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19 de nov de 2018

Review: G.B.H. - A Fridge Too Far (1989)

segunda-feira, novembro 19, 2018

Uma das mais influentes bandas do punk inglês, o G.B.H. é idolatrado em todo o mundo e não é diferente aqui no Brasil. A cena punk de São Paulo nos anos 1980 tinha o grupo liderado pelo vocalista Colin Abrahall como uma de suas principais referências. E a amizade de bandas como o Ratos de Portão com o Sepultura, por exemplo, levou o G.B.H. até o universo da família Cavalera, com o grupo inglês fazendo a cabeça também de Max e Iggor.

Este primeiro parágrafo foi só pra mostrar, rapidamente, o impacto do quarteto por aqui. E histórias semelhantes aconteceram mundo afora. Nascida na cena street punk do final dos anos 1970, o G,B.H. é natural de Birmingham e influenciou não apenas todo o punk e hardcore que veio depois, como também teve suas ideias absorvidas por ícones do metal extremo como o Bathory, por exemplo.

O quinto álbum do grupo está sendo relançado no Brasil pela Hellion Records e é uma boa oportunidade para aqueles que nunca bateram cabeça ou entraram em uma roda de pogo ao som do G.B.H. conhecerem o som dos caras. A edição nacional vem com encarte com letras e pôster, um atrativo a mais para os colecionadores

A Fridge Too Far saiu originalmente em em 1989 e traz os ingleses já flertando abertamente com o crossover, equilibrando faixas mais punk das antigas com outras onde a influência de metal dá as caras. Há um híbrido metal/punk permeando todo o disco, que conta com canções rápidas e com doses de melodia até então inéditas na carreira da banda.

Trata-se de um registro histórico e que cai como uma luva na coleção de quem se interessa por música agressiva e pesada. Se é o seu caso - como é o meu, diga-se de passagem -, trata-se de um item imperdível.



13 de nov de 2018

Review: For All We Know - Take Me Home (2017)

terça-feira, novembro 13, 2018

O For All We Know é o projeto solo de Ruud Jolie, guitarrista do Within Temptation e também do tributo Maiden United, que faz versões acústicas para canções do Iron Maiden. Porém, não há nada do metal sinfônico da sua banda principal por aqui. Como em todo projeto paralelo que se preze a ideia é explorar e apresentar outra faceta do músico, o que no caso do For All We Know é traduzido em um prog metal com um fortíssimo acento pop.

Take Me Home é o segundo disco do For All We Know, e sucede a estreia lançada em 2011. O line-up foi mantido de um álbum para o outro: - Jermain Van Der Bogt (vocal), Ruud Jolie (guitarra e teclado), Thijs Schrijnemakers (teclado Hammond), Marco Kuypers (teclado Rhodes, Wurlitzer e piano), Kristoffer Gildenlöw (baixo, ex-Pain of Salvation) e Leo Margarit (bateria, Pain of Salvation). A produção ficou a cardo de Jolie.

São ao todo treze faixas, todas elas com doses generosas de melodia e que levam, em certos momentos, a música do grupo para um lugar bem próximo ao AOR e ao melodic rock. Tudo é bem “radio friendly”, como gostam de falar os críticos norte-americanos e ingleses, porém feito com extremo bom gosto. As canções são bem arranjadas e desenvolvidas, e há um cuidado e uma atenção especiais envolvendo tudo que envolve o disco.

O resultado é uma audição agradável que faz uma boa companhia para o ouvinte e ainda proporciona belos momentos como o hard pop que batiza o disco, a linda “Let Me Fly”, “The Big Wheel”, a participação de Anekke Van Giersbergen em “We Are the Light” e o prog de “Prophets in Disguise”.

Não vai mudar o mundo. Mas, na boa, nem precisa.



Review: English Dogs - Forward Into Battle (1985)

terça-feira, novembro 13, 2018

Uma das pioneiras do crossover, a união entre o punk e o heavy metal, a banda britânica English Dogs tem um de seus trabalhos mais clássicos lançados no Brasil. Segundo disco do grupo, Forward Into Battle está sendo lançado por aqui pela Hellion Records em uma edição que vem com encarte com as letras e um pôster.

O álbum saiu em 1985 e suas dez faixas ditaram caminhos para os futuros exploradores do crossover. A banda soube como equilibrar características de ambos os gêneros musicais, que naquela época eram vistos como antagônicos e até mesmo rivais pelos fãs. O resultado é um disco que ainda soa atual, mesmo passados mais de trinta anos de sua gravação.

Se você se interessa pela história e pelo desenvolvimento da música pesada, Forward Into Battle é um item muito bem-vindo em sua coleção.



9 de nov de 2018

Review: The Struts - Young & Dangerous (2018)

sexta-feira, novembro 09, 2018

O rock já não tem aquela mesma relevância dentro do mainstream como acontecia há décadas atrás, mas sempre nos deparamos com coisas legais, como o Greta Van Fleet encarnando o espírito zeppeliniano em suas canções ou até mesmo o Ghost, com seu teatro em doses encorpadas de Black Sabbath e Blue Öyster Cult. Por sua vez, outra banda chama a atenção em seu mais novo lançamento: The Struts.

Formada em 2009, na cidade de Derbyshire, na Inglaterra, o The Struts vem conquistando fãs com seu glam rock revival misturado com indie pop, que remete a nomes como Queen, T. Rex e até aos Rolling Stones. Em seu segundo disco, Young & Dangerous, lançado no dia 26 de outubro pela Intescope, o grupo mantém o glam pop que os consagrou no álbum anterior (Everybody Wants, de 2016), só que ainda mais ousado, diga-se de passagem, ao flertar mais com o glam ao estilo Queen e avançar em outras searas como o rap, na faixa "Bulletproof Baby".

Os destaques são os singles "Body Talks” - que possui duas versões: uma com a banda e a outra com a participação da cantora pop Kesha -, "Primadonna Like Me" - que mantém o clima festeiro do disco anterior chamando o ouvinte imediatamente para a pista - e "Fire", faixa que considero uma das melhores do disco, em que o vocalista Luke Spiller, com seu timbre de voz semelhante ao de Freddie Mercury, deposita o espírito juvenil da banda numa mistura de Queen, The Killers e The Darkness. 

