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9 de jul de 2018

Review: Lynyrd Skynyrd - Free Bird: The Movie (1996)

segunda-feira, julho 09, 2018
Uma das bandas mais cultuadas do rock, o Lynyrd Skynyrd tem uma história trágica. Dia 20 de outubro de 1977, apenas três dias após o lançamento do ótimo álbum Street Survivors, que vinha na esteira do duplo ao vivo One More From the Road (1976) e que consolidou o Skynyrd como um dos maiores nomes do rock norte-americano, o avião da banda caiu a caminho de um show na Universidade da Louisiana, matando o vocalista Ronnie Van Zant, o guitarrista Steve Gaines e a sua irmã, Cassie Gaines, que fazia backing vocals para o grupo, além do manager Dean Kilpatrick e os dois pilotos.

Lançado no dia 8 de agosto de 1996, quase dez anos após o acidente, Free Bird: The Movie é a trilha sonora do documentário homônimo, que conta a carreira do grupo intercalado com imagens de diversos shows (com destaque para a apresentação no Knebworth Festival de 1976, abrindo para os Rolling Stones, onde tocaram em um palco em forma de língua e roubaram o show).

Todo o áudio de Knebworth foi restaurado pelo produtor Tom Dowd, o mesmo do clássico One More From the Road, enquanto as versões de "What's Your Name" e "That Smell", gravadas no Convention Hall de Asbury Park, em New Jersey, precisaram de overdubs de baixo, levando Leon Wilkinson a refazer as suas partes em estúdio.

Contraditoriamente, o vídeo continua inédito no Brasil (na época do seu lançamento, o VHS podia ser encomendado diretamente pelo site oficial da banda), enquanto que o CD ganhou versão nacional logo após o lançamento americano, em 1996.

Falar de um show do Lynyrd Skynyrd, o maior nome do southern rock, com a banda no auge durante a turnê de um dos seus melhores álbuns, é covardia. O disco é um desfile de clássicos e abre com "Workin' For MCA", seguida de "I Ain't the One" e de um dos destaques do play, "Saturday Night Special", onde podemos sentir na pele todo o poder do paredão de guitarras formado por Gary Rossington, Allen Collins e Steve Gaines (só para constar: quando o Iron Maiden anunciou o retorno de Bruce Dickinson e Adrian Smith ao grupo em 1999, Steve Harris declarou não lembrar de nenhuma banda que tivesse feito algo relevante com três guitarras, com exceção do Lynyrd Skynyrd. O velho 'Arry sabe das coisas ...).

Como uma máquina do tempo que nos leva de volta ao passado, "Whiskey Rock-A-Roller" e a matadora "Travelin' Man" (outro destaque em um show repleto de pontos altos) fazem você se sentir no meio da multidão.

"Travelin' Man", aliás, merece um parágrafo a parte. Uma das melhores canções do grupo, tem a sua raiz em uma linha de baixo matadora de Leon Wilkinson, com as guitarras entrando aos poucos e se interligando completamente, como se, ao invés de três guitarristas, o Lynyrd Skynyrd tivesse apenas um, com três braços tocando dezoito cordas. De arrepiar.


As versões de "What's Your Name" e "That Smell" presentes aqui, apesar dos overdubs já citados, estão comprometidas pela qualidade do áudio, o que é uma pena, porque, além de ótimas composições, possuem um valor histórico muito grande, já que são um dos últimos registros ao vivo do grupo. Mas, mesmo assim, é um prazer incrível ouvir o solo inspiradíssimo de "That Smell", onde, mais uma vez, as guitarras de Rossington, Collins e Gaines formam uma parede sonora ao mesmo tempo poderosa e belíssima.

"Gimme Three Steps", a versão para "Call Me The Breeze" de J.J. Cale e "T For Texas (Blue Yodel No. 1)" abrem caminho para um encerramento sensacional, com os dois maiores clássicos do Skynyrd: "Sweet Home Alabama" e "Free Bird".

Marca registrada do grupo, "Sweet Home Alabama" foi gravada como uma resposta a "Southern Man" de Neil Young (do álbum After the Gold Rush, de 1970), crítica feroz do artista canadense ao comportamento racista tradicional encontrado tradicionalmente no sul dos Estados Unidos, pivô de diversos conflitos raciais e local de origem de associações como a Ku Klux Klan. Essa música encerra o registro do show do grupo em Knebworth.

Já "Free Bird" foi gravada em um estádio lotado durante o evento Day on the Green, no dia 3 de julho de 1977, alusivo à independência norte-americana, e traz uma emoção palpável. Quem assistiu ao vídeo lembra do estado do público, que parecia estar em transe coletivo enquanto a banda executava a música. Esse clima também pode ser sentido no registro em CD, onde o grupo toca o seu maior hino de maneira perfeita, com destaque para o pequeno solo improvisado pelo pianista Billy Powell e, é claro, para a guitarra de Allen Collins, que durante mais de seis minutos toca alucinadamente, em um dos maiores solos da história do rock.

Fechando o disco temos uma versão de "Dixie", canção que é considerada quase um hino sulista, executada pelo artista Bruce Brown.

Quem quer entender o rock and roll e suas transformações em mais de cinquenta anos de vida precisa conhecer certas bandas, certos álbuns e certas músicas. Free Bird: The Movie mostra um dos maiores grupos dos anos 1970 no auge, com a sua melhor formação (Ronnie Van Zant no vocal, Gary Rossington, Allen Collins e Steve Gaines nas guitarras, Leon Wilkinson no baixo, Billy Powell no piano e Artymus Pyle na bateria), tocando em um de seus últimos shows. Precisa de mais algum motivo para ter este disco?

Acho que não.

4 de jul de 2018

Review: Trouble - Psalm 9 (1984)

quarta-feira, julho 04, 2018

Junto com o debut do Saint Vitus - que saiu em fevereiro de 1984 -, Psalm 9, estreia da banda norte-americana Trouble, é considerado um dos primeiros discos de doom metal da história. O álbum, cujo título original era apenas Trouble, chegou às lojas no dia 10 de março de 1984 e, 34 anos depois, segue soando impressionante.

Tenho uma teoria sobre o doom metal. Para mim, o gênero nasceu de um único LP gravado e lançado em 1971: Master of Reality, terceiro disco do Black Sabbath. Todas as características do estilo estão nas oito faixas do LP da banda de Tony Iommi: os riffs arrastados, a melancolia, os andamentos mais lentos, as explosões sonoras, o desespero e a angústia vocal, e também a contrastante facilidade com que elementos tão sombrios e agressivos conseguem, unidos, dar vida à uma sonoridade que agrada de imediato e soa, sim, acessível.

Psalm 9 vem com oito faixas e uma música bônus, que é a versão para “Tales of Brave Ulysses”, do Cream - a gravação original está em Disraeli Gears, lançado pelo trio inglês em 1967. O disco apresentou ao mundo o quinteto formado por Eric Wagner (vocal), Bruce Franklin (guitarra), Rick Wartell (guitarra), Sean McAllister (baixo) e Jeff Olson (bateria). A influência do Black Sabbath é onipresente, e é sentida desde a construção dos riffs - sempre pesadíssimos - até a estrutura das músicas. 

Totalmente alheia ao que rolava no metal dos anos 1980, o Trouble olhou para o passado e reapresentou a sonoridade clássica do gênero para uma nova geração de ouvintes. O curioso é que a banda contrastava com o Sabbath em apenas um aspecto: as letras. Enquanto temas sombrios, magia negra e pactos com o demônio eram escritos por Geezer Butler e cantados por Ozzy Osbourne, no Trouble a história era exatamente oposta: as letras de Psalm 9, a começar pelo título, colocam Deus em primeiro plano e exploram desde o combate com seus inimigos - “The Fall of Lucifer” - até questões mais transcendentais e espirituais, como em “Revelations (Life or Death)”.

Apesar de aclamado pela crítica, Psalm 9 não alcançou sucesso entre o grande público, o que não foi surpresa alguma, já que ele trazia uma pegada totalmente oposta ao que estava rolando no metal em meados dos anos 1980. O único single do disco foi “Tales of Brave Ulysses”, que foi desconstruída pela banda e ganhou uma roupagem doom e pesada de cair o queixo.

Na história do metal, poucos discos são associados de maneira direta e de forma tão contundente com o surgimento de um estilo quanto Psalm 9. O doom metal realmente nasceu aqui, e três décadas após o seu lançamento o álbum continua incrível.

Resumindo: um disco obrigatório em qualquer coleção de metal que se preze.

Review: Manilla Road - Open the Gates (1985)

quarta-feira, julho 04, 2018

Quarto álbum da banda norte-americana Manilla Road, Open the Gates é um dos discos mais cultuados do heavy metal dos anos 1980 e possui uma legião de fãs aqui no Brasil. Sabendo disso, a Hellion Records relançou o título em CD, para alegria de quem coleciona e quer conhecer mais sobre uma banda pouco falada e sobre um dos períodos mais criativos da música pesada.

Na época, o Manilla Road havia trocado de baterista, e Open the Gates marcou a estreia do novo dono do posto, Randy Foxe, que substituiu Rick Fischer. O disco soa como uma evolução de seu predecessor, Crystal Logic (1983), e apresenta uma sonoridade mais pesada e muito mais épica do que os dois primeiros trabalhos do grupo, que tinham uma pegada mais hard rock. Essa nova abordagem se reflete nas músicas, que em sua maioria foram inspiradas nas lendas arturianas e nos mitos nórdicos, explorando um direcionamento lírico que seria comum nos anos seguintes em grande parte da cena power metal.

O álbum possui uma sonoridade bem crua, com os instrumentos, notadamente a bateria, bem na cara. É algo bem longe da sonoridade atual das bandas de metal, com menos graves e muito menos recursos do que estamos habituados a encontrar no metal moderno. Há uma certa similaridade com gigantes da NWOBHM como Iron Maiden e, principalmente, o Saxon. A proximidade entre as duas bandas é bastante evidente no período, com o Manilla Road soando quase como uma banda irmã do Saxon.

