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17 de jan de 2017

Review: Sepultura - Machine Messiah (2016)

terça-feira, janeiro 17, 2017

Décimo-quarto álbum do Sepultura, Machine Messiah foi lançado neste início de 2017, mais precisamente dia 13 de janeiro. A produção é de Jens Bogren (Opeth, Soilwork, Amon Amarth) e foge da experimentação de timbres - principalmente em relação aos vocais - que incomodaram muita gente (este que vos escreve incluso) em The Mediator Between Head and Hands Must Be the Heart (2013).

É louvável que o Sepultura siga lançando discos, ainda que, de modo geral, todos os álbuns da fase com Derrick Green soem meio homogêneos. Explico: os oito registros com o vocalista norte-americano são trabalhos sólidos, sempre com boas ideias e inovações pontuais, que funcionam não apenas como expressões artísticas, mas também como veículo para mostrar que os músicos seguem vivos e inquietos.

A questão é que, por mais que esses álbuns sejam interessantes e, em alguns casos, acima da média (acho a trilogia Dante XXI, A-Lex e Kairos o pico de criatividade dessa fase da carreira da banda), eles não possuem algo que faça com que o Sepultura se destaque das dezenas, centenas e inúmeras bandas mundo afora. Não há mais o mojo e o molho de outros tempos - e, por favor, não me confundam com uma viúva dos irmãos Cavalera, que ao meu ver, principalmente o Max, tornaram-se caricaturas de si mesmos com o passar dos anos. Resumindo: o Sepultura se tornou uma banda comum.

Todos são excelentes músicos, não é isso que está em discussão neste texto. O que tenho pensado bastante é no quanto um disco como Machine Messiah ou qualquer outro dos trabalhos recentes do quarteto impacta não apenas o público - fãs são fãs e sempre querem algo novo de seus ídolos, no fim das contas - mas, principalmente, o cenário metálico em todo o mundo. O que Machine Messiah, ou Roorback, ou Against, trazem ou trouxeram de novo para o heavy metal mundial? Que influência eles tiveram no metal como um todo? Qual o impacto desses discos? Analisando de maneira fria e imparcial, por mais que a resposta possa soar até meio ofensiva, ela é clara: praticamente nenhuma.

Machine Messiah não é um disco ruim, assim como nenhum álbum do Sepultura com Derrick o é. Como já dito neste mesmo texto, trata-se de um álbum competente, com algumas boas ideias e as inovações sempre presentes, mas que, analisado à luz do cenário metálico como um todo, tem pouca - ou quase nenhuma - significância. 

E isso, para uma banda que foi, ao lado do Pantera, a mais influente do metal em meados dos anos 1990, é preocupante e extremamente broxante.

15 de dez de 2016

Review: The Neal Morse Band - The Similitude of a Dream (2016)

quinta-feira, dezembro 15, 2016

Esta resenha é escrita com um mês de atraso e na mesma semana que um dos maiores nomes do rock progressivo nos deixa: Greg Lake (King Crimson, Emerson, Lake and Palmer). Mas a morte dele não me fez apenas lamentar que perdemos mais uma lenda. Fez-me pensar quanta coisa boa as pessoas deixam de curtir por quererem sempre uma cópia do passado.

Uma dessas coisas é The Similitude of a Dream, décimo-nono álbum do vocalista, tecladista e guitarrista estadunidense Neal Morse, e o segundo lançado sob o nome The Neal Morse Band – um grupo que junta ele, o lendário baterista Mike Portnoy, o antigo parceiro e baixista Randy George e dois músicos relativamente desconhecidos, mas bastante rodados e habilidosos: o tecladista Bill Hubauer e o guitarrista Eric Gillette.

Este disco, conceitual e baseado no livro The Pilgrim’s Progress (John Bunyan), mostra uma evidente evolução em relação ao álbum anterior, The Grand Experiment (2015). Por mais que o lançamento do ano passado já tenha sido feito sob um sistema de banda “de verdade”, e não apenas com os músicos se adequando às composições de Neal, ele ainda soava como uma obra solo de Neal Morse.

Em The Similitude of a Dream, contudo, a formação soa muito mais entrosada, com uma forte química entre os integrantes, concedendo-a um ar mais de “Neal Morse e amigos” – sim, a marca Neal Morse ainda é onipresente, ou a banda não levaria seu nome. E depois que você assiste ao making of do álbum, tudo fica mais claro. Dá para ver com clareza a fluência musical que eles demonstraram em estúdio, a maneira como todos estavam bem à vontade sozinhos com seus instrumentos ou gravando em grupo.

O documentário retratou a concepção do álbum de forma tão honesta que até um desentendimento entre Portnoy e Morse foi tornado público – o baterista era contra fazer um disco duplo porque o Dream Theater, sua ex-banda, já havia lançado um trabalho conceitual duplo no começo do ano (The Astonishing) e ele temia comparações. Um medo um tanto tolo – são duas obras musicalmente bem diferentes, lançadas por grupos que não estão exatamente perdendo a virgindade nessa coisa de disco duplo.

Enfim, falemos da música do álbum em si: The Similitude of a Dream justifica sua calorosa recepção pela crítica. Não o colocaria no pedestal de lançamento do ano como alguns estão fazendo, mas é obviamente um discaço, e todo aquele entrosamento enaltecido parágrafos acima resultou em mais de 20 faixas, totalizando quase duas horas de rock.

Elas variam de breves peças leves e acústicas como a abertura “Long Day” e “The Dream”, a trabalhos de média duração com riffs mais pesados e instrumentação mais complexa como “City of Destruction”, “Draw the Line” e “So Far Gone”. Outras faixas trazem seus charmes próprios: o solo de saxofone de Bruce Babad em “Shortcut for Salvation”, os toques country em “Freedom Song”, o solo de baixo em “I’m Runnin” … Sem falar nas instrumentais “Overture”, “The Slough” e “The Battle”.

