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2 de jul de 2017

Review: For Those About to Rock: La Historia de Rodrigo y Gabriela (2014)

domingo, julho 02, 2017

For Those About to Rock: La Historia de Rodrigo y Gabriela é um documentário de aproximadamente 90 minutos que conta a história da dupla de violonistas mexicanos Rodrigo Sanchez e Gabriela Quintero. O filme foi lançado em 2014 e tem direção de Alejandro Franco. O doc está disponível no catálogo da Claro Filmes dentro do NOW, serviço de TV on demand da NET.

A dupla ficou conhecida pelo grande público através das versões acústicas e instrumentais para temas consagrados do heavy metal, como "Orion", do Metallica. Mas a trajetória de ambos é fantástica, e o filme revela isso de maneira muito competente. 


O início contextualiza a cena mexicana de rock, fala da proibição do gênero no país por vários anos (algo que eu, honestamente, não sabia) e conta como a dupla de protagonistas se interessou por música. A associação de ambos com o metal é antiga, com participações em bandas de relativo sucesso local. No entanto, a falta de reconhecimento em uma cena lotada de bandas similares levou Rodrigo e Gabriela, a essa altura já parceiros também na vida, a buscar outra alternativa para viver de música, criando algo original e sem paralelo.

O que o filme deixa claro é a absoluta paixão de ambos pela sua arte. Do início tocando em festas de casamento, bares, hoteis, até o sucesso mundial, isso é algo que se mantém constante. A ida para a Europa, primeiramente em Dublin, em busca de novas oportunidades, revelou-se um enorme desafio, mas que aos poucos foi abrindo portas. A virada definitiva se deu após a abertura de um show de Damien Rice, que antes da fama assistia à dupla tocando nas ruas de Dublin e os apresentou ao grande público.


Rodrigo, com seu estilo elegante influenciado por nomes como Paco de Lucia, Al Di Meola e John McLaughlin, é um músico incrível, e que encontrou o seu complemente na sanguínea Gabriela, cuja inquietude levou à concepção e ao desenvolvimento de uma nova técnica de tocar o instrumento. A história de ambos é linda e inspiradora.

Com depoimentos de músicos como Al Di Meola, Robert Trujillo e Alex Skolnick, For Those About to Rock: La Historia de Rodrigo y Gabriela é não apenas um ótimo documentário, mas, sobretudo, um exemplo de como é importante acreditar em si mesmo e nos próprias ideais.

Se você gosta de música, corra já para assistir.

9 de fev de 2017

Review: Stream of Passion - Memento (2016)

quinta-feira, fevereiro 09, 2017

Formado em 2005 pelo virtuoso guitarrista Arjen Anthony Lucassen (Ayreon, The Gentle Storm), o grupo holandês Stream of Passion lançou naquele ano o seu álbum de estreia, Embrace the Storm, trazendo todas as melodias compostas por Lucassen e as letras de uma soprano mexicana de linda beleza e voz, chamada Marcela Bovio.

De lá pra cá o sexteto se modificou. O próprio Lucassen deixou o grupo, indo se dedicar com maior afinco ao seu projeto de metal progressivo, o Ayreon. Todavia, e felizmente, Marcela ficou e nunca sairia até o fim da banda, anunciado em abril do ano passado via Facebook.

Mas faltava um ato final, um gran finale, um epílogo para fechar o legado. Ele veio com um show irretocável (ou quase), em Amstelveen, Holanda, no mês de setembro passado, registrado e lançado em um CD/DVD intitulado Memento, que chegou em dezembro último.

Disse quase irretocável apenas por lamentar as ausências de três excelentes canções: "Passion", (do álbum de estreia supracitado), "Run Away" e "Games We Play” (ambas do disco seguinte, The Flame Within, de 2009). Excetuando-se tal observação, o registro é de se tirar o chapéu, com toda a congratulação. Todas as outras grandes canções do grupo estão presentes, com direito a duas na língua espanhola - idioma pátrio da frontwoman Marcela Bovio , "Nostalgia" e "Delírio", músicas lindas para se apreciar com máxima atenção e concentração.

O espanhol também pode ser ouvido em diversos outros momentos da apresentação, tais como o prólogo que Marcela faz ao iniciar a execução de "Lost", uma das melhores composições do Stream of Passion, senão a melhor.

A apresentação ainda trouxe dois ótimos covers: "Street Spirit", sucesso do Radiohead, em excepcional versão metal sinfônica, e "I Have a Right", do grupo Sonata Arctica. Vale destacar a ótima performance dos músicos, sobretudo o baterista Martijn Peters e da dupla de guitarristas Eric Hazebroek e Stephan Schultz.

A prima donna ruiva Marcela Bovio é um capítulo inteiro à parte. Cantora de mão cheia tanto para os timbres lascivos e agressivos do rock bem como para a maciez lírica do canto clássico (e ainda toca violino), sem contar o carisma, simpatia e sua aura latina que facilita - e muito - o seu lidar com o público.

A banda navegou seu gothic e symphonic metal progressivo por toda a apresentação num clima de absoluto fervor e uma atmosfera intensa, contudo pairando a angustiante sensação de perda, aquele clima de que tudo se esvairá e chegará ao fim, ou seja, um conceito tematizado pela própria banda em boa parte de suas obras. Tudo soou perfeito.

Vale a pena ver, ouvir e ter na coleção.



15 de dez de 2014

Anthrax - Chile on Hell (2014)

segunda-feira, dezembro 15, 2014
Com todo respeito aos integrantes da banda, as verdadeiras estrelas do novo DVD do Anthrax são os 5.500 fãs chilenos que estiveram presentes no Teatro Caupolitan, em Santiago, no dia 10 de maio de 2013. A participação do público é ativa e em alto volume, tanto literal quanto emocionalmente. 

Promovendo o EP Anthems, o quinteto tocou um set de 18 faixas, incluindo cinco covers - com direito à clássica “Raining Blood”, do Slayer - e nenhuma canção do período John Bush, em uma performance cheia de energia e entusiasmo.

Ainda que possa se questionar o retorno de Joey Belladonna, muito mais uma jogada conveniente para todos do que qualquer outra coisa, sua participação é poderosa durante o show, tanto nas canções de Worship Music quanto em clássicos como “Caught in the Mosh”, “Deathrider” e “Madhouse”.

Assistir a esse vídeo dá uma prazerosa sensação de ciúmes por não estar presente. E isso é um tremendo elogio.

Nota 7

Por Paul Brannigan
Tradução de Ricardo Seelig
Texto publicado na edição #265 da Metal Hammer

13 de fev de 2014

Lamb of God: crítica do documentário As the Palaces Burn (2014)

quinta-feira, fevereiro 13, 2014
A única palavra possível de ser utilizada para descrever o novo documentário do Lamb of God, As the Palaces Burn, é a mesma usada para definir o som da banda: pesado. E, é claro, aplicada com um sentido diferente.

Eu cobri o julgamento de Randy Blythe a partir do momento em que ele foi preso, em agosto de 2012. Imediatamente, houve muita confusão e falta de informação sobre o que estava acontecendo, principalmente devido à barreira da língua. O julgamento de Blythe só estava sendo relatado pelos jornais checos, e com recursos limitados. Assim, eu e muitos jornalistas especializados em metal fomos forçados a utilizar ferramentas de tradução online para infomar fãs e leitores. Neste sentido, este documentário faz um trabalho incrível preenchendo todas as lacunas e espaços em branco sobre o caso, proporcionando a versão verdadeira da história.

O filme começa com um perfil sobre o Lamb of God e depoimentos de um fã colombiano e uma fã indiana, que discutem o impacto que a música da banda teve sobre eles. Adoro assistir histórias sobre a força do heavy metal em todo o globo, então essa parte foi emocionante para mim. Vemos também o Lamb of God viajando pela Europa e os enormes públicos que assistem o grupo tocar. Só aproximadamente aos 40 minutos do documentário é que chegamos no cerne da história, e o filme tem o início do seu segundo ato. Não vemos Randy ser preso, mas assistimos a um relato em primeira mão do resto da banda sobre tudo que aconteceu.