As faixas mostram um heavy metal clássico e técnico, com ideias imaginativas e bem elaboradas e com a maioria dos ingredientes que iriam fazer nascer, pouco tempo depois, o power metal. Não é errado imaginar que os músicos do Helloween, por exemplo, tenham colocado os ouvidos em Open the Gates


O trabalho de guitarra do também vocalista Mark Shelton é um destaque onipresente, com bons riffs e ótimos solos, que invariavelmente se desdobram em belas melodias. Nas faixas mais agressivas, como a abertura com “Metalstrom”, o Manilla Road chega até mesmo a se aproximar da nascente cena thrash metal da época. Há lindos momentos em Open the Gates, como a arrepiante “The Ninth Wave”, “Heavy Metal to the World” (com um clima bem Motörhead e com uma pegada super agressiva) e o encerramento com a climática e atmosférica “Witches Brew”.

A bela capa, criada pelo artista Eric Larnoy, também merece elogios.

A edição lançada no Brasil pela Hellion Records vem com o áudio remasterizado e três faixas bônus: “Touch the Sky (Early Rehearsal)”, “Witches Brew (Live 1987)” e “Weaver of the Web (Live 2011)”. 

Se você é fã de heavy metal, aqui está um CD imperdível para a sua coleção.

29 de jun de 2018

Review: Triumph - Allied Forces (1981)

sexta-feira, junho 29, 2018

Lançado em 19 de setembro de 1981, Allied Forces é o quinto álbum do trio canadense Triumph e também o seu disco mais emblemático. Sucessor de Progressions of Power (1980), colocou o grupo como um dos nomes mais populares do rock na primeira metade da década de 1980, puxado pela força dos singles “Magic Power” e “Fight the Good Fight”, que alcançaram a 8ª e a 18ª nas paradas, respectivamente.

Allied Forces traz o trio formado por Rik Emmett (vocal e guitarra), Mike Levine (baixo, piano e sintetizadores) e Gil Moore (vocal e bateria) no auge de sua criatividade, equilibrando as influências hard e prog dos trabalhos anteriores com uma deliciosa aura pop e melódica. Essa mistura foi responsável por fazer o disco cair no gosto do público e também da crítica.

Produzido pela própria banda, o álbum traz nove faixas compostas em conjunto pelos músicos, com exceção para os interlúdios “Air Raid” e “Petite Etude”, criações instrumentais de Emmett - a primeira é só uma cama introdutória para a faixa título, enquanto a segunda é um bonito interlúdio acústico que mostra o talento de Rik no violão.

O tracklist de Allied Forces é conciso, mostrando uma banda focada e unida, apesar das diferenças que já surgiam entre os músicos. Há uma atmosfera muito agradável durante todo o álbum, que transmite uma refrescância e uma aura leve. A produção certeira é outro ponto de destaque, já que mesmo passados quase quarenta anos de seu lançamento, Allied Forces segue soando atual e não envelheceu praticamente nada.


Entre as músicas, os destaques são muitos. O hard como solto logo na abertura, com a ótima “Fool for Your Love”, e alia-se sem medo ao pop em “Magic Power”. Essa música tem aquele clima de comercial da Hollywood que nós, na faixa dos 40 anos, adorávamos e conhecemos bem. A música título é outra que equilibra o hard com a pegada melodiosa, e é uma sonzeira deliciosa. Já em “Hot Time (In This City Tonight)” temos o Triumph brincando com um rock and roll com pegada dos anos 1950.

A melhor música de Allied Forces é a incrível “Fight the Good Fight”. Cheia de groove, é uma aula de composição, com linhas vocais que se entrelaçam com o instrumental quebrado, além de uma ótima performance de todos os músicos. “Ordinary Man” vem a seguir e é a única música fraca do álbum, mas a sensação é logo mandada embora com “Say Goodbye”, que fecha o disco em grande estilo.

Em um mundo mais justo, Allied Forces estaria na mesma prateleira e teria o mesmo status de discos icônicos do hard rock dos anos 1980 como Appetite for Destruction e Slippery When Wet. Aliás, a influência do álbum do Triumph sobre o Guns N’ Roses, o Bon Jovi e grande parte do hard californiano daquela década é bastante óbvia. Resumindo: além de um excelente disco, Allied Forces é um clássico do estilo.

Allied Forces está sendo relançado no Brasil pela Hellion Records. Esta é a primeira vez que o álbum ganha uma edição nacional em CD. Portanto, se você ainda não tem o disco em sua coleção, essa é a hora de conhecer um dos grandes trabalhos do hard rock dos anos 1980.

26 de jun de 2018

Review: The Exploited - Let’s Start a War … (Said Maggie One Day) (1983)

terça-feira, junho 26, 2018

Terceiro álbum da banda inglesa The Exploited, Let’s Start a War … (Said Maggie One Day) está sendo relançado no Brasil pela Hellion Records. O disco saiu em 1983 e seu título é uma crítica à decisão da então Primeira Ministra britânica, Margaret Thatcher, de declarar guerra à Argentina pela disputa das Ilhas Malvinas - as Falklands, para os ingleses -, em 1982. O disco traz um forte discurso anti-Thatcher, posicionamento bastante presente nos anos iniciais do The Exploited e que permaneceu agressivo até Thatcher deixar o poder, em 1990.

Let’s Start a War marcou também a estreia da nova formação do quarteto, que foi totalmente reformulado na época. Apenas o vocalista Wattie Buchan permaneceu no grupo, cuja formação foi completada por Billy (guitarra), Wayne Tyas (baixo) e Willie Buchan (bateria). O álbum é considerado o trabalho mais político do Exploited, refletindo o período conturbado vivido pela Inglaterra, com a classe trabalhadora, de onde vinham os músicos do grupo, sendo um dos principais focos da política econômica de Margaret Thatcher.

O que temos em Let’s Start a War são doze faixas de um punk rock simples e agressivo, tosco em alguns momentos, mas sempre bastante sanguíneo e energético, como o Exploited foi durante toda a sua carreira. O apuro instrumental e técnico nunca esteve entre as prioridades da banda, e o disco é um exemplo desse desapego. O uso de backing vocals imprime mais profundidade a algumas canções, enquanto em certas faixas os riffs de guitarra aproximam-se, mesmo que timidamente, da cena mais extrema do metal da época, como Motörhead e Venom. O álbum conta com diversas introduções na abertura das músicas trazendo falas reais de Margaret Thatcher e manchetes televisivas, recurso esse que funciona como uma espécie de pilar documental do que a banda sentia e vivia no período.

Entre as músicas, destaque para “Rival Leaders”, “Psycho" e “Kidology”, um trio de canções rápidas e que mostra a veia hardcore do The Exploited. E vale mencionar que a arte da capa é uma das mais icônicas do gênero, com a caveira com moicano que se tornou a marca registrada do Exploited.

Se você é fã de punk rock e gosta do estilo, Let’s Start a War … (Said Maggie One Day) é um disco bem legal para ter na sua coleção. A nova edição brasileira é uma ótima oportunidade para adquirir um dos álbuns mais marcantes do punk dos anos 1980.

21 de jun de 2018

Review: Motörhead - Motörhead 40th Anniversary Edition (2017)

quinta-feira, junho 21, 2018

Lançado em 21 de agosto de 1977, o auto-intitulado primeiro disco do Motörhead deu início à trajetória da banda liderada por Lemmy Kilmister. O baixista e vocalista, que tinha sido roadie de Jimi Hendrix, foi expulso do Hawkwind em 1975 após ser pego com drogas na fronteira dos Estados Unidos com o Canadá e passar cinco dias preso. Então, resolveu seguir novos rumos e encontrou dois desajustados como ele: o guitarrista Eddie Clarke e o baterista Phil Taylor.

O álbum, que foi relançado em uma edição especial com dois CDs alusiva aos seus 40 anos - versão essa que a Hellion Records trouxe para o Brasil em um belo digipak -, mostra um Motörhead bem diferente da banda que conquistaria corações e mentes com discos como Overkill (1979), Bomber (1979) e Ace of Spades (1980). O debut do trio formado por Lemmy, “Fast" Eddie Clarke e Phil “Philthy Animal” Taylor apresenta uma sonoridade muito mais focada no rock and roll do que na mistura de hard rock, punk e metal pela qual o grupo ficaria conhecido. Dá pra afirmar que Motörhead, o disco, mostra uma banda mais próxima de Chuck Berry do que do Black Sabbath, por assim dizer.

O tracklist original tinha oito músicas, com direito a uma versão para a clássica “The Train Kept A-Rollin”, regravadas por nomes como The Yardbirds e Aerosmith. A edição de 40 anos vem com vinte faixas, incluindo na totalidade o EP Beer Drinkers and Hell Raisers (lançado em 22 de novembro de 1980 e que traz uma versão para a canção homônima de outro super trio, o ZZ Top) e versões alternativas, outtakes e faixas raras.


Produzido por John David Percy “Speedy" Keen, que era vocalista, baterista e tecladista do Thunderclap Newman e também autor da canção “Something in the Air” (a música está na trilha de Quase Famosos e ganhou uma versão bastante conhecida de Tom Petty and The Heartbreakers), o disco possui uma sonoridade suja e um tanto abafada, porém condizente com a estreia de uma nova banda dos anos 1970. Para o AllMusic: “Apesar de ter alcançado apenas um pequeno sucesso nas paradas, o álbum patenteou o estilo do Motörhead: o vocal de Lemmy sobre um rolo compressor de guitarra, baixo e bateria. Não é de se admirar que os punks tenham gostado”. Já o escritor Joel McIver, autor da biografia do trio, afirma: “Com o benefício da visão retrospectiva, é claramente óbvio que o disco nem chega perto de capturar o som ao vivo hipnotizante do grupo”.

Além de ser a estreia da banda, o álbum apresentou ao mundo a logo marcante do Motörhead, com um “porco de guerra” criado pelo artista Joe Petagno, imagem essa que acompanharia a banda até o seu final. Petagno tentou combinar, em um mesmo animal, características de um urso, um lobo e um cão, e o resultado foi a figura que ficou conhecida entre os fãs como “War-Pig”. Uma curiosidade: a versão original tinha uma suástica no capacete, que acabou sendo apagada para evitar problemas - vale lembrar que Lemmy foi um grande colecionador de material nazista durante toda a vida. Joe Petagno fez outros trabalhos marcantes em sua carreira, como o a logo do selo Swan Song do Led Zeppelin e dezenas de capas de discos.



