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23 de jun de 2017

Review: Iced Earth - Incorruptible (2017)

sexta-feira, junho 23, 2017

Eu acho que o Iced Earth é uma banda que se perdeu. O grupo liderado pelo guitarrista Jon Schaffer trabalhou pra caramba pra subir passo a passo, disco a disco, e no meio desse processo brindou os fãs de heavy metal com obras-primas como The Dark Saga (1996) e Something Wicked This Way Comes (1998), dois dos principais álbuns de metal gravados durante os anos 1990.

No entanto, a saída do vocalista Matt Barlow em 2003 abalou de maneira profunda as estruturas do grupo. O cara voltou em 2007 e deixou a banda em definitivo em 2011, sendo substituído por Stu Block. E lá entre 2003 e 2007 teve o seu posto ocupado pelo operário Tim “Ripper" Owens. Todo esse processo resultou em discos confusos e medianos como a continuação da saga Something Wicked nos desnecessários Framing Armageddon (2007) e The Crucible of Man (2008). E sim, acho The Glorious Burden (2004), gravado com Owens, um baita disco.

Incorruptible, terceiro álbum com Block, foi lançado em 16 de junho. O CD tem dez faixas e foi produzido pelo próprio Jon Schaffer. Além disso, marca a estreia em estúdio do guitarrista Jake Dreyer (Jag Panzer, Kobra and the Lotus) e o retorno do baterista Brent Smedley. O baixista Luke Appleton completa o time.

O que temos aqui é o retomada da boa impressão causada por Dystopia (2011), estreia de Stu Block, e que foi devidamente jogada no lixo com Plagues of Babylon (2014), o decepcionante segundo trabalho gravado com o vocalista. Evidentemente, o Iced Earth não reinventa a roda e não inova em sua sonoridade, mas isso não é algo que precise ser feito em uma banda como essa. O que temos é o power metal contagiante que sempre caracterizou a banda, com ótimos riffs, fortes linhas vocais e refrãos épicos. Sem virar a sua sonoridade do avesso, Schaffer e companhia conseguem entregar um trabalho atraente e que retoma a refrescância da música do Iced Earth, com direito a uma excelente faixa instrumental como a incrível "Ghost Dance (Awaken the Ancestors)".

Incorruptible não é o melhor disco do Iced Earth, mas está muito distante dos piores momentos da banda. Trata-se de um álbum forte e consistente, que demonstra que os norte-americanos ainda tem o que mostrar e possuem combustível e inspiração para manter o seu status como uma das bandas mais tradicionais e relevantes do power metal.

Vale a pena, ainda mais porque o disco terá uma edição nacional pela Hellion Records.

22 de jun de 2017

Review: Mad Monkees - Mad Monkees (2017)

quinta-feira, junho 22, 2017

O Mad Monkees vem de Fortaleza e é uma ótima dica pra quem acha que não existe nada de legal acontecendo no rock brasileiro. Spoiler: sempre existe, e aos montes. E este quarteto é uma dessas novas novidades.

Formado em 2015, o grupo conta com Felipe Cazaux (vocal e guitarra, veterano da cena blues cearense com quase vinte anos de carreira), Capoo Polacco (guitarra), Hamilton de Castro (baixo) e PH Barcellos (bateria). A proposta da banda é fazer um rock direto e centrado nos riffs de guitarra, com influências de stoner e de nomes como Hellacopters, Monster Truck, Black Sabbath (“Deamons and Angels” é um belo tributo aos lendários ingleses), Mountain (olha o cowbell marcando o ritmo em “Love Yourself”) e até umas pitadinhas sutis - mas bem sutis mesmo, tanto que tô achando que não passam de uma viagem minha - de Mastodon.

A estreia auto-intitulada saiu recentemente e vem na sequência do EP liberado em setembro de 2015. Temos dez músicas, todas cantadas em inglês. A produção é de Carlos Eduardo Miranda, o cara que revelou Raimundos, Mundo Livre S/A e mais um monte de gente quando esteve à frente so selo Banguela, criado pelos Titãs nos anos 1990. Participações especiais de Emmily Barreto (do Far From Alaska) em “I Cannot Feel” e de Anderson Kratsch em “Cold Sparkle” abrilhantam ainda mais o material.

O Mad Monkess soa redondo neste disco de estreia, mostrando-se pronto para conquistar novos corações e mentes. Músicas bem desenvolvidas com tudo no lugar, sem exageros e girando sempre em torno dos três minutos reforçam a eficácia do grupo, em um disco que transborda energia em seus 32 minutos de duração.

Tá querendo conhecer uma nova banda brasileira legal pra caramba? Então acabou de encontrar, amiguinho!

Ao Mad Monkees, apenas duas palavras: PARA-BÉNS pelo excelente disco, e que os anos que estão por vir sejam recheados de boas novidades e ótimas canções como essas apresentadas neste debut.



21 de jun de 2017

Review: Zé Bigode - Fluxo (2017)

quarta-feira, junho 21, 2017

O Brasil é um país musical. Sempre foi e sempre será. Ainda que hoje em dia a música popular brasileira, ou melhor, a música que é popular entre os brasileiros, seja de uma qualidade sofrível, o país segue pulsando no ritmo dos bons sons. Basta deixar a preguiça de lado e raspar um pouquinho a casca do que chega até os ouvidos para perceber isso.

O Zé Bigode á um exemplo desta qualidade inequívoca e inerente à música brasileira. Ainda que o  guitarrista Zé Bigode seja o idealizador do projeto e tenha o seu nome estampado na capa, estamos falando, na prática, de um grupo formado por quinze excelentes instrumentistas. O idioma musical apresentado em Fluxo, primeiro disco da turma, é universal: música instrumental construída a partir de influências de jazz, samba, baião, reggae e inegáveis elementos africanos e cubanos.

São oito faixas que partem de temas e harmonias concebidos por Zé Bigode, mas que tem os arranjos desenvolvidos de forma coletiva - a única exceção é "Marijuana Monamour", escrita por Fernando Grilo. Tudo ao vivo no estúdio, com solos tocados de improviso durante a captação. Isso faz com que tenhamos uma sonoridade não apenas pulsante, mas extremamente viva e contagiante.

