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22 de fev de 2017

Review: Edenbridge - The Great Momentum (2017)

quarta-feira, fevereiro 22, 2017

O nono álbum da banda austríaca de metal sinfônico Edenbridge, The Great Momentum, foi lançado com a excelência do selo Lanvall de qualidade. Posso estar enganado, mais o multi-instrumentista Lanvall (pianista, guitarrista, baixista, violinista e sabe-se mais lá o quê) deve ter sido aquele menino que passou a infância ouvindo e estudando música clássica, jazz e tinha um poster do Iron Maiden na parede do quarto.

Lanvall faz do seu Edenbridge um daqueles tipos de sons que dá vontade de ouvir sem cansar, onde todo o peso colocado nas canções é sempre meticulosamente equilibrado com a melodia e harmonia, sem tirar nem por. Aqui nem um som é em vão, não há nenhuma "barulheira" nem "gritaria", tudo é muito bem composto, arranjado por ele e entoado e cantado pela regularíssima vocalista Sabine Edelsbacher, uma daquelas cantoras que com seu timbre aveludado na nota alta e na baixa nos despertam a vontade de ouvi-las cantar da noite até amanhecer o dia.

E assim é o álbum The Great Momentum já na primeira canção "Shiantara", aquela música certeira, para abrir o disco sem erro. Na segunda, "The Die Is Not Cast", a coisa pesa um pouco mais, mas não menos elaborada, com Lanvall aplicando bons acordes de violão no seu decorrer.

Como nada ou quase nada é perfeito, a terceira música, "The Moment is Now", é o ponto fraco deste trabalho. Não que seja uma música ruim, mas fica aquém do todo, talvez Lanvall estivesse com sono ou cansado ao compô-la, fazendo uma água com açúcar dispensável e infelizmente foi um susto quando justamente essa música deu vida a um videoclipe ainda nesta semana. Felizmente todas as outras canções são bem melhores.

A quarta faixa é uma música lenta belíssima, na qual Sabine ganha a companhia ao microfone do cantor  Erik Martesson, da banda sueca Eclipse, com Lanvall novamente abusando de seus rebuscados arranjos ao piano guitarra e violão. Sequenciando, "The Visitor" nos traz uma canção mais rápida e com bela vocalização de Sabine e um marcante coral. A próxima, "Return To Grace" é a maior pancada do disco, aqui a dupla Lanvall e Dominik Sebastien discorrem suas habilidades como exímios guitarristas.

Seguindo com "Only a Whiff Of Life", predominantemente voz e piano, um duo que dá extremamente certo no Edenbridge, com Sabine e Lanvall, a exemplo do que fizeram no projeto de ambos "Voiciano".

O seguimento final é a parte mais sinfõnica propriamente dita deste álbum e que nos traz as duas mais longas músicas. A penúltima, "A Turnaround in Art", se inicia com um riff imponente temperado com a orquestração, desembocando na voz de Sabine, que entoa uma melodia inebriante e bonita. Aqui o peso e o lírico casam perfeitamente.

A canção "The Greatest Gift of All" é a mais longa de todas e fecha a obra magistralmente, fazendo a linha de "Arcana", clássico do grupo do álbum homônimo de 2001. Esta é uma canção completa, com todos os bons elementos inerentes ao Edenbridge, o belo canto de Edelsbacher, a orchestração impecável e as inúmeras váriações de andamento que Lanvall sabe fazer como ninguém.

Concluindo, The Great Monentum é, acima de um ótimo álbum de symphonic metal, um disco de música de alta qualidade.

Lanvall não erra, apenas comete pecadilhos (tais como a terceira faixa).


Por André Floyd, da Confraria FloydStock

15 de fev de 2017

Review: Nick Lera - Nick Lera III (2017)

quarta-feira, fevereiro 15, 2017

Ao pensarmos no rock gaúcho, os primeiros nomes que surgem são Engenheiros do Hawaii, Garotos da Rua, DeFalla, Replicantes e alguns outros que vieram na segunda geração de bandas reveladas pelo estado e que conquistaram o Brasil - pega aí: Nenhum de Nós, Papas da Língua, Acústicos & Valvulados, Júpiter Maçã e Cachorro Grande.

No entanto, ao mensurar a influência que a geração de bandas surgida nos anos 1980 teve sobre a maneira de se fazer rock and roll no Rio Grande do Sul, uma banda está no topo e até hoje serve de referência maior pra todo mundo: o TNT. Formada em Porto Alegre em 1984 e contando com músicos como Charles Master (vocal e guitarra), Luís Henrique “Tchê" Gomes (guitarra), Márcio Petracco (guitarra), Felipe Jotz (bateria), Flávio Basso (vocal e guitarra,  futuro Júpiter Maçã), Nei Van Soria (guitarra) e outros, o quarteto construiu todos os arquétipos que são associados até hoje com o rock vindo do sul. Canções com estrutura básica, grande influência de rock inglês, refrãos fortes, o riff de guitarra como eixo principal, letras diretas e descomplicadas e inspiração clara em nomes como Beatles, Rolling Stones, The Who, The Kinks e toda a turma responsável pela invasão britânica de meados da década de 1960.

Esse legado é levado adiante por bandas como o Nick Lera. O trio formado por Fernando K. B. Lera (guitarra e vocal), Matheus Signor (baixo e vocal) e Mateus Spada (bateria e vocal) chega ao seu terceiro disco mantendo o melhor de sua identidade, mas também arriscando em novos caminhos sonoros. As dez faixas do trabalho trazem os integrantes se revezando nos vocais principais, ainda que o predomínio seja de Fernando na maioria das faixas. O rock direto e contagiante na linha de TNT dá o tom na maioria das canções, que trazem letras que falam principalmente sobre relacionamentos. Com essa pegada, os destaques vão para a grudenta “Vai Embora”, a melodia fácil de “Todas as Noites”, “O Meu Lugar” e “Hey Man”.