Vamos levar em consideração que vemos um Luke Spiller mais solto e virtuoso, em canções como "Fire" e "Tatler Magazine", no qual o The Struts apresenta sinais de comparações com o Queen, principalmente por sua voz e vigor, tanto nas músicas quanto em suas apresentações ao vivo – basta ver alguns de seus shows no YouTube. O fato de fixarem residência nos Estados Unidos, a mudança de gravadora e uma turnê com o Foo Fighters promovendo seu novo disco são sinais de que a banda está no caminho certo e conquistando cada vez mais fãs. 

O que vale a pena ser considerado é que o The Struts repete a fórmula festeira e pop do disco anterior, mas arrisca mais ao beber da fonte de seus ídolos, como (o muitas vezes citado neste texto, e não por acaso) Queen - presente em muitas faixas do disco -, David Bowie e até Elton John. Se você não para de escutar Greta Van Fleet por lembrar de imediato do Led Zeppelin, certamente o Queen não vai sair da sua cabeça ao ouvir The Struts em seu playlist.

Afinal, ser jovem e perigoso em início de carreira nunca é demais.

Por Renan Esteves

8 de nov de 2018

Review: The Baggios - Vulcão (2018)

quinta-feira, novembro 08, 2018

Vulcão é o quarto álbum da banda sergipana The Baggios e completa o quarteto formado pela estreia auto-intitulada (2011), Sina (2013) e Brutown (2016). O disco traz também uma mudança na formação do agora trio, com a efetivação do baixista e tecladista Rafael Ramos, que já havia participado do trabalho anterior e passou a ser um integrante oficial do grupo. Completam o time o vocalista e guitarrista Júlio Andrade e o baterista Gabriel Perninha.

O que temos em Vulcão é um disco de rock brasileiro na mais pura concepção da palavra, no sentido de que um álbum com a sonoridade encontrada aqui só poderia vir de uma banda natural do Brasil. Ao lado das influências de rock e blues que acompanham o The Baggios desde sempre, encontramos também sons regionais nordestinos, marchinhas de carnaval, repente, MPB, hip hop e o que mais surgir na musicalidade inquieta do trio. Se é possível sentir a presença de Jimmy Page no violão que abre “Em Si Menor”, na mesma intensidade também está ali Jorge Ben mostrando a sua sombra em “Espada de São Jorge”.

Em relação ao excelente Brutown, que foi um disco mais focado em guitarras e colocou pra fora com força total a admiração dos caras pelo rock dos anos 1970, em Vulcão a banda dá uma guinada em sua sonoridade e apresenta muito mais elementos de música brasileira, bebendo sem medo nas suas raízes regionais. Os arranjos de metais e as orquestrações presentes em todo o disco são fundamentais neste aspecto, dando muito mais profundidade ao som do The Baggios, que já era algo impressionante antes disso. A banda segue sendo guiada pela guitarra e violão de Júlio, que funciona como uma espécie de maestro para a sonoridade que é apresentada, conduzindo o grupo por caminhos invariavelmente deliciosos.

Há ao menos dois momentos sublimes em Vulcão. O primeiro é “Deserto”, uma espécie de marchinha rock and roll que desemboca em um rap com a participação do Baiana System. E o resultado é incrível e traz saudade, veja só, do imortal Chico Science. Um exemplo perfeito de como a música do The Baggios não possui limites.

O segundo é “Espada de São Jorge”, uma blues tropical que começa com um violão meio Jorge Ben e se transforma em um blues torto e atravessado que de repente vira tipo um reggae, com direito a metais e um trabalho de guitarra ótimo de Andrade.

Mas é claro que não é só isso. O disco traz um desfile de ótimas músicas como “Louva-Deus”, “Caldeirão das Bruxas” e “Vermelho-Rubi”, e sua parte final ainda realça o lado mais contemplativo da banda com uma sequência de faixas que é de uma poesia e de um lirismo tocantes: de “Samsara" ao encerramento com a música que dá nome ao álbum, é só emoção em uma espécie de suíte temática.

Outra vez, o The Baggios mostra que, se há bandas superiores ou no mesmo nível que eles aqui no Brasil, elas são poucas. Bem poucas, pra falar a verdade. 

Review: Paradise Lost - Gothic (1991)

quinta-feira, novembro 08, 2018

Gothic é o segundo álbum do Paradise Lost e foi lançado em 19 de março de 1991. E agora volta ao mercado brasileiro em uma nova edição disponibilizada pela Hellion Records, com direito a duas faixas bônus e um DVD chamado The Lost Tapes, com a íntegra de um show realizado durante a turnê de lançamento. Esta é a mesma versão que foi relançada no mercado europeu em 2008, e vem com o som remasterizado.

Foi em Gothic que o Paradise Lost começou a apresentar a sua personalidade sonora. O disco trouxe a banda inglesa unindo de maneira indivisível o metal e o gótico, e criando, por consequência, um novo gênero. A predominância de melodias sombras, intensificadas por teclados e orquestrações bem encaixadas, deu um tremendo toque de originalidade para a música do grupo. As guitarras na cara, despejando riffs e trazendo influência gigantesca do Black Sabbath e até mesmo do heavy metal tradicional, complementam a mistura.

O destaque de Gothic é, entretanto, Nick Holmes. O trabalho que o vocalista faz nas dez canções do disco é exemplar. Seu timbre gutural tem uma profundidade rara, e Holmes consegue imprimir interpretações teatrais que colocam as faixas, invariavelmente, em outro nível.

Gothic é apontado, com justiça, como um dos álbuns mais influentes do metal dos anos 1990. Não à toa, a revista norte-americana Decibel incluiu o disco no seu Hall of Fame, dedicado a elencar os mais importantes álbuns da história do metal extremo. Gothic está lá, ao lado de clássicos incontestáveis como ele: Reign in Blood, Slaughter of Souls, Roots, In the Nightside of Eclipse e outros.

