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13 de dez de 2016

Livro: Lindo Sonho Delirante, de Bento Araújo

terça-feira, dezembro 13, 2016

Desde 2003 à frente da poeira Zine, excelente revista brasileira cujo foco são os sons obscuros das décadas de 1960 e 1970 (se ainda não leu a pZ, leia!), o jornalista Bento Araújo dá um importante passo em sua carreira com o lançamento do livro Lindo Sonho Delirante.

Viabilizada através de um bem sucedido crowdfunding, a obra é um belo e necessário compêndio sobre a música psicodélica brasileira, ao mesmo tempo resgatando discos e artistas não tão conhecidos do público e realçando a importância da obra de nomes já icônicos, como Mutantes, Caetano, Gil e toda a turma vinda da Bahia. Com 232 páginas, papel couchê, lombada quadrada e  textos em português e inglês, o livro é fundamental para quem quer pesquisar de maneira profunda a música jovem produzida no Brasil entre o final dos anos 1960 e meados da década de 1970.

No total, Bento lista uma centena de discos, faz resenhas breves sobre cada um deles, mostra o porque foram importantes e apresenta o contexto em que cada título foi criado e veio ao mundo. O livro é estruturado de maneira semelhante ao que encontramos em 1001 Discos para Ouvir Antes de Morrer, o que torna a leitura fácil e rápida. 


Obra de inegável envergadura para quem gosta de música, Lindo Sonho Delirante é uma fonte de pesquisa extremamente útil, pois compila um período e um movimento musical até então ausente das obras sobre o gênero lançadas até hoje no Brasil. Ainda que os artistas mais conhecidos presentes em suas páginas já tenham a sua carreira analisada à exaustão em diversos outros trabalhos, está justamente na inclusão de nomes pra lá de obscuros a verdadeira força do livro, em um garimpo sonoro digno do mais talentoso artesão.

O único ponto negativo de Lindo Sonho Delirante é o preço, já que o valor de R$ 120 pode ser um tanto salgado se levarmos em conta a oferta de obras sobre música disponíveis atualmente nas livrarias de todo o país. No entanto, o ineditismo da proposta somado à qualidade do trabalho de Bento Araújo compensa o investimento.

Se você é um fã de música ou quer presentear alguém com algo original neste final de ano, Lindo Sonho Delirante é uma dica certeira.


5 de dez de 2016

Livro: Viva La Vida Tosca, de João Gordo e André Barcinski

segunda-feira, dezembro 05, 2016

Escrito em parceria com o jornalista André Barcinski (autor de Barulho - Uma Viagem pelo Underground do Rock Americano, Pavões Misteriosos - 1974 a 1983: A Explosão da Música Pop no Brasil, Guia da Culinária Ogra: 195 Lugares para Comer Até Cair e Zé do Caixão - Maldito: A Biografia), Viva La Vida Tosca é autobiografia do lendário João Gordo e está chegando às livrarias de todo o Brasil pela Darkside Books. 

Com capa dura, 320 páginas, inúmeras fotos e um projeto gráfico de tirar o chapéu (quem já leu algum livro lançado pelo Darkside sabe da excelência editorial dos caras), o livro conta toda a vida de João Francisco Benedan, partindo de sua infância, passando pela trajetória com o Ratos de Porão e chegando à transformação do vocalista de uma das maiores bandas punk do Brasil em um ícone da cultura pop brasileira, processo que se deu através dos inúmeros programas que Gordo apresentou na MTV.

Barcinski entrevistou João Gordo durante dezoito meses, extraindo memórias e histórias que nem o próprio músico lembrava. Além disso, conversou com familiares, amigos e companheiros de banda e trabalho, conseguindo montar um painel biográfico bastante abrangente. Narrado em primeira pessoa, o livro não esconde nada, expondo os medos, a relação profunda com as drogas, as tretas e as situações quase surreais pelas quais João passou em toda a sua vida.

A relação com a família é contada com uma transparência até então inédita. Com um pai autoritário e com sérios problemas de temperamento, João sempre teve um conflito com o seu progenitor. De uma família de classe média baixa, veio ao mundo logo após o golpe militar de 1964 e viveu a sua adolescência durante os anos 1970 e 1980. O retrato da família de João é aterrador, com problemas causados por ambas as partes, e que mexem profundamente com o leitor.


Autêntico até o último fio de cabelo, João Gordo relata suas experiências com a cena punk de São Paulo, seus conflitos com as diferentes facções que formavam um movimento que ficou mais conhecido pela violência do que pela ideologia, e em como isso acabou o afastando do punk e o aproximando da comunidade do metal. As inúmeras turnês do Ratos pela Europa são outro destaque, com o contraste entre jovens brasileiros sem maiores expectativas e experiências sendo expostos a um universo totalmente novo.

O fato é que o Ratos de Porão passou anos e anos trabalhando duro e do seu próprio jeito, construindo uma sólida reputação mundo afora, o que tornou João Gordo uma figura conhecida em vários pontos do mundo. Isso fez com que o vocalista tivesse uma relação próxima com diversos músicos das mais variadas bandas, e isso é contado em detalhes.

Acima de tudo um sobrevivente, João Gordo não esconde isso em nenhum momento, contando de maneira forte todos os problemas pelos quais passou, e como foi salvo por amigos e amigas em diversas oportunidades. A transformação iniciada por duas sérias situações que colocaram a sua vida em risco e geraram longos períodos de internação na UTI foram aos poucos mudando a visão das coisas, culminando com a chegada de Vivi, sua esposa, e de seus dois filhos, Victória e Pietro.

Divertido e revelador, Viva La Vida Tosca é um livro excelente e que você lê de uma tacada só. Suas mais de trezentas páginas voam em suas mãos, graças ao texto muito bem construído e à história de seu protagonista, que parece escrita por um roteirista em momento de grande inspiração. E é, além disso, um documento justo a um dos músicos e personagens mais importantes do rock brasileiro, dono de uma trajetória que foi se adaptando aos diferentes momentos e prioridades de sua vida.

Uma das melhores biografias que já li, fácil.

6 de out de 2016

Livro: Gol da Alemanha, de Axel Torres e André Schön

quinta-feira, outubro 06, 2016

O título do novo livro da Editora Grande Área pode enganar alguns leitores. Gol da Alemanha (210 páginas) não tem como foco principal a fatídica semifinal da Copa do Mundo de 2014, vencida pela Alemanha com um pornográfico 7x1 sobre a Seleção Brasileira. O tema é, na verdade, muito mais interessante. A publicação original tem o título de Franz Jürgen Pep, escolha que resume melhor o que encontramos nas páginas da obra.

Escrito a quatro mãos pelo jornalista espanhol Axel Torres e pelo professor alemão André Schön, o livro é uma grande investigação sobre a evolução histórica do futebol alemão, tendo como protagonistas principais a Nationalelf e o Bayern de Munique. Os dois escribas se debruçam sobre toda a história do futebol germânico, com um foco maior a partir do surgimento de Franz Beckenbauer na Copa de 1966, onde a Alemanha chegou ao vice-campeonato.