Como já havia feito no disco anterior, a banda varia o tom ao apostar em baladas bem construídas e que exploram uma ar mais contemplativo, como podemos ouvir na dobradinha “Sem Você” e “A Sua Ausência”. E ainda temos “Tão Feio”, que trilha as estradas do country rock com influência direta dos Cowboys Espirituais (não por acaso, liderada pelo ex-TNT Márcio Petracco).

Gostei muito do contraste entre as vozes de Fernando e Mateus. Enquanto o guitarrista segue mostrando diferentes nuances de seu timbre, o baterista conseguiu incluir uma dinâmica muito interessante com a sua voz, que possui um tom mais alto e vem com uma interpretação forte e com personalidade.

Ainda que pequenas variações na produção e nos timbres dos instrumentos sejam percebidos em uma ou outra faixa, Nick Lera III mostra uma banda seguindo atrás do seu sonho. Em um mundo que a cada dia exige mais de cada um de nós e em troca vai comendo o aspecto lúdico e sonhador tão fundamental para seguirmos em frente, ver o esforço de uma banda como Nick Lera em acreditar no seu propósito mesmo estando longe demais das capitais é inspirador. 

Rock direto ao ponto, honesto e verdadeiro: para alguns isto pode soar fora de moda, mas basta ouvir este novo álbum do Nick Lera para vermos o quanto ele ainda faz uma diferença danada em nossas vidas.


9 de fev de 2017

Review: Amaro Freitas - Sangue Negro (2016)

quinta-feira, fevereiro 09, 2017

Rompendo com a toada do lugar comum de tentar traduzir a música popular pelo viés erudito, pianista pernambucano propõe em Sangue Negro, seu disco de estreia, uma inversão de diretrizes, orientando o erudito através do popular

Para se perpetuar, a tradição acaba, repetidas vezes, por assimilar a modernidade, incorporando elementos contemporâneos ao legado histórico da cultura já produzida. O intento é o de promover uma ruptura com os aspectos obsoletos desta, tornando o tradicional coerente e passível de compreensão para as novas gerações. Isto, porém, nunca foi trabalho fácil, ou mesmo frutífero, não importa a esfera, seja na social ou na artística.

Caso icônico é o do desbunde do southern rock nos fins da década de 1960 e início da década de 1970. Um dos mais interessantes fenômenos culturais de sua época, o rock sulista norte-americano surgiu buscando uma interface entre a celebração e o respeito ao tradicional e a assimilação aos avanços progressistas conquistados no âmbito social, lançando fora os ranços do racismo e da homofobia, por exemplo, enquanto que no campo sonoro absorvia, sem preconceito, as inovações musicais vigorosas propostas à época. Nascia então, uma novíssima e exclamativa geração, orgulhosa de sua própria história, mas que mantinha-se crítica quanto aos aspectos vis desta. Uma geração que cultuava o que de glorioso havia em seu passado, enquanto buscava limar seus contornos infames.

No Brasil, o surgimento da bossa nova, o samba "maculado" pelo jazz nos anos 1950 e 1960 e de toda a leva de nordestinos malucos que durante a década de 1970 resgataram a magia e o mistério da música, poesia, estética e folclore nativos, ligando-os diretamente e bem alto no amplificador e filtrando-os no vigor viril do rock, são também modelos mais que notáveis e bem-sucedidos do duro empreendimento que é levar o passado de volta ao futuro.

Tempo presente. Apesar de ser nordestino, meu interesse pela música regional de minha região natal floresceu apenas tardiamente e de maneira quase casual. Explico. Ganhando de surpresa a tarde livre, pus-me a vaguear pelo meu amadíssimo Recife Antigo (bairro da capital pernambucana e principal centro histórico desta). Por ocasião de estar exatamente pelas redondezas da Praça do Arsenal, lembrei-me de um espaço de que muito me haviam falado e cuja localização era precisamente em frente a esta praça: o museu Paço do Frevo, que como o nome dá a indicar, é dedicado à preservação e difusão deste importantíssimo monumento cultural. Fui conhecer o espaço e através de seu rico acervo audiovisual, musical e literário, adquiri um vislumbre muitíssimo mais amplo não apenas no tocante ao frevo, como também a tudo que está relacionado a manifestações culturais populares, música regional e expressões artísticas nativas.

Tive ainda o prazer de naquela tarde da graça assistir a deliciosos números instrumentais de compositores históricos - que vergonhosamente me eram desconhecidos - executados magistralmente por uma galera jovem, cheia de fogo e vontade. Entre estes tais temas instrumentais, dança. As anfitriãs da festa não poderiam ser melhores para a ocasião: a bela saxofonista Mai Taguchi (uma jovem japonesa que após estudar durante um ano o nosso idioma em seu país de origem, veio para Pernambuco conhecer o frevo in loco) e outra flor do Paço - flor de graciosidade e de nome, a beldade pernambucana Maria Flor.

Enquanto a primeira arriscou uns passos numa divertida performance - após apenas 4 horas de aula! -, a divina Flor recifense, que além de grande dançarina é uma talentosa cantora, nos presenteou com uma atuação que deslumbrava por sua intensa carga dramática, cênica e expressionista. Um deleite. Tornei-me frequentador costumaz do ambiente - conforme o tempo me permitia, é claro -, e além de encontrar nas instalações do museu o material de pesquisa necessário para prestar reverência aos mestres, pude também entrar em contato com a música de toda uma turma jovem que mantém a chama da música regional acesa e pulsando frêmita e latentemente através da chamada Hora do Frevo (programa no qual o museu abre espaço para a música instrumental e que ocorre nas sextas-feiras ao meio dia).


