Mostrando postagens com marcador Review de CDs. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Review de CDs. Mostrar todas as postagens

22 de mai de 2017

Review: Me and That Man - Songs of Love and Death (2017)

segunda-feira, maio 22, 2017

O Me and That Man é um duo formado por Adam Darski e John Porter. Adam é um dos principais ícones do metal extremo moderno e lidera o Behemoth sob a alcunha de Nergal. Porter é uma das principais referências do southern folk. Em comum entre os dois há a Polônia: Nergal é natural do país europeu e John Porter, apesar de nascido na Inglaterra, mora na Polônia desde 1976.

O que saiu dessa mistura? Um disco bonito pra caramba e que traz treze canções que caminham pelos meandros mais soturnos da rica herança musical norte-americana. Assim, temos nas canções de Songs of Love and Death, álbum lançado no final de março e cujo título faz referência ao terceiro LP do canadense Leonard Cohen (Songs of Love and Hate, de 1971), uma cativante coleção de faixas repletas de sentimento, muitas com predominância de instrumentos acústicos, e que caminham por elementos de gêneros como blues, country, folk e outros estilos da cultura musical norte-americana.


Liricamente, Adam e John exploram temas macabros e sombrios como o inferno, a morte, doses cavalares de sangue, o discurso anti-cristão e o demônio em pessoa. E essas letras, ao ganharem o acompanhamento de acordes que variam entre melodias contemplativas e momentos de êxtase coletivo e quase religioso, não só aproximam as suas mensagens do ouvinte como tornam as palavras cantadas muito mais verdadeiras e reais do que, por exemplo, quando elas vêm na companhia da violência e da instrumentação quase barroca do Behemoth.

Songs of Love and Death traz influências de nomes como o já citado Leonard Cohen, Johnny Cash, Nick Cave e Mark Lanegan, com arranjos que primam pelo minimalismo e com uma mixagem crua, que é capaz de transportar o ouvinte para uma encruzilhada perdida no meio do Texas, onde a escolha do caminho errado poderá afetar definitivamente toda a sua vida.

Pessoalmente, achei um trabalho belíssimo. As melodias, a enorme dose de feeling, os acordes e os arranjos me conquistaram quase de imediato. Nergal e Porter alternam-se nos vocais, ou cantam juntos em algumas passagens, construindo uma terceira criatura como fruto de sua parceria. Um dos melhores discos deste ano, e que mostra o quão livre musicalmente é a mente de um dos grandes nomes do black metal atual. 


20 de mai de 2017

Review: Gustavo Telles & Os Escolhidos - Ao Vivo no Theatro São Pedro (2017)

sábado, maio 20, 2017

Gustavo Telles foi baterista do Pata de Elefante, excelente trio gaúcho de rock instrumental que gravou discos muito bons e já pendurou as chuteiras. Após o fim da banda, Telles iniciou uma carreira solo, deixando a bateria de lado e assumindo os vocais e a guitarra. Essa nova fase gerou dois belos CDs: Do Seu Amor Primeiro é Você que Precisa (2011) e Eu Perdi o Medo de Errar (2013).

Celebrando e eternizando a ótima fase, o Selo 180 está lançando Ao Vivo no Theatro São Pedro, disco que traz a íntegra do show de lançamento do segundo disco de Gustavo Telles, realizado no dia 26 de novembro de 2013 no mítico teatro da capital gaúcha. São doze faixas vindas dos dois álbuns de Telles, acompanhado aqui por uma banda excelente formada por Alexandre Loureiro (bateria), Luciano Albo (baixo, ex-Cascavelletes), Edu Meirelles (baixo), Mauricio Nader (guitarra), Marcio Petracco (pedal steel e guitarra, ex-TNT), Daniel Mossmann (guitarra e violão, parceiro dos tempos do Pata de Elefante), Murilo Moura (piano e órgão), Luciano Leães (piano e órgão), Joca (trompete), Rafael Lima (sax tenor), Gustavo Müller (sax barítono), Charão (trombone) e os backing vocals de Diogo Brochmann, Rodrigo Fischmann e Felipe Kautz, que formam o trio Dingo Bells.

Musicalmente, Gustavo Telles bebe direto da fonte do rock rural norte-americano, de nomes acima de qualquer suspeita como The Band, The Byrds e Crosby, Stills, Nash & Young. Reminiscências de Bob Dylan e Neil Young também são facilmente reconhecíveis na construção de uma sonoridade cativante e que transparece autenticidade, ainda mais para quem nasceu ou viveu grande parte da sua vida no Rio Grande do Sul (como é o meu caso), um estado com forte cultura popular e rico em suas próprias tradições.

Um dos pontos mais altos da obra de Gustavo Telles está na qualidade de suas letras. A escrita de Telles traz versos simples e descomplicados, que tratam de assuntos do cotidiano e do coração, proporcionando uma identificação quase automática para o ouvinte. Soma-se isso à inegável capacidade de composição de Gustavo e o resultado é um punhado de canções pungentes e fortes, que mexem com quem está aqui do outro lado da história, escutando as canções.

Ao Vivo no Theatro São Pedro é um ótimo disco ao vivo, com doses cavalares de música de alta qualidade e produzida com o coração. O álbum está disponível nos serviços de streaming, então caso você não conheça ainda o trabalho de Gustavo Telles vale a pena dar uma conferida, porque é legal pra caramba.

18 de mai de 2017

Review: Os Descordantes - Quietude (2017)

quinta-feira, maio 18, 2017

A música romântica sempre fez sucesso no Brasil. Do rock ao sertanejo universitário, perpassando pela MPB e o samba, os temas de amores impossíveis, perdidos, encontrados, reencontrados, iludidos e desiludidos sempre tiveram boa sintonia com o público. Independente do estilo, há uma facilidade do público de se reconhecer nessas histórias cantadas. Para cada situação amorosa que se passar na vida há uma música em algum lugar que serve como expressão perfeita para os seus sentimentos.

Os Descordantes entenderam bem essa demanda, cantando desilusões amorosas em diversos gêneros: rock, MPB, samba, brega, pop, evitando delimitar-se em um estilo único e denominando-se apenas como música romântica. Resultou em se tornarem uma das bandas mais queridas da noite rio branquense com seu primeiro disco, Espera a Chuva Passar, um compilado de todas as canções já executadas ao vivo ao longo dos anos, com algumas inéditas. Se o disco não deixou os músicos ricos, com certeza foi um sucesso entre seu público. Tanto que animou a banda a lançar mais um e assim chegamos ao segundo álbum, Quietude.