Enquanto o grupo se mantém relativamente calmo durante o julgamento, as emoções que os músicos sentiram durante todo o processo são derramadas neste documentário. O filme acompanha os quatro músicos restantes no período em que Randy estava tentando ser libertado mediante fiança, e mostra o turbilhão que tomou conta da vida de cada um. As câmeras estavam lá, acompanhando tudo. Elas mostram a banda escolhendo itens para leiloar e levantar fundos para libertar Blythe. Elas estavam lá quando os músicos receberam Randy no aeroporto após ele ser finalmente libertado, e esse é um dos momentos mais emocionantes do filme. Assistimos ao primeiro show do Lamb of God após todo o processo, no Knotfest (festival criado pelo Slipknot), e vemos o quão emocionante foi para Randy.

E, enfim, chegamos ao fatídico julgamento de Blythe na República Checa, com as câmeras mostrando uma quantidade enorme de imagens. Elas mostram os advogados do vocalista se preparando para o caso e como eles orientaram o cantor. Assistimos tudo de dentro do tribunal. Randy dá testemunhos honestos sobre como teme por sua liberdade. Certas testemunhas não são mostradas, apenas ouvimos os seus depoimentos, ajudando a montar o quebra-cabeças de um processo assustador. É uma história incrível sobre um dos maiores acontecimentos do metal na última década.

A parte mais reveladora acontece quando um fã fala ao tribunal e revela que o homem que aparece caindo do palco no vídeo utilizado como prova não era Daniel Nosek (cuja morte levou ao julgamento de Blythe), mas sim outro adolescente que estava no show e depõe defendendo o vocalista. Uma virada incrível, e que mudou totalmente o rumo do julgamento.

Assistimos também a declaração final do tio de Daniel Nosek, cuja fala é pra lá de emocionante. Ele deu um poderoso discurso onde defende que Randy, em última análise, não era totalmente responsável pela morte do jovem, mas que isso não impedia que a sua família sentisse uma dor imensa pela morte de Daniel. As câmeras capturam a declaração final de Blythe e a incerteza que o músico e seus advogados tinham sobre ele ser considerado culpado ou inocente.

Um dos momentos mais fortes do documentário acontece quando o veredito é lido. Inicialmente, Blythe mostra-se confuso devido à barreira da língua, não entendendo o que foi decidido, mas então seu advogado se inclina e informa-lhe a boa notícia. O momento exato em que Randy é enfim declarado inocente torna-se ainda mais forte devido à excelente trilha, composta pelo guitarrista do Lamb of God, Mark Morton.

A grande questão é: você deve assistir a esse filme? Se você acompanhou o julgamento, sim. Se você é um fã do Lamb of God, é absolutamente necessário que você assista ao documentário. Este julgamento é algo que será falado durante um bom tempo e aqui está o relato até agora mais contundente e definitivo sobre o calvário que a banda atravessou. O filme mostra um olhar incrivelmente honesto sobre o que aconteceu com o grupo e a montanha-russa vivida pelos músicos e pela família de Nosek.

As the Palaces Burn estreia em 14 de fevereiro, e aqui você confere a lista completa com os cinemas que o exibirão, incluindo salas brasileiras.

Por Robert Pasbani, do Metal Injection
Tradução de Ricardo Seelig

5 de jun de 2013

Crítica do filme Faroeste Caboclo (2013)

quarta-feira, junho 05, 2013
“Faroeste Caboclo” sempre foi uma canção cinematográfica. A saga de João de Santo Cristo, criada por Renato Russo e alçada ao posto de um dos maiores clássicos da Legião Urbana, é uma das letras mais emblemáticas do rock brasileiro. Nada mais natural, portanto, que a história fosse transportada, efetivamente, para a tela dos cinemas.

Dirigido por René Sampaio, Faroeste Caboclo, o filme, estreou no último dia 30 de maio em diversas salas de todo o país. Com roteiro escrito por Victor Atherino e Marcos Bernstein, o enredo se baseia na letra da música, mas não é a transposição literal da história imaginada por Renato. Esse é apenas o primeiro dos muitos acertos. Evitando o recurso fácil e tentador de citar frases completas da extensa letra nos diálogos, Sampaio torna o filme autêntico, verossímil e nada gratuito. Um exemplo claro acontece logo no início, quando João, interpretado com primor por Fabrício Boliveira, chega à Brasília no período natalino e, ao ver as luzes decorativas, é apenas enquadrado pela câmera enquanto a sua mente imagina as possibilidades que ele encontrará na capital federal - nada de o personagem abrir a boca e declamar um “saindo da rodoviária fiquei bestificado com as luzes de Natal, meu Deus que cidade linda, no ano novo eu começo a trabalhar”.

René Sampaio imprime um clima de faroeste em todo o longa, usando com frequência paisagens áridas e poeirentas para ambientar a trajetória de Santo Cristo. Isso, aliado à fotografia inspirada de Gustavo Hadba, coloca o filme em um patamar elevado. Há ângulos inusitados e enquadramentos muito bem feitos, que se utilizam de recursos como luz e sombra para contar a história com muito mais dramaticidade e um inegável requinte visual.

Outro ponto positivo de Faroeste Caboclo é o elenco. Além de Boliveira (João de Santo Cristo) temos Ísis Valverde (Maria Lúcia), Felipe Abib (Jeremias), César Troncoso (Pablo) e Antônio Calloni (como o detetive Marco Aurélio) em atuações que vão de competentes (no caso de Valverde) há inspiradas (Abib, Pablo e Calloni). Como nota negativa apenas a participação praticamente nula do falecido Marcos Paulo como o Senador Ney, pai de Maria Lúcia, personagem totalmente dispensável.

Como já dito, o filme é baseada na canção, mas não é literal à ela. O roteiro parte da letra de Renato Russo e leva o espectador para outro lugar, fiel à trama, mas muito mais autêntico e doloroso. Essa escolha torna a trajetória de Santo Cristo ainda mais cruel, tornando quase impossível a não identificação com o personagem. O filme não economiza ao mostrar cenas fortes e até mesmo brutas, e essa escolha só intensifica o clima de realidade que transborda da tela.

Em comparação ao outro filme envolvendo a Legião Urbana lançado recentemente, Somos Tão Jovens - leia a crítica aqui -, Faroeste Caboclo ganha de goleada. Enquanto Somos Tão Jovens peca pela produção precária, mas ganha na homenagem sincera que faz aos primeiros anos da carreira de Renato Russo, a obra de René Sampaio é cinema de verdade. A cena do esperado duelo entre Santo Cristo e Jeremias, ápice do filme, bebe direto na fonte do diretor italiano Sergio Leone, variando planos fechados nos olhos dos protagonistas com cortes secos para outros pontos da tela, fazendo que, inconscientemente, a associação com o grandes clássicos do faroeste seja imediata.

Faroeste Caboclo é um grande filme, que faz juz à história criada por Renato Russo e a torna ainda mais forte e atual. Além disso, revela um diretor diferenciado, René Sampaio, que mostra talento e potencial para brilhar muito em seus próximos projetos.

Compre já a pipoca e o refrigerante, porque vale muito a pena.

Nota 8,5

Por Ricardo Seelig

8 de mai de 2013

Crítica do filme Somos Tão Jovens (2013)

quarta-feira, maio 08, 2013

Somos Tão Jovens, filme de Antônio Carlos da Fontoura (No Meio da Rua, Gatão de Meia Idade, Uma Aventura do Zico) sobre Renato Russo, provavelmente causará reações adversas nos espectadores. Uma parcela, formada por pessoas hoje na faixa dos 30 e 40 anos e que viveram a sua adolescência durante a década de 1980, terão uma enorme empatia com a história devido ao forte apelo emocional, sentimental e nostálgico que ela provoca. Já os mais novos talvez não sintam essa ligação de maneira tão forte, e ela é essencial para que o impacto do filme seja digerido em sua totalidade.