Aqui tive o prazer de assistir shows impressionantes de gente incrível como o flautista Fabinho Costa, o sanguíneo e carismático sanfoneiro Johnanthan Malaquias, o vigoroso e preciosista bandolinista Rafael Marques ... e o Amaro Freitas Trio (Amaro Freitas no piano, Jean Elton no baixo acústico e Hugo Medeiros na bateria) no apoteótico show de pré-lançamento do álbum enfocado nesta resenha. De fato, a tal ponto fiquei impressionado com a apresentação dos rapazes, que cheguei inclusive a escrever uma resenha sobre a mesma.

Isso ocorreu em julho do ano passado. Desde então, passaram-se meses, o disco foi lançado, angariando de imediato merecidíssimas avaliações elogiosas dos veículos especializados em cultura, além de lograr premiações como o MIMO de música instrumental em 2016. O trio apresentou-se também no Vivo Open Air - que inclusive contou com Pepeu Gomes em sua grade de atrações.

Chegada, finalmente, minha hora de avaliar este trabalho, sinto-me obrigado a começar com um breve olhar sobre a persona musical de Amaro Freitas, que é sem dúvida alguma, um dos expoentes da nova safra de grandes talentos da música brasileira. Amaro conecta dimensões. Músico de formação erudita (estudou piano no Conservatório Pernambucano), o olindense é dotado de sanguínea verve musical essencialmente tribal, sendo também possuidor de raro senso melódico. Como poderia haver convergência entre dimensões tão disparatadas mostra-se um assunto capaz de render muita deliberação.

Uma questão desafiadora. A tal verve musical essencialmente tribal é nobre herança africana da qual muitos usufruíram, porém poucos souberam fazer uso. Acontece que é energia pura, rústica, vibrante, selvagem mesmo, sendo portanto difícil de canalizar. Dentre os que obtiveram sucesso nisto, basta mencionar James Brown, Jorge Ben, Miles Davis e Herbie Hancock para que se possa ter uma ideia do imbróglio. Em intersecção com estes, Amaro possui o centralizador do método, da organização racional e teórica e conhecimento intelectual, como também o talento de conseguir pesar os dois de maneira que este não aja como um agente pasteurizador em relação ao outro, minando sua intrínseca chama latente. 


O senso melódico, que advém do ideal disciplinado em busca da perfeição estética da canção, é um outro elemento que ocorre num sentido instintivo, mas que devido às circunstâncias que necessita para existir, nem sempre anda junto com o ímpeto do tribal. Uma vez que tudo clica na persona do músico, temos diante de nós um espécime tão raro quanto excêntrico.

Sorte que soube aproveitar seus talentos optando pelo nobre caminho dos criadores, não emulando o que já foi produzido (lugar comum no mainstream da música brasileira), mas fazendo uso das referências para engendrar algo novo, fresco. 

O pensamento que por fim nos acompanha durante toda a audição do trabalho é o de que bem no momento em que havíamos achado que a surreal novela da música relevante e com potencial para a eternidade produzida no Brasil tinha terminado, de surpresa, surge Amaro para escrever seu capítulo. E ele não é o único. Há uma revolução sorrateira acontecendo bem debaixo dos nossos narizes, amigos! 

Sangue Negro divide-se basicamente em dois blocos distintos. No primeiro destes, o trio atém-se a fornecer novo fôlego a usuais formas sonoras.

A produção exemplar, que ficou a cargo do renomado pianista e arranjador Rafael Vernet - que já trabalhou com gente como Chico Buarque, Hermeto Pascoal, Roberto Menescal e Zé Renato -, chega a flertar com o  minimalismo, tamanha a sua clareza mercurial, e conseguiu a proeza de pôr em evidência de maneira equânime cada um dos componentes da enxuta estrutura: o singular baixo pulsante, a exímia bateria esgueira e o piano exuberante e excêntrico de Amaro.

Tudo isto encontra lugar logo no começo, com a catarse que ocorre em "Encruzilhada", a primeira faixa do trabalho, onde referências, citações e alusões são fragmentadas e remodeladas formando assim ecos que ressoam com familiaridade em torno da desconcertante independência de espírito do trio.

Apesar de familiar, trata-se de um caso curioso: o trio filtra o jazz pelo frevo, sendo que usualmente a maioria persegue a direção oposta, tentando traduzir a música popular através do viés erudito. Aqui há basicamente a apropriação da estrutura jazzística pelo popular, quase um desmembramento da arquitetura sonora erudita com o frevo tomando as rédeas, o que configura um exercício de bem-vinda petulância - o também pernambucano quarteto Arranha Céu é outra proeminência a atuar nesta via sonora, só que há uma diferença fundamental na abordagem: enquanto a apropriação de Amaro é pautada pelo domínio, o Arranha Céu atua num sentido quase humorístico, obtendo um resultado tão irrepreensível quanto o de seu par.

"Norte", a faixa seguinte, mais parece uma reflexão musicada, sendo dona de beleza rara, esteta em sua arquitetura perfeita e de sensível apelo singelo, quase palpável. O rico senso do belo é também a essência de "Subindo o Morro", linda, lindíssima composição que traduz com comovente perfeição uma paisagem familiar a qualquer pernambucano: o passo lento ao subir as ladeiras da poética e vibrante Olinda num dia qualquer ou mais especialmente em um crepúsculo de carnaval, com o mar lá em baixo, que tanta coisa expressa no movimento brando de suas águas formando um relevo que quase lembra uma superfície encarpada. "Subindo o Morro" soa como a melhor canção que Tom Jobim teria composto caso tivesse tido Herbie Hancock como uma de suas influências decisivas.