Mesmo que você não se identifique com todas, certamente encontrará ao menos algum momento de prazer auditivo neste disco. E a banda faz isso tudo sem perder foco e coesão. Você consegue visualizá-los o tempo todo da maneira que foram retratados no making of: livres, leves e soltos. Graças a Dio, Mike Portnoy foi vencido pelos outros quatro membros e o álbum rendeu os dois discos que sempre foi destinado a render. E como eu não resenhei The Grand Experiment, aproveito para registrar comentários sobre os dois novos músicos da banda:

- o tecladista Bill Hubauer acaba um pouco ofuscado por Neal Morse, cujo instrumento principal é o próprio teclado, embora nos clipes deste álbum ela seja mais visto empunhando guitarras ou violões. Mas o trabalho apresentado até aqui dirime qualquer dúvida quanto ao seu talento. Soube criar harmonias e melodias que se encaixaram bem em todas as canções.

- o jovem guitarrista Eric Gillette teve relativamente mais destaque. No começo do ano passado, antes mesmo do The Grand Experiment, Portnoy comentou o quanto Eric Gillette se parecia com seu “antigo parceiro de crime” – era uma óbvia referência a John Petrucci, seu ex-colega de Dream Theater. A referência se revelou precisa. A influência que o barbudo exerce sobre Eric é grande – às vezes, grande demais. Em alguns momentos o que se ouve é uma tentativa de imitar os dedilhados de Petrucci. O solo de “Breath of Angels”, por exemplo, parece uma junção dos solos de “The Best of Times” e “The Ministry of Lost Souls”, ambas do Dream Theater. Por outro lado, recai sobre ele grande parte da responsabilidade da qualidade do disco, especialmente por executar bem todos os riffs e por saber casar o som de sua guitarra com os teclados, que sempre desempenham papel fundamental na música de Neal Morse.

Um exemplo de rock progressivo bem feito, um exemplo de trabalho duplo e conceitual. Uma aula de instrumentação e composição. Podemos até discutir se este é o “álbum progressivo do ano”. Mas não podemos discutir sua beleza, nem sua qualidade.


Review: Nando Reis - Jardim-Pomar (2016)

quinta-feira, dezembro 15, 2016

Se um dia montassem uma lista de artistas brasileiros que se autossabotam, Nando Reis estaria no top 10. Depois que saiu dos Titãs em 2001, sua carreira solo ficou marcada por baladinhas românticas ou, se muito, parcerias com Cássia Eller. Mas, caramba, ele é TÃO mais que isso ... Seria bom se os tr00 666 from hell ouvissem além das rádios antes de desqualificá-lo. E olha que muitas das tais baladinhas românticas são de tirar o chapéu.

A versatilidade do paulistano fica escancarada como nunca em Jardim-Pomar, seu oitavo trabalho de estúdio. As faixas passam por diversas influências e temáticas, sendo que tal variabilidade é resultado da ação de dois produtores diferentes trabalhando no mesmo disco: Jack Endino (que já havia colaborado com Nando em Sei, de 2012) e Barrett Martin, ambos dos Estados Unidos. Embora Nando não tenha ainda especificado exatamente quem produziu quais músicas, ele já deu a dica em entrevista para O Globo: “Sendo Barrett um baterista, muitas vezes a chave está na batida”.

A tríade de abertura, “Infinito Oito”, “Deus Meio” e “Inimitável”, é um dos momentos mais marcantes do álbum, e essa marca tem nome: Jack Endino, que toca guitarra em todas e, podemos deduzir, produziu-as também. Instrumentalmente, são de qualidade acima da média na carreira solo do barbudo e é impossível não querer ouvir o resto do disco depois delas.

As sempre presentes declarações de amor começam a mostrar a cara em “4 de Março”, onde Nando homenageia sua esposa Vânia de maneira íntima e elegante. “Só Posso Dizer”, que recebeu aqui duas versões (uma gravada em São Paulo e outra em Seattle, mais lenta), foi o single escolhido para divulgar Jardim-Pomar. Não chega a ser ruim, mas tinha tanta opção melhor ...

“Concórdia”, a única não inédita, é apenas uma regravação de uma canção que ele mesmo fez e que saiu em Vivo Feliz (2003), de Elza Soares. Sonolenta, ela ganha seu charme nas cordas do Fassbinder String Quartet, que reaparecem na igualmente monótona “Água Viva”.

“Azul de Presunto” traz, de uma vez só, seus ex-colegas de Titãs Arnaldo Antunes, Branco Mello, Sérgio Britto e Paulo Miklos; seus filhos Theo, Sebastião e Zoe; e as consagradas e modernas vozes femininas de Luiza Possi, Pitty e Tulipa Ruiz. Este impressionante time foi chamado apenas para fazer vocais de apoio. A harmonia funcionou legal e ela é uma das melhores, mas chamar tudo isso de gente só pra fazer eco? Que desperdício ...

A peteca levantada pela faixa cheia de vocalistas é mantida no alto por “Lobo Preso em Renda” e “Pra Onde Foi?”, com instrumentações adultas e aquelas letras sem refrão típicas do ruivo. Temos aqui o segundo (e último) grande momento do lançamento.

A reta final perde um pouco o gás e nos entrega a simpática “Como Somos” (parceria com o indefectível Samuel Rosa e única que não é 100% assinada por Nando); a já mencionada “Água Viva”; a surpreendente “Pra Musa”, que se inicia tão leve quanto sua antecessora e acaba com a roupagem rock que marcou o início e o meio do disco; e a segunda versão de “Só Posso Dizer”.