O roteiro se baseia na vida de Renato Russo entre 1975 e 1985, período em que o músico se aprofundou no rock e na literatura, formou o Aborto Elétrico, viveu o seu período de trovador solitário e, por fim, montou a Legião Urbana. Vivido com autenticidade e perfeição por Thiago Mendonça (o Luciano de 2 Filhos de Francisco), o Renato mostrado em Somos Tão Jovens é movido por sonhos e está ainda se descobrindo, tanto no aspecto musical quanto na própria vida. Vale mencionar que todas as músicas apresentadas no filme foram cantadas pelo próprio Mendonça, que fez um trabalho exemplar e possui um timbre bastante semelhante ao de Russo.

Ainda que, de modo geral, Somos Tão Jovens seja feito de inúmeros acertos, alguns pontos negativos chamam a atenção. Marcos Breda está péssimo como o pai do vocalista. Há a clara intenção de romantizar a figura do artista “trágico” e “autodestrutivo”, objetivo esse que às vezes soa forçado e desnecessário. E a interpretação de Edu Moraes como Herbert Viana é forçadíssima e caricata, parecendo mais um personagem de programa humorístico do que uma homenagem. Mas, fora esses pontos, o que temos é um retrato honesto e repleto de autenticidade sobre o músico que, goste-se ou não, foi a principal figura surgida no rock brasileiro da década de 1980.

O início da carreira de Renato Russo e a criação do Aborto Elétrico ao lado de Fê Lemos e André Pretorius - depois substituído por Flávio Lemos - é especialmente educativa e didática ao lançar um olhar histórico sobre uma das formações mais importantes e influentes já surgidas no rock BR, ao lado da Plebe Rude a base sobre a qual toda a cena de Brasília se formou, se sustentou e se alimentou durante décadas - no caso do Capital Inicial, até hoje.

Além de Thiago Mendonça, o outro destaque de Somos Tão Jovens é a atriz Laila Zaid, que vive a personagem Ana Cláudia, amiga e personificação das várias figuras femininas que marcaram a vida do cantor. O simpático Ibsem Perucci compõe um Dinho Ouro Preto pra lá de convincente, enquanto Bruno Torres serve de antagonista a Mendonça com o seu forte Fê Lemos. Uma curiosidade é a participação de Nicolau Villa-Lobos interpretando seu pai, Dado, quando jovem, além de Philippe Seabra, da Plebe, como o prefeito de Patos de Minas, cidade onde a Legião fez o seu primeiro show.

Somos Tão Jovens é um filme divertido, emocionante e correto. No meu caso, serviu para reacender o interesse pela Legião Urbana, banda que não escuto há anos e cujas letras ganharam um sentido totalmente novo agora que estou na vida adulta.

Seja qual for a sua idade, Somos Tão Jovens vale o ingresso e garante uma ótima sessão de cinema.


Nota 7

Por Ricardo Selig

10 de dez de 2012

Slipknot: crítica de (sic)nesses (2010)

segunda-feira, dezembro 10, 2012
Lançado originalmente em 2010, (sic)nesses é o último home vídeo disponibilizado pelo Slipknot. O material traz a antológica apresentação da banda no Download Festival, realizada no dia 13 de junho de 2009. O grupo foi o headliner daquela data, em um dos últimos shows do baixista Paul Gray, falecido em maio de 2010. O vídeo é dedicado ao músico. A ST2 acaba de lançar (sic)nesses em blu-ray simples aqui no Brasil, o que torna a apresentação ainda mais intensa. 
 
Promovendo o seu quarto álbum, All Hope is Gone (2008), a banda fez uma apresentação aguardadíssima pelo público inglês, e correspondeu a todas as expectivas. Com a plateia na mão desde o início, Corey Taylor e companhia promoveram um verdadeiro arregaço em cima do palco, entregando versões ainda mais violentas de suas composições. O aspecto visual, elemento indissociável do Slipknot, é responsável por imprimir um clima sombrio e assustador ao show, como uma celebração macabra conduzida por psicóticos lunáticos.

Tecnicamente, a banda é estupenda. O sensacional baterista Joey Jordison acaba sendo o centro das atenções, com suas levadas insanas e pra lá de intrincadas. A dupla de guitarristas Jim Root e Mick Thomson entrega bases pesadíssimas, com Root apresentando trejeitos de palco que lembram Janick Gers, do Iron Maiden. Os percussionistas Shawn Crahan e Chris Fehn dividem os holofotes com Corey e são uma espécie de frontmen secundários, provocando e interagindo incessantemente com o público. 



A catarse coletiva promovida pelo Slipknot é impressionante. E mais impressionante ainda é o fato de a banda ter se tornado um fenômeno de vendas executando um som nada amigável, pesado, agressivo e avesso a concessões. O show dos caras é uma experiência inesquecível e hipnótica, que transforma o tempo de sua duração em algo que fica marcado profundamente na memória de quem assistiu.

Com músicas de toda a carreira do grupo, (sic)nesses traz dezoito faixas e tem como principais destaques “Wait and Bleed”, “Before I Forget”, “Sulfur”, “Dead Memories”, “Vermilion”, “Duality”, “People = Shit” e o encerramento com a clássica “Spit It Out”. Entre os extras, um documentário com dezenas de cenas dos bastidores da turnê, os clipes de “Psychosocial”, “Dead Memories”, “Sulfur” e “Snuff”, além do making of do vídeo dessa última.

Um vídeo que comprova e dá vários motivos para entender o porque de o grupo natural de Iowa ser uma das maiores bandas de metal do planeta.

Excelente!

Nota 9


 
Faixas:
742617000027
(sic)
Eyeless
Wait and Bleed
Get This
Before I Forget
Sulfur
The Blister Exists
Dead Memories
Left Behind
Disasterpiece
Vermilion
Everything Ends
Psychosocial
Duality
People = Shit
Surfacing
Spit It Out

6 de dez de 2012

Led Zeppelin: crítica de Celebration Day (2012)

quinta-feira, dezembro 06, 2012
Existem muitas histórias sobre os lendários shows do Led Zeppelin durante a década de 1970. Performances históricas, incendiárias, repletas de improvisações e regadas a doses generosas de feeling. No entanto, pouquíssimos registros em vídeo desse período vieram ao mundo. A maioria deles foi compilada por Jimmy Page no DVD duplo batizado somente com o nome da banda e lançado em 2003. Ainda que existam centenas de bootlegs em áudio da época, em vídeo é realmente difícil encontrar material de qualidade.

Este é apenas um dos trunfos de Celebration Day, DVD, blu-ray e CD duplo (e em breve também LP triplo) que traz o show realizado por Robert Plant, Jimmy Page e John Paul Jones, acompanhados pelo legítimo herdeiro da dinastia Bonham, Jason, segurando as baquetas no posto que um dia foi de seu pai, em memória a Ahmet Ertegun, chefão da gravadora Atlantic falecido em 2006. Os outros são a imensa inspiração da banda na apresentação, entregando versões arrasadoras de praticamente todas as inúmeras grandes faixas que gravaram na carreira. O quarteto caprichou, e transformou aquela noite de 10 de dezembro de 2007 na O2 Arena, em Londres, em uma jornada inesquecível não apenas para as 20 mil pessoas que estavam lá, mas agora também para todos nós que podemos assistir este show até dizer chega.