De maneira geral, Motörhead é um álbum inferior a praticamente todos os 21 outros discos que Lemmy e companhia gravaram ao longo de sua trajetória. Porém, a sua força está nesse olhar retrospectivo que o tempo permite e que foi citado por McIver: sabendo o que a banda iria fazer depois e os caminhos que a música do Motörhead tomaria nos anos seguintes, é quase um exercício de arqueologia identificar as influências já presentes neste primeiro disco e entender como elas foram desenvolvidas e trabalhadas por Lemmy, Eddie, Animal e toda a turma.

Um louvável lançamento da Hellion Records, focado principalmente no mercado de colecionadores, que agora tem acesso a uma edição bastante completa e por um preço acessível. Elogios também para o belo trabalho gráfico da capa, com o símbolo característico da banda na cor prata e um encarte de 24 páginas com fotos e a história dos primeiros anos do Motörhead. Imperdível!

Review: Cavalera Conspiracy - Psychosis (2017)

quinta-feira, junho 21, 2018

Faço parte da turma que não curtiu Pandemonium (2014), terceiro álbum do Cavalera Conspiracy. A sonoridade suja e a mixagem abafada do contribuíram para que a minha avaliação do disco fosse bastante negativa. Por isso, fui com um pé atrás conferir Psychosis, quarto trabalho da banda dos irmãos Max e Iggor.

E é bom quando uma expectativa negativa é quebrada. Psychosis, lançado em novembro de 2017 lá fora e que ganhou edição nacional pela Hellion Records, fez com que eu esquecesse a imagem negativa deixada pelo álbum anterior. Ao invés de Max na produção, temos Arthur Rizk regulando a mesa de som. O guitarrista Marc Rizzo, parceiro de longa data dos Cavalera, completa o trio central da banda, que ainda contou com o próprio Rizk no baixo, além de diversas participações.

De modo geral, Psychosis é o disco menos experimental do Cavalera Conspiracy. Não temos em nenhuma das suas nove músicas o lado mais inovador que levou Max a ser reconhecido tanto no Sepultura quanto no Soulfly. O que não quer dizer, necessariamente, que estejamos diante de um disco menor, o que realmente não é verdade. 

Dá pra dizer que Psychosis é o trabalho mais convencional do Cavalera Conspiracy, e talvez o mais extremo da banda. As canções passeiam pelo espectro do thrash metal, com algumas aproximações com o death. Iggor insere algumas batidas tribais bastante sutis, principalmente nas viradas de bateria, enquanto o trabalho de guitarra não tem nada de “noise" e é bem focado na pegada tradicional tanto do thrash quanto do death metal. “Hellfire" tem uma característica mais industrial que contrasta com o restante do tracklist, assim como a atmosférica faixa título, enquanto em outros momentos, como na ótima “Judas Pariah”, o Cavalera Conspiracy abraça o seu lado death metal sem medo e nem receio.

Psychosis é um bom disco com músicas fortes como “Insane”, “Terror Tactics”, “Impalement Execution” e “Judas Pariah”, que soa muito superior ao álbum anterior do Cavalera Conspiracy e mantém esse projeto de Max e Iggor ainda atraente e interessante para os fãs.

20 de jun de 2018

Review: Apocalyptica - Shadowmaker (2015)

quarta-feira, junho 20, 2018

Quando surgiu com o álbum Plays Metallica by Four Cellos (1996), o quarteto finlandês chamou a atenção ao apresentar uma proposta inédita: recriar alguns dos clássicos da banda norte-americana apenas com um quarteto de cordas e de forma instrumental. A proposta deu certo e o disco caiu no gosto dos fãs de metal, viabilizando ao Apocalyptica uma carreira mais longa.

No entanto, a fórmula do primeiro álbum evidentemente não teria uma vida tão longa assim, e a banda se viu obrigada a evoluir a sua música e a inserir novos elementos em sua sonoridade. Isso foi feito trazendo os instrumentos característicos do metal - guitarra, baixo e bateria - e com a inclusão de um vocalista, porém mantendo o aspecto “clássico”, por assim dizer, da sua música. Todo esse processo foi acontecendo de maneira gradativa ao longo dos anos até chegar em Shadowmaker, primeiro trabalho a trazer essa nova proposta na íntegra de maneira efetiva.

Lançado em 17 de abril de 2015, Shadowmaker é o oitavo disco do Apocalyptica e o primeiro trabalho da banda a trazer apenas um vocalista - no caso o norte-americano Franky Perez. Experiente, Perez foi guitarrista do Scars on Broadway - banda formada pelo guitarrista e baterista do System of a Down, respectivamente Daron Malakian e John Dolmayan - e possui uma carreira solo que já rendeu três discos. Além disso, colaborou com Slash na banda solo do guitarrista do Guns N’ Roses e com outros nomes conhecidos.

O que o Apocalyptica faz em Shadowmaker é uma atualização da sua música, e Perez é um dos elementos principais. Para mim, isso acabou sendo um problema, pois o timbre do vocalista não me agradou muito. Um tanto quanto agudo e sem agressividade, apesar das boas interpretações, achei o vocal o ponto baixo desse disco. No aspecto instrumental temos a banda conseguindo equilibrar bem o lado clássico e a pegada metal, criando uma sonoridade que desce sem sustos. Vale mencionar que, ao consultar outros reviews mundo afora - algo que costumo fazer quando estou analisando um disco -, me deparei com resenhas invariavelmente positivas, então achei interessante compartilhar isso com vocês porque, talvez, a minha implicância com o vocal de Franky Perez possa ter interferido na minha avaliação geral do álbum.

Outro ponto que precisa ser dito é que Shadowmaker não traz nenhuma versão para canções de outros artistas e conta apenas com composições da própria banda. Os caras conseguem variar entre faixas mais agressivas e outras mais lentas, baladas mesmo, como “Holy in My Soul”. No entanto, os melhores momentos, ao meu ver, acabam aparecendo quando a banda explora o seu diferencial, que está no quarteto de cordas que a tornou conhecida. Isso acontece de maneira exemplar nas instrumentais “Riot Lights” e “Till Death Do Us Part”, além de um trecho particularmente bastante inspirado e bonito na música que dá título ao disco.

De modo geral, achei Shadowmaker um álbum apenas mediano. É louvável o desejo do Apocalyptica em se aventurar por novos caminhos, mas como disse antes, a inclusão de Franky Perez não me pareceu a escolha mais acertada. Talvez um vocalista com um timbre mais agressivo geraria um contraste melhor com o instrumental refinado e inspirado na música clássica que sempre marcou o Apocalyptica.

O disco foi lançado no Brasil pela Hellion Records.

Review: Rik Emmett & RESolution9 - RES9 (2016)

quarta-feira, junho 20, 2018

O álbum RES9 marcou o retorno de Rik Emmett, vocalista, guitarrista e fundador da banda canadense Triumph, um dos nomes mais cultuados do hard e heavy dos anos 1980. O disco saiu lá fora em 2016 e foi lançado no Brasil agora pela Hellion Records. 

E para quem gosta de classic rock é um prato cheio, pois além de trazer Emmett em boa forma o álbum ainda conta com as participações especiais de Alex Lifeson e James LaBrie, respectivamente guitarrista do Rush e vocalista do Dream Theater. Como cereja do bolo, há ainda a presença dos brothers dos tempos do Triumph - o baixista Mike Levine e o baterista Gil Moore -, na música que encerra o play, “Grand Parade”. A banda que acompanha Emmett, o RESolution 9, é formada por Dave Dunlop (guitarra), Steve Skingley (baixo) e Paul DeLong (bateria).

Musicalmente, o que encontramos em RES9 é um hard rock melodioso e com foco nas guitarras. O apelo pop é onipresente, o que aproxima a proposta de Emmett do AOR, porém sem a presença maciça de teclados, o que me agrada bastante. Compositor de mão cheia, Rik segue em grande forma mostrando ideias que agradam o ouvinte.

O álbum possui uma dinâmica interessante, variando sempre entre canções mais rápidas e baladas que baixam o tom, sendo que nessas últimas fica evidente que Emmett é, de fato, um hitmaker. Lifeson participa de “Human Race” enquanto LaBrie solta a voz em “I Sing”. Juntos, o Rush e o Dream Theater dividem os holofotes com o anfitrião em “End of the Line”.

Despretensioso na melhor acepção do termo, RES9 é um disco leve e com uma aura muito agradável, permeado por belas melodias e canções que conquistam o coração. Há feeling em sua receita, com notas que passam muito mais pela emoção do que pela técnica - porém, não se engane, pois a performance de todos é exemplar.

Entre as faixas, destaque para o tempero ZZ Top logo na abertura com “Stand Still”, “Human Race”, a balada blues “My Cathedral”, a contemplativa “The Ghost of Shadow Town” (com lindas guitarras) e a ótima “End of the Line”, com Alex Lifeson e James LaBrie.

RES9 é um álbum que surpreende de maneira muito positiva, vale conferir.

19 de jun de 2018

Review: Glenn Hughes - Burning Japan Live (1994)

terça-feira, junho 19, 2018

Burning Japan Live é o primeiro álbum ao vivo da carreira solo de Glenn Hughes e foi lançado em 31 de agosto de 1994. O disco, como o título dá a pista, foi gravado no Japão, mais precisamente no Club Chitta, localizado na cidade de Kawasaki, nos dias 24 e 25 de maio de 1994, durante a turnê do From Now On … (1994), seu terceiro trabalho solo.

O que temos é um disco com 15 faixas, equilibrado entre clássicos do Deep Purple, canções dos álbuns de Hughes e também do álbum Hughes/Thrall, gravado em 1982 junto com o guitarrista Pat Thrall (Pat Travers, Asia, Meat Loaf). O vocalista e baixista, que antes do Purple também teve uma carreira de destaque no Trapeze e mais tarde integraria o Black Country Communion, estava acompanhado na época por uma banda excepcional. Faziam parte da turma de Glenn Hughes na turnê os guitarristas Thomas Larsson (que passou pelo Six Feet Under) e Eric Bojfeldt, o tecladista Mic Michaeli, o baixista John Levén e o baterista Ian Haugland - os três últimos também integrantes da banda sueca Europe. E um adendo: Hughes apenas canta no disco, deixando o baixo por conta de Levén.

