Mostrando postagens com marcador Review de CDs. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Review de CDs. Mostrar todas as postagens

21 de mar de 2019

Review: In Flames – I, the Mask (2019)

quinta-feira, março 21, 2019


O In Flames é uma banda controversa para uma parcela dos fãs de metal. E isso não deveria acontecer. Surgido em Gotemburgo em 1990, o quinteto foi um dos responsáveis pela popularização e pelo desenvolvimento do death metal melódico, gravando discos que são considerados arquétipos do gênero como o trio Whoracle (1997), Colony (1999) e Clayman (2000).

A discussão em torno dos caminhos musicais da banda começou em 2002, quando os caras soltaram o seu sexto álbum, Reroute to Remain. O motivo para isso foi uma mudança considerável na sonoridade dos suecos, que incorporaram outros elementos à sua música, influenciados principalmente pelo KoRn e pela cena nu metal que vinha dos Estados Unidos. Essa alteração de curso gerou admiração (em menor número) e repulsa (em sua maioria) entre o público do metal, que demorou um bom tempo para assimilar os novos caminhos sonoros trilhados pelo grupo. E esse novo direcionamento seguiu sendo desenvolvido nos discos seguintes, como os ótimos Come Clarity (2006) e A Sense of Purpose (2008) por exemplo, que mostraram a banda equilibrando as duas facetas de sua personalidade sonora.

Toda essa trajetória faz com que o In Flames seja uma formação que ainda soa diferenciada dentro do universo do heavy metal. I, the Mask, décimo-terceiro trabalho do grupo, saiu no início de março e mostra que a banda continua afiada. As doze faixas do álbum variam entre canções mais pesadas e que são verdadeiras pedradas (como o quarteto que abre o disco) e outras onde o lado mais suave do grupo assume o protagonismo, tornando a música mais acessível e amigável. Amparados por uma produção impecável assinada Howard Benson, que já trabalhou com nomes como Motörhead e Sepultura, o In Flames potencializa suas qualidades e mostra mais uma vez que é capaz de trilhar vias musicais aparentemente opostas como o mesmo domínio.

Pessoalmente, prefiro os momentos mais agressivos como os que podemos ouvir na música que batiza o CD, “Call My Name”, “I Am Above” e “Burn”, e onde é possível sentir o DNA do death melódico ainda vivo através dos duetos de guitarras, por exemplo. A parte central do disco é reservada para uma sequência de canções mais domesticadas, digamos assim, como “Follow Me”, “(This is Our) House” e  “We Will Remember”, onde o vocalista Anders Fridén deixa os vocais guturais e canta com a voz limpa, algo que tem feito ao longo dos anos.

Independentemente de qual for a sua encarnação favorita do In Flames, o novo disco dos caras entrega ótimos momentos em ambas as personificações musicais do quinteto. É ouvir e curtir.

20 de mar de 2019

Review: Children of Bodom – Hexed (2019)

quarta-feira, março 20, 2019


Foi-se o tempo em que eram necessários dias - até mesmo meses - para que o lançamento do álbum de uma banda chegasse até as mãos dos fãs mais remotos (como eu) e para que esse o replicasse entre seus amigos através de fitas k7 gravadas à mão. As formas mais primitivas de propagar o lançamento de um disco qualquer de heavy metal aos poucos foram substituídas pelo download ilegal e, mais recentemente, pelos serviços de streaming. Então, dessa vez - diferente do final dos anos 1990 - precisei apenas atualizar o feed do meu aplicativo de música para ter acesso ao novo disco de uma das minhas bandas favoritas, o Children of Bodom.

Hexed é uma gíria utilizada para descrever uma pessoa que está completamente fora de si - geralmente “induzida” por substâncias ilícitas - e dá título ao décimo álbum do quinteto finlandês conduzido por Alexi Laiho. As primeiras impressões deram-se através da arte da capa - criada por Deins Forkas - do tracklist e do primeiro single disponibilizado, a música “Under the Glass of Cover”. A canção, que também ganhou um vídeo de divulgação, apresenta uma banda com uma sonoridade mais séria e madura, mas sem o ímpeto criativo de outrora, transitando entre todas as fases do grupo, da mais melódica e virtuosa à mais
crua e moderna, agradando - ou desagradando - desde os fãs mais antigos até aqueles que surgiram após Are You Dead Yet?.

Passados mais de vinte anos do lançamento do debut Something Wild (1997), o Children of Bodom tornou-se uma vítima de algo que eles próprios criaram, e após o lançamento de seus inovadores quatro primeiros álbuns de estúdio, eles enveredaram por novos caminhos, com uma sonoridade mais direta e menos elaborada do que aquela praticada nos primeiros anos de banda, quando deram cara nova ao death metal melódico, utilizando-se de elementos não experimentados por outras bandas dessa mesma vertente.

Mais duas músicas de trabalho foram lançadas antes do disco sair em definitivo. Se “Platitudes and Barren Words” segue a mesma linha do primeiro single, “This Road” me criou algo que eu não gostaria de criar a respeito deste novo disco: expectativas. “This Road” mostra uma sonoridade mais encorpada e intrincada, com ótimos riffs e uma excelente linha de baixo, cheia de mudanças de andamento e clima. Tudo o que fez o COB virar referência naquilo que criaram está nesta canção, me tirando completamente da neutralidade pela qual eu aguardava o nascimento de Hexed.

A própria “This Road” abre o disco, seguida pela também já citada “Under Grass and Clover”. “Glass Houses” é mais direta que as anteriores, com riffs pesadíssimos e com curtíssimas intervenções melódicas e duetos de Alexi Laiho e Janne Wirman nas guitarras e teclados, lembrando pouco a principal característica que a fez conhecida, com uma roupagem mais próxima àquela praticada em discos como Relentless Reckless Forever. As quebras de ritmo ditadas pelo baterista Jaska Raatikainen são o destaque dessa faixa.

Ao iniciar “Hecate’s Nightmare” tive que verificar se meu serviço de streaming não havia me direcionado por engano para o disco The Dark Ride do Helloween, mas era de fato uma das canções de Hexed. A quarta faixa me causou uma estranheza muito grande com sua intro “dançante” e cheguei a pensar que fosse algum dos covers improváveis que o COB costuma fazer de bandas de fora da cena da música pesada. Se por um lado a banda tenta fazer algo diferente, com uma abordagem mais próxima a uma balada - dentro de suas características - como fez em “Angels Don’t Kill”, ou à músicas mais cadenciadas como em “Punch Me I Bleed”, por outro, falta espontaneidade no experimento e soa completamente forçada. De qualquer forma, a tentativa foi muito válida e pode
agradar a muitos fãs, mas a mim não convenceu e após ouvi-la a quantidade de vezes que julguei necessário para falar a respeito do disco, sempre pulo essa faixa em minhas audições.

“Kick in a Spleen” é uma porrada, com riffs e pedais duplos poderosíssimos e a mesma sonoridade moderna da fase pós Are You Dead Yet?, em alguns momentos parecendo até mesmo querer flertar com o entusiasmo e a sonoridade praticada por bandas de metalcore - não que isso seja um demérito. A música possui uma quebra de ritmo interessante, seguida de uma ótima intervenção de Janne Wirman nos teclados, mas solos pouco inspirados.
Ainda assim, é uma das melhores faixas do disco.