"Samba de César" vem em seguida, e traça desconcertante ponte entre a sonoridade desenvolvida por artistas de selos independentes de jazz dos anos 1970, como a Black Jazz Records, Nimbus Records e Strata Records, e o samba, no momento que juntamente a "Norte", constitui a fração mais pop do registro.

Respeitando o sábio ditado de que o melhor fica para o final, temos agora o segundo bloco do álbum, que inicia-se com "Estudo 0", que bem pode ser considerado o primeiro ápice antes do clímax final, a derradeira faixa do registro, subsequente a esta e canção que dá nome ao disco, a descomunal "Sangue Negro”.

"Estudo 0", composição do baterista Hugo Medeiros, é um número imponente, elegante, e certamente o momento de apelo mais amplamente universal do trabalho. Deslumbrante, o tema conta com as intervenções de muito bom gosto dos mais que especialíssimos convidados Fabinho Costa (trompete) e Eliudo Souza (Saxofone), encontrando seu remate num decisivo final suspenso.

Temos por fim, a faixa título que é a culminância da persona sonora da músico.
Um singular free-jazz de envolvente atmosfera soturna, como uma noite com lua minguante e céu meio nublado. Desafiadora, a canção ascende à apoteose com os arroubos apoteóticos oriundos da convergência entre um bebop de compasso esquizofrênico e o maracatu. Misteriosa e sugestiva, "Sangue Negro" assim como "Estudo 0", já nasceu clássica, conseguindo uma proeza que eu pessoalmente pensava ser irrealizável: a versão aqui presente consegue ser superior à apoteótica versão apresentada no show de pré-lançamento do álbum, vivamente preservada em minha memória desde aquela memorável tarde. As participações de Fabinho Costa e Eliudo Souza contribuem decisivamente para o engendrar desta epifania sonora, acentuando os climas e enriquecendo as texturas. 

Encerra-se então esta inesquecível transa com um delicioso orgasmo duplo. Só existe um porém que abala a perfeição deste registro, que é a ausência de "Composição Para Gaveta N°5", esplêndido comboio sonoro de autoria de Hugo, apresentado no show de pré-lançamento. Ademais, uma observação válida é de que por mais que este álbum seja impecável, a verdadeira extensão do poderio sonoro do grupo, com todo o seu sangue e suor, só pode ser desfrutado inteiramente numa experiência ao vivo.

Ao término da audição deste incendiário disco, ficamos com a certeza de termos experimentado o fruto de um exercício de quase radicalismo. O fato é que em Sangue Negro Amaro oferece um ponto de vista particular sobre música, que não muita relação possui com o trabalho de seus pares contemporâneos ou mesmo com a obra de mestres reverenciados. Sangue Negro é Amaro Freitas se mostrando ao mundo, e o primeiro passo de um longo caminho que ainda tem à frente.

Encerro enfim esta matéria usando a fração final da resenha que escrevi de seu memorável show (for sentimental reasons, como diria Sam Cooke): o que encanta no final é a consciência de se ter presenciado um artista que, lidando com um mix de gêneros com tradições definidas e consolidadas, as respeita ao passo que não se furta de buscar um caminho novo, um caminho seu.

Amaro Freitas e crew não são apenas músicos talentosos: são agora uma esperança.

Por Artur Barros

Review: Stream of Passion - Memento (2016)

quinta-feira, fevereiro 09, 2017

Formado em 2005 pelo virtuoso guitarrista Arjen Anthony Lucassen (Ayreon, The Gentle Storm), o grupo holandês Stream of Passion lançou naquele ano o seu álbum de estreia, Embrace the Storm, trazendo todas as melodias compostas por Lucassen e as letras de uma soprano mexicana de linda beleza e voz, chamada Marcela Bovio.

De lá pra cá o sexteto se modificou. O próprio Lucassen deixou o grupo, indo se dedicar com maior afinco ao seu projeto de metal progressivo, o Ayreon. Todavia, e felizmente, Marcela ficou e nunca sairia até o fim da banda, anunciado em abril do ano passado via Facebook.

Mas faltava um ato final, um gran finale, um epílogo para fechar o legado. Ele veio com um show irretocável (ou quase), em Amstelveen, Holanda, no mês de setembro passado, registrado e lançado em um CD/DVD intitulado Memento, que chegou em dezembro último.

Disse quase irretocável apenas por lamentar as ausências de três excelentes canções: "Passion", (do álbum de estreia supracitado), "Run Away" e "Games We Play” (ambas do disco seguinte, The Flame Within, de 2009). Excetuando-se tal observação, o registro é de se tirar o chapéu, com toda a congratulação. Todas as outras grandes canções do grupo estão presentes, com direito a duas na língua espanhola - idioma pátrio da frontwoman Marcela Bovio , "Nostalgia" e "Delírio", músicas lindas para se apreciar com máxima atenção e concentração.

O espanhol também pode ser ouvido em diversos outros momentos da apresentação, tais como o prólogo que Marcela faz ao iniciar a execução de "Lost", uma das melhores composições do Stream of Passion, senão a melhor.

A apresentação ainda trouxe dois ótimos covers: "Street Spirit", sucesso do Radiohead, em excepcional versão metal sinfônica, e "I Have a Right", do grupo Sonata Arctica. Vale destacar a ótima performance dos músicos, sobretudo o baterista Martijn Peters e da dupla de guitarristas Eric Hazebroek e Stephan Schultz.

A prima donna ruiva Marcela Bovio é um capítulo inteiro à parte. Cantora de mão cheia tanto para os timbres lascivos e agressivos do rock bem como para a maciez lírica do canto clássico (e ainda toca violino), sem contar o carisma, simpatia e sua aura latina que facilita - e muito - o seu lidar com o público.