A verdade é que Burning Japan Live, mesmo quase 25 anos após o seu lançamento, continua sendo o melhor registro ao vivo de Glenn Hughes como artista solo e um dos melhores álbuns ao vivo com a sua participação. Ainda que naquela época Hughes utilizasse bastante o recurso dos gritos ao longo das músicas, eles não eram tão cansativos quanto acabaram se tornando anos mais tarde - hoje, o músico já entendeu que não está em um programa como o The Voice e que não precisa ficar gritando de maneira desesperada para provar que sabe cantar.

A Hellion Records havia lançado este ao vivo no Brasil em 1994, mas desde então ele estava fora da catálogo. Isso foi corrigido pela própria Hellion, que relançou Burning Japan Live em 2018. A nova edição não traz material adicional - algo que nenhuma versão mundo afora possui, diga-se de passagem - e mantém as mesmas características da anterior.


Musicalmente, o que temos é uma excelente performance de toda a banda. Hughes estava com a voz mais jovem do que apresenta hoje, duas décadas depois, e a banda que o acompanha é excelente, com destaque para a cozinha formada por John Levén e Ian Haugland. A bela escolha do tracklist é outro ponto forte, resultando em um show agradável e que proporciona ótimos momentos durante a audição, variando entre canções mais agressivas e outras mais calmas. Como curiosidade, vale mencionar que o disco contém uma faixa, “Still in Love With You”, que não consta em nenhum dos álbuns de Hughes e que traz o vocalista acompanhado somente pelo teclado - que ele mesmo toca - enquanto canta. Apesar de homônima a um dos grandes clássicos do Thin Lizzy, a “Still in Love With You” de Glenn não tem nada a ver com a da banda de Phil Lynott.

Entre as músicas, destaque para “From Now On …”, “Owed to H”, “This Time Around”, “Gettin' Tigher”, “You Keep on Moving”, “Lady Double Dealer”, “I Got Your Number”, “Burn" e “Stormbringer”. No entanto, todas as faixas apresentam ótimas performances e formam um tracklist muito sólido.

Em uma época onde discos verdadeiramente ao vivo são cada vez mais raros e têm as suas “falhas" corrigidas sem dó no estúdio, Burning Japan Live é um ótimo exemplo de como a música caminha com os próprios pés e sustenta sem a ajuda de nada e ninguém um ótimo show. 

Aproveite o relançamento da Hellion e, caso ainda não tenha este CD em sua coleção, leve-o já para casa.

Review: Dead Kennedys - Fresh Fruit for Rotten Vegetables (1980)

terça-feira, junho 19, 2018

Lançado em 2 de setembro de 1980, Fresh Fruit for Rotten Vegetables é o primeiro álbum da banda norte-americana Dead Kennedys e um dos maiores clássicos do punk rock. Considerado como o melhor disco do grupo, deu início a uma carreira que influenciou profundamente o estilo, tanto em relação à música quando em se tratando da parte lírica. O disco estava fora de catálogo no Brasil, porém foi relançado em CD pela Hellion Records este ano. Não preciso nem dizer que é uma ótima oportunidade de ter em sua coleção um dos títulos mais marcantes e obrigatórios do rock, né?

Fresh Fruit for Rotten Vegetables foi produzido pela dupla Norm e East Bay Ray. Ray era também o guitarrista da banda, cuja formação era completada por Jello Biafra (vocal), Klaus Flouride (baixo) e Bruce Slesinger (bateria, e que atendia pelo apelido de Ted). São 14 músicas em pouco mais de 30 minutos, uma paulada raivosa e ao mesmo tempo requintada, e que mostrou uma nova forma de se fazer punk rock. Na opinião da NME, o Dead Kennedys era muito influenciado pelo UK Subs, enquanto para outros jornalistas o disco era a companhia perfeita para Never Mind the Bollocks, a igualmente clássica estreia do Sex Pistols.

A sonoridade de Fresh Fruit for Rotten Vegetables tem algumas particularidades. A mixagem, obviamente, deixa o som bem na cara como em todo bom disco punk, mas também privilegia os tons mais agudos em detrimento aos aspectos mais graves do baixo, por exemplo. Além disso, a forma de cantar de Biafra, cheia de maneirismos e com um que de declamação e carregada de ironia, acabou se tornando uma das marcas registradas da banda. Na parte instrumental, apesar de o punk estar associado à estruturas musicais simples, recomendo que, ao ouvir o álbum, você preste atenção no trabalho de guitarra, baixo e bateria e perceba a alquimia que East Bay Ray, Klaus Flouride e Ted conseguiram criar - fique de olho principalmente no trabalho de guitarra, que é incrível e muito original.


Há de se citar o fortíssimo tracklist, que traz um desfile de ótimas canções que mais parece sair de um greatest hits do que de um disco de estreia. Estão em Fresh Fruit for Rotten Vegetables músicas como “Kill the Poor”, “Forward to Death”, “Let's Lynch the Landlord”, “Drug Me”, “California Uber Alles”, “Stealing People’s Mail”, “Ill in the Head" e “Holiday in Cambodia”, canções que se transformaram não apenas em algumas das mais conhecidas da banda mas, sobretudo, em hinos imortais do punk norte-americano.

O álbum possui algumas curiosidades interessantes. A contracapa original trazia uma foto de uma banda tradicional, onde bateria continha a logo do Dead Kennedys aplicada. A imagem era da uma banda chamada Sounds of Sunshine e foi encontrada pelo baixista Klaus Flouride, que a achou “hilária" e decidiu utilizar a imagem. O problema é que o fato chegou ao conhecimento do vocalista do Sounds of Sunshine, Warner Wilder, que ameaçou processar a banda. Assim, a contracapa precisou ser reimpressa com uma nova imagem, enquanto as reedições recentes vieram com a foto original “atualizada”, sendo com a cabeça dos músicos cortada ou envelhecida, e até mesmo com uma nova imagem, agora sim trazendo os músicos do Dead Kennedys. 


A ideia original da IRS, gravadora do grupo, era que a capa viesse com a cor laranja e as letras na cor preta, porém os músicos não aprovaram a sugestão por considerá-la inferior à versão lançada na Inglaterra - o disco saiu primeiro no Reino Unido pela Cherry Red Records e só em 1981 nos Estados Unidos, porém com a capa laranja não aprovada pela banda. Algumas prensagens posteriores trouxeram adições ao tracklist, com a inclusão de “Police Truck” entre “Let's Lynch the Landlord” e “Drug Me”, e também a presença de “Too Drunk to Fuck” no final do lado A. 

E sobrou até para o Brasil. A primeira edição nacional de Fresh Fruit for Rotten Vegetables foi lançada pela Continental em 1986 em duas versões: uma em vinil preto e outra em vinil branco. Essa versão com o disco na cor branca é disputada por colecionadores de todo o mundo e é uma verdadeira raridade hoje em dia.


Fresh Fruit for Rotting Vegetables é um dos maiores clássicos do punk e um dos álbuns mais importantes da história do rock. Presença constante em listas elaboradas pelas mais variadas publicações e sites, o disco é o ápice da carreira do Dead Kennedys e um álbum obrigatório em qualquer coleção de discos.

Ou seja: aproveite o relançamento da Hellion e dê esse disco de presente para a sua coleção.

18 de jun de 2018

Review: Europe - Walk the Earth (2017)

segunda-feira, junho 18, 2018

O Europe é daquelas bandas com fases bem distintas em sua carreira. Quando surgiu nos anos 1980, o quinteto sueco alcançou a fama mundial com um hair metal repleto de teclados, músicas grudentas e todos os clichês do gênero, cujo ápice se deu em seu terceiro disco, o multiplatinado The Final Countdown (1986). A banda deu um tempo em 1992 e retornou apenas onze anos depois, em 2003, lançando um novo álbum em 2004, Start from the Dark.

A partir da pausa, a história passou a ser outra. Os hits melodiosos como “The Final Countdown” e “Carrie” ficaram no passado e o quinteto começa a explorar outra sonoridade, muito mais madura e atraente. A aproximação com ícones como Deep Purple e Led Zeppelin é facilmente perceptível na nova fase do Europe, que hoje faz um hard rock que honra a tradição gloriosa do estilo e bebe também em outras fontes de inspiração dos anos 1970.

Walk the Earth, lançado em outubro de 2017 e disponível em edição nacional pela Hellion Records, é o sexto disco da fase atual. E, como de habitual, é um excelente trabalho. Com 10 músicas em pouco mais de 40 minutos, trata-se de um álbum conciso e com canções bastante fortes, onde o destaque é, com o perdão da repetição, a onipresente maturidade mostrada pela banda. 

O novo Europe apresenta uma forte influência de blues, uma pegada que remete ao Purple clássico e também um clima épico que vem direto da banda de Jimmy Page. Tudo isso embalado com extremo bom gosto e amarrado pela imensa capacidade técnica dos músicos. O resultado não poderia ser outra que não um delicioso disco de rock com grandes riffs, ótima pegada e um punhado de fortes canções.

Caso você ainda associe o Europe a The Final Countdown, a dica é bem simples: ouça Walk on Earth e os álbuns mais recentes dos suecos e tenha uma agradável surpresa.

13 de jun de 2018

Review: Idris Muhammad - Power of Soul (1974)

quarta-feira, junho 13, 2018

Em 13 de novembro de 1939 nascia em Nova Orleans, no estado norte-americano da Lousiana, um dos maiores bateristas da história do jazz. Batizado como Leo Morris, o músico entrou para a história como Idris Muhammad, nome que adotou ao se converter ao islamismo durante os anos 1960.

O pequeno Leo vivia batucando pela casa, e bem precocemente, com apenas 8 anos de idade, começou a tocar bateria. Aos 16 já integrava algumas big bands em Nova Orleans, cidade berço do jazz e dona de uma riquíssima tradição musical. O talento de Idris, somado ao balanço único que imprimia ao seu som, fez sua reputação crescer rapidamente.


Entre 1962 e 1964, firmou-se como um dos mais inovadores bateristas da soul music, participando de discos de ícones do gênero como Sam Cooke, Jerry Butler e The Impressions. A proximidade com a cena soul fez com que, em 1966, o baterista se casasse com Dolores “LaLa” Brooks, integrante do grupo vocal The Crystals, que alcançou bastante sucesso na primeira metade da década de 1960. Juntamente com Idris, Dolores também se converteu ao islamismo, adotando desde então o nome de Sakinah Muhammad. O casal teve quatro filhos – dois meninos e duas garotas -, e se separou em 1999.