Se você ainda não tem, tenha!

1 de nov de 2018

Review: Visions of Atlantis - The Deep & The Dark (2018)

quinta-feira, novembro 01, 2018

The Deep & The Dark marca uma nova fase na carreira da banda austríaca Visions of Atlantis. Na ativa desde 2000, o grupo está lançado o seu sexto disco, que ganhou versão nacional através da Hellion Records. A nova fase citada no início faz referência ao fato de The Deep & The Dark marcar a estreia, em estúdio, da vocalista Clémentine Delauney, ex-Serenity. Na banda desde 2013, Clémentine só agora tem a sua voz eternizada em um álbum do grupo.

Musicalmente, o que temos aqui é um symphonic metal com vocais femininos que apresentam momentos operísticos. Clémentine soa como uma espécie de Tarja Turunen mais contida, e a própria concepção musical do Visions of Atlantis remete ao Nightwish, porém sem chegar perto do brilhantismo e da inventividade da banda finlandesa. As dez músicas trazem o teclado com bastante evidência, sempre dividindo o protagonismo instrumental com a guitarra. A alternância entre a voz de Clémentine e Christian Samer reforça o aspecto “beauty and the beast” da banda.

O resultado dessa receita é um som familiar, porém um tanto contido. Não há nada necessariamente novo em The Deep & The Dark, ainda que a banda alcance bons momentos como na grudenta “Return to Lemuria”, que tem tudo para virar um hit. De modo geral, o quinteto soa como uma espécie de Nightwish mais suave, sem tantos aspectos sinfônicos e com um peso apenas mediano.

Além de “Return to Lemuria”, curti também o clima meio étnico de “Ritual Night” e as agressivas “The Silent Mutiny” e “The Grand Illusion”, ambas com a guitarra bem à frente.

De modo geral, The Deep & The Dark traz algumas boas músicas e conta com músicos ótimos, notadamente Clémentine Delauney, porém trata-se de um disco indicado apenas para quem é fã de symphonic metal e anda com saudade de algo na linha da banda de Tuomas Holopainen.

31 de out de 2018

Review: Monster Truck - True Rockers (2018)

quarta-feira, outubro 31, 2018

O rock canadense não tem somente bandas como Rush, Triumph e Bachman-Turner Overdrive. O Monster Truck, por exemplo, é uma das boas novidades surgidas nos últimos anos nas terras geladas localizadas ao norte dos Estados Unidos.

Na estrada desde 2009, o quarteto lançou em setembro o seu terceiro disco, True Rockers. Vale mencionar que os dois primeiros álbuns do grupo, Furiosity (2013) e Sittin’ Heavy (2016), ganharam edições nacionais pela Hellion Records.

Em True Rockers temos a banda afiando ainda mais a sua música. A influência de blues presente nos dois primeiros registros foi embora, e em seu lugar floresceu um empolgante hard rock repleto de ritmo e refrãos marcantes. Em certos aspectos, há uma certa similaridade entre a sonoridade atual do Monster Truck e os também canadenses do Danko Jones, além de a música do novo disco dos caras caminhar em uma seara que não será estranha para os fãs do grupo dinamarquês Volbeat.

O álbum vem com onze canções bastante diretas, construídas sempre a partir da guitarra e que caminham, invariavelmente, para explosões sonoras cativantes. A participação de Dee Snider logo na música de abertura, “True Rocker”, já causa uma simpatia pelo disco, sensação essa que é reforçada pela audição. 

Destaques para “Devil Don’t Care”, “Denim Danger”, “Hurricane”, “Thudertruck" e “Evolution”, além da tirada de pé na balada “Undone”, que mostra que a banda também sabe como trilhar caminhos mais contemplativos.

Mais um belo disco dessa promissora banda, que mantém viva a rica tradição do rock canadense.

30 de out de 2018

Review: Triumph - Just a Game (1979)

terça-feira, outubro 30, 2018

Terceiro álbum do Triumph, Just a Game é mais um dos discos da banda canadense relançados no Brasil pela Hellion Records. Vamos, então, falar um pouco a seu respeito.

Just a Game sucedeu a estreia auto-intitulada (que saiu em 1976) e Rock & Roll Machine (1977), e antecedeu aquela que é considerada a melhor fase do grupo, com a trinca Progressions of Power (1980), Allied Forces (1981) e Never Surrender (1982). Musicalmente, o que ouvimos é o trio formado por Rik Emmett (guitarra e vocal), Michael Levine (baixo e teclado) e Gil Moore (bateria e vocal) ainda em busca de seu próprio som, que seria apresentado ao mundo de maneira efetiva a partir de 1980. O que quero dizer com isso é que em Just a Game ainda podemos ouvir uma banda que deixa claras as suas influências e, muitas vezes, acaba bastante presa a elas. Isso fica muito claro em “Lay It on the Line”, por exemplo, que pode ser facilmente confundida com uma canção desconhecida do Rush.

Emmett e Moore alteram-se nos vocais principais das canções. E aqui há de se mencionar que as músicas com Gil Moore geralmente variam entre um rock and roll mais cru e pesado ou pelas terras do blues, como “Young Enough to Cry”, uma das melhores do disco. Já Emmett, que para mim possui a voz mais associada ao Triumph (talvez por ser a dominante em grande parte dos hits do grupo), é o protagonista das composições que apresentam as estruturas mais elaboradas e soam mais ambiciosas, com o trio equilibrando elementos de rock progressivo com a melodia onipresente em seu universo musical. É daí que vem ótimas faixas como a que batiza o disco, majestosa e grandiosa e, sem dúvida, um dos grandes momentos da carreira do Triumph. 

A parte final de Just a Game ainda reserva a bonita “Hold On”, com seu arranjo crescente e que traz Emmett brilhando, e a inusitada “Suitcase Blues”, que na verdade é a banda brincando com um jazz descontraído e muito legal.