A direção de Dick Carruthers é exemplar. Contando com 16 câmeras para captar todos os detalhes, ele nos entrega um registro profundo do que é o Led Zeppelin em cima de um palco. A união de Plant, Page, Jones e Bonham resulta em algo muito maior do que a simples soma dos quatro. Há, como sempre houve, um quinto elemento resultante desta união, e ele é animalesco, intenso e único - como o próprio Led Zeppelin sempre foi, diga-se de passagem. Ricas em detalhes, as cenas mostram a linguagem entre os músicos, responsável por mudar a dinâmica de uma canção apenas com um gesto. A química entre Robert Plant e Jimmy Page continua sendo algo muito fora do comum, tangível, com ambos demonstrando não apenas a imensa curtição que sentem ao tocar um com o outro, mas, principalmente, sabendo que é estando lado a lado que alcançam a plenitude de seus poderes.

Jason Bonham é um dos principais destaques de Celebration Day. O outrora garoto que ficou eternizado no filme The Song Remains the Same ao lado do pai assume aqui, com grande categoria, o legado de seu progenitor. Tocando com categoria e estudando nos mínimos detalhes as performances do falecido Bonzo, Jason mostra que, se o trio restante decidisse retomar a carreira, ele estaria pronto para começar a qualquer momento. O olhar de aprovação de Page no final da apresentação é a prova concreta disso.

John Paul Jones, como sempre, é o porto seguro do quarteto. Ele sempre foi isso. Enquanto Page levantava vôo levando a tiracolo Plant e Bonham, Jonesy mantinha a sonoridade da banda nos trilhos, e aqui não é diferente. O cara não erra uma nota sequer, e é, claramente, o músico em melhor forma técnica entre os quatro. Sua classe chega a ser arrepiante!

Robert Plant canta de forma exemplar. Ainda que seja impossível, pela idade e muitos outros fatores, repetir as performances quase primais dos tempos dourados do grupo, Plant mostra diversas vezes o porque de ser considerado um dos melhores e mais completos cantores do rock. Intérprete de primeira, o veterano Golden God mantém intacto o talento e o sex appeal que encharcavam calcinhas e levavam garotas e garotos às nuvens.

E Jimmy Page, é claro, merece sempre um capítulo à parte. Um dos maiores músicos, compositores e guitarristas da história do rock, Page é o centro das atenções em Celebration Day, assim como foi em toda a carreira do Led Zeppelin. Tocando com um dedo recém quebrado, o que levou a banda a adiar a apresentação em alguns dias, Jimmy faz valer o seu modo de encarar a música - o lendário “luz e sombra” que permeia a sua vida -, e brilha intensamente enquanto dá umas escorregadas feias. O auge de Jimmy pode ser apreciado em sua plenitude nas versões de “In My Time of Dying”, “Trampled Under Foot”, “Nobody’s Fault But Mine”, “No Quarter” e “Kashmir”. Já a sombra de sua personalidade faz com que as releituras de “Stairway to Heaven” e, principalmente, “Since I’ve Been Loving You”, fiquem abaixo do esperado. Mas esse é o Page de sempre, o cara que nunca toca uma música da mesma maneira que tocou na noite anterior, e que quando acerta a mão é capaz de brindar o mundo com versões absolutamente brilhantes de suas criações - está em Celebration Day o melhor registro ao vivo de “Kashmir” em toda a carreira do Led, só pra constar.

Celebration Day é um presente dos deuses para quem ama a música. Ele mostra o porque de o Led Zeppelin ser o que foi, e deixa claro que, se quisesse, a banda poderia continuar sendo. Um DVD brilhante, que é o testamento daquela que é considerada, por muita gente (incluindo esse que vos escreve), como a melhor e maior banda da história do rock.

Obrigatório e todos os sinônimos possíveis!

Nota 9,5

Faixas:
Good Times Bad Times
Ramble On
Black Dog
In My Time of Dying
For Your Life
Trampled Under Foot
Nobody’s Fault But Mine
No Quarter
Since I’ve Been Loving You
Dazed and Confused
Stairway to Heaven
The Song Remains the Same
Misty Mountain Hop
Kashmir
Whole Lotta Love
Rock and Roll

5 de set de 2012

Muddy Waters & The Rolling Stones: crítica de Checkerboard Lounge - Live Chicago 1981 (2012)

quarta-feira, setembro 05, 2012
Este DVD contém uma aula de história. Deixa eu explicar: durante a turnê do álbum Tattoo You (1981), os Rolling Stones fizeram três shows seguidos em Chicago. No intervalo entre as apresentações, resolveram visitar o amigo Muddy Waters, influência e inspiração para o nome do grupo, que estava tocando com sua banda no Ckeckerboard Lounge, clube da cidade. E é justamente este encontro que está documentado em Checkerboard Lounge - Live Chicago 1981, DVD que a ST2 está lançando agora aqui no Brasil em edição dupla, incluindo um CD com o áudio da apresentação.

Não há grandes requintes técnicos no vídeo. As câmeras mostram os músicos amontoados no minúsculo palco, enquanto garçons atendem as mesas. Já em relação ao áudio, ele é cristalino e conta com fidelidade o que aconteceu naquela noite, realçando os acertos e não escondendo os erros. Tudo é verdadeiro, improvisado, em clima de jam. E é justamente essa veracidade que torna este encontro entre dois artistas importantíssimos e  emblemáticos para o blues e para o rock imperdível, histórico e arrepiante.

Pra começo de conversa, a banda que acompanhava Muddy Waters na época era excelente, com destaque para o guitarrista John Primer e para o gaitista George “Mojo” Buford - completavam o time o panista Lovie Lee, o guitarrista Rick Kreher, os baixistas Earnest Johnson e Nick Charles e o sorridente baterista Ray Allison. Aliás, vale mencionar o figurino de Buford, com uma surreal “cartucheira” carregada com várias gaitas de boca diferentes. Outro ponto importante a ressaltar é que trata-se de um show de Muddy Waters e não dos Rolling Stones, portanto você irá assistir a um dos maiores bluesmen da história no final de sua carreira, pouco mais de dois anos antes de sua morte - Waters faleceu em 30 de abril de 1983 -, e não a um show dos Stones.


O clima é tão intimista e acolhedor que flagra a entrada dos Stones no boteco, enquanto Muddy e banda mandam ver. Os caras se acomodam na mesa em frente ao palco, pedem suas bebidas, conversam. E então Muddy Waters chama Mick Jagger, Keith Richards e Ron Wood para a bagunça. Jagger, vestido com um espalhafatoso agasalho vermelho, divide os vocais com Waters em “Baby Please Don’t Go”, deixando claro logo de saída porque é o frontman da maior banda de rock da história. Richards, convocado em seguida, caminha sobre a mesa com o cigarro no canto da boca e pega a sua guitarra, em uma cena antológica. E Wood, naquela época com uma performance muito mais presente e eficiente da que costuma ter nos últimos anos, mostra o porque de ter sido escolhido como braço direito de Keith. Ian Stewart, o sexto Stone, assumo o piano, e a festa começa.

Checkerboard Lounge está repleto de grandes momentos. O principal deles é “Mannish Boy”, onde Muddy e Jagger dividem os vocais, com o pupilo inglês tacando fogo na performance de Waters, que pula pelo palco com a energia de um adolescente enquanto Keith, Wood e a banda seguram tudo de maneira firme lá atrás. E, no meio disso tudo, Waters ainda chama Buddy Guy e Junior Wells para o palco. O momento em que Muddy Waters, Mick Jagger e Buddy Guy se abraçam, com os dois bluesmen dividindo os vocais sob o olhar embasbaco de Mick, é como presenciar a história sendo escrita, e por seus principais protagonistas.


Outros momentos sublimes acontecem em “Hoochie Coochie Man” e “Long Distance Call”, ambas com a participação de Jagger. Junior Wells dá um descanso para Muddy e assume os vocais na clássica “Got My Mojo Working”, enquanto o inquieto e intenso Lefty Dizz toma conta da parte final da apresentação.

