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17 de jan de 2019

Review: Frank Jorge - Histórias Excêntricas ou Algum Tipo de Urgência (2018)

quinta-feira, janeiro 17, 2019

Entre as referências do rock gaúcho, Frank Jorge é uma das maiores. Com passagens marcantes por duas das mais lendárias bandas do Rio Grande do Sul - Os Cascavelletes e Graforréia Xilarmônica -, desde a década de 2000 o vocalista, multi-instrumentista e compositor embalou uma carreira solo que chegou ao quinto disco em 2018.

Histórias Excêntricas ou Algum Tipo de Urgência foi gravado entre outubro de 2017 e fevereiro de 2018 no Estúdio Dreher, em Porto Alegre, e tem a produção assinada por Thomas Dreher. Lançado em um lindo CD digipak pelo 180 Selo Fonográfico, o álbum vem com onze músicas, todas compostas por Frank. O cara também toca praticamente todos os instrumentos, tendo a ajuda do parceiro de Graforréia Alexandre Birck em sete faixas.

Musicalmente, o que ouvimos no CD é o rock característico de Frank Jorge, que traz muitas influências de ícones como Beatles, Stones e Jovem Guarda, além de letras muito bem escritas e melodias sempre grudentas. Esses ingredientes fazem com que o resultado seja uma audição super agradável e divertida.

Uma curiosidade: o álbum é o sucessor de Escorrega Mil Vai Três Sobre Sete (2016) e teve o seu processo de composição iniciado uma semana após Frank abrir o show de Paul McCartney em Porto Alegre, em 2017. A experiência com o Beatle fez muito bem ao músico, que mostra grande inspiração em músicas muito bem resolvidas e com o típico tempero dos anos 1960.

Se você procura um álbum de rock honesto e despretensioso, bem gravado e com excelentes músicas, está aqui uma ótimo exemplo.

16 de jan de 2019

Review: Prophets of Rage - Prophets of Rage (2017)

quarta-feira, janeiro 16, 2019

O Prophets of Rage é a união dos instrumentistas do Rage Against the Machine - o guitarrista Tom Morello, o baixista Tim Commerford e o baterista Brad Wilk - com os rappers B-Real (do Cypress Hill) e Chuck D (do Public Enamy), mais o DJ Lord (também do Public Enemy). Ou seja: sai o discurso de Zack de la Rocha e entra a poesia igualmente contestadora de Chuck e Real. Musicalmente, o que sai das caixas é a sonoridade de uma das mais importantes e originais bandas dos anos 1990 turbinada pelos versos de duas das das mais lendárias vozes do rap.

Logicamente, tudo isso faz com que o auto-intitulado primeiro disco da banda tenha a política como tema principal das letras, ainda mais por ter sido lançado em 2017, logo após a eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos. O álbum, que foi ignorado pelas gravadoras brasileiras, finalmente está chegando ao mercado nacional em uma iniciativa digna de elogios da Hellion Records, que foi atrás de um título que a representando brasileira da Fantasy Records não teve interesse em disponibilizar por aqui.

O CD vem com doze faixas e foi produzido por Brendan O’Brien (Pearl Jam, Bob Dylan, AC/DC). Há momentos em que a herança do Rage Against the Machine ganha destaque, como em “Living on the 110”, e outros onde a banda parece querer fugir da identidade sonora de outrora. Isso faz com que algumas canções acabem perdendo força e vaguem por um caminho sem muito foco, como fica claro no trio de faixas que abre o disco - “Radical Eyes”, “Unfuck the World” e “Legalize Me”. Essas faixas não trazem a raiva e a indignação nas interpretações vocais que se esperaria de uma união entre forças artísticas tão provocadoras.

Muito dessa sensação vem da abordagem que Morello adotou na guitarra. Ele não utiliza as notas marcantes dos tempos do RATM, onde a sua guitarra era quase percussiva e os acordes despejavam uma espécie de rap faiscante, e tampouco trilha caminho semelhante ao Audioslave, onde alternou momentos de peso explosivo com outros de puro lirismo. É louvável, e perfeitamente entendível, que um instrumentista do calibre de Morello não queira se repetir, no entanto a maneira como ele coloca a sua guitarra na maioria das canções deste primeiro álbum do Prophets of Rage deixa a sensação de que a coisa poderia render muito mais do que efetivamente rendeu.

Independente desses aspectos, o fato é que trata-se de um trabalho marcante e até mesmo histórico por reunir músicos que sempre tiveram um discurso semelhante e que aqui juntaram forças para expressar o que sentem em relação ao momento atual do mundo.

15 de jan de 2019

Review: Vakan - Vagabond (2018)

terça-feira, janeiro 15, 2019

Vagabond é o disco de estreia da banda gaúcha Vakan, e foi disponibilizado nos apps de streaming em 2018, ganhando versão física em CD no final do ano. O álbum é o sucessor do EP Freeze! (2012) e chega para apresentar o quarteto natural de Santa Maria para todo o Brasil.

Formado por Matheus Oliveira (vocal), Alexandre Marinho (guitarra), Natanael Couto (baixo) e Lucas Oliveira (bateria), o Vakan executa um power metal que tem como principais referências nomes como Iron Maiden, Helloween e Angra. O diferencial da banda está na inserção de elementos da música tradicional gaúcha ao peso do heavy metal, gerando assim um aspecto étnico e folk que dá um gosto todo especial ao seu som.