A já citada “Platitudes and Barren Words”, tem alguns experimentos vocais muito interessantes de Alexi e boas melodias. A canção, se não acrescenta absolutamente nada a tudo que a banda já criou, ao menos faz-se mais bem vinda que a maioria das restantes do álbum. Para essa faixa também saiu um videoclipe típico da banda, remetendo bastante, inclusive, ao clipe de “Sixpounder”.


A faixa-título beira o thrash metal em alguns momentos. Em outros, flerta com a música clássica (me remetendo muito à Something Wild) e nela sim podemos ouvir algo mais próximo daquilo que se espera de uma composição da banda. “Hexed” é a faixa mais longa e que melhor representa a sonoridade do grupo no disco em que ela carrega o nome, tornando-se minha favorita do álbum, com riffs pesadíssimos de Alexi e do estreante Daniel Freyberg e uma cozinha precisa dos sempre competentes Henkka Blacksmith e Jaska Raatikainen, dando a base necessária para os já conhecidos e tanto esperados solos e duetos frenéticos de Laiho e Wirman. Os coros do refrão também já são velhos conhecidos e, assim como soaram muito bem antigamente em “You’re Better Off Dead”, aqui se fazem poderosos e poderiam ser mais utilizados.

“Relapse - The Nature of my Crime” começa com um riff completamente heavy,
remetendo-me imediatamente ao HammerFall (vide “Hearts on Fire”) e mostrando-se uma faixa promissora, que poderia propor algo novo, mas que de tão preguiçosa, logo retoma a sonoridade das primeiras músicas do disco. Assim como em Star Wars, “Say Never Look Back” vem com “uma nova esperança”, iniciando com uma belíssimas melodias e linhas de baixo, mas também não demora a se tornar mais do mesmo, a não ser por um ou outro riffs
mais inspirados.

A essa altura, muito provavelmente quem está acompanhando esta resenha pode estar pensando que estou torcendo o bigode gratuitamente para o disco de uma banda que pouco tenho apreço, quando na verdade estou sedento por um disco impactante de uma das minhas bandas favoritas de metal. O Children of Bodom foi um dos precursores do death metal melódico e dentro deste subgênero ainda foi capaz de se reinventar, e é isso que tenho esperado há quase 15 anos. Não que tudo que tenha sido lançado neste período seja descartável, há muita coisa boa, especialmente em Bloodrunk e I Worship Chaos, mas sempre fica aquela impressão de já ter ouvido aquilo em algum
lugar.

O disco segue com a cadenciada e melodiosa “Soon Departed”, com alguns bons riffs na linha de “Everytime I Die” e “Prayer For The Afflicted”, e finaliza com “Knuckleduster”, com intervenções de Wirman que dão toques épicos à canção, mas nada que salve o álbum da mesmice. (alguém mais sentiu falta de uma música com “Bodom” no título? Elas nunca decepcionam).

Como bônus, ainda há versões ao vivo para “I Worship Caos” e “Morrigan” do disco anterior, e uma versão industrial para “Knuckleduster”, mostrando alguns dos muitos elementos modernos que vem influenciando a sonoridade da banda nos últimos anos.

Hexed é apenas mais um bom álbum do Children of Bodom, e em se tratando deles, bom não é grande coisa. De qualquer forma, tenho ouvido o álbum com frequência, buscando por nuances e elementos novos que me conquistem e, ao lançarem seu décimo primeiro disco de estúdio, lá estarei novamente aguardando não por um novo Hatebreeder ou um novo Hate Crew Deathroll, mas sim por mais um excelente trabalho de uma das bandas mais criativas no metal do final dos anos 1990, início dos 2000.


15 de mar de 2019

Review: Dream Theater – Distance Over Time (2019)

sexta-feira, março 15, 2019


Quando Mike Portnoy saiu do Dream Theater em 2010, a banda norte-americana perdeu muito mais do que o seu baterista. O quinteto ficou sem liderança, que acabou sendo absorvida pela dupla John Petrucci e Jordan Rudess. Mas, sobretudo, abriu a mão da sua alma, do ingrediente que tornava a banda mais humana e próxima do público.

Portnoy, além de um baterista fenomenal, é um fã de música. Um cara inovador e que mostrou isso após a saída do Dream Theater, aventurando-se em jornadas musicais distintas com o Adrenaline Mob, Avenged Sevenfold, Flying Colors, The Winery Dogs, Metal Allegiance, Sons of Apollo e mais uma dezena de formações. Mike Portnoy era o lado humano do Dream Theater, e isso só ficou claro após a sua saída.

Desde então, o grupo gravou quatro discos: A Dramatic Turn of Events (2011), Dream Theater (2013), The Astonishing (2016) e Distance Over Time (2019). Todos com Mike Mangini, o novo dono da bateria na principal banda de prog metal do planeta. Um cara que é irretocável tecnicamente, mas que não consegue traduzir toda a sua exuberância instrumental em algo atraente para os ouvidos. Mangini, de modo geral, é aquele tipo de baterista que funciona muito bem isoladamente, deixa todo mundo de queixo caído em vídeos no YouTube, mas que não consegue se encaixar de maneira fluída quando tem uma banda ao seu lado. Isso aconteceu em todos os discos que ele gravou com o Dream Theater. Até agora.


Distance Over Time é, facilmente, o melhor álbum do quinteto formado por James LaBrie, John Petrucci, Jordan Rudess e John Myung desde a chegada de Mangini. É um trabalho muito melhor que os anteriores, mais dinâmico e com canções que soam mais naturais, quentes e menos mecânicas que os discos anteriores, especialmente o megalomaníaco The Astonishing. E é também mais do que isso, pois não seria exagero classificá-lo como o álbum mais sólido do Dream Theater desde o pesado e sombrio Train of Thought, lançado em 2003, e que foi o último grande disco da banda com Portnoy.

O que faz de Distance Over Time um álbum tão bom é a abordagem mais direta e descomplicada das músicas. O Dream Theater não abriu mão de sua tradição prog metal, mas trabalhou a técnica muito acima da média dos músicos a favor das canções. O resultado são faixas que funcionam isoladamente, trazem bons ganchos melódicos e refrãos atrativos em faixas que são inegavelmente mais diretas. É claro que o disco tem as tradicionais canções mais longas, como é o caso de “At Wit’s End” e “Pale Blue Dot”, mas elas soam super bem resolvidas e sem momentos desnecessários e auto indulgentes, como já aconteceu em situações anteriores.

Mike Mangini soa menos amarrado, menos duro, menos robótico, conseguindo sair de seu universo essencialmente técnico e entregando uma performance que conversa e contribui decisivamente para o ótimo resultado alcançado. E os outros músicos seguem igualmente essa abordagem, fazendo com que o disco soe mais humano e próximo do ouvinte. A sensação é de estar ouvindo um álbum de prog metal que funciona e empolga como a banda já fez anteriormente em sua carreira em clássicos como Images and Words (1992), Awake (1994) e Metropolis Pt. 2: Scenes from a Memory (1999). Não estou afirmando que o Dream Theater alcançou o grau de excelência desses discos, mas a sensação que a audição do álbum proporciona é semelhante ao que esse trio nos fez sentir no passado.