Apesar do sucesso e da vasta experiência, Nando ainda não recebeu todo o reconhecimento que merece. Isto ocorre talvez porque a ênfase em hits radiofônicos ofusca o trabalho musical primoroso que é desenvolvido em seus discos, e que só tem crescido ao longo desses 20 anos solo. Um dia, mais pessoas compreenderão que ele é um mestre na arte de fazer música boa. As grandes canções de Jardim-Pomar fazem você desconsiderar aquelas poucas mais chatas. Nando Reis atinge aqui um ponto alto de sua carreira, com instrumentação admirável e letras direto das profundezas de um ser humano com todas as suas angústias e alegrias.


Review: Hardline - Human Nature (2016)

quinta-feira, dezembro 15, 2016

O quinteto de hard rock Hardline divulgou seu quinto trabalho de estúdio, Human Nature, com uma promessa: entregar “uma versão mais pesada e atualizada do som original do Hardline. Pense no álbum de estreia, o Double Eclipse de 1992, atualizado para o século XXI, com um som mais arenoso e direto”.

O que eles nos dão? A fusão mais honesta que poderiam fazer de seu som antigo com o novo. Não é nem de longe um disco tão pesado quanto a estreia deles, mas é o que mais fez jus àquela época desde então. Ao mesmo tempo, ele não tem aquele quê de AOR (Album-Oriented Rock) que mudou completamente a banda (para pior, se compararmos com o glam metal estupendo que eles mostraram no início da década retrasada, ainda que o tenham feito no início do declínio do gênero).

Human Nature estabelece a tal fusão de duas formas: ora entregando faixas que, por si só, parecem misturas das duas fases; ora entregando faixas contrastantes. Por exemplo, a sequência “Trapped in Muddy Waters”, “Running on Empty” e “The World is Falling Down” é o momento mais matador do álbum. Se você se distrair, pode até achar que está ouvindo alguma coisa do Axel Rudi Pell – guitarrista alemão cuja banda de apoio conta com o vocalista Johnny Gioeli na formação.

Contudo, a tríade desemboca no single “Take You Home”, uma baladinha pianística clichê – infelizmente, uma das duas faixas do álbum a receber um vídeo, mesmo que ela não represente o disco de forma alguma. O single, por sua vez, é sucedido por “Where the North Wind Blows”, uma das faixas “meio a meio”.

Enfim, a sensação que se tem ao concluir uma audição deste lançamento é: o Hardline está de volta! Não tão pesado quanto era, pois é preciso atualizar o som e relembrar o passado recente. Mas estão satisfatoriamente firmes e fortes. Definitivamente o melhor trabalho deles desde a estreia.

Podemos dizer que quase tudo deu certo em Human Nature. As duas fases da banda estão representadas. Houve uma ênfase maior na fase boa, isto é, na fase pesada e antiga. Há uma química franca entre os membros, de modo que toda faixa vê o Hardline “fluindo como óleo”, como diria Mozart. Um discão. Só mudaria a escolha da faixa para segundo single.

14 de dez de 2016

Review: Childish Gambino - Awaken, My Love (2016)

quarta-feira, dezembro 14, 2016

Childish Gambino é o pseudônimo musical de Daniel Glover, ator e escritor norte-americano cujos trabalhos mais conhecidos são as séries 30 Rock e Girls - ah, e ele também faz a voz original do personagem Alpha Dawg em Apenas um Show e a de Miles Morales, o jovem Homem-Aranha, na animação Ultimate Spider-Man.

Awaken, My Love é o terceiro álbum de Gambino, sucedendo seus dois primeiros discos, Camp (2011) e Because the Internet (2013). No entanto, em relação aos anteriores, trata-se de um trabalho com uma sonoridade muito mais orgânica, que se afasta do hip-hop e vai em direção ao funk, ao soul e ao funk rock, explorando principalmente a estética sonora comum a esses gêneros durante a década de 1970.

O que temos aqui é um álbum conceitual, que tem como inspiração o nascimento do seu primeiro filho. Awaken, My Love usa as suas faixas para contar o relacionamento de Gambino com sua namorada, em um disco que traz uma enorme carga de um sentimento bonito e verdadeiro. Influências psicodélicas são encaixadas aqui e ali, e servem como trampolins que conduzem o ouvinte para realidades distintas. Percebe-se a herança de nomes como Funkadelic e Curtis Mayfield em diversas passagens, inspirações que só realçam o alto nível alcançado por Childish Gambino no disco.

As onze faixas contam uma história crescente e cheias de momentos marcantes. A abertura com “Me and Your Mama” já chama a atenção do ouvido, mostrando que algo bastante diferenciado está por vir. Sensual e espiritual, dançante e tocante, o disco é de uma beleza palpável. “Have Some Love” vem na escola do mestre George Clinton, assim como a sacolejante “Boogieman”. Em “Zombies" podemos encontrar referências mais contemporâneas como Maxwell, já “Redbone” é puro Prince.

A tríade final, com “Baby Boy”, “The Night Me and Your Mama Met” e “Stand Tall”, é o ponto mais alto do disco. A primeira é uma linda canção de ninar, e de amor, e de benção e agradecimento, feita por um pai para o seu filho. De arrepiar! A segunda traz um instrumental elegantemente sexy, com um bom gosto elogiável e que soa como se Jimi Hendrix e Eddie Hazel dessem ao mundo um improvável filho. Enquanto a guitarra conduz a canção, um coro celestial produz linhas vocais que harmonizam as melodias e arrepiam até o mais careca dos ouvintes. E “Stand Tall” é conduzida pelo belo vocal de Gambino e com um instrumental econômico, quase minimalista, vindo de um universo imaginativo similar ao habitado por Frank Ocean.

Awaken, My Love é um álbum confortante e ao mesmo tempo forte, que acaricia mas também dá umas espetadas bem-vindas quando necessário. Um disco em forma de relação entre um pai e um filho, cheio de momentos doces e marcantes, mas também com explosões sonoras definidoras. O fato de o álbum caminhar predominantemente por uma sonoridade que bebe muito e profundamente no funk e no rock negro setentista ajuda na degustação dos não familiarizados com a black music contemporânea, e é um convite para que apreciadores de outros gêneros aventurem-se por suas faixas.