O novo CD é um trabalho mais homogêneo que o anterior, calcado na MPB, trazendo referências a outros estilos e com toques retrô que, a mim pelo menos, remete à música romântica das décadas de 1950/1960. As músicas casam bem com o título Quietude, mais calmas, leves e introspectivas. A canção de abertura, "Trem Fora dos Trilhos”, já mostra a que veio o disco: ao invés dos pesados acorde de guitarra que abrem Espera a Chuva Passar, aqui é um piano suave que abre os trabalhos numa canção que me remete, em momentos, ao Radiohead da época do The Bends.


Meus destaques vão, em primeiro lugar, para "Desamor", segunda canção do play, de cara a minha favorita e a mais rock and roll de todas. Ela é seguida pela divertida “Iguais", de clima muito agradável e com direito a corinho de "ulálá's", perfeita pra bailinhos retrôs anos 60. Na sequência, a desiludida "Simplesmente" evoca o clima de “sofrência” do primeiro disco e não me chamou muito a atenção de primeira, mas ela vai crescendo na nossa mente - hoje já me pego cantando-a do início ao fim. 

Pra encerrar os destaques, o brega descarado volta lá pro fim do disco com "Vai Ver”. Essa utilização inteligente da música brega (daquele tipo que fazia sucesso nas rádios na vozes de Odair José e Reginaldo Rossi, entre outros) sempre foi o grande diferencial dos Descordantes. Fiquei feliz em ver que eles não esqueceram de prestar sua homenagem ao estilo nesse disco.

Se senti falta de algo foi de uma maior variedade musical. Como disse lá em cima, o Espera a Chuva Passar transitava, com naturalidade, por vários estilos: rock ("Descrença" e "Porto e o Rio"), samba ("Amigo Amarelo"), brega ("Hombridade" e "Sair Daqui"). Quietude me parece mais focado na MPB, não que isso seja um defeito em si, é mais pra uma impressão pessoal mesmo. Já estou pela décima audição do disco desde que recebi minha cópia (digital) e posso afirmar que essas canções vão crescendo a cada vez que se escuta o álbum.

Com Quietude, os Descordantes fincam bases sólidas em sua identidade musical, sólidas o suficiente para sustentar um terceiro trabalho, se não vários outros.

Audição mais que recomendada.


Por Gildson Góes

16 de mai de 2017

Review: Rosália Paranóia - Instinto de Sobrevivência (2016)

terça-feira, maio 16, 2017

Formada em Guarulhos em 2012, o Rosália Paranóia lançou no final de 2016 o seu primeiro disco, Instinto de Sobrevivência. A proposta da banda é fazer um hip-hop bastante aberto a influências de outros gêneros, notadamente o rock, o reggae e o funk (é um saco, mas é importante sempre frisar toda vez que o termo “funk" aparece em um texto que estamos nos referindo ao gênero norte-americano de James Brown e companhia e não àquele ritmo surgido no Rio de Janeiro).

O disco vem com rimas com forte discurso social, construídas com inteligência e que ganham ainda mais força acompanhadas pelo forte instrumental. Ao lado de batidas típicas do rap temos a presença constante das guitarras e de um bem encaixado naipe de metais formado por Gabriel Arrais (saxofone), Danilo Correa (trombone) e Luizinho Nascimento (trompete), em uma união que soa sempre orgânica e pulsante. 

O trabalho do Rosália Paranóia tem tudo para agradar em cheio quem gosta do que nomes como Emicida, Criolo, Rael e outros nomes da atual cena do rap nacional tem feito, além de elementos que soarão similares aos fãs de grupos como Charlie Brown Jr. e afins.

Bem produzido e bem composto, Instinto de Sobrevivência é um belo cartão de visita e um início promissor para o Rosália Paranóia. Ao terminar a audição do álbum, a sensação de que esses caras ainda vão dar muito o que falar é onipresente.


Review: Rock Freeday Collection Volume 1 (2017)

terça-feira, maio 16, 2017

Comemorando dez anos, uma das melhores e mais tradicionais web radios brasileiras de rock e metal decidiu comemorar a data através de um CD com bandas presentes em sua programação. Esta é a história por trás da coletânea Rock Freeday Volume 1, lançada em janeiro deste ano e distribuída apenas para jornalistas, radialistas, lojistas e produtores brasileiros e norte-americanos.

O disco traz dezessete faixas de dezessete bandas diferentes, todas brasileiras e que exploram diferentes sonoridades dentro do metal e do rock. Temos o metal tradicional e com pegada hard rock do King Bird, o thrash de nomes como Blazing Dog, o hardão do Big Mofo, o rock com pegada meio psicodélica do Lo Han, o metal melódico do Endless e do Celestial Flames, e assim por diante.

Como em todo lançamento desse tipo, a qualidade das bandas oscila e as preferências podem variar conforme o gosto pessoal de cada ouvinte. No meu caso, destacaria as faixas “Break Away” do King Bird, “Bring Back to the Good Times” do Big Mofo, “Black Veil of Madness” do Endless, “Final Destination” do Celestial Flames e “Kill For Money” do No Way.

Independente disso, o fato é que Rock Freeday Volume 1 cumpre bem o seu papel ao construir um panorama competente da cena rock e metal brasileira, sempre repleta de bons nomes e que, muitas vezes, acabam não alcançando o reconhecimento que merecem por uma série de fatores (e que renderiam uma matéria especial só sobre isso).

Aos interessados, recomendo que ouçam a Rádio Rock Freeday e que procurem ir atrás das bandas presentes neste CD, porque vale a pena conhecer um trabalho de qualidade e que pode, muitas vezes, passar despercebido pelos ouvidos.

01. King Bird – Break Away
02. Blazing Dog – Deus Ex Machina
03. Big Mofo – Bring Back the Good Times
04. Lo Han – Dance With the Devil
05. Bife – IF
06. Septerra – Nightmare
07. Endeless – Black Veil Of Madness
08. Maestrick – Pescador
09. Inheritance – State Of Mind
10. Celestial Flames – Final Destination
11. No Way – Kill For Money
12. Morrigam – Corpo Seco
13. Bella Utopia – Dilema do Prisioneiro
14. Dudé e a Máfia – A cidade
15. Gus – Reconcerto
16. Erva Matt – Romel e Julieta
17. ZY3 – 365 DIAS

15 de mai de 2017

Review: Milocovik - Automatic Complaints (2017)

segunda-feira, maio 15, 2017

O Milocovik foi formado em São Paulo em 2006 e lançou apenas o EP Sex Pack, que saiu em 2009. Essa discografia ganhou no início do ano a companhia do primeiro álbum completo da banda, Automatic Complaints. O disco chegou apenas agora aos meus ouvidos, e devo confessar que o mesmo ocorreu com a banda. Não conhecia o som dos caras e fiquei bastante surpreso com o que ouvi.