Com análises minuciosas de jogos históricos e mensuração do impacto de cada novo nome a surgir com ideias novas no cenário futebolístico do país - além de Beckenbauer, destaque para Jürgen Klinsmann (responsável pelo pontapé inicial e condução da primeira etapa da mudança de paradigmas experimentada pela seleção nacional, que alcançou o seu ápice no Brasil em 2014) e para os conceitos inovadores e desafiadores de Pep Guardiola. Um dos grandes méritos do livro está em buscar no passado as raízes para o momento atual, em um mergulho nas Copas do Mundo de 1966, 1970 e 1974 (onde, respectivamente, a Alemanha foi vice-campeã, chegou à semifinal e venceu o título) e em um dos períodos mais vencedores do Bayern, quando o time de Munique venceu por três vezes seguidas a Copa dos Campeões em 1974, 1975 e 1976.

Com textos leves e, ao mesmo tempo, repletos de informação, a obra proporciona uma leitura deliciosa e que cumpre o seu objetivo, que é identificar os pontos de mudança e intersecção que levaram a Alemanha a mudar o seu modo de jogar, saindo do típico futebol baseado na força física até se tornar uma das maiores referências táticas e técnicas do futebol moderno.

No fim das contas, o inesquecível 7x1 mal é citado, e está presente apenas no penúltimo capítulo do livro, apenas como um dos elementos formadores de um universo muito maios amplo. 

Se você gosta de futebol, Gol da Alemanha é um baita livro, que vai levá-lo através de uma jornada histórica interessantíssima. 

Leitura altamente recomendada!

12 de jan de 2016

Barulho Infernal: A História Definitiva do Heavy Metal (Conrad Editora, 2015)

terça-feira, janeiro 12, 2016

Com 720 páginas e literalmente milhares de informações, Barulho Infernal é uma das obras sobre heavy metal mais completas já publicadas no Brasil. Lançado originalmente em 2013 nos Estados Unidos, o livro traz mais de 250 entrevistas compiladas pelos jornalistas Jon Wiederhorn e Katherine Turman, em um trabalho meticuloso e que faz jus a um dos mais populares gêneros musicais do planeta.

Organizado em capítulos que contam a história dos subgêneros mais populares da música pesada, o livro traz os próprios músicos envolvidos no processo contando como tudo aconteceu. Assim, ao invés de um texto contextualizando tudo, o que temos é Tony Iommi, Ozzy e praticamente todo músico que teve o seu nome envolvido com o heavy metal contando detalhes, curiosidades e histórias de suas bandas e carreiras. Esse método, extremamente eficaz devido à ótima edição de Wiederhorn e Turman, imprime uma enorme profundidade e veracidade à Barulho Infernal, transformando a obra em um documento de inestimável valia para quem consome heavy metal ou quer apenas saber mais sobre o nascimento e desenvolvimento do estilo.

Das origens com Black Sabbath, Led Zeppelin, Deep Purple, Blue Cheer e MC5, passando por pioneiros como Alice Cooper e Judas Priest, transitando pela New Wave of British Heavy Metal, pelo thrash, death e black, além de gêneros mais recentes como o industrial, o metalcore e a New Wave of American Metal, o que temos é um estudo incrivelmente detalhado das muitas vertentes que fazem do metal um gênero tão apaixonante. Ouvir da própria boca dos músicos detalhes de como cada disco foi gravado, de como era a cena em cada época, das sempre nababescas experiências com drogas e sexo, além das tretas envolvendo nomes famosos, faz da leitura das mais de 700 páginas uma tarefa surpreendente leve e nada cansativa.

Barulho Infernal é um livro espetacular, que documenta como poucas obras já fizeram todo o processo que envolve o heavy metal, da sua origem até os dias atuais. Ao lado de Heavy Metal: A História Completa, de Ian Christie, trata-se da mais abrangente obra sobre o gênero publicada até hoje no Brasil.

Pra fechar, vale mencionar o excelente trabalho realizado pela Conrad Editora, que publicou Barulho Infernal em uma linda edição com capa dura aqui no Brasil, com tradução exemplar (são raros os deslizes) e com páginas em papel couché trazendo dezenas de fotos coloridas dos mais variados artistas. 

Se você ouve heavy metal, tá na hora de ler também sobre o gênero.

17 de dez de 2015

Mourinho Rockstar (Editora Grande Área, 2015)

quinta-feira, dezembro 17, 2015

Mourinho Rockstar é o segundo livro lançado pela editora Grande Área no mercado brasileiro. Publicado lá fora em 2014, a obra recebeu uma atualização para a edição nacional, tem prefácio de PVC e conta a trajetória do técnico português até os dias atuais.

José Mourinho é uma figura polêmica, um técnico soberbo e um personagem e tanto. Com 224 páginas, a obra do jornalista português Luis Aguilar (autor de outros livros sobre futebol como Jogo Sujo, Jogada Ilegal, Jogo de Vida e Morte e CR30), o livro de 224 páginas possui uma linguagem leve e cheia de referências à cultura pop. Aguilar utiliza comparações com personagens do cinema e da TV para fazer contrapontos com Mourinho, ao mesmo tempo em que revela inúmeras histórias de bastidores pouco conhecidas da carreira do português.

Marcam presença na obra personagens icônicos como Alex Ferguson, Éric Cantona, Zlatan Ibrahimovic e outros, donos de personalidades fortes como Mourinho. Além disso, o autor detalha a passagem de Mourinho por todos os clubes que treinou, mostrando as virtudes que levaram o português ser idolatrado no Chelsea e na Internazionale, e os inúmeros problemas que ele encontrou no Real Madrid.

Breve e cativante, Mourinho Rockstar é daqueles livros que a gente lê de primeira. Se você curte futebol e uma leitura divertida, é uma indicação certeira.

14 de dez de 2015

Guardiola Confidencial (Editora Grande Área, 2015)

segunda-feira, dezembro 14, 2015

Quem gosta de futebol, sabe quem é Pep Guardiola. O espanhol foi jogador do Barcelona, mas entrou para a história do time catalão por ser a mente criativa responsável por um dos períodos mais vencedores do clube. À frente do Barcelona por cinco anos, Guardiola conquistou entre 2008 e 2012 três Campeonatos Espanhóis, duas Copas do Rei, três Supercopas da Espanha, duas Champions League, duas Supercopas da UEFA e dois Mundiais de Clube. E, mais do que isso, exibiu ao mundo um jeito de jogar que cativou torcedores e influenciou de maneira profunda clubes, atletas e o próprio futebol.

Guardiola Confidencial (Herr Pep, no original), livro escrito pelo jornalista espanhol Marti Perarnau, conta a história vivida por Guardiola após todo esse sucesso. Com edição nacional da Editora Grande Área, a obra de 408 páginas entra no cotidiano do técnico e revela toda a trajetória de Guardiola pós-Barcelona, iniciando no ano sabático vivido pelo manager em Nova York e mostrando o dia a dia do seu trabalho no Bayern de Munique, clube onde está até hoje.

Trata-se de um livro sobre futebol, mas não apenas isso. Na verdade, Guardiola Confidencial é uma obra que vai além do esporte, e pode ser categorizada como um estudo sobre o ser humano. Revelando a fundo e em detalhes os métodos de trabalho de Pep, Perarnau mostra, simultaneamente, a paixão e a dedicação de uma mente inteligentíssima ligada a todo vapor no futebol, e também os bastidores de um dos maiores times do mundo e a relação de Pep com os atletas.

