12 de mai de 2009

11 discos para começar a gostar de blues


Por Régis Tadeu
Colecionador e Jornalista
Matéria publicada originalmente no site
Yahoo!

E não é que a coisa pegou? Mais uma vez, por conta da inesperada repercussão das indicações que andei colocando neste espaço, o pessoal do Yahoo! pediu para que eu montasse uma nova “seleção” para quem está começando a ouvir blues.

Confesso que está foi a lista mais difícil de ser elaborada até o momento, pois tinha muitos “craques” para apenas onze posições. Muita coisa que julgo fundamental e outros discos bem bacanas ficaram de fora – senti uma dor no coração por não ter conseguido incluir álbuns de Albert Collins, Son Seals, Son House, Roy Buchanan e muitos outros -, mas como o lance aqui é apresentar dicas para quem não conhece nada de blues, dei preferência a discos que julgo perfeitos para quem está começando a dar os primeiros passos dentro do gênero.

Ah, só para relembrar: em cada texto há uma sugestão de outro disco do mesmo artista, caso você tenha gostado do prato principal.

Vamos em frente!

1) Robert Johnson - The Complete Recordings (1990)

Neste disco está o marco zero do blues e de todas as ramificações que surgiram posteriormente – rock, soul, funk e tudo mais -, tocado de maneira absurdamente fenomenal para os padrões da década de vinte. Sozinho ao violão, Johnson condensou nas 29 canções incluídas nos dois CDs deste box set não apenas tudo o que gravou em sua curta vida - algumas delas aparecem aqui em dois takes diferentes -, mas também toda a linguagem que a civilização ocidental precisava para fazer música fora do ambiente erudito. Aqui estão as versões originais de inúmeros clássicos que seriam revisitados décadas depois por grandes astros, como “Sweet Home Chicago”, “Rambling on My Mind”, “Cross Road Blues” (as três regravadas por Eric Clapton), “Travelling Riverside Blues” (que recebeu versão do Led Zeppelin) e “Love in Vain” (que foi um dos primeiros sucessos dos Rolling Stones). 

Gostou? Então ouça de novo…

2) Albert King - Born Under a Bad Sign (1967)

Embora tenha gravado muitos discos, Albert King nunca recebeu o crédito que merecia por conta de sua excelência como bluesman e como guitarrista. Tudo mudou quando ele assinou contrato com a lendária gravadora Stax e, logo no primeiro disco lançado pela nova casa, em 1966, contou com o apoio do grupo Booker T. & The MG's nas gravações. A união entre a guitarra cortante de King e a base segura e cheia de molho funky da banda propiciou um repertório tão matador quanto clássico, com a faixa-título, “Oh, Pretty Woman”, “The Hunter” e “Laundromat Blues”, posteriormente regravadas por Clapton, Gary Moore, Free e Rory Gallagher, respectivamente. Discaço!

Gostou? Então ouça I'll Play the Blues for You (1972).

3) Buddy Guy - I Left My Blues in San Francisco (1967)

Para você ter uma idéia, tanto Jimi Hendrix quanto Eric Clapton se consideravam meros aprendizes de guitarra perto dele. O fato é que Buddy Guy não apenas influenciou várias gerações de guitarristas, mas também deu uma nova – e explosiva! – cara ao blues, o que pode ser facilmente comprovado nas faixas presentes aqui, todas repletas de uma efervescência impossível de ser batida. 

Gostou? Então ouça Damn Right, I've Got the Blues (1991).

4) Muddy Waters - Hard Again (1977)

Ele sempre foi considerado um dos grandes mestres do gênero, embora dono de uma discografia razoavelmente irregular. Mas quando o guitarrista albino Johnny Winter (sobre quem escreverei daqui a pouco) resolveu produzir um de seus discos em 1977, o resultado não poderia ter sido melhor. Botando todos os músicos envolvidos para tocar juntos no estúdio, como em uma gravação ao vivo, Waters e Winter deram ao disco uma espontaneidade contagiante e a sensação de que o blues era, antes de tudo, uma celebração musical, às vezes caótica, mas sempre bela. Tente ouvir a faixa de abertura, a antológica “Mannish Boy”, sem esboçar um sorriso, e veja como os músculos de seu corpo conseguem adquirir vida própria.

Gostou? Então ouça Folk Singer (1964).

5) Howlin´ Wolf - Howlin´ Wolf (1962)

Sua figura imponente era condizente com a música que fazia. Com sua voz rasgante e seu estilo rústico de tocar guitarra, Wolf encontrou no baixista e compositor Willie Dixon o parceiro perfeito para criar um estilo personalíssimo, cujo auge aconteceu neste disco, repleto de temas que se tornaram posteriormente clássicos, como “Red Rooster”, “Back Door Man”, “Who’s Been Talkin’”, “Wang-Dang-Doodle”, "Spoonful” (regravada pelo Cream), “Tell Me” e “You'll Be Mine”, as duas últimas celebrizadas também por Stevie Ray Vaughan. Além disso, Wolf foi um dos bluesmen resgatados pelas bandas britânicas nos anos sessenta, que inundaram seus respectivos repertórios com canções do mestre.

