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14 de mai de 2018

Uma análise completa de Doze Flores Amarelas, a ópera rock dos Titãs

segunda-feira, maio 14, 2018

Se algo define a bem sucedida trajetória que os Titãs desenharam nestes últimos 36 anos, certamente é a capacidade que o grupo tem de quebrar expectativas e gerar novas demandas criativas. Explico: em idos dos anos 1980, depois do lançamento de Cabeça Dinossauro, os que esperavam ansiosos por um novo assalto punk assistiram à progressiva aventura da banda pelas plagas da new wave. Daí que, depois de Õ Blésq Blom, em fins da mesma década, a expectativa já fosse outra. Especialista em andar na contramão, porém, a banda voltou ao estúdio e produziu Tudo ao Mesmo Tempo Agora, seu disco mais cru, com um rock agressivo, com sonoridade de garagem. Titanomaquia, o primeiro sem Arnaldo Antunes, expandiu a sujeira, o peso e a agressividade do antecessor e conquistou um público cativo que, de forma marginal à crítica hegemônica, acabou transformando o álbum em uma espécie de clássico bastardo da música brasileira. 

As reviravoltas titânicas, contudo, não pararam por aí. Na primeira metade da década de 1990, a expectativa em torno da banda girou, evidentemente, na órbita dos elementos que deram sustentação à fase mais barulhenta de sua carreira. À espera de algo na linha de Titanomaquia, os fãs desta fase mais pesada – não sem uma ponta de decepção, é claro – viram a banda puxar o freio e lançar Domingo, disco mais palatável às rádios e, na sequência, tirando de cena as guitarras, emplacarem seu maior sucesso comercial da história, o Acústico MTV. Dali por diante, o apelo estrondoso da roupagem acústica fez o grupo repetir a dose em novo registro de estúdio e, como sequela, moldar a sonoridade dos discos lançados na década de 2000 – embora contassem com uma cara mais rock, e até um e outro som mais agressivo, o clima geral de A Melhor Banda, Nós Estamos Bem e Sacos Plásticos seguiu o padrão radiofônico que se impôs ao som dos Titãs após seu período de onipresença nas FMs, com as bênçãos de muitos hits e trilhas de novela. 

O tempo foi passando e, iniciada a década de 2010, poucos ainda esperavam por um álbum dos Titãs que resgatasse o espírito de seu maior clássico, disco que projetou a banda para um novo patamar. Então os paulistas, agora como quarteto, resolveram quebrar as expectativas novamente e, em 2014, lançaram Nheengatu, disco pesado, extremamente crítico ao momento (momento?) do país e que remete, em som e conceito, ao punk rock de Cabeça Dinossauro. E assim chegamos em 2017, ainda sob a ressaca do disco anterior, mas já com os rumores em torno do um novo trabalho. 


Doze Flores Amarelas teria um formato ousado, inédito tanto para os Titãs quanto para o rock brasileiro: inspirado em clássicos como Tommy e The Wall, Branco Mello, Sérgio Britto e Tony Belloto – os três remanescentes da formação original – trabalhavam, junto de nomes como Hugo Possolo e Marcelo Rubens Paiva, no argumento de uma ópera rock. Com um universo temático centrado no machismo, discutindo assédio, estupro, vingança, drogas e redes sociais, é certo que a expectativa dos fãs (depois do tão propalado “retorno às origens” com Nheengatu – expressão que, como vimos, faz pouco ou nenhum sentido frente ao comichão criativo característico do grupo) era de um novo petardo punk rock, destes de bater cabeça, urrar feito bicho e lavar a alma da nação. A equação é simples: quem ouviu "Pedofilia" e "Flores Para Ela", canções do disco de 2014, certamente imaginava a mesma agressividade no tratamento dispensado aos temas deste novo trabalho. 

A apresentação da banda no Rock in Rio 2017, porém, revelando três inéditas ao público, mostrou algo diferente do esperado. A atmosfera soturna e cadenciada de "Doze Flores Amarelas", canção que batiza o projeto, em tudo estranha ao conjunto da obra titânica e surpreendeu os fãs mais uma vez. "Me Estuprem", com título autoexplicativo, contrastando o peso temático da letra com a suavidade pop rock de seu instrumental, tornou evidente aos desavisados: “Hey, não esqueça, nós somos os Titãs e queremos fazer algo novo em nossa carreira”. Não espere, portanto, a continuação de Nheengatu, mas isso, como veremos, vai bem longe de ser algo ruim. 

O projeto da ópera rock dos Titãs carrega certa ousadia até mesmo para os padrões do gênero: antes mesmo da divulgação das canções, a banda estreou seu espetáculo mesclando música e teatro, com projeções eletrônicas, a participação das cantoras/atrizes Corina Sabbas, Cyntia Mendes e Yas Werneck (que também cantam em boa parte das canções de estúdio), além da narração em off gravada pela Rita Lee. Opção arriscada, se bem que instigante: assistir a uma banda de rock tocando 25 composições inéditas dentro de um teatro é experiência incomum, e que pode gerar uma recepção mais exigente do que o padrão. Dito e feito: em pré-estreia realizada no Festival de Teatro de Curitiba, a crítica do jornal local lamentou a ausência de uma “canção para levar pra casa”, de algum refrão chiclete que grudasse à primeira audição, ao que, naquele momento, tive o ímpeto de concordar. Agora, porém, quando os atos já estão disponíveis em plataformas de streaming, ouço melhor o material apresentado, relembrando a execução ao vivo e reavaliando por isso a crítica de primeira hora. Reorientado pelo álbum de estúdio, deixo o espetáculo um pouco de lado e volto às canções de Doze Flores Amarelas, um disco muito acima da média, que respeita e valoriza a trajetória extraordinária da banda sem, felizmente, repetir qualquer outro Titãs. 

A narrativa contada pelo disco tem como centro um estupro coletivo. Três jovens – as Marias A, B e C –, orientadas por um aplicativo chamado Facilitador, espécie de oráculo moderno, vão a uma festa que acaba muito mal: as três são violentadas pelos rapazes que planejavam conhecer. Traumatizadas pelo evento, as garotas se afastam umas das outras, sem encontrar qualquer conforto na família ou nos amigos. Uma delas, grávida de seu agressor, encontra no aborto uma alternativa, o que não a livra, contudo, da depressão. Mais uma vez orientadas pelo aplicativo, as Marias decidem se vingar dos garotos mediante um feitiço – o feitiço das doze flores amarelas. Sua magia funciona e um dos rapazes acaba morto. A morte não as consola, mas causa mudanças na vida das personagens. Marcadas por essa experiência traumática, as Marias passam a ver suas vidas sob uma nova ótica, buscando nelas mesmas sua felicidade e alguma paz.

Em linhas gerais, este é o enredo da ópera titânica. Relativamente simples, ele adquire profundidade e complexidade emocional mediante as composições do grupo, que transitam por diversas sonoridades e estilos, do pop rock ao ska, do punk rock à roupagem acústica, do rock setentista à balada indie, passando em revista diversos formatos assumidos pela banda ao longo dos anos, sempre buscando a melhor expressão formal para esta ou aquela nuance narrativa. Desta forma, Doze Flores Amarelas não poderia ser um disco de sonoridade tão coesa quanto seu antecessor, sob o risco de se perderem os detalhes que dão vida à história. 