Produzido e mixado por Edu Recife, o terceiro álbum do quarteto formado por Toni Pereira (vocal), Claudio Dantas (guitarra), Iran Ribas (baixo) e Ito Andery (bateria) traz dez faixas, sendo oito delas cantadas em inglês e apenas duas, “Fogo Amigo” e “Muito Mais”, em português. Musicalmente, apesar de a banda se classificar com o esdrúxulo rótulo de disco-punk, o que temos é um rock que bebe muito na cena inglesa de pós-punk, unindo-a ao movimento que surgiu em Manchester no final da década de 1980 e início dos anos 1990. Ou seja, trata-se de um rock calcado em guitarras e com batidas sempre dançantes. E que, com as boas ideias do Milocovik, soa muito agradável aos ouvidos.

A banda vai sempre direto ao ponto, com canções que em nenhum momento soam descartáveis e passam um onipresente ar de urgência. Músicos de inegável qualidade, o quarteto se complementa e funciona muito bem como um todo, com a união dos quatro músicos dando a luz a um quinto elemento bastante cativante.

Com influência de nomes como David Bowie, The Cure, Talking Heads, Joy Division, Destroyer e uma forte pegada indie, o Milocovik produziu neste disco de estreia um trabalho que encontra pouquíssimos exemplos similares vindos de bandas brasileiras, mostrando ao mesmo tempo boas ideias e uma boa dose de maturidade, exemplificada na forma redonda com cada uma das canções foi construída. Em suma, o que temos e o que ouvimos em Automatic Complaints é um trabalho bastante acima da média, e que deixa claro a força criativa da banda.

Vale a pena ir atrás e ouvir com atenção.

Facebook

12 de mai de 2017

Review: Irmão Carlos - Irmão Carlos (2017)

sexta-feira, maio 12, 2017

Irmão Carlos chega ao seu primeiro disco levando para todo o Brasil um trabalho que jé é conhecido na cena musical de Salvador e pelo público baiano. Equilibrando influências de black music e algumas pitadas de blues rock, o rapaz entrega um disco interessante e com vários bons momentos para a cabeça.

Musicalmente, o que temos nesse primeiro disco de Irmão Carlos é uma sonoridade construída com muitos instrumentos eletrônicos, e que divide espaço com a pegada orgânica da banda que acompanha o protagonista. Carlos vagueia entre o funk, a disco music e, surpreendentemente, o rock com pegada blues, e o resultado é uma sonoridade que traz influências claras de nomes como Banda Black Rio, Tim Maia e Raul Seixas, além de ícones mais contemporâneos como Chico Science & Nação Zumbi.

São dez faixas, algumas delas regravações de músicas já registradas anteriormente ao lado de sua banda anterior, O Catado, mas que aos ouvidos deste escriba sulista soam inéditas e refrescantes. Com bom gosto nos arranjos e letras muito bem escritas, Irmão Carlos sai com tiradas inteligentes e aforismos que fazem pensar, tudo embalado por uma musicalidade pulsante e, na maioria das vezes, extremamente dançante.

Se você está em busca de algo legal sendo produzindo na música brasileira atual, recomendo sem medo este disco de estreia de Irmão Carlos. Não sei se ele está disponível nas lojas de todo o Brasil - espero que sim! -, mas qualquer dúvida é só acompanhar o cara pelas suas redes sociais e cair no groove.




28 de abr de 2017

Review: Criolo - Espiral de Ilusão (2017)

sexta-feira, abril 28, 2017

Kleber, ó Kleber, lá vem você com os seus larará … espera: e não é que eles são bons mesmo?

“Lá Vem Você”, faixa de abertura de Espiral de Ilusão, deixa claro em sua primeira frase a proposta do novo disco de Criolo: “lá vem você com os seus larará”. Em seu quarto álbum, o (há muito tempo não apenas) rapper paulista envereda sem medo pelo samba. Sim, o mais brasileiros de todos os gêneros musicais. Tem samba de roda, samba canção, samba de breque. Tudo com a poesia afiada e única de Criolo, repleta de surrealismo (aqui, bem menos do que em seus trabalhos anteriores) e cheia de lirismo e ironia (como sempre).

O disco, produzido por Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral, traz dez faixas. Oito delas são compostas por Criolo, uma em parceria com Ricardo Rabelo e Jefferson Santiago e também uma interpretação para “Hora de Decisão”, de Rabelo e Dito Silva. O álbum saiu nos formatos físico e digital nesta sexta, dia 28 de abril. Tá na loja, tá na rua, tá no ouvido - e tá bom demais!

Ao trilhar pelo samba, Criolo faz, ao mesmo tempo, uma aposta acirrada e uma carta de intenções. A aposta é a de não agradar uma parcela de seu público, atraído para a sua música pela embalagem entregue pelo rap. A carta de intenções é o pau na mesa, deixando claro que tem muito a dizer e que pode utilizar a plataforma musical que achar mais adequada para transmitir o que pensa. Ele tem vocabulário, tem background, tem talento para tomar uma atitude assim. E é justamente esse um dos fatores que faz Kleber Cavalcante Gomes, seu verdadeiro nome, do alto de seus 41 anos ser um dos principais nomes da música brasileira contemporânea.


Da abertura com “Lá Vem Você”, passando pelo samba delicioso “Dilúvio de Solidão” e pela crítica inteligente de “Menino Mimado”, Criolo, ao mesmo tempo em que filtra as influências de nomes consagrados do samba como Paulinho da Viola e Martinha da Vila, traz também para a mistura ecos dos melhores momentos de Caetano Veloso e Chico Buarque, estabelecendo-se em um patamar artístico até então inédito. Como dito no início do texto, Criolo está muito além do rap, distante das fronteiras do hip hop, caminhando de maneira própria através de seu próprio e peculiar universo sonoro, que vai se revelando ao público a cada novo ato.

Tanto em Nó na Orelha (2011) (ouça “Linha de Frente”) quanto em Convoque seu Buda (2014) (agora é a vez de “Fermento pra Massa), Criolo já havia colocado o samba em seu repertório, mostrando que suas influências eram muito mais amplas que a de seus pares. Mas em Espiral de Ilusão o passo que ele dá é certeiro, resultando não apenas em um disco excelente, mas também em um dos melhores álbuns de samba dos últimos anos. E isso vindo de um cara que veio, teoricamente, de outra seara musical, mas cujo talento e criatividade são capazes de demolir qualquer limitação (boba, sempre) entre gêneros musicais.