Vagabond vem com 13 faixas, sendo que algumas delas funcionam como interlúdios. A produção é super bem feita e ressalta o bom trabalho de todos os integrantes. A banda varia entre canções que são mais focadas no power metal tradicional como “Beyond Makind”, “Russian Roulette” e “Euphoria”, e outras onde traz para a ordem do dia as já citadas influências de música gaúcha. É nesse segundo momento que o álbum ganha força e apresenta ao ouvinte algo praticamente inédito. Que fique claro: as músicas com a pegada mais tradicional são boas e bem executadas, porém não trazem praticamente nada que já não tenha sido feito antes. Mas quando mergulha nas raízes da cultura musical do Rio Grande do Sul, daí sim o Vakan encontra um som próprio e que constrói a personalidade de sua música.

Destaques para a parte final do disco, a partir da curta instrumental “Interlude: Eremita”, onde temos sete faixas em que o metal caminha lado a lado com a música tradicionalista, rendendo belíssimos momentos, com destaque para a ótima “Presumption of Guilt”. 

Vagabond é uma boa estreia, que mostra uma banda com talento, grande potencial e ótimas ideias. O tempo de estrada deve tornar a sonoridade do Vakan ainda mais forte e azeitada, com o desenvolvimento mais profundo dos dois aspectos de sua música, gerando assim um caminho ao mesmo tempo original e cativante.

11 de jan de 2019

Review: Steve Perry - Traces (2018)

sexta-feira, janeiro 11, 2019

Steve Perry foi vocalista do Journey por 21 anos, permanecendo na banda entre 1977 e 1998. É a sua voz que está eternizada nos maiores clássicos da banda norte-americana, como os álbuns Infinity (1978), Evolution (1979), Escape (1981) e Frontiers (1983), de onde vieram clássicos do porte de “Don't Stop Believin’”, “Any Way You Want It” e “Separate Ways (Worlds Apart)”. Perry lançou dois álbuns solo - Street Talk (1984, quando ele ainda era o frontman do Journey) e For the Love of Strange Medicine (1994, já fora do grupo), e então entrou em um hiato de quase 25 anos sem material inédito.

Esse período foi encerrado em 2018 com o lançamento de Traces, seu primeiro disco em mais de duas décadas. Produzido pelo próprio vocalista em parceria com Thom Flowers, o álbum foi lançado no início de outubro pela Fantasy e ganhou uma edição nacional pelas mãos da Hellion Records. A recepção do público foi entusiasmada, levando o trabalho ao top 10 da Billboard.

Musicalmente, o que temos é um disco que não traz a sonoridade que consagrou Steve Perry no Journey. Não temos nas dez músicas de Traces o hard rock/AOR que conduziu o Journey ao topo das paradas. Em seu lugar surge um pop adulto, com sutis pitadas de rock, e que na maior parte do tempo toma forma através de canções com andamento mais lento e um tanto contemplativas. Momentos mais agitados são raros, como na música que abre o play, “No Erasin’”. Essa escolha pode desagradar alguns fãs, porém quem acompanha a carreira de Perry há anos sabe que não tem nada estranho nas faixas que estão no disco e que elas são coerentes com a sua trajetória musical. 

É preciso destacar que o álbum possui um excelente trabalho de composição, entrega melodias agradáveis a todo momento e traz Perry cantando de maneira excelente, além de contar com uma excepcional banda de apoio que tem como destaque o baterista Vinnie Colaiuta e o tecladista Dallas Kruse. E, pra fechar o pacto, o disco ainda traz uma versão para “I Need You”, dos Beatles, que foi devidamente desconstruída e ganhou uma roupagem surpreendente.

A edição da Hellion Records vem com um longo encarte e todas as letras, respeitando o formado original do trabalho e os fãs de Perry.

Um belo disco, vale a pena.

27 de nov de 2018

Review: Baco Exu do Blues - Bluesman (2018)

terça-feira, novembro 27, 2018

Já há alguns anos, duas coisas estão bem claras na música brasileira. Enquanto o rock BR se afastou de questões sociais, se distanciou das ruas e se transformou, de modo geral, em um gênero que deixou a atitude, as letras críticas e o discurso contestador para trás, todas esses ingredientes foram com mala e cuia para o rap. Desde o surgimento dos Racionais MC’s lá nos anos 1990, gradativamente tivemos cada vez menos Cazuzas e Renatos Russos e ganhamos a presença cada vez mais forte de Manos Browns. E isso diz muito sobre o país em que vivemos.

Assim como Criolo, Emicida e Rincon Sapiência lançaram discos incríveis nos últimos anos, cada um à sua maneira unindo a poesia com inspiração nos fatos do cotidiano e uma amálgama musical particular, Baco Exu do Blues dá sequência ao baile. Natural da Bahia, terra fértil em referências musicais, Baco lançou dia 23 de novembro o seu segundo álbum, Bluesman - o primeiro, Esú, saiu no ano passado.

Em pouco mais de 30 minutos, temos nove faixas que estão entre os momentos mais criativos e trazem algumas das letras mais bacanas que a música brasileira ouviu nos últimos anos. Baco bebe na música do mundo, iniciando o álbum com um sample da clássica “Mannish Boy”, de Muddy Waters, e um discurso claríssimo na excelente música que dá nome ao disco: "Eu sou o primeiro ritmo a formar pretos ricos / O primeiro ritmo que tornou pretos livres / Anel no dedo em cada um dos cinco / Vento na minha cara eu me sinto vivo / A partir de agora considero tudo blues / O samba é blues, o rock é blues, o jazz é blues / O funk é blues, o soul é blues / Eu sou Exu do Blues / Tudo que quando era preto era do demônio / E depois virou branco e foi aceito eu vou chamar de blues / É isso, entenda / Jesus é blues / Falei mermo”.