Se você andava distante do Dream Theater, Distance Over Time é um bom momento para você voltar a ouvir a banda. Uma surpresa agradável está a sua espera.

O álbum está sendo lançado no Brasil pela Hellion Records em uma edição exclusiva, que pode ser adquirida aqui.


30 de jan de 2019

Review: Gov’t Mule - Revolution Come … Revolution Go (2017)

quarta-feira, janeiro 30, 2019

Salvo engano (mas acho que estou certo), Revolution Come … Revolution Go é o primeiro álbum do Gov’t Mule a ganhar uma edição nacional. E isso é, ao mesmo tempo, motivo de alegria e de tristeza. Alegria porque finalmente temos, a um preço acessível, um disco de uma das melhores bandas surgidas nas últimas décadas. E motivo de tristeza porque, mesmo tendo sido formada em 1994, contar com mais de uma dezena de álbuns e ter superado a marca de duas décadas na estrada, por qual motivo isso ainda não havia acontecido? Nem a desculpa de que o ouvinte brasileiro de rock possui um ouvido conservador e avesso à novidades é aplicável neste caso, já que a banda liderada por Warren Haynes faz um classic rock estupendo e que cai no gosto de qualquer rocker de bom gosto. Isso é muito mais um sinal do quão atrasada está a indústria musical brasileira e o quão defasados e distantes da realidade estão os caras que tomam decisões nas salas refrigeradas das gravadoras nacionais, do que qualquer outra coisa.

A responsável por esse presente para os brasileiros que curtem os bons sons é, mais uma vez, a Hellion Records, que está lançando o álbum por aqui após a representando nacional da gravadora do Gov't Mule não demonstar interesse em disponibilizar o disco no Brasil e, mesmo assim, complicar o licenciamento para outro selo. Coisas de um país onde a cultura não é prioridade, infelizmente.

Revolution Come … Revolution Go é o décimo-primeiro álbum do Gov’t Mule, foi lançado nos Estados Unidos em junho de 2017 e sua produção ficou a cargo de Warren Haynes, Gordie Johnson e Don Was. O quarteto formato por Haynes (vocal e guitarra), Danny Louis (teclado e guitarra), Jorgen Carlsson (baixo) e Matt Abts (bateria) conta com a participação de nomes como Jimmie Vaughan, Gordie Johnson e mais uma turma para transformar o disco, como de costume, em mais um trabalho consistente e de ótimo gosto.


Pra quem nunca ouviu o Gov’t Mule, a banda tem em Warren Haynes a sua figura principal. Vocalista, guitarrista e compositor, Haynes é o centro, o coração e a alma dessa banda que transita com absoluta tranquilidade por gêneros como southern rock, blues rock, hard e inesquecíveis jams. O resultado é um som cativante, que possui uma profundidade e uma riqueza musicais vindas direto das fontes que inspiram suas canções (blues, jazz, soul e toda a rica tradição sonora dos Estados Unidos). Haynes, pra quem não sabe, integrou a lendária Allman Brothers Band por um longo período - mais precisamente entre 1989 e 2014 -, e levou o Gov’t Mule em paralelo enquanto foi fundamental para manter fortemente aceso o legado da banda que foi a vida de Gregg Allman.

Musicalmente, Revolution Come … Revolution Go traz o Gov’t Mule seguindo um caminho seguro e sem maiores aventuras por outros gêneros musicais, como o que ocorreu em Mighty High (2007) e By a Thread (2009), por exemplo. O que se ouve é uma banda extremamente madura, que domina completamente a sua sonoridade e entrega composições muito bem feitas e que, invariavelmente, proporcionam uma audição emocionante.

Mais um belíssimo trabalho de Warren Haynes e companhia. E que a chegada desse disco em edição nacional proporcione o lançamento dos demais álbuns do Gov’t Mule por aqui.

29 de jan de 2019

Review: Rival Sons - Feral Roots (2019)

terça-feira, janeiro 29, 2019

Precisamos falar sobre o Rival Sons. E a conversa será bem séria. O quarteto norte-americano formado por Jay Buchanan (vocal), Scott Holiday (guitarra), Dave Beste (baixo) e Mike Miley (bateria) acaba de lançar o seu sexto disco e ele é, talvez e muito provavelmente, o seu melhor trabalho.

Feral Roots é o sucessor de Hollow Bones (2016) e inicia um novo capítulo na carreira da banda californiana. Depois de anos com a Earache Records, o grupo assinou com a Atlantic, liberando o seu primeiro trabalho por uma grande gravadora. Trabalhando mais uma vez com o produtor Dave Cobb (que assinou todos os seus discos e também álbuns de nomes como Chris Stapleton, Whiskey Myers e Europe, entre outros), o Rival Sons mostra uma evolução gigantesca em relação aos seus trabalhos anteriores. A mudança de gravadora parece marcar o fim da primeira fase da carreira dos caras, resultando em um som muito mais maduro e impressionante.

Temos onze músicas em Feral Roots. E elas trazem uma sonoridade que não esconde o quanto anda para frente em relação à tudo que o grupo gravou antes. Os ecos de Led Zeppelin ficaram nos primeiros discos. O mergulho no blues de Great Western Valkyrie (2014) e Hollow Bones também é página virada. Em certos aspectos, Feral Roots guarda semelhanças estruturais e de abordagem com Head Down (2012), terceiro álbum do grupo e responsável por mostrar ao mundo a sonoridade própria do quarteto natural de Long Beach.

A força do Rival Sons está no trio Buchanan, Holiday e Miley. O vocalista é, facilmente, uma das melhores vozes do rock contemporâneo, e já alcançou esse status há tempos. O que Jay está cantando nesse novo álbum beira o absurdo. Já Scott Holiday, que adora desfilar com suas Gibson Firebirds, é a usina criativa da banda, seja através dos seus riffs certeiros ou nos momentos em que deixa a distorção de lado e aposta em climas mais calmos e contemplativos. E Mike Miley é o mais próximo que podemos imaginar de como John Bonham soaria se ainda estivesse vivo. Miley é uma força da natureza, seja pela sua pegada pesada ou por suas viradas insanas, tudo isso turbinado por um timbre que não nega a paixão pelo legado de Bonzo.


As músicas de Feral Roots têm tudo que uma grande banda entrega aos montes, aos baldes e sem pensar muito. As composições são redondas, com dinâmicas que fluem naturalmente, pontes que levam linhas vocais já cativantes para momentos ainda mais incríveis, além de muitas outras qualidades. A maturidade que o grupo demonstra em seu novo disco é inebriante, deixando claro de onde vem as suas influências (Free, blues rock, Bad Company, um certo tempero de Aerosmith e o onipresente Led Zeppelin), mas sempre usando esses ingredientes para a construção de algo inédito, novo e da mais alta qualidade.