Para completar o pacote, como já disse, a versão lançada pela ST2 vem com um CD bônus com todo o áudio da apresentação, além de um encarte - todo em inglês - com detalhes desse show antológico.

Checkerboard Lounge - Live Chicago 1981 é daqueles DVDs que você colocará em lugar de destaque em sua coleção. Empolgante e histórico, é o registro magnífico do encontro entre duas forças titânicas - Muddy Waters e os Rolling Stones -, artistas fundamentais que ajudaram a definir o blues e o rock. 

Fundamental, e não se fala mais nisso!

Nota: 10


Ozzy Osbourne: crítica de Speak of the Devil (Live at the Irvine Meadows Amphitheatre 1982) (2012)

quarta-feira, setembro 05, 2012
Existem dois Speak of the Devil. Um é o LP duplo ao vivo lançado por Ozzy em 1982 somente com músicas do Black Sabbath. O outro é este DVD, gravado no mesmo ano, mas com um setlist completamente diferente.

Lançado no Brasil pela ST2, Speak of the Devil (Live at the Irvine Meadows Amphitheatre 1982) captura uma das fases mais conturbadas da carreira de Ozzy Osbourne. O guitarrista Randy Rhoads havia falecido recentemente, em 19 de março de 1982, mas Ozzy seguiu na estrada promovendo o seu segundo disco solo, Diary of a Madman, colocando Brad Gillis, do Night Ranger, no lugar de Randy. Mais tarde, Jake E. Lee assumiria o posto. 

O que temos aqui é o registro de um período de transição. Ozzy estava construindo a sua reputação junto ao público norte-americano, no início de um processo que faria a sua carreira solo alcançar um sucesso comercial muito maior do o próprio Black Sabbath nos Estados Unidos.

Além de Gillis, estavam ao lado de Ozzy na época o baixista Rudy Sarzo (Quiet Riot) e o baterista Tommy Aldridge (Black Oak Arkansas). Evidentemente sem o mesmo brilhantismo que Randy Rhoads, Gillis segura bem as pontas e não compromete. Entretanto, as músicas presentes neste DVD, saídas diretamente dos dois primeiros discos de Ozzy, soam mais cruas e, em certo ponto, mais pesadas com a guitarra de Brad Gillis e sem o virtuosismo de Rhoads.

A qualidade de imagem não é muito boa, passando a sensação de que estamos assistindo a uma fita VHS antiga e não um DVD. O áudio também não é magnífico, mas dá para o gasto. Resumindo: mais do que apuro técnico, o que temos aqui é o documento de um período pouco falado da carreira de Ozzy Osbourne, porém de extrema importância. A transição entre a trágica perda de Randy e o auge que alcançaria alguns anos mais tarde foi fundamental para Ozzy. O luto em praça pública, tocando para milhares de pessoas todas as noites, foi a maneira que Ozzy encontrou para ele mesmo sobreviver à morte do amigo e guitarrista. 

Speak of the Devil (Live at the Irvine Meadows Amphitheatre 1982) é indicado somente para os fãs de Ozzy Osbourne. Se for o seu caso, mergulhe fundo. Se não for, há outros DVDs com performances muito melhores do Madman disponíveis.

Nota: 7

Faixas:
  1. Introduction
  2. Over the Mountain
  3. Mr. Crowley
  4. Crazy Train
  5. Revelation (Mother Earth)
  6. Steal Away
  7. Suicide Solution
  8. Goodbye to Romance
  9. I Don’t Know
  10. Believer
  11. Flying High Again
  12. Iron Man
  13. Children of the Grave
  14. Paranoid

27 de ago de 2012

Pink Floyd: crítica de A História de Wish You Were Here (2012)

segunda-feira, agosto 27, 2012
Lançado em 12 de setembro de 1975, Wish You Were Here é o nono álbum do Pink Floyd e o sucessor do multi-platinado The Dark Side of the Moon, de 1973. Um dos discos preferidos dos fãs, é também o favorito de David Gilmour e do falecido Richard Wright, que declararam em entrevistas a sua predileção pelo trabalho.

A História de Wish You Were Here é um documentário escrito e dirigido por John Edginton, que já havia abordado a trajetória da banda em The Pink Floyd and Syd Barrett Story, produção de 2003 onde atuou como produtor. O filme, lançado agora no Brasil pela ST2, conta com entrevistas e depoimentos de Gilmour, Wright (cenas captadas em 2001, sete anos antes de sua morte, em 15/09/2008), Roger Waters, Nick Mason, Roy Harper, Brian Humphries (engenheiro de som do trabalho), Nick Kent (na época jornalista da NME e autor de uma crítica dura e agressiva a uma apresentação da banda, que teve um grande impacto junto aos músicos), Storm Thorgerson (um dos cérebros do Hipgnosis, estúdio que fez várias capas de discos clássicos ao longo dos anos, e autor da capa de The Dark Side of the Moon) e outras figuras que mantinham uma relação próxima à banda durante o período.

Ao passo que The Dark Side of the Moon transformou profundamente a vida dos músicos - a frase de Mason explicando que esperava que a coisa mudasse de figura quando a banda se apresentou no Top of the Pops no final dos anos 1960 é esclarecedora -, Wish You Were Here expôs a fissura entre as opiniões cada vez mais conflitantes de Roger Waters e David Gilmour. A dupla compôs várias faixas em parceria no disco, incluindo as mais do que clássicas “Shine On You Crazy Diamond” e a canção que dá nome ao álbum, mas divergiu enormemente sobre o direcionamento que a música do Pink Floyd deveria seguir dali para frente. 

O ápice desse desacordo aconteceu, provavelmente, na gravação da canção que abre o lado B de Wish You Were Here, “Have a Cigar”. Nem Waters nem Gilmour conseguiam chegar a um resultado satisfatório em seus vocais, levando a banda ao extremo. Roy Harper, que era chapa dos caras e estava gravando na sala ao lado dentro do amplo estúdio Abbey Road, passou para ver como estavam as coisas e, diante do conflito entre David e Roger, sugeriu que ele mesmo cantasse a letra, o que acabou sendo aceito pela banda. Mesmo assim, muita gente acabou nem percebendo a mudança, já que o timbre de Harper ficou muito parecido com o de Waters.


Mas o ponto principal de Wish You Were Here é Syd Barrett. O fundador e primeira força criativa do Pink Floyd esteve presente em tudo que envolveu a gravação do álbum, mesmo que não fisicamente. A primeira faixa gravada pelo grupo para o disco foi a arrepiante “Shine On You Crazy Diamond”, onde a letra brilhante de Waters fala de forma direta sobre o que aconteceu com Barrett. O depoimento de Richard Wright sobre a situação de Barrett, contando como, do dia para a noite, o músico se apagou e entrou em um limbo mental devido ao consumo excessivo de ácido, é arrepiante. O mesmo vale para os diversos momentos em que David Gilmour e Roger Waters falam sobre Barrett. Apesar de terem se passado mais de quarenta anos do acontecimento que literalmente apagou o cérebro de Syd, Gilmour e Waters se mostram claramente abalados com o fim que o parceiro levou, chegando quase às lágrimas ao recordar das suas experiências e amizade com Barrett. Esse ponto faz do documentário uma obra, ainda que curta - são pouco mais de uma hora de filme -, extremamente profunda, pois exterioriza de maneira clara a importância e onipresença que Syd Barrett sempre teve na obra do Pink Floyd.

Quando o grupo fala sobre a aparição repentina de Syd no estúdio, olhando os equipamentos sem que ninguém se tocasse de que era ele, é impossível conter a emoção. Barrett apareceu um dia em Abbey Road e ficou lá parado observando tudo com o seu olhar perdido, e só depois de um longo tempo o quarteto percebeu que era ele. O relato dessa situação pelas palavras de Mason, Gilmour e Waters é um dos momentos mais fortes do vídeo.