Em um tempo em que o Brasil assiste a denúncias diárias de corrupção na CBF, e onde a nossa Seleção, comandada por profissionais ultrapassados, teve uma derrota história por 7x1 em uma semifinal de Copa do Mundo disputada no seu próprio país, a leitura de Guardiola Confidencial é, além de indicada, praticamente obrigatória a todos que gostam e querem entender mais sobre o momento atual do esporte. Vivendo anos à frente da realidade que temos por aqui, não apenas em estrutura e no aspecto econômico, mas, notavelmente, no aspecto tático, Pep resolve problemas e encontra soluções surpreendentemente simples para montar os esquemas e os planos de jogo do Bayern, em um contraste gritante com a mente da maioria dos técnicos brasileiros.

Este é um livro excelente, delicioso, repleto de informações e entrelinhas. As situações mostradas em suas páginas exploram o cotidiano do futebol, mas em muitos aspectos inspiram também saídas para o que enfrentamos em nossas próprias vidas.

Guardiola Confidencial é uma obra espetacular, e que marca a estreia em grande estilo da Editora Grande Área em nosso mercado. 

Leitura altamente recomendada, e não apenas para quem gosta de futebol.



5 de out de 2015

O Demonologista - Andrew Pyper (Darkside Books, 2015)

segunda-feira, outubro 05, 2015

Uma mistura de O Código Da Vinci com O Exorcista”. Esta frase está no release de O Demonologista, e faz todo sentido. Escrito pelo canadense Andrew Pyper, o livro é uma espécie de road movie demoníaco e conta uma história cativante, repleta de surpresas e mudanças de curso.

A trama é centrada em David Ullman, professor universitário especialista no modo em como o diabo é retratado na literatura, e que tem como principal objeto de estudo o clássico Paraíso Perdido, de John Milton. Ullman é uma espécie de Robert Langdon, o herói dos livros de Dan Brown, cujo objeto de estudo é a figura do demônio. David recebe a visita de uma mulher misteriosa, que o convida a fazer uma viagem para Veneza com o objetivo de avaliar um fenômeno que está ocorrendo na histórica cidade italiana. Lá chegando, presencia a manifestação de um demônio e quase simultaneamente perde a sua filha adolescente, que o havia acompanhado na jornada.

A partir daí, o que temos é a busca incessante de David Ullman por Tess, sua filha. E ela se dá através de pistas espalhadas pelo demônio e pela própria Tess através de cidades do interior dos Estados Unidos, em uma jornada repleta de surpresas pelo caminho. O texto de Pyper é enxuto e conciso. Com uma narrativa cinematográfica, o autor prende o leitor página à página, em uma história que vai revelando suas tonalidades aos poucos. Não à toa, a obra está sendo adaptada para o cinema e terá a direção de Robert Zemeckis, conhecido por clássicos como De Volta Para o Futuro e Forrest Gump.




A edição nacional de O Demonologista ficou a cargo da Darkside Books, e mais uma vez temos um trabalho gráfico e editorial do mais alto nível. A capa é dura e com aplicação de texturas, enquanto o papel interno possui uma gramatura maior e uma tonalidade diferente, o que dá ainda mais charme ao livro. Além disso, a versão nacional vem com várias ilustrações criadas pelo francês Gustave Doré, artes que estão também em uma das edições mais conhecidas de Paraíso Perdido. E, como complemento, traz uma breve biografia de Milton e analisa o impacto cultura de Paraíso Perdido sobre o mundo em que vivemos.


O Demonologista conta uma história viciante, capaz de prender o leitor de maneira instantânea. Relativamente curto - são apenas 320 páginas -, o livro é uma ótima indicação para quem gosta de tramas que exploram os aspectos mais sombrios da nossa cultura. Garantia de uma ótima leitura!




7 de dez de 2014

Crítica do livro Mondo Massari, de Fabio Massari

domingo, dezembro 07, 2014
Dono de um dos melhores textos do jornalismo rock brasileiro e mundial, Fabio Massari tem uma parcela considerável do seu trabalho reunido em Mondo Massari, livro lançado pelas Edições Ideal. Compêndio com quase 500 páginas, trata-se de uma coletânea de textos e entrevistas veiculados/publicados na MTV, Rolling Stone Brasil, Yahoo! e Oi FM.

O que temos em Mondo Massari é o documento físico e atemporal da mente musical de um dos jornalistas mais singulares que o rock já pariu. Pesquisador de alma inquieta, que mergulha profundamente e nada com braçadas fortes nos horizontes mais extremos e improváveis da música, Massari consegue contagiar o leitor ao falar de bandas que quem está do outro lado jamais ouviu, atiçando a curiosidade e o desejo de ir além da superfície. A gama de sons que o livro oferece ao leitor é um grande abre portas para o universo musical, revelando nomes interessantíssimos e que fazem questão de sair do lugar comum.

Claro que essa obscuridade é equilibrada com textos sobre artistas mais populares, mas quando fala de nomes mais conhecidos Massari oferece pautas e pontos de vistas únicos, demonstrando o porque de possuir o status e respeito que carrega.

Mondo Massari se enquadra naquela categoria de livros que acabam se transformando em fontes de pesquisa constantes. É bem provável que você não leia a obra de uma tacada só, voltando para ela repetidamente em busca de informações sempre que necessário. Esse caráter enciclopédico apenas reforça o conteúdo e o conhecimento diferenciado que o universo musical desbravado por Massari oferece.

Se você gosta de música, eis aqui um grande livro. Agora, se além de gostar de música você também escreve ou quer escrever sobre o mundo dos sons, Mondo Massari é um dos livros obrigatórios na sua cabeceira, fundamental para a sua formação como ouvinte e escritor.

Por Ricardo Seelig

6 de dez de 2014

Crítica do livro Black Sabbath - Destruição Desencadeada, de Martin Popoff

sábado, dezembro 06, 2014
Em 2008, publicamos uma matéria sobre o livro Black Sabbath Doom Let Loose: An Illustrated History, escrito pelo jornalista e pesquisador canadense Martin Popoff - leia aqui. Pois bem: passados cinco anos, a obra ganha uma caprichada edição brasileira lançada pela Darkside Books.

Com o título nacional de Black Sabbath - Destruição Desencadeada, o livro está à disposição nas livrarias e é recomendadíssimo não apenas para os fãs da banda, mas também para toda e qualquer pessoa que se interessa pela história do rock e do heavy metal. Suas 448 páginas preenchem uma lacuna no mercado editorial brasileiro, fazendo juz ao subtítulo A História Completa e contando, com riqueza de detalhes, a trajetória da banda mais importanda do rock pesado.

Popoff é uma sumidade, e seu trabalho como pesquisador e escritor especializado em heavy metal é diferenciado. Isso se reflete em todo o livro, que traz centenas de informações até então inéditas ao grande público. Com uma maneira de escrever hipnotizante, o canadense conduz o leitor por todos os guetos da rica história do Sabbath, construindo uma narrativa fascinante e épica.

Em relação à edição original, há algumas observações a serem feitas. O livro lançado em 2008 tinha outro formato, maior e quase quadrado, e suas páginas coloridas de papel couchê traziam literalmente centenas de imagens de itens de memorabília coletados junto aos colecionadores do grupo. A edição brasileira é diferente, e, apesar de não seguir o caminho citado, tem inúmeras qualidades. O que temos em nossas livrarias é um tomo com capa dura semelhante à belíssima edição nacional da biografia do Led Zeppelin, Quando os Gigantes Caminhavam Sobre a Terra. Com acabamento gráfico diferenciado, o livro impressiona pelo esmero com que a Darkside Books tratou a obra de Popoff e, por conseguinte, o legado do Black Sabbath. Perde-se um pouco pela opção da impressão em preto e branco, mas é perfeitamente compreensível tal decisão, uma vez que a impressão totalmente em cores deixaria o livro com um preço proibitivo e fora do alcance de grande parte do público a quem ele é dirigido.