Just a Game foi o início do processo que levou o Triumph a gravar clássicos como Allied Forces. Suas oito músicas revelam uma banda que já mostrava os ingredientes que iriam aflorar nos anos seguintes, levando o trio canadense a ser um dos mais bem sucedidos nomes do hard rock da primeira metade dos anos 1980.

Compre o disco aqui.

29 de out de 2018

Review: Triumph - Never Surrender (1983)

segunda-feira, outubro 29, 2018

Em um trabalho digno de nota, a Hellion Records está relançando no Brasil a discografia remasterizada do trio canadense Triumph, uma das bandas mais subestimadas e cultuadas do hard & heavy oitentista. Após o clássico Allied Forces (1981) - leia o review aqui -, chegou a vez do seu sucessor retornar ao mercado brasileiro.

Never Surrender, sexto disco do grupo formado pelo vocalista e guitarrista Rik Emmett, pelo baixista e tecladista Michael Levine e pelo baterista e vocalista Gil Moore, saiu originalmente em 1982 no Canadá e no final de janeiro de 1983 no restante do mundo. O álbum veio com dez faixas que apresentam o hard rock típico do trio, com toques de rock progressivo e o refinamento instrumental característico.

O problema é que, impulsionado pela ótima performance comercial dos trabalhos anteriores, que renderem quatro discos de platina em sequência para o grupo, o Triumph entrou em uma ciranda insana de shows e, ao parar para gravar Never Surrender, precisava muito mais de descanso do que de entrar em estúdio. O resultado é que, apesar de ser um bom disco, Never Surrender acabou ficando abaixo dos trabalhos anteriores. Há inegáveis semelhanças com Allied Forces, como a óbvia similaridade entre a música título e “Fight the Good Fight”. As duas são ótimas músicas, mas “Never Surrender” é certamente irmã do estilo e da abordagem apresentadas na canção presente em Allied Forces.

Independente desses aspectos, o que me chama a atenção nestes álbuns do Triumph é o quanto eles envelheceram bem e não soam datados. Confesso que não acompanhei a banda quando ela estava gravando os LPs que a tornaram cultuada em todo o planeta, e talvez esse distanciamento afetivo faça com que eu assimile a música do Triumph sem recordações e doses de nostalgia que poderiam interferir no veredito. E, livre dessas amarras, o que chega aos meus ouvidos é hard rock cheio de classe e com ótimas melodias da banda, que ora aproxima-se do heavy metal e em outros momentos soa como um AOR de alto quilate.

Mesmo não sendo um disco obrigatório e com a aura de clássico que Allied Forces inegavelmente possui, Never Surrender é um bom álbum e que proporciona uma audição bastante agradável. Ou seja: exatamente o que queremos ao ouvir um CD, não é mesmo?


26 de out de 2018

Review: Stormwitch - Bound to the Witch (2018)

sexta-feira, outubro 26, 2018

Décimo-primeiro álbum da banda alemã Stormwitch, Bound to the Witch ganhou lançamento nacional via Hellion Records e é uma ótima pedida para quem é fã do lado mais tradicional do heavy metal. O trabalho é o novo capítulo da quadrilogia de discos lançados pela banda e que trazem algo relacionado a bruxas ou bruxaria no título: Dance with the Witches (2002), Witchcraft (2004), Season of the Witch (2015) e Bound to the Witch (2018). O CD também é o segundo da fase atual do grupo, que passou por um hiato durante a década de 2000 e início dos anos 2010.

O que temos nesse novo disco são onze músicas de um puro metal tradicional que equilibra-se entre momentos mais influenciados pela New Wave of British Heavy Metal e outros onde a veia power metal dos caras toma a dianteira. A edição nacional disponibilizada pela Hellion vem com três faixas bônus, que na verdade são regravações para canções antigas do quinteto: “Stronger Than Heaven”, “Rats in the Attic” e “Priest of Evil”.

Com mais de trinta anos de estrada, o Stormwitch não soa cansado e nem arrastado em seu novo álbum. O grupo mostra energia em canções bem feitas, que, ainda que preguem para os já convertidos, soam legais e não incomodam quem se diz fã de metal. Não há nada de necessariamente novo aqui, porém a banda soube como soar atualizada sem perder a sua origem e nem desagradar um público tão cheio de dedos como o headbanger mais tradicional.

Bound to the Witch traz momentos de alegria para quem é fã da pegada mais oitentista do heavy metal, proporcionando uma ótima audição. Se você se enquadra nessa descrição, vá atrás que vale a pena.



Review: Satyricon - Deep Calleth Upon Deep (2017)

sexta-feira, outubro 26, 2018

Uma das mais tradicionais bandas de black metal da Noruega, o Satyricon segue na ativa e, mais importante, mostrando criatividade. Fundado em 1991 e com pelo menos um clássico na bagagem - o incrível Nemesis Divina (1996) -, o hoje duo habitado por Satyr (vocal, guitarra, baixo e teclado) e Frost (bateria) lançou em setembro de 2017 o seu nono álbum, Deep Calleth Upon Deep. O disco saiu este ano no Brasil pela Hellion Records.

Realçando uma característica que sempre esteve presente no som do Satyricon, Deep Calleth Upon Deep traz muitos elementos de metal tradicional, que dividem espaço com a conhecida sonoridade black. Diria até que o metal tradicional é o principal elemento deste disco, o que faz com que as oito faixas do álbum levem a música do Satyricon para um ambiente próximo do occult rock e de nomes como o Tribulation. A massa sonora característica do black metal sai de cena para dar lugar a uma produção mais simples e discreta, mas também sem a crueza proposital que muitas vezes encontramos nos discos das bandas norueguesas nascidas no início da década de 1990.

A capa traz a uma ilustração obscura do artista Edvard Munch, autor do icômico O Grito, intitulada Todeskuss (em português, O Beijo da Morte). Munch a produziu em 1899. 

O processo de composição de Deep Calleth Upon Deep começou em 2015, mas precisou ser interrompido após Satyr ser diagnosticado com um tumor no cérebro. O músico foi submetido a um tratamento não cirúrgico, passou meses se recuperando e só então retomou o trabalho. Anders Odden, que toca baixo nos shows da banda, participou da gravação, assim como o saxofonista de jazz Hakon Kornstad e alguns músicos da Orquestra Filarmônica de Oslo. 