Musicalmente, Fluxo agradará em cheio quem é fã dos primeiros discos da Banda Black Rio por exemplo, só pra usar uma referência mais antiga, e também quem aprecia a sonoridade dos paulistas do Bixiga 70, indo no outro extremo e trazendo pra roda uma referência contemporânea.

Deliciosamente musical, Fluxo é um trabalho riquíssimo e que tem como elemento principal a guitarra jazzística de Zé Bigode e a dupla de metais formada por Victor Lemos (saxofone) e Thiago Garcia (trompete), que brilham durante todo o álbum, seja nas harmonias ou nos solos. E o resto da banda não fica atrás, despejando groove e feeling em cada canção.

Este é um dos melhores discos gravados aqui no Brasil neste ano de 2017. Se você gosta de boa música e não tem medo de ir além, ouça e descubra um trabalho incrível.




Review: Sanctuary - Inception (2017)

quarta-feira, junho 21, 2017

O Sanctuary é uma das bandas mais cultuadas do metal oitentista norte-americano. Formada em Seattle em 1985, permaneceu apenas sete anos em atividade e foi o berço para o nascimento de outro gigante do metal dos Estados Unidos: o Nevermore. Warrel Dane, vocalista de ambas as bandas, é o ponto de ligação entre estes dois universos.

Na primeira fase da carreira do grupo foram lançados apenas dois álbuns: Refuge Denied (1988) e Into the Mirror Black (1990) - este último, um verdadeiro clássico. Após anos de pausa, onde Dane se dedicou ao Nevermore, o Sanctuary retornou totalmente reformulado em 2010, contando com o trio original Warrel Dane, Lenny Rutledge (guitarra) e Dave Budbill (bateria) ao lado de Jeff Loomis (guitarra) e Jim Sheppard (baixo), estes dois últimos parceiros de Warrel no Nevermore. Na sequência, Nick Cordle e George Hernandez substituíram Loomis e Sheppard e o grupo lançou um disco inédito: The Year the Sun Died (2014).

Inception, disponibilizado este ano lá fora e que saiu aqui no Brasil pela Hellion Records, é um apanhado de faixas demo dadas como perdidas e encontradas no celeiro do guitarrista Lenny Rutledge. Praticamente todas estão presentes no disco de estreia do grupo, Refuge Denied (1988), mas em versões diferentes. As exceções são “Dreams of Incubus” e “I Am Insane”. 

Apesar de originalmente demos, essas composições passaram por um processo violento de remasterização a cargo do produtor Zeuss, resultando em uma sonoridade cheia e bastante atual, e que nada lembra os estágios iniciais de canções clássicas. Ainda que um certo ar de ingenuidade e até de exagero permeiem as faixas, principalmente em relação aos vocais de Warrel Dane, que soam exageradamente agudos e distantes do que nos habituamos a ouvir no Nevermore, Inception trata-se de um item de inegável valor por demonstrar, de maneira clara, o quanto o Sanctuary já era diferenciado desde o início de sua carreira.

Se você é fã de metal dos anos 1980, eis aqui um item imperdível.

19 de jun de 2017

Review: Motherwood - Motherwood (2017)

segunda-feira, junho 19, 2017

O Motherwood é uma novidade muito bem-vinda na cena black metal brasileira. Natural de Americana (SP), a banda é um duo formado por Guilherme Malosso (com passagens pelo DeathTron e Minottauro) e Yuri Camargo (DeathTron, Mecatênia). O grupo foi formado em 2016 e lançou em 2017 as suas duas primeiras faixas, “Coldness" e “Sadness”.

A proposta do Motherwood é produzir uma música que une elementos de doom e black metal adornados por passagens atmosféricas, influenciada por nomes como Katatonia, Opeth, Burzum e Emperor. E isso é apresentado ao público através de um single batizado apenas com o nome da banda, lançado pela Heavy Metal Rock.

A produção já chama a atenção logo de cara, com timbres, peso e mixagem excelentes, que tornam audíveis e acima de tudo agressivos todos os instrumentos, o que é sempre um ponto importante quando falamos do metal extremo, rico em andamentos rápidos e arranjos intrincados. O que impressiona no trabalho do Motherwood é a qualidade apresentado por Malosso e Camargo, com músicas muito bem desenvolvidas, com alto nível de execução técnica e aquela clima apaixonante que o black metal é capaz de entregar.

Como primeira prévia de um futuro disco - o próprio release informa que a banda já tem sete músicas finalizadas -, este single deixa uma enorme curiosidade sobre o que pode vir no futuro. Com boas mudanças de dinâmicas, melodias sempre presentes e evidentes influências de Burzum e Opeth, principalmente, o Motherwood chega mostrando que mais uma ótima banda está nascendo.

Parabéns pelo trabalho, rapazes. E que o disco de estreia chegue logo por aqui também!




18 de jun de 2017

Review: Vento Motivo - Sol Entre Nuvens (2016)

domingo, junho 18, 2017

O Vento Motivo vem de São Paulo e está na estrada há mais de quinze anos. O trio é formado por Fernando Ceah (vocal e guitarra), Ivan Isoldi (baixo) e Binho (bateria) e lançou no final de 2016 o seu quinto disco, o EP Sol Entre Nuvens. São apenas cinco faixas, incluindo uma versão para "Um Dia, Um Adeus", de Guilherme Arantes.

Tudo soa bem encaixado no trabalho do Vento Motivo, com soluções bem resolvidas e arranjos simples, mas sempre eficientes. Musicalmente, o que temos é um pop rock competente e bastante maduro, e que traz bastante influência de Engenheiros do Hawaii. Isso se percebe tanto na parte musical quanto na maneira como as letras são construídas, com a presença pontual de frases de efeito e de duplo sentido, e culmina com a semelhança entre a voz de Fernando Ceah e Humberto Gessinger. 