Vale a experiência!

Review: Mano Brown - Boogie Naipe (2016)

quarta-feira, dezembro 14, 2016

Mano Brown já faz parte da cultura pop brasileira. Figura central do Racionais MC’s, desde 1988 vem cantando letras afiadas, que denunciam de maneira explícita a violência policial, a desigualdade social, o preconceito racial e outros problemas infelizmente comuns à sociedade brasileira. Com álbuns já clássicos como Raio X Brasil (1993), Sobrevivendo no Inferno (1997) e Nada Como um Dia Após o Outro Dia (2002), a curta discografia do Racionais compensa a oferta limitada com a contundência e a eficiência, tanto no discurso quando no aspecto musical.

Pois bem. Nesse final de um 2016 que parece que nunca irá terminar, Mano Brown lançou o seu primeiro álbum solo. Boogie Naipe é um disco surpreendente, não pela reconhecida capacidade criativa de seu mentor, mas sim por mostrar um outro lado de Brown. O hip-hop pouco aparece no trabalho. Boogie Naipe é um trabalho que bebe na riquíssima fonte da black music brasileira, principalmente aquela produzida durante os anos 1970 e que foi a trilha sonora dos bailes que marcaram uma geração. 

Com influências que vão de Tim Maia a Banda Black Rio, passando por Cassiano, Toni Tornado, Wilson Simonal e toda a turma do funk, soul e groove setentista, Brown entrega um disco cheio de lirismo, com letras que deixam de lado a denúncia social e apostam em temas como o amor, o romantismo e o cotidiano do coração. Musicalmente, o trabalho amplia consideravelmente o espectro sonoro de Mano Brown, deixando as batidas características do rap de lado e trilhando pelo soul, pelo charm, pelo R&B e outras sonoridades mais sutis.

Bonito pra caramba, Boogie Naipe é um tributo a um passado que boa parte do público atual não conhece, mas que está aí para ser redescoberto e adorado como merece. Produzido pelo próprio Mano Brown ao lado de Lino Krizz, o trabalho conta com a participação especial de Leon Ware (parceiro de Marvin Gaye, outra das inspirações de Brown para o disco), Hyldon, Seu Jorge, Du Bronks, Helião, DJ Cia, Don Pixote, Max de Castro e outros, o que ajuda a acentuar a pluralidade de influências do álbum.

Longo, mas recompensador, Boogie Naipe demonstra a maturidade artística atingida por Mano Brown, capaz de levar um dos mais emblemáticos nomes do rap brasileiro por um caminho totalmente novo e inesperado, mas igualmente fascinante como os seus trabalhos ao lado do Racionais MC’s.

Apenas excelente!

Review: Theocracy - Ghost Ship (2016)

quarta-feira, dezembro 14, 2016

Duas coisas eu faço questão de esclarecer logo de cara: a primeira é que eu sou ateu. A segunda é que eu torço o nariz para os termos “metal cristão” e “white metal”, pois eles se referem apenas às letras, mas não dizem absolutamente nada sobre o som de uma banda.

Assim, vamos ao tema do texto: o Theocracy é uma banda estadunidense de power metal que veio para provar que o chamado metal cristão não precisa ser piegas e, mais importante ainda, que o power metal de qualidade não está restrito ao eixo América do Sul/Europa/Extremo Oriente. Não por acaso, a banda foi lucrar com seu sucesso nesses lugares, e não no seu país de origem.

Ghost Ship começa com tudo na tríade de abertura “Paper Tiger”, “Ghost Ship” e “The Wonder of It All”. “Wishing Well” e “Around the World and Back” desaceleram um pouco, mas não diminuem o calibre do álbum. A potência volta em “Stir the Embers” e “Call to Arms”. Após o respiro “Currency in a Bankrupt World”, o lançamento encerra com força total com “Castaway” e “Easter”. Esta última é a tal faixa épica que todo disco de power metal que se preze tem, mas não chega a ser superior à média do trabalho.

Resumindo, a parte instrumental é primorosa e uma verdadeira aula de power metal. Até alguns medalhões do gênero poderiam se inspirar neste e em outros bons álbuns recentes (Rabbits’ Hill Pt. 2 do Trick or Treat, por exemplo) para fazerem jus ao passado glorioso do estilo.

Mas eu gostaria de chamar a atenção para as letras. Você pode até achar que, por causa do rótulo de metal cristão, o Theocracy escreve letras pedindo que você aceite Jesus, sinta o toque divino e blá blá blá. Nada poderia estar mais longe da verdade. As letras lidam com temas mais profundos, concretos e universais da sociedade, traçando relações com os ensinamentos de Cristo e passagens bíblicas.

Há peças sobre sentir-se sozinho e diferente dos outros (“Ghost Ship” e “Castaway”), desejar o bem sem agir concretamente para fazê-lo (“Wishing Well”), suicídio (“Currency in a Bankrupt World”) e até uma tentativa de abordar musicalmente as aflições e angústias dos apóstolos de Jesus entre sua crucificação e ressurreição (“Easter”).

Se você for fã de power metal independentemente das letras, vai gostar deste quinteto instantaneamente. Se você se incomoda com letras que não dialogam com sua realidade, a recomendação permanece. O Theocracy não está aqui para te convencer de nada, diferentemente de tantos pastores picaretas mundo afora. Eles querem simplesmente abordar questões das nossas vidas (em escala individual ou social) através de uma ótica cristã – ainda que “eles” remeta 90% ao líder da banda, Matt Smith, que compõe quase tudo sozinho.