O interessante é que, mesmo explorando um universo onde o black metal divide espaço com o metal tradicional e até mesmo com elementos de post-rock, Deep Calleth Upon Deep consegue manter o ar hipnótico do típico black metal norueguês. Muito disso vem dos riffs de guitarra que se mantém na escola norueguesa, com aqueles típicos acordes cíclicos alternados com passagens instrumentais que transbordam melodia. Ainda que não alcance o nível de Nemesis Divina, este novo álbum mostra uma banda ainda inquieta e que segue evoluindo. Não à toa, o disco venceu a categoria de Best Metal Album na edição de 2017 do Spellemannprisen, o Grammy norueguês.

Caso você nunca tenha se aventurado pela polêmica geração de bandas norueguesas dos anos 1990, que muitas vezes são comentadas apenas pelos atos polêmicos que levaram à queima de igrejas históricas, os vários suicídios de músicos e pelos crimes que cometeram (como o assassinato de Euronymous por Varg Vikernes em 1993), essa versão mais suavizada do Satyricon pode ser uma ótima porta de entrada. A banda consegue manter o ar de misticismo de seus colegas de geração, e é uma sobrevivente orgulhosa de um dos períodos mais criativos e controversos do metal extremo.



25 de out de 2018

Review: Samael - Hegemony (2017)

quinta-feira, outubro 25, 2018

Seis anos após seu último trabalho de estúdio, a banda suíça Samael retornou em 2017 com Hegemony. O sucessor de Lux Mundi também marcou uma mudança na formação do quarteto com a inclusão do baixista e guitarrista Thomas “Drop" Betrisey. O vocalista e guitarrista Michael “Vorph" Locher e o baterista Alexandre “Xytras" Locher completam a banda. Em Hegemony, a segunda guitarra ficou a cargo de Marco “Mak" Rivao, mas ele acabou sendo substituído pelo baixista Pierre “Zorrac" Carroz.

O que temos em Hegemony é a sonoridade que sempre marcou a trajetória do Samael. Ou seja: um metal atual, que flerta com o lado mais extremo do estilo e apresenta influências igualitárias tanto do gótico quanto do industrial. A edição nacional, lançada pela Hellion Records, vem com uma faixa bônus: “Storm of Fire”.

Se você não está familiarizado com o som do Samael, o que posso dizer é que trata-se de um metal industrial (sem tanta ênfase no industrial, o que pessoalmente me agrada) muito bem executado, que ganha contornos cinematográficos devido a inserções orquestradas bem desenvolvidas. O vocal gutural e o uso frequente de blast beats, que são devidamente intercalados com muitos momentos onde o ritmo é mais convencional, enfatizam o aspecto extremo da sonoridade do quarteto. Já a onipresença de teclados, que em alguns momentos transformam-se em pianos, deixa a música do grupo bastante dramática e é o responsável por trazer para o universo da banda a legião de góticos que sempre acompanhou o Samael.

Como curiosidade, vale mencionar a versão para “Helter Skelter”, clássico dos Beatles, que aqui foi vestida com a estética característica do Samael. O resultado é uma releitura inegavelmente curiosa, mas nada muito além disso.

Hegemony é mais um bom trabalho deste quarteto suíço, na estrada há mais de 30 anos e com uma sólida discografia. Se você ainda não conhece os caras, está aí uma ótima oportunidade. E se já é fã do Samael, certamente irá gostar bastante deste novo álbum.

24 de out de 2018

Review: Behemoth - I Loved You at Your Darkest (2018)

quarta-feira, outubro 24, 2018

Vou fazer uma afirmação polêmica (ou não): para mim, o som atual do Behemoth é o que podemos chamar de black metal pop. Isso levando-se em conta todas as barreiras que encontramos ao tentar classificar uma música extrema como a dos poloneses como algo pop e feito para cair no gosto das massas.

O termo não é ofensivo, já digo antes que algum apressadinho entenda o contrário. Nergal e companhia tiveram a sabedoria de simplificar a sua música, deixando-a mais direta e sem o aspecto barroco que predominou em álbuns como Demigod (2004), The Apostasy (2007) e Evangelion (2009) - todos ótimos, que fique claro -, e o resultado dessa nova abordagem foi apresentada ao mundo no excepcional The Satanist (2014).

O novo disco do quarteto, I Loved You at Your Darkest, foi lançado no início de outubro e é uma espécie de passo adiante de tudo que foi apresentado em The Satanist. As faixas (doze no total) estão de modo geral mais curtas, evidenciando essa abordagem mais direta citada anteriormente. As melodias soam ao mesmo tempo sombrias, soturnas e ameaçadoras, porém acessíveis aos ouvidos de alguém leigo ao black metal, que imagino ser o tipo de público que a banda está buscando. O peso segue forte e onipresente, porém a massa sonora dos álbuns mais antigos foi amenizada, sofreu uma limpeza, e isso deixou a música do Behemoth ainda mais eficaz.

É evidente que o exemplar trabalho de composição possui um papel fundamental em todo esse contexto. Não à toa, há um espaço de quatro anos entre The Satanist e I Loved You at Your Darkest, assim como houve um gap de cinco anos entre Evangelion e The Satanist, justamente o período em que o Behemoth desenvolveu essa nova abordagem criativa para a sua música. No fim das contas são apenas dois discos em 9 anos, com direito à luta de Nergal contra o câncer no meio disso tudo.

Todo esse novo Behemoth apresentado nos dois últimos álbuns contrasta, por exemplo, com o exagero e o excesso que ainda reinam no black metal norueguês, onde o Dimmu Borgir se transformou em uma espécie de atração satânica do Cirque du Soleil. É claro que o aspecto visual sempre esteve presente na história do Behemoth, porém essa esfera da manifestação artística da banda continua transmitindo autenticidade e coerência, ao contrário dos figurinos e das maquiagens do Dimmu Borgir e seus imitadores, que viraram meras caricaturas com o passar dos anos.