Musicalmente, o disco bebe predominantemente no rap com toques de rhythm & blues, mas insere ingredientes de rock, funk, soul, jazz e o que mais der na telha, resultando em uma salada sonora que casa perfeitamente com as letras. Seu universo vai muito além das fronteiras, como deixa claro em “Me Desculpa Jay Z”, “Kanye West da Bahia” e “BB King”. Baco usa a tradição e a história do blues como fio condutor e pano de fundo para contar a sua própria história, tudo isso através de um hip hop inteligente e que não se furta de dizer o que precisa ser dito.

Bluesman nasce com cara de clássico. Em um tempo onde tudo, eu sei, é apontado como clássico. Porém, a qualidade do trabalho de Baco Exu do Blues tem tudo para tornar esse seu segundo álbum perene e eterno. Como o blues. Como a música. Como a música negra.

Afinal, como ele próprio canta: "Jerusalém que se foda, eu tô à procura de Wakanda”.

20 de nov de 2018

Review: Holocaust - The Nightcomers (1981)

terça-feira, novembro 20, 2018

A New Wave of British Heavy Metal é um dos movimentos (ou cena, chame como quiser) mais apreciados pelos fãs de metal. Além de dar ao mundo um gigante do porte do Iron Maiden, a nova onda do metal britânico, que surgiu entre o final dos anos 1970 e o início dos anos 1980, veio carregada de nomes ótimos e que acabaram ficando pelo caminho por uma série de fatores. Muitas dessas bandas que não chegaram lá ganharam o status de cult. É o caso do Holocaust.

Particularmente, o que eu mais gosto na NWOBHM é a união entre peso e melodia. Essa mistura fez a minha cabeça desde o início, há décadas atrás, quando eu ainda era um adolescente e tinha cabelos a mais e kilos a menos. E ela é encontrada em profusão em The Nightcomers, disco de estreia do Holocaust que a Hellion Records acaba de relançar no Brasil com nada mais nada menos que 9 faixas bônus!

Mesmo sendo natural de Edimburgo, capital da Escócia, o Holocaust esteve desde o início associado com a NWOBHM. A banda foi formada em 1977 e lançou The Nightcomers em abril de 1981. O que temos aqui é um metal tradicional, bons riffs, linhas vocais cheias de melodia e refrãos fortes - tudo como manda o figurino.

O bom trabalho de composição, aliado à remasterização realizada em 2003 pela Castle/Sanctuary, torna a audição muito gratificante. Você se sente desbravando uma joia desconhecida, um verdadeiro tesouro sonoro, o qual apenas poucos aficcionados conhecem. O debut do Holocaust, no saldo geral, é um disco extremamente sólido e que traz canções excelentes como a clássica “Heavy Metal Mania”, que chegou a virar hit na época.

Em suma: uma verdadeira pérola do metal britânico dos anos 1980 disponível novamente no Brasil. Não dá pra passar batido!



19 de nov de 2018

Review: G.B.H. - A Fridge Too Far (1989)

segunda-feira, novembro 19, 2018

Uma das mais influentes bandas do punk inglês, o G.B.H. é idolatrado em todo o mundo e não é diferente aqui no Brasil. A cena punk de São Paulo nos anos 1980 tinha o grupo liderado pelo vocalista Colin Abrahall como uma de suas principais referências. E a amizade de bandas como o Ratos de Portão com o Sepultura, por exemplo, levou o G.B.H. até o universo da família Cavalera, com o grupo inglês fazendo a cabeça também de Max e Iggor.

Este primeiro parágrafo foi só pra mostrar, rapidamente, o impacto do quarteto por aqui. E histórias semelhantes aconteceram mundo afora. Nascida na cena street punk do final dos anos 1970, o G,B.H. é natural de Birmingham e influenciou não apenas todo o punk e hardcore que veio depois, como também teve suas ideias absorvidas por ícones do metal extremo como o Bathory, por exemplo.

O quinto álbum do grupo está sendo relançado no Brasil pela Hellion Records e é uma boa oportunidade para aqueles que nunca bateram cabeça ou entraram em uma roda de pogo ao som do G.B.H. conhecerem o som dos caras. A edição nacional vem com encarte com letras e pôster, um atrativo a mais para os colecionadores

A Fridge Too Far saiu originalmente em em 1989 e traz os ingleses já flertando abertamente com o crossover, equilibrando faixas mais punk das antigas com outras onde a influência de metal dá as caras. Há um híbrido metal/punk permeando todo o disco, que conta com canções rápidas e com doses de melodia até então inéditas na carreira da banda.

Trata-se de um registro histórico e que cai como uma luva na coleção de quem se interessa por música agressiva e pesada. Se é o seu caso - como é o meu, diga-se de passagem -, trata-se de um item imperdível.



13 de nov de 2018

Review: For All We Know - Take Me Home (2017)

terça-feira, novembro 13, 2018

O For All We Know é o projeto solo de Ruud Jolie, guitarrista do Within Temptation e também do tributo Maiden United, que faz versões acústicas para canções do Iron Maiden. Porém, não há nada do metal sinfônico da sua banda principal por aqui. Como em todo projeto paralelo que se preze a ideia é explorar e apresentar outra faceta do músico, o que no caso do For All We Know é traduzido em um prog metal com um fortíssimo acento pop.

Take Me Home é o segundo disco do For All We Know, e sucede a estreia lançada em 2011. O line-up foi mantido de um álbum para o outro: - Jermain Van Der Bogt (vocal), Ruud Jolie (guitarra e teclado), Thijs Schrijnemakers (teclado Hammond), Marco Kuypers (teclado Rhodes, Wurlitzer e piano), Kristoffer Gildenlöw (baixo, ex-Pain of Salvation) e Leo Margarit (bateria, Pain of Salvation). A produção ficou a cardo de Jolie.

