimo e um senhor disco de rock. Ouça, você vai curtir e se divertir!

Review: The War on Drugs - A Deeper Understanding (2017)

quarta-feira, setembro 27, 2017

Não, eu passo longe de um resenhista musical, pouco domino os termos mais técnicos e, não raras vezes, sou incapaz de traçar paralelos com momentos distintos de outras bandas, num exercício que Gastão Moreira faria de ouvidos tapados, observando o encarte apenas. Daí, então, perguntarão: o que faz aqui? Como todo bom ouvinte, que sabe ao menos que música se faz polarizada – a boa e a ruim -, eu gosto de discutir alguns álbuns. E não costumo gastar muitas palavras para aquilo que julgo irrelevante, afinal, demanda certo exercício cerebral e dispenso a fadiga.

Breve introdução feita. Vamos ao álbum.

2017 tem sido um ano estranho. Vi bons lançamentos, claro, mas pouquíssimos que tragam aquela sensação de não-tem-algo-parecido-vou-escutar-de-novo, tão comum em álbuns já consagrados. Eu digo um com absoluta certeza, e que integrará muitas listas: DAMN, do Kendrick Lamar. Digo outro também, e que é o tema disso: A Deeper Understanding, do The War On Drugs.

Antes, faz-se necessário dizer o seguinte: o álbum é lindo. Não encontrei algo melhor para defini-lo numa única palavra. Se quiser parar por aqui, já deveria ser o bastante para convencê-lo a escutar. 

Esqueçamos a bibliografia & afins, o tipo de informação que possa ser contemplada numa wikipedia. 

A banda vem numa crescente desde a mudança gradual no direcionamento sonoro, acentuado no Slave Ambient (2011), seguido pelo belíssimo Lost in the Dream (2014) e que culminou neste que aqui é um pouco comentado. Vale dizer: Ouçam todos.

Voltando ao A Deeper Understanding: a duração é atípica para uma era de informações superficiais, de fácil digestão. A faixa mais curta tem quatro minutos, enquanto as demais superam a casa dos cinco, sendo a mais longa com onze minutos e pouquinho - a duração total do álbum bate em uma hora e seis minutos, segundo o streaming. Contudo, em momento algum é enfadonho ou cansativo, tem fluidez, algo que tem sido um grande defeito em muitos álbuns de rock, seja indie, alternativo ou mais tradicional mesmo. 

Há, também, uma delicadeza, certa sensação de fragilidade talvez, no canto do vocalista que acalenta os ouvidos. As músicas parecem sempre estar prontas a se desmancharem e se perderem pelo ar, com a mesma agilidade que esquecemos um sonho bom no simples abrir dos olhos. É isso: cada faixa surge como uma camada que resulta num estágio do sono, tal o esmero que Adam Granduciel teve ao criar os sons, pinçando cada acorde, cada palavra, a melodia e os colocando um a um na composição. Não sei, aliás, qual será a sensação de quem se atrever a escutar o disco, entretanto, quando o ouvi, senti um inevitável universo de sensações, podendo ser uma euforia ou melancolia, até urgência, sabe-se lá a razão. Creio eu ser esta uma característica dos grandes álbuns, como este se revelou ao longo da audição. No mais, um trabalho dedicado, certamente, de horas a fio em busca do REM musical.

Por Pietro Mirandez

26 de set de 2017

Review: Hellish War - Keep It Hellish (2013)

terça-feira, setembro 26, 2017

Lançado originalmente em 2013, Keep It Hellish é o terceiro (e mais recente) disco da banda paulista Hellish War. Natural de Campinas, o quinteto formado por Bil Martins (vocal), Vulcano (guitarra), Daniel Job (guitarra), JR (baixo) e Daniel Person (bateria) é um dos principais representantes do metal tradicional made in Brazil, e este álbum mostra o porque.

Mas qual é a razão de escrever sobre um CD lançado há quatro anos, alguns podem perguntar. Em primeiro lugar, boa música não tem idade. E em segundo, a gravadora me enviou este CD recentemente, então gostaria de compartilhar as minhas impressões com vocês.

Um ponto que chama a atenção de saída é a excelente produção, que faz com que Keep It Hellish possua uma sonoridade alinhada ao que nomes como HammerFall e Accept, por exemplo, fizeram em seus melhores momentos. Em termos de estilo, trata-se de um metal tradicional com pitadas de power e até mesmo de hard rock, o que constrói, além da musicalidade cativante e repleta de melodia, uma onipresente energia. A performance da banda, tecnicamente afiada, torna tudo ainda mais forte e eficiente, passando aquela agradável sensação de estarmos ouvindo uma espécie de ‘greatest hits’ e não um disco de linha. E tudo fica ainda melhor encaixado com dois ingredientes entregues à perfeição: os coros vocais e as harmonias de guitarra.

São dez faixas, todas cantadas em inglês, e que solidificaram a já excelente impressão que eu tinha sobre a banda - conheci o trabalho dos caras lá em 2008, com o seu segundo disco, Heroes of Tomorrow.

Se você curte, por exemplo, o que o HammerFall fez em seus dois primeiros discos - Glory to the Brave (1997) e Legacy of Kings (1998) -, encontrará em Keep It Hellish uma evolução natural do trabalho dos suecos, acrescida, evidentemente, do toque pessoal do Hellish War.

Metal tradicional de altíssima quilate!



21 de set de 2017

Review: NervoChaos - Nyctophilia (2017)

quinta-feira, setembro 21, 2017

Uma das mais tradicionais forças do death metal brasileiro, o NervoChaos lançou em abril o seu sétimo disco. Nyctophilia é o sucessor de The Art of Vengeance (2014) e foi disponibilizado pela Cogumelo Records no Brasil e pela Greayhaze Records na América do Norte e na Europa.

O CD, gravado na Itália, traz treze faixas e foi produzido por Alex Azzali. E o trabalho do rapaz é responsável por entregar timbres cheios e violentos, que tornam a música do NervoChaos ainda mais eficiente.

Nyctophilia, que é o termo usado para classificar aqueles que sentem atração pela noite ou pela escuridão, marca a estreia em estúdio da atual formação do quarteto: Lauro Nightrealm (vocal e guitarra), Cherry (guitarra), Thiago Anduscias (baixo) e Edu (bateria).

Musicalmente, o que temos é uma abordagem predominantemente death metal, com incursões pontuais pelo thrash e pelo death n’ roll (a ótima “Ad Marjorem Satanae Gloriam” é um exemplo perfeito). Essa característica adiciona pluralidade ao som do NervoChaos, tornando-o mais rico e atraente. O peso é onipresente e, somado à ótima performance vocal de Lauro, torna a audição do trabalho uma experiência incrivelmente recompensadora.

Sem dever nada aos principais nomes do gênero em todo o mundo, o NervoChaos alcançou em Nyctophilia um de seus melhores álbuns, solidificando um line-up que já tem rodado o Brasil e o mundo em diversos shows nos últimos dois anos e que aqui ganha, espero sinceramente, o primeiro de uma série de registros em estúdio. Além disso, trata-se sem dúvida de uma das melhores formações da banda, tanto técnica quanto criativamente, e o resultado está exposto de forma clara e explícita nas canções que compõe o disco.

Pancada boa!

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