Assim como fez em The Satanist, o Behemoth consegue entregar em I Loved You at Your Darkest uma espécie de manifesto religioso e sombrio dirigido para as massas, porém escrito de uma forma ainda mais atraente que o álbum de 2014. É o satanismo transformado em elemento da cultura pop, algo que sempre esteve presente na vidas das pessoas e deu ao mundo clássicos como o filme O Exorcista (1973), por exemplo. A filosofia do “menos é mais” é aplicada aqui de maneira exemplar, transformando uma sonoridade que já era cativante e riquíssima em algo ainda mais eficiente, com força para levar os poloneses ao topo do metal mundial - lugar onde, convenhamos, já deveriam estar há anos.

Um dos melhores discos de 2018, e praticamente sem concorrência se analisarmos apenas o que o heavy metal, como gênero musical, nos deu este ano. 

23 de out de 2018

Review: Michael Romeo - War of the Worlds Pt. 1 (2018)

terça-feira, outubro 23, 2018

24 anos após o lançamento de seu primeiro álbum solo, The Dark Chapter, o guitarrista Michael Romeo retorna com um novo disco pra chamar só de seu. War of the Worlds Pt. 1 é um trabalho conceitual inspirado no clássico conto de H.G. Wells publicado em 1898 e dramatizado por Orson Welles em um programa de rádio em 1938. A história recebeu inúmeras adaptações nas mais diversas mídias e é um dos textos mais influentes da cultura pop.

Michael Romeo, que está com a sua banda principal, o Symphony X, em pausa devido ao acidente sofrido pelo vocalista Russell Allen durante uma turnê do Adrenaline Mob em julho de 2017, decidiu então aproveitar as férias forçadas e lançar um trabalho solo. Para tanto, chamou o trio Rick Castellano (vocal), John DeServio (baixo, Black Label Society) e John Macaluso (bateria, Ark, TNT, Malmsteen), e assumiu ele mesmo os teclados e orquestrações. Este é o primeiro álbum que Romeo lança desde o mais recente disco do Symphony X, o excelente Underworld (2015).

O que chama a atenção, logo de cara, é a inclusão de elementos não muito comuns ao metal, como EDM e dubstep, além das orquestrações. Percebe-se um esforço de Romeo em propor caminhos e soluções que saiam do lugar comum e tragam algo de novo, equilibrando esse desejo por inovação com o universo musical já conhecido dos fãs. Dessa maneira, o que temos é um disco muito pesado, técnico, com foco na guitarra e que traz ideias surpreendentes. A ótima performance da banda ajuda Michael a colocar esta primeira parte de A Guerra dos Mundos em um nível superior, com destaques igualitários para os três músicos convidados.

As dez faixas apresentam uma qualidade homogênea e formam um conjunto bastante coeso, que demonstra o talento e a capacidade criativa de Micael Romeo, que a propósito também assinou a produção, igualmente muito bem feita. Entre as canções, destaque para “Fear the Unknow”, “Black”, para a união entre metal e dubstep presente na ótima “F*cking Robots”, a animalesca “Djinn" e “Oblivion”. Há duas instrumentais - “Introduction" e “War Machine” -, ambas muito boas. Outro ponto que merece menção é o ótimo encaixe das orquestrações, que dão um clima cinematográfico para a obra, reforçando ainda mais a associação com o clássico de H.G. Wells.

Enquanto o Symphony X não retorna, War of the Worlds Pt. 1 é uma ótima pedida. O disco acabou de ser lançado no Brasil pela Hellion Records e agradará em cheio os fãs da banda. E ainda tem mais: Romeo declarou que a segunda parte do projeto está praticamente pronta e será lançada provavelmente em 2019.

Ótimo!


Review: FB1964 - Störtebeker (2017)

terça-feira, outubro 23, 2018

Com a chegada do Avantasia e o lançamento do seu disco de estreia - o já clássico The Metal Opera (2001) -, a proposta de unir o heavy metal a uma abordagem tanto musical quanto lírica inspirada na tradição das grandes óperas ganhou cada vez mais adeptos. No entanto, projetos realmente bons seguindo essa abordagem não foram muitos, convenhamos.

Felizmente, o FB1964 quebra a sina. Idealizado pelo guitarrista alemão Frank Badenhop, o grupo conta a história do corsário Klaus Störtebeker, um dos mais famosos piratas teutônicos, que viveu entre os anos 1300 e 1400. Seu novo disco, Störtebeker, vem com doze músicas e traz as participações especiais de nomes como Bobby Ellsworth (Overkill), David DeFeis (Virgin Steele), John Gallagher (Raven), Chris Boltendahl (Grave Digger), Udo Dirkschneider (ex-Accept), Gerre Jeremia (Tankard), Henning Basse (Firewind) e Ronnie Romero (Rainbow), além dos guitarristas Gary Holt (Slayer, Exodus), Jeff Loomis (Nevermore, Arch Enemy), Nita Strauss (Alice Cooper), John Norum (Europe), Axel Rudi Pell, David T. Chastain e Victor Smolski (Rage). Um time de respeito, e que entrega um ótimo trabalho.

Sob a batuta de Badenhop, a banda evolui seguindo uma estrutura que vai apresentando a história, e os convidados, aos poucos. O trabalho de composição é muito bem feito e intercala excelentes faixas instrumentais entre as canções, recurso que gera interlúdios que tornam a história ainda mais forte. Em termos de estilo, o que ouvimos é um metal com os dois pés no lado mais tradicional do gênero, porém sem soar ultrapassado. Há peso, grandes riffs e agressividade, assim como momentos de velocidade e outros mais calmos. A carga dramática do álbum é impressionante e consegue transportar o ouvinte para as batalhas e confrontos vividos por Störtebeker, assim como levar aos momentos mais contemplativos do personagem principal.

Para tornar tudo ainda mais forte, a edição nacional lançada pela Hellion Records vem com um encarte com nada mais nada menos que 32 páginas que apresenta a história, traz as letras e fala sobre todo o projeto. 