Merece destaque também, além do rico acabamento gráfico, a introdução exclusiva da edição brasileira, a cargo de Andres Kisser, e a adição de um capítulo exclusivo, dedicado ao lançamento e à repercussão do álbum 13, lançado em junho passado.

Uma das mais belas e completas biografias musicais já lançadas no Brasil, Black Sabbath - Destruição Desencadeada é um deleite e um item essencial para quem gosta de rock, heavy metal e literatura. E mostra, acima de tudo, o cuidado com que a Darkside Books, sua editora, tratou a obra de Martin Popoff, demonstrando grande respeito pelos fãs.

Um dos melhores livros sobre música lançados no Brasil este ano - se não for o melhor.

Por Ricardo Seelig

Uma Temporada no Inferno com os Rolling Stones: a história de Exile on Main Street

sábado, dezembro 06, 2014


Robert Greenfield esteve no olho do furacão. Entre 1970 e 1972 editou, diretamente de Londres, a tradicionalíssima revista Rolling Stone, uma das mais importantes e influentes publicações musicais daquela época. Sua experiência com o contato direto e quase diário com artistas que se tornaram ícones de gerações o levou a escrever sobre suas aventuras, gerando obras obrigatórias para quem se interessa pela história da música pop, como A Journey through America with the Rolling Stones, Bill Graham Presents: My Life Inside Rock and Out, Dark Star: An Oral Biography of Jerry Garcia, Timothy Leary: A Biography, entre outros.

O mais recente livro de Greenfield, Uma Temporada no Inferno com os Rolling Stones (título original: Exile on Main St.: A Season in Hell with The Rolling Stones) conta em detalhes um dos períodos mais complicados da carreira dos Stones. No início dos anos setenta a banda estava literalmente falida, em um reflexo direto do contrato que haviam assinado com o empresário Allen Klein, famoso tanto por elevar as carreiras de seus contratados a um novo patamar, quanto por desviar somas exorbitantes desses mesmos artistas. Da mesma maneira que havia feito com os Beatles, Klein submeteu os Rolling Stones a um rígido controle financeiro, só fazendo chegar aos músicos somas muito pequenas de dinheiro, e ainda assim somente após insistentes pedidos.


Quando perceberam, os Stones eram escravos de Klein. Com a ajuda do príncipe austríaco Ruper Ludwig Ferdinand vu Loewenstein-Wertheim-Freudenberg, amigo pessoal de Mick Jagger, consultor financeiro da banda e diretor do banco mercantil britânico Leopold Joseph, o grupo traçou uma estratégia para, simultaneamente, se ver livre das garras sedentas de Klein e do apetite absurdo do leão inglês, que abocanhava inacreditáveis 93% dos rendimentos gerados pelo conjunto. Para se ter uma ideia, pelos cálculos de Loewenstein, Klein devia 17 milhões de dólares ao grupo. Se hoje essa quantia já é fabulosa, imagine há quase quarenta anos atrás.

Os advogados dos Stones, sob a orientação de Loewenstein, sentaram-se com os representantes de Allen Klein e, após uma sessão final de negociações que durou 36 horas ininterruptas, fecharam um acordo onde Klein pagaria 2 milhões de dólares ao grupo e ficaria com as masters e os direitos de editoração de toda a obra gravada pelos Rolling Stones até 1970, incluindo não apenas tudo o que já havia sido lançado pelo grupo, mas também gravações inéditas registradas no período. Ou seja, Klein estava rindo à toa, enquanto os Stones precisavam imediatamente resolver suas finanças.


A solução encontrada pelo grupo foi partir para um auto-exílio na França, onde gravariam um disco e, logo em seguida, sairíam em turnê. Um a um, cada integrante da trupe dos Stones partiu para a costa francesa. A base do grupo foi estabelecida na mansão alugada por Keith Richards em Vila Nellcote, transformada em quartel-general durante a estada francesa da banda e que, segundo histórias contadas por moradores locais, havia servido de refúgio para nazistas em fuga após a Segunda Guerra Mundial.

Para quem vê de fora, tudo parecia estar entrando nos eixos, certo? Afinal, você é um dos maiores rockstars do mundo, toca na maior banda do planeta, seu último álbum foi aclamado pela crítica (o excelente Sticky Fingers, de 1971) e você está prestes a gravar o seu próximo disco em uma enorme mansão às margens da costa meditarrânea. O problema é que nem tudo eram flores para os Rolling Stones naquele momento.

Além do caos financeiro causado pela parceria com Allen Klein, o quinteto enfrentava outros problemas. Keith Richards e Anita Pallenberg, sua namorada e futura esposa, com quem teria dois filhos, estavam afundados em heroína, consumindo a droga como quem masca chicletes. Por outro lado, Mick Jagger estava prestes a se casar com a modelo Bianca Perez Morena de Macias – futura senhora Bianca Jagger –, e logo depois veria o nascimento de sua primogênita, Jade. Bill Wyman e Charlie Watts, acompanhados de suas respectivas esposas, mantinham uma distância sadia da mansão de Keith, enquanto Mick Taylor, ao mesmo tempo em que gravava passagens fenomenais com sua guitarra nas canções que iriam figurar em Exile on Main St., era assombrado por suas inseguranças e medos, revelando os primeiros sinais que o levariam, mais tarde, a sair do grupo.

O relato de Robert Greenfield está repleto de detalhes que apenas quem viveu, pessoal e intimamente, aquele período em Vila Nellcote poderia contar. Seu texto é ágil e fácil, tornando a leitura do livro uma experiência empolgante. Página após página, somos apresentados a personagens que faziam parte do cotidiano dos Rolling Stones naquela época, nomes como Marianne Faithful, o pequeno Marlon – filho de Keith e Anita –, Gram Parsons, o fotógrafo Michael Cooper (autor da capa de Their Satanic Majesties Request), Marshall Chess (herdeiro da Chess Records e responsável por tocar a recém criada Rolling Stones Records), o produtor Andy Johns, Tony Sanchez (o folclórico Tony Espanhol, traficante pessoal dos Stones e chapa de Keith), Jean de Breteuil (playboy e aristocrata francês, cujos serviços como traficante incluem, segundo os mais bem informados, a dose de heroína que causou a overdose fatal de Jim Morrison em Paris), o bon vivant Tommy Weber e seus filhos Jake e Charlie (como curiosidade, vale dizer que Jake Weber faz o papel, atualmente, do marido de Patricia Arquette na série Medium, transmitida no Brasil pela Sony), além de inúmeros outros que vão surgindo como coadjuvantes ao longo do livro.



A aventura dos Stones se revela uma jornada sem fim. Sob o sol escandante do litoral francês, enquanto Keith e Anita se entopem de heroína, Mick e Bianca se mudam para Paris para curtir sua lua de mel. O tal disco, a razão pela qual o grupo se mudou para a França, fica infinitamente em segundo plano, deixado de lado enquanto os Glimmer Twins e sua trupe tinham outras prioridades. Aos poucos o ambiente de Villa Nellcote revela-se um inferno, com os Stones embarcando em uma viagem caótica, turbinada pela dependência cada vez maior de Keith Richards. A produtividade de Keith, tradicionalmente a força motriz por trás das composições do grupo, acaba comprometida pelo seu vício cada vez maior, com o guitarrista assumindo um comportamento similar aquele que tanto criticava em Brian Jones, quando esse último aparecia pra lá de chapado nas sessões de gravação da banda. Para constar, Keith só colocaria um fim em seu romance com a heroína no final da década de 1970, após ser preso no Canadá com 28 gramas da droga e ser condenado pela justiça local.