Dividida em três atos, a obra tem na narração de Rita Lee um subterfúgio que, à emergência dos furos narrativos, garante o encadeamento das composições. Abrindo o disco, temos a apresentação das três Marias, que é seguida por "Nada Nos Basta", canção forte que explora os anseios femininos de nosso tempo (tantas vezes frustrados pelas amarras da cultura machista), desejos da juventude atual, mas também pode ser lida como expressão de liberdade criativa e inquietação artística do próprio grupo, que justifica com os versos de Sérgio Brito o próprio projeto da ópera rock: “Hoje eu sou / quem eu sou / hoje eu sou / o que eu sou / amanhã eu sou / quem eu quiser”. Na sequência, em estilo rockabilly e ieieiê, Branco Mello dá o tom em "O Facilitador", canção que nos apresenta o aplicativo, que por sinal é símbolo do projeto. Sem muito brilho, a canção passa a bola para ""Weird Sisters", que entra na roda e nos entrega um pop punk pra americano nenhum botar defeito. Os estrangeirismos, aliás, muito utilizados ao longo de todo o disco, aqui assumem sua expressão mais ousada, em uma canção versada inteiramente em língua inglesa. O recurso funciona bem como elemento de composição da atmosfera dos jovens retratados pela história, imersos na cultura de massa norte-americana, além de remeterem à língua comum da realidade virtual em que as personagens estão inseridas, marcada pela experiência dos aplicativos. "Weird Sisters" chama atenção, ainda, por introduzir a participação das cantoras e atrizes convidadas para o projeto, que cumprem perfeitamente o papel das Marias, tanto no palco como na competente atuação vocal. Fora de campo, porém, a banda peca por não divulgar adequadamente quem canta o quê, em se tratando das cantoras convidadas, nas canções já disponibilizadas – dado que justifica, inclusive, minha displicência ao tratar destas participações. 

Na sequência, "Disney Drugs", um dos picos criativos do disco, dá continuidade, desde o seu título, ao uso do inglês nas composições. Servindo como apresentação dos rapazes, a canção realiza, sobretudo, uma crítica às relações familiares esvaziadas que fazem, por vezes, a coexistência de pais e filhos em uma mesma casa assumir a forma de universos paralelos em constante conflito, donde a alternância entre drogas ilícitas e personagens de desenhos animados, todos eles nomeados em língua inglesa, representa bem esta realidade fraturada que muitas famílias se recusam a admitir como sua. Em "A Festa", os arroubos inconsequentes da juventude são explorados de modo irônico, dialogando com a canção anterior: “Mommy, give me some money”, canta Branco Mello no refrão. 

Com dois momentos musicais bem distintos, "Fim de Festa" revela o vazio das relações sociais/sexuais de nossa sociedade para, na sequência, focar na abordagem agressiva dos abusadores que, diante das recusas, revelam sua selvageria criminosa. Embora musicalmente a canção empolgue, é dos poucos momentos da ópera em que, descontextualizado, o som perde um pouco do seu sentido. Seus recursos estilísticos, aliás, são dos mais interessantes. Começando como uma balada de “fim de festa”, dessas para os casais dançarem juntos, a canção contrasta sua sonoridade adocicada com uma letra extremamente ácida e até mesmo sombria, que anuncia um engano: “Vocês pensam que é uma festa, mas não é / mas não pensem que é uma missa, pois não é” (...) esta é a lei da selva / ajam como age um animal / ajam como age um animal / ajam como age um animal”. Na sequência, a balada cede lugar a um ska tenso e cheio de energia, quando a voz dos rapazes domina a canção: “Queremos as três santinhas / queremos vocês bem loucas / queremos as três putinhas / queremos vocês”, e segue com refrão explosivo, “Não queremos nem saber / nem pensar, nem dizer / não sei quê, não sei quê”. Sem dramatizar o estupro, a canção termina com uma catarse instrumental em que a sugestão de um solo de bateria (no espetáculo, o solo ocorre de fato) representa – de forma sagaz e adequada, posto que abstrata – a violência sexual. 

Consumado o estupro, o primeiro ato termina com a canção "Me Estuprem", balada pop rock que, por sua letra irônica (“Me estuprem / se dei algum motivo”), produz ruídos de significado e um mal estar que destoa de seu instrumental, chamando atenção para o tema proposto e, consequentemente, para a relevância de toda a ópera rock. Com isso, passamos ao segundo ato com a expectativa de conhecermos as consequências da atitude criminosa dos rapazes, o que faz a segunda parte da ópera, é claro, ser musicalmente densa e emocionalmente muito mais carregada.                           
   

O segundo ato se inicia com um primeiro interlúdio. Rita Lee, no papel de narradora, nos conta que, depois daquele dia, as três Marias ficaram isoladas, não falavam do que aconteceu com ninguém, nem mesmo entre elas mesmas. Maria A, porém, descobriu que estava grávida. Precisando de ajuda, tentou falar com seu pai, um “bom pastor”. O interlúdio faz a transição para as músicas do segundo ato antecipando a melodia e o clima religioso da canção seguinte, "O Bom Pastor", que embora seja um dos grandes rocks do disco, parece ter entrado na história de forma um pouco frouxa.
Rock de sabor setentista, com excelente arranjo de guitarras e grande atuação vocal de Branco Mello, "O Bom Pastor" faz uma crítica ao oportunismo de certos segmentos do mundo evangélico, com preocupações materiais muito mais evidentes do que aquelas teológicas. Não encontrando ajuda na família, Maria A opta pelo aborto. O clima setentista da canção anterior persiste em "Eu Sou Maria", que explora o julgamento social em torno do aborto. Alternando arranjos de um rock mais clássico, lembrando inclusive o The Who – uma das inspirações para o projeto -, com passagens mais agressivas e pesadas, que expressam o desamparo das mulheres que passam pela experiência retratada. Destaque para a boa letra e para o belo dueto entre Sérgio Britto e os vocais femininos. 

A partir daí, temos alguns dos momentos mais agressivos e depressivos do disco. "Canção da Vingança" chama atenção pelos vocais de Tony Belloto, que também rouba a cena em um instrumental exclusivo das guitarras. Mas, se Belloto não faz feio e se garante no papel de vocalista, pode-se dizer, contudo, que faltou uma dose a mais de agressividade em sua voz, tendo em vista o teor forte da letra que entoa. Depois de enumerar seus desejos vingativos, a voz (que é de Tony, mas de Maria) completa: “E quem sabe no final de tudo / com você todo fodido / eu possa enfim te perdoar”. "Hoje", mais um grande momento de Doze Flores Amarelas, é outra das canções mais intensas e perturbadas da ópera rock, versando sobre desejos suicidas em alternância com ímpetos de vida energicamente expressos por seu refrão forte. "Nossa Bela Vida" desdobra o clima de angústia e depressão, desta vez, porém, em roupagem acústica, de flerte explícito com a verve MPB que, sabemos, Sérgio Britto vem revelando em sua carreira solo. A tristeza profunda presente na composição entra em atrito com a beleza pop de sua melodia e, por isso, acaba negativando todos os desejos expressos pela voz ficcional da canção – “Eu só quero fumar meu cigarro”, “Eu só quero fazer o jantar”, “Eu só quero cuidar da família”, desejos que culminam num quase refrão em tudo melancólico: “Eu só quero poder chorar”.
Em "Personal Hater", o ódio que as Marias sentem pelos seus estupradores encontra finalmente o peso de um rock que nos remete aos momentos mais agressivos da história da banda, inclusive do disco anterior. Aqui, mais uma vez, os estrangeirismos de língua inglesa, tornados moeda corrente pelas redes sociais, dão o tom da composição – o refrão repete o título em ritmo frenético. No segundo interlúdio, conhecemos o sentimento de Maria C, que “parecia não querer encarar o que aconteceu”, pois fora abusada por um cara “de quem tanto gostava”. "De Janeiro até Dezembro", canção que dá sequência ao ato, é um punk rock que lembra momentos do disco Domingo, mas também denuncia a influência (declarada pela própria banda) que o grupo sofre dos norte-americanos do Green Day. Com apenas um minuto e meio, a canção termina deixando um gostinho de quero mais. Esta, aliás, é uma característica de todo o disco, que conta com muitas faixas extremamente curtas, de pouco mais de um minuto, compensando a extensão do projeto como um todo, com suas 25 novas composições.