Sem dúvidas um dos melhores lançamentos de power metal em 2016 e o melhor disco da banda até hoje. Não importa a sua fé: se você é devoto de Ronnie James Dio, Ghost Ship merece sua audição.


13 de dez de 2016

Review: Sioux 66 - Caos (2016)

terça-feira, dezembro 13, 2016

Para ser convidado a abrir um show do Aerosmith e outro do Guns N’ Roses (com a formação clássica, ainda por cima), tem que ter um mínimo de poder de fogo. E isso, os paulistanos do Sioux 66 sempre tiveram de sobra. Acabaram substituídos pela Plebe Rude no caso do show do septeto californiano, mas só o fato de terem sido escolhidos inicialmente já diz muito sobre eles.

A capa de Caos, segundo álbum de estúdio do quinteto, é um recorte do quadro Custer’s Last Stand, de Edgar Samuel Paxson. O cenário ilustra adequadamente o direcionamento de seu som. Não porque se trata dum caos no sentido pejorativo da palavra, como se fosse um disco de ruídos desconexos. E sim porque se trata de um trabalho enérgico, forte, quase sem momentos de calmaria para respirar.

O que eu tenho a dizer sobre Caos é que ele é um dos melhores lançamentos do rock nacional em 2016. É uma música de atitude e qualidade verdadeira. Tem menos frescura e mais maturidade que a maioria das bandas que se auto-intitulam “bandas de rock sem frescuras”. E uma certa diversidade no som que concede um ar de sofisticação a eles.

O álbum abre e fecha muito bem: “Caos” dá a largada com temperatura máxima e letras diretas. Após várias porradas, algumas até que nem tão pesadas assim, chegamos ao encerramento “O Calibre”, cover de uma das mais agressivas faixas já lançadas pelos Paralamas do Sucesso e que se encaixa perfeitamente na temática do disco.

Em faixas pesadas como a abertura “Minerva” e “Seu Destino” o espírito de Lemmy parece incorporar os rapazes. Já em outras, eles ficam mais próximos do hard rock classicão, como “Libertad” e “O Homem Que Nunca Mudou”. E não se atreva a desprezar a melódica “Pra Sempre” como um balada genérica qualquer…

Sem fazer alarde sobre o fato do guitarrista Bento Mello ser filho de Branco Mello, baixista e vocalista dos Titãs – que são “apenas” uma lenda do rock nacional – o Sioux 66 reafirma ser digno de constar na lista de novos nomes do gênero para ficar de olho.

Repito: é um dos melhores lançamentos de rock nacional que você ouvirá este ano. Aproveite sua disponibilidade em várias plataformas digitais e ouça sem medo. E pelo amor de Dio, pare de dizer que o rock morreu no Brasil – ou no mundo todo.


12 de dez de 2016

Review: Bon Jovi - This House is Not for Sale (2016)

segunda-feira, dezembro 12, 2016

Nem a crítica nem os fãs se entendem quando o assunto é o Bon Jovi. O quinteto já deu à luz treze álbuns de estúdio (incluindo este) e você encontrará diferentes grupos defendendo que cada um deles foi o último grande lançamento do quinteto. Alguns diriam até que a banda nunca fez nada que preste!

O que é uma tremenda injustiça, claro. Não reconhecer a importância e a qualidade que eles já tiveram é de uma desonestidade intelectual quase criminosa. Mais desonesto do que isso, só a recusa em reconhecer o quão ruim anda o grupo.

This House is Not for Sale, décimo terceiro álbum de estúdio dos cinquentões/sessentões, infelizmente confirma o que eu digo. Sem sombra de dúvidas, é um trabalho melhor que os fraquinhos What About Now (2013) e Burning Bridges (2015). Mas ainda deve muito para o último bom disco da banda, The Circle (2009) - pronto, já descobrimos a qual facção de fãs do Bon Jovi eu pertenço.

Das pouquíssimas músicas que valem a pena nesta obra, destaco a faixa-título, inspirada pela fotografia que acabou virando a capa do disco; "Labor of Love", onde Jon Bon Jovi parece estar incorporado pelo conterrâneo Bruce Springsteen; "The Devil's in the Temple", uma continuação dos recados à indústria musical que já eram dados em "Burning Bridges"; e "God Bless This Mess", talvez a letra mais relacionável do álbum.

Aliás, o único legado do Bon Jovi que foi respeitado em This House is Not for Sale é a diversidade de letras, com as quais todos podem se identificar. Mas confesso envergonhado que este parágrafo é na verdade uma tentativa desesperada de achar alguma coisa boa no álbum, apenas por ser fã da banda.

Quem tiver estômago pode correr atrás de diversas edições especiais, o que pode render até sete faixas bônus - todas igualmente ruins, com exceção da marcante "We Don't Run", que já havia sido lançada anteriormente.

Há duas mudanças importantes na formação do grupo neste álbum: pela primeira vez em mais de duas décadas de parceria, o baixista Hugh McDonald é citado como membro oficial. Além disso, e mais notoriamente, temos a entrada definitiva de Phil X no lugar de Richie Sambora. Que diferença isso fez com relação a What About Now? Quase nenhuma. Explico a seguir.

Em primeiro lugar, o verdadeiro guitarrista aqui, segundo declaração do baterista Tico Torres ao Omelete, é o produtor John Shanks, que criou e executou a maior parte dos trabalhos nas seis cordas. Phil X, por incrível que pareça, ficou relegado a um papel de coadjuvante. O outro motivo pelo qual fica difícil comparar ambos os guitarristas é, talvez, culpa de John também. O som do Bon Jovi foi tão pasteurizado nos últimos anos que qualquer guitarrista que posta vídeos no YouTube tocando por cima da música dos outros em seu quarto poderia trabalhar nestes últimos discos. Em outras palavras, a produção e os arranjos não deixam muito espaço para alguém mostrar sua cara.