E assim os dias se arrastam. Ideias esparsas surgem de tempos em tempos, e os demais integrantes tentam evoluí-las, quase sempre sem a presença de Keith e Mick. Enquanto isso, pessoas cada vez mais estranhas transformam-se em visitantes habituais de Villa Nellcote, como os traficantes corsos que mais parecem personagens do filme Homens de Preto, isso sem falar em toda a fauna freak local.

Enquanto Keith isola-se cada vez mais, Anita dá asas a sua paranóia e vai tornando a vida de todos na casa uma sucessão de causos inacreditáveis. Obcessiva por natureza, a linda modelo que marcou a vida de três Stones (além de Richards, Anita Pallenberg manteve romances com Brian Jones e Mick Jagger) assume, a princípio, o papel de rainha louca da mansão, mas aos poucos as suas atitudes se transformam em piada entre os frequentadores da casa, fazendo com que Anita vire apenas mais um personagem curioso na rica galeria de tipos esquisitos de Vila Nellcote.

Em algumas passagens o livro de Greenfield assemelha-se a um romance policial, repleto de intrigas e tramas paralelas. A relação entre os moradores de Nellcote e sua interação com a comunidade que os cerca gera inevitáveis conflitos. Greenfield narra esses encontros de forma bastante detalhada, prendendo a atenção do leitor com histórias que, em alguns momentos, parecem saídas de contos quixotescos.


Para mim, dois aspectos do texto de merecem uma pequena crítica. O primeiro é que ao ler a orelha e os trechos da contracapa do livro, têm-se a sensação de que Uma Temporada no Inferno com os Rolling Stones tratá muito mais detalhes e curiosidades sobre o comportamento dos Stones naquele período do que realmente traz. Ou seja, a propaganda promete mais do que o livro realmente entrega. Pode ser apenas uma sensação pessoal minha, que sempre fui um devorador da intimidade mórbida de meus ídolos, mas tenha a impressão que se Greenfield fosse um pouco mais fundo e, sobretudo, tivesse a coragem de publicar tudo o que realmente viu, o livro seria melhor do que já é.


A outra questão é o esforço contínuo que Robert Greenfield faz para desacreditar toda e qualquer informação que tenha como fonte Tony Espanhol. Tudo bem que as memórias de um traficante naquele início dos anos setenta não configuram, realmente, uma fonte das mais confiáveis, mas daí eu pergunto: no que elas se diferem das lembranças de quem estava do outro lado do barco, vivendo o cotidiano daqueles dias, geralmente entorpecido com os produtos que Tony fornecia? O ranço de Greenfield me soa mais como uma lance pessoal, uma antipatia em relação ao fornecedor habitual dos Stones, do que qualquer outra coisa.

Mas esses pequenos deslizes não desmerecem, em nenhum momento, a qualidade do livro. Uma Temporada no Inferno com os Rolling Stones é uma obra indicadíssima para quem se interessa pela história do rock e de um de seus principais protagonistas, e uma de suas maiores qualidades é justamente trazer uma visão de dentro para fora, com o relato de quem viveu aquela época na mesma sintonia dos músicos. Sem dúvida, uma ótima obra sobre aquela que, desde sempre, é conhecida como a maior banda de rock do mundo.

29 de nov de 2014

Crítica do livro A Batalha Pela Alma dos Beatles, de Peter Doggett

sábado, novembro 29, 2014

Existem inúmeros livros sobre os Beatles. Centenas, milhares de obras já analisaram a carreira da banda e de seus integrantes, partindo dos mais variados pontos e chegando às mais diversas conclusões. No entanto, nenhum é como A Batalha Pela Alma dos Beatles (Your Never Give Me Your Money: The Beatles After the Breakup, no título original em inglês), escrito pelo jornalista inglês Peter Doggett. O autor conta, através de uma pesquisa extensa e com grande riqueza de detalhes, a colossal disputa jurídica que envolveu John Lennon, Paul McCartney, George Harrison, Ringo Starr e praticamente qualquer pessoa que tenha cruzado o caminho dos Beatles, após o anúncio do fim do grupo, em 1970.

Baseado em inúmeras entrevistas com os quatro e com dezenas de pessoas que tiveram relacionamento com a banda e seus músicos (assistentes, familiares, roadies, jornalistas, amigos, ...), A Batalha Pela Alma dos Beatles é um livro notável ao lançar inúmeros focos de luz sobre os bastidores de um conflito épico e quase desconhecido do público em geral.

Traçando perfis profundos de Lennon, McCartney, Harrison e Starr, além de Yoko Ono, Linda McCartney, Brian Epstein (primeiro empresário), Allen Klein (substituto de Epstein e segundo empresário do grupo), Lee e John Eastman (respectivamente sogro e cunhado de Paul, e também responsáveis por seus negócios) e os funcionários mais próximos da banda, Doggett revela como os Beatles foram se dissolvendo lentamente desde a morte de Epstein em 1967, passando por longos confrontos jurídicos durante toda a década de 1970 e 1980, processo esse que resultou em rusgas e diferenças profundas e praticamente intransponíveis entre John, Paul, George e Ringo, além de uma contenda aparentemente infinita entre os clãs Lennon e McCartney.

A leitura proporciona um mergulho profundo na mecânica interna dos Beatles, esmiuçando não só como funcionava a banda legalmente, mas também como eram as relações entre seus integrantes. A forma como a Apple, empresa criada pelo quarteto e que tinha como objetivo ser o início de uma nova forma de fazer negócios, se metamorfoseou ao longo das décadas é impressionante, indo de ícone da contracultura à gigante do capitalismo.

Salta aos olhos a inocência que envolveu os negócios dos Beatles ao longo de sua carreira. A época era outra, mas a forma quase amadora com que a banda conduziu suas finanças e assinou contratos que depois se transformaram em enormes dores de cabeça, impressiona. A chegada do controverso Allen Klein ao universo Beatle, substituindo o falecido Brian Epstein, apenas realçou ainda mais os problemas administrativos do grupo. Notório por sua fama de mau caráter, Klein obteve o apoio quase incondicional de John, George e Ringo, e, simultaneamente, a antipatia imediata de Paul, razão pela qual as disputas entre os músicos acabaram indo parar nas cortes inglesas.

Outro ponto que merece destaque e surpreende o leitor é o quão próximo de se reunir o quarteto esteve em diversas ocasiões até a morte de Lennon, em 8 de dezembro de 1980. Encontros não divulgados, intenções mútuas de aproximação, parcerias não finalizadas: o que não faltaram foram contatos pessoais e criativos entre os quatro músicos durante toda a década de 1970, deixando a banda a um passo de concretizar o sonho de milhões de fãs em todo o planeta.

Extremamente bem escrito e riquíssimo em informações, A Batalha Pela Alma dos Beatles é um livro sensacional. Não apenas uma obra indicada para fãs dos Beatles, mas, sobretudo, uma aula esclarecedora sobre como funciona a máquina administrativa e financeira por trás de uma grande banda, movida a milhares de contratos e zilhões de advogados.

