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Into Oblivion (2026): o Venom como ele sempre deve soar

Após oito anos sem material inédito desde Storm the Gates (2018), a expectativa em torno do novo álbum do Venom não gira em torno de reinvenção, mas sim de mostrar que a banda segue viva e relevante. Into Oblivion (2026), décimo sexto disco de estúdio do trio liderado por Cronos, entende perfeitamente isso e transforma sua maior limitação em virtude: soa exatamente como Venom deve soar. Desde a abertura com “Into Oblivion”, o álbum deixa claro o seu caminho. Riffs cortantes, andamento acelerado e a aura suja que sempre definiu a banda aparecem sem filtros. Na sequência, “Lay Down Your Soul” reforça a veia metal punk que sempre esteve presente no DNA do grupo, com levada direta e espírito quase caótico. Ao longo de cerca de 40 minutos, o disco evita excessos. “Death the Leveller” carrega um peso clássico que remete aos anos 1980, enquanto “Dogs of War” desacelera o andamento e traz uma atmosfera mais arrastada e ameaçadora. Já “As Above, So Below” se destaca pela construção mais l...
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Demolidor – O Homem Sem Medo: nascer dói, e Matt Murdock nunca esqueceu disso (2026, Marvel de Bolso, Panini)

Quando Frank Miller retornou ao universo do Demolidor nos anos 1990, ele não queria apenas recontar uma origem: queria reconstruí-la. Em Demolidor – O Homem Sem Medo , ao lado de John Romita Jr., Miller entrega uma história que não suaviza nada e aprofunda as cicatrizes de um dos personagens mais interessantes da Marvel. A HQ acompanha a formação de Matt Murdock desde a infância na Cozinha do Inferno até sua transformação no vigilante que conhecemos. Mas não há pressa em vestir o uniforme. O foco está no processo: na dor da perda, na revolta silenciosa, nos erros de juventude e na dificuldade de encontrar um propósito em meio ao caos. Miller reinterpreta elementos clássicos e reposiciona personagens fundamentais. A relação com o pai, Jack Murdock, ganha um peso emocional ainda maior, funcionando como o verdadeiro alicerce moral de Matt. Já Stick surge menos como mentor místico e mais como uma figura dura, quase cruel, moldando o protagonista à força. E Elektra entra em cena não com...

Hitler e o Nazismo - Começo, Meio e Fim: série documental da Netflix conta de forma didática um dos períodos mais sombrios da história

A ascensão e queda do nazismo já foram exploradas inúmeras vezes no cinema e na televisão, mas Hitler e o Nazismo: Começo, Meio e Fim encontra uma forma eficiente de revisitar esse período ao organizar sua narrativa a partir de um eixo claro: os julgamentos de Nuremberg. Realizados entre 1945 e 1946, os tribunais internacionais reuniram as principais lideranças do Terceiro Reich para responder por crimes de guerra, crimes contra a humanidade e conspiração, estabelecendo um marco jurídico sem precedentes e redefinindo a forma como o mundo passou a lidar com atrocidades em escala global. É a partir desse momento histórico que a série constrói seu olhar, transformando o passado em um processo de responsabilização. Dividida em seis episódios, a produção acompanha desde o ambiente instável da Alemanha no pós-Primeira Guerra Mundial até o colapso do regime nazista. A jornada passa pela ascensão de Adolf Hitler, pela consolidação de seu poder, pelo avanço militar e, inevitavelmente, pelo h...

The Winery Dogs (2013): a estreia de um supergrupo que funciona de verdade

Formado por três músicos com carreiras sólidas e identidades muito bem definidas, o The Winery Dogs chegou ao seu álbum de estreia em 2013 cercado de expectativas e, surpreendentemente, conseguiu superá-las com naturalidade. Longe de soar como um projeto de egos inflados, o disco homônimo é um exercício de foco, química e, acima de tudo, composição. Desde a abertura com “Elevate”, fica claro que a proposta é trabalhar dentro das bases do hard rock, mas com uma personalidade único. O riff é direto, a levada é forte e a melodia gruda com facilidade. “Desire” segue por um caminho mais grooveado, explorando uma pegada blues que remete ao rock setentista, enquanto “We Are One” aposta em uma construção mais melódica, com refrão expansivo e clima quase épico. Um dos grandes trunfos do disco está no equilíbrio entre técnica e acessibilidade. Músicos como Richie Kotzen , Billy Sheehan e Mike Portnoy não precisam provar mais nada em termos de habilidade, e isso joga a favor do álbum. Em v...

Pele de Homem: identidade, desejo e liberdade em uma fábula provocadora (2021, Nemo)

Pele de Homem, HQ escrita por Hubert e desenhada por Zanzim , é daquelas obras que parecem simples à primeira vista, mas revelam camadas cada vez mais densas conforme avançamos na leitura. Publicada originalmente na França e lançada no Brasil pela Editora Nemo , a HQ rapidamente se tornou um dos títulos mais comentados e premiados de sua geração, e não por acaso. Ambientada em uma Itália renascentista marcada por convenções sociais rígidas e forte moral religiosa, a história acompanha Bianca, uma jovem prestes a se casar com um homem que mal conhece. O que poderia ser apenas mais um drama de época ganha um rumo inesperado quando ela descobre um segredo guardado pelas mulheres de sua família: uma pele que permite assumir a forma de um homem. Ao vestir essa “pele de homem” e se transformar em Lorenzo, Bianca passa a circular livremente por um mundo que, até então, lhe era proibido. É a partir desse dispositivo fantástico que a HQ constrói sua força. O que está em jogo aqui não é apen...