Feral Roots é o disco que mostra porque o Rival Sons existe. Ninguém faz um som como eles. Trata-se de um álbum de gente grande, de uma banda que nasceu com imenso potencial, soube deixar as suas qualidades ainda mais fortes e corrigir as suas deficiências até chegar a um ponto como esse, onde tudo que foi feito antes se une para dar ao mundo um disco absolutamente impressionante. Na prática, temos os músicos no auge dos seus poderes entregando composições que demonstram o quanto a banda está à frente da grande maioria de seus pares - é o caso da explosão musical de “Back in the Woods”, do gospel absolutamente tocante que toma conta de “Shooting Stars” e da música que dá nome ao álbum, todas de cair o queixo. E tudo isso sem soar pedante ou inacessível, muito pelo contrário. “Do You Worst”, por exemplo, abre o disco com um groove desconcertante e com um refrão feito sob medida para levantar estádios. Ou em “Too Bad”, onde Jay Buchanan voa alto para emocionar até o mais durão dos fãs.

O que o Rival Sons faz em pleno 2019 é mostrar que o classic rock não precisa, e não deve, viver apenas do passado. Não é preciso ouvir sempre as mesmas bandas, as mesmas músicas e nem repetir as mesmas fórmulas para que o rock permaneça vivo. Muito pelo contrário. A banda usa a sabedoria adquirida nos anos de estrada e o talento incrível que possui para olhar para o passado sem perder o foco no futuro, evoluindo a sua sonoridade sem que ela perca suas raízes, suas referências. E brinda os fãs com um trabalho que é emocionante para quem passou a vida toda ouvindo rock, acompanhou as fases pelas quais o gênero passou ao longo dos anos e agora tem, na sua geração, bem na sua frente, a oportunidade de acompanhar de perto o nascimento e o desenvolvimento de uma banda que com certeza irá se tornar uma lenda, um ícone e uma das grandes referências do estilo daqui há alguns anos. 

Chegamos a pensar que nunca experimentaríamos novamente essa sensação. O Rival Sons prova com Feral Roots que estávamos errados.

24 de jan de 2019

Review: Blackberry Smoke - Holding All the Roses (2015)

quinta-feira, janeiro 24, 2019

Holding All the Roses foi lançado originalmente em fevereiro de 2015 e é o quarto álbum do Blackberry Smoke. Mas, mais importante que isso, é o primeiro disco da banda norte-americana a ganhar uma edição nacional. A responsável por isso é a Hellion Records e o CD chega em ótima hora, já que os caras farão seus primeiros shows no Brasil em maio deste ano.

Produzido por Brendan O’Brien (Pearl Jam, Bob Dylan, Aerosmith), Holding All the Roses traz doze músicas espalhadas por pouco mais de 40 minutos. Há uma característica marcante nesse trabalho, e ela é a presença ligeiramente maior de elementos country, o que evidencia o ar caipira e agreste do som do quinteto. As canções possuem estruturas simples e vêm sempre acompanhadas de melodias marcantes, outro aspecto forte da música do grupo.

O álbum liderou a parada country da Billboard, chegou à posição 7 do chart de rock e ao número 29 do Billboard 2000. E ouvindo-o novamente passados quase quatro anos de seu lançamento, fica claro o porque dessa boa aceitação. As músicas são muito bem desenvolvidas, e isso se aplica tanto aos hits que puxaram o disco como “Let Me Help You (Find the Door)” e a música título, quanto à pequenas joias espalhadas pelo tracklist, como a singela “Too High”.

Lançado após o ótimo The Whippoorwill (2012), que muitos consideram o melhor trabalho do Blackberry Smoke, Holding All the Roses cumpriu muito bem a sua função e manteve a banda em sua escalada ascendente, que ainda deu ao mundo os sólidos Like an Arrow (2016) e Find a Light (2018). Se hoje o Blackberry Smoke é considerado o principal nome do southern rock contemporâneo, certamente esse status passa pelo ótimo resultado alcançado neste disco.

Parabéns a Hellion pelo lançamento nacional de Holding All the Roses, e desde já torcemos para que mais discos da banda saiam por aqui.

23 de jan de 2019

Review: Billy F. Gibbons - The Big Bad Blues (2018)

quarta-feira, janeiro 23, 2019

Causou estranheza quando Billy Gibbons, vocalista e guitarrista do ZZ Top, anunciou o seu primeiro disco solo, Perfectamundo, que saiu em 2015. E, ao ouvi-lo, ficou claro o motivo do lançamento: o álbum não trazia nada similar ao trio texano, mas sim uma sonoridade bastante influenciada pela música cubana, um das paixões de Gibbons, devidamente acompanhada pelo rock e pelo blues que marcaram a sua carreira.

Três anos depois, o barbudo retornou com mais um trabalho solo, e desta vez a história é diferente. Em Perfectamundo, as experimentações de Gibbons não caíram necessariamente nas graças dos fãs. Já em The Big Bad Blues, como o título deixa claro, o terreno é mais seguro. O que temos em mãos é um álbum de blues em sua essência, com Billy Gibbons acompanhado de uma senhora banda formada por Austin Hanks (guitarra), James Harman (gaita de boca), Joe Hardy (baixo) e Matt Sorum (bateria, ex-Guns N’ Roses, Velvet Revolver e The Cult). As onze músicas trazem canções originais e versões para clássicos de Muddy Waters e Bo Diddley, como a imortal “Rollin' and Tumblin’" e “Crackin' Up”.

Mas a força de The Big Bad Blues está nas canções inéditas, como “Missin' Yo’ Kissin”, que abre o play. Escrita pela esposa de Gibbons, Gilly Stillwater, ela dá o tom do que virá a seguir: músicas muito bem feitas, embebidas profundamente no DNA blueseiro do guitarrista e carregadas de um inerente sentimento de diversão. A sonoridade difere do ZZ Top - cujo mais recente disco, o ótimo La Futura, saiu em 2012 - principalmente pelo ritmo proporcionado pela dupla Joe Hardy e Matt Sorum, que produzem uma base mais solta que Dusty Hill e Frank Heard, gerando mais espaços para Gibbons voar e brincar com a sua guitarra. De modo geral, até dá para classificar The Big Bad Blues como uma espécie de álbum do ZZ Top livre do peso e do legado da lenda que se tornou o trio natural do Texas.

Confesso que me surpreendi de maneira muito positiva com esse disco. Não esperava que ele fosse tão bom e que trilhasse, de modo geral, o mesmo universo da banda principal de Billy Gibbons. Os faixas são muito bem desenvolvidas e o disco é excelente, com uma performance sem críticas a todos os músicos. A presença de James Harman dá um tempero extra à receita, realçando a alma blues de Gibbons, que está cantando com aquele timbre rouco que só anos de estrada banhados a whisky e charutos é capaz de produzir.

The Big Bad Blues está sendo lançado neste início do ano aqui no Brasil pela Hellion Records, após a gravadora do ZZ Top aqui em nosso país tropical ter ignorando sumariamente o título. Vá atrás, porque vale muito a pena.