A banda navegou seu gothic e symphonic metal progressivo por toda a apresentação num clima de absoluto fervor e uma atmosfera intensa, contudo pairando a angustiante sensação de perda, aquele clima de que tudo se esvairá e chegará ao fim, ou seja, um conceito tematizado pela própria banda em boa parte de suas obras. Tudo soou perfeito.

Vale a pena ver, ouvir e ter na coleção.



8 de fev de 2017

Review: Horisont - About Time (2017)

quarta-feira, fevereiro 08, 2017

Vamos deixar claro desde o início: o som do Horisont é pra quem curte nostalgia e não está interessado em nada muito original ou inovador. Apostando em uma sonoridade que explora timbres e climas vindos direto dos anos 1970, a banda sueca chega ao seu quinto disco mostrando evolução, porém sem mudar uma única vírgula de sua proposta original. 

About Time saiu dia 3 de fevereiro pela Century Media e traz dez novas canções do quinteto formado por Axel Söderberg (vocal), Charlie Van Loo (guitarra), Kristofer Möller (guitarra), Magnus Delborg (baixo) e Pontus Jordan (bateria). Percebe-se uma exploração mais constante das harmonias de guitarra, com um número maior de guitarras gêmeas que nos discos anteriores. Além disso, o trabalho de composição está melhor desenvolvido, com canções mais bem resolvidas. É nesse aspecto que a banda mostra a sua evolução, ao conseguir tirar o melhor e manter atraente a mesma proposta que explora desde o primeiro disco, lançado em 2009.


Há canções deliciosas em About Time como “Electrical”, “Night Line”, “Boston Gold” (os caras estão ouvindo bastante AOR) e “Dark Sides”, sempre trazendo agradáveis melodias que nascem nas seis cordas - e quando falo em melodias, tenha em mente que são baldes e baldes e baldes de melodia respingando em cada faixa. Acrescentando variedade ao tracklist, a banda explora momentos mais introspectivos em “Point of No Return” e em “About Time”, mas é quando aposta no terreno que domina com maestria que o grupo acaba se saindo invariavelmente bem, como percebe-se em “Hungry Love”.

About Time completa uma sequência de três belos discos do Horisont, contando aí os últimos dois lançamentos do grupo, Time Warriors (2013) e Odyssey (2015). Há um distanciamento do flerte com o metal percebido no trabalho de 2015, e a inserção de alguns elementos mais etéreos e viajantes, principalmente pela presença de um bem encaixado teclado.

Se a sua praia é o som de ontem produzido por bandas de hoje, poucas são mais competentes do que o Horisont nessa proposta.

3 de fev de 2017

Review: Xandria - Theater of Dimensions (2017)

sexta-feira, fevereiro 03, 2017

Considerando de antemão o fato de um ouvinte de música se afinar com o segmento symphonic metal, se deve ao mesmo admirar simultaneamente o peso e por vezes celeridade combinados com a elaboração, o erudito e sequências harmônico-orquestradas, regadas a corais lírico-gregorianos e tudo isso com uma bella primadonna nos microfones.

Dito isso, os fãs do estilo e em particular da banda germânica Xandria, devem ter ótimos motivos para estarem adorando o mais recente lançamento do grupo, o álbum Theater of Dimensions, que chegou no último dia 27 de janeiro. Este é o segundo trabalho com a bela frontwoman Dianne van Giersbergen, que substituíra Manuella Kraller em 2013.

Depois de uns tempos gravando algumas águas com açúcar até o disco Salomé The Seventh Veil (2010), a banda vem num movimento de melhor elaboração e “sinfonização”, acrescidas de bom peso. Foi assim em Neverworld’s End (2012), despedida de Kraller, e na estreia de Giersbergen, Sacrificium (2014). 

Agora com Theater of Dimensions não foi diferente, ao contrário. Trata-se de um belo trabalho, bem produzido, tudo com muito bom gosto. Os corais estão perfeitamente encaixados nas canções, postados no tempo apropriado juntamente com a voz de Dianne, que neste álbum está impecável, tanto em seu lirismo como em momentos um pouco mais rasgados.

As faixas “Where the Heart is Home” e “Death to the Holy”, que abrem o o disco, já ilustram o que fora dito acima, com direito à pancadas elaboradas, bons solos de guitarra, naipe de violões e muita harmonia.

Seguindo a audição, “Forsaken Love” suaviza um pouco ouvido do ouvinte com uma pegada mais melódica e tenra. A quarta faixa, “Call of Destiny”, é possivelmente a melhor do trabalho, ao menos dentre as mais curtas, tendo sido lançada previamente como single e videoclipe. Música linda, com Dianne dando show de interpretação junto aos corais. “We Are Murderers (We All)” foi a primeira canção a ser mostrada via lyric video, e a escolha não foi à toa. Ela daria perfeitamente o tom do que deveríamos esperar do álbum.

O disco segue, alternando ótimas canções com bom peso, outras nem tanto (mas nunca água com açúcar), incluindo a ótima instrumental “Céilí” (muito mais que o simples interlúdio), até chegar na última, a faixa-título, grande no tamanho e na qualidade, 14 minutos de um som bem trabalhado, escrito e produzido, alternando várias cadências, um prato cheio para quem gosta de som elaborado.

A versão deluxe traz cinco canções no formato acústico.

Concluindo, o Xandria nos entregou um grande disco de symphonic metal, num momento de imensa maturidade e felicidade deles, mostrando que estão entre as melhores bandas deste nicho.




31 de jan de 2017

Review: Kreator - Gods of Violence (2017)

terça-feira, janeiro 31, 2017

Décimo-quarto álbum do Kreator, Gods of Violence funciona como uma espécie de carta de intenções da banda alemã: sempre estivemos aqui, sempre faremos as coisas do nosso jeito, não deixaremos nunca de ser agressivos! Lançado em 27 de janeiro, o disco traz onze canções produzidas por Jens Bogren (Haken, Fleshgod Apocalypse, Moonspell) e é uma pedrada sensacional.