São ao todo treze faixas, todas elas com doses generosas de melodia e que levam, em certos momentos, a música do grupo para um lugar bem próximo ao AOR e ao melodic rock. Tudo é bem “radio friendly”, como gostam de falar os críticos norte-americanos e ingleses, porém feito com extremo bom gosto. As canções são bem arranjadas e desenvolvidas, e há um cuidado e uma atenção especiais envolvendo tudo que envolve o disco.

O resultado é uma audição agradável que faz uma boa companhia para o ouvinte e ainda proporciona belos momentos como o hard pop que batiza o disco, a linda “Let Me Fly”, “The Big Wheel”, a participação de Anekke Van Giersbergen em “We Are the Light” e o prog de “Prophets in Disguise”.

Não vai mudar o mundo. Mas, na boa, nem precisa.



Review: English Dogs - Forward Into Battle (1985)

terça-feira, novembro 13, 2018

Uma das pioneiras do crossover, a união entre o punk e o heavy metal, a banda britânica English Dogs tem um de seus trabalhos mais clássicos lançados no Brasil. Segundo disco do grupo, Forward Into Battle está sendo lançado por aqui pela Hellion Records em uma edição que vem com encarte com as letras e um pôster.

O álbum saiu em 1985 e suas dez faixas ditaram caminhos para os futuros exploradores do crossover. A banda soube como equilibrar características de ambos os gêneros musicais, que naquela época eram vistos como antagônicos e até mesmo rivais pelos fãs. O resultado é um disco que ainda soa atual, mesmo passados mais de trinta anos de sua gravação.

Se você se interessa pela história e pelo desenvolvimento da música pesada, Forward Into Battle é um item muito bem-vindo em sua coleção.



9 de nov de 2018

Review: The Struts - Young & Dangerous (2018)

sexta-feira, novembro 09, 2018

O rock já não tem aquela mesma relevância dentro do mainstream como acontecia há décadas atrás, mas sempre nos deparamos com coisas legais, como o Greta Van Fleet encarnando o espírito zeppeliniano em suas canções ou até mesmo o Ghost, com seu teatro em doses encorpadas de Black Sabbath e Blue Öyster Cult. Por sua vez, outra banda chama a atenção em seu mais novo lançamento: The Struts.

Formada em 2009, na cidade de Derbyshire, na Inglaterra, o The Struts vem conquistando fãs com seu glam rock revival misturado com indie pop, que remete a nomes como Queen, T. Rex e até aos Rolling Stones. Em seu segundo disco, Young & Dangerous, lançado no dia 26 de outubro pela Intescope, o grupo mantém o glam pop que os consagrou no álbum anterior (Everybody Wants, de 2016), só que ainda mais ousado, diga-se de passagem, ao flertar mais com o glam ao estilo Queen e avançar em outras searas como o rap, na faixa "Bulletproof Baby".

Os destaques são os singles "Body Talks” - que possui duas versões: uma com a banda e a outra com a participação da cantora pop Kesha -, "Primadonna Like Me" - que mantém o clima festeiro do disco anterior chamando o ouvinte imediatamente para a pista - e "Fire", faixa que considero uma das melhores do disco, em que o vocalista Luke Spiller, com seu timbre de voz semelhante ao de Freddie Mercury, deposita o espírito juvenil da banda numa mistura de Queen, The Killers e The Darkness. 

Vamos levar em consideração que vemos um Luke Spiller mais solto e virtuoso, em canções como "Fire" e "Tatler Magazine", no qual o The Struts apresenta sinais de comparações com o Queen, principalmente por sua voz e vigor, tanto nas músicas quanto em suas apresentações ao vivo – basta ver alguns de seus shows no YouTube. O fato de fixarem residência nos Estados Unidos, a mudança de gravadora e uma turnê com o Foo Fighters promovendo seu novo disco são sinais de que a banda está no caminho certo e conquistando cada vez mais fãs. 

O que vale a pena ser considerado é que o The Struts repete a fórmula festeira e pop do disco anterior, mas arrisca mais ao beber da fonte de seus ídolos, como (o muitas vezes citado neste texto, e não por acaso) Queen - presente em muitas faixas do disco -, David Bowie e até Elton John. Se você não para de escutar Greta Van Fleet por lembrar de imediato do Led Zeppelin, certamente o Queen não vai sair da sua cabeça ao ouvir The Struts em seu playlist.

Afinal, ser jovem e perigoso em início de carreira nunca é demais.

Por Renan Esteves

8 de nov de 2018

Review: The Baggios - Vulcão (2018)

quinta-feira, novembro 08, 2018

Vulcão é o quarto álbum da banda sergipana The Baggios e completa o quarteto formado pela estreia auto-intitulada (2011), Sina (2013) e Brutown (2016). O disco traz também uma mudança na formação do agora trio, com a efetivação do baixista e tecladista Rafael Ramos, que já havia participado do trabalho anterior e passou a ser um integrante oficial do grupo. Completam o time o vocalista e guitarrista Júlio Andrade e o baterista Gabriel Perninha.

O que temos em Vulcão é um disco de rock brasileiro na mais pura concepção da palavra, no sentido de que um álbum com a sonoridade encontrada aqui só poderia vir de uma banda natural do Brasil. Ao lado das influências de rock e blues que acompanham o The Baggios desde sempre, encontramos também sons regionais nordestinos, marchinhas de carnaval, repente, MPB, hip hop e o que mais surgir na musicalidade inquieta do trio. Se é possível sentir a presença de Jimmy Page no violão que abre “Em Si Menor”, na mesma intensidade também está ali Jorge Ben mostrando a sua sombra em “Espada de São Jorge”.