A estrutura do documentário é bastante semelhante aos itens da série Classic Albums, com o produtor ou engenheiro de som revisitando as fitas originais e tecendo comentários sobre a gravação, enquanto os músicos contam histórias do estúdio e tocam trechos das músicas. Outro ponto alto ocorre quando Storm Thorgerson conta como concebeu a capa de Wish You Were Here, relatando a maneira como foram produzidas as fotos de todo o encarte. 

Entre os extras, o ponto alto é a interpretação de Waters para “Wish You Were Here”. Sozinho em estúdio, acompanhado apenas pelo seu violão, Waters canta de forma cínica e seca, em uma versão que remete ao universo de Bob Dylan.


A História de Wish You Were Here relata uma das fases mais conturbadas e importantes da carreira do Pink Floyd, e mostra como a imensa capacidade criativa da banda foi capaz de superar um momento complicado e fazer surgir um de seus melhores discos. Assistir o documentário faz a gente entender ainda mais as delicadas engrenagens que mantém unida e fazem uma grande banda seguir em frente. Sem romantismo e expondo suas diferenças, o quarteto revê o seu passado e analisa como ele definiu o seu futuro. Sem meias palavras, sem máscaras e de maneira franca, é possível perceber como, muito mais do que um disco, Wish You Were Here se tornou uma declaração de amor a um amigo perdido e um manifesto da forma como o Pink Floyd acreditava que deveria ser a indústria musical.

Excelente, e ponto final!

Nota: 9

21 de mai de 2012

Iron Maiden: review do DVD ‘En Vivo!’ (2012)

segunda-feira, maio 21, 2012


Nota: 8,5


O Iron Maiden soa muito diferente em En Vivo!, novo DVD e CD do grupo, gravado em 10 de abril de 2011 no Estadio Nacional, em Santiago do Chile. Dirigido por Andy Matthews, o vídeo mostra uma banda cheia de diferenças em relação aos seus últimos registros ao vivo, documentando uma espécie de mutação interna pela qual o Maiden passa atualmente.


A característica que mais chama a atenção é que a outrora épica e poderosa sonoridade do sexteto soa de maneira até então inédita em En Vivo!. Há um balanço, um suingue, um feeling vindos diretamente do blues e injetados sem dó na estrutura básica das canções. O principal responsável por isso é Adrian Smith, o fenomenal guitarrista que hoje é protagonista de uma parcela considerável da musicalidade do Iron Maiden, ao lado do chefão Steve Harris e do vocalista Bruce Dickinson. Smith reinventou o seu jeito de tocar na tour de 2011, adicionando uma pra lá de bem-vinda - e até então insuspeita - influência do gênero nascido às margens do Rio Mississippi em suas linhas. Isso faz com que músicas que estão no setlist há décadas, como “2 Minutes to Midnight”, soem renovadas e cheias de vida. O maior exemplo disso é a versão simplesmente brutal da clássica “Running Free”, com a banda fazendo uma faixa com mais de três décadas de vida sair das caixas de som com gosto de novidade, como seu fosse o seu último single.


Outro fato que merece destaque é a força das composições recentes, lançadas nos discos gravados de 2000 para cá. A reação do público a sons como “Dance of Death”, “The Wicker Man” e “Blood Brothers” é fenomenal, equiparando esse material aos clássicos de sempre. Isso sem falar no impacto gigantesco que as músicas presentes no último disco de estúdio do grupo, o ótimo The Final Frontier (2011), têm ao vivo. A intensidade com que os integrantes do Maiden tocaram esse material durante toda a turnê foi capturada com perfeição em En Vivo!, demonstrando que a banda está mais viva - e afiada - do que nunca. A performance em “The Talisman”, por exemplo, é de arrepiar. O mesmo vale para a linda “When the Wild Wind Blows”, que emociona e dá pintas de já ter se transformado em um novo clássico.


Tudo fica ainda mais forte com a ótima edição, que usa e abusa de telas divididas com cenas simultâneas dos músicos e da plateia. Esse recurso foi utilizado com precisão e inspiração por Matthews, e o resultado final é que boa parte da intensidade de um show do Maiden foi capturado e mantido em En Vivo!.


O DVD, duplo, traz o show no primeiro disco e o documentário Behind the Beast no segundo. Esse documentário mostra tudo o que envolve uma turnê do Iron Maiden, do planejamento meses antes até o dia-a-dia dos shows, dos ensaios da banda a preparação do Eddie Force One. Uma verdadeira aula prática de produção, Behind the Beast demonstra o comprometimento total da numerosa equipe que acompanha o Iron Maiden na estrada, formada, em sua maioria, por profissionais que estão com o grupo há décadas.


Porém, o mais chocante e impressionante de todo o material é a revelação de que a banda estava há apenas 10 minutos do aeroporto de Tóquio quando aconteceu o terremoto que arrasou o Japão em 11 de março de 2011. Ou seja: se o grupo já estivesse em solo japonês, os músicos e a equipe poderiam estar entre as milhares de vítimas do sismo seguido de um enorme tsunami - no total foram mais de 13 mil mortos e 16 mil desaparecidos. As cenas mostram a banda desorientada, confusa e alarmada, sem saber como proceder durante o que rolava, até que conseguiu autorização para pousar na cidade de Nagoia.


Pessoalmente, sou da opinião de que o Iron Maiden possui hoje a melhor formação de sua história. Todos os músicos estão mais experientes e soam melhores do que nunca aos meus ouvidos, se completando e formando um gigante sonoro sem igual no universo do heavy metal. En Vivo! é um grande exemplo da força e da criatividade do Iron Maiden, pois captura a banda de maneira intensa e demonstrando uma energia e vivacidade que fazem crer que a aposentadoria dos caras ainda está longe de ocorrer. 


Todos esses fatores fazem de En Vivo! um dos melhores registros em vídeo do Iron Maiden. O CD e o vinil picture fazem apenas parte do pacote, o item que realmente importa aqui é o DVD. Ele é diferenciado, ele acrescenta muito à história da banda - e, ainda por cima, vem em uma linda embalagem em metal.


Assista e comprove porque o Iron Maiden permanece no topo do heavy metal!




Faixas:


DVD 1
  1. Satellite 15
  2. The Final Frontier
  3. El Dorado
  4. 2 Minutes to Midnight
  5. The Talisman
  6. Coming Home
  7. Dance of Death
  8. The Trooper
  9. The Wicker Man
  10. Blood Brothers
  11. When the Wild Wind Blows
  12. The Evil That Men Do
  13. Fear of the Dark
  14. Iron Maiden
  15. The Number of the Beast
  16. Hallowed Be Thy Name
  17. Running Free
DVD 2

Documentário Behind the Beast
Clipe de “Satellite 15 ... The Final Frontier”
The Making of “Satellite 15 ... The Final Frontier”
The Final Frontier World Tour Show Intro

13 de mar de 2012

Dismember: crítica do DVD 'Under Blood Red Skies' (2009)

terça-feira, março 13, 2012

Nota: 9

Durante duas décadas, a banda sueca Dismember se manteve no topo do death metal. Discos como Like an Ever Flowing Stream (1991), Indecent and Obscene (1993) e Massive Killing Capacity (1995) influenciaram dezenas de bandas em todo o mundo com o seu som agressivo e direto.

Infelizmente, o Dismember anunciou o fim de suas atividades em outubro de 2011, mas deixou como herança uma obra consistente e que serve de parâmetro até hoje.

Lançado originalmente na Europa em junho de 2009, o DVD duplo Under Blood Red Skies é uma espécie de testamento do quinteto. O primeiro disco traz a apresentação da banda na edição de 2008 do festival alemão Party San. São quinze músicas que formam um ataque repleto de peso e fúria. Entre as faixas, que repassam toda a carreira do grupo, destaque para a abertura com “Stillborn Ways”, “Override of the Overture”, “Skin Her Alive” e “Sickening Art”. Merecem menção também as releituras cheias de fúria de “Death Conquers All” e “Under a Blood Red Sky”, do último disco do grupo, batizado apenas com o nome da banda e lançado em 2008.