Por essas e outras, não foi com This House is Not for Sale que a banda fez jus ao seu passado. E nem adianta vir com os números mágicos de vendas de cópias e entradas para shows para tentar me contradizer. A não ser que seu parâmetro de avaliação artística seja a histeria adolescente demonstrada pelo público nos shows dos caras.

Quando eu analisei Burning Bridges, disse que o álbum nos deixava receosos sobre o futuro do Bon Jovi. Infelizmente, o medo se tornou realidade e eles continuam apenas uma sombra criativa do que um dia já foram. Mas eu sou brasileiro e não desisto nunca: um dia, o Bon Jovi há de voltar.

Review: Romero Ferro - Arsênico (2016)

segunda-feira, dezembro 12, 2016

A artificialidade como arte suprema, esta é a essência do pop. Décadas de pop. Enciclopédias sobre o assunto comumente divergem sobre sua origem, sendo porém que o mais aceito entre os especialistas no assunto é que, estritamente enquanto gênero musical, o pop tenha surgido como uma construção da indústria em reação ao sucesso que artistas como Elvis Presley e Jerry Lee Lewis estavam fazendo interpretando a música negra. Ao passo que tais músicos gozavam de altas vendagens, o mercado não via com bons olhos todo o sangue, suor e rebeldia que exalava da música praticada, assim como da atitude adotada pelos astros, o que basicamente era o bastante para catalogá-los como ameaças; que vendiam em quantidades convenientemente grandes, mas que ainda assim eram ameaças, ou na melhor das hipóteses, inconfiáveis e imprevisíveis.

O mercado passou então a oferecer versões limpinhas, comportadas e inofensivas destes, inaugurando assim este segmento sonoro, que viria a se tornar tanto objeto do mais passional amor, quanto do mais virulento ódio e escárnio desdenhoso.

Fato é que o uso do artifício sedutor para a cooptação do potencial consumidor já não era novidade então. Tal pérfida e deliciosa estratégia já estava presente nos comerciais, nos filmes e na literatura, por exemplo.

O jornalista cultural José Augusto Lemos, por sua vez, apontou, certa feita, para o fato interessantíssimo de que mesmo antes do boom dos caipiras branquelos, todos os elementos que caracterizavam o pop enquanto expressão musical, como o bom-humor, a sugestão erótica, o balanço irresistível, as melodias grudentas e fáceis, assim como as artimanhas estéticas, já se encontravam sintetizados no que artistas brasileiros como Luiz Gonzaga e Carmen Miranda tinham desenvolvido.

Faz todo o sentido. De qualquer maneira, nos anos posteriores o improvável aconteceu, com a encantadora descartabilidade do pop indo de encontro a uma essência verdadeiramente substancial. Primeiro com os Beatles, e no ápice, com a banda inglesa Roxy Music, que construiu a obra que melhor lidou com as contradições e tensões artísticas inerentes à perigosa tarefa de buscar uma interface entre consumo e arte.


É por esse caminho de paradoxos que Romero Ferro, artista natural de Garanhuns (PE), que já havia se aventurado por incursões no frevo, resolveu trilhar em Arsênio, seu primeiro álbum independente, onde apresenta um pop que, ciente de sua descartabilidade, almeja ser algo mais. Um pop que quer ser mais que simplesmente pop, mas que não parece carecer de muito pra isso, atingindo seu intento no simples exercício do ser e, com isso, conseguindo preservar toda aprazibilidade característica do gênero em uma música pra lá de despojada.

Tudo isso transparece não apenas no som apresentado, mas também no discurso adotado. "Se permita ser / Qualquer coisa menos superficial", os versos iniciais de "Hoje", dançante manifesto e primeiro dos dez temas do trabalho autoral do cantor e compositor, escancaram a pretensão de usar a artificialidade como suporte para buscar um algo além das meras aparências.

As referências que alimentam a obra são diversas e difusas, tanto a nível musical quanto estético. A produção oitentista é o fetiche principal, e junto ao soul compõe a base do que permeia a maior parte do disco, cuja musicalidade versátil comporta ainda escapulidas para o funk, disco, flertes com o urban e intervenções regionais de apelo universal. Mas não se engane. Este trabalho não é um exercício de revisitação do passado. É, antes disso, um empreendimento de resgate de um rico legado de volta ao futuro.

A ponte entre atitude e sofisticação é traçada no groove arrasador de "O Medo em Movimento", a faixa seguinte, cuja musicalidade resgata a sonoridade do perfeito ponto de transição entre o gospel e o soul, hospedando-a num contexto urbano pré-hip hop. O trio de metais composto pelos soberbos Nilsinho Amarantes (trombone), Fabinho Costa (trompete) e Liudinho Souza (saxofone), brilha.

A chique "Dropsatã" dá prosseguimento explorando nuances eletro e o que vem a seguir aposta numa mudança de rumos, saindo do clima essencialmente dance para abrir caminho por toadas sentimentais de rico valor. "Cidadão Perdido" e "Só" fazem parte do seleto grupo de canções de amor que realmente importam.

Neste ponto surge mais uma surpresa. O lirismo sensível dá lugar à crônica amorosa escrachada sendo embalada por latente pulsação tecno brega na ótima "No Mesmo Teto". Logo após, "Solidão é Nada" traz a frequência rítmica do reggae para a praia do pop, enquanto a climática "Até Onde Se Vai" explora contrastes desconcertantes em meio a uma ambientação essencialmente obscura, noutra das melhores canções do disco.

"Veneno" vem a seguir trazendo mais uma vez a essência do discurso amoroso sem papas na língua do brega, ao passo que o dance das primeiras canções do álbum retorna. "Dois", um tema essencialmente pianístico, encerra o disco, sendo provavelmente, o mais ambicioso momento do trabalho.