O sonho acabou em 1970, mas aqui ele mostra a sua verdadeira face, nem sempre agradável, porém sempre surpreendente.

Altamente recomendável!

Por Ricardo Seelig

Led Zeppelin: crítica do livro Quando os Gigantes Caminhavam Sobre a Terra, de Mick Wall

sábado, novembro 29, 2014

Tudo que cerca o Led Zeppelin, mesmo passados mais de 30 anos do encerramento das atividades da banda com o falecimento do baterista John Henry Bonham em 25 de setembro de 1980, continua sendo superlativo. Basta relembrar da comoção que foi o show realizado na O2 Arena em dezembro de 2007 e os impressionantes números de venda que Celebration Day, o registro dessa apresentação, ao redor do planeta quando do seu lançamento, em 19 de novembro do ano passado.

Pois bem. Uma história tão grandiosa e repleta de lendas e mistérios como a vivida por Jimmy Page, Robert Plant, John Paul Jones, John Bonham, o manager Peter Grant, seu assistente e leão de chácara Richard Cole e todos que cruzaram o caminho do Led Zeppelin em seus pouco mais de dez anos de vida merecia um registro à altura. Ele existe, e se chama Quando os Gigantes Caminhavam Sobre a Terra, biografia escrita pelo jornalista inglês Mick Wall lançada originalmente na Europa e nos Estados Unidos em 2008 e um ano depois aqui no Brasil.

Mick Wall é um dos jornalistas de rock mais conhecidos e respeitados do Reino Unido. Iniciou a sua carreira na extinta revista Sounds em 1977. Passou pela Virgin Records, fez parte da equipe que criou a Kerrang!, foi editor da Classic Rock e é presença frequente em diversos documentários e programas sobre música. Além disso, iniciou em 1986 uma bem sucedida carreira como escritor, retratanto nas páginas de seus livros as histórias de ídolos como Ozzy Osbourne, Guns N’ Roses, Status Quo, Bono e diversos outros. São de Wall os dois principais livros publicados até hoje sobre o Metallica (Enter Night - Metallica: The Biography, lançado em 2012 no Brasil com o título de Metallica: A Biografia) e Iron Maiden (Run to the Hills: The Authorised Biography, obra inexplicavelmente ainda inédita em nosso país, conhecido em todo o planeta por ser o lar de uma das maiores e mais apaixonadas legiões de fãs do Maiden - alô editoras, abram o olho!).

Quando os Gigantes Caminham Sobre a Terra saiu por aqui em uma belíssima edição publicada pela Larousse. Com capa dura - diferente da original -, papel diferenciado e impressão primorosa de suas 520 páginas, é um deleite para qualquer fã de rock. Mick Wall conta a história sempre partindo de flashbacks montados a partir de sua imensa pesquisa, entrevistas e depoimentos. A prosa de Wall, escritor de mão cheia e que sabe como prender o ouvinte, faz a já fantástica trajetória do Led Zeppelin ficar ainda mais mítica.

Partindo do início do grupo, do exato momento em que Jimmy Page se viu sozinho nos Yardbirds e saiu em busca dos músicos para montar a banda dos sonhos que tinha formatado em sua mente, Wall conta, com grande riqueza de detalhes, tudo o que envolveu o Led Zeppelin em sua pouco mais de uma década de vida. Estão no livro os triunfos, os sucessos, e também o lado negro do quarteto, seja nas depravadas e antológicas experiências com groupies, no consumo industrial de bebidas e drogas, na violência e truculência com que Peter Grant e Richard Cole tratavam qualquer pessoa que cruzasse seus caminhos.

 

Um dos maiores méritos do livro de Wall é mergulhar, de maneira inédita, no interesse de Jimmy Page pela obra de Aleister Crowley e o ocultismo, tão comentado mas pouquíssimo documentado. O livro dedica um longo capítulo, com mais de 50 páginas, para esmiuçar a fundo o envolvimento de Page com Crowley e a magia, e em como a paixão do guitarrista pelo assunto influenciou a carreira da banda. Esse capítulo é exemplar, lançando luz sobre um aspecto da vida de Page sempre cercado por sombras.

O retrato do grupo no auge, hipnotizando plateias em turnês gigantescas pelos Estados Unidos durante a primeira metade da década de 1970 também demonstra a razão que faz do Led Zeppelin uma banda gigantesca e profundamente influente na cultura norte-americana até hoje. Apesar de ingleses, sobre a orientação do astuto e competente Grant o grupo focou todas as suas forças no início da carreira no mercado americano, e essa decisão se mostrou acertada, com os discos do Led batendo recordes e estabelecendo novos padrões de vendas, e também de público, não só nos Estados Unidos, mas em todo o planeta.

Mick Wall não esteve preso a nenhuma limitação ao fazer a sua pesquisa para escrever Quando os Gigantes Caminhavam Sobre a Terra. Isso faz com que o livro não se furte de documentar o quão profundos foram os problemas de toda a banda, e também de Peter Grant e Richard Cole, com as drogas. Page e Bonham sempre foram os mais descontrolados, vivendo a persona de rock stars ao extremo, enquanto Plant e, principalmente, John Paul Jones, eram mais controlados - pero no mucho. O vício de Jimmy Page em álcool, cocaína e heroína o levou ao fundo do poço durante a década de 1980, a forma que o músico encontrou para superar a morte do parceiro de banda e de vida, Bonzo.

A vida pós-Led dos músicos também merece muita atenção de Wall. Esmiuçando a carreira solo de Robert Plant, mostrando o trabalho de produtor e arranjador de John Paul e relatando a busca por um novo caminho de Page, o livro demonstra como, apesar de separados, os três músicos sempre tiveram os seus destinos cruzados ao longo dos anos. É possível perceber, ao chegar ao fim da leitura, as razões que fazem com que Plant não queira retomar o seu posto e reativar a banda ao lado de Page, e, ao entender os motivos do vocalista, é impossível não simpatizar com o seu lado.

Quando os Gigantes Caminhavam Sobre a Terra é a melhor biografia sobre uma banda de rock já publicada, superando até mesmo The Beatles, o gigantesco tratado escrito por Bob Spitz e que conta com quase 1.000 páginas.

Se você gosta de música, de rock, de literatura, ou simplesmente de uma jornada épica e que beira o inacreditável, irá se deliciar com Quando os Gigantes Caminhavam Sobre a Terra.

Recomendadíssimo!

19 de nov de 2014

Crítica do livro Nós Somos a Tempestade - Conversas Sobre o Metal Alternativo dos EUA, de Luiz Mazetto

quarta-feira, novembro 19, 2014


A entrevista está para o jornalismo como a cirurgia está para a medicina. Como a audiência está para o direito. Como a final de campeonato está para o futebol. Ainda que preceda o produto final, seja ele uma simples notícia ou uma grande reportagem, é ela que fornece os pilares para o desenvolvimento da narrativa que se deseja construir. É por meio da arte de perguntar que se extrai informações valiosas para a edificação de uma tese. No caso de Luiz Mazetto, para a confecção de um livro sobre música torta e dissonante.