"Mesmo Assim" é qualquer coisa como um oásis em meio ao deserto de sofrimento e ódio do segundo ato. Balada de amor com influência indie, que lembra um som à la The Killers, poderia soar deslocada no conjunto, não fosse a excelência da produção do disco. Extremamente eficiente, ela consegue tirar o melhor de cada canção, dando um conceito próprio para cada faixa e auxiliando no processo de narrar a história. Neste caso, a letra romântica, em que Maria C revela ainda amar o seu agressor (“mesmo assim”), consegue fugir ao risco de banalização da violência com uma produção de sabor oitentista, com efeitos que geram um ar onírico ao seu significado, ou seja, mostrando a própria impossibilidade deste amor, que foi esmagado pela violência criminosa e pela brutalidade dos rapazes. Confirmando o caráter de sonho desta relação amorosa, temos na sequência outro rock de levada punk, desta vez com a voz dos rapazes, que falam pela primeira vez sobre os eventos daquela noite. "Em Não Sei”, há que se destacar mais uma vez a eficiência dos jogos de linguagem em inglês. Em letra centrada na tentativa dos rapazes de se desvincularem dos rumores e acusações - “Elas enlouquecem, agora a culpa é nossa” -, a canção abre com refrão estranhíssimo, que num primeiro momento soa como “não me esquece”, que faz todo sentido no contexto geral da letra, mas que na realidade perverte um bordão feminista sob a ótica dos agressores: “No means yes / yes means anal”. Não é não? Bem, não para eles. 

Assim, o segundo ato se encerra com a reação das Marias ao comportamento repulsivo e criminoso de seus agressores, em outra grande canção que mescla momentos de leveza, onde o peso da letra contrasta ironicamente com a suavidade do instrumental e dos vocais femininos, com o peso das guitarras e vocais distorcidos que, em momentos distintos, entoam o mesmo mantra, título da canção: "Essa Gente Tem Que Morrer". Assim, com uma explosão final que repete furiosamente a expressão máxima do desejo de vingança das três Marias, a segunda parte se encerra deixando no ar as providências que as meninas devem tomar no terceiro e último ato, visando purgar da consciência (sem sucesso, é claro) o ódio e a raiva que sentem por seus estupradores, que saíram impunes desta situação – ao que nos perguntamos: será mesmo? E é isto o que, enfim e em breve, o terceiro ato nos dirá.          


É Rita Lee quem nos conta, em terceiro e último interlúdio, sobre o plano de vingança das Marias: “Juntas de novo, queríamos enfrentar aqueles cinco filhos da puta”. Auxiliadas novamente pelo aplicativo Facilitador – o que não fica claro nas canções, mas sim no espetáculo –, as meninas acabam concebendo a morte de um dos seus agressores. Sobre este evento misterioso, a consumação da vingança, é que a maior parte das canções do terceiro ato irá repercutir. 

Com vigoroso riff de guitarra, "Me Chamem de Veneno" nos devolve à história com uma dose extra de peso e energia renovada. Sugerindo a via encontrada pelo aplicativo para dar fim à vida de um dos estupradores, ela abre caminho para o clímax sombrio da história. Mais grave e soturno do que os anteriores, o terceiro ato de Dozes Flores Amarelas encontra nos arranjos de piano e orquestra um diferencial que, na reta final da narrativa, engrandece o desfecho da ópera e contribui para a sua plena realização – a canção título é, por metonímia, o exemplo mais preciso desta contribuição. Apresentada em show do Rock in Rio, "Doze Flores Amarelas" já era conhecida pelos fãs mais atentos, porém, sua execução ao vivo, com certa crueza garageira que é marca da formação atual dos Titãs, não nos permitia vislumbrar todo o seu potencial. Aqui, em sua versão de estúdio, melhor experimentamos o seu clima denso. Em termos de estrutura lírica e melódica, a canção difere de tudo o que o grupo paulista já fez. Ritmo cadenciado e atmosfera fúnebre, com direito a Sérgio Britto e Branco Mello em dueto de vozes e solo de guitarra de Belloto. É um dos grandes momentos do disco. 

Em sequência de contraste irônico, "Ele Morreu" nos toma de assalto com sua levada pop, dançante e descontraída, enquanto aborda a repercussão da morte inesperada (não para nós, é claro) do agressor. A morte do rapaz reverbera ainda em três canções subsequentes. "Pacto de Sangue" é, em todo o disco, o primeiro e único momento em que temos uma canção cantada exclusivamente pelas atrizes convidadas. Sua letra aborda o compromisso de silêncio que as Marias assumem frente aos desdobramentos da vingança, sugerindo, enfim, a gravidade e a culpa que a situação de fato as impõe. Aqui, Corina Sabbas, Cyntia Mendes e Yas Werneck comandam o curso da narrativa, preparando o terreno para a participação decisiva que terão, também, nas canções finais do álbum. Por seu sabor performático e sua presença vocal, a canção é um dos raros momentos em que, deixando de lado a própria banda, encontramos o formato musical em sua potência máxima, tendo a sensação de acompanharmos uma trilha sonora de espetáculo hollywoodiano. 

"O Jardineiro", por sua vez, embora estruturalmente dispensável à narrativa, traz à ópera um delicioso slide de guitarra que, com sua levada de surf music, cativa o ouvinte logo à primeira audição. Nela, Branco Mello encarna o coveiro gago que enterrou o defunto da história, esbanjando carisma por sua dicção peculiar: “Eu sósósó sou o coveiro / deste lugar”. A morte será tema, por fim, de outro rock com roupagem mais pesada. Iniciada por um zunido de guitarra, que mais parece ter fugido de algum metal alternativo, "Réquiem" resgata a voz do falecido que, como um Brás Cubas juvenil, sugere que os mortos devem ser esquecidos, em favor dos vivos. Sua letra nos confronta com um dado etário perturbador: pedindo para que o lembrem “saindo da aula”, “andando de skate”, “falando no Face como todo o mundo fala”, a letra nos lembra da juventude das personagens que, vítimas ou culpadas, partilham todas de uma mesma inconsequência adolescente.

Os momentos finais da ópera titânica reforçam as características anteriormente evocadas, com duas grandes melodias que, no plano instrumental, são acompanhadas por belíssimos arranjos de piano e orquestra, além de excelentes atuações das vocalistas convidadas, tanto no que se refere aos backing vocals quanto nas vozes principais. Em sua formação clássica, contando com a presença incomum – em se tratando de uma banda de rock – de cinco vocalistas, o bom uso do backing vocal foi sempre uma das marcas mais evidentes da música dos Titãs. Com tantas baixas, reduzida a sua oferta de vozes, as participações especiais proporcionaram à banda um excelente recurso que, muito bem explorado, é um dos pontos altos do trabalho inteiro. 

"É Você" anuncia a transformação interior das Marias, que começam seu percurso de reconstrução identitária resgatando uma autoconfiança perdida diante dos acontecimentos traumáticos por que passaram ao longo da história. Identidade, aliás, é o grande tema que, motivo na canção inicial, retorna através da derradeira "Sei que Seremos". Nesta, as três Marias reassumem o controle sobre suas vidas, delineando um grande final para o projeto que, certamente, ficará marcado na discografia dos Titãs, ocupando nela um lugar especial. Contando com o melhor riff de guitarra de todo o disco, "Sei que Seremos" peca apenas pela sua brevidade: seus pouco mais de dois minutos nos deixam, ao final, com um gostinho de “queria ter um pouco mais disso”, afinal, a canção põe fim a um conjunto expressivo de 25 novas composições, número inédito em toda a história da banda, e por isso bem merecia um seu prolongamento natural.