Se a carreira de Criolo até aqui já se mostrava algo não apenas gratificante de se acompanhar por tudo que ele tem a dizer e cantar, com Espiral de Ilusão temos a convicção de que esse rapaz já começou a subir, e a passos largos, a escadaria que leva ao clube dos grandes artistas desse país tropical - sofrido, engraçado e complicado, mas sempre apaixonante e cheio de esperança. 

Afinal, um pouco de ilusão é fundamental para digerirmos os absurdos cada vez maiores a que somos expostos todos os dias, né não?

26 de abr de 2017

Review: Ayreon - The Source (2017)

quarta-feira, abril 26, 2017

São dezessete músicas, distribuídas em um álbum duplo com 90 minutos de duração. Ou seja: se você não é fã de rock progressivo, de canções longas, de alternância de climas e de refinamento técnico (seja instrumental ou vocal), esse disco não é para você. No entanto, caso você seja apenas um apreciador de boa música, daqueles que não se prendem a rótulos ou gêneros específicos, o novo disco do Ayreon tem tudo para chegar e ficar na sua vida.

The Source é o nono álbum do projeto concebido e encabeçado pelo compositor, vocalista, guitarrista e multi-instrumentista holandês Arjen Anthony Lucassen. Sucessor de The Theory of Everything (2013), o disco traz uma seleção de músicos em participações especiais: James LaBrie (Dream Theater), Simone Simons (Epica), Floor Jansen (Nightwish), Hansi Kürsh (Blind Guardian), Tobias Sammet (Avantasia, Edguy), Tommy Kaverik (Kamelot), Russell Allen (Symphony X, Adrenaline Mob) e Tommy Rogers (Between the Buried and Me), entre outros, revezam-se nos vocais. Na parte instrumental, Paul Gibert (Mr. Big) encabeça uma também estrelada lista de convidados que conta com nomes como Joost van den Broek (piano e piano elétrico, ex-After Forever), Mark Kelly (sintetizador, Marillion), Guthrie Govan (guitarra, The Aristocrats e ex-Asia), entre outros.

Seguindo a tradição da banda, The Source é um álbum conceitual, com cada vocalista interpretando o papel de um personagem. A banda volta a explorar uma história de ficção científica no novo disco, e na cronologia do grupo The Source se encaixa como o prequel de 01011001, sétimo trabalho da banda, lançado em 2008. Ou seja, a história contada em 01011001 tem o seu início em The Source. O álbum marca a estreia do Ayreon em sua nova gravadora, a holandesa Mascot Label Group.

Liricamente, The Source conta a origem dos Forever, raça alienígena recorrente no universo criado por Lucassen para o Ayreon. O disco é dividido em quatro partes, quatro capítulos, quatro movimentos: The Frame, The Aligning of the Ten, The Transmigration e The Rebirth, cada um deles com pouco mais de 20 minutos de duração. No encarte do álbum, cada capítulo conta com um texto introdutório escrito pelo personagem The Historian, interpretado por James LaBrie.

Com exceção da faixa de abertura, “The Day That the World Breaks Down”, que passa dos 12 minutos, o restante das composições varia entre três e sete minutos, característica que deixa o disco mais dinâmico, facilitando a assimilação de uma obra pretensiosa sim, mas que em nenhum momento almeja ser inalcançável para ouvintes não iniciados.

A mixagem e masterização do trabalho também merecem destaque, entregando uma sonoridade atual, é claro, mas com timbres que não escondem a inspiração nos melhores momentos da história do prog, um gênero que sempre primou pela excelência técnica nos mais variados aspectos.

“The Day That the World Breaks Down”, música que abre o disco, é facilmente um dos melhores momentos de toda a carreira do Ayreon. Orgânica, fluída e dinâmica, transforma os seus mais de 12 minutos em uma sensação bem menos extensa, porém não menos intensa. Com participação de todo o time de vocalistas, é um presente recompensador para quem acompanha o trabalho da banda há tempos. E, na parte final, conta com uma mudança de clima a partir de uma passagem conduzida pelo baixo que é sensacional - só ouvindo para entender. 

Aliás, “The Day That the World Breaks Down” apresenta a proposta musical pela qual as demais faixas irão se desenvolver, trazendo influências diretas do rock progressivo setentista e também algumas coisas da cena prog da década de 1980, e adornando essa base com toques de heavy metal, hard rock e AOR. A canção que inicia o disco, e que é o seu principal alicerce, vai da cena da Canterbury até o prog AOR do Kansas, por exemplo, em uma amplitude sonora que comprova, mais uma vez, a excelente gama de influências de Lucassen. E, como é habitual nos álbuns do Ayreon, pelo menos aos meus ouvidos, o desenvolvimento da proposta apresentada se desenrola como o enredo de uma ópera, como o roteiro de uma peça de teatro, em uma abordagem musical que é sempre bastante visual. 

Por todos esses motivos, a parcela de leitores que espera encontrar em um texto como esse uma lista faixa a faixa, com as características de cada canção, ou uma seleção dos momentos preferidos do autor, poderá se sentir frustrado. Pois, no meu entendimento, The Source, assim como todo bom disco de rock progressivo, não pode ser avaliado através de enxertos, de faixas isoladas, mas sim como um todo. E, nesse sentido, Arjen Anthony Lucassen segue sendo, com justiça, um dos nomes mais celebrados do prog, do prog metal ou seja lá de qual maneira você prefira chamar a sua música.


Um disco excelente e que, certamente, será uma bela companhia durante todo o ano.

25 de abr de 2017

Review: Vários Artistas - Sem Palavras (2017)

terça-feira, abril 25, 2017

No release de Sem Palavras, o jornalista Leonardo Vinhas, produtor executivo do projeto, cita uma declaração de João Donato, na qual o músico brasileiro declara que “letra é coisa que a indústria da música inventou para ajudar a vender disco”. Não deixa de ser verdade, mas também está longe de ser uma revelação fundamental e que vá mudar o seu jeito de consumir música.

Sem Palavras é o novo lançamento do Selo Scream & Yell, braço do site comandado pelo jornalista Marcelo Costa desde o início dos anos 2000 - acessa lá. O disco traz doze bandas brasileiras, pouco conhecidas do grande público em sua maioria, fazendo releituras instrumentais para canções de grandes nomes como Astor Piazzolla, Iron Maiden, Black Sabbath, Ramones e mais um monte de gente. Isso mesmo: sem versos, sem letras, sem palavras. Só acordes e arranjos e notas e ideias expressos através da interação entre os instrumentos. Um trabalho bastante original e que você deveria tirar um tempo para ouvir.

Conheço pessoas que não conseguem conceber a música sem vocais. Acho isso uma limitação a qual qualquer indivíduo que diz gostar de música deveria ser imune. E não tem nada de elitista ou algo do tipo nessa conclusão. Assim como “música instrumental” não é um gênero, limitar-se a um estilo ou formato de expressão musical me parece tolo e superficial. 