Gostou? Então ouça Big City Blues (1966).

6) John Lee Hooker - Plays and Sings the Blues (1961)

Era humanamente impossível não sacudir pelo menos uma parte do corpo ao ouvir e ver John Lee Hooker em ação. Seu carisma era tamanho que até mesmo suas canções mais fracas chamavam a atenção. O legítimo criador do “boogie blues” usava sua voz rouca, seu dedilhado esquisitíssimo e seus pés batucantes para criar canções sensacionais, como aquelas incluídas neste discão, em que, sozinho, conseguiu transformar simplicidade em mágica sonora – vide as extraordinárias “Baby Please Don’t Go” e “Worried Life Blues”.

Gostou? Então ouça Get Back Home (1969).

7) Sonny Boy Williamson - Down and Out Blues (1959)

Com uma carreira longa o suficiente a ponto de ter tocado com Robert Johnson, Williamson conseguiu reunir nos 34 minutos deste disco um repertório irrepreensível dentro do gênero, com pelo menos duas canções antológicas: “Don't Start Me to Talkin’” e “Your Funeral and My Trial”. Reza a lenda que a figura estampada na capa era um bluesman que caiu em desgraça com sua gravadora e acabou virando um mendigo.

Gostou? Então ouça More Real Folk Blues (1967).

8) Johnny Winter - The Progressive Blues Experiment (1969)

O que poderia ser mais improvável que um bluesman albino, vesgo, mas com voz negra até a alma e dotado de uma técnica assombrosa na hora de tocar guitarra? Pois Johnny Winter era isso e muito mais, tendo sido um dos maiores responsáveis por levar o blues aos ouvidos de uma geração de jovens brancos e roqueiros, graças ao peso instrumental que injetava em suas canções. Neste disco, Winter já ensaiava os passos que o levariam a uma carreira vitoriosa, tocando tudo com uma maestria inigualável – suas versões de “Rollin’ and Tumblin’” e “It’s My Own Fault” serviram de inspiração até para o Led Zeppelin.

Gostou? Então ouça Johnny Winter (1969).

9) B.B. King - Live in Cook County Jail (1971)

Que todos os discos dele são verdadeiras aulas de blues, isso ninguém duvida. Mas foi neste álbum, gravado ao vivo em 1971 em uma prisão de Illinois (EUA), que o dono da guitarra “Lucille” extrapolou sua própria genialidade. Da rapidez supersônica de “Every Day I Have the Blues” à candura sincera de “Please Accept My Love”, o que se ouve aqui é algo próximo do divino. Além de conter a melhor interpretação de “The Thrill is Gone” de todos os tempos, o disco mostra que os quase dez minutos de “Worry, Worry” seriam capazes de regenerar todos os criminosos da galáxia.

Gostou? Então ouça Indianola Mississippi Seeds (1970).

10) Stevie Ray Vaughan - Texas Flood (1983)

Quando este guitarrista texano surgiu, o impacto causado por sua figura carismática e pela extraordinária maneira de tocar e cantar foi o equivalente à queda de um meteorito do tamanho da Amazônia. Em uma época (no início dos anos oitenta) em que ninguém mais ligava para o blues como um gênero representativo, Vaughan veio com uma forma eletrificada e cristalina, mas não desprovida de peso e urgência. Em sua estreia com este Texas Flood o guitarrista mudou o mercado e revitalizou o gênero de modo brilhante, com canções espetaculares – “Pride and Joy”, “Love Struck Baby”, “Dirty Pool”, a balada “Lenny” –, dando início à formação de uma geração subsequente que está aí até hoje.

Gostou? Então ouça Couldn't Stand the Weather (1984).

11) John Mayall - Blues Breakers with Eric Clapton (1966)

Este foi o disco que catapultou Eric Clapton – então apenas um integrante da banda de John Mayall - à categoria de “deus” para a juventude britânica na segunda metade dos anos sessenta. Lançado entre o período em que o guitarrista abandonou o Yardbirds e montou o Cream, este álbum até hoje é considerado o melhor disco de blues britânico de todos os tempos e o resultado da proverbial presença de Mayall dentro do cenário musical inglês.

Gostou? Então ouça A Hard Road (1967).

4 comentários:

Rubão disse...

sõa ótimos discos, mas o Folk Singer de Muddy Waters, estreando um garoto de certa fama depois no segundo violão é tb essencial.

o nome do menino? Buddy Guy.

Rubens Leme

Anônimo disse...

muito bom . vou postar lá no meu blog valew. www.cartelmerdelin.blogspot.com

Cadão disse...

Rubão, ótima lembrança a sua em relação ao "Folk Singer". Em relação ao Muddy, recomendo também o "At Newport", ao vivo de 1960 em que ele pôs abaixo o tradicional festival norte-americano.

André Luís da Silva Leite disse...

Excelentes dicas, embora eu concorde com o Rubens, o folk singer é matador.
E do Buddy guy eu recomendaria o disco ao vivo "The real deal: live".

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