Dando sequência ao que já havia mostrado em Phantom Antichrist (2012), o quarteto liderado por Mille Petrozza (vocal e guitarra) - completam a banda o guitarrista Sami Yli-Sirniö, o baixista Christian Giesler e o baterista Ventor - segue com o pé no fundo, equilibrando a agressividade inerente de sua música à intervenções de melodia sempre certeiras, alcançando um resultado final que reafirma a ótima fase vivida pela banda nos últimos anos.

O trabalho de guitarras presente em Gods of Violence é de cair o queixo, e é uma das razões que fazem o disco tão especial. A interação entre Mille e Sami é quase telepática, em uma parceria que já dura dezesseis anos e acrescentou muito à sonoridade da banda. Isso, aliado ao trabalho de composição extremamente bem executado, faz com que tenhamos uma coleção de faixas não apenas empolgante, daquelas que colocam sorrisos contínuos no rosto durante a audição, mas também um conjunto de canções com potencial para figurar entre os grandes momentos da trajetória do Kreator.

De modo geral, temos em Gods of Violence um disco no mesmo nível de Phantom Antichrist, o que quer dizer muita coisa. O álbum de 2012 foi excelente, e a principal diferença percebida em relação ao novo disco é a presença maior de melodia em Gods of Violence, enquanto em Phantom Antichrist fomos brindados com uma violência genuína e onipresente. Essa mudança em um dos eixos principais das canções pode fazer com que uns prefiram um trabalho ao outro, conforme o seu gosto pessoal. No entanto, o Kreator conseguiu alcançar, em ambos os casos, resultados sensacionais, demonstrando a capacidade que Mille e sua turma possuem em explorar os diferentes ingredientes que compõe o thrash metal.

Entre as faixas, as minhas preferidas são “World War Now”, “Satan is Real”, “Totalitarian Terror”, “Army of Storms” e “Fallen Brother” (que ganhou um clipe bem legal homenageando ícones falecidos do metal como Dio, Lemmy e outros). Chama a atenção também a sutil semelhança, em um pequeno trecho nos acordes da introdução acústica da música que dá nome ao disco, com a clássica “Fade to Black”, do Metallica. Uma pequena curiosidade em outra das ótimas canções que fazem de Gods of Violence um dos grandes momentos da carreira do Kreator.

Desde já, um dos pontos altos do metal em 2017.

27 de jan de 2017

Review: John Mayall - Talk About That (2017)

sexta-feira, janeiro 27, 2017

Verdade seja dita: poucos músicos ainda na ativa possuem um legado como o de John Mayall. Do alto de seus 83 anos, o pai do blues inglês revelou nomes como Eric Clapton, Peter Green e Mick Taylor ao mundo, isso sem falar na tradução do blues vindo dos negros norte-americanos para o jovem público inglês, um trabalho de ourives que impactou todo o rock britânico produzido a partir da segunda metade dos anos 1960, de Cream a Rolling Stones, de The Who a Led Zeppelin.

Uma lenda vida no mais literal sentido da palavra, John Mayall acaba de lançar o seu novo álbum, Talk About That. Ao seu lado estão o guitarrista Rocky Athas (texano que lidera a sua própria banda solo), o baixista Greg Rzab (que tocava na banda de Buddy Guy) e o baterista Jay Davenport (com longa ficha de serviços prestados ao blues ao lado de ícones como Junior Wells, Pinetop Perkins, Sugar Blue e grande parte da turma de Chicago), além da participação do emblemático Joe Walsh (Eagles, James Gang) em duas faixas - “The Devil Must Be Laughing” e “Cards on the Table". O disco traz onze músicas gravadas no House of Blues Studio localizado na cidade californiana de Encino, em sessões realizadas em 2016. Entre elas, versões para “It's Hard Going Up” de Bettye Crutcher, “Goin' Away Baby” de Jimmy Rogers e “Don't Deny Me” de Jerry Lyn Williams.

Os vocais, bem como o piano e a harmônica de John Mayall, servem como condutores de algumas das melhores canções gravadas pelo bluesman em anos. Destacam-se o blues repleto de groove da faixa-título, a classe de Joe Walsh ao colocar lá no topo a bela “The Devil Must Be Laughing” e a classuda “Cards on the Table", o balanço made in Nova Orleans de “Gimme Some of That Gumbo” (com ecos de Dr. John), a sutilmente dançante “Blue Midnight” (Eric Clapton certamente adorou essa!), o clima de big band de “Across the County Line” e o fechamento com o jazz “You Never Know”.

Talk About That é um acréscimo respeitável no longo catálogo de John Mayall. Um disco excelente, que mostra que o lendário músico inglês segue vivo, produtivo e ainda muito relevante.


26 de jan de 2017

Review: Alírio Netto - João de Deus (2016)

quinta-feira, janeiro 26, 2017

Alírio Netto possui uma longa folha corrida de serviços prestados ao metal nacional. Vocalista das bandas Khallice e Age of Artemis, construiu uma carreira sólida e conquistou admiradores em todo o país graças à técnica vocal diferenciada que sempre possuiu. Mais recentemente, Alírio fez parte do casting da versão brasileira do musical Jesus Cristo Superstar interpretando o papel de Judas Iscariotes, e também do musical We Will Rock You, onde interpreta o papel de Galileo nessa celebração à obra do Queen.