Já o segundo DVD contém um longo e excelente documentário onde o grupo conta a sua história, além de divertidos causos da estrada. O legal é que tudo está legendado em português.

Para quem é fã do Dismember, Under Blood Red Skies é um item obrigatório. Para quem quer conhecer a banda, é um excelente início para ter contato com o som do grupo. E, para quem quer entender a trajetória e a evolução do death metal, trata-se quase de uma aula prática de história.

Sem dúvida alguma, um dos melhores DVDs de death metal já lançados!


Faixas:
  1. Stillborn Ways
  2. Death Conquers All
  3. Skinfather
  4. Dark Depths
  5. Another Shape of Sorrow
  6. Forged with Hate
  7. Under a Blood Red Sky
  8. Override of the Overture
  9. Soon to be Dead
  10. Bleed For Me
  11. And So is Life
  12. Dismembered
  13. Skin Her Alive
  14. Sickening Art
  15. In Death's Sleep

Obituary: crítica do DVD 'Live Xecution Party San 2008' (2009)

terça-feira, março 13, 2012

Nota: 8,5

Lançado originalmente em outubro de 2009 lá fora, este DVD do Obituary ganhou edição nacional finalmente em 2011, em mais um grande lançamento da Shinigami Records.

Segundo vídeo ao vivo lançado pela lendária banda norte-americana, uma das mais influentes e importantes da história do death metal – o anterior foi Frozen Alive (2006) -, Live Xecution Party San foi gravado na edição de 2008 do festival alemão mencionado no título, e traz a banda promovendo o álbum Xecutioner's Return, de 2007. Mas não espere um setlist baseado apenas em canções novas. Apresentando-se em um festival, a banda inseriu clássicos como “Chopped in Half”, “Turned Inside Out” e “Slowly We Rot” no set, levantando a plateia nos momentos certos. É claro que um número maior de faixas mais antigas agradaria os fãs, mas uma banda não vive do passado, correto?

Esbanjando energia, o grupo mostra um show agressivo e violento, características que ficam ainda mais evidentes não só pela experiência dos músicos, mas também pela técnica de cada um. O guitarrista Ralph Santolla (ex-Deicide e Iced Earth), por exemplo, é um monstro nas seis cordas, e usa como poucos o domínio que possui no instrumento para levar a música a limites ainda mais extremos.

O DVD conta com alguns extras, como takes alternativos de faixas que já estão no vídeo principal. No geral, nada que agregue muito. Isso, normalmente, deporia contra o resultado final, mas o show principal é tão bom que não senti necessidade de material adicional.

Tendo como figuras centrais os irmãos John e Donald Tardy – vocalista e baterista, respectivamente -, o Obituary escreveu o seu nome na história com álbuns clássicos como Slowly We Rot (1989), Cause of Death (1990) e The End Complete (1992). Ao lado de bandas como o Death, Deicide e Morbid Angel, o grupo é um dos maiores ícones do death metal. Por essa razão, é extremamente positivo assistir a um show recente do grupo e perceber que a banda ainda mantém o fogo nos olhos e a atitude que a levou a fama.

Longa vida ao Obituary! A música pesada agradece!


Faixas:
  1. Find the Arise
  2. On the Floor
  3. Chopped in Half
  4. Turned Inside Out
  5. Forced Realign
  6. Insane
  7. Face Your God
  8. Dethroned Emperor
  9. Evil Ways
  10. Drop Dead
  11. Contrast the Dead
  12. Second Chance
  13. Stand Alone
  14. Slow Death
  15. Slowly We Rot

12 de dez de 2011

Adele: crítica do DVD 'Live at Royal Albert Hall' (2011)

segunda-feira, dezembro 12, 2011


Nota: 9

A história da música está repleta de momentos marcantes. Porém, muitos deles não foram registrados para posteridade e se perderam na memória de quem os presenciou ao vivo. Apresentações históricas de nomes como Led Zeppelin, Black Sabbath, Deep Purple e inúmeros outros artistas, dos mais variados gêneros, não foram gravados na época em que ocorreram, o que faz com que hoje só existam registros escritos – ou, com alguma sorte, bootlegs com qualidade de áudio e vídeo duvidosas – a respeito de shows antológicos. Porém, vivemos atualmente em uma realidade onde praticamente tudo chega ao nosso conhecimento. As facilidades tecnológicas e o maior acesso à informação tornaram possível que, por exemplo, um show ocorrido ontem na Austrália esteja disponível poucas horas depois, para todo mundo assistir.

É por isso que Live at Royal Albert Hall, primeiro registro ao vivo de Adele, é tão importante. Ele captura para a eternidade o momento exato em que a simpática e talentosíssima cantora inglesa alcançou o status de superestrela. O show na lendária casa londrina é antológico e causou comoção coletiva nos sortudos que o presenciaram ao vivo – emoção essa que foi preservada, se não em sua totalidade, em grande parte no DVD.

Visivelmente emocionada por estar cantando em sua cidade natal, Adele transparece todo o seu sentimento, cativando o público desde o início, com a bela “Hometown Glory”, primeiro single de sua carreira, lançado em 22 de outubro de 2007. Cantando com uma segurança que contrasta com o clima descontraído dos momentos em que fala com o público entre cada canção, recheados com o típico e único humor britânico, Adele demonstra o porque de ser, simultaneamente, aclamada pela crítica e amada pelo público. Suas composições são vigorosas, todas com enorme potencial comercial, mas sem abrir mão da qualidade.

As baladas são o forte de Live at Royal Albert Hall. Todas construídas com instrumentação econômica, estão alicerçadas nas linhas vocais da cantora, que dão o tom de cada composição. Preenchendo a maioria dos espaços com a sua bela voz, Adele comprova o enorme talento que possui, cantando de maneira divina enquanto a banda – excelente, diga-se de passagem -, faz o seu papel.

Há momentos arrepiantes. “Turning Tables” e “Set Fire to the Rain” arrebatam o público, enquanto as releituras de “I Can't Make You Love Me” (de Bonnie Raitt), “It it Hadn't Been For Love” (Steeldrivers) e “Lovesong” (The Cure) mostram uma artista que, além do enorme talento, tem também uma personalidade pra lá de cativante. A agitada – se comparada às demais faixas -“Rumour Has It”, com seu andamento meio tribal, é outra faixa que se destaca de imediato. Mas os principais momentos de Live at Royal Albert Hall estão em seu final. A bela “Someone Like You” emociona até uma pedra, com o público cantando o refrão a plenos pulmões e levando a cantora literalmente às lágrimas. E o encerramento, com o mega hit “Rolling in the Deep”, é o ápice de um ótimo show.

Além da apresentação, Live at Royal Albert Hall traz também um pequeno documentário com aproximadamente 10 minutos, mostrando a cantora no dia da apresentação, desde o momento em que acorda em sua casa até a entrada no palco. É legal, mas poderia ser mais longo. E, claro, deveria ter legendas em português, que, infelizmente, não existem. Tudo vem em uma bonita embalagem digipak com luva protetora e encarte, e com um CD bônus com todo o áudio do DVD.

Provavelmente, este será um dos itens mais vendidos deste Natal. E, ao contrário do que acontece geralmente, neste caso o sucesso comercial vem acompanhado de qualidade musical. Live at Royal Albert Hall documenta o nascimento de uma estrela. Adele chegou para ficar, e essa é uma ótima notícia.

Nossos ouvidos, e corações, agradecem.