Fechado o terceiro ato, temos, por fim, melhor visão de conjunto e condições efetivas para exprimir uma visão de panorama. De forma geral, a ampla maioria das canções sobrevive de forma autônoma, embora bem integradas à narrativa. Isto importa na medida em que garante a sobrevivência dos temas para além da experiência do espetáculo, ou da audição integral do álbum. A necessidade de contar uma história, por sua vez, inseriu muitos elementos estranhos à sonoridade titânica, o que, longe de ser algo ruim, expande os limites (já tão elásticos) que a estética da banda possui. Doze Flores Amarelas corresponde, portanto, à expectativa que o grupo promoveu e está promovendo em torno de seu lançamento, assumindo a forma de um grandioso disco de rock, com os elementos todos que são esperados a este formato – versatilidade, relevância, força de composição. Projeto inédito no Brasil, somente este feito já garantiria a presença do álbum nos anais da história do rock brasileiro. Mais do que isso, porém, o disco também nos entrega um conjunto de canções que, mesmo diante de uma concorrência de alto nível, podem conquistar seu lugar em qualquer coletânea do grupo, a exemplo de "Nada nos Basta", "Disney Drugs", "Eu Sou Maria", "O Bom Pastor" ou "Doze Flores Amarelas". Por outro lado, a descontextualização de certas letras – a exemplo de "Fim de Festa" e "Não Sei", que dão voz aos agressores – e, especialmente, a qualidade do registro em estúdio, podem se tornar um problema para as apresentações ao vivo: neste último quesito, para além dos espetáculos de teatro, muitas destas composições encontrarão dificuldade de espaço no repertório de eventuais futuras turnês, por limitações materiais de execução – caso, por exemplo, das canções que contam com grande presença dos vocais femininos e de arranjos de orquestra, as quais podem perder força em um formato mais cru.   

Evidentemente, ainda é cedo para compreendermos ou afirmarmos qual será o status de Doze Flores Amarelas dentro da obra completa dos Titãs. As comparações, embora inevitáveis, carregam sempre um quê de injustiça, por não levarem em consideração os fatores inúmeros que se conjugam no momento da construção de um disco – bem como o fato de que o tempo, inexorável, a tudo e a todos transforma. Independente do juízo crítico, porém, faz-se imperioso reconhecermos que Sérgio Britto, Branco Mello e Tony Belloto, acompanhados de um grande time, por aceitarem (e se auto imporem) tamanho desafio criativo a esta altura do campeonato, demonstram grande compromisso com sua própria trajetória, entregando a seus fãs um trabalho com a dimensão e a estatura que se espera sempre de uma grande banda de rock. Ambiciosos como nunca, os integrantes remanescentes mostraram seu poder de fogo com este lançamento memorável, provando que a força da banda, mais do que em um ou outro nome, sobrevive mesmo através do peso que sua história investe naqueles que a continuam. Para além de um grande disco, Doze Flores Amarelas é, portanto, uma demonstração inequívoca que os remanescentes da formação clássica deixam ao seu público de que, sim, continuaremos carregando enquanto possível este nome, de Titãs, não como um meio mais cômodo para pagarmos as contas, mas sim pela consciência aguda daquilo que somos e já fizemos, mirando sempre no muito que, é claro, ainda se está por fazer.                
         
Por Marco Aurélio de Souza

11 de mai de 2018

Review: Jack White - Boarding House Reach (2018)

sexta-feira, maio 11, 2018

Certos discos desafiam o ouvinte. Boarding House Reach, terceiro álbum solo de Jack White, enquadra-se nessa categoria. Depois de dois bem sucedidos trabalhos onde bebeu nas raízes do blues e do rock e temperou a mistura com alguns ingredientes contemporâneos para criar uma sonoridade bastante atraente e original, o ex-White Stripes virou tudo de cabeça para baixo em seu novo disco.

Boarding House Reach saiu no final de março. Quase 45 dias depois, essa resenha está sendo escrita. Quando tive o primeiro contato com o álbum, não entendi nada. Absolutamente nada. E confesso que isso me frustrou e me irritou, porque gostei muito tanto de Blunderbuss (2012) quanto de Lazaretto (2014). Apesar disso, não me dei por vencido e retornei ao disco diversas vezes durante todo esse tempo. Talvez essa atitude tenha aos poucos “amaciado” os meus ouvidos, acostumando-os às experimentações propostas pelo vocalista e guitarrista. É, talvez tenha sido isso.

O fato é que Boarding House Reach não é, em nenhum aspecto, um disco fácil. Assim como não é, em nenhum momento, um álbum ruim. Trata-se do trabalho mais experimental da carreira solo de Jack White, um cara que sempre gostou, desde os tempos do The White Stripes, de romper limites e ver até onde poderia levar a sua música. Em seu novo trabalho, White experimenta com colagens sonoras, efeitos eletrônicos, vocais que se aproximam do rap e canções estruturalmente estranhas, com andamentos longe do comum e ideias nada óbvias. Essa postura, por si só, já é digna de elogios e mostra a inquietude de um músico que já passou dos 40 anos, dono de uma carreira com duas décadas de duração e ainda disposto a desafiar sua criatividade.

Como acontece com todos esses álbuns que causam estranheza aos nossos ouvidos ao nos depararmos com eles pela primeira vez, Boarding House Reach requer um tempo e um estado de espírito para que se consiga entender o que Jack White está propondo. E, quando finalmente conseguimos assimilar o que sai das caixas de som, o arrebatamento é inevitável. Não vou ser hipócrita e afirmar que estamos diante de um disco genial, até porque não acho isso. Mas não há como negar que há uma enorme dose de talento e inventividade presente nas treze faixas do trabalho, em doses tão grandes que em alguns momentos o ouvinte é realmente desafiado a conseguir entender o que está acontecendo.

A canção mais convencional do álbum é “Over and Over and Over”, não por acaso a faixa que a maioria do povo que escutou o trabalho apontou como destaque imediato. Claro, ela não causa estranheza e não rompe com nada, é “apenas" uma senhora composição dona de um ótimo riff. Todos os elogios são merecidos.

Há ecos, por exemplo, da inesquecível e injustamente pouco conhecida Incredible Bongo Band espalhados aqui e ali. Eles aparecem em doses homeopáticas em “Over and Over and Over”, mas assumem o protagonismo em “Corporation”, com percussões e batidas que fazem o coração e o corpo pulsarem. O clima urbano e contemporâneo dá as caras em faixas como “Everything You’ve Ever Learned” e sua letra declamada. A abertura, com “Connected By Love”, mostra como o U2 manteria o seu ar profético mesmo sendo mais experimental. “Respect Commander” é, provavelmente, a síntese da explosão de ideias de Boarding House Reach, com colagens, riffão meio Jimmy Page e uma passagem que é jazz-rock puro lá no meio.

A questão é que não há como sair indiferente após a audição do novo álbum de Jack White. E essa sensação, em uma época em que somos expostos a um volume imenso de informação musical e pouco guardamos em nossos ouvidos, é algo digno de elogios.

Boarding House Reach é um disco corajoso. E, em grande parte de suas canções, acerta na experimentação. Algumas faixas, principalmente o trio final, são realmente dispensáveis, mas há momentos fortes em maior número, o que faz a audição valer a pena.

Insista, você não irá se arrepender.

9 de mai de 2018

Review: Voodoo Circle - Raised on Rock (2018)

quarta-feira, maio 09, 2018

Em seu quarto disco, o quinteto alemão Voodoo Circle segue fazendo a alegria de quem curte hard rock. Em Raised on Rock, a banda entrega mais uma vez um rock pesado e influenciado por grandes nomes do estilo durante os anos 1980, como Whitesnake, Rainbow e Scorpions.