O que temos em Sem Palavras, como já dito, é um trabalho de uma riqueza sonora apaixonante, onde ideias nascidas em um país distante como a Inglaterra, por exemplo, ganham novos contornos através de um músico do interior do Rio Grande do Sul para quem o Iron Maiden significa tudo e mais um pouco - mesmo esse cara não tocando heavy metal, mas sim música tradicionalista gaúcha. Essa é a ideia, esse é o caminho.


Ao se deixar impactar por algo tão belo e tocante, você acaba se permitindo experimentar outros sons através de uma plataforma que não é exatamente a convencional pela qual a música chega aos ouvidos de grande parte do público hoje em dia - três minutos, melodias derivativas e um refrão pegajoso, só pra constar. Entre as doze faixas de Sem Palavras tem rock, tem pop, tem fusion, tem jazz - tem tudo. E tudo muito bom, o que torna a digestão do disco suave e redonda.

Há destaques, é claro, como em qualquer forma de expressão artística. No entanto, fico aqui com os meus preferidos, guardo as faixas que mais gostei para mim enquanto espero você descobrir quais são as suas. É por aí que a coisa funciona: cada um traz o seu background, a sua história na música, e com ele vai caminhando para diferentes trajetos - alguns familiares, outros desconhecidos e hipnotizantes.

Sem Palavras é um projeto importante por documentar a riqueza da música brasileira atual, seja ela instrumental ou não. Ouça, conte para os amigos, faça esse disco chegar ao maior número de pessoas possível. Elas irão lhe agradecer pelo presente.

Faixas:
1 Ruído/MM - Buenos Aires, Hora Certo (Astor Piazzola)
2 Yangos - The Trooper (Iron Maiden)
3 Esperando Rei Zula - Always On My Mind (Brenda Lee)
4 Muntchako - Emoções (Roberto Carlos)
5 Pata de Elefante - Monkey Man (Rolling Stones)
6 Os Skrotes - Black Sabiá (Symptom og the Universe) (Black Sabbath)
7 Magabarat - The Telephone Call (Kraftwerk)
8 Félix Robatto - Wipe Out
9 Camarones Orquestra Guitarrística - Private Idaho (The B-52’s)
10 Terremotor - Baja (The Astronauts)
11 Mauricio Candussi - Chacarera de las Piedras (Atahualpa Yupanqui)
12 Camarones Orquestra Guitarrística - Rockaway Beach (Ramones)




12 de abr de 2017

Review: Deep Purple - Infinite (2017)

quarta-feira, abril 12, 2017

Infinite é o vigésimo álbum de estúdio do Deep Purple, e uma adição surpreendentemente bem-vinda a uma discografia que já namora a marca dos três dígitos. Surpreendente porque, do alto de seus 49 anos de carreira (a banda foi formada em 1968), o lendário grupo segue lançando discos interessantes e que mostram que os músicos ainda possuem combustível para queimar. Quem escutou o trabalho anterior, Now What?!, de 2013, já havia percebido a boa fase do quinteto, que se mantém em Infinite.

Produzido por outro veterano da indústria, o canadense Bob Ezrin (um dos mais renomados produtores da história, responsável por clássicos de nomes como Kiss, Pink Floyd, Kansas e inúmeros outros), Infinite vem com dez faixas, incluindo entre elas uma inusitada versão para “Roadhouse Blues”, clássico do The Doors. Pra quem não acompanha o Deep Purple há alguns anos e não sabe como as coisas estão, ao lado Ian Gillan (vocal), Roger Glover (baixo) e Ian Paice (bateria) temos Steve Morse (guitarra, no grupo desde 1994 no posto anteriormente ocupado pelo temperamental Ritchie Blackmore) e Don Airey (teclado, substituto do falecido Jon Lord). Um time de respeito e muito azeitado.

Mesmo que as apresentações mais recentes do Purple tenham mostrado alguns problemas naturalmente vindos com a idade (a voz de Gillan não é mais a mesma e Paice ainda se recupera de uma isquemia), em estúdio esses percalços não tem vez e a banda soa criativa e na boa. É claro que estamos falando de um grupo com dois integrantes com mais de 70 anos, e cujo caçula (Morse) já está com 62 anos de idade, então não dá pra esperar a explosão sonora do passado. Porém, isso está longe de ser um problema. Usando a experiência a seu favor, o Purple repete a fórmula de Now What?! e entrega um disco gostoso de ouvir.


Em relação ao último disco, Infinite soa mais direto ao ponto, enquanto o anterior tinha passagens mais experimentais e que não agradaram a todos. Aqui, o papo é o hard sempre refinado do quinteto, rico em performances instrumentais acima de qualquer suspeita e que pega direto na memória afetiva. Você não vai ouvir um novo Machine Head, nem um novo Burn e muito menos um novo Perfect Strangers, até porque a banda já gravou esses discos e disse o que queria dizer naquelas canções. Mas você ouvirá um novo álbum forte e pulsante, um fato raro para uma banda com quase cinco décadas de carreira e que ainda sente a necessidade não só de se expressar artisticamente, mas até mesmo de se desafiar musicalmente.

Lançado em 7 de abril passado, Infinite tem recebido reviews positivos, e esse texto engrossa o coro. Ainda que uma parcela de ouvintes de música, sempre mais interessados na última novidade em evidência e deixando muitas vezes de lado a qualidade, prefiram se perguntar o porque de o Purple ainda gravar um álbum de inéditas a essa altura da carreira ao invés de curtir o merecido descanso, esse questionamento se responde sozinho em uma simples audição do disco. E vale lembrar outro ponto: bandas como o Deep Purple não possuem apenas músicos que estão na estrada há décadas, mas também fãs que acompanham o grupo há tanto tempo quanto. Afinal, se músicos de gêneros como jazz e blues registraram alguns de seus melhores momentos já na aurora de suas trajetórias, por que artistas de rock também não podem fazer o mesmo?

Infinite é, em suma, um disco honesto de uma banda que não precisa provar ou mostrar ou justificar nada. O negócio aqui é apenas música, verdadeira como ela sempre deve ser. Sem forçar e sem querer soar o que não é, o Purple inseriu mais uma bela adição ao seu catálogo.

Vale a pena ouvir!

22 de fev de 2017

Review: Edenbridge - The Great Momentum (2017)

quarta-feira, fevereiro 22, 2017

O nono álbum da banda austríaca de metal sinfônico Edenbridge, The Great Momentum, foi lançado com a excelência do selo Lanvall de qualidade. Posso estar enganado, mais o multi-instrumentista Lanvall (pianista, guitarrista, baixista, violinista e sabe-se mais lá o quê) deve ter sido aquele menino que passou a infância ouvindo e estudando música clássica, jazz e tinha um poster do Iron Maiden na parede do quarto.