21 de jan de 2019

Review: Arch Enemy - Covered in Blood (2019)

segunda-feira, janeiro 21, 2019

Covered in Blood é o novo lançamento da banda sueca Arch Enemy e foi lançado  dia 18 de janeiro. O material compila covers feitos pelo grupo durante toda a sua trajetória e traz 24 faixas com as vozes dos três vocalistas que passaram pela banda: Alissa White-Gluz, Angela Gossow e Johan Liiva. Essas releituras variam entre faixas incluídas em singles e edições especiais dos álbuns do quinteto, e outras inéditas e que foram gravadas especialmente para este título. A ótima notícia é que o CD está sendo lançado no Brasil pela Hellion Records.

O disco é dividido em três partes, sendo que a primeira é composta por treze músicas com a formação atual do grupo. Aqui, temos gravações fresquinhas que variam entre versões para canções conhecidas como “Shout" (Tears for Fears), “Breaking the Law” (Judas Priest) e “The Zoo” (Scorpions) e outras para nomes do underground. As mais conhecidas ganharam arranjos que as tornam bastante diferentes das originais, com os suecos adaptando as faixas para o seu próprio estilo. Essa primeira parte do disco é especialmente afiada e mostra o poderia do line-up que conta com Alissa e Jeff Loomis ao lado de Michael Amott, Sharlee D’Angelo e Daniel Erlandsson e que deu ao mundo os álbuns War Eternal (2014, onde Alissa estreou) e Will to Power (2017, debut de Loomis).

Na sequência temos sete faixas com Angela Gossow, vindas de anos atrás e presentes em b-sides e compilações anteriores. Aqui, o destaque vai para “The Book of Heavy Metal” (gravada originalmente pelo Dream Evil e que ficou sensacional), “Wings of Tomorrow”(do Europe, irreconhecível) e “Symphony of Destruction” (Megadeth). 

Fechando o pacote, quatro canções com Johan Liiva, registradas nos primeiros anos de carreira do Arch Enemy. Duas delas são do Iron Maiden - “Aces High” e “The Ides of March” -, e ganharam releituras agressivíssimas e que merecem atenção. 

De modo geral, Covered in Blood é um ótimo disco, onde as músicas mais conhecidas surpreendem pelas reinterpretações nada convencionais e onde as faixas menos populares parecem composições do próprio Arch Enemy - o melhor exemplo é a espetacular “Back to Back”, do Pretty Maids. 

Um excelente álbum, com um resultado final muito acima da média.

17 de jan de 2019

Review: Frank Jorge - Histórias Excêntricas ou Algum Tipo de Urgência (2018)

quinta-feira, janeiro 17, 2019

Entre as referências do rock gaúcho, Frank Jorge é uma das maiores. Com passagens marcantes por duas das mais lendárias bandas do Rio Grande do Sul - Os Cascavelletes e Graforréia Xilarmônica -, desde a década de 2000 o vocalista, multi-instrumentista e compositor embalou uma carreira solo que chegou ao quinto disco em 2018.

Histórias Excêntricas ou Algum Tipo de Urgência foi gravado entre outubro de 2017 e fevereiro de 2018 no Estúdio Dreher, em Porto Alegre, e tem a produção assinada por Thomas Dreher. Lançado em um lindo CD digipak pelo 180 Selo Fonográfico, o álbum vem com onze músicas, todas compostas por Frank. O cara também toca praticamente todos os instrumentos, tendo a ajuda do parceiro de Graforréia Alexandre Birck em sete faixas.

Musicalmente, o que ouvimos no CD é o rock característico de Frank Jorge, que traz muitas influências de ícones como Beatles, Stones e Jovem Guarda, além de letras muito bem escritas e melodias sempre grudentas. Esses ingredientes fazem com que o resultado seja uma audição super agradável e divertida.

Uma curiosidade: o álbum é o sucessor de Escorrega Mil Vai Três Sobre Sete (2016) e teve o seu processo de composição iniciado uma semana após Frank abrir o show de Paul McCartney em Porto Alegre, em 2017. A experiência com o Beatle fez muito bem ao músico, que mostra grande inspiração em músicas muito bem resolvidas e com o típico tempero dos anos 1960.

Se você procura um álbum de rock honesto e despretensioso, bem gravado e com excelentes músicas, está aqui uma ótimo exemplo.

16 de jan de 2019

Review: Prophets of Rage - Prophets of Rage (2017)

quarta-feira, janeiro 16, 2019

O Prophets of Rage é a união dos instrumentistas do Rage Against the Machine - o guitarrista Tom Morello, o baixista Tim Commerford e o baterista Brad Wilk - com os rappers B-Real (do Cypress Hill) e Chuck D (do Public Enamy), mais o DJ Lord (também do Public Enemy). Ou seja: sai o discurso de Zack de la Rocha e entra a poesia igualmente contestadora de Chuck e Real. Musicalmente, o que sai das caixas é a sonoridade de uma das mais importantes e originais bandas dos anos 1990 turbinada pelos versos de duas das das mais lendárias vozes do rap.

Logicamente, tudo isso faz com que o auto-intitulado primeiro disco da banda tenha a política como tema principal das letras, ainda mais por ter sido lançado em 2017, logo após a eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos. O álbum, que foi ignorado pelas gravadoras brasileiras, finalmente está chegando ao mercado nacional em uma iniciativa digna de elogios da Hellion Records, que foi atrás de um título que a representando brasileira da Fantasy Records não teve interesse em disponibilizar por aqui.

O CD vem com doze faixas e foi produzido por Brendan O’Brien (Pearl Jam, Bob Dylan, AC/DC). Há momentos em que a herança do Rage Against the Machine ganha destaque, como em “Living on the 110”, e outros onde a banda parece querer fugir da identidade sonora de outrora. Isso faz com que algumas canções acabem perdendo força e vaguem por um caminho sem muito foco, como fica claro no trio de faixas que abre o disco - “Radical Eyes”, “Unfuck the World” e “Legalize Me”. Essas faixas não trazem a raiva e a indignação nas interpretações vocais que se esperaria de uma união entre forças artísticas tão provocadoras.

Muito dessa sensação vem da abordagem que Morello adotou na guitarra. Ele não utiliza as notas marcantes dos tempos do RATM, onde a sua guitarra era quase percussiva e os acordes despejavam uma espécie de rap faiscante, e tampouco trilha caminho semelhante ao Audioslave, onde alternou momentos de peso explosivo com outros de puro lirismo. É louvável, e perfeitamente entendível, que um instrumentista do calibre de Morello não queira se repetir, no entanto a maneira como ele coloca a sua guitarra na maioria das canções deste primeiro álbum do Prophets of Rage deixa a sensação de que a coisa poderia render muito mais do que efetivamente rendeu.

Independente desses aspectos, o fato é que trata-se de um trabalho marcante e até mesmo histórico por reunir músicos que sempre tiveram um discurso semelhante e que aqui juntaram forças para expressar o que sentem em relação ao momento atual do mundo.

15 de jan de 2019

Review: Vakan - Vagabond (2018)

terça-feira, janeiro 15, 2019

Vagabond é o disco de estreia da banda gaúcha Vakan, e foi disponibilizado nos apps de streaming em 2018, ganhando versão física em CD no final do ano. O álbum é o sucessor do EP Freeze! (2012) e chega para apresentar o quarteto natural de Santa Maria para todo o Brasil.