O álbum, que foi lançado em fevereiro, é um passeio pelas diversas facetas pelo hard & heavy daquela época, mas traz uma pegada contemporânea que faz com que nada soe datado. E além disso, a banda ainda tem a manha de incluir referências em suas composições que deixam claro para os mais lentos quais são as suas inspirações - “Higher Love”, por exemplo, é prima irmã de “The Zoo”, do Scorpions. Em “Walk the Line”, a lembrança é de “Crying in the Rain”, do Whitesnake. E tudo isso é feito com propriedade e conhecimento de causa, nunca resvalando para o plágio puro e simples - lá no meio de “Where in the World We Love”, por exemplo, tem uma referência escondida para “Is This Love”, também da banda de David Coverdale.

Apesar de passar longe da originalidade, o Voodoo Circle consegue entregar um disco agradável e que proporciona uma audição divertida. O tracklist é muito bem balanceado entre canções agitadas e momentos mais contemplativos, onde a banda explora baladas e faixas épicas como “DreamcHaser”, uma clara homenagem aos primeiros anos do Rainbow.

Já escrevi isso algumas vezes, mas é sempre bom repetir: existem momentos em que você só precisa de um bom disco de rock como companhia, um álbum honesto, bem tocado e que não queira reinventar nada. Raised on Rock é um desses discos, e revela-se uma ótima companhia.

8 de mai de 2018

Review: Michael Schenker Fest - Resurrection (2018)

terça-feira, maio 08, 2018

Michael Schenker é um dos maiores guitarristas da história. E também é dono de um dos temperamentos mais instáveis e difíceis do show business. Sua passagem pelo Scorpions e o período no UFO, onde alcançou o status de guitar hero, foram pródigos em grandes canções e também em tretas memoráveis. E foi justamente essa incapacidade em permanecer por muito tempo em uma banda que acabou prejudicando a carreira de Michael. Caso tivesse sido mais estável, o reconhecimento para o seu incrível talento seria muito maior.

Pois bem. Celebrando sua carreira, o guitarrista criou o Michael Schenker Fest, show que rodou alguns países trazendo na bagagem os vocalistas Robin McAuley (parceiro no Michael Schenker Group), Gary Barden (também ex-MSG), Graham Bonnet (ex-Rainbow, Alcatrazz e MSG) e Doogie White (ex-Rainbow e Michael Schenker’s Temple of Rock). A boa aceitação a essas apresentações motivou a gravação de um disco não apenas com o quarteto de vocalistas, mas também com as participações de Kirk Hammett, Steve Mann (guitarra e teclado), Chris Glen (baixo) e Ted McKenna (bateria).

Ainda que longe de seus melhores momentos no UFO, Resurrection é um bom álbum. A sensação é de estarmos ouvindo um trabalho honesto, onde Schenker passeia pelas diversas facetas de sua carreira, ora aproximando-se do heavy metal ora caminhando pelas estradas do hard rock. 

A presença de Hammett na música de abertura dá um ótimo início ao disco. Fã de longa data do alemão, Kirk duela com Michael nos solos da canção, emulando seu estilo e mostrando que pode fazer muito mais do que faz no Metallica. E é preciso dizer: como é bom ouvi-lo solar sem o uso do pedal wah-wah.

Ainda que em alguns momentos o disco aproxime-se demasiadamente do pop, como na fraca “Messin' Around”, o saldo final é positivo. Doogie White é o grande destaque, e a cada vocal seu fica a sensação de que ele merecia chegar mais longe do que chegou. Graham Bonnet aparenta estar com a voz já cansada, mas ainda consegue entregar bons momentos. E Robin McAuley continua o bom vocalista de sempre. Os quatro cantam juntos em apenas duas músicas, “Warrior" e “The Last Supper”, e quando isso acontece o trabalho ganha outra proporção, com as canções chegando a lembrar, estruturalmente, o que Tobias Sammet faz à frente do seu Avantasia.

Um bom disco de rock, como há algum tempo Michael Schenker não entregava aos fãs.

2 de mai de 2018

Review: Tax the Heat - Change Your Position (2018)

quarta-feira, maio 02, 2018

O Tax the Heat é um quarteto formado em 2013 na cidade inglesa de Bristol. A proposta da banda é bem interessante: trazer a energia e a pegada do rock dos anos 1960 para uma abordagem atual, com timbres e produção contemporâneos. O grupo estreou em 2016 com Fed to the Lions e lançou em março o seu segundo disco, Change Your Position. O álbum saiu pela Nuclear Blast, maior gravadora de heavy metal do planeta, e que vem expandindo seu catálogo com discos de bandas além da pancadaria.

São 12 músicas em pouco mais de quarenta minutos, com um começo animador mas que acabam perdendo um pouco da força na parte final do trabalho. A pegada roots está presente em diversas canções, notoriamente na abertura com a dobradinha “Money in the Back” e na faixa título. A produção deixou o som bastante cheio e com foco nos graves, o que faz com que, em certas passagens, a sensação é de estarmos ouvindo um disco dos também britânicos Royal Blood, principalmente quando as composições trazem riffs mais “rítmicos”, por assim dizer.

A voz do também guitarrista Alex Veale, com um timbre agudo, é um dos destaques, assim como a bem entrosada dupla formada pelo baixista Antonio Angotti e pelo baterista Jack Taylor. Já a guitarra de JP Jacyshyn é bem focada, entregando doses sadias de peso sem os excessos típicos dos guitar heroes. Apresentando influências de nomes clássicos como Cream e Thin Lizzy e equilibrando-as com ecos do Black Keys e Queens of the Stone Age, o Tax the Hear entrega um som conciso, sem excessos e que desce redondo.

Se você procura novos nomes para dar um refresh na sua playlist de rock, Change Your Position é uma boa dica. 

27 de abr de 2018

Review: Brothers Osborne - Port Saint Joe (2018)

sexta-feira, abril 27, 2018

Tenho gostado muito da nova cena de country que está rolando nos Estados Unidos. Nomes como Ryan Bingham e Chris Stapleton estão entre os meus favoritos, e eles acabam de ganhar a companhia do Brothers Osborne.

Trata-se de um duo natural do estado de Maryland, formado em 2013 pelos irmãos T.J. (vocal e guitarra) e John Osborne (guitarra). Port Saint Joe, lançado em 20 de abril, é o segundo disco da dupla, sucedendo Pawn Shop (2016).

O que ajuda nessa identificação com o country contemporâneo é a sua aproximação com o southern rock, com momentos onde os dois gêneros se fundem de tal maneira que é difícil definir o que se está ouvindo. Na melhor escola de nomes como Lynyrd Skynyrd e Marshall Tucker Band, somos apresentados a um mundo dominado por vocais anasalados e belas melodias agrestes.

Port Saint Joe apresenta momentos onde a banda soa bem country, e outros onde o rock entra com tudo na receita. Apesar de os momentos mais calmos e bucólicos apresentarem uma beleza inerente, são as faixas agitadas e com maior tempero rock que me agradam mais. A abertura com a dobradinha “Slow Your Roll” e a incrível “Shoot Me Straight” é sensacional, com essa segunda tendo uma estrutura que me fez pensar se o termo prog country existia ou não. Já “A Couple Wrongs Makin’ It Alright” me faz acreditar que o Skynyrd não soaria muito diferente hoje em dia caso Ronnie Van Zant ainda estivesse vivo.

Trata-se de um belo disco, com momentos bem claros de luz e sombra responsáveis por trechos capazes de animar o seu dia ou fazer você pensar sobre os caminhos que quer dar para a sua vida. Em ambos os casos, a audição é recompensadora.