Em relação ao cover de Guilherme Arantes, temos uma releitura consistente, que inicia como reggae e evoluiu para um gostoso pop rock que renova a criação do compositor carioca, um dos principais hitmakers do Brasil.

Ao final do EP, a sensação é de termos ouvido uma versão paulista do Engenheiros do Hawaii, que navega na mesma seara musical dos gaúchos mas possui outras referências líricas para contar suas histórias. O trabalho do Vento Motivo é inegavelmene bom e a similaridade com uma das bandas mais amadas nos quatro cantos do país pode abrir portas, porém um toque um pouquinho mais original faria bem ao trio.

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13 de jun de 2017

Review: Lord Blasphemate - Lucifer Prometheus (2017)

terça-feira, junho 13, 2017

Na estrada desde 1992, o Lord Blasphemate lançou em maio o seu quarto disco, Lucifer Prometheus. O trabalho saiu pelo selo Heavy Metal Rock e é o sucessor de The Sun That Never Dies … (1997), A Restless Shelter Under the Remote Star (2006), Ophisophia (2013) e do EP Opus Gnosticum Satannae (2014).

Um dos pontos principais do Lord Blasphemate é a temática lírica, que explora elementos de filosofia thelêmica e do luciferianismo. O Thelema, palavra grega que significa “verdade”, é uma filosofia religiosa desenvolvida no início do século XX pelo cultuado escritor e mago inglês Aleister Crowley e reconhecida como uma religião no Reino Unido em 2009. Um dos preceitos mais conhecidos é a Lei Thelêmica, popularizada no Brasil por Raul Seixas na canção “Sociedade Alternativa” ao cantar a plenos pulmões o ensinamento de Crowley: “faça o que tu queres pois é tudo da lei”. 

Já o luciferianismo é um conjunto de crenças centrado na figura de Lúcifer, o anjo caído. Suas origens estão nas práticas pagãs da Grécia antiga, que enxergam Lúcifer como o Portador da Luz e a personificação do esclarecimento. A principal filosofia do luciferianismo é a busca da divindade dentro de cada um de nós como elemento essencial para o caminho da verdade, encontrando assim a consciência, o conhecimento e o livre arbítrio.

Lucifer Prometheus traz oito faixas, sendo que duas ultrapassam os dez minutos de duração e uma supera os quinze. Musicalmente, temos um black metal voltada para a escola norueguesa do início dos anos 1990, construído pela tríade guitarra-baixo-bateria e sem a presença de teclados. Ou seja, e apenas para efeito de localização do leitor: soa muito mais como Mayhem e Burzum e não tem nada a ver com Dimmu Borgir e similares. Essa escolha, aliada à alternância de movimentos rítmicos, conduz o ouvinte por estados de consciência alternativos e sempre crescentes, como que retirando-o do seu cotidiano e inserindo-o, aos poucos, em um universo regido pela filosofia do grupo.

Muito mais do que apenas um disco, Lucifer Prometheus funciona como uma obra artística muito mais profunda, como ferramenta de expressão e propagação de um modo de vida. A busca pelo auto-conhecimento pregada tanto por Crowley quanto pelo luciferianismo é explorada de maneira criativa pelo grupo, e este aspecto é embalado em canções fortes, criativas e que mostram a capacidade da banda em conseguir traduzir para a linguagem musical aquilo em que acredita. A ótima produção só deixar a mensagem ainda mais forte.

No final, a experiência de ouvir Lucifer Prometheus se revela muito mais completa do que a de apenas escutar um disco. O que o trabalho proporciona é a quebra de paradigmas milenares de uma sociedade construída sobre uma estrututa religiosa responsável pela morte de milhões de pessoas (sim, estou falando do cristianismo) ao mesmo tempo em que apresenta uma visão alternativa aos dogmas espirituais tão necessários ao ser humano. Ou seja, tudo que um bom e competente disco de black metal deveria fazer.

12 de jun de 2017

Review: Trem Fantasma - Lapso (2016)

segunda-feira, junho 12, 2017

Por vários momentos, o rock mundial alcançou status de arte. Daria pra citar dezenas de bons exemplos, mas esse não é o caso. Não que a estreia fonográfica do grupo em questão esteja isenta de caráter artístico, pelo contrário. O mote apenas é reavivado para ilustrar as linhas iniciais daquilo que percebo do CD de estreia da banda paranaense Trem Fantasma. 


Pra início de conversa, uma boa arte de um álbum sempre faz a diferença, e Lapso, que foi lançado em 2016 (mas só conheço agora) tem a assinatura do artista Pietro Domiciano, com ilustrações interessantíssimas ao estilo do que o poeta francês Jean Cocteau se utilizou em Ópio, livro lançado aqui no país nos anos 1980 pela Brasiliense. O cuidado e a coerência estética das artes do CD já nos instigam a começar a audição com o encarte na mão, isso segundos depois de rasgar o celofane que envolve o produto. Foi  que fiz. 


E essa correlação com outros gêneros artísticos segue, já que em duas músicas o grupo pinça poemas do escritor curitibano Paulo Leminski para compor "O Silêncio e o Estrondo" e "Lua Alta". Num país onde letras de canções são tão maltratadas (falando principalmente daquilo que se ouve nas FMs pelo público médio), o sumo poético é também uma das virtudes do quarteto composto por Marcos Dank (guitarra, violão e voz), Leonardo Montenegro (violão, guitarra, piano, órgão, synth e vocais de apoio), Rayman Juk (baixo, piano, órgão, synth e voz) e Yuri Vasselai (bateria, percussão e voz). 


Lançado pelo Selo 180 Fonográfico, o disco é produzido a quatro mãos por Sanjai Cardoso e Beto Bruno (Cachorro Grande), com arremate final a cargo da masterização de Rob Grant, na Austrália, mesmo nome que já assinou álbuns de nomes importantes do rock atual como Tame Impala. 