Em relação ao excelente Brutown, que foi um disco mais focado em guitarras e colocou pra fora com força total a admiração dos caras pelo rock dos anos 1970, em Vulcão a banda dá uma guinada em sua sonoridade e apresenta muito mais elementos de música brasileira, bebendo sem medo nas suas raízes regionais. Os arranjos de metais e as orquestrações presentes em todo o disco são fundamentais neste aspecto, dando muito mais profundidade ao som do The Baggios, que já era algo impressionante antes disso. A banda segue sendo guiada pela guitarra e violão de Júlio, que funciona como uma espécie de maestro para a sonoridade que é apresentada, conduzindo o grupo por caminhos invariavelmente deliciosos.

Há ao menos dois momentos sublimes em Vulcão. O primeiro é “Deserto”, uma espécie de marchinha rock and roll que desemboca em um rap com a participação do Baiana System. E o resultado é incrível e traz saudade, veja só, do imortal Chico Science. Um exemplo perfeito de como a música do The Baggios não possui limites.

O segundo é “Espada de São Jorge”, uma blues tropical que começa com um violão meio Jorge Ben e se transforma em um blues torto e atravessado que de repente vira tipo um reggae, com direito a metais e um trabalho de guitarra ótimo de Andrade.

Mas é claro que não é só isso. O disco traz um desfile de ótimas músicas como “Louva-Deus”, “Caldeirão das Bruxas” e “Vermelho-Rubi”, e sua parte final ainda realça o lado mais contemplativo da banda com uma sequência de faixas que é de uma poesia e de um lirismo tocantes: de “Samsara" ao encerramento com a música que dá nome ao álbum, é só emoção em uma espécie de suíte temática.

Outra vez, o The Baggios mostra que, se há bandas superiores ou no mesmo nível que eles aqui no Brasil, elas são poucas. Bem poucas, pra falar a verdade. 

Review: Paradise Lost - Gothic (1991)

quinta-feira, novembro 08, 2018

Gothic é o segundo álbum do Paradise Lost e foi lançado em 19 de março de 1991. E agora volta ao mercado brasileiro em uma nova edição disponibilizada pela Hellion Records, com direito a duas faixas bônus e um DVD chamado The Lost Tapes, com a íntegra de um show realizado durante a turnê de lançamento. Esta é a mesma versão que foi relançada no mercado europeu em 2008, e vem com o som remasterizado.

Foi em Gothic que o Paradise Lost começou a apresentar a sua personalidade sonora. O disco trouxe a banda inglesa unindo de maneira indivisível o metal e o gótico, e criando, por consequência, um novo gênero. A predominância de melodias sombras, intensificadas por teclados e orquestrações bem encaixadas, deu um tremendo toque de originalidade para a música do grupo. As guitarras na cara, despejando riffs e trazendo influência gigantesca do Black Sabbath e até mesmo do heavy metal tradicional, complementam a mistura.

O destaque de Gothic é, entretanto, Nick Holmes. O trabalho que o vocalista faz nas dez canções do disco é exemplar. Seu timbre gutural tem uma profundidade rara, e Holmes consegue imprimir interpretações teatrais que colocam as faixas, invariavelmente, em outro nível.

Gothic é apontado, com justiça, como um dos álbuns mais influentes do metal dos anos 1990. Não à toa, a revista norte-americana Decibel incluiu o disco no seu Hall of Fame, dedicado a elencar os mais importantes álbuns da história do metal extremo. Gothic está lá, ao lado de clássicos incontestáveis como ele: Reign in Blood, Slaughter of Souls, Roots, In the Nightside of Eclipse e outros.

Se você ainda não tem, tenha!

1 de nov de 2018

Review: Visions of Atlantis - The Deep & The Dark (2018)

quinta-feira, novembro 01, 2018

The Deep & The Dark marca uma nova fase na carreira da banda austríaca Visions of Atlantis. Na ativa desde 2000, o grupo está lançado o seu sexto disco, que ganhou versão nacional através da Hellion Records. A nova fase citada no início faz referência ao fato de The Deep & The Dark marcar a estreia, em estúdio, da vocalista Clémentine Delauney, ex-Serenity. Na banda desde 2013, Clémentine só agora tem a sua voz eternizada em um álbum do grupo.

Musicalmente, o que temos aqui é um symphonic metal com vocais femininos que apresentam momentos operísticos. Clémentine soa como uma espécie de Tarja Turunen mais contida, e a própria concepção musical do Visions of Atlantis remete ao Nightwish, porém sem chegar perto do brilhantismo e da inventividade da banda finlandesa. As dez músicas trazem o teclado com bastante evidência, sempre dividindo o protagonismo instrumental com a guitarra. A alternância entre a voz de Clémentine e Christian Samer reforça o aspecto “beauty and the beast” da banda.

O resultado dessa receita é um som familiar, porém um tanto contido. Não há nada necessariamente novo em The Deep & The Dark, ainda que a banda alcance bons momentos como na grudenta “Return to Lemuria”, que tem tudo para virar um hit. De modo geral, o quinteto soa como uma espécie de Nightwish mais suave, sem tantos aspectos sinfônicos e com um peso apenas mediano.

Além de “Return to Lemuria”, curti também o clima meio étnico de “Ritual Night” e as agressivas “The Silent Mutiny” e “The Grand Illusion”, ambas com a guitarra bem à frente.

De modo geral, The Deep & The Dark traz algumas boas músicas e conta com músicos ótimos, notadamente Clémentine Delauney, porém trata-se de um disco indicado apenas para quem é fã de symphonic metal e anda com saudade de algo na linha da banda de Tuomas Holopainen.