26 de abr de 2018

Review: The Temperance Movement - A Deeper Cut (2018)

quinta-feira, abril 26, 2018

Vou começar este texto da maneira mais clara possível: A Deeper Cut, terceiro disco do quinteto inglês The Temperance Movement, é um forte candidato a melhor disco de 2018. E agora vamos para os próximos parágrafos tentar explicar porque.

Sucessor do auto-intitulado álbum de estreia (2013) e de White Bear (2016), A Deeper Cut foi lançado em 16 de fevereiro pela Earache. Ou seja, já deu tempo de ouvir bastante e chegar a uma conclusão. Produzido pela própria banda ao lado de Sam Miller, o trabalho vem com doze músicas  e marca a estreia do baterista Simon Lea, já que Damon Wilson saiu da banda em 2016.

Deixando para trás a similaridade com AC/DC e The Black Crowes presente no início da carreira, o The Temperance Movement evoluiu e ampliou a sua esfera de influências, movimento que já era bastante perceptível em White Bear. Pintando o seu rock com tons fortes de soul e blues, além de buscar inspiração em nomes como o Faces, o grupo atinge em A Deeper Cut um trabalho de excelência. Tendo a voz rascante do vocalista Phil Campbell à frente, o quinteto derrama doses generosas de feeling em canções repletas de grandes refrãos e belas melodias, ao mesmo tempo que soam profundamente ligadas à árvore genealógica do rock and roll.

É preciso admitir quando uma banda faz um disco acima da média. Não é dar o braço a torcer, até porque ouvir música e escrever sobre o tema não é, e nem nunca foi, uma competição. Existem momentos em que o nosso ouvido encontra canções que se destacam na infinidade sonora que caracteriza o mundo cada vez mais dominado pelo streaming, e quanto isso acontece a sensação é gratificante. 

Em pleno 2018, ouvir um álbum como A Deeper Cut dá um frio na espinha. E isso acontece porque, por mais que a razão diga e afirme que o rock está longe de morrer e de produzir grandes discos, ter provas concretas e incontestáveis do que acreditamos é sempre algo que coloca um sorriso no rosto.

Não fazendo força para resistir ao trocadilho linguístico, concluo afirmando que A Deeper Cut fará um corte profundo no seu peito e no seu coração roqueiro, e de uma maneira que poucos discos conseguiram nos últimos anos.

25 de abr de 2018

Review: Thundermother - Thundermother (2018)

quarta-feira, abril 25, 2018

O Thundermother é mais uma banda que vem da Suécia e chama a atenção. Na ativa desde 2010, o quarteto de Estocolmo é muito influenciado pelo AC/DC em todos os aspectos, com riffs que remetem diretamente aos irmãos Young, batidas que bebem no estilo de Phil Rudd e aquele hard rock ganchudo e empolgante. A banda lançou em no final de fevereiro o seu terceiro disco, batizado apenas com o nome do grupo e que completa a trilogia que já contava com Rock ’n' Roll Disaster (2014) e Road Fever (2015). 

Uma das figuras centrais do Thundermother é a vocalista Guernica Mancini. Sua voz é pura agressividade, com um belo timbre e um timing perfeito para encaixar momentos mais gritados e outros onde vai mais na manha. A banda é completada por Filippa Nässil na guitarra, Sara Pettersson no baixo e Emlee Johansson na bateria. Por mais que eu esteja me esforçando para não chamar o Thundermother de "AC/DC de saias", confesso que é difícil resistir à tentação.

O novo disco tem 13 músicas espalhadas pelos seus 48 minutos, todas nascidas a partir da guitarra de Filippa. Talentosa e riffeira, Nässil divide os holofotes com Guernica, funcionando com a usina de força do quarteto. Musicalmente, o que chega aos fones de ouvido é rock and roll na melhor acepção da palavra. Não há uma grande preocupação com a originalidade, no entanto isso acaba passando batido com o pique e a energia que a banda entrega.

Uma boa dica pra quem anda procurando apenas e simplesmente um bom disco de rock. Aqui tem um prontinho pra ouvir, e que vem com um bônus importante: a afirmação, pela enésima vez, de que música boa e rock de qualidade não têm nada a ver com o sexo de quem toca. O Thundermother é uma baita banda e que está em pé de igualdade com qualquer dos melhores nomes atuais do estilo. Mostre para as suas amigas e amigos e ajude a divulgar o trabalho das suecas.


24 de abr de 2018

Review: Turbonegro - RockNRoll Machine (2018)

terça-feira, abril 24, 2018

O que acontece se você colocar em uma mesma banda doses cavalares de AC/DC, a medida equivalente de glam metal e grudasse tudo com teclados onipresentes e com um timbre que vem direto dos anos 1970, mais especificamente das experimentações de Jeff Lynne na sua Electric Light Orchestra?

Essa fórmula está presente em RockNRoll Machine, novo álbum dos noruegueses do Turbonegro. O disco é, em sua essência, uma grande homenagem ao rock e ao clima que ele traz para as nossas vidas, tornando momentos difíceis melhores e os dias mais fáceis. Em alguns momentos, o recurso de faixas interligadas reforça a temática recorrente presente em todo o trabalho, como se fosse uma espécie de álbum conceitual. Em outros, a pegada e os teclados à la ELO aproximam o Turbonegro do que o The Night Flight Orchestra vem fazendo em seus discos, porém com mais testosterona na mistura.

Com 11 músicas em quase 40 minutos, trata-se de um álbum no tamanho ideal e sem exageros. É rock com bastante energia, refrãos compostos com o intuito de que você aí, ao ouvi-los, cante junto com a banda, e todos esses ingredientes que um bom disco de rock deveria ter.

Em relação aos discos anteriores do Turbonegro, há uma evidente mudança de rota. O rock ríspido e irônico de antes, influenciado por nomes como Iggy Pop, David Bowie, Kiss, Ramones e Rolling Stones, entre outros, foi deixado de lado para o que gosto de chamar de uma “experimentação sonora e estética”. A banda mudou o curso de maneira consciente, homenageando e pagando tributo a ídolos que nem sempre foram associados à sua sonoridade. É um risco? Claro que é, e pode ter gente que sempre curtiu e vá estranhar. Mas acredito que o artista deve sentir-se livre para levar a sua obra pelos caminhos que anseia, nunca ficando preso à expectativa e às “normas" criadas pelos fãs. Neste ponto, o acerto do Turbonegro é evidente.

Enfim, diversão garantida ou o seu dinheiro de volta.

Review: Walking Papers - WP2 (2018)

terça-feira, abril 24, 2018

O Walking Papers lançou o seu primeiro disco em 2013 e chamou a atenção pela formação: Jeff Angel (vocal e guitarra, The Missionary Position), Benjamin Anderson (teclado), Duff McKagan (baixo, Guns N’ Roses) e Barrett Martin (bateria, Screaming Trees e Mad Season). Pra completar, o trabalho de estreia veio com a produção de Jack Endino, um dos mais celebrados nomes dos anos 1990 e associado profundamente com a cena de Seattle, e contou com a participação especial de Mike McCready, guitarrista do Pearl Jam.

Cinco anos depois, WP2 vem ao mundo meio fora de timing. O álbum foi gravado em 2015 mas só foi lançado em 19 de janeiro deste ano devido aos compromisso de Duff com o Guns N’ Roses. Há uma certa diferença em relação ao debut, que vinha com um rock mais cru e na cara. Este segundo disco entrega doses maiores de groove e até uma evidente influência de Queens of the Stone Age em algumas faixas, como fica claro logo na abertura com “My Luck Pushed Back”.

