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Tempo of the Damned (2004): o retorno feroz do Exodus ao trono do thrash metal

Depois de mais de uma década sem lançar um álbum de estúdio, o Exodus voltou ao jogo em 2004 com Tempo of the Damned , e não como uma banda tentando sobreviver à nostalgia, mas como um nome disposto a reafirmar sua relevância no thrash metal do século XXI. O disco não soa como um exercício de memória afetiva: ele é agressivo, direto e consciente de sua própria herança. Produzido por Andy Sneap, o álbum apresenta um som moderno e limpo, sem polir em excesso a aspereza que sempre definiu o Exodus. Os riffs de Gary Holt continuam sendo o motor central da banda: cortantes, velozes e cheios de variações, equilibrando ataques frenéticos com momentos de groove pesado. A presença de Rick Hunolt completa a parede sonora com solos intensos e bem distribuídos, mantendo a tradição guitarrística do grupo em alto nível. Steve “Zetro” Souza entrega uma performance que pode dividir opiniões, mas que funciona perfeitamente dentro da proposta do álbum. Seu vocal ácido e quase histérico reforça o car...
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Sofrência, sexo e algoritmos: o novo lugar-comum da música brasileira

Ao longo de toda a sua história, a música popular brasileira sempre soube equilibrar acessibilidade e sofisticação. Mesmo nos momentos mais comerciais, nunca foi exigido que o público “pensasse pouco”. Pelo contrário: canções populares frequentemente carregavam camadas poéticas, sociais, políticas e afetivas que iam muito além do entretenimento imediato. A ideia de que “música pop sempre foi simples” é, portanto, apenas meia verdade. Sim, a música popular sempre dialogou com o grande público, mas isso nunca significou empobrecimento temático. Basta lembrar que artistas como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Djavan, Zeca Pagodinho e Rita Lee, ou mesmo nomes mais populares do rádio dos anos 80 e 90 como Barão Vermelho, Cazuza, Legião Urbana, Titãs, Engenheiros do Hawaii e Skank, conseguiam unir refrões memoráveis a letras que falavam de amor, cotidiano, identidade, política, desejo e contradição humana com inteligência e sensibilidade. O contraste com bo...

Túneis: humor, arqueologia e conflito por Rutu Modan (2024, WMF Martins Fontes)

A caçada à Arca da Aliança já rendeu histórias épicas, religiosas ou conspiratórias aos montes, mas Rutu Modan escolhe um caminho bem diferente em Túneis . Publicada no Brasil pela WMF Martins Fontes, que já havia lançado  A Propriedade , também da autora, a graphic novel usa esse artefato lendário menos como motor de aventura clássica e mais como pretexto para uma sátira afiada sobre identidade, obsessão histórica e convivência em um território marcado por conflitos reais. A trama acompanha Nili, filha de um arqueólogo desacreditado que dedicou a vida à busca pela Arca. Determinada a restaurar o legado do pai, ela se envolve em uma escavação clandestina que cruza fronteiras físicas e simbólicas, reunindo personagens israelenses e palestinos movidos por interesses muitas vezes incompatíveis. O que poderia facilmente descambar para um discurso pesado ou didático é conduzido por Modan com humor seco e ironia constante. Um dos grandes méritos de Túneis está justamente nessa abord...

Systematic Chaos (2007): o início de uma nova era para o Dream Theater

Lançado como o álbum de estreia do Dream Theater pela Roadrunner Records, Systematic Chaos (2007) surge após o fechamento simbólico de Octavarium (2005) e abandona qualquer pretensão conceitual unificada para apostar em uma coleção de ideias intensas, fragmentadas e, muitas vezes, deliberadamente excessivas. É um disco que parece querer provar força, energia e relevância em um cenário de metal progressivo que já havia mudado bastante nos anos 2000. Desde a abertura com “In the Presence of Enemies – Part I”, fica claro que o grupo opta por um tom mais sombrio e agressivo. Riffs pesados, mudanças bruscas de andamento e um clima quase épico atravessam o álbum, especialmente em faixas como “The Dark Eternal Night” e “Constant Motion”, que flertam abertamente com o metal moderno. "Constant Motion", inclusive, tem uma linha vocal idêntica a "Blackened", do Metallica, e traz claras influências da banda norte-americana. Ao mesmo tempo, há espaço para momentos mais melód...

Baby Vol. 1: horror corporal, desejo e ficção científica no traço de Chang Sheng (2025, Comix Zone)

Baby Vol. 1 , de Chang Sheng, chega ao Brasil pela Comix Zone como uma obra que combina ficção científica, horror corporal e ação pós-apocalíptica com identidade visual forte e personalidade própria. Ambientada em 2043, a história parte de um colapso global causado por um parasita conhecido como “Baby”, capaz de transformar humanos em criaturas mecânicas grotescas, fundindo carne e metal de maneira perturbadora. A protagonista, Elisa, sobrevive a um ataque dessas entidades, mas carrega uma condição singular: o parasita se aloja em sua mão sem consumi-la por completo. Esse detalhe funciona como eixo simbólico da narrativa, colocando a personagem em permanente tensão entre humanidade e monstruosidade. Um ano depois, sua jornada se cruza com um grupo de resgate e com a enigmática Alice, figura que amplia o mistério e os conflitos do mundo apresentado. Visualmente, Baby é impressionante. O traço de Chang Sheng é muito bonito, preciso e extremamente expressivo. Há um apelo sexual onipr...