De 1965 a 1967, Idris Muhammad tornou-se membro do grupo do saxofonista Lou Donaldson. Mais tarde, assumiu o posto de baterista da banda da casa do renomado selo Prestige, no período de 1970 a 1972, sendo figura fácil nos discos gravados pela companhia na época. Idris tocou também com Johnny Griffin (1978-1979), Pharaoh Sanders (durante a década de 1980), George Coleman, Groover Washington Jr. e na Paris Reunion Band (entre 1986 e 1988). A partir de 1995, começou a tocar e excursionar com o pianista Ahmad Jamal. Finalizando, vale mencionar que o baterista também tocou no clássico musical Hair.


Mas o ponto alto da longa carreira de Idris Muhammad é, certamente, o álbum Power of Soul, lançado em 15 de abril de 1974. Misturando jazz, funk e soul, Idris gravou um clássico indiscutível do fusion, um disco dono de um balanço irresistível e sensual, uma obra de arte que superou a prova do tempo.


Terceiro álbum solo do baterista, veio na esteira de Black Rhythm Revolution! (1970) e Peace & Rhythm (1971), LPs mais focados no jazz tradicional. Já em Power of Soul, a conversa é outra. Gravado ao lado do brother Grover Washington Jr. (saxofone), do tecladista Bob James, do guitarrista Joe Beck, do percussionista Ralph MacDonald, do trompetista Randy Brecker e do baixista Gary King, o disco é uma aula de groove, sensualidade, malícia e bom gosto.



O trabalho abre com a sua música mais conhecida, a sublime faixa-título, composta por Jimi Hendrix e presente, na sua versão original, em Band of Gypsys (1970) e também na compilação South Saturn Delta (1997). Visivelmente influenciado por Hendrix, Idris Muhammad comanda uma banda afiadíssima, responsável por um embalo hipnótico e pesado, que desconstrói a composição de Jimi e dá à ela uma nova cara, regada por interferências espertas de metais, baixo pulsante, teclados com características psicodélicas e uma guitarra que bebe sem pudor no poço sem fundo da obra do deus negro da guitarra.


O solo de saxofone de Grover Washington Jr. destaca-se não só pelo talento do instrumentista, mas também por trazer à tona outro gênio do jazz, o imortal John Coltrane. É impossível ouvir o sax de Washington em “Power of Soul” e não lembrar do Coltrane de A Love Supreme.


Mesmo quem nunca ouviu o disco irá reconhecer a faixa-título de Power of Soul, uma das músicas mais sampleadas da história, além de ter servido de trillha para inúmeros filmes e comerciais. Um clássico indiscutível, um funk de rachar o assoalho comandado por Idris Muhammad, que solta a mão sem dó em seu kit. Enfim, uma aula de ritmo e precisão!


Apenas a música de abertura bastaria para classificar Power of Soul como um disco fundamental na coleção de qualquer pessoa, mas o álbum tem muito mais. "Piece of Mind" se desenvolve em camadas sonoras que vão se entrelaçando, e traz grandes solos de Randy Brecker e Bob James. "The Saddest Thing" tem a guitarra de Joe Beck à frente, que serve como mestre de cerimônias para que cada um dos instrumentistas tenha o seu momento de brilho individual. A manhosa "Loran´s Dance" fecha o disco com melodias que descem dos céus e pescam os ouvintes com sutis manifestações que vão do teclado ao saxofone, da guitarra ao trompete.


Um senhor disco, dono de uma qualidade do mais alto grau, com o passar dos anos Power of Soul, além de solidificar a sua fama de clássico do groove e do balanço, foi elevado, pouco a pouco, ao status de uma das grandes obras do fusion. Esse reconhecimento é mais do que merecido, já que o que se ouve em suas quatro faixas é nada mais nada menos que um dos momentos mais sublimes e iluminados da história do jazz, do soul e do funk – enfim, um dos momentos mais celestiais da história da música.


Idris Muhammad faleceu em 29 de julho de 2014, aos 74 anos, em Fort Lauderdale, na Florida. Mas a sua música revive a cada pessoa que toma contato com sua obra pela primeira vez.

8 de jun de 2018

Review: Outros Bárbaros - Outros Bárbaros (2018)

sexta-feira, junho 08, 2018

Não há muita referência ao rock produzido em Florianópolis fora dos limites da Ilha da Magia e de Santa Catarina. O que é uma injustiça, já que a capital catarinense possui uma cena musical bastante interessante, apesar de pouco conhecida no resto do Brasil.

Alguns dos principais nomes dessa cena uniram forças em uma nova banda que chegou, literalmente, chegando. O Outros Bárbaros é formado por Maurício Peixoto (vocal e guitarra), Roberto Bez (piano elétrico, órgão e sintetizador), Eduardo Lehr (baixo) e Quinho Mibach (bateria). Um quarteto experiente e com passagem por bandas como Aerocirco, Papo Amarelo, Eletrolíticos e Os Berbigão. 

O primeiro disco, auto-intitulado, chega mostrando uma banda madura e pronta, como era de se esperar. São dez faixas redondas, incluindo uma versão para “A Pílula Certa”, gravada anteriormente pelo Aerocirco. O que o grupo entrega é um pop rock muito bem feito, com melodias fortes, letras com discurso claro e refrãos pegajosos, como o bom pop deve ser. E, no meio disso tudo, influências de MPB, soul e blues que tornam a sonoridade ainda mais rica e interessante.


Outros Bárbaros, o disco, está cheio de canções prontas para caírem na boca de quem gosta de boa música. São várias faixas com enorme potencial para virarem hits, o que só atesta a grande capacidade de composição do quarteto, tendo Maurício Peixoto à frente, o autor de todas as faixas. A produção é outro acerto, dando à banda uma sonoridade atual e orgânica, pulsante e bastante dinâmica. A maneira como o piano elétrico, o órgão e os sintetizadores são encaixados nas canções faz com que um bem-vindo acento de psicodelismo permeie a música do grupo.

Entre as faixas, destaques para a linda “O Que Eles Querem”, que critica de forma inteligente a acensão do pensamento conservador e de direita que assistimos todos os dias no Brasil. Essa música possui uma letra muito bem escrita e um arranjo que mostra o imenso potencial do Outros Bárbaros. Além disso, gostei muito também do pop grudento de “Afasto de Mim” e “Areia e Pó", o blues “Amor Delinquente”, “Cimento, Ferro e Caos”, “Dias Ruins” e “Não Há” - como disse, o disco soa como uma coleção de hits prontos.

O álbum será lançado nos apps de streaming dia 12 de junho e banda planeja um financiamento coletivo para o segundo semestre, para que cópias físicas possam ser produzidas. Basta ouvir o álbum para não pensar duas vezes: vale a pena fazer com que o Outros Bárbaros chegue aos ouvidos de todo mundo que ama a música.

6 de jun de 2018

Review: Ghost - Prequelle (2018)

quarta-feira, junho 06, 2018

Em seu quarto disco, o Ghost intensifica uma característica que sempre esteve presente em sua música: o apelo pop. E isso não é demérito algum, pois ele é construído através de melodias fortes, refrãos pegajosos e uma aura de acessibilidade que contrasta de maneira direta com o discurso presente nas letras, que seguem explorando temas sombrios e demoníacos.

Prequelle foi lançado dia 1 de junho e é o sucessor de Meliora (2015). A mudança de direção, que não foi brusca, já havia sido antecipada nos dois EPs liberados anteriormente pela gangue de Papa Emeritus (agora rebatizado como Cardinal Copia), os ótimos If You Have Ghost (2013) e Popestar (2016), que trouxeram covers de nomes como ABBA, Depeche Mode, Echo & The Bunnymen e Eurythmics, além da inédita “Square Hammer”. Ao trazer o pop para a sua música, o Ghost apenas resgata uma característica inerente ao heavy metal. Ou você não lembra de hits grudentos como “Paranoid”, “Enter Sandman” e “Fear of the Dark"?

O fato é que Prequelle é um dos trabalhos mais sólidos do Ghost e talvez seja o que contém o tracklist mais redondo. As dez músicas do disco mostram um desfile de ótimas ideias, com tudo no lugar e nenhum exagero, bem como nenhuma delas soa desnecessária. Há os destaques imediatos, como as grudentas “Rats" e “Dance Macabre”, que desde já devem marcar presença permanente nos shows do sexteto. O aspecto mais contemplativo da banda vem à tona com a bela “Pro Memoria”, dona de uma linha de piano de arrepiar, e o encerramento com a igualmente transcedental “Life Eternal”. 

E no meio do processo ainda há espaço para o metal bem NWOBHM de “Faith" e para duas faixas instrumentais absolutamente sensacionais. “Miasma" é um exemplo da extrema musicalidade da banda sueca, com direito até a um improvável solo de sax Gavin Fitzjohn. E em “Helvetesfonster" temos a presença ilustre de Mikael Akerfeldt, do Opeth, na guitarra acústica, em mais um exemplo de como Cardinal Copia e sua turma são bem relacionados com a nata da música pesada. Além disso, a passagem de piano que essa composição contém demonstra a qualidade acima da média dos instrumentistas da banda.

Prequelle mostra o Ghost dando um grande passo para fora do nicho do heavy metal, em uma decisão inteligente, muito bem executada e, ao que tudo indica, permanente. Em todos os aspectos trata-se de um disco excelente, com qualidade de sobra para transformar a banda em um fenômeno de popularidade em todo o mundo. E o que é melhor: isso irá acontecer embalado por música de inegável qualidade.

Um dos melhores álbuns do ano, com absoluta certeza.

30 de mai de 2018

Review: Moonspell - 1755 (2017)

quarta-feira, maio 30, 2018

Já escrevi diversas vezes, mas vou deixar claro mais uma vez: é impossível ouvir todos os discos do mundo. Reitero isso como um pedido de desculpas por não ter incluído 1755, álbum mais recente do Moonspell, em minha lista de melhores de 2017. O disco passou batido pelos meus ouvidos durante todo o ano passado, apesar dos inúmeros alertas que recebi de amigos e leitores. Só agora, praticamente na metade de 2018, é que parei para ouvir com atenção o CD, que a Hellion Records lançou no Brasil e me enviou para avaliação. E aqui vai mais um chavão: antes tarde do que nunca.