De modo geral, as treze canções de WP2 soam como uma espécie de “classic rock moderno”, por mais estranho que essa definição possa parecer. O quarteto bebe dos elementos clássicos do rock, coloca algumas pitadas de blues e balanço por todo o play, e, aliado à produção mais cheia e repleta de graves em relação ao primeiro disco, soa atual sem abrir mão das raízes do gênero que executa. Ainda que em alguns momentos as coisas fiquem adocicadas e suaves demais e o Walking Papers aproxime-se do universo do U2, por exemplo - ouça “Yours Completely” -, a pegada rock mantém-se presente e agradará os fãs.

Um bom disco, mas pelos nomes envolvidos esperava mais desse segundo álbum.


23 de abr de 2018

Review: Spiders - Killer Machine (2018)

segunda-feira, abril 23, 2018

O Spiders é uma banda sueca nascida em 2010 e que lançou o seu terceiro disco, Killer Machine, no final de março. O lance do quarteto formado por Ann-Sofie Hoyles (vocal), John Hoyles (guitarra), Olle Griphammar (baixo) e Ricard Harryson (bateria) é rock - puro, direto e simples. 

Dá pra definir o som do grupo como, sei lá, uma união entre Kiss e Hellacopters, com canções enxutas e sem excessos e que trazem refrãos fortes e boas melodias. Killer Machine - que sucede Shake Electric (2014) e Flash Point (2012) - tem onze faixas em 41 minutos, e todas elas soam redondas e devem agradar na medida quem curte um rock sem compromisso e sem firulas desnecessárias.

A figura central do Spiders é a bela Ann-Sofie, uma excelente vocalista que canta de maneira agressiva enquanto a banda senta o pé nos instrumentos. Em certas canções ela chega a lembrar Iggy Pop na atitude que entrega em cada interpretação, trazendo os sentimentos para a ponta de língua.

Talvez eu esteja cansado de bandas pretensiosas e que parecem querer reinventar o mundo a cada novo disco. Talvez o que eu precise a essa altura da vida, quando os cabelos restantes ficam cada vez mais brancos e a barriga parece crescer a cada gole de cerveja, seja apenas uma boa banda de rock como companhia. E o Spiders me entrega exatamente o que a minha vida está pedindo: canções fortes, riffs cheios de energia, melodias perfeitamente assobiáveis e uma agradável sensação de amor à música.

Com certeza, era uma banda como o Spiders e um disco como Killer Machine que eu estava procurando há um bom tempo, ainda que não soubesse disso até encontrá-los pelo caminho.

Review: Black Stone Cherry - Family Tree (2018)

segunda-feira, abril 23, 2018

A transformação pela qual a sonoridade do Black Stone Cherry passou é notável. Do hard rock dos primeiros discos, que apresentavam até sutis influências do hard californiano dos anos 1980, a música do quarteto de Kentucky evoluiu para um southern rock pesado e extremamente atual.

Family Tree, sexto disco do grupo, comprova essa metamorfose com ênfase. Sucessor de Kentucky (2016), o álbum foi produzido pela própria banda e mostra o Black Stone Cherry afundando de vez os pés nos pântanos e bebendo na rica herança de nomes como Lynyrd Skynyrd, ZZ Top, Molly Hatchet e Allman Brothers. O hard rock de outrora convive harmonicamente com os temperos sulistas, com bem encaixadas tendências country, pitadas de blues e as sempre agradáveis guitarras gêmeas. Atestando o pedigree do trabalho, Warren Haynes, do icônico Gov’t Mule e com uma longa passagem pela bandas dos irmãos Allman, dá a sua benção participando de “Dancin' in the Rain”.

Ao todo temos treze faixas em 52 minutos de som, todas sólidas e muito bem construídas. A voz de Chris Robertson soa mais madura, uma espécie de amálgama entre os timbres de Gregg Allman e do já citado Haynes. A cozinha vem forte, descomplicada e com uma pegada contagiante, enquanto Ben Wells engrossa a parede de guitarras com Robertson e reveza-se nos solos com o vocalista.

Family Tree é um excelente disco de uma banda que apresentou uma evolução enorme nos anos recentes. Maduro, sólido e com canções que caem de imediato no gosto do ouvinte, é um dos trabalhos mais fortes do Black Stone Cherry e tem tudo para levar o nome da banda ainda mais longe.

20 de abr de 2018

Review: Jared James Nichols - Black Magic (2018)

sexta-feira, abril 20, 2018

De vez em quando surgem uns caras que você ouve e percebe que precisa ficar de olho. O vocalista e guitarrista norte-americano Jared James Nichols é um destes casos. Natural do Wisconsin, o rapaz lançou em janeiro o seu disco de estreia, Black Magic. E olha, ele é muito bom.

Antes, vale contar um pouco da sua história. Jared mudou-se para Los Angeles em 2010, virou chapa do pessoal da Gibson após vencer o prestigiado Gibson Les Paul Tribute Contest e soltou em 2012 um EP gravado ao vivo gravado em uma das casas de shows mais comentadas de LA, o disquinho Live at the Viper Room. Então rodou a América tocando em festivas como o SXSW, chamou a atenção e foi convocado para abrir shows de nomes como ZZ Top e Lynyrd Skynyrd.

Toda essa trajetória está refletida nas dez músicas de Black Magic, que em pouco mais de 29 minutos revelam o blues funkeado de Nichols para o mundo. Acompanhado pelo baixista Gregg Cash e pelo baterista Dennis Holm, Jared James gravou um álbum simpático e contagiante, com canções curtas e muito bem resolvidas, e que como cereja do bolo vêm acompanhadas por uma deliciosa cobertura pop - ouça “Honey, Forgive Me” e faça o seu dia mais feliz.

Há alguns ecos de southern rock aqui e ali, porém bastante sutis. As composições em sua maioria apresentam riffs de guitarras sincopados, que abrem espaço para a música respirar e agradam de imediato. Além disso, o uso onipresente do groove torna tudo mais dançante e positivo, puxando o álbum para cima de maneira definitiva.

Tem gente que diz que nada de novo surge no rock. Isso tem nome: preguiça. Jared James Nichols não revoluciona nada e não reinventa a roda com a sua estreia, porém entrega um trabalho sólido, refrescante e cheio de canções fortes que tem tudo para agradar uma parcela enorme de ouvintes.

É bom ficar de olho!

16 de abr de 2018

Review: Kamelot - The Shadow Theory (2018)

segunda-feira, abril 16, 2018

Décimo-segundo disco do Kamelot, The Shadow Theory é também o terceiro a contar com o vocalista Tommy Karevik, que entrou na banda em 2012 no lugar de Roy Khan e já colocou a sua voz em Silverthorn (2012) e Haven (2015). A produção, irrepreensível e digna de nota, é mais uma vez assinada por Sasha Paeth. O trabalho foi lançado dia 6 de abril e está disponível nas lojas e nos apps de streaming.

The Shadow Theory possui a concepção de um álbum conceitual, porém não é estruturado como tal. Suas canções versam sempre sobre o futuro da sociedade em que vivemos, mas não contam uma história contínua. Musicalmente a banda segue entregando o seu power metal característico, que conta com sutis inserções orquestradas e continua soando refinado e de muito bom gosto. Karevik é o destaque, cantando muito bem e fazendo com que os fãs esqueçam cada vez mais a sombra de Khan. Ao todo temos 13 faixas, que sobem para 20 na versão deluxe. 

Há uma certa acomodação da banda ao longo das faixas, e isso é bastante perceptível. A sensação é de que, apesar de muito bem feito, executado e gravado, The Shadow Theory poderia ter um trabalho melhor de composição, pois as faixas soam similares, em sua maioria, com o que o Kamelot já fez em seus discos recentes. As participações especiais de Lauren Hart e Jennifer Haben, respectivamente do Once Human e do Beyond the Black, são competentes mas não fazem muita diferença, já que ambas praticamente repetem os papéis que Charlotte Wessels (Delain) e Elize Ryd (Amaranthe) tiveram em nos dois últimos discos. É trocar seis por meia dúzia.