Em pouco mais de 30 minutos, Lapso é um álbum que bate na pinha do ouvinte acostumado (e carente) por boas bandas/artistas ligados ao rock progressivo cantado em português. E a opção em tingir o vocal principal de um reverber onipresente, não apenas carimba o disco com ares saudosos dos anos 1970 como ainda nos conecta a diversas lembranças do gênero. Além das já citadas faixas rebuscadas com esboços poéticos de Paulo Leminski, ouça com atenção temas como "Tua Nuvem", "Sem Rumo", "Antimatéria" e  "Pesadelo", essa última composta em parceria com Pedro Pelotas (Cachorro Grande), que também toca piano na faixa.  


Ouça na íntegra.




Por Márcio Grings, do Grings Memorabília 

8 de jun de 2017

Review: Yannick - Também Conhecido Como Afro Samurai (2016)

quinta-feira, junho 08, 2017

De cara, o que chama a atenção neste EP de estreia do rapper Yannick Hara é a temática das letras. Elas são inspiradas no mangá Afro Samurai, de Takashi Okazaki, publicado entre setembro de 1999 e maio de 2000. No Japão a história saiu em um único volume, enquanto no restante do mundo foi dividido em dois. O enredo conta a história de um samurai negro e é fortemente influenciado pela blaxploitation, movimento do cinema norte-americano do início da década de 1970 focado na valorização da cultura negra. O mangá foi adaptado para o anime, que estreou em janeiro de 2007 e teve cinco episódios. No Brasil, o título foi publicado no final de 2009 pela Panini Mangás, enquanto o anime passou na MTV.

Desde o início, a obra de Okasaki teve forte ligação com a música, com a trilha-sonora do anime sendo composta por RZA, integrante do combo Wu-Tang Clan. Essa associação segue com o trabalho de Yannick.


São apenas oito faixas em 28 minutos, que traduzem a trama para as canções de Yannick. Musicalmente, temos um hip-hop com batidas fortes e melodias que remetem à cultura japonesa, tudo feito de maneira orgânica e pulsante e com direito a participações de nomes com associação direta com o rock como Dieguito Reis do Vivendo do Ócio, Paula Malvar do Vó Tereza e do rap como Pedro Camargo da Ol Darth Bastard. 

O timbre de voz de Yannick lembra, ainda que sutilmente, a de Thayde, o que traz boas recordações que ficam ainda mais acentuadas pelo sotaque paulista. Mas, como já dito, Yannick ganha atenção pela originalidade de sua abordagem, trilhando pelo caminho do mangá-rap com autoridade e firmeza.

Entre as faixas, destaque para “Jinno" e a ótima música que dá nome ao EP, que vem em duas versões, incluindo um delicioso remix.

Também Conhecido Como Afro Samurai é uma bela estreia de um cara que chega atraindo a atenção, com um trabalho bem feito e que tem tudo para render belos frutos nos próximos anos. Ouça!


Review: Hagbard - Rise of the Sea King (2013) e Vortex to an Iron Age (2016)

quinta-feira, junho 08, 2017

Ninguém conhece tudo, não é mesmo? Eu, por exemplo, nunca tinha escutado o Hagbard, apesar de já ter ouvido muito gente falar bem da banda. Até que recebi do selo Heavy Metal Rock os dois discos do grupo. Vamos a eles então.

O Hagbard foi formado em Juiz de Fora em 2010 e faz um folk/viking metal. Após duas demos, lançou em 2013 o seu primeiro disco - Rise of the Sea King -, enquanto que o segundo e mais recente trabalho, Vortex to an Iron Age, saiu no segundo semestre de 2016.

A banda é formada por Igor Rhein (vocal), Gabriel Soares (teclado, flauta e vocal), Danilo “Marreta" Souza (guitarra), Rômulo “Sancho" Piovezana (baixo) e Everton Moreira (bateria). Musicalmente, o quinteto apresenta influência de nomes como Blind Guardian, Turisas, Amon Amarth e segue a sonoridade habitual do estilo, intercalando riffs pesados, melodia onipresente e a inserção de instrumentos atípicos ao heavy metal, como flauta, violino e outros. O predomínio do vocal gutural contrasta de maneira agradável com o instrumental que traz elementos de power metal, montando um quebra-cabeça interessante.



Pessoalmente, achei o disco de 2013 muito mais consistente do que o segundo álbum do grupo. Em Rise of the Sea King há uma agressividade e uma violência inerentes, fazendo com que a pegada do Hagbard aproxime-se das áreas mais extremas da música pesada, o que soa como uma espécie de yin-yang constante. Já no segundo disco há uma suavizada geral nesse aspecto, com o lado agressivo ficando em segundo plano enquanto temos a acentuação de uma sonoridade que tenta ser mais elaborada e intrincada, mas que, infelizmente, acaba não encontrando um equilíbrio e perde a personalidade que havia mostrado na estreia. Isso não quer dizer que Vortex to an Iron Age seja um disco ruim, longe disso, mas ao ouvir os dois CDs em sequência sem nunca ter escutado a banda, fiquei esperando um trabalho muito mas forte depois da ótima impressão causada por Rise of the Sea King.

Inegavelmente, o Hagbard possui talento e capacidade para crescer e se tornar uma referência não apenas no Brasil, mas é preciso definir melhor o caminho que a banda pretende seguir em seus próximos passos. Se eu puder dar uma dica, aí vai ela: retomem a agressividade e a violência sonora da estreia, inserindo melodias e aspectos folclóricos a partir dela, nunca deixando de lado isso. Acredito que é por aí que o grupo pode crescer e se desenvolver cada vez mais.

7 de jun de 2017

Review: Patria - Magna Adversia (2017)

quarta-feira, junho 07, 2017

O metal extremo brasileiro sempre foi pródigo em gerar belas bandas que impactaram não apenas a cena local, mas também ganharam o mundo com sua música. Sepultura e Krisiun são os nomes mais óbvios de uma lista extensa e em crescimento constante, na qual a criatividade inerente é o principal diferencial.

O quinteto gaúcho Patria é mais um dos nomes a alcançar reconhecimento mundial. Na estrada desde 2008, a banda conta com nomes experientes em sua formação como o multi-instrumentista Mantus e o vocalista Triumphsword, veteranos com passagens por bandas como Mysteriis e Thorns of Evil. O background de ambos conduz a banda por caminhos próprios e cheios de personalidade, resultando em uma sonoridade cativante e atual.