Megadeth (2026): um ponto final coerente para uma carreira marcada pelo confronto

A decisão de encerrar a discografia com um álbum autointitulado diz muito sobre a forma como o Megadeth escolheu se despedir. O disco não soa como um testamento emocional nem como uma tentativa de revisitar glórias passadas a qualquer custo. É, antes de tudo, um trabalho que mostra Dave Mustaine consciente de suas limitações, mas também seguro da identidade que construiu ao longo de mais de quatro décadas. O álbum aposta em uma linguagem deliberadamente clássica. Os riffs são secos, diretos, ancorados no thrash metal que sempre foi a espinha dorsal da banda, enquanto os solos mantêm o caráter técnico e agressivo que distingue o Megadeth desde os anos 1980. Não há aqui a ambição conceitual de Rust in Peace (1990) ou o refinamento estrutural de Countdown to Extinction (1992) , mas existe um senso de eficiência quase pragmático: as músicas dizem exatamente o que precisam dizer, sem adornos desnecessários. Nesse contexto, algumas faixas se destacam com mais clareza. “Tipping Point”,...

A Própria Carne – Escrito com Sangue: o horror como herança e consequência (2026, Pipoca & Nanquim)

A Própria Carne – Escrito com Sangue  reúne duas das principais referências da cultura pop brasileira: o portal Jovem Nerd e o canal e editora Pipoca & Nanquim. A HQ não é apenas um produto derivado do filme produzido pelo portal: é uma expansão conceitual que entende o terror como algo múltiplo, fragmentado e profundamente humano. O quadrinho assume desde o início sua natureza de antologia e transforma essa característica em virtude, não em limitação. A obra reúne seis histórias curtas que orbitam o universo do filme A Própria Carne , mas evita a armadilha do simples “material complementar”. Cada capítulo funciona como um recorte específico de trauma, obsessão ou ruptura moral, explorando personagens e situações que antecedem ou tangenciam os eventos centrais da narrativa cinematográfica. O resultado é menos explicativo e mais atmosférico, algo que dialoga muito bem com a tradição do horror psicológico. A HQ aposta na diversidade. Os roteiros variam entre o horror ritualís...

Six Degrees of Inner Turbulence (2002): o Dream Theater entre a grandiosidade e a fragmentação

Six Degrees of Inner Turbulence (2002) é, acima de tudo, um álbum sobre excesso, não apenas de duração ou complexidade técnica, mas de ideias, emoções e intenções. Diferente de Scenes from a Memory (1999), que canaliza sua ambição dentro de uma narrativa rígida e controlada, aqui o Dream Theater opta por um formato mais fragmentado, quase errático, que reflete diretamente o tema central do disco: a instabilidade interna. O primeiro disco funciona como um laboratório emocional. “The Glass Prison” estabelece um ponto de partida brutal, tanto musical quanto lírico. Os riffs angulares e a estrutura opressiva traduzem a sensação de aprisionamento psicológico, enquanto a banda assume um tom mais cru do que o habitual. É uma música que privilegia impacto e tensão, mesmo quando flerta com a repetição, e deixa claro que o virtuosismo aqui não é apenas ornamental, mas parte do discurso. “Blind Faith” amplia esse escopo ao explorar a dúvida como motor narrativo. A música cresce lentamente, ...

Never Surrender (1982): o álbum em que o Triumph foi além do óbvio e expandiu seus horizontes

Lançado após o sucesso de Allied Forces (1981), Never Surrender (1982) não tenta simplesmente repetir a fórmula que havia funcionado, mas amplia o alcance sonoro e temático do Triumph, equilibrando hard rock melódico, peso consistente e uma surpreendente ambição estrutural. Logo na abertura, “Too Much Thinking” deixa claro que este não será um disco apenas festivo. O riff é direto, quase urgente, e a letra traz um olhar crítico sobre excesso de informação, pressão social e alienação, temas pouco comuns no hard rock mais radiofônico da época. Essa veia reflexiva reaparece em vários momentos do álbum, especialmente em “Writing on the Wall”, que flerta com um tom quase apocalíptico. O Triumph, porém, nunca abandona seu lado mais melódico. “A World of Fantasy” surge como uma das grandes baladas da banda, conduzida por um vocal emotivo de Rik Emmett, que aqui demonstra total domínio entre suavidade e intensidade. Já “All the Way” representa o Triumph mais acessível e direto, com refrã...

Metamorfose: duas faces do horror existencial em Dylan Dog (2026, Mythos Editora)

A edição 46 de Dylan Dog, publicada no Brasil pela Mythos Editora com o título Metamorfose , reúne duas histórias escritas por Claudio Chiaverotti que representam com precisão um momento específico e muito particular da fase anos 1990 do personagem. Ao colocar lado a lado “Metamorfose” e “O Mosaico do Terror”, o volume funciona quase como uma obra dividida em duas partes sobre identidade, fragmentação e a perda de controle diante do horror. Em “Metamorfose”, o ponto de partida é simples e profundamente perturbador: Rebecca Stanford, uma mulher bem-sucedida, acorda um dia presa em um corpo que não é o seu. A transformação física não é apenas um artifício grotesco, mas o gatilho para uma narrativa que mergulha no medo da dissolução do eu. Chiaverotti conduz a história de forma deliberadamente onírica, criando uma sensação constante de deslocamento e estranhamento. Nada parece sólido ou confiável, nem mesmo a própria identidade. É um terror mais psicológico do que explícito, potencializ...