31 de out de 2018

Review: Monster Truck - True Rockers (2018)

quarta-feira, outubro 31, 2018

O rock canadense não tem somente bandas como Rush, Triumph e Bachman-Turner Overdrive. O Monster Truck, por exemplo, é uma das boas novidades surgidas nos últimos anos nas terras geladas localizadas ao norte dos Estados Unidos.

Na estrada desde 2009, o quarteto lançou em setembro o seu terceiro disco, True Rockers. Vale mencionar que os dois primeiros álbuns do grupo, Furiosity (2013) e Sittin’ Heavy (2016), ganharam edições nacionais pela Hellion Records.

Em True Rockers temos a banda afiando ainda mais a sua música. A influência de blues presente nos dois primeiros registros foi embora, e em seu lugar floresceu um empolgante hard rock repleto de ritmo e refrãos marcantes. Em certos aspectos, há uma certa similaridade entre a sonoridade atual do Monster Truck e os também canadenses do Danko Jones, além de a música do novo disco dos caras caminhar em uma seara que não será estranha para os fãs do grupo dinamarquês Volbeat.

O álbum vem com onze canções bastante diretas, construídas sempre a partir da guitarra e que caminham, invariavelmente, para explosões sonoras cativantes. A participação de Dee Snider logo na música de abertura, “True Rocker”, já causa uma simpatia pelo disco, sensação essa que é reforçada pela audição. 

Destaques para “Devil Don’t Care”, “Denim Danger”, “Hurricane”, “Thudertruck" e “Evolution”, além da tirada de pé na balada “Undone”, que mostra que a banda também sabe como trilhar caminhos mais contemplativos.

Mais um belo disco dessa promissora banda, que mantém viva a rica tradição do rock canadense.

30 de out de 2018

Review: Triumph - Just a Game (1979)

terça-feira, outubro 30, 2018

Terceiro álbum do Triumph, Just a Game é mais um dos discos da banda canadense relançados no Brasil pela Hellion Records. Vamos, então, falar um pouco a seu respeito.

Just a Game sucedeu a estreia auto-intitulada (que saiu em 1976) e Rock & Roll Machine (1977), e antecedeu aquela que é considerada a melhor fase do grupo, com a trinca Progressions of Power (1980), Allied Forces (1981) e Never Surrender (1982). Musicalmente, o que ouvimos é o trio formado por Rik Emmett (guitarra e vocal), Michael Levine (baixo e teclado) e Gil Moore (bateria e vocal) ainda em busca de seu próprio som, que seria apresentado ao mundo de maneira efetiva a partir de 1980. O que quero dizer com isso é que em Just a Game ainda podemos ouvir uma banda que deixa claras as suas influências e, muitas vezes, acaba bastante presa a elas. Isso fica muito claro em “Lay It on the Line”, por exemplo, que pode ser facilmente confundida com uma canção desconhecida do Rush.

Emmett e Moore alteram-se nos vocais principais das canções. E aqui há de se mencionar que as músicas com Gil Moore geralmente variam entre um rock and roll mais cru e pesado ou pelas terras do blues, como “Young Enough to Cry”, uma das melhores do disco. Já Emmett, que para mim possui a voz mais associada ao Triumph (talvez por ser a dominante em grande parte dos hits do grupo), é o protagonista das composições que apresentam as estruturas mais elaboradas e soam mais ambiciosas, com o trio equilibrando elementos de rock progressivo com a melodia onipresente em seu universo musical. É daí que vem ótimas faixas como a que batiza o disco, majestosa e grandiosa e, sem dúvida, um dos grandes momentos da carreira do Triumph. 

A parte final de Just a Game ainda reserva a bonita “Hold On”, com seu arranjo crescente e que traz Emmett brilhando, e a inusitada “Suitcase Blues”, que na verdade é a banda brincando com um jazz descontraído e muito legal.

Just a Game foi o início do processo que levou o Triumph a gravar clássicos como Allied Forces. Suas oito músicas revelam uma banda que já mostrava os ingredientes que iriam aflorar nos anos seguintes, levando o trio canadense a ser um dos mais bem sucedidos nomes do hard rock da primeira metade dos anos 1980.

Compre o disco aqui.

29 de out de 2018

Review: Triumph - Never Surrender (1983)

segunda-feira, outubro 29, 2018

Em um trabalho digno de nota, a Hellion Records está relançando no Brasil a discografia remasterizada do trio canadense Triumph, uma das bandas mais subestimadas e cultuadas do hard & heavy oitentista. Após o clássico Allied Forces (1981) - leia o review aqui -, chegou a vez do seu sucessor retornar ao mercado brasileiro.

Never Surrender, sexto disco do grupo formado pelo vocalista e guitarrista Rik Emmett, pelo baixista e tecladista Michael Levine e pelo baterista e vocalista Gil Moore, saiu originalmente em 1982 no Canadá e no final de janeiro de 1983 no restante do mundo. O álbum veio com dez faixas que apresentam o hard rock típico do trio, com toques de rock progressivo e o refinamento instrumental característico.

O problema é que, impulsionado pela ótima performance comercial dos trabalhos anteriores, que renderem quatro discos de platina em sequência para o grupo, o Triumph entrou em uma ciranda insana de shows e, ao parar para gravar Never Surrender, precisava muito mais de descanso do que de entrar em estúdio. O resultado é que, apesar de ser um bom disco, Never Surrender acabou ficando abaixo dos trabalhos anteriores. Há inegáveis semelhanças com Allied Forces, como a óbvia similaridade entre a música título e “Fight the Good Fight”. As duas são ótimas músicas, mas “Never Surrender” é certamente irmã do estilo e da abordagem apresentadas na canção presente em Allied Forces.