Como já disse, essa sensação é perceptível também nas composições, com a banda liderada pelo guitarrista Thomas Youngblood não entregando uma evolução ou tentando caminhos diferentes em seu novo álbum. O disco é até legal, mas soa repetitivo e cansativo, e isso acaba fazendo com que você não encontre em suas faixas a sensação de frescor de The Black Halo (2005) - um dos melhores álbuns de metal dos anos 2000 - e até mesmo de Ghost Opera (2007), quando a banda inseriu elementos góticos à sua sonoridade.

Quem é fã provavelmente irá curtir. Já para quem não conhece, recomendo dar uma fuçada no passado do Kamelot, que com certeza oferece momentos mais criativos que esse novo trabalho.

12 de abr de 2018

Review: The Amorettes - Born to Break (2018)

quinta-feira, abril 12, 2018

O The Amorettes é um trio escocês na ativa desde 2009. A banda formada por Gill Montgomery (vocal e guitarra) e as irmãs Heather (baixo) e Hannah McKay (bateria) já gravou quatro discos - Haulin’ Ass (2010), Game On (2015), White Hot Heat (2016) e o recém lançado Born to Break (2018).

Uma boa definição para quem nunca ouviu o som das meninas é “Hellacopters de saias”. A energia e a pegada, aliada aos refrãos fortes e pegajosos, estão presentes tanto na sonoridade dos suecos quanto na música das Amorettes. Um power trio potente e que soa redondo, sem exageros ou peças fora do lugar.

Born to Break é um belo disco de rock do início ao fim, com canções para festejar e viver a vida com alegria e diversão. Uma bela surpresa de uma banda que deveria ser mais conhecida do público fã do estilo.

Um dos melhores CDs que ouvi esse ano, recomendo.

Review: The Dead Daisies - Burn It Down (2018)

quinta-feira, abril 12, 2018

O The Dead Daisies surgiu em 2013 com a proposta de fazer um rock clássico para os fãs do estilo. Cinco anos depois e chegando ao quarto disco, a banda norte-americana pode afirmar que alcançou o seu objetivo. Com um line-up recheado de feras - anote aí: John Corabi nos vocais, Doug Aldrich e David Lowy nas guitarras, Marco Mendonza no baixo e Deen Castronovo na bateria -, o quinteto meio australiano meio californiano é uma das mais sólidas formações do rock atual.

Burn It Down saiu no início de abril e é o sucessor de Make Some Noise (2016). O disco marca a estreia de Castronovo no lugar de Brian Tichy, que deixou a banda para seguir outros projetos. A produção de Marti Frederiksen é responsável por uma sonoridade cheia e atemporal, que fica ainda mais cristalina em canções onde a banda tira o pé do acelerador e leva o feeling às alturas, como na bela “Set Me Free”. A alta rodagem e experiência dos músicos, que somam passagens por bandas como Whitesnake, Dio, Mötley Crüe, Thin Lizzy e Journey, encorpam a música do Dead Daisies com um pedigree cheio de classe.

De modo geral, temos em Burn It Down um álbum de hard rock clássico, com canções que trazem belos riffs e algumas baladas para diminuir o ritmo. Tudo isso feito com ótimas ideias e belas soluções criativas que colocam o trabalho do The Dead Daisies, como já visto nos discos anteriores, em um nível superior.

O belo timbre vocal de Corabi reforça ainda mais o aspecto “clássico" do som do grupo, enquanto as guitarras de Aldrich e Lowy conduzem a banda por caminhos certeiros. Há ecos de AC/DC, Whitesnake, Bad Company, Free e outros gigantes, mas sempre sem exageros ou “clonagens" explícitas. A banda sabe trabalhar bem as suas influências, aplicando-as na construção de uma sonoridade própria. E de lambuja ainda entrega uma ótima versão para “Bitch”, música dos Rolling Stones presente no álbum Sticky Fingers (1971).

Quem gosta de rock tem que ouvir.

Review: Black Pantera - Agressão (2018)

quinta-feira, abril 12, 2018

O Black Pantera chega ao seu quarto ano de vida lançando o seu quarto disco - dois gravados em estúdio, dois ao vivo. Agressão foi lançado no início de abril e é um passo importante para o trio formado por Charles Gama (vocal e guitarra), Chaene da Gama (vocal e baixo) e Rodrigo “Pancho" Augusto (bateria).

Agressão também responde quem reclama que o rock brasileiro não reage ao conturbado momento político que o nosso país vive. E isso é uma verdade, infelizmente. Enquanto os principais nomes do gênero no Brasil parecem viver cada vez mais distantes do que acontece nas ruas, o Black Pantera traz um forte discurso político em seu novo trabalho, entregando letras que trazem mensagens e alertas necessários e falam direto com o ouvinte, sem rodeios.

Musicalmente o que temos é um hardcore carregado com elementos de metal, com canções rápidas e diretas construídas a partir de riffs pesados e costuradas por uma bela interação entre baixo e bateria. A alternância de vocais entre os irmãos Gama, bem como a fórmula de “pergunta e resposta” utilizada em diversas faixas, também colaboram para a força do álbum.

No total temos 11 músicas em pouco mais de 38 minutos, e que surgem como uma avalanche raivosa contra um sistema político corrupto até as suas mais profundas raízes, tudo feito com qualidade e talento.

Belo disco e um senhor chute na cara!

10 de abr de 2018

Review: Blackberry Smoke - Find a Light (2018)

terça-feira, abril 10, 2018

Principal nome do southern rock atual, o quinteto norte-americano Blackberry Smoke lançou no último dia 6 de abril o seu sexto disco, Find a Light. O trabalho é o sucessor de Like an Arrow, que saiu em outubro de 2016.

A banda continua centrada na figura de seu vocalista, guitarrista e principal compositor, o competentíssimo Charlie Starr. Ele é o showman do quinteto, que conta ainda com a guitarra de Paul Jackson, o teclado de Brandon Still, o baixo de Richard Turner e a bateria Brit Turner.

O legado do southern rock está profundamente impregnado no DNA do Blackberry Smoke, e isso significa que você ouvirá um representante direto da linhagem da Allman Brothers Band e, principalmente, do Lynyrd Skynyrd. O que passa longe de uma cópia, como quem já escutou o Blackberry Smoke uma única vez na vida sabe bem. Pitadas de Tom Petty, Bob Seger e até mesmo de Crosby, Stills, Nash & Young ficam evidentes no caldeirão de influências do grupo, que vai do groove ao mais puro southern rock sem cerimônia.

Beirando as duas década de estrada - a banda nasceu em 2000 -, o Blackberry Smoke mantém-se fiel à sua sonoridade e evolução. O forte do grupo, na verdade, está nas canções de Charlie Starr, um cara tradicionalista e que tem um talento incrível como compositor, enchendo suas canções com boas melodias, pontes e refrãos pegajosos.

Find a Light entrega, no fim das contas, uma bela viagem pelo puro rock norte-americano com direito a um boogie pra bater o pezinho logo na abertura (“Flesh and Bone”), uma homenagem ao Lynyrd Skynyrd (“I'll Keep Ramblin’” e suas guitarras faiscantes) e algumas lindas baladas country de lambuja (“Seems So Far” é uma pequena joia).

Mais uma vez o quinteto de Atlanta entregou um grande disco. A solidez da carreira desses caras é algo raro no rock atual, assim como a pegada old school que Starr e sua turma seguem mantendo em seu som. 

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