Störtebeker é um lançamento inesperado, já que nunca tinha ouvido falar deste projeto e acredito que ele é desconhecido também da maioria dos leitores do site. No entanto, a qualidade final deste disco é inegável, e traz aquela ótima sensação que tanto apreciamos ao ouvir um álbum de metal que reafirma nossa crença no estilo.

19 de out de 2018

Review: Soulfly - Ritual (2018)

sexta-feira, outubro 19, 2018

Vou direto ao ponto: na minha opinião, o melhor disco do Soulfly é Enslaved (2012), onde a banda de Max Cavalera pisou fundo no peso e, com a presença do baterista David Kinkade (Borknagar), entregou o seu trabalho mais agressivo e completo. Na época, o quarteto tinha também o parceiro de sempre Marc Rizzo e o baixista Tony Campos (Fear Factory, Ministry, Asesino).

Corta pra 2018. Depois de dois discos discutíveis - o fraco Savages (2013) e Archangel (2015) -, a banda retorna ao seus melhores momentos com Ritual. O décimo-primeiro álbum do Soulfly traz a Max e Marc ao lado do baterista Zyon Cavalera (um dos filhos do ex-frontman do Sepultura e integrante do grupo desde 2012) e o baixista Mike Leon (que entrou em 2015), que faz a sua estreia em um CD do Soulfly. O play conta também com as participações especiais de Randy Blythe (vocalista do Lamb of God, em “Dead Behind the Eyes”) e Ross Dolan (vocalista do Immolation, em “Under Rapture”).

Ritual é bom porque traz o Soulfly investindo novamente em doses cavalares de peso, deixando de lado os experimentalismos que marcaram o início da carreira da banda e que volta e meia retornam. O que temos nas dez faixas do disco é um metal atual, moderno e construído com muito groove. É a receita que fez o Sepultura se destacar lá na primeira metade dos anos 1990 elevada a enésima potência, porém sem as batidas tribais e com um foco maior no lado mais extremo do metal. Além da óbvia e sempre presente influência do thrash, o disco traz canções que beiram o death e até mesmo o black metal - basta ouvir a dobradinha “The Summoning” e “Evil Empowered” para perceber isso.

Um fator determinante para o impacto está na mixagem e na produção, que deixou para trás a sonoridade mais crua dos dois álbuns anteriores - e que prejudicou Savages - e fez surgir em seu lugar uma parede sonora repleta de tons graves em uma muralha pesadíssima, onde todos os instrumentos soam bastante distintos. A evolução Zyon na bateria também é outro ponto forte, com o herdeiro de Max mostrando que a tradição da família Cavalera no metal mundial está garantida.

Com um tracklist muito bom, Ritual tem destaques individuais como a faixa-título (a única a remeter, ainda que de maneira bem sutil, aos primeiros anos da banda), a dupla de músicas com os convidados (Blythe em “Dead Behind the Eyes” e Dolan em “Under Rapture”, ambos trazendo elementos da sonoridade de suas bandas) e a dupla pancadaria de “The Summoning” e “Evil Empowered”, duas das melhores músicas já gravadas pelo quarteto. Há de se mencionar também a improvável aproximação de Max com o lado mais calmo de sua musicalidade em “Soulfly XI”, a tradicional faixa instrumental que fecha os discos do grupo. Desa vez, a banda trilha por uma espécie de jazz indígena, e o resultado é de cair o queixo.

Max Cavalera é um dos maiores e mais influentes músicos da história do metal mundial. Ainda que a sua carreira apresente períodos irregulares aqui e ali, quando o vocalista e guitarrista acerta a mão tudo ganha uma dimensão arrebatadora. Em Ritual, esse foi o caso. Discaço!

Review: Greta Van Fleet - Anthem of the Peaceful Army (2018)

sexta-feira, outubro 19, 2018

Anthem of the Peaceful Army é, provavelmente, o disco de uma banda de rock mais aguardado dos últimos anos. Álbum de estreia do quarteto norte-americano (From the Fires, que saiu o ano passado, reunia os dois primeiros EPs do grupo), o trabalho vem com onze músicas inéditas e dividirá opiniões.

A principal questão em torno do Greta Van Fleet é a semelhança, muitas vezes exagerada, com o Led Zeppelin. E isso não se dá somente pela aproximação entre o timbre do vocalista Josh Kiszka e o de Robert Plant. Ela é bastante perceptível também em outros aspectos. A abordagem do guitarrista Jake Kiszka deixa claro que ele é um grande fã de Jimmy Page. O timbre da bateria de Danny Wagner não faz questão de esconder a inspiração no do falecido John Bonham, assim como as frequentes viradas que Danny encaixa nas canções também trazem à mente a imagem do saudoso Bonzo. E o trabalho de composição é, inegavelmente, influenciado pelo Led Zeppelin.

Mas o Greta Van Fleet não se resume apenas a isso. A canção de abertura, “Age of Man”, por exemplo, aponta para um outro caminho. E ela, certamente, não foi escolhida como a primeira do disco à toa. O clima é meio gospel, transportando o ouvinte para uma igreja no meio dos Estados Unidos, sensação ampliada pelo uso certeiro do órgão. Uma balada crescente e muito bem feita, com refrão na medida para levantar estádios e que funciona como um ótimo cartão de visitas. 

Percebe-se um esforço em trilhar caminhos sonoros que diminuam a associação com o Led Zeppelin, e eles funcionam em canções como “Watching Over”, na ótima “Lover, Leaver” (uma das melhores do disco) e na linda “Brave New World”, na minha opinião a melhor música de Anthem of the Peaceful Army. No outro lado da moeda, mesmo quando não consegue dissociar-se da banda de Jimmy Page e Robert Plant, o Greta Van Fleet dá ao ouvinte ótimas canções como “The Cold Wind”, “When the Curtain Falls”, “You're the One” e “The New Day”.