Maníaco por subgêneros marginais do heavy metal, o jornalista paulistano tinha uma hipótese na cabeça e, para tentar comprová-la, recorreu justamente ao ato de entrevistar. Não de forma aleatória, mas com conhecimento de causa e, sobretudo, um recorte bastante específico. Afinal, a temática abordada possui ramificações diversas e demandou a estipulação de alguns critérios. Requisitos que foram fundamentais para o sucesso da empreitada.

Esqueça vertentes tradicionais como thrash, death ou black metal. Nós Somos a Tempestade versa a respeito de uma estética musical que engloba sludge, stoner, noise, pós-metal, doom, dentre outros, e que, doravante, será classificada como metal alternativo, como nos propõe o próprio subtítulo da obra: conversas sobre o metal alternativo dos EUA.


Ainda que tenha ganhado forma apenas em setembro de 2014, quando foi lançado pela Edições Ideal, Nós Somos a Tempestade passou por um processo de mutação ao longo de três ou quatro anos. Algumas de suas principais entrevistas vieram ao mundo anteriormente e de maneira isolada, quando Luiz Mazetto já fazia um belo trabalho ao publicá-las no finado Intervalo Banger. Era nítido que escapavam do lugar comum com louvor e traziam consigo uma certa contextualização, capaz de fazê-las alcançarem o corpo e a condição de livro.

Bastava que fossem compiladas. Que mais algumas fossem agendadas e realizadas. A partir de então, estariam prontas para saírem às ruas sob a etiqueta da coleção Mondo Massari, capitaneada pelo próprio reverendo Fabio, que, presume-se, deve ter tido contribuição importante para a concretização do projeto, singular como as características do selo.

Com 27 entrevistas - entre telefonemas, trocas de e-mail e conversas pelo Skype -, Nós Somos a Tempestade passeia por uma seara pouco ou quase nada explorada em publicações brasileiras, sejam elas revistas ditas especializadas, livros ou até páginas imersas no vasto mundo da internet. O ponto de partida é a trinca formada por Black Flag, Melvins e Neurosis, eleita por Luiz Mazetto como precursora de todo o universo que ditaria os rumos do metal alternativo. Em seguida, o que se tem é uma jornada que cruza o subterrâneo dos Estados Unidos de costa a costa. De Boston e Nova York até São Francisco e Los Angeles, passando por Chicago, Nova Orleans e a aclamada cena de Savannah, na Georgia, responsável por nomes como Baroness e Kylesa. Também foram ouvidos Kenneth Thomas e John Srebalus, diretores dos dois principais documentários sobre o assunto: Blood, Sweat + Vynil (2011) e Such Hawks Such Hounds (2008).


O grande mérito de Nós Somos a Tempestade é mostrar que, apesar das distâncias e das diferenças, bandas obscuras como Buzzov-en, Grief, Oxbow, Minsk e até mesmo Saint Vitus têm ligação e formam uma unidade com expoentes mais reconhecidos, como Eyehategod, Down, Mastodon, Clutch, Converge e Corrosion of Conformity. Uma relação que buscou conceitos no punk/hardcore e que, direta ou indiretamente, selou uma espécie de resistência musical nos EUA dos anos 90 e 2000, tomado pela explosão grunge, new metal e metalcore.

Há pormenores negativos. Menciono três. Figuras centrais e de suma importância ao longo dos nove capítulos, Black Flag e Melvins abrem o livro, mas contam com entrevistas curtíssimas, o que, a princípio, deixa uma impressão de pouco aprofundamento. Que logo se esvai, é verdade. Por outro lado, há momentos em que a leitura se torna tão específica que acaba recomendada apenas para iniciados. De certa forma, perde-se o ponto entre o tom didático e o professoral. Por fim, nota-se ainda alguns erros de grafia que passaram batido pela revisão, apesar de a edição ser cuidadosa e existir esmero no acabamento. Nada, porém, que comprometa o resultado final ou que deixe sem resposta uma pergunta lançada por Nate Newton, baixista do Converge e responsável pelo ótimo prefácio. Ele indaga: "Há algo para dizer sobre essa música que a música em si já não tenha dito por conta própria?" Sim, há. E está impresso nas 270 páginas de Nós Somos a Tempestade, possivelmente o melhor livro nacional sobre música lançado em 2014.

Dez entrevistas imperdíveis de Nós Somos a Tempestade:

John Baizley - Baroness
Scott Kelly - Neurosis
Laura Pleasants - Kylesa
Sanford Parker - Minsk
Wino - Saint Vitus
Kirk Lloyd Fisher - Buzzov-en
Jean-Paul Gaster - Clutch
Mike IX Williams - Eyehategod
Nate Newton - Converge
Aaron Harris - Isis


Por Guilherme Gonçalves

14 de nov de 2014

Crítica de James Hetfield - O Lobo à Frente do Metallica

sexta-feira, novembro 14, 2014
É sempre um problema quando lemos uma biografia de um personagem e ele não está entre as fontes entrevistadas. No caso de James Hetfield - O Lobo à Frente do Metallica, de Mark Eglinton (o autor também escreveu em parceria com Rex Brown o livro Official Truth, 101 Proof - The Inside Story of Pantera), isso se estende também aos demais integrantes do Metallica. Ninguém da banda está entre os personagens consultados para a confecção da obra. O lado bom é que trata-se de uma visão independente. O ruim é que passa quase batido e trata de maneira superficial aspectos marcantes da carreira do grupo, como a batalha com o Napster, a ruptura com Dave Mustaine e a morte trágica de Cliff Burton.

Curto, o livro tem apenas 208 páginas e é daqueles que você lê em uma sentada. Totalmente focado na figura de Hetfield, mostra um personagem apaixonante, dono de uma personalidade marcante e com algumas histórias para contar. Estão em suas páginas a infância cercada de conflitos religiosos e com uma visão de mundo provinciana, a adolescência rebelde pelo afastamento do pai e a morte da mãe e como esses fatores levaram o jovem James ao encontro da música.

Obstinado, apaixonado, dono de uma força sobre-humana e de uma loucura condizente - principalmente pelo álcool, consumado no apelido dado para a banda no início de sua carreira (Alcoholica) - Hetfield se transformou na cara e no coração do Metallica, o contraponto perfeito de Lars Ulrich. Juntos, a dupla transformou um quarteto de jovens cheios de espinha na maior banda de heavy metal da história, e isso não é pouca coisa.

Ainda que relativamente breve e com passagens rápidas e superficiais sobre aspectos chaves da trajetória do Metallica - como os citados no primeiro parágrafo -, O Lobo à Frente do Metallica é uma leitura divertida e complementar à Metallica - A Biografia, obra de Mick Wall que conta toda história do gigante norte-americano.

Se você já leu o livro de Wall, pegue esse também. Se ainda não, invista o seu dinheiro no título de Mick que vale mais a pena.


Edição nacional da Editora Gutenberg, preço médio de 30 reais.

13 de nov de 2014

Crítica de AC/DC - A Biografia, de Mick Wall

quinta-feira, novembro 13, 2014

Mick Wall é o melhor biógrafo do rock. Tá, tá bom, é o meu preferido, talvez você prefira os livros de outro escritor. Minha predileção pelo trabalho do jornalista inglês se dá principalmente pelo que ele fez em Quando os Gigantes Caminhavam Sobre a Terra, livro de quase 600 páginas que detalha a trajetória do Led Zeppelin, e também pela excelente biografia que Wall escreveu sobre o Metallica. Há deslizes: Run to the Hills, por exemplo, livro que conta a história autorizada do Iron Maiden, achei bem fraquinho e chapa branca em demasia.