Magna Adversia é o sexto disco do grupo e foi lançado pela Soulseller Records no mercado europeu no início de março. No Brasil, o álbum veio em um caprichado digipak pelo tradicional selo Heavy Metal Rock. O disco tem a produção de Oystein G. Brun, do Borknagar, e conta com as participações especiais do baterista Asgeir Mickelson (Ihsahn, Borknagar) e de Fabiano Penna (Rebaelliun) nos arranjos orquestrados. A bela capa é criação do próprio Mantus, que possui uma carreira consolidada como artista gráfico em que assina com o seu próprio nome, Marcelo Vasco, e onde já produziu artes para grandes bandas como Slayer, Machine Head, Kreator e outras.

Magna Adversia possui dez músicas que entregam um black metal muito bem feito, que consegue equilibrar influências da cena norueguesa do início da década de 1990 com nomes mais atuais como Behemoth, Enslaved e outros. O resultado é uma música agressiva e violenta, é claro, mas extremamente cativante. A ótima produção torna as faixas ainda mais fortes, com timbres excelentes e “cheios”, “gordurosos" e pesadíssimos. As orquestrações são muito encaixadas e não se sobressaem de maneira expressiva como ouvimos no Dimmu Borgir e no Cradle of Filth, por exemplo, e ajudam a tornar as músicas ainda mais épicas e climáticas.

Trabalhando o andamento e o ritmo das canções como movimentos de uma orquestra sonora vinda das profundezas, o Patria consegue fazer com que as dez faixas de Magna Adversia soem todas relevantes, com tudo no lugar e sem nada sobrando. O nível alcançado pelos caras é astronômico, rivalizando com os grandes nomes do metal extremo atual. Não à toa, o disco foi celebrado por veículos reconhecidos como a Metal Hammer alemã e o site norte-americano Invisible Oranges.

Gosto de ter a minha própria opinião em tudo, pensar com o meu próprio cérebro e agir de maneira independente, mas nesse caso vou concordar com a maioria: Magna Adversia é um disco sensacional, que mostra o quão alto é o nível atual do Patria. Não há nada aqui que fique devendo a qualquer banda, muito pelo contrário: o que o grupo brasileiro apresentou tem potencial para influenciar nomes dos quatro cantos do mundo.

Se você é fã de black metal e de sonoridades extremas, este é um disco obrigatório. Se esta não é a sua praia, eis aqui uma ótima oportunidade de conhecer e se apaixonar por uma banda incrível.


6 de jun de 2017

Review: Roger Waters - Is This the Life We Really Want? (2017)

terça-feira, junho 06, 2017

Lançado no dia 2 de junho, Is This the Life We Really Want? é o primeiro disco de rock de Roger Waters em 25 anos, desde Amused to Death (1992). No período, o músico inglês revisitou diversas vezes a sua obra mais icônica, o clássico The Wall (1979), e gravou em 2005 uma ópera intitulada Ça Ira.

Ao lado de Waters em seu novo trabalho temos uma banda formada por Nigel Godrich (teclado, guitarra e arranjos, e também o produtor do álbum), Gus Seyffert (guitarra, baixo e teclado), Jonathan Wilson (guitarra e teclado), Roger Joseph Manning, Jr. (teclado), Lee Pardini (teclado), Joey Waronker (bateria), Jessica Wolfe (vocal), Holly Laessig (vocal) e David Campbell (arranjos de cordas).

Musicalmente, o que ouvimos são doze novas faixas que soam de maneira similar ao Pink Floyd pós-Dark Side of the Moon. Liricamente, é Roger Waters reafirmando o seu discurso político, tendo Donald Trump como alvo principal. A produção de Nigel Godrich (que representa para o Radiohead o que George Martin representava para os Beatles) renova a sonoridade grandiosa e épica que Waters adotou desde The Wall (1979), atualizando sua música sem perder sua essência, além de conseguir torná-la ainda mais sombria em alguns momentos, vide a ótima faixa-título.

Referências a canções antigas - “wish you were here in Guantanamo Bay!” - tornam ainda mais fortes letras nada sutis - “picture a shithouse with no fucking drains / picture a leader with no fucking brains” -, como ele faz questão de deixar claro em “Picture That”. 

E ainda que, em diversos momentos, a estrutura das canções conduza o ouvinte por um caminho que parece sempre levar a um solo de guitarra fantástico de David Gilmour, eles nunca chegam por motivos óbvios. Jonathan Wilson, o guitarrista principal, é competente pra caramba e soa sempre mais pé no chão, como se Waters o limitasse a não seguir por caminhos semelhantes aos de seu desafeto no Pink Floyd. Isso, em certos aspectos, pode frustrar quem espera encontrar um novo The Wall, mas, sinceramente, pessoas com esse pensamento certamente não acompanham de maneira próxima o trabalho de Waters, que apesar de sempre rodar dentro do universo sonoro e lírico que concebeu, jamais soou acomodado artisticamente.

Is This the Life We Really Want? é um disco sombrio, necessário e que soa como o prenúncio de um futuro nada animador, dominado cada vez mais pelos interesses de grandes conglomerados em detrimento total a nós, que estamos aqui tentando apenas viver um dia de cada vez. Mas que, ao final de sua audição, torna possível apenas uma resposta para a pergunta que propõe: "Essa é a vida que realmente queremos? Claro que não, porra!".

30 de mai de 2017

Review: The Night Flight Orchestra - Amber Galactic (2017)

terça-feira, maio 30, 2017

Contando com integrantes do Soilwork e do Arch Enemy em sua formação, o The Night Flight Orchestra surgiu em 2012 com um refrescante, excelente e divertido disco de estreia - Internal Affairs -, onde, ao lado da inegável qualidade de faixas como “West Ruth Ave” e “Siberian Queen”, ficava o interessante questionamento sobre como aqueles cinco caras que vinham da cena do death metal melódico conseguiram gravar um álbum tão bom de AOR. Discos do Journey e do Kansas estavam lado a lado nas coleções de Björn Strid e Sharlee D’Angelo aos álbuns do Morbid Angel e do Carcass? Só pode!