No saldo geral, Anthem of the Peaceful Army é um bom disco e que mostra uma evolução em relação From the Fires. Como já dito, o Greta Van Fleet explora outras influências sonoras que deixam claro que a banda não tem apenas uma carta na manga. O caso do GVF me lembra bastante o que aconteceu com o Rival Sons, outra banda que foi bastante associada ao Led Zeppelin no início de sua carreira. Em Before the Fire (2009) e Pressure & Time (2011), o Rival Sons incomodava pela semelhança (para não dizer quase plágio) do universo sonoro do Zeppelin. Foi só a partir do seu ótimo terceiro disco, Head Down (2012), que os caras conseguiram encontrar a sua própria sonoridade, e conquistaram isso com maturidade e sem perder as influências que moldam a sua música. Essa tentativa de construção de uma identidade sonora própria é perceptível no disco de estreia do Greta Van Fleet, e aponta para que os próximos discos apresentem essa identidade de maneira mais efetiva. Ainda assim, Anthem of the Peaceful Army revela-se um álbum muito consistente e repleto de ótimas canções, algo que é muito saudável e importante para uma banda em início de carreira como o GVF.

Para concluir, deixo com vocês um pensamento: será que a associação que fazemos entre esses jovens norte-americanos e o Led Zeppelin não diz menos sobre o Greta Van Fleet e muito mais sobre o próprio Led Zeppelin e a falta que sentimos de uma banda tão mitológica e grandiosa como foi o quarteto formado por Jimmy Page, Robert Plant, John Paul Jones e John Bonham? Fico com a segunda opção.

18 de out de 2018

Review: Riot - Fire Down Under (1981)

quinta-feira, outubro 18, 2018

Uma das bandas mais influentes do metal do final dos anos 1970 e início da década de 1980 também é, paradoxalmente, uma das menos lembradas pelos “fãs" do estilo. Estou falando do quinteto norte-americano Riot, responsável por algumas pérolas lançadas naquela época e que inseriram novos ingredientes ao então cada vez mais popular som pesado.

Ainda que os dois primeiros discos da banda sejam bem legais - Rock City (1977) e Narita (1979) -, inegavelmente foi o terceiro álbum que colocou o Riot definitivamente na história. Lançado em 9 de fevereiro de 1981, Fire Down Under é, sem exagero, um dos grandes discos do metal oitentista. Em um tempo onde ainda não existiam nomes como Helloween e outras bandas que são, de maneira correta, identificadas como precursoras do power metal, o Riot trouxe a união entre um som potente e repleto de melodia com letras sobre temas tirados de histórias de fantasia, dando sequência ao que o Rainbow de Ronnie James Dio e Ritchie Blackmore havia feito em canções como “Kill the King”, por exemplo.

Fire Down Under tem dez faixas, e entre elas estão clássicos como “Swords and Tequila”, “Altar of the King” e “Outlaw", todas mostrando a afiada união entre os vocais e a interpretação inspirada de Guy Speranza e as guitarras da dupla Mark Reale e Rick Ventura - o baixista Kip Leming e o baterista Sandy Slavin completavam a banda na época.

Esse clássico do metal dos anos 1980 foi relançado no Brasil pela Hellion Records com direito a duas faixas bônus - “Struck by Lightning” e “Misty Morning Rain” - e está disponível novamente nas lojas. É uma ótima oportunidade para conhecer um excelente disco que acabou sendo injustiçado pelo tempo, ou de completar a coleção com uma das jóias da coroa. Em ambos os casos, imperdível!


17 de out de 2018

Review: Vandenberg’s Moonkings - MK II (2017)

quarta-feira, outubro 17, 2018

O guitarrista sueco Adrian Vandenberg tocou no Whitesnake entre 1985 e 1997, período no qual participou dos discos Whitesnake (1987), Slip of the Tongue (1989) e Restless Heart (1997), além do ao vivo Live at Donington 1990 (2011) e do acústico Starkers in Tokyo (1998). Ou seja, Vandenberg esteve na época de maior sucesso da banda de David Coverdale, quando o Whitesnake emplacou sucessos planetários como “Is This Love”, “Still on the Night” e “Give Me All Your Love”.

A parceria com Coverdale foi o ponto mais alto da carreira de Adrian, e o próprio músico ratifica isso com o seu novo projeto, o Vandenberg’s Moonking. A banda foi criada em 2013 e lançou dois álbuns - a estreia auto-intitulada (2014) e MK II (2017), além do acústico Rugged and Unplugged (2018). MK II está saindo agora no Brasil pela Hellion Records.

Quando eu digo que o próprio Adrian Vandenberg sabe que o ápice de sua trajetória foi ao lado de David Coverdale me refiro, não necessariamente de uma maneira elogiosa, ao que ele está fazendo no Vandenberg’s Moonkings. O grupo é praticamente uma banda cover do Whitesnake, porém com canções originais que replicam os elementos da sonoridade que levou a Cobra Branca ao estrelato mundial. O vocalista Jan Hoving possui um timbre muito semelhante ao de Coverdale, intensificando ainda mais essa sensação. 

O problema é que Vandenberg nunca foi um Mick Moody, um Bernie Marsden, um John Sykes, e isso acaba sendo um fator determinante, pois apesar de não negar a influência (ou melhor dizendo, a sombra) do Whitesnake, o Vandenberg’s Moonkings não consegue chegar ao nível da banda de ex-vocalista do Deep Purple. As doze faixas de MK II apresentam sempre elementos que remetem à sonoridade clássica de Slide It In (1984) e Whitesnake (1987), mas o trabalho de composição é bastante inferior, resultando em um disco que acaba tendo força para agradar apenas os fãs mais fanáticos e os colecionadores mais completistas, que querem possuir tudo que possui associação com o Whitesnake.

Isoladamente, as canções de MK II até funcionam. Se você ouvi-las no meio de uma playlist ou encaixadas em um bloco de uma rádio, elas passam sem problemas. Porém, o conjunto completo soa cansativo. Também não curti muito a produção, que me pareceu carecer de espectros mais graves e que preencheriam melhor as músicas. 

Entre as faixas, destaque para “Tightrope”, “All or Nothing” e “Hard Way”.

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