João de Deus é o primeiro disco solo de Alírio Netto e foi lançado no final de 2016, mais precisamente dia 15 de dezembro, pela TRM Records. Ao contrário do que fez em toda a sua carreira, aqui Netto explora outro lado de sua personalidade musical, cantando em português e apostando em uma sonoridade bem mais suave. O disco foi produzido pelos irmãos Falaschi - Edu e Tito - e conta com participações especiais de Felipe Andreoli (Angra), Marcelo Barbosa (Angra), Tiago Mineiro e Milton Guedes (Rita Lee, Lulu Santos), além do próprio Tito Falaschi. Vale citar que o ex-vocalista do Angra, Edu Falaschi, além de assinar a produção também participa da composição de duas faixas, “Viver (One Love)” e “Nada Mais Importa”.

Musicalmente, é tudo muito bem feito e produzido, com tudo no lugar. A voz de Alírio surge cristalina e perfeita em cada faixa, realçando a capacidade do músico. As participações especiais são marcantes, como o belo solo de Marcelo Barbosa em “João de Deus, o piano de Tiago Mineiro em “Retratos” e o sax de Milton Guedes em “Nada Mais Importa”.

Quando aposta em uma sonoridade descaradamente pop, Alírio consegue fazer isso com bom gosto e alcança resultados agradáveis, como podemos conferir em “Viver (One Love)”, “O Palhaço” e “Nada Mais Importa”. No entanto, confesso que não curti muito as canções mais lentas como “De Sol a Sol” (versão de uma música do cantor mexicano Erik Rubin), “Retratos" e “Segredos”, que mesmo mantendo a excelência instrumental e interpretativa presente nas demais faixas do disco, acabaram soando excessivamente melosas aos meus ouvidos. 

Trilhando de maneira corajosa um caminho totalmente oposto a tudo o que fez em sua carreira até agora, Alírio Netto mostra em João de Deus a capacidade que possui de experimentar novas sonoridades mantendo a qualidade que sempre marcou a sua carreira. É um trabalho que não agradará a todos os ouvidos, principalmente aos mais acostumados com sonoridades relacionadas ao rock. 

Pessoalmente, achei um disco apenas mediano, mas acredito que quem é adepto de um som mais suave tem tudo pra curtir.

Review: Rhino Head - You Get What You Pay For (2016)

quinta-feira, janeiro 26, 2017

Na ativa desde 2015, o Rhino Head vem de São Paulo com um som bastante interessante. Formada por Stefano Zalla (vocal), Fabio Yamamoto (guitarra), Thor Salles (guitarra), Victor Kutlak (baixo) e Caio Al-Behy (bateria), a banda equilibra influências de blues e grunge na construção de um cativante rock and roll que irá agradar os fãs do lado mais clássico do gênero.

Ecos de AC/DC, Pearl Jam, Free e mais um monte de gente boa são facilmente identificáveis em You Get What You Pay For, lançado de forma independente no final de 2016. São dez faixas de fácil assimilação, que mostram uma banda com inegável potencial para alçar vôos mais altos. As faixas são sempre construídas a partir dos riffs, realçando a pegada classic rock que acompanha o som do Rhino Head.


You Get What You Pay For traz aquele tipo de som que cai como uma luva em encontros de amigos, no churrasco com cerveja e nas reuniões de tribos urbanas como motociclistas, Harleyros e similares. Dá pra curtir sem esforço, o que só atesta o excelente trabalho desenvolvido pela banda em seu disco de estreia.

Com o desenvolvimento natural que o tempo dá, rodando mais nos palcos e entrando em contato com outros músicos, o Rhino Head tem tudo para gravar discos com qualidade ainda maior nos próximos anos.

Fique de olho, por aqui tem futuro!




25 de jan de 2017

Review: Pain of Salvation - In the Passing Light of Day (2017)

quarta-feira, janeiro 25, 2017

Certa vez sonhei com a morte. Não era o Grim Reaper vestindo uma capa negra e segurando uma enorme foice reluzente, determinado a me levar deste mundo de uma vez por todas, mas sim uma senhora de cabelos brancos e olhos tristes. Eu estava em um quarto de hospital, mergulhado na luz fria de lâmpadas fluorescentes, olhando por uma janela que mostrava um mundo distante e sem cor e ouvindo os bipes ritmados de aparelhos médicos, como se fossem uma canção, a canção que me mantinha preso à vida. A senhora de cabelos brancos e olhos tristes me olhava com pesar, dizendo sem mexer os lábios que não queria me levar, que o seu coração era despedaçado a cada batida, que o peso de sua tarefa era pesado demais. A morte me disse para lutar, para viver.

Eu não sei se Daniel Gildenlöw viu a morte nos olhos quando passou pelo inferno de ser atingido por uma bactéria comedora de carne que quase o matou. Mas o que eu sei é que o simples conceito de encarar a morte tão de perto, mesmo que apenas em um sonho, é o suficiente para perturbar uma pessoa, mexer com suas percepções, anseios e angústias. O que dirá então enfrentar isso tão de perto. 

Por mais que Daniel componha, escreva ou fale sobre o episódio, nós nunca saberemos completamente o que se passava em sua mente, a forma como ele sobreviveu e se transformou após a dolorosa e desesperado experiência. É pessoal demais, talvez intraduzível em sua mais profunda magnitude. In the Passing Light of Day é um trabalho poderoso, onde Daniel exprime da melhor forma possível seu próprio encontro com a quase morte em um quarto de hospital sueco. 

Não se apegando exclusivamente a velhas fórmulas do passado, o disco transcorre como uma tempestuosa jornada através de uma mente conturbada e perturbada, repleta de medo e desespero. Uma enxurrada de emoções transpostas em arranjos ora complexos e irascíveis, ora singelamente simples e tocantes. Quem sabe uma viagem sinuosa e sufocante pelos cinco estágios do luto. 


Temos momentos mais intensos de rock/metal progressivo, remetendo às origens da banda nos longínquos anos 1990, como "On a Tuesday", "Tongue of God" e "Full Throttle Tribe”, onde esbanjam técnica e feeling em arranjos e melodias complexas, além de sombrias e cheias de tensão. Um deleite para qualquer fã mais veterano do bom e velho prog metal. 