Formado por Matheus Oliveira (vocal), Alexandre Marinho (guitarra), Natanael Couto (baixo) e Lucas Oliveira (bateria), o Vakan executa um power metal que tem como principais referências nomes como Iron Maiden, Helloween e Angra. O diferencial da banda está na inserção de elementos da música tradicional gaúcha ao peso do heavy metal, gerando assim um aspecto étnico e folk que dá um gosto todo especial ao seu som.


Vagabond vem com 13 faixas, sendo que algumas delas funcionam como interlúdios. A produção é super bem feita e ressalta o bom trabalho de todos os integrantes. A banda varia entre canções que são mais focadas no power metal tradicional como “Beyond Makind”, “Russian Roulette” e “Euphoria”, e outras onde traz para a ordem do dia as já citadas influências de música gaúcha. É nesse segundo momento que o álbum ganha força e apresenta ao ouvinte algo praticamente inédito. Que fique claro: as músicas com a pegada mais tradicional são boas e bem executadas, porém não trazem praticamente nada que já não tenha sido feito antes. Mas quando mergulha nas raízes da cultura musical do Rio Grande do Sul, daí sim o Vakan encontra um som próprio e que constrói a personalidade de sua música.

Destaques para a parte final do disco, a partir da curta instrumental “Interlude: Eremita”, onde temos sete faixas em que o metal caminha lado a lado com a música tradicionalista, rendendo belíssimos momentos, com destaque para a ótima “Presumption of Guilt”. 

Vagabond é uma boa estreia, que mostra uma banda com talento, grande potencial e ótimas ideias. O tempo de estrada deve tornar a sonoridade do Vakan ainda mais forte e azeitada, com o desenvolvimento mais profundo dos dois aspectos de sua música, gerando assim um caminho ao mesmo tempo original e cativante.

11 de jan de 2019

Review: Steve Perry - Traces (2018)

sexta-feira, janeiro 11, 2019

Steve Perry foi vocalista do Journey por 21 anos, permanecendo na banda entre 1977 e 1998. É a sua voz que está eternizada nos maiores clássicos da banda norte-americana, como os álbuns Infinity (1978), Evolution (1979), Escape (1981) e Frontiers (1983), de onde vieram clássicos do porte de “Don't Stop Believin’”, “Any Way You Want It” e “Separate Ways (Worlds Apart)”. Perry lançou dois álbuns solo - Street Talk (1984, quando ele ainda era o frontman do Journey) e For the Love of Strange Medicine (1994, já fora do grupo), e então entrou em um hiato de quase 25 anos sem material inédito.

Esse período foi encerrado em 2018 com o lançamento de Traces, seu primeiro disco em mais de duas décadas. Produzido pelo próprio vocalista em parceria com Thom Flowers, o álbum foi lançado no início de outubro pela Fantasy e ganhou uma edição nacional pelas mãos da Hellion Records. A recepção do público foi entusiasmada, levando o trabalho ao top 10 da Billboard.

Musicalmente, o que temos é um disco que não traz a sonoridade que consagrou Steve Perry no Journey. Não temos nas dez músicas de Traces o hard rock/AOR que conduziu o Journey ao topo das paradas. Em seu lugar surge um pop adulto, com sutis pitadas de rock, e que na maior parte do tempo toma forma através de canções com andamento mais lento e um tanto contemplativas. Momentos mais agitados são raros, como na música que abre o play, “No Erasin’”. Essa escolha pode desagradar alguns fãs, porém quem acompanha a carreira de Perry há anos sabe que não tem nada estranho nas faixas que estão no disco e que elas são coerentes com a sua trajetória musical. 

É preciso destacar que o álbum possui um excelente trabalho de composição, entrega melodias agradáveis a todo momento e traz Perry cantando de maneira excelente, além de contar com uma excepcional banda de apoio que tem como destaque o baterista Vinnie Colaiuta e o tecladista Dallas Kruse. E, pra fechar o pacto, o disco ainda traz uma versão para “I Need You”, dos Beatles, que foi devidamente desconstruída e ganhou uma roupagem surpreendente.

A edição da Hellion Records vem com um longo encarte e todas as letras, respeitando o formado original do trabalho e os fãs de Perry.

Um belo disco, vale a pena.

27 de nov de 2018

Review: Baco Exu do Blues - Bluesman (2018)

terça-feira, novembro 27, 2018

Já há alguns anos, duas coisas estão bem claras na música brasileira. Enquanto o rock BR se afastou de questões sociais, se distanciou das ruas e se transformou, de modo geral, em um gênero que deixou a atitude, as letras críticas e o discurso contestador para trás, todas esses ingredientes foram com mala e cuia para o rap. Desde o surgimento dos Racionais MC’s lá nos anos 1990, gradativamente tivemos cada vez menos Cazuzas e Renatos Russos e ganhamos a presença cada vez mais forte de Manos Browns. E isso diz muito sobre o país em que vivemos.

Assim como Criolo, Emicida e Rincon Sapiência lançaram discos incríveis nos últimos anos, cada um à sua maneira unindo a poesia com inspiração nos fatos do cotidiano e uma amálgama musical particular, Baco Exu do Blues dá sequência ao baile. Natural da Bahia, terra fértil em referências musicais, Baco lançou dia 23 de novembro o seu segundo álbum, Bluesman - o primeiro, Esú, saiu no ano passado.

Em pouco mais de 30 minutos, temos nove faixas que estão entre os momentos mais criativos e trazem algumas das letras mais bacanas que a música brasileira ouviu nos últimos anos. Baco bebe na música do mundo, iniciando o álbum com um sample da clássica “Mannish Boy”, de Muddy Waters, e um discurso claríssimo na excelente música que dá nome ao disco: "Eu sou o primeiro ritmo a formar pretos ricos / O primeiro ritmo que tornou pretos livres / Anel no dedo em cada um dos cinco / Vento na minha cara eu me sinto vivo / A partir de agora considero tudo blues / O samba é blues, o rock é blues, o jazz é blues / O funk é blues, o soul é blues / Eu sou Exu do Blues / Tudo que quando era preto era do demônio / E depois virou branco e foi aceito eu vou chamar de blues / É isso, entenda / Jesus é blues / Falei mermo”.

Musicalmente, o disco bebe predominantemente no rap com toques de rhythm & blues, mas insere ingredientes de rock, funk, soul, jazz e o que mais der na telha, resultando em uma salada sonora que casa perfeitamente com as letras. Seu universo vai muito além das fronteiras, como deixa claro em “Me Desculpa Jay Z”, “Kanye West da Bahia” e “BB King”. Baco usa a tradição e a história do blues como fio condutor e pano de fundo para contar a sua própria história, tudo isso através de um hip hop inteligente e que não se furta de dizer o que precisa ser dito.

Bluesman nasce com cara de clássico. Em um tempo onde tudo, eu sei, é apontado como clássico. Porém, a qualidade do trabalho de Baco Exu do Blues tem tudo para tornar esse seu segundo álbum perene e eterno. Como o blues. Como a música. Como a música negra.