O fato é que a brincadeira foi muito bem aceita e aos poucos deixou de lado o ar de projeto paralelo e se transformou efetivamente em uma banda. Hoje um sexteto, o The Night Flight Orchestra lançou Skyline Whispers em 2015 e colocou Amber Galactic, o seu mais recente disco, nas lojas no último dia 19 de maio.

O álbum traz dez faixas (onze na versão em digipak e digital, além de uma música exclusiva - “Fly Tonight (Never Rewind)” - para o mercado japonês) que bebem em diversas fontes de inspiração, todas vindas da década de 1970. Mas aqui não tem nada de hard poeirento, blues rock e essas coisas. O lance segue o mesmo: AOR de qualidade, feito pra tocar no rádio e com refrãos como protagonistas. As influências vão de nomes óbvios como Journey, Toto e Kansas e chegam até referências não tão na cara assim e até um pouco inesperadas, como The Police, Supertramp e Steely Dan. E a banda ainda arrisca alguns trejeitos meio Billy Joel pelo caminho, ainda que não acerte exatamente no alvo nesta questão.

De modo geral, o disco é bastante consistente, ainda que perca o fôlego em alguns momentos. A diversão é garantida em faixas como “Star of Rio”, “Gemini” e na deliciosamente Toto “Domino”. “Jennie" mostra a banda tentando equilibrar ecos de Supertramp e Billy Joel, enquanto “Something Mysterious” vem com uma pegada épica meio Kansas.

Canção mais longa do play, “Saturn in Velvet” entrega mais de sete minutos de uma tentativa de emular o progressivo pop da segunda metade da década de 1970, de nomes como os já citados Kansas e até mesmo Journey, e o resultado é bastante positivo, ainda que a canção acabe soando meio longa demais.

Fechando o disco, a releitura para “Just Another Night”, pérola pop do primeiro álbum solo de Mick Jagger - She’s the Boss, lançado em fevereiro de 1985 - é muito divertida e teria tudo para se transformar em um baita hit se as rádios “rock" fossem mais abertas a novidades e não se limitassem ao look eterno com os mesmos nomes de sempre.

Amber Galactic é mais um bom disco do The Night Flight Orchestra, garantia de satisfação aos ouvidos e aderência certa de vários refrãos nos ouvidos. Ouça, você vai curtir.

24 de mai de 2017

Review: SoulSpell - The Second Big Bang (2017)

quarta-feira, maio 24, 2017

Quarto álbum do SoulSpell, The Second Big Bang dá sequência à trajetória da metal opera capitaneada pelo baterista Heleno Vale com mais um belo disco. O álbum tem lançamento mundial nesta quinta, 25 de maio, e chega ao mercado brasileiro no início de junho pela Hellion Records.

Como em todos os trabalhos anteriores do SoulSpell, temos aqui um disco conceitual que dá seguimento à trama que vem sendo contada desde o primeiro CD. The Second Big Bang traz doze faixas, sendo que duas delas - “Soulspell" e “Alexandria" - são novas versões para canções presentes no primeiro disco, A Legacy of Honor (2008). A produção é de Tito Falaschi, com mixagem e masterização a cargo de Denis Ward.

Além da banda titular formada por Heleno Vale (bateria), Jefferson Albert (vocal), Daisa Munhoz (vocal), Pedro Campos (vocal), Victor Emeka (vocal), Talita Quintano (vocal), Daniel Guirado (baixo), Leandro Erba (guitarra), Sérgio Pusep (guitarra) e Rodrigo Boechat (teclado), o disco traz, como é de praxe, muitos convidados especiais. Em The Second Big Bang temos a presença de Andre Matos, Arjen Lucassen, Blaze Bayley, Dani Nolden, Eduardo Ardanuy, Fábio Laguna, Fabio Lione, Frank Tischer, Jani Liimatainen, Kiko Loureiro, Markus Grösskopf, Oliver Hartmann, Ralf Scheepers, Tim “Ripper" Owens, Timo Kotipelto e Tito Falaschi. Um time de respeito, e que uma rápida passada pelo Google já deixa claras as credenciais.

Musicalmente, a banda segue trafegando pelo universo do metal melódico, em um trabalho de composição muito bem feito e que traz uma bem-vinda sensação de nostalgia em relação aos bons tempos do estilo. Mas isso não quer dizer que o disco soe datado, muito pelo contrário: os timbres são atuais, as dinâmicas das composições são atuais, fazendo tudo soar agradável e nem um pouco cansativo. A variação se dá ora pisando em terrenos mais prog como em “Horus's Eye” e “Game of Hours", ora diminuindo a velocidade em faixas como “Father and Son”. Merecem destaque também as novas versões de “Soulspell" e “Avantasia”, que com a nova interpretação conseguiram soar refrescantes como as novas canções.

O SoulSpell havia dado uma escorregada em seu último disco, Hollow’s Gathering (2012), que na minha opinião soou repetitivo e pouco criativo. No entanto, em The Second Big Bang Heleno Vale e sua turma conseguiram colocar o projeto novamente nos trilhos e o resultado é um álbum no mesmo nível de The Labyrinth of Truths (2010), segundo e até agora o melhor disco do grupo.

22 de mai de 2017

Review: Me and That Man - Songs of Love and Death (2017)

segunda-feira, maio 22, 2017

O Me and That Man é um duo formado por Adam Darski e John Porter. Adam é um dos principais ícones do metal extremo moderno e lidera o Behemoth sob a alcunha de Nergal. Porter é uma das principais referências do southern folk. Em comum entre os dois há a Polônia: Nergal é natural do país europeu e John Porter, apesar de nascido na Inglaterra, mora na Polônia desde 1976.