1755 é um álbum conceitual totalmente cantado em português, língua natal da banda, que foi criada em Portugal em 1992. O disco conta a história do terremoto, seguido por um tsunami, que devastou Lisboa no primeiro dia de novembro do ano de 1755. O terremoto é considerado um dos mais mortíferos da história, com a morte estimada de 10 mil pessoas. Além disso, foi também um dos mais fortes de todos os tempos, atingindo entre 8,7 e 9 graus na escala Richter.

Musicalmente, trata-se de um disco de metal com forte presença de elementos orquestrais, com canções climáticas que invariavelmente convergem em crescendos e refrãos cantados por coros. Tudo bem dramático e com um apelo operístico não no sentido dos vocais sopranos e clássicos, mas sim na concepção de contar uma história única tendo a música como fio condutor.

A escolha por cantar em português, além de soar pitoresca para o resto do mundo, aproxima o som do Moonspell dos ouvintes brasileiros e facilita a assimilação do que a banda está trazendo em todo o disco. E, ao contrário do que alguns insistem em pensar, o rock quando é bom combina com qualquer língua, e o português faz parte do pacote. A abertura com a climática “Em Nome do Medo”, quase toda à capela em seus mais de cinco minutos, é de arrepiar e mostra que algo especial está para começar. E essa primeira canção realmente serve de cartão de visitas para o que o Moonspell preparou nas 11 faixas de 1755: muito provavelmente estamos diante do melhor trabalho do quinteto português.

O disco carrega uma profundidade lírica bastante clara, explorando de maneira inteligente letras muito bem escritas. A parte instrumental afasta a banda do black/death metal dos primeiros anos e traz uma sonoridade composta por diversos elementos dos mais variados gêneros do metal, tudo amarrado de maneira cirúrgica e resultando em uma música acessível para a maioria dos ouvidos. 

A inclusão de uma releitura para “Lanterna dos Afogados”, que já era uma música linda na versão original dos Paralamas, é outra bela surpresa. A versão do Moonspell é mais teatral e sombria, como era de se esperar, realçando ainda mais os aspectos melódicos e sentimentais da composição de Herbert Vianna. É algo tão bonito que só ouvindo para entender, em mais um acerto da banda.

1755 é realmente um disco muito acima da média, um trabalho totalmente diferenciado do que o rock e o metal vem entregando nos anos recentes. Uma obra-prima desta já veterana banda portuguesa, que segue inquieta, criativa e relevante mesmo após 25 anos de carreira. 

Absolutamente incrível!

Review: Ari Borger Trio - Rock ’n' Jazz (2018)

quarta-feira, maio 30, 2018

Quem acompanha o trabalho do pianista Ari Borger sabe que o cara é um dos melhores músicos do Brasil, e possui este status já há alguns anos. Transitando entre o blues e o jazz, Borger gravou discos ótimos como Blues da Garantia (2000), AB4 (2008), Backyard Jam (2010) e Back to the Blues (2012), sempre trazendo abordagens inovadoras e refrescantes.

Rock ’n' Jazz é o seu novo trabalho, ao lado do contrabaixista Marcos Klis e do baterista Humberto Zigler. A ideia aqui é reler alguns clássicos do rock a partir de um olhar jazzístico, que na prática é muito mais próximo do fusion e do jazz-funk de Herbie Hancock do que da sonoridade clássica do estilo. 

Totalmente instrumental, o álbum prova mais uma vez que a voz não é, e nem nunca foi, um elemento essencial na música. Com imenso feeling e doses cavalares de técnica, Borger e seu trio entregam um disco delicioso do começo ao fim. Ao lado de versões para hinos como “Come Together”, “House of the Rising Sun”, “Miss You”, “Light My Fire” e “Sunshine of Your Love”, temos também composições próprias como “Crazy Dog” e “Samba de Rhoads”, todas explorando a mesma estética sonora e caminhando no mesmo universo musical.

Rock ’n' Jazz é mais um excelente trabalho de Ari Borger, dono de uma discografia pra lá de sólida. A opção por reler canções conhecidas foi bastante acertada e deve trazer novos ouvintes para a sua música, novatos esses que certamente não irão reclamar ao conhecer a obra de um músico simplesmente incrível.


14 de mai de 2018

Uma análise completa de Doze Flores Amarelas, a ópera rock dos Titãs

segunda-feira, maio 14, 2018

Se algo define a bem sucedida trajetória que os Titãs desenharam nestes últimos 36 anos, certamente é a capacidade que o grupo tem de quebrar expectativas e gerar novas demandas criativas. Explico: em idos dos anos 1980, depois do lançamento de Cabeça Dinossauro, os que esperavam ansiosos por um novo assalto punk assistiram à progressiva aventura da banda pelas plagas da new wave. Daí que, depois de Õ Blésq Blom, em fins da mesma década, a expectativa já fosse outra. Especialista em andar na contramão, porém, a banda voltou ao estúdio e produziu Tudo ao Mesmo Tempo Agora, seu disco mais cru, com um rock agressivo, com sonoridade de garagem. Titanomaquia, o primeiro sem Arnaldo Antunes, expandiu a sujeira, o peso e a agressividade do antecessor e conquistou um público cativo que, de forma marginal à crítica hegemônica, acabou transformando o álbum em uma espécie de clássico bastardo da música brasileira. 

As reviravoltas titânicas, contudo, não pararam por aí. Na primeira metade da década de 1990, a expectativa em torno da banda girou, evidentemente, na órbita dos elementos que deram sustentação à fase mais barulhenta de sua carreira. À espera de algo na linha de Titanomaquia, os fãs desta fase mais pesada – não sem uma ponta de decepção, é claro – viram a banda puxar o freio e lançar Domingo, disco mais palatável às rádios e, na sequência, tirando de cena as guitarras, emplacarem seu maior sucesso comercial da história, o Acústico MTV. Dali por diante, o apelo estrondoso da roupagem acústica fez o grupo repetir a dose em novo registro de estúdio e, como sequela, moldar a sonoridade dos discos lançados na década de 2000 – embora contassem com uma cara mais rock, e até um e outro som mais agressivo, o clima geral de A Melhor Banda, Nós Estamos Bem e Sacos Plásticos seguiu o padrão radiofônico que se impôs ao som dos Titãs após seu período de onipresença nas FMs, com as bênçãos de muitos hits e trilhas de novela. 

O tempo foi passando e, iniciada a década de 2010, poucos ainda esperavam por um álbum dos Titãs que resgatasse o espírito de seu maior clássico, disco que projetou a banda para um novo patamar. Então os paulistas, agora como quarteto, resolveram quebrar as expectativas novamente e, em 2014, lançaram Nheengatu, disco pesado, extremamente crítico ao momento (momento?) do país e que remete, em som e conceito, ao punk rock de Cabeça Dinossauro. E assim chegamos em 2017, ainda sob a ressaca do disco anterior, mas já com os rumores em torno do um novo trabalho. 


Doze Flores Amarelas teria um formato ousado, inédito tanto para os Titãs quanto para o rock brasileiro: inspirado em clássicos como Tommy e The Wall, Branco Mello, Sérgio Britto e Tony Belloto – os três remanescentes da formação original – trabalhavam, junto de nomes como Hugo Possolo e Marcelo Rubens Paiva, no argumento de uma ópera rock. Com um universo temático centrado no machismo, discutindo assédio, estupro, vingança, drogas e redes sociais, é certo que a expectativa dos fãs (depois do tão propalado “retorno às origens” com Nheengatu – expressão que, como vimos, faz pouco ou nenhum sentido frente ao comichão criativo característico do grupo) era de um novo petardo punk rock, destes de bater cabeça, urrar feito bicho e lavar a alma da nação. A equação é simples: quem ouviu "Pedofilia" e "Flores Para Ela", canções do disco de 2014, certamente imaginava a mesma agressividade no tratamento dispensado aos temas deste novo trabalho. 

A apresentação da banda no Rock in Rio 2017, porém, revelando três inéditas ao público, mostrou algo diferente do esperado. A atmosfera soturna e cadenciada de "Doze Flores Amarelas", canção que batiza o projeto, em tudo estranha ao conjunto da obra titânica e surpreendeu os fãs mais uma vez. "Me Estuprem", com título autoexplicativo, contrastando o peso temático da letra com a suavidade pop rock de seu instrumental, tornou evidente aos desavisados: “Hey, não esqueça, nós somos os Titãs e queremos fazer algo novo em nossa carreira”. Não espere, portanto, a continuação de Nheengatu, mas isso, como veremos, vai bem longe de ser algo ruim. 

O projeto da ópera rock dos Titãs carrega certa ousadia até mesmo para os padrões do gênero: antes mesmo da divulgação das canções, a banda estreou seu espetáculo mesclando música e teatro, com projeções eletrônicas, a participação das cantoras/atrizes Corina Sabbas, Cyntia Mendes e Yas Werneck (que também cantam em boa parte das canções de estúdio), além da narração em off gravada pela Rita Lee. Opção arriscada, se bem que instigante: assistir a uma banda de rock tocando 25 composições inéditas dentro de um teatro é experiência incomum, e que pode gerar uma recepção mais exigente do que o padrão. Dito e feito: em pré-estreia realizada no Festival de Teatro de Curitiba, a crítica do jornal local lamentou a ausência de uma “canção para levar pra casa”, de algum refrão chiclete que grudasse à primeira audição, ao que, naquele momento, tive o ímpeto de concordar. Agora, porém, quando os atos já estão disponíveis em plataformas de streaming, ouço melhor o material apresentado, relembrando a execução ao vivo e reavaliando por isso a crítica de primeira hora. Reorientado pelo álbum de estúdio, deixo o espetáculo um pouco de lado e volto às canções de Doze Flores Amarelas, um disco muito acima da média, que respeita e valoriza a trajetória extraordinária da banda sem, felizmente, repetir qualquer outro Titãs. 