Independente desses aspectos, o que me chama a atenção nestes álbuns do Triumph é o quanto eles envelheceram bem e não soam datados. Confesso que não acompanhei a banda quando ela estava gravando os LPs que a tornaram cultuada em todo o planeta, e talvez esse distanciamento afetivo faça com que eu assimile a música do Triumph sem recordações e doses de nostalgia que poderiam interferir no veredito. E, livre dessas amarras, o que chega aos meus ouvidos é hard rock cheio de classe e com ótimas melodias da banda, que ora aproxima-se do heavy metal e em outros momentos soa como um AOR de alto quilate.

Mesmo não sendo um disco obrigatório e com a aura de clássico que Allied Forces inegavelmente possui, Never Surrender é um bom álbum e que proporciona uma audição bastante agradável. Ou seja: exatamente o que queremos ao ouvir um CD, não é mesmo?


26 de out de 2018

Review: Stormwitch - Bound to the Witch (2018)

sexta-feira, outubro 26, 2018

Décimo-primeiro álbum da banda alemã Stormwitch, Bound to the Witch ganhou lançamento nacional via Hellion Records e é uma ótima pedida para quem é fã do lado mais tradicional do heavy metal. O trabalho é o novo capítulo da quadrilogia de discos lançados pela banda e que trazem algo relacionado a bruxas ou bruxaria no título: Dance with the Witches (2002), Witchcraft (2004), Season of the Witch (2015) e Bound to the Witch (2018). O CD também é o segundo da fase atual do grupo, que passou por um hiato durante a década de 2000 e início dos anos 2010.

O que temos nesse novo disco são onze músicas de um puro metal tradicional que equilibra-se entre momentos mais influenciados pela New Wave of British Heavy Metal e outros onde a veia power metal dos caras toma a dianteira. A edição nacional disponibilizada pela Hellion vem com três faixas bônus, que na verdade são regravações para canções antigas do quinteto: “Stronger Than Heaven”, “Rats in the Attic” e “Priest of Evil”.

Com mais de trinta anos de estrada, o Stormwitch não soa cansado e nem arrastado em seu novo álbum. O grupo mostra energia em canções bem feitas, que, ainda que preguem para os já convertidos, soam legais e não incomodam quem se diz fã de metal. Não há nada de necessariamente novo aqui, porém a banda soube como soar atualizada sem perder a sua origem e nem desagradar um público tão cheio de dedos como o headbanger mais tradicional.

Bound to the Witch traz momentos de alegria para quem é fã da pegada mais oitentista do heavy metal, proporcionando uma ótima audição. Se você se enquadra nessa descrição, vá atrás que vale a pena.



Review: Satyricon - Deep Calleth Upon Deep (2017)

sexta-feira, outubro 26, 2018

Uma das mais tradicionais bandas de black metal da Noruega, o Satyricon segue na ativa e, mais importante, mostrando criatividade. Fundado em 1991 e com pelo menos um clássico na bagagem - o incrível Nemesis Divina (1996) -, o hoje duo habitado por Satyr (vocal, guitarra, baixo e teclado) e Frost (bateria) lançou em setembro de 2017 o seu nono álbum, Deep Calleth Upon Deep. O disco saiu este ano no Brasil pela Hellion Records.

Realçando uma característica que sempre esteve presente no som do Satyricon, Deep Calleth Upon Deep traz muitos elementos de metal tradicional, que dividem espaço com a conhecida sonoridade black. Diria até que o metal tradicional é o principal elemento deste disco, o que faz com que as oito faixas do álbum levem a música do Satyricon para um ambiente próximo do occult rock e de nomes como o Tribulation. A massa sonora característica do black metal sai de cena para dar lugar a uma produção mais simples e discreta, mas também sem a crueza proposital que muitas vezes encontramos nos discos das bandas norueguesas nascidas no início da década de 1990.

A capa traz a uma ilustração obscura do artista Edvard Munch, autor do icômico O Grito, intitulada Todeskuss (em português, O Beijo da Morte). Munch a produziu em 1899. 

O processo de composição de Deep Calleth Upon Deep começou em 2015, mas precisou ser interrompido após Satyr ser diagnosticado com um tumor no cérebro. O músico foi submetido a um tratamento não cirúrgico, passou meses se recuperando e só então retomou o trabalho. Anders Odden, que toca baixo nos shows da banda, participou da gravação, assim como o saxofonista de jazz Hakon Kornstad e alguns músicos da Orquestra Filarmônica de Oslo. 

O interessante é que, mesmo explorando um universo onde o black metal divide espaço com o metal tradicional e até mesmo com elementos de post-rock, Deep Calleth Upon Deep consegue manter o ar hipnótico do típico black metal norueguês. Muito disso vem dos riffs de guitarra que se mantém na escola norueguesa, com aqueles típicos acordes cíclicos alternados com passagens instrumentais que transbordam melodia. Ainda que não alcance o nível de Nemesis Divina, este novo álbum mostra uma banda ainda inquieta e que segue evoluindo. Não à toa, o disco venceu a categoria de Best Metal Album na edição de 2017 do Spellemannprisen, o Grammy norueguês.

Caso você nunca tenha se aventurado pela polêmica geração de bandas norueguesas dos anos 1990, que muitas vezes são comentadas apenas pelos atos polêmicos que levaram à queima de igrejas históricas, os vários suicídios de músicos e pelos crimes que cometeram (como o assassinato de Euronymous por Varg Vikernes em 1993), essa versão mais suavizada do Satyricon pode ser uma ótima porta de entrada. A banda consegue manter o ar de misticismo de seus colegas de geração, e é uma sobrevivente orgulhosa de um dos períodos mais criativos e controversos do metal extremo.