Existe também um lado que grita e transpira um senso de urgência e medo que se manifesta de diferentes maneiras. "Silent Gold" é uma balada de piano, mais simples e direta impossível, mas absurdamente carregada de sentimento e o desejo por conforto e segurança em meio à tempestade. "Meaningless" é angústia, tensão sexual, sobre o terror existencial de se sentir não sendo mais dono de si mesmo. Para mim já é um clássico da banda. 

"Reasons" é experimental, com um toque avant-garde com o qual já flertaram no passado. Me faz pensar em Be (2004). "Angels of Broken Things" e "If This is the End" apostam em construções lentas que levam a clímaces grandiosos e intricados, cheios de força e personalidade. Já "The Taming of a Beast" é a faixa mais “diferente” do disco, algo que remete ao rock clássico, talvez uma sutilíssima pitada de country. Energética, cheia de tesão, com fome de vida e de viver, o encontro com a sua besta pessoal, às vezes intangível, outras vezes sua força motriz mais primordial. Espero que toquem nos shows, haveria de ser fantástico. 

A faixa que dá título ao disco é quase um disco dentro de si mesmo, ou um curta metragem em sépia cheio de memórias, remorsos, arrependimentos, mas também alegrias, júbilos, sorrisos e amor. Apesar dos seus quinze minutos, não é a música mais diversa e complexa do álbum, é bastante simples e intimista em sua maior parte, pontuada por ápices vigorosos que não chegam a explodir para valer. Uma reflexão linda sobre o fim, sobre as coisas não ditas e não feitas, sobre os momentos do passado que nos irritaram e agora parecem tão distantes e tão sem significado. Lindo, simplesmente lindo. Analisando como um todo, acho que posso dizer ser uma das coisas mais profundas e tocantes que já ouvi na minha vida. 

In the Passing Light of Day é uma obra absolutamente honesta e visceral, flutuando com destreza entre todos os territórios por onde o Pain of Salvation já se aventurou. Tem o prog hermético e técnico de Entropia (1997), One Hour by the Concrete Lake (1998), The Perfect Element I (2000) e Remedy Lane (2002), assim como as ousadias conceituais de Be (2004) e Scarsick (2007), e por fim toda a pegada mais humana, psicológica e sexualmente densa de Road Salt I (2010) e II (2011). Tudo aí, em maior ou menos proporção, formando uma obra que a partir disso tem sua própria identidade, influências e coerência. Já é um dos mais fortes candidatos a ser o melhor disco do ano, mesmo ainda sendo apenas janeiro. 

Daniel Gildenlöw pode ser uma pessoa difícil, de personalidade incrivelmente forte (talvez o motivo que faça dele o único remanescente da formação original da banda), mas é sem dúvida nenhuma um gênio, uma dessas pessoas iluminadas que veio parar nessa pedra azulada perdida no meio do universo para causar um impacto imenso na vida das pessoas. Um artista como poucos conseguem ser. 

Obrigado por ainda estar conosco, Daniel. 



24 de jan de 2017

Review: Hardshine - So Far and So Close (2016)

terça-feira, janeiro 24, 2017

Uma das principais críticas que faço à imprensa especializada em heavy metal no Brasil é a falta de coerência e o baixo nível de exigência da imensa maioria dos resenhistas. Explico: para a grande maioria dos blogs e sites - e até o povo das revistas que falam sobre o assunto -, todo e qualquer disco de uma banda brasileira de metal ou hard rock é nota 10, excelente, incrível e já nasceu clássico. Isso cria vários problemas. Por um lado, baixa o nível de exigência não só de quem escreve, mas também de quem produz e consome a música. E, no outro lado da moeda, faz com que álbuns realmente bons passem batido e fiquem perdidos neste mundo utópico e maravilhoso onde tudo nasce excelente e com potencial para mudar o mundo.

Dito isso, vamos para algo que realmente é bom e merece todos os elogios que receberá: So Far and So Close, disco de estreia do Hardshine. A banda é formada por Leandro Caiçolo (vocal), Pedro Esteves (guitarra), Bruno Ladislau (baixo) e Anderson Alarça (bateria), músicos já conhecidos de quem acompanha a cena nacional. O trabalho foi gravado no início de 2013 no Masterpiece Studio, em São Paulo, e finalmente está saindo em formato físico. So Far and So Close é o primeiro lançamento da TRM Records, selo que está chegando ao mercado em uma iniciativa de Thiago Rahal Mauro, colaborador de longa data da Roadie Crew, e o disco pode ser encontrado em lojas com Die Hard, Hellion Records e Voice Music.

Tendo Caiçolo e Esteves como principais forças criativas, a ideia do Hardshine é produzir um som voltado para o hard rock, com influências das escolas setentista e oitentista do gênero - principalmente a segunda, como fica claro no disco. São dez faixas, todas trazendo os elementos que fazem o estilo ser tão cativante: riffs fortes, refrãos marcantes, boas melodias e composições bem construídas, além das indefectíveis baladas.

Ainda que o hard rock dos anos 1980 não esteja entre os meus gêneros favoritos de música, é inegável que o quarteto conhece a seara por onde se aventura. O destaque principal é Leandro Caiçolo, dono de uma voz acima de média e que consegue se sair bem tanto nas canções mais agitadas quanto nos momentos mais calmos.

So Far and So Close cai como uma luva como trilha pra pegar tanto a estrada como para encarar o vai e vem do dia a dia, a bordo do veículo que for. Bem acabado, o disco, apesar de já ter quatro anos de vida, chega ao grande público ainda refrescante e causa uma ótima impressão.

Vale a pena conhecer, vale a pena ouvir. E vale frisar: os elogios são todos merecidos.

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