A narrativa contada pelo disco tem como centro um estupro coletivo. Três jovens – as Marias A, B e C –, orientadas por um aplicativo chamado Facilitador, espécie de oráculo moderno, vão a uma festa que acaba muito mal: as três são violentadas pelos rapazes que planejavam conhecer. Traumatizadas pelo evento, as garotas se afastam umas das outras, sem encontrar qualquer conforto na família ou nos amigos. Uma delas, grávida de seu agressor, encontra no aborto uma alternativa, o que não a livra, contudo, da depressão. Mais uma vez orientadas pelo aplicativo, as Marias decidem se vingar dos garotos mediante um feitiço – o feitiço das doze flores amarelas. Sua magia funciona e um dos rapazes acaba morto. A morte não as consola, mas causa mudanças na vida das personagens. Marcadas por essa experiência traumática, as Marias passam a ver suas vidas sob uma nova ótica, buscando nelas mesmas sua felicidade e alguma paz.

Em linhas gerais, este é o enredo da ópera titânica. Relativamente simples, ele adquire profundidade e complexidade emocional mediante as composições do grupo, que transitam por diversas sonoridades e estilos, do pop rock ao ska, do punk rock à roupagem acústica, do rock setentista à balada indie, passando em revista diversos formatos assumidos pela banda ao longo dos anos, sempre buscando a melhor expressão formal para esta ou aquela nuance narrativa. Desta forma, Doze Flores Amarelas não poderia ser um disco de sonoridade tão coesa quanto seu antecessor, sob o risco de se perderem os detalhes que dão vida à história. 

Dividida em três atos, a obra tem na narração de Rita Lee um subterfúgio que, à emergência dos furos narrativos, garante o encadeamento das composições. Abrindo o disco, temos a apresentação das três Marias, que é seguida por "Nada Nos Basta", canção forte que explora os anseios femininos de nosso tempo (tantas vezes frustrados pelas amarras da cultura machista), desejos da juventude atual, mas também pode ser lida como expressão de liberdade criativa e inquietação artística do próprio grupo, que justifica com os versos de Sérgio Brito o próprio projeto da ópera rock: “Hoje eu sou / quem eu sou / hoje eu sou / o que eu sou / amanhã eu sou / quem eu quiser”. Na sequência, em estilo rockabilly e ieieiê, Branco Mello dá o tom em "O Facilitador", canção que nos apresenta o aplicativo, que por sinal é símbolo do projeto. Sem muito brilho, a canção passa a bola para ""Weird Sisters", que entra na roda e nos entrega um pop punk pra americano nenhum botar defeito. Os estrangeirismos, aliás, muito utilizados ao longo de todo o disco, aqui assumem sua expressão mais ousada, em uma canção versada inteiramente em língua inglesa. O recurso funciona bem como elemento de composição da atmosfera dos jovens retratados pela história, imersos na cultura de massa norte-americana, além de remeterem à língua comum da realidade virtual em que as personagens estão inseridas, marcada pela experiência dos aplicativos. "Weird Sisters" chama atenção, ainda, por introduzir a participação das cantoras e atrizes convidadas para o projeto, que cumprem perfeitamente o papel das Marias, tanto no palco como na competente atuação vocal. Fora de campo, porém, a banda peca por não divulgar adequadamente quem canta o quê, em se tratando das cantoras convidadas, nas canções já disponibilizadas – dado que justifica, inclusive, minha displicência ao tratar destas participações. 

Na sequência, "Disney Drugs", um dos picos criativos do disco, dá continuidade, desde o seu título, ao uso do inglês nas composições. Servindo como apresentação dos rapazes, a canção realiza, sobretudo, uma crítica às relações familiares esvaziadas que fazem, por vezes, a coexistência de pais e filhos em uma mesma casa assumir a forma de universos paralelos em constante conflito, donde a alternância entre drogas ilícitas e personagens de desenhos animados, todos eles nomeados em língua inglesa, representa bem esta realidade fraturada que muitas famílias se recusam a admitir como sua. Em "A Festa", os arroubos inconsequentes da juventude são explorados de modo irônico, dialogando com a canção anterior: “Mommy, give me some money”, canta Branco Mello no refrão. 

Com dois momentos musicais bem distintos, "Fim de Festa" revela o vazio das relações sociais/sexuais de nossa sociedade para, na sequência, focar na abordagem agressiva dos abusadores que, diante das recusas, revelam sua selvageria criminosa. Embora musicalmente a canção empolgue, é dos poucos momentos da ópera em que, descontextualizado, o som perde um pouco do seu sentido. Seus recursos estilísticos, aliás, são dos mais interessantes. Começando como uma balada de “fim de festa”, dessas para os casais dançarem juntos, a canção contrasta sua sonoridade adocicada com uma letra extremamente ácida e até mesmo sombria, que anuncia um engano: “Vocês pensam que é uma festa, mas não é / mas não pensem que é uma missa, pois não é” (...) esta é a lei da selva / ajam como age um animal / ajam como age um animal / ajam como age um animal”. Na sequência, a balada cede lugar a um ska tenso e cheio de energia, quando a voz dos rapazes domina a canção: “Queremos as três santinhas / queremos vocês bem loucas / queremos as três putinhas / queremos vocês”, e segue com refrão explosivo, “Não queremos nem saber / nem pensar, nem dizer / não sei quê, não sei quê”. Sem dramatizar o estupro, a canção termina com uma catarse instrumental em que a sugestão de um solo de bateria (no espetáculo, o solo ocorre de fato) representa – de forma sagaz e adequada, posto que abstrata – a violência sexual. 

Consumado o estupro, o primeiro ato termina com a canção "Me Estuprem", balada pop rock que, por sua letra irônica (“Me estuprem / se dei algum motivo”), produz ruídos de significado e um mal estar que destoa de seu instrumental, chamando atenção para o tema proposto e, consequentemente, para a relevância de toda a ópera rock. Com isso, passamos ao segundo ato com a expectativa de conhecermos as consequências da atitude criminosa dos rapazes, o que faz a segunda parte da ópera, é claro, ser musicalmente densa e emocionalmente muito mais carregada.                           
   

O segundo ato se inicia com um primeiro interlúdio. Rita Lee, no papel de narradora, nos conta que, depois daquele dia, as três Marias ficaram isoladas, não falavam do que aconteceu com ninguém, nem mesmo entre elas mesmas. Maria A, porém, descobriu que estava grávida. Precisando de ajuda, tentou falar com seu pai, um “bom pastor”. O interlúdio faz a transição para as músicas do segundo ato antecipando a melodia e o clima religioso da canção seguinte, "O Bom Pastor", que embora seja um dos grandes rocks do disco, parece ter entrado na história de forma um pouco frouxa.
Rock de sabor setentista, com excelente arranjo de guitarras e grande atuação vocal de Branco Mello, "O Bom Pastor" faz uma crítica ao oportunismo de certos segmentos do mundo evangélico, com preocupações materiais muito mais evidentes do que aquelas teológicas. Não encontrando ajuda na família, Maria A opta pelo aborto. O clima setentista da canção anterior persiste em "Eu Sou Maria", que explora o julgamento social em torno do aborto. Alternando arranjos de um rock mais clássico, lembrando inclusive o The Who – uma das inspirações para o projeto -, com passagens mais agressivas e pesadas, que expressam o desamparo das mulheres que passam pela experiência retratada. Destaque para a boa letra e para o belo dueto entre Sérgio Britto e os vocais femininos. 

A partir daí, temos alguns dos momentos mais agressivos e depressivos do disco. "Canção da Vingança" chama atenção pelos vocais de Tony Belloto, que também rouba a cena em um instrumental exclusivo das guitarras. Mas, se Belloto não faz feio e se garante no papel de vocalista, pode-se dizer, contudo, que faltou uma dose a mais de agressividade em sua voz, tendo em vista o teor forte da letra que entoa. Depois de enumerar seus desejos vingativos, a voz (que é de Tony, mas de Maria) completa: “E quem sabe no final de tudo / com você todo fodido / eu possa enfim te perdoar”. "Hoje", mais um grande momento de Doze Flores Amarelas, é outra das canções mais intensas e perturbadas da ópera rock, versando sobre desejos suicidas em alternância com ímpetos de vida energicamente expressos por seu refrão forte. "Nossa Bela Vida" desdobra o clima de angústia e depressão, desta vez, porém, em roupagem acústica, de flerte explícito com a verve MPB que, sabemos, Sérgio Britto vem revelando em sua carreira solo. A tristeza profunda presente na composição entra em atrito com a beleza pop de sua melodia e, por isso, acaba negativando todos os desejos expressos pela voz ficcional da canção – “Eu só quero fumar meu cigarro”, “Eu só quero fazer o jantar”, “Eu só quero cuidar da família”, desejos que culminam num quase refrão em tudo melancólico: “Eu só quero poder chorar”.
Em "Personal Hater", o ódio que as Marias sentem pelos seus estupradores encontra finalmente o peso de um rock que nos remete aos momentos mais agressivos da história da banda, inclusive do disco anterior. Aqui, mais uma vez, os estrangeirismos de língua inglesa, tornados moeda corrente pelas redes sociais, dão o tom da composição – o refrão repete o título em ritmo frenético. No segundo interlúdio, conhecemos o sentimento de Maria C, que “parecia não querer encarar o que aconteceu”, pois fora abusada por um cara “de quem tanto gostava”. "De Janeiro até Dezembro", canção que dá sequência ao ato, é um punk rock que lembra momentos do disco Domingo, mas também denuncia a influência (declarada pela própria banda) que o grupo sofre dos norte-americanos do Green Day. Com apenas um minuto e meio, a canção termina deixando um gostinho de quero mais. Esta, aliás, é uma característica de todo o disco, que conta com muitas faixas extremamente curtas, de pouco mais de um minuto, compensando a extensão do projeto como um todo, com suas 25 novas composições.