A capa de sensível bom gosto estético foi criada por Caramurú Baumgartner com foto de Lana Pinho. A produção ficou a cargo do multi-instrumentista carioca Diogo Strausze, tendo em sua formatação o auxílio do grandíssimo Amaro Freitas, incrível pianista pernambucano autor de Sangue Negro, outro dos grandes discos do ano, e que pelos serviços prestados recebeu os créditos de co-produção no álbum, um trabalho que logra na dura arte de ser pop sem, em momento algum, desligar o cérebro.

Por Artur Barros

29 de nov de 2016

Review: Sonata Arctica - The Ninth Hour (2016)

terça-feira, novembro 29, 2016

Se você acha que as eleições estadunidenses dividiram as pessoas, experimente irromper em uma assembleia de fãs de power metal e perguntar se o Sonata Arctica anda prestando ou não. Caso os frequentadores comecem a exibir facas e tacos de beisebol, jogue umas cópias do Silence (2001) ou do Winterheart’s Guild (2003) para restaurar a paz.

Este prólogo serviu apenas para lembrar que estamos tratando aqui de uma das bandas mais polêmicas do power metal. Não por causa das coisas que diz, mas por causa da música que faz. Já faz tempo que adotaram um direcionamento único que se mostrou uma faca de dois gumes: transformou-os num nome bastante autêntico do gênero, mas alienou parte da comunidade de fãs.

The Ninth Hour, nono trabalho de estúdio dos finlandeses, dá seguimento a essa lógica. O som geral dele reproduz aquela coisa peculiar que o Sonata virou nos últimos dez anos. Ao mesmo tempo em que entrega faixas bem sonolentas, mostra também alguns retornos à era clássica da banda.

“Closer to an Animal”, a abertura e primeiro single, tem uma introdução promissora, mas logo se perde em clichês comerciais nos quais os artistas de power metal apostam para que seus vídeos ultrapassem 100 mil visualizações no YouTube em um prazo razoável.

“Life” é, para The Ninth Hour, o que “Love” foi para o lançamento anterior, Pariah’s Child (2014): boba (a própria letra admite), levinha, lenta e emotiva. E por incrível que pareça, isto não é uma crítica. É uma das faixas que eu jogaria no meu carrinho de compras se o disco fosse um mercado. Mas para uma faixa que, segundo a banda, foi tão alterada durante as gravações, eu esperava mais … A ela, faz companhia “We Are What We Are”, que traz a tímida participação do flautista Troy Donockley, do Nightwish, e uma mensagem de preservação da Terra e essa coisa toda.

“Fairytale” esboçaria uma leve reação por parte de quem prefere o antigo Sonata Arctica. Não tem nada de fritação, mas a velocidade e o peso elevados chamam a atenção. Mais atenção ainda chama a letra, com uma clara mensagem anti-Trump – posicionamentos do tipo são bem raros no power metal em geral. O site oficial do quinteto coloca até uma citação do ditador Joseph Stalin ao final da letra desta canção! “Till Death’s Done Us Apart” é reminiscente dos dois álbuns anteriores – e talvez por isso, agrada também. É marcada por uma alternância de momentos lentos e frenéticos.

A primeira faixa que realmente se destaca no álbum é “Rise a Night”. Tem velocidade, pedais duplos e duelos de guitarra e teclado pra saudosista nenhum botar defeito. Só poderia ter recebido uma performance mais inspirada de Tony. Ela é seguida por “Fly, Navigate, Communicate”, que mescla com maestria os elementos antigos e modernos da banda. Os próprios membros consideraram-na tão estranha que inicialmente preferiram que ela não fosse incluída no disco ou que fosse lançada como bônus – graças a Dio, não cometeram o que seria um erro imperdoável.

Entre “Candle Lawns” e “White Pearl, Black Oceans – Part II, ‘By the Grace of the Ocean'”, os japoneses – sempre eles – ganham um ótimo presente: “The Elephant”. Um instrumental forte e rápido cria a base para uma letra com mais uma mensagem crítica sobre guerras, mencionando o mito do bombardeio a Berlim em 1945 que supostamente matou o único elefante do zoológico da capital alemã.

Você pode até achar “White Pearl, Black Oceans – Part II, ‘By the Grace of the Ocean'” chata em seus primeiros minutos (se não tiver um mínimo de paciência, pode ser que nem chegue a ela), mas dê uma chance, ouça a segunda metade e delicie-se com um dos melhores momentos da banda em anos, com um duelo de guitarra e teclado inspirado pelas fritações de Jani Liimatainen e Mikko Härkin em Silence. Aparentemente, os protagonistas da história não morreram, como sugere a letra da primeira parte. A moça sobreviveu ao naufrágio e o rapaz não morreu ao se jogar no mar. O que isso tem a ver com o álbum? Nada. Por que o vocalista, tecladista e compositor Tony Kakko resolveu inventar uma continuação com final alegrinho para uma história que já estava teoricamente encerrada de forma cinematograficamente trágica? Não sei. Mas é uma baita música…

Os patinhos feitos do álbum ficam por conta de “Among the Shooting Stars”, “Candle Lawns” e “On the Faultline (Closure to an Animal)” (que reprisa a introdução), além do insosso cover de “Run to You”, de Bryan Adams, que tirou da canção o que ela tinha de melhor: aquele “quê” de anos 1980. Todas tão emocionantes quanto uma corrida de barcos encalhados.

Alguns poderiam apontar o dedo para este que vos escreve com o manjado (e patético) argumento “vai lá e faz melhor”. Ora, é uma recomendação tola, pois a própria banda já o fez! É verdade que The Ninth Hour tem momentos memoráveis, mas eu não o indicaria para alguém que ainda não os conhece. Inclusive na discografia mais recente do grupo, já nesta fase de exploração de um caminho inédito no gênero, podemos encontrar itens mais respeitosos.