Lanvall faz do seu Edenbridge um daqueles tipos de sons que dá vontade de ouvir sem cansar, onde todo o peso colocado nas canções é sempre meticulosamente equilibrado com a melodia e harmonia, sem tirar nem por. Aqui nem um som é em vão, não há nenhuma "barulheira" nem "gritaria", tudo é muito bem composto, arranjado por ele e entoado e cantado pela regularíssima vocalista Sabine Edelsbacher, uma daquelas cantoras que com seu timbre aveludado na nota alta e na baixa nos despertam a vontade de ouvi-las cantar da noite até amanhecer o dia.

E assim é o álbum The Great Momentum já na primeira canção "Shiantara", aquela música certeira, para abrir o disco sem erro. Na segunda, "The Die Is Not Cast", a coisa pesa um pouco mais, mas não menos elaborada, com Lanvall aplicando bons acordes de violão no seu decorrer.

Como nada ou quase nada é perfeito, a terceira música, "The Moment is Now", é o ponto fraco deste trabalho. Não que seja uma música ruim, mas fica aquém do todo, talvez Lanvall estivesse com sono ou cansado ao compô-la, fazendo uma água com açúcar dispensável e infelizmente foi um susto quando justamente essa música deu vida a um videoclipe ainda nesta semana. Felizmente todas as outras canções são bem melhores.

A quarta faixa é uma música lenta belíssima, na qual Sabine ganha a companhia ao microfone do cantor  Erik Martesson, da banda sueca Eclipse, com Lanvall novamente abusando de seus rebuscados arranjos ao piano guitarra e violão. Sequenciando, "The Visitor" nos traz uma canção mais rápida e com bela vocalização de Sabine e um marcante coral. A próxima, "Return To Grace" é a maior pancada do disco, aqui a dupla Lanvall e Dominik Sebastien discorrem suas habilidades como exímios guitarristas.

Seguindo com "Only a Whiff Of Life", predominantemente voz e piano, um duo que dá extremamente certo no Edenbridge, com Sabine e Lanvall, a exemplo do que fizeram no projeto de ambos "Voiciano".

O seguimento final é a parte mais sinfõnica propriamente dita deste álbum e que nos traz as duas mais longas músicas. A penúltima, "A Turnaround in Art", se inicia com um riff imponente temperado com a orquestração, desembocando na voz de Sabine, que entoa uma melodia inebriante e bonita. Aqui o peso e o lírico casam perfeitamente.

A canção "The Greatest Gift of All" é a mais longa de todas e fecha a obra magistralmente, fazendo a linha de "Arcana", clássico do grupo do álbum homônimo de 2001. Esta é uma canção completa, com todos os bons elementos inerentes ao Edenbridge, o belo canto de Edelsbacher, a orchestração impecável e as inúmeras váriações de andamento que Lanvall sabe fazer como ninguém.

Concluindo, The Great Monentum é, acima de um ótimo álbum de symphonic metal, um disco de música de alta qualidade.

Lanvall não erra, apenas comete pecadilhos (tais como a terceira faixa).


Por André Floyd, da Confraria FloydStock

15 de fev de 2017

Review: Nick Lera - Nick Lera III (2017)

quarta-feira, fevereiro 15, 2017

Ao pensarmos no rock gaúcho, os primeiros nomes que surgem são Engenheiros do Hawaii, Garotos da Rua, DeFalla, Replicantes e alguns outros que vieram na segunda geração de bandas reveladas pelo estado e que conquistaram o Brasil - pega aí: Nenhum de Nós, Papas da Língua, Acústicos & Valvulados, Júpiter Maçã e Cachorro Grande.

No entanto, ao mensurar a influência que a geração de bandas surgida nos anos 1980 teve sobre a maneira de se fazer rock and roll no Rio Grande do Sul, uma banda está no topo e até hoje serve de referência maior pra todo mundo: o TNT. Formada em Porto Alegre em 1984 e contando com músicos como Charles Master (vocal e guitarra), Luís Henrique “Tchê" Gomes (guitarra), Márcio Petracco (guitarra), Felipe Jotz (bateria), Flávio Basso (vocal e guitarra,  futuro Júpiter Maçã), Nei Van Soria (guitarra) e outros, o quarteto construiu todos os arquétipos que são associados até hoje com o rock vindo do sul. Canções com estrutura básica, grande influência de rock inglês, refrãos fortes, o riff de guitarra como eixo principal, letras diretas e descomplicadas e inspiração clara em nomes como Beatles, Rolling Stones, The Who, The Kinks e toda a turma responsável pela invasão britânica de meados da década de 1960.

Esse legado é levado adiante por bandas como o Nick Lera. O trio formado por Fernando K. B. Lera (guitarra e vocal), Matheus Signor (baixo e vocal) e Mateus Spada (bateria e vocal) chega ao seu terceiro disco mantendo o melhor de sua identidade, mas também arriscando em novos caminhos sonoros. As dez faixas do trabalho trazem os integrantes se revezando nos vocais principais, ainda que o predomínio seja de Fernando na maioria das faixas. O rock direto e contagiante na linha de TNT dá o tom na maioria das canções, que trazem letras que falam principalmente sobre relacionamentos. Com essa pegada, os destaques vão para a grudenta “Vai Embora”, a melodia fácil de “Todas as Noites”, “O Meu Lugar” e “Hey Man”.


Como já havia feito no disco anterior, a banda varia o tom ao apostar em baladas bem construídas e que exploram uma ar mais contemplativo, como podemos ouvir na dobradinha “Sem Você” e “A Sua Ausência”. E ainda temos “Tão Feio”, que trilha as estradas do country rock com influência direta dos Cowboys Espirituais (não por acaso, liderada pelo ex-TNT Márcio Petracco).

Gostei muito do contraste entre as vozes de Fernando e Mateus. Enquanto o guitarrista segue mostrando diferentes nuances de seu timbre, o baterista conseguiu incluir uma dinâmica muito interessante com a sua voz, que possui um tom mais alto e vem com uma interpretação forte e com personalidade.

Ainda que pequenas variações na produção e nos timbres dos instrumentos sejam percebidos em uma ou outra faixa, Nick Lera III mostra uma banda seguindo atrás do seu sonho. Em um mundo que a cada dia exige mais de cada um de nós e em troca vai comendo o aspecto lúdico e sonhador tão fundamental para seguirmos em frente, ver o esforço de uma banda como Nick Lera em acreditar no seu propósito mesmo estando longe demais das capitais é inspirador. 