8 de dez de 2011

Deep Purple: crítica do documentário 'Phoenix Rising' (2011)

quinta-feira, dezembro 08, 2011

Nota: 9

Phoenix Rising é um documentário diferente e único. Diferente por mostrar um ângulo do Deep Purple até então inédito: os bastidores da derradeira formação da primeira fase da carreira do grupo, a chamada MK IV, com David Coverdale, Tommy Bolin, Jon Lord, Glenn Hughes e Ian Paice. E único por expor sem meias palavras uma banda em plena decomposição, com uma sinceridade poucas vezes vista em uma banda com o status do Purple.

Dirigido por Tony Klinger, Phoenix Rising traz entrevistas inéditas com Jon Lord e Glenn Hughes, e elas servem de fio condutor para a história. Após conquistar o mundo com Machine Head e Made in Japan – ambos lançados em 1972 -, o Deep Purple teve as suas estruturas abaladas pela saída do vocalista Ian Gillan e do baixista Roger Glover. O posto de Glover foi rapidamente assumido pelo talentoso Glenn Hughes, vocalista, baixista e principal integrante do trio Trapeze, um dos melhores nomes do hard inglês no período. É interessante ouvir da boca do próprio Hughes como ele pensava que assumiria também os vocais no novo Purple, mas logo percebeu que isso não aconteceria, já que o chefão Ritchie Blackmore queria uma voz com uma pegada mais blues para o grupo.

O escolhido acabou sendo um jovem vendedor de uma loja de roupas chamado David Coverdade. A banda pensava em Paul Rodgers para o posto, mas Rodgers já dava os passos iniciais no Bad Company e recusou o convite. A entrada de Coverdale como frontman daquela que era uma das maiores bandas da época é uma história impressionante, pois não era comum um grupo da magnitude do Purple apostar as suas fichas em um músico totalmente desconhecido.

A química deu certo, e a banda lançou em fevereiro de 1974 um de seus melhores discos – para muita gente que conheço, o melhor -, Burn. Renovado e com uma sonoridade brilhante, que apostava um pouco menos no peso e mais no groove, Burn manteve o Deep Purple no topo e mostrou que Coverdale e Hughes poderiam ser as novas forças motrizes da banda. Em dezembro de 1974 o quinteto colocou nas lojas o também ótimo Stormbringer, que acentuou ainda mais as influências soul e funk de Glenn Hughes, fato que incomodou enormemente Blackmore. Insatisfeito, o guitarrista deixou a banda ao final da turnê e foi fazer história com o Rainbow. Um fato que chama a atenção e era até então desconhecido é que Jon Lord também pensou em deixar o grupo no período, e conta isso no documentário. O motivo era que, para ele, apesar de ser um bom disco, Stormbringer não soava como o Deep Purple.

Os quatro músicos restantes não sabiam quem colocar no lugar de Blackmore. Como Hughes fala, “o Led Zeppelin nunca pensou em substituir Jimmy Page, e nós também nunca pensamos em substituir Ritchie”. O grupo chegou a testar Clem Clempson, guitarrista do Humble Pie, para o posto. Clempson foi até Los Angeles, onde a banda residia, e tocou com o Purple, mas não foi aprovado. Segundo Hughes, “Clempson tocou maravilhosamente bem, mas faltava algo”.



O que o Purple procurava era um músico que, além de tocar de maneira quase divina, tivesse uma personalidade forte que fizesse frente ao mítico Blackmore, um dos músicos mais lendários da história do rock. Por sugestão de David Bowie, amigo muito próximo de Hughes no período, foram atrás de um jovem chamado Tommy Bolin. Jon Lord recorda que já conhecia o trabalho de Bolin através do álbum Spectrum, lançado pelo baterista Billy Cobham em 1973, e onde o guitarrista tocou.

Bolin foi chamado para um teste e impressionou a todos não só pela técnica absurda, mas também pela personalidade magnética. Glenn Hughes, já bastante envolvido com cocaína na época, sacou que Bolin também era dos seus ao bater os olhos no guitarrista, porém foi só ao hospedá-lo em sua casa em Beverly Hills durante as primeiras semanas do guitarrista no Purple que percebeu o quanto Tommy Bolin estava afundado em drogas pesadas, principalmente em heroína. Lord recorda que ficou muito impressionado com o talento de Bolin, e, simultaneamente, triste ao perceber o quão doente Tommy estava ao ingressar no Purple.

A banda se trancou em estúdio e começou a compor Come Taste the Band. Porém, antes disso, durante uma turnê européia, teve que intervir à força em Glenn Hughes, mandando-o de volta para a Inglaterra para fazer um tratamento contra a cocaína, pois o baixista estava totalmente fora do ar. Hughes conta que, por causa disso, não tocou na faixa de abertura do álbum, “Comin' Home”, que teve o baixo e os backing vocals a cargo de Bolin.

Implodindo, o grupo saiu em turnê para promover o disco – um trabalho injustamente incompreendido, pois, apesar de ser muito diferente do que o Purple havia gravado anteriormente, é, sem dúvida, um grande álbum. Após shows na Austrália, onde foram aclamados, a banda partiu para uma desastrosa apresentação em Jacarta, capital da Indonésia, onde tudo deu (muito) errado. Lá ocorreu um dos episódios mais nebulosos da carreira do grupo, a morte do guarda-costas Patsy Collins, até hoje não solucionada. Para Hughes e Lord, Collins foi assassinado, mas nada foi provado. A banda teve que pagar milhares de dólares para sair do país, e ainda levou na bagagem um Tommy Bolin debilitado, pois o promotor dos shows naquele país havia dado morfina para o guitarrista, que apagou e dormiu durante horas sobre o seu próprio braço.



Foi neste estado que o Purple chegou ao Japão para alguns shows. Incapacitado de tocar plenamente, Bolin só conseguia alcançar poucas notas com a sua mão esquerda, totalmente adormecida. Por causa disso, tocou com várias guitarras afinadas em diversos tons diferentes. Essas apresentações deram luz ao álbum ao vivo Last Concert in Japan (1978) e estão presentes em cinco faixas registradas em vídeo neste DVD, que são as únicas imagens oficiais de Tommy Bolin como integrante do Purple. Ainda que tenham tocado de forma incrível, com Lord fazendo as partes de Bolin e Paice segurando tudo lá atrás, com Coverdale cantando de maneira sublime, os shows são o retrato dolorido de um grupo em estágio avançado de deterioração. Bolin está muito abaixo de suas capacidades, e Hughes em órbita em um planeta distante.

Phoenix Rising é um documentário excelente, principalmente pela sinceridade bruta de Jon Lord e Glenn Hughes em seus depoimentos. Lord, que faz questão de dizer que não era santo, não esconde o seu descontentamento pelo descontrole químico de Bolin e Hughes, que levaram a banda ao seu fim prematuro. Já Hughes conta nos mínimos detalhes o seu mergulho na escuridão do vício, mostrando o quanto aquilo o fez mal e o quanto é um homem melhor hoje em dia. Sobrevivente apenas por acaso, o baixista relata a sua vergonha por atos que cometeu no período, com os quais tem que conviver até hoje.

Indicado não apenas para fãs do Deep Purple, Phoenix Rising é de uma beleza dolorida, e por isso mesmo tão fascinante. A edição nacional lançada pela ST2 vem com um longo encarte de 28 páginas repleto de informações, mas comete um erro gravíssimo ao não trazer legendas em português. Quem não domina a língua inglesa terá que se contentar com a legendagem em espanhol, que até quebra o galho. Isso é um enorme desrespeito com o consumidor que, em pleno 2011, tem que engolir que um vídeo com essa qualidade seja lançado em nosso país sem legendas em nossa língua natal. Mancada feia da ST2, que espero não se repita novamente.

Mesmo assim, Phoenix Rising é espetacular, e lança um feixe de luz sobre a fase menos comentada da carreira do Deep Purple, uma das bandas mais importantes e influentes da história do hard rock. Enfim, imperdível!

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