Adaptar o romance de Olivier Guez não era uma tarefa simples. O livro já carregava em si uma abordagem rigorosa e incômoda ao reconstruir a vida de Josef Mengele após a queda do Terceiro Reich. Nas mãos de Matz e Jörg Mailliet, essa história ganha uma nova dimensão: mais visual, mais direta e não menos perturbadora. A HQ acompanha a trajetória de Mengele a partir de 1949, quando desembarca na Argentina sob identidade falsa. O que se desenrola a partir daí não é uma narrativa de perseguição tradicional, mas sim o retrato de uma fuga sustentada por redes de proteção, silêncio e conveniência política. A América do Sul surge como cenário ambíguo: ao mesmo tempo refúgio e prisão psicológica. O roteiro de Matz opta por uma construção fragmentada, alternando o presente da fuga com lembranças de Auschwitz. Esses retornos ao passado não buscam aprofundar os crimes — já conhecidos —, mas reforçar o contraste entre o monstro e o homem que tenta desaparecer. A escolha é eficaz porque evita qua...
Quando o Rush lançou Snakes & Arrows em 2007, a expectativa não era necessariamente por reinvenção, mas por consistência. Depois de um período turbulento e de um retorno ainda irregular com Vapor Trails (2002), o trio canadense parecia buscar algo mais sólido. O que encontrou foi um disco que soa como reconexão: com sua essência, com sua dinâmica interna e, principalmente, com sua própria identidade sonora. Produzido por Nick Raskulinecz , o álbum é uma das obras mais coesas da fase final da banda. Há aqui uma clara valorização das guitarras de Alex Lifeson , que retomam protagonismo sem abrir mão de texturas acústicas e arranjos mais orgânicos. Ao mesmo tempo, o baixo e os teclados de Geddy Lee funcionam menos como elementos de experimentação e mais como sustentação melódica, enquanto a bateria de Neil Peart mantém o nível técnico elevado, mas com foco na musicalidade. Logo de cara, “Far Cry” estabelece o tom: riffs fortes, refrão marcante e uma urgência que remete à melho...