Rock direto ao ponto, honesto e verdadeiro: para alguns isto pode soar fora de moda, mas basta ouvir este novo álbum do Nick Lera para vermos o quanto ele ainda faz uma diferença danada em nossas vidas.


9 de fev de 2017

Review: Amaro Freitas - Sangue Negro (2016)

quinta-feira, fevereiro 09, 2017

Rompendo com a toada do lugar comum de tentar traduzir a música popular pelo viés erudito, pianista pernambucano propõe em Sangue Negro, seu disco de estreia, uma inversão de diretrizes, orientando o erudito através do popular

Para se perpetuar, a tradição acaba, repetidas vezes, por assimilar a modernidade, incorporando elementos contemporâneos ao legado histórico da cultura já produzida. O intento é o de promover uma ruptura com os aspectos obsoletos desta, tornando o tradicional coerente e passível de compreensão para as novas gerações. Isto, porém, nunca foi trabalho fácil, ou mesmo frutífero, não importa a esfera, seja na social ou na artística.

Caso icônico é o do desbunde do southern rock nos fins da década de 1960 e início da década de 1970. Um dos mais interessantes fenômenos culturais de sua época, o rock sulista norte-americano surgiu buscando uma interface entre a celebração e o respeito ao tradicional e a assimilação aos avanços progressistas conquistados no âmbito social, lançando fora os ranços do racismo e da homofobia, por exemplo, enquanto que no campo sonoro absorvia, sem preconceito, as inovações musicais vigorosas propostas à época. Nascia então, uma novíssima e exclamativa geração, orgulhosa de sua própria história, mas que mantinha-se crítica quanto aos aspectos vis desta. Uma geração que cultuava o que de glorioso havia em seu passado, enquanto buscava limar seus contornos infames.

No Brasil, o surgimento da bossa nova, o samba "maculado" pelo jazz nos anos 1950 e 1960 e de toda a leva de nordestinos malucos que durante a década de 1970 resgataram a magia e o mistério da música, poesia, estética e folclore nativos, ligando-os diretamente e bem alto no amplificador e filtrando-os no vigor viril do rock, são também modelos mais que notáveis e bem-sucedidos do duro empreendimento que é levar o passado de volta ao futuro.

Tempo presente. Apesar de ser nordestino, meu interesse pela música regional de minha região natal floresceu apenas tardiamente e de maneira quase casual. Explico. Ganhando de surpresa a tarde livre, pus-me a vaguear pelo meu amadíssimo Recife Antigo (bairro da capital pernambucana e principal centro histórico desta). Por ocasião de estar exatamente pelas redondezas da Praça do Arsenal, lembrei-me de um espaço de que muito me haviam falado e cuja localização era precisamente em frente a esta praça: o museu Paço do Frevo, que como o nome dá a indicar, é dedicado à preservação e difusão deste importantíssimo monumento cultural. Fui conhecer o espaço e através de seu rico acervo audiovisual, musical e literário, adquiri um vislumbre muitíssimo mais amplo não apenas no tocante ao frevo, como também a tudo que está relacionado a manifestações culturais populares, música regional e expressões artísticas nativas.

Tive ainda o prazer de naquela tarde da graça assistir a deliciosos números instrumentais de compositores históricos - que vergonhosamente me eram desconhecidos - executados magistralmente por uma galera jovem, cheia de fogo e vontade. Entre estes tais temas instrumentais, dança. As anfitriãs da festa não poderiam ser melhores para a ocasião: a bela saxofonista Mai Taguchi (uma jovem japonesa que após estudar durante um ano o nosso idioma em seu país de origem, veio para Pernambuco conhecer o frevo in loco) e outra flor do Paço - flor de graciosidade e de nome, a beldade pernambucana Maria Flor.

Enquanto a primeira arriscou uns passos numa divertida performance - após apenas 4 horas de aula! -, a divina Flor recifense, que além de grande dançarina é uma talentosa cantora, nos presenteou com uma atuação que deslumbrava por sua intensa carga dramática, cênica e expressionista. Um deleite. Tornei-me frequentador costumaz do ambiente - conforme o tempo me permitia, é claro -, e além de encontrar nas instalações do museu o material de pesquisa necessário para prestar reverência aos mestres, pude também entrar em contato com a música de toda uma turma jovem que mantém a chama da música regional acesa e pulsando frêmita e latentemente através da chamada Hora do Frevo (programa no qual o museu abre espaço para a música instrumental e que ocorre nas sextas-feiras ao meio dia).


Aqui tive o prazer de assistir shows impressionantes de gente incrível como o flautista Fabinho Costa, o sanguíneo e carismático sanfoneiro Johnanthan Malaquias, o vigoroso e preciosista bandolinista Rafael Marques ... e o Amaro Freitas Trio (Amaro Freitas no piano, Jean Elton no baixo acústico e Hugo Medeiros na bateria) no apoteótico show de pré-lançamento do álbum enfocado nesta resenha. De fato, a tal ponto fiquei impressionado com a apresentação dos rapazes, que cheguei inclusive a escrever uma resenha sobre a mesma.

Isso ocorreu em julho do ano passado. Desde então, passaram-se meses, o disco foi lançado, angariando de imediato merecidíssimas avaliações elogiosas dos veículos especializados em cultura, além de lograr premiações como o MIMO de música instrumental em 2016. O trio apresentou-se também no Vivo Open Air - que inclusive contou com Pepeu Gomes em sua grade de atrações.

Chegada, finalmente, minha hora de avaliar este trabalho, sinto-me obrigado a começar com um breve olhar sobre a persona musical de Amaro Freitas, que é sem dúvida alguma, um dos expoentes da nova safra de grandes talentos da música brasileira. Amaro conecta dimensões. Músico de formação erudita (estudou piano no Conservatório Pernambucano), o olindense é dotado de sanguínea verve musical essencialmente tribal, sendo também possuidor de raro senso melódico. Como poderia haver convergência entre dimensões tão disparatadas mostra-se um assunto capaz de render muita deliberação.

Uma questão desafiadora. A tal verve musical essencialmente tribal é nobre herança africana da qual muitos usufruíram, porém poucos souberam fazer uso. Acontece que é energia pura, rústica, vibrante, selvagem mesmo, sendo portanto difícil de canalizar. Dentre os que obtiveram sucesso nisto, basta mencionar James Brown, Jorge Ben, Miles Davis e Herbie Hancock para que se possa ter uma ideia do imbróglio. Em intersecção com estes, Amaro possui o centralizador do método, da organização racional e teórica e conhecimento intelectual, como também o talento de conseguir pesar os dois de maneira que este não aja como um agente pasteurizador em relação ao outro, minando sua intrínseca chama latente. 