Com duas dezenas de obras nas costas, Mick Wall está no jornalismo musical há décadas e no ramo das biografias desde 1986, ano em que o seu primeiro livro foi publicado - a saber: Diary of a Madman - The Official Biography of Ozzy Osbourne.

A boa notícia é que o aquecimento do segmento de biografias musicais no mercado editorial brasileiro fez com que, ao contrário do que acontecia há não muito tempo atrás, diversos títulos de qualidade fossem lançados em edições nacionais. É o caso de Hell Ain’t a Bad Place to Be, biografia sobre o AC/DC assinada por Wall publicada originalmente em 2012 e que ganhou versão brasileira este ano através da Globo Livros.

As 456 páginas de AC/DC - A Biografia apresentam uma banda extremamente fechada ao redor dos seus integrantes, notadamente os irmãos Malcolm e Angus, fundadores e líderes do grupo. Discretos e nada alinhados com a figura do rock star egocêntrico e faminto por holofotes, os integrantes do grupo mantém suas vidas privadas longe do alcance dos tabloides - ou pelo menos tentam, vide o recente caso do baterista Phil Rudd. A dupla de irmãos divide com Brian Johnson os rumos da carreira da banda, enquanto Rudd e o baixista Cliff Williams são quase coadjuvantes neste processo.

O AC/DC não se reinventa, não precisa disso, e uma renovação está longe de ser algo que os milhões de fãs do grupo desejem. A banda sabe disso, e entrega exatamente o que o seu público deseja. 

Marcada pela morte trágica do vocalista Bon Scott, a trajetória do AC/DC é contada com o detalhismo habitual de Wall, tendo como base para isso dezenas de entrevistas realizadas pelo escritor com os músicos e pessoas próximas ao grupo.

Não há grandes revelações em AC/DC - A Biografia, e isso é uma boa notícia. O livro explica como a banda cresceu sempre ao redor da família Young, e como esse modo de gerir a sua carreira foi fundamental não apenas para o crescimento do grupo mas, sobretudo, para superar momentos complicados como a morte precoce de Scott e o alcoolismo de Malcolm Young.

Assim como as músicas e os discos do AC/DC, o livro é uma ótima dica pra quem curte o bom e velho rock and roll. E isso, como você bem sabe, é mais do que suficiente.


AC/DC - A Biografia custa cerca de 30 reais nas livrarias, e vale cada real investido.

27 de fev de 2014

Crítica do livro Max Cavalera: My Bloody Roots

quinta-feira, fevereiro 27, 2014
Versão nacional de My Bloody Roots: From Sepultura to Soulfly and Beyond, autobiografia escrita com a ajuda de Joel McIver, o livro que conta a vida de Max Cavalera nas palavras do próprio músico foi lançado no Brasil pela editora Agir e é uma leitura obrigatória para quem quer saber mais sobre Max, o Sepultura, o Soulfly e a própria evolução do heavy metal em nosso país.

Com o título de My Bloody Roots: Toda a Verdade Sobre a Maior Lenda do Heavy Metal Brasileiro, a obra tem pouco mais de 200 páginas e oferece uma leitura fácil e recompensadora. Escrito claramente para o público norte-americano e não para o brasileiro - fato que fica claro pelas inúmeras definições que Max dá para nomes e artistas conhecidos por quem vive por aqui -, My Bloody Roots é uma espécie de grande diário pessoal do vocalista e guitarrista. Nele, Max vai contando a sua vida com uma linguagem extremamente próximo ao leitor, sem maiores firulas literárias. Se por um lado isso faz a leitura fluir rapidamente, por outra peca ao não se aprofundar historicamente em alguns aspectos.

O que mais chama a atenção na obra é o retrato que Max e as pessoas que convivem de maneira próxima com o artista tem a seu respeito. Aqui no Brasil, todo o episódio envolvendo a separação traumática do Sepultura e em como esses acontecimentos foram percebidos e relatados por revistas e sites especializados pintou uma figura antipática de Max. Isso, somado ao fato de que as inovações e experimentalismos presentes em discos como Chaos AD (1993) e Roots (1996), e que até hoje não são bem aceitos por uma parcela do público banger brasileiro, vieram em grande parte da mente criativa de Max, fez surgir uma opinião coletiva pouco favorável a Max Cavalera entre jornalistas e fãs.

A história não é bem essa. Max é, sem sombra de dúvida, o maior nome e o maior músico que o heavy metal brasileiro teve em toda a sua história. É muito difícil, praticamente improvável, que surja outro como ele. Sempre inquieto, criativo, conduzindo a sua música para terrenos improváveis, expandiu consideravelmente os horizontes do metal, e a relevância e importância de sua obra crescem e são reconhecidas cada vez mais. O livro ajuda a entender todo esse processo e coloca alguns pontos nos i’s, principalmente através das declarações de artistas como Ozzy Osbourne, Lemmy, Corey Taylor, Dave Grohl e muitos outros.

Max expõe o seu modo de vida, a sua maneira de ver a música, e não se furta de falar de momentos complicados de sua vida, como a morte prematura do pai, o falecimento do enteado e grande amigo Dana Wells, a perda de um neto e o vício em álcool e analgésicos. Ao mesmo tempo, elogia efusivamente Andreas Kisser, afirmando que o guitarrista foi o responsável por colocar a música do Sepultura em outro nível, mais elevado ao que estava antes da sua entrada. As críticas mais duras são para o baixista Paulo Jr. e para Mônika Cavalera, ex-esposa de Iggor e atualmente empresária do ramo musical.

Em relação ao irmão Iggor, fica claro que sempre houve uma simbiose entre ambos. A diferença de idade muito pequena - apenas um ano e meio - fez com que crescessem como grandes parceiros, apesar das personalidades claramente distintas. O rompimento com Iggor após a separação do Sepultura foi algo traumático para Max, e um dos momentos mais emocionantes do livro é justamente o trecho em que o guitarrista fala sobre a reaproximação com o irmão e a criação do Cavalera Conspiracy.

No que diz respeito à separação do Sepultura, Max dá a sua versão dos fatos, que são, em grande parte, bastante diferentes daqueles presentes em Sepultura: Toda a História, livro escrito por André Barcinski e publicado durante a década de 1990. O tempo fez o seu serviço e mostrou que o que está relatado em My Bloody Roots é o mais próximo do que realmente aconteceu, uma vez que ficou claro, com o passar dos anos, que o ciúmes e a influência das esposas dos demais integrantes - principalmente de Monika, ex-mulher de Iggor - foi a força propulsora para a desintegração da formação clássica do Sepultura.

Ao falar do Soulfly, Max esmiuça as gravações de cada um dos álbuns lançados pela banda, revelando detalhes curiosos e histórias de bastidores que imprimem outra significância para as canções. Marc Rizzo, guitarrista parceiro de Max há anos no Soulfly, tem o seu valor e talento ressaltado inúmeras vezes, reafirmando a importância que possui na banda e na vida do vocalista.

My Bloody Roots é um livro sincero e transparente, que mais se assemelha a uma boa conversa de bar com um ídolo do que propriamente a uma autobiografia. Fácil e rápido de ler, é indicado a toda e qualquer pessoa que gosta e é fã de heavy metal. Como esse é o seu caso, vá agora mesmo até a livraria mais próxima e adquira já o seu exemplar. Você não irá se arrepender.

Por Ricardo Seelig

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