25 de out de 2018

Review: Samael - Hegemony (2017)

quinta-feira, outubro 25, 2018

Seis anos após seu último trabalho de estúdio, a banda suíça Samael retornou em 2017 com Hegemony. O sucessor de Lux Mundi também marcou uma mudança na formação do quarteto com a inclusão do baixista e guitarrista Thomas “Drop" Betrisey. O vocalista e guitarrista Michael “Vorph" Locher e o baterista Alexandre “Xytras" Locher completam a banda. Em Hegemony, a segunda guitarra ficou a cargo de Marco “Mak" Rivao, mas ele acabou sendo substituído pelo baixista Pierre “Zorrac" Carroz.

O que temos em Hegemony é a sonoridade que sempre marcou a trajetória do Samael. Ou seja: um metal atual, que flerta com o lado mais extremo do estilo e apresenta influências igualitárias tanto do gótico quanto do industrial. A edição nacional, lançada pela Hellion Records, vem com uma faixa bônus: “Storm of Fire”.

Se você não está familiarizado com o som do Samael, o que posso dizer é que trata-se de um metal industrial (sem tanta ênfase no industrial, o que pessoalmente me agrada) muito bem executado, que ganha contornos cinematográficos devido a inserções orquestradas bem desenvolvidas. O vocal gutural e o uso frequente de blast beats, que são devidamente intercalados com muitos momentos onde o ritmo é mais convencional, enfatizam o aspecto extremo da sonoridade do quarteto. Já a onipresença de teclados, que em alguns momentos transformam-se em pianos, deixa a música do grupo bastante dramática e é o responsável por trazer para o universo da banda a legião de góticos que sempre acompanhou o Samael.

Como curiosidade, vale mencionar a versão para “Helter Skelter”, clássico dos Beatles, que aqui foi vestida com a estética característica do Samael. O resultado é uma releitura inegavelmente curiosa, mas nada muito além disso.

Hegemony é mais um bom trabalho deste quarteto suíço, na estrada há mais de 30 anos e com uma sólida discografia. Se você ainda não conhece os caras, está aí uma ótima oportunidade. E se já é fã do Samael, certamente irá gostar bastante deste novo álbum.

24 de out de 2018

Review: Behemoth - I Loved You at Your Darkest (2018)

quarta-feira, outubro 24, 2018

Vou fazer uma afirmação polêmica (ou não): para mim, o som atual do Behemoth é o que podemos chamar de black metal pop. Isso levando-se em conta todas as barreiras que encontramos ao tentar classificar uma música extrema como a dos poloneses como algo pop e feito para cair no gosto das massas.

O termo não é ofensivo, já digo antes que algum apressadinho entenda o contrário. Nergal e companhia tiveram a sabedoria de simplificar a sua música, deixando-a mais direta e sem o aspecto barroco que predominou em álbuns como Demigod (2004), The Apostasy (2007) e Evangelion (2009) - todos ótimos, que fique claro -, e o resultado dessa nova abordagem foi apresentada ao mundo no excepcional The Satanist (2014).

O novo disco do quarteto, I Loved You at Your Darkest, foi lançado no início de outubro e é uma espécie de passo adiante de tudo que foi apresentado em The Satanist. As faixas (doze no total) estão de modo geral mais curtas, evidenciando essa abordagem mais direta citada anteriormente. As melodias soam ao mesmo tempo sombrias, soturnas e ameaçadoras, porém acessíveis aos ouvidos de alguém leigo ao black metal, que imagino ser o tipo de público que a banda está buscando. O peso segue forte e onipresente, porém a massa sonora dos álbuns mais antigos foi amenizada, sofreu uma limpeza, e isso deixou a música do Behemoth ainda mais eficaz.

É evidente que o exemplar trabalho de composição possui um papel fundamental em todo esse contexto. Não à toa, há um espaço de quatro anos entre The Satanist e I Loved You at Your Darkest, assim como houve um gap de cinco anos entre Evangelion e The Satanist, justamente o período em que o Behemoth desenvolveu essa nova abordagem criativa para a sua música. No fim das contas são apenas dois discos em 9 anos, com direito à luta de Nergal contra o câncer no meio disso tudo.

Todo esse novo Behemoth apresentado nos dois últimos álbuns contrasta, por exemplo, com o exagero e o excesso que ainda reinam no black metal norueguês, onde o Dimmu Borgir se transformou em uma espécie de atração satânica do Cirque du Soleil. É claro que o aspecto visual sempre esteve presente na história do Behemoth, porém essa esfera da manifestação artística da banda continua transmitindo autenticidade e coerência, ao contrário dos figurinos e das maquiagens do Dimmu Borgir e seus imitadores, que viraram meras caricaturas com o passar dos anos.

Assim como fez em The Satanist, o Behemoth consegue entregar em I Loved You at Your Darkest uma espécie de manifesto religioso e sombrio dirigido para as massas, porém escrito de uma forma ainda mais atraente que o álbum de 2014. É o satanismo transformado em elemento da cultura pop, algo que sempre esteve presente na vidas das pessoas e deu ao mundo clássicos como o filme O Exorcista (1973), por exemplo. A filosofia do “menos é mais” é aplicada aqui de maneira exemplar, transformando uma sonoridade que já era cativante e riquíssima em algo ainda mais eficiente, com força para levar os poloneses ao topo do metal mundial - lugar onde, convenhamos, já deveriam estar há anos.

Um dos melhores discos de 2018, e praticamente sem concorrência se analisarmos apenas o que o heavy metal, como gênero musical, nos deu este ano. 

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