O senso melódico, que advém do ideal disciplinado em busca da perfeição estética da canção, é um outro elemento que ocorre num sentido instintivo, mas que devido às circunstâncias que necessita para existir, nem sempre anda junto com o ímpeto do tribal. Uma vez que tudo clica na persona do músico, temos diante de nós um espécime tão raro quanto excêntrico.

Sorte que soube aproveitar seus talentos optando pelo nobre caminho dos criadores, não emulando o que já foi produzido (lugar comum no mainstream da música brasileira), mas fazendo uso das referências para engendrar algo novo, fresco. 

O pensamento que por fim nos acompanha durante toda a audição do trabalho é o de que bem no momento em que havíamos achado que a surreal novela da música relevante e com potencial para a eternidade produzida no Brasil tinha terminado, de surpresa, surge Amaro para escrever seu capítulo. E ele não é o único. Há uma revolução sorrateira acontecendo bem debaixo dos nossos narizes, amigos! 

Sangue Negro divide-se basicamente em dois blocos distintos. No primeiro destes, o trio atém-se a fornecer novo fôlego a usuais formas sonoras.

A produção exemplar, que ficou a cargo do renomado pianista e arranjador Rafael Vernet - que já trabalhou com gente como Chico Buarque, Hermeto Pascoal, Roberto Menescal e Zé Renato -, chega a flertar com o  minimalismo, tamanha a sua clareza mercurial, e conseguiu a proeza de pôr em evidência de maneira equânime cada um dos componentes da enxuta estrutura: o singular baixo pulsante, a exímia bateria esgueira e o piano exuberante e excêntrico de Amaro.

Tudo isto encontra lugar logo no começo, com a catarse que ocorre em "Encruzilhada", a primeira faixa do trabalho, onde referências, citações e alusões são fragmentadas e remodeladas formando assim ecos que ressoam com familiaridade em torno da desconcertante independência de espírito do trio.

Apesar de familiar, trata-se de um caso curioso: o trio filtra o jazz pelo frevo, sendo que usualmente a maioria persegue a direção oposta, tentando traduzir a música popular através do viés erudito. Aqui há basicamente a apropriação da estrutura jazzística pelo popular, quase um desmembramento da arquitetura sonora erudita com o frevo tomando as rédeas, o que configura um exercício de bem-vinda petulância - o também pernambucano quarteto Arranha Céu é outra proeminência a atuar nesta via sonora, só que há uma diferença fundamental na abordagem: enquanto a apropriação de Amaro é pautada pelo domínio, o Arranha Céu atua num sentido quase humorístico, obtendo um resultado tão irrepreensível quanto o de seu par.

"Norte", a faixa seguinte, mais parece uma reflexão musicada, sendo dona de beleza rara, esteta em sua arquitetura perfeita e de sensível apelo singelo, quase palpável. O rico senso do belo é também a essência de "Subindo o Morro", linda, lindíssima composição que traduz com comovente perfeição uma paisagem familiar a qualquer pernambucano: o passo lento ao subir as ladeiras da poética e vibrante Olinda num dia qualquer ou mais especialmente em um crepúsculo de carnaval, com o mar lá em baixo, que tanta coisa expressa no movimento brando de suas águas formando um relevo que quase lembra uma superfície encarpada. "Subindo o Morro" soa como a melhor canção que Tom Jobim teria composto caso tivesse tido Herbie Hancock como uma de suas influências decisivas.

"Samba de César" vem em seguida, e traça desconcertante ponte entre a sonoridade desenvolvida por artistas de selos independentes de jazz dos anos 1970, como a Black Jazz Records, Nimbus Records e Strata Records, e o samba, no momento que juntamente a "Norte", constitui a fração mais pop do registro.

Respeitando o sábio ditado de que o melhor fica para o final, temos agora o segundo bloco do álbum, que inicia-se com "Estudo 0", que bem pode ser considerado o primeiro ápice antes do clímax final, a derradeira faixa do registro, subsequente a esta e canção que dá nome ao disco, a descomunal "Sangue Negro”.

"Estudo 0", composição do baterista Hugo Medeiros, é um número imponente, elegante, e certamente o momento de apelo mais amplamente universal do trabalho. Deslumbrante, o tema conta com as intervenções de muito bom gosto dos mais que especialíssimos convidados Fabinho Costa (trompete) e Eliudo Souza (Saxofone), encontrando seu remate num decisivo final suspenso.

Temos por fim, a faixa título que é a culminância da persona sonora da músico.
Um singular free-jazz de envolvente atmosfera soturna, como uma noite com lua minguante e céu meio nublado. Desafiadora, a canção ascende à apoteose com os arroubos apoteóticos oriundos da convergência entre um bebop de compasso esquizofrênico e o maracatu. Misteriosa e sugestiva, "Sangue Negro" assim como "Estudo 0", já nasceu clássica, conseguindo uma proeza que eu pessoalmente pensava ser irrealizável: a versão aqui presente consegue ser superior à apoteótica versão apresentada no show de pré-lançamento do álbum, vivamente preservada em minha memória desde aquela memorável tarde. As participações de Fabinho Costa e Eliudo Souza contribuem decisivamente para o engendrar desta epifania sonora, acentuando os climas e enriquecendo as texturas. 

Encerra-se então esta inesquecível transa com um delicioso orgasmo duplo. Só existe um porém que abala a perfeição deste registro, que é a ausência de "Composição Para Gaveta N°5", esplêndido comboio sonoro de autoria de Hugo, apresentado no show de pré-lançamento. Ademais, uma observação válida é de que por mais que este álbum seja impecável, a verdadeira extensão do poderio sonoro do grupo, com todo o seu sangue e suor, só pode ser desfrutado inteiramente numa experiência ao vivo.

Ao término da audição deste incendiário disco, ficamos com a certeza de termos experimentado o fruto de um exercício de quase radicalismo. O fato é que em Sangue Negro Amaro oferece um ponto de vista particular sobre música, que não muita relação possui com o trabalho de seus pares contemporâneos ou mesmo com a obra de mestres reverenciados. Sangue Negro é Amaro Freitas se mostrando ao mundo, e o primeiro passo de um longo caminho que ainda tem à frente.

Encerro enfim esta matéria usando a fração final da resenha que escrevi de seu memorável show (for sentimental reasons, como diria Sam Cooke): o que encanta no final é a consciência de se ter presenciado um artista que, lidando com um mix de gêneros com tradições definidas e consolidadas, as respeita ao passo que não se furta de buscar um caminho novo, um caminho seu.

Amaro Freitas e crew não são apenas músicos talentosos: são agora uma esperança.

Por Artur Barros

ONLINE

PAGEVIEWS

PESQUISE