"Mesmo Assim" é qualquer coisa como um oásis em meio ao deserto de sofrimento e ódio do segundo ato. Balada de amor com influência indie, que lembra um som à la The Killers, poderia soar deslocada no conjunto, não fosse a excelência da produção do disco. Extremamente eficiente, ela consegue tirar o melhor de cada canção, dando um conceito próprio para cada faixa e auxiliando no processo de narrar a história. Neste caso, a letra romântica, em que Maria C revela ainda amar o seu agressor (“mesmo assim”), consegue fugir ao risco de banalização da violência com uma produção de sabor oitentista, com efeitos que geram um ar onírico ao seu significado, ou seja, mostrando a própria impossibilidade deste amor, que foi esmagado pela violência criminosa e pela brutalidade dos rapazes. Confirmando o caráter de sonho desta relação amorosa, temos na sequência outro rock de levada punk, desta vez com a voz dos rapazes, que falam pela primeira vez sobre os eventos daquela noite. "Em Não Sei”, há que se destacar mais uma vez a eficiência dos jogos de linguagem em inglês. Em letra centrada na tentativa dos rapazes de se desvincularem dos rumores e acusações - “Elas enlouquecem, agora a culpa é nossa” -, a canção abre com refrão estranhíssimo, que num primeiro momento soa como “não me esquece”, que faz todo sentido no contexto geral da letra, mas que na realidade perverte um bordão feminista sob a ótica dos agressores: “No means yes / yes means anal”. Não é não? Bem, não para eles. 

Assim, o segundo ato se encerra com a reação das Marias ao comportamento repulsivo e criminoso de seus agressores, em outra grande canção que mescla momentos de leveza, onde o peso da letra contrasta ironicamente com a suavidade do instrumental e dos vocais femininos, com o peso das guitarras e vocais distorcidos que, em momentos distintos, entoam o mesmo mantra, título da canção: "Essa Gente Tem Que Morrer". Assim, com uma explosão final que repete furiosamente a expressão máxima do desejo de vingança das três Marias, a segunda parte se encerra deixando no ar as providências que as meninas devem tomar no terceiro e último ato, visando purgar da consciência (sem sucesso, é claro) o ódio e a raiva que sentem por seus estupradores, que saíram impunes desta situação – ao que nos perguntamos: será mesmo? E é isto o que, enfim e em breve, o terceiro ato nos dirá.          


É Rita Lee quem nos conta, em terceiro e último interlúdio, sobre o plano de vingança das Marias: “Juntas de novo, queríamos enfrentar aqueles cinco filhos da puta”. Auxiliadas novamente pelo aplicativo Facilitador – o que não fica claro nas canções, mas sim no espetáculo –, as meninas acabam concebendo a morte de um dos seus agressores. Sobre este evento misterioso, a consumação da vingança, é que a maior parte das canções do terceiro ato irá repercutir. 

Com vigoroso riff de guitarra, "Me Chamem de Veneno" nos devolve à história com uma dose extra de peso e energia renovada. Sugerindo a via encontrada pelo aplicativo para dar fim à vida de um dos estupradores, ela abre caminho para o clímax sombrio da história. Mais grave e soturno do que os anteriores, o terceiro ato de Dozes Flores Amarelas encontra nos arranjos de piano e orquestra um diferencial que, na reta final da narrativa, engrandece o desfecho da ópera e contribui para a sua plena realização – a canção título é, por metonímia, o exemplo mais preciso desta contribuição. Apresentada em show do Rock in Rio, "Doze Flores Amarelas" já era conhecida pelos fãs mais atentos, porém, sua execução ao vivo, com certa crueza garageira que é marca da formação atual dos Titãs, não nos permitia vislumbrar todo o seu potencial. Aqui, em sua versão de estúdio, melhor experimentamos o seu clima denso. Em termos de estrutura lírica e melódica, a canção difere de tudo o que o grupo paulista já fez. Ritmo cadenciado e atmosfera fúnebre, com direito a Sérgio Britto e Branco Mello em dueto de vozes e solo de guitarra de Belloto. É um dos grandes momentos do disco. 

Em sequência de contraste irônico, "Ele Morreu" nos toma de assalto com sua levada pop, dançante e descontraída, enquanto aborda a repercussão da morte inesperada (não para nós, é claro) do agressor. A morte do rapaz reverbera ainda em três canções subsequentes. "Pacto de Sangue" é, em todo o disco, o primeiro e único momento em que temos uma canção cantada exclusivamente pelas atrizes convidadas. Sua letra aborda o compromisso de silêncio que as Marias assumem frente aos desdobramentos da vingança, sugerindo, enfim, a gravidade e a culpa que a situação de fato as impõe. Aqui, Corina Sabbas, Cyntia Mendes e Yas Werneck comandam o curso da narrativa, preparando o terreno para a participação decisiva que terão, também, nas canções finais do álbum. Por seu sabor performático e sua presença vocal, a canção é um dos raros momentos em que, deixando de lado a própria banda, encontramos o formato musical em sua potência máxima, tendo a sensação de acompanharmos uma trilha sonora de espetáculo hollywoodiano. 

"O Jardineiro", por sua vez, embora estruturalmente dispensável à narrativa, traz à ópera um delicioso slide de guitarra que, com sua levada de surf music, cativa o ouvinte logo à primeira audição. Nela, Branco Mello encarna o coveiro gago que enterrou o defunto da história, esbanjando carisma por sua dicção peculiar: “Eu sósósó sou o coveiro / deste lugar”. A morte será tema, por fim, de outro rock com roupagem mais pesada. Iniciada por um zunido de guitarra, que mais parece ter fugido de algum metal alternativo, "Réquiem" resgata a voz do falecido que, como um Brás Cubas juvenil, sugere que os mortos devem ser esquecidos, em favor dos vivos. Sua letra nos confronta com um dado etário perturbador: pedindo para que o lembrem “saindo da aula”, “andando de skate”, “falando no Face como todo o mundo fala”, a letra nos lembra da juventude das personagens que, vítimas ou culpadas, partilham todas de uma mesma inconsequência adolescente.

Os momentos finais da ópera titânica reforçam as características anteriormente evocadas, com duas grandes melodias que, no plano instrumental, são acompanhadas por belíssimos arranjos de piano e orquestra, além de excelentes atuações das vocalistas convidadas, tanto no que se refere aos backing vocals quanto nas vozes principais. Em sua formação clássica, contando com a presença incomum – em se tratando de uma banda de rock – de cinco vocalistas, o bom uso do backing vocal foi sempre uma das marcas mais evidentes da música dos Titãs. Com tantas baixas, reduzida a sua oferta de vozes, as participações especiais proporcionaram à banda um excelente recurso que, muito bem explorado, é um dos pontos altos do trabalho inteiro. 

"É Você" anuncia a transformação interior das Marias, que começam seu percurso de reconstrução identitária resgatando uma autoconfiança perdida diante dos acontecimentos traumáticos por que passaram ao longo da história. Identidade, aliás, é o grande tema que, motivo na canção inicial, retorna através da derradeira "Sei que Seremos". Nesta, as três Marias reassumem o controle sobre suas vidas, delineando um grande final para o projeto que, certamente, ficará marcado na discografia dos Titãs, ocupando nela um lugar especial. Contando com o melhor riff de guitarra de todo o disco, "Sei que Seremos" peca apenas pela sua brevidade: seus pouco mais de dois minutos nos deixam, ao final, com um gostinho de “queria ter um pouco mais disso”, afinal, a canção põe fim a um conjunto expressivo de 25 novas composições, número inédito em toda a história da banda, e por isso bem merecia um seu prolongamento natural.

Fechado o terceiro ato, temos, por fim, melhor visão de conjunto e condições efetivas para exprimir uma visão de panorama. De forma geral, a ampla maioria das canções sobrevive de forma autônoma, embora bem integradas à narrativa. Isto importa na medida em que garante a sobrevivência dos temas para além da experiência do espetáculo, ou da audição integral do álbum. A necessidade de contar uma história, por sua vez, inseriu muitos elementos estranhos à sonoridade titânica, o que, longe de ser algo ruim, expande os limites (já tão elásticos) que a estética da banda possui. Doze Flores Amarelas corresponde, portanto, à expectativa que o grupo promoveu e está promovendo em torno de seu lançamento, assumindo a forma de um grandioso disco de rock, com os elementos todos que são esperados a este formato – versatilidade, relevância, força de composição. Projeto inédito no Brasil, somente este feito já garantiria a presença do álbum nos anais da história do rock brasileiro. Mais do que isso, porém, o disco também nos entrega um conjunto de canções que, mesmo diante de uma concorrência de alto nível, podem conquistar seu lugar em qualquer coletânea do grupo, a exemplo de "Nada nos Basta", "Disney Drugs", "Eu Sou Maria", "O Bom Pastor" ou "Doze Flores Amarelas". Por outro lado, a descontextualização de certas letras – a exemplo de "Fim de Festa" e "Não Sei", que dão voz aos agressores – e, especialmente, a qualidade do registro em estúdio, podem se tornar um problema para as apresentações ao vivo: neste último quesito, para além dos espetáculos de teatro, muitas destas composições encontrarão dificuldade de espaço no repertório de eventuais futuras turnês, por limitações materiais de execução – caso, por exemplo, das canções que contam com grande presença dos vocais femininos e de arranjos de orquestra, as quais podem perder força em um formato mais cru.   

Evidentemente, ainda é cedo para compreendermos ou afirmarmos qual será o status de Doze Flores Amarelas dentro da obra completa dos Titãs. As comparações, embora inevitáveis, carregam sempre um quê de injustiça, por não levarem em consideração os fatores inúmeros que se conjugam no momento da construção de um disco – bem como o fato de que o tempo, inexorável, a tudo e a todos transforma. Independente do juízo crítico, porém, faz-se imperioso reconhecermos que Sérgio Britto, Branco Mello e Tony Belloto, acompanhados de um grande time, por aceitarem (e se auto imporem) tamanho desafio criativo a esta altura do campeonato, demonstram grande compromisso com sua própria trajetória, entregando a seus fãs um trabalho com a dimensão e a estatura que se espera sempre de uma grande banda de rock. Ambiciosos como nunca, os integrantes remanescentes mostraram seu poder de fogo com este lançamento memorável, provando que a força da banda, mais do que em um ou outro nome, sobrevive mesmo através do peso que sua história investe naqueles que a continuam. Para além de um grande disco, Doze Flores Amarelas é, portanto, uma demonstração inequívoca que os remanescentes da formação clássica deixam ao seu público de que, sim, continuaremos carregando enquanto possível este nome, de Titãs, não como um meio mais cômodo para pagarmos as contas, mas sim pela consciência aguda daquilo que somos e já fizemos, mirando sempre no muito que, é claro, ainda se está por fazer.                
         
Por Marco Aurélio de Souza

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