O que saiu dessa mistura? Um disco bonito pra caramba e que traz treze canções que caminham pelos meandros mais soturnos da rica herança musical norte-americana. Assim, temos nas canções de Songs of Love and Death, álbum lançado no final de março e cujo título faz referência ao terceiro LP do canadense Leonard Cohen (Songs of Love and Hate, de 1971), uma cativante coleção de faixas repletas de sentimento, muitas com predominância de instrumentos acústicos, e que caminham por elementos de gêneros como blues, country, folk e outros estilos da cultura musical norte-americana.


Liricamente, Adam e John exploram temas macabros e sombrios como o inferno, a morte, doses cavalares de sangue, o discurso anti-cristão e o demônio em pessoa. E essas letras, ao ganharem o acompanhamento de acordes que variam entre melodias contemplativas e momentos de êxtase coletivo e quase religioso, não só aproximam as suas mensagens do ouvinte como tornam as palavras cantadas muito mais verdadeiras e reais do que, por exemplo, quando elas vêm na companhia da violência e da instrumentação quase barroca do Behemoth.

Songs of Love and Death traz influências de nomes como o já citado Leonard Cohen, Johnny Cash, Nick Cave e Mark Lanegan, com arranjos que primam pelo minimalismo e com uma mixagem crua, que é capaz de transportar o ouvinte para uma encruzilhada perdida no meio do Texas, onde a escolha do caminho errado poderá afetar definitivamente toda a sua vida.

Pessoalmente, achei um trabalho belíssimo. As melodias, a enorme dose de feeling, os acordes e os arranjos me conquistaram quase de imediato. Nergal e Porter alternam-se nos vocais, ou cantam juntos em algumas passagens, construindo uma terceira criatura como fruto de sua parceria. Um dos melhores discos deste ano, e que mostra o quão livre musicalmente é a mente de um dos grandes nomes do black metal atual. 


20 de mai de 2017

Review: Gustavo Telles & Os Escolhidos - Ao Vivo no Theatro São Pedro (2017)

sábado, maio 20, 2017

Gustavo Telles foi baterista do Pata de Elefante, excelente trio gaúcho de rock instrumental que gravou discos muito bons e já pendurou as chuteiras. Após o fim da banda, Telles iniciou uma carreira solo, deixando a bateria de lado e assumindo os vocais e a guitarra. Essa nova fase gerou dois belos CDs: Do Seu Amor Primeiro é Você que Precisa (2011) e Eu Perdi o Medo de Errar (2013).

Celebrando e eternizando a ótima fase, o Selo 180 está lançando Ao Vivo no Theatro São Pedro, disco que traz a íntegra do show de lançamento do segundo disco de Gustavo Telles, realizado no dia 26 de novembro de 2013 no mítico teatro da capital gaúcha. São doze faixas vindas dos dois álbuns de Telles, acompanhado aqui por uma banda excelente formada por Alexandre Loureiro (bateria), Luciano Albo (baixo, ex-Cascavelletes), Edu Meirelles (baixo), Mauricio Nader (guitarra), Marcio Petracco (pedal steel e guitarra, ex-TNT), Daniel Mossmann (guitarra e violão, parceiro dos tempos do Pata de Elefante), Murilo Moura (piano e órgão), Luciano Leães (piano e órgão), Joca (trompete), Rafael Lima (sax tenor), Gustavo Müller (sax barítono), Charão (trombone) e os backing vocals de Diogo Brochmann, Rodrigo Fischmann e Felipe Kautz, que formam o trio Dingo Bells.

Musicalmente, Gustavo Telles bebe direto da fonte do rock rural norte-americano, de nomes acima de qualquer suspeita como The Band, The Byrds e Crosby, Stills, Nash & Young. Reminiscências de Bob Dylan e Neil Young também são facilmente reconhecíveis na construção de uma sonoridade cativante e que transparece autenticidade, ainda mais para quem nasceu ou viveu grande parte da sua vida no Rio Grande do Sul (como é o meu caso), um estado com forte cultura popular e rico em suas próprias tradições.

Um dos pontos mais altos da obra de Gustavo Telles está na qualidade de suas letras. A escrita de Telles traz versos simples e descomplicados, que tratam de assuntos do cotidiano e do coração, proporcionando uma identificação quase automática para o ouvinte. Soma-se isso à inegável capacidade de composição de Gustavo e o resultado é um punhado de canções pungentes e fortes, que mexem com quem está aqui do outro lado da história, escutando as canções.

Ao Vivo no Theatro São Pedro é um ótimo disco ao vivo, com doses cavalares de música de alta qualidade e produzida com o coração. O álbum está disponível nos serviços de streaming, então caso você não conheça ainda o trabalho de Gustavo Telles vale a pena dar uma conferida, porque é legal pra caramba.

18 de mai de 2017

Review: Os Descordantes - Quietude (2017)

quinta-feira, maio 18, 2017

A música romântica sempre fez sucesso no Brasil. Do rock ao sertanejo universitário, perpassando pela MPB e o samba, os temas de amores impossíveis, perdidos, encontrados, reencontrados, iludidos e desiludidos sempre tiveram boa sintonia com o público. Independente do estilo, há uma facilidade do público de se reconhecer nessas histórias cantadas. Para cada situação amorosa que se passar na vida há uma música em algum lugar que serve como expressão perfeita para os seus sentimentos.

Os Descordantes entenderam bem essa demanda, cantando desilusões amorosas em diversos gêneros: rock, MPB, samba, brega, pop, evitando delimitar-se em um estilo único e denominando-se apenas como música romântica. Resultou em se tornarem uma das bandas mais queridas da noite rio branquense com seu primeiro disco, Espera a Chuva Passar, um compilado de todas as canções já executadas ao vivo ao longo dos anos, com algumas inéditas. Se o disco não deixou os músicos ricos, com certeza foi um sucesso entre seu público. Tanto que animou a banda a lançar mais um e assim chegamos ao segundo álbum, Quietude.