Vivid (1988): a estreia explosiva e a transformação cultural do Living Colour

Vivid (1988), álbum de estreia do Living Colour, chegou às lojas quando o rock vivia uma espécie de acomodação. O hard rock dominava as paradas, mas raramente se permitia sair de sua zona de conforto. Foi nesse cenário que a banda apareceu como um corpo estranho e absolutamente necessário. Logo de cara, o disco impressiona pela identidade. A guitarra de Vernon Reid é o eixo central: técnica, inventiva e inquieta, ela atravessa o álbum costurando riffs pesados com texturas vindas do funk, do jazz e até da música experimental. Ao lado dele, a banda funciona como uma engrenagem precisa, com destaque para o vocal expressivo de Corey Glover , que alterna agressividade, soul e melodia com naturalidade. Mas é nas músicas que Vivid realmente se impõe. “Cult of Personality” abre o álbum como um manifesto: groove irresistível, refrão explosivo e uma letra que discute a fabricação de ídolos políticos e midiáticos, um tema que só ficou mais atual com o tempo. “Glamour Boys” traz uma crítica d...

O peso da impunidade: O Desaparecimento de Josef Mengele transforma horror histórico em narrativa inquietante (2026, Pipoca & Nanquim)

Adaptar o romance de Olivier Guez não era uma tarefa simples. O livro já carregava em si uma abordagem rigorosa e incômoda ao reconstruir a vida de Josef Mengele após a queda do Terceiro Reich. Nas mãos de Matz e Jörg Mailliet, essa história ganha uma nova dimensão: mais visual, mais direta e não menos perturbadora. A HQ acompanha a trajetória de Mengele a partir de 1949, quando desembarca na Argentina sob identidade falsa. O que se desenrola a partir daí não é uma narrativa de perseguição tradicional, mas sim o retrato de uma fuga sustentada por redes de proteção, silêncio e conveniência política. A América do Sul surge como cenário ambíguo: ao mesmo tempo refúgio e prisão psicológica. O roteiro de Matz opta por uma construção fragmentada, alternando o presente da fuga com lembranças de Auschwitz. Esses retornos ao passado não buscam aprofundar os crimes — já conhecidos —, mas reforçar o contraste entre o monstro e o homem que tenta desaparecer. A escolha é eficaz porque evita qua...

Rush em estado puro: o peso e a alma de Snakes & Arrows (2007)

Quando o Rush lançou Snakes & Arrows em 2007, a expectativa não era necessariamente por reinvenção, mas por consistência. Depois de um período turbulento e de um retorno ainda irregular com Vapor Trails (2002), o trio canadense parecia buscar algo mais sólido. O que encontrou foi um disco que soa como reconexão: com sua essência, com sua dinâmica interna e, principalmente, com sua própria identidade sonora. Produzido por Nick Raskulinecz , o álbum é uma das obras mais coesas da fase final da banda. Há aqui uma clara valorização das guitarras de Alex Lifeson , que retomam protagonismo sem abrir mão de texturas acústicas e arranjos mais orgânicos. Ao mesmo tempo, o baixo e os teclados de Geddy Lee funcionam menos como elementos de experimentação e mais como sustentação melódica, enquanto a bateria de Neil Peart mantém o nível técnico elevado, mas com foco na musicalidade. Logo de cara, “Far Cry” estabelece o tom: riffs fortes, refrão marcante e uma urgência que remete à melho...

Arizona em Chamas: o mais brutal dos Tex Gigantes (2026, Mythos Editora)

Entre os chamados Tex Gigantes, poucos volumes deixam uma impressão tão imediata quanto Arizona em Chamas . Publicado originalmente em 1992, o álbum é um exemplo claro de como a série pode expandir seus limites quando coloca lado a lado um roteirista experiente e um artista com identidade visual forte. O ponto de partida é clássico dentro do universo de Tex: o conflito entre colonos brancos e povos indígenas. Mas aqui, Claudio Nizzi conduz a narrativa por um caminho mais sombrio e político do que o habitual. Em vez de uma oposição simplificada entre mocinhos e vilões, o roteiro apresenta uma engrenagem de interesses econômicos, manipulação e violência institucionalizada. O grupo dos chamados Voluntários do Arizona funciona quase como uma milícia legitimada pelo silêncio — ou pela cumplicidade — de figuras influentes. A tensão cresce de forma gradual, sustentada por diálogos que revelam mais do que aparentam e por uma sensação constante de que a situação está prestes a explodir. Qua...

O Evangelho Segundo o Coiote: quando Grant Morrison reinventou o Homem-Animal (2026, DC de Bolso)

Quando assumiu o título do Homem-Animal em 1988, Grant Morrison não estava interessado em apenas revitalizar um personagem obscuro da DC. O que o roteirista escocês fez nas sete primeiras edições da série, reunidas no volume O Evangelho Segundo o Coiote que a Panini acabou de publicar na coleção DC de Bolso, foi algo muito mais ambicioso: transformar uma HQ de super-herói em um laboratório de ideias. Nos quatro primeiros capítulos, a estrutura ainda parece familiar. Buddy Baker é apresentado como um herói de segunda linha tentando equilibrar a vida doméstica com uma carreira instável, lidando com contas, família e uma sensação constante de inadequação. Mas já aqui surgem sinais de que algo diferente está em curso. Morrison introduz conceitos como a interconexão entre todos os seres vivos (uma espécie de “rede da vida”) e começa a deslocar o foco da ação para reflexões éticas e existenciais. A arte de Chas Truog, finalizada por Doug Hazlewood, acompanha bem essa transição. O traço ...