Afinal, como ele próprio canta: "Jerusalém que se foda, eu tô à procura de Wakanda”.

20 de nov de 2018

Review: Holocaust - The Nightcomers (1981)

terça-feira, novembro 20, 2018

A New Wave of British Heavy Metal é um dos movimentos (ou cena, chame como quiser) mais apreciados pelos fãs de metal. Além de dar ao mundo um gigante do porte do Iron Maiden, a nova onda do metal britânico, que surgiu entre o final dos anos 1970 e o início dos anos 1980, veio carregada de nomes ótimos e que acabaram ficando pelo caminho por uma série de fatores. Muitas dessas bandas que não chegaram lá ganharam o status de cult. É o caso do Holocaust.

Particularmente, o que eu mais gosto na NWOBHM é a união entre peso e melodia. Essa mistura fez a minha cabeça desde o início, há décadas atrás, quando eu ainda era um adolescente e tinha cabelos a mais e kilos a menos. E ela é encontrada em profusão em The Nightcomers, disco de estreia do Holocaust que a Hellion Records acaba de relançar no Brasil com nada mais nada menos que 9 faixas bônus!

Mesmo sendo natural de Edimburgo, capital da Escócia, o Holocaust esteve desde o início associado com a NWOBHM. A banda foi formada em 1977 e lançou The Nightcomers em abril de 1981. O que temos aqui é um metal tradicional, bons riffs, linhas vocais cheias de melodia e refrãos fortes - tudo como manda o figurino.

O bom trabalho de composição, aliado à remasterização realizada em 2003 pela Castle/Sanctuary, torna a audição muito gratificante. Você se sente desbravando uma joia desconhecida, um verdadeiro tesouro sonoro, o qual apenas poucos aficcionados conhecem. O debut do Holocaust, no saldo geral, é um disco extremamente sólido e que traz canções excelentes como a clássica “Heavy Metal Mania”, que chegou a virar hit na época.

Em suma: uma verdadeira pérola do metal britânico dos anos 1980 disponível novamente no Brasil. Não dá pra passar batido!



19 de nov de 2018

Review: G.B.H. - A Fridge Too Far (1989)

segunda-feira, novembro 19, 2018

Uma das mais influentes bandas do punk inglês, o G.B.H. é idolatrado em todo o mundo e não é diferente aqui no Brasil. A cena punk de São Paulo nos anos 1980 tinha o grupo liderado pelo vocalista Colin Abrahall como uma de suas principais referências. E a amizade de bandas como o Ratos de Portão com o Sepultura, por exemplo, levou o G.B.H. até o universo da família Cavalera, com o grupo inglês fazendo a cabeça também de Max e Iggor.

Este primeiro parágrafo foi só pra mostrar, rapidamente, o impacto do quarteto por aqui. E histórias semelhantes aconteceram mundo afora. Nascida na cena street punk do final dos anos 1970, o G,B.H. é natural de Birmingham e influenciou não apenas todo o punk e hardcore que veio depois, como também teve suas ideias absorvidas por ícones do metal extremo como o Bathory, por exemplo.

O quinto álbum do grupo está sendo relançado no Brasil pela Hellion Records e é uma boa oportunidade para aqueles que nunca bateram cabeça ou entraram em uma roda de pogo ao som do G.B.H. conhecerem o som dos caras. A edição nacional vem com encarte com letras e pôster, um atrativo a mais para os colecionadores

A Fridge Too Far saiu originalmente em em 1989 e traz os ingleses já flertando abertamente com o crossover, equilibrando faixas mais punk das antigas com outras onde a influência de metal dá as caras. Há um híbrido metal/punk permeando todo o disco, que conta com canções rápidas e com doses de melodia até então inéditas na carreira da banda.

Trata-se de um registro histórico e que cai como uma luva na coleção de quem se interessa por música agressiva e pesada. Se é o seu caso - como é o meu, diga-se de passagem -, trata-se de um item imperdível.



13 de nov de 2018

Review: For All We Know - Take Me Home (2017)

terça-feira, novembro 13, 2018

O For All We Know é o projeto solo de Ruud Jolie, guitarrista do Within Temptation e também do tributo Maiden United, que faz versões acústicas para canções do Iron Maiden. Porém, não há nada do metal sinfônico da sua banda principal por aqui. Como em todo projeto paralelo que se preze a ideia é explorar e apresentar outra faceta do músico, o que no caso do For All We Know é traduzido em um prog metal com um fortíssimo acento pop.

Take Me Home é o segundo disco do For All We Know, e sucede a estreia lançada em 2011. O line-up foi mantido de um álbum para o outro: - Jermain Van Der Bogt (vocal), Ruud Jolie (guitarra e teclado), Thijs Schrijnemakers (teclado Hammond), Marco Kuypers (teclado Rhodes, Wurlitzer e piano), Kristoffer Gildenlöw (baixo, ex-Pain of Salvation) e Leo Margarit (bateria, Pain of Salvation). A produção ficou a cardo de Jolie.

São ao todo treze faixas, todas elas com doses generosas de melodia e que levam, em certos momentos, a música do grupo para um lugar bem próximo ao AOR e ao melodic rock. Tudo é bem “radio friendly”, como gostam de falar os críticos norte-americanos e ingleses, porém feito com extremo bom gosto. As canções são bem arranjadas e desenvolvidas, e há um cuidado e uma atenção especiais envolvendo tudo que envolve o disco.

O resultado é uma audição agradável que faz uma boa companhia para o ouvinte e ainda proporciona belos momentos como o hard pop que batiza o disco, a linda “Let Me Fly”, “The Big Wheel”, a participação de Anekke Van Giersbergen em “We Are the Light” e o prog de “Prophets in Disguise”.

Não vai mudar o mundo. Mas, na boa, nem precisa.



Review: English Dogs - Forward Into Battle (1985)

terça-feira, novembro 13, 2018

Uma das pioneiras do crossover, a união entre o punk e o heavy metal, a banda britânica English Dogs tem um de seus trabalhos mais clássicos lançados no Brasil. Segundo disco do grupo, Forward Into Battle está sendo lançado por aqui pela Hellion Records em uma edição que vem com encarte com as letras e um pôster.

O álbum saiu em 1985 e suas dez faixas ditaram caminhos para os futuros exploradores do crossover. A banda soube como equilibrar características de ambos os gêneros musicais, que naquela época eram vistos como antagônicos e até mesmo rivais pelos fãs. O resultado é um disco que ainda soa atual, mesmo passados mais de trinta anos de sua gravação.

Se você se interessa pela história e pelo desenvolvimento da música pesada, Forward Into Battle é um item muito bem-vindo em sua coleção.



9 de nov de 2018

Review: The Struts - Young & Dangerous (2018)

sexta-feira, novembro 09, 2018

O rock já não tem aquela mesma relevância dentro do mainstream como acontecia há décadas atrás, mas sempre nos deparamos com coisas legais, como o Greta Van Fleet encarnando o espírito zeppeliniano em suas canções ou até mesmo o Ghost, com seu teatro em doses encorpadas de Black Sabbath e Blue Öyster Cult. Por sua vez, outra banda chama a atenção em seu mais novo lançamento: The Struts.