Além disso, considere o seguinte: um grupo de headbangers finlandeses reclusos em uma cabana no meio da exuberante natureza escandinava para criar um álbum que fale da natureza. Endless Forms Most Beautiful parte II? Coincidências à parte, se o trabalho se propunha a colocar na mesa questões relevantes sobre o impacto do homem na natureza hoje, acertou na trave. É uma compilação de faixas que tratam do tema de forma mais ou menos contundente, mas a capa e o marketing da obra sugeriam algo bem mais coeso e aprofundado.

Nenhum fã do Sonata Arctica deverá desprezar The Ninth Hour, sob pena de perder algumas pérolas. Mas até o mais fissurado deles precisa perceber quando o ídolo não está com a bola toda. Aqui, o quinteto definitivamente não está.




28 de nov de 2016

Review: Jack The Joker - Mors Volta (2016)

segunda-feira, novembro 28, 2016

Metal progressivo é o nome dado ao subgênero que uniu as experimentações musicais do rock progressivo dos anos 1970 com o peso e distorção do heavy metal dos anos 1980. Nessa categoria estão juntas bandas com sons tão díspares quanto Symphony X e Opeth, clássicas como Dream Theater e inovadoras como Mastodon. O desafio é agregar ao metal elementos como o jazz, folk e música erudita e daí sair um resultado coeso, o que nem sempre ocorre, fazendo com que o estilo seja conhecido principalmente pelos seus excessos. Porém, o gênero também conta dentre suas características com a habilidade técnica de seus músicos, além da criatividade e inovação de seus compositores.

O paradigma do prog metal foi definido nos anos 1990 por bandas dos Estados Unidos e Europa. Embora nunca tenha sido um estilo massificado, conquistou seu nicho de fãs e influenciou diversos artistas ao longo dos anos. O Brasil não chegou a produzir um grande nome no gênero, embora características do prog estejam presentes nas duas mais famosas bandas nacionais, Angra e Sepultura. É certo que há uma grande quantidade de grupos de progressivo de inquestionável qualidade, mas ainda assim não há um grande representante nacional do estilo. Lacuna que pode ser preenchida com o trabalhando da banda cearense Jack The Joker.

Será cedo para dizer que a banda está aí para suprir essa lacuna? Após o ouvir o segundo e mais recente disco dos caras, creio que não. 

Jack The Joker é um quinteto surgido em Fortaleza. A banda lançou seu debut In the Rabbit Hole em 2014 e surpreendeu tanto pelo virtuosismo técnico de seus integrantes quanto pela altíssima qualidade das composições: intrincadas, complexas, ora mais extremas e pesadas, ora mais suave e acústicas, mas sempre coesas, sem se perder na virtuose de seus músicos. A banda vem divulgando seu trabalho principalmente através da internet. Seus discos estão disponíveis em plataformas de streaming, You Tube, download, venda física, além de intensa atividade no Facebook oficial onde divulgam seus shows, lançamentos e vídeos.


Dois anos após a estreia, a banda lança seu segundo disco, Mors Volta. Dizem que o segundo álbum é um teste. Os primeiros discos, em geral, são reuniões de composições que foram amadurecidas ao longo dos primeiros anos de ensaio e apresentações de uma banda, já o segundo chega com menos tempo e mais exigência para compor um trabalho inteiro, fechado e redondinho para lançamento. É quando a banda mostra a que veio, mostra seu poder de composição e capacidade de manter ou até superar a qualidade inicial. Jack The Joker passa no seu teste? Com louvor.

Mors Volta é superior a seu antecessor, mostra um banda com sua identidade definida, mas sem abandonar a criatividade com composições ainda mais coesas. A banda escolheu investir em peso e groove que permeiam todo o álbum, dando um ar de jam a certos trechos e chegando a ser quase dançante na canção "Brutal Behavior". É difícil dizer, no meio tantos músicos talentosos, quem se sai melhor, como os guitarristas Lucas Colares e Felipe Facó, milimetricamente técnicos, ou a capacidade do vocalista Raphael Joer, que consegue ir do gutural ao agudo, mas é preciso destacar a cozinha formada por Vicente Ferreira, cuja bateria executa dos movimentos complexos aos mais simples com precisão e o baixo de Lucas Arruda, que injeta groove com seus slaps nos momentos certos de cada canção.

O disco impressiona desde seu início com as viradas de bateria que lembram muito a introdução de "The Wolf is Loose" do Mastodon, mas que segue numa pegada que lembra essa fase mais pesada de prog metal que o Symphony X vem mostrando desde Paradise Lost, com a diferença que o Jack The Joker tem mais ritmo e menos interesse em compor baladas. O que não quer dizer que a banda não tenha um lado mais melódico. 

Se em seu primeiro disco já haviam mostrado bom gosto ao enxertar instrumentos acústicos em algumas composições, em Mors Volta ela se guarda para o final. "Venus & Mars", canção de encerramento, é a mais ambiciosa do disco, tem 24 minutos de duração e busca um síntese de toda a musicalidade apresentada pela banda: peso, groove, jams instrumentais, virtuosismo correndo solto, somados à adição de trechos acústicos belíssimos com flautas e violões construindo momentos contemplativos na canção, sem dúvida a melhor composição do disco. Tudo isso embrulhado numa capa cuja arte me remete ao primeiro álbum do Black Sabbath, além de uma altíssima qualidade de gravação. Basta uma audição atenta ao trabalho e todos os instrumentos se mostram claros e límpidos aos ouvidos, ressaltando o talento de cada músico.

Jack The Joker é uma banda que faz bonito e tranquilamente pode ser colocada ao lado dos grandes nomes do metal progressivo como Dream Theater, Opeth e Symphony X, sem ficar devendo em nada aos clássicos. Só o que falta agora é o mundo e os headbangers do Brasil conhecerem esse nome promissor do metal brasileiro.





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