O novo CD é um trabalho mais homogêneo que o anterior, calcado na MPB, trazendo referências a outros estilos e com toques retrô que, a mim pelo menos, remete à música romântica das décadas de 1950/1960. As músicas casam bem com o título Quietude, mais calmas, leves e introspectivas. A canção de abertura, "Trem Fora dos Trilhos”, já mostra a que veio o disco: ao invés dos pesados acorde de guitarra que abrem Espera a Chuva Passar, aqui é um piano suave que abre os trabalhos numa canção que me remete, em momentos, ao Radiohead da época do The Bends.


Meus destaques vão, em primeiro lugar, para "Desamor", segunda canção do play, de cara a minha favorita e a mais rock and roll de todas. Ela é seguida pela divertida “Iguais", de clima muito agradável e com direito a corinho de "ulálá's", perfeita pra bailinhos retrôs anos 60. Na sequência, a desiludida "Simplesmente" evoca o clima de “sofrência” do primeiro disco e não me chamou muito a atenção de primeira, mas ela vai crescendo na nossa mente - hoje já me pego cantando-a do início ao fim. 

Pra encerrar os destaques, o brega descarado volta lá pro fim do disco com "Vai Ver”. Essa utilização inteligente da música brega (daquele tipo que fazia sucesso nas rádios na vozes de Odair José e Reginaldo Rossi, entre outros) sempre foi o grande diferencial dos Descordantes. Fiquei feliz em ver que eles não esqueceram de prestar sua homenagem ao estilo nesse disco.

Se senti falta de algo foi de uma maior variedade musical. Como disse lá em cima, o Espera a Chuva Passar transitava, com naturalidade, por vários estilos: rock ("Descrença" e "Porto e o Rio"), samba ("Amigo Amarelo"), brega ("Hombridade" e "Sair Daqui"). Quietude me parece mais focado na MPB, não que isso seja um defeito em si, é mais pra uma impressão pessoal mesmo. Já estou pela décima audição do disco desde que recebi minha cópia (digital) e posso afirmar que essas canções vão crescendo a cada vez que se escuta o álbum.

Com Quietude, os Descordantes fincam bases sólidas em sua identidade musical, sólidas o suficiente para sustentar um terceiro trabalho, se não vários outros.

Audição mais que recomendada.


Por Gildson Góes

16 de mai de 2017

Review: Rosália Paranóia - Instinto de Sobrevivência (2016)

terça-feira, maio 16, 2017

Formada em Guarulhos em 2012, o Rosália Paranóia lançou no final de 2016 o seu primeiro disco, Instinto de Sobrevivência. A proposta da banda é fazer um hip-hop bastante aberto a influências de outros gêneros, notadamente o rock, o reggae e o funk (é um saco, mas é importante sempre frisar toda vez que o termo “funk" aparece em um texto que estamos nos referindo ao gênero norte-americano de James Brown e companhia e não àquele ritmo surgido no Rio de Janeiro).

O disco vem com rimas com forte discurso social, construídas com inteligência e que ganham ainda mais força acompanhadas pelo forte instrumental. Ao lado de batidas típicas do rap temos a presença constante das guitarras e de um bem encaixado naipe de metais formado por Gabriel Arrais (saxofone), Danilo Correa (trombone) e Luizinho Nascimento (trompete), em uma união que soa sempre orgânica e pulsante. 

O trabalho do Rosália Paranóia tem tudo para agradar em cheio quem gosta do que nomes como Emicida, Criolo, Rael e outros nomes da atual cena do rap nacional tem feito, além de elementos que soarão similares aos fãs de grupos como Charlie Brown Jr. e afins.

Bem produzido e bem composto, Instinto de Sobrevivência é um belo cartão de visita e um início promissor para o Rosália Paranóia. Ao terminar a audição do álbum, a sensação de que esses caras ainda vão dar muito o que falar é onipresente.


Review: Rock Freeday Collection Volume 1 (2017)

terça-feira, maio 16, 2017

Comemorando dez anos, uma das melhores e mais tradicionais web radios brasileiras de rock e metal decidiu comemorar a data através de um CD com bandas presentes em sua programação. Esta é a história por trás da coletânea Rock Freeday Volume 1, lançada em janeiro deste ano e distribuída apenas para jornalistas, radialistas, lojistas e produtores brasileiros e norte-americanos.

O disco traz dezessete faixas de dezessete bandas diferentes, todas brasileiras e que exploram diferentes sonoridades dentro do metal e do rock. Temos o metal tradicional e com pegada hard rock do King Bird, o thrash de nomes como Blazing Dog, o hardão do Big Mofo, o rock com pegada meio psicodélica do Lo Han, o metal melódico do Endless e do Celestial Flames, e assim por diante.

Como em todo lançamento desse tipo, a qualidade das bandas oscila e as preferências podem variar conforme o gosto pessoal de cada ouvinte. No meu caso, destacaria as faixas “Break Away” do King Bird, “Bring Back to the Good Times” do Big Mofo, “Black Veil of Madness” do Endless, “Final Destination” do Celestial Flames e “Kill For Money” do No Way.

Independente disso, o fato é que Rock Freeday Volume 1 cumpre bem o seu papel ao construir um panorama competente da cena rock e metal brasileira, sempre repleta de bons nomes e que, muitas vezes, acabam não alcançando o reconhecimento que merecem por uma série de fatores (e que renderiam uma matéria especial só sobre isso).

Aos interessados, recomendo que ouçam a Rádio Rock Freeday e que procurem ir atrás das bandas presentes neste CD, porque vale a pena conhecer um trabalho de qualidade e que pode, muitas vezes, passar despercebido pelos ouvidos.

01. King Bird – Break Away
02. Blazing Dog – Deus Ex Machina
03. Big Mofo – Bring Back the Good Times
04. Lo Han – Dance With the Devil
05. Bife – IF
06. Septerra – Nightmare
07. Endeless – Black Veil Of Madness
08. Maestrick – Pescador
09. Inheritance – State Of Mind
10. Celestial Flames – Final Destination
11. No Way – Kill For Money
12. Morrigam – Corpo Seco
13. Bella Utopia – Dilema do Prisioneiro
14. Dudé e a Máfia – A cidade
15. Gus – Reconcerto
16. Erva Matt – Romel e Julieta
17. ZY3 – 365 DIAS

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