Formada em 2009, na cidade de Derbyshire, na Inglaterra, o The Struts vem conquistando fãs com seu glam rock revival misturado com indie pop, que remete a nomes como Queen, T. Rex e até aos Rolling Stones. Em seu segundo disco, Young & Dangerous, lançado no dia 26 de outubro pela Intescope, o grupo mantém o glam pop que os consagrou no álbum anterior (Everybody Wants, de 2016), só que ainda mais ousado, diga-se de passagem, ao flertar mais com o glam ao estilo Queen e avançar em outras searas como o rap, na faixa "Bulletproof Baby".

Os destaques são os singles "Body Talks” - que possui duas versões: uma com a banda e a outra com a participação da cantora pop Kesha -, "Primadonna Like Me" - que mantém o clima festeiro do disco anterior chamando o ouvinte imediatamente para a pista - e "Fire", faixa que considero uma das melhores do disco, em que o vocalista Luke Spiller, com seu timbre de voz semelhante ao de Freddie Mercury, deposita o espírito juvenil da banda numa mistura de Queen, The Killers e The Darkness. 

Vamos levar em consideração que vemos um Luke Spiller mais solto e virtuoso, em canções como "Fire" e "Tatler Magazine", no qual o The Struts apresenta sinais de comparações com o Queen, principalmente por sua voz e vigor, tanto nas músicas quanto em suas apresentações ao vivo – basta ver alguns de seus shows no YouTube. O fato de fixarem residência nos Estados Unidos, a mudança de gravadora e uma turnê com o Foo Fighters promovendo seu novo disco são sinais de que a banda está no caminho certo e conquistando cada vez mais fãs. 

O que vale a pena ser considerado é que o The Struts repete a fórmula festeira e pop do disco anterior, mas arrisca mais ao beber da fonte de seus ídolos, como (o muitas vezes citado neste texto, e não por acaso) Queen - presente em muitas faixas do disco -, David Bowie e até Elton John. Se você não para de escutar Greta Van Fleet por lembrar de imediato do Led Zeppelin, certamente o Queen não vai sair da sua cabeça ao ouvir The Struts em seu playlist.

Afinal, ser jovem e perigoso em início de carreira nunca é demais.

Por Renan Esteves

8 de nov de 2018

Review: The Baggios - Vulcão (2018)

quinta-feira, novembro 08, 2018

Vulcão é o quarto álbum da banda sergipana The Baggios e completa o quarteto formado pela estreia auto-intitulada (2011), Sina (2013) e Brutown (2016). O disco traz também uma mudança na formação do agora trio, com a efetivação do baixista e tecladista Rafael Ramos, que já havia participado do trabalho anterior e passou a ser um integrante oficial do grupo. Completam o time o vocalista e guitarrista Júlio Andrade e o baterista Gabriel Perninha.

O que temos em Vulcão é um disco de rock brasileiro na mais pura concepção da palavra, no sentido de que um álbum com a sonoridade encontrada aqui só poderia vir de uma banda natural do Brasil. Ao lado das influências de rock e blues que acompanham o The Baggios desde sempre, encontramos também sons regionais nordestinos, marchinhas de carnaval, repente, MPB, hip hop e o que mais surgir na musicalidade inquieta do trio. Se é possível sentir a presença de Jimmy Page no violão que abre “Em Si Menor”, na mesma intensidade também está ali Jorge Ben mostrando a sua sombra em “Espada de São Jorge”.

Em relação ao excelente Brutown, que foi um disco mais focado em guitarras e colocou pra fora com força total a admiração dos caras pelo rock dos anos 1970, em Vulcão a banda dá uma guinada em sua sonoridade e apresenta muito mais elementos de música brasileira, bebendo sem medo nas suas raízes regionais. Os arranjos de metais e as orquestrações presentes em todo o disco são fundamentais neste aspecto, dando muito mais profundidade ao som do The Baggios, que já era algo impressionante antes disso. A banda segue sendo guiada pela guitarra e violão de Júlio, que funciona como uma espécie de maestro para a sonoridade que é apresentada, conduzindo o grupo por caminhos invariavelmente deliciosos.

Há ao menos dois momentos sublimes em Vulcão. O primeiro é “Deserto”, uma espécie de marchinha rock and roll que desemboca em um rap com a participação do Baiana System. E o resultado é incrível e traz saudade, veja só, do imortal Chico Science. Um exemplo perfeito de como a música do The Baggios não possui limites.

O segundo é “Espada de São Jorge”, uma blues tropical que começa com um violão meio Jorge Ben e se transforma em um blues torto e atravessado que de repente vira tipo um reggae, com direito a metais e um trabalho de guitarra ótimo de Andrade.

Mas é claro que não é só isso. O disco traz um desfile de ótimas músicas como “Louva-Deus”, “Caldeirão das Bruxas” e “Vermelho-Rubi”, e sua parte final ainda realça o lado mais contemplativo da banda com uma sequência de faixas que é de uma poesia e de um lirismo tocantes: de “Samsara" ao encerramento com a música que dá nome ao álbum, é só emoção em uma espécie de suíte temática.

Outra vez, o The Baggios mostra que, se há bandas superiores ou no mesmo nível que eles aqui no Brasil, elas são poucas. Bem poucas, pra falar a verdade. 

Review: Paradise Lost - Gothic (1991)

quinta-feira, novembro 08, 2018

Gothic é o segundo álbum do Paradise Lost e foi lançado em 19 de março de 1991. E agora volta ao mercado brasileiro em uma nova edição disponibilizada pela Hellion Records, com direito a duas faixas bônus e um DVD chamado The Lost Tapes, com a íntegra de um show realizado durante a turnê de lançamento. Esta é a mesma versão que foi relançada no mercado europeu em 2008, e vem com o som remasterizado.

Foi em Gothic que o Paradise Lost começou a apresentar a sua personalidade sonora. O disco trouxe a banda inglesa unindo de maneira indivisível o metal e o gótico, e criando, por consequência, um novo gênero. A predominância de melodias sombras, intensificadas por teclados e orquestrações bem encaixadas, deu um tremendo toque de originalidade para a música do grupo. As guitarras na cara, despejando riffs e trazendo influência gigantesca do Black Sabbath e até mesmo do heavy metal tradicional, complementam a mistura.

O destaque de Gothic é, entretanto, Nick Holmes. O trabalho que o vocalista faz nas dez canções do disco é exemplar. Seu timbre gutural tem uma profundidade rara, e Holmes consegue imprimir interpretações teatrais que colocam as faixas, invariavelmente, em outro nível.

Gothic é apontado, com justiça, como um dos álbuns mais influentes do metal dos anos 1990. Não à toa, a revista norte-americana Decibel incluiu o disco no seu Hall of Fame, dedicado a elencar os mais importantes álbuns da história do metal extremo. Gothic está lá, ao lado de clássicos incontestáveis como ele: Reign in Blood, Slaughter of Souls, Roots, In the Nightside of Eclipse e outros.

Se você ainda não tem, tenha!

ONLINE

TODO MUNDO

PESQUISE