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Estreito (2002): a estreia do Rodox no controverso recomeço de Rodolfo Abrantes

Estreito , estreia do Rodox lançada pela Warner Music em fevereiro de 2002, chegou ao mercado em meio a expectativas, polêmicas e profundas transformações na vida de Rodolfo Abrantes. Mais do que apresentar uma nova banda, o álbum documenta uma ruptura decisiva: a saída do vocalista dos Raimundos, no auge da popularidade do grupo, e o início de uma fase marcada por mudanças pessoais e religiosas. É impossível ouvir Estreito sem considerar esse contexto, mas reduzi-lo a um "disco gospel" seria injusto. O álbum é, antes de tudo, um retrato bastante fiel do rock pesado brasileiro do começo dos anos 2000. Hardcore, nu metal, rapcore, reggae, rock alternativo e elementos eletrônicos aparecem lado a lado, refletindo um período em que as fronteiras entre esses gêneros estavam cada vez mais fluidas. Embora creditado ao Rodox, Estreito ainda não representa uma banda plenamente estabelecida. Rodolfo gravou vocais, guitarras e baixo nas 12 faixas, acompanhado por Fernando Schaefer...
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Little Bird - A Batalha por Alento: um espetáculo visual à procura de uma história à altura (2026, Comix Zone)

Existem HQs que parecem ter sido concebidas para provar até onde a linguagem dos quadrinhos pode chegar visualmente. Little Bird: A Batalha por Alento , de Darcy Van Poelgeest e Ian Bertram, pertence claramente à essa categoria. O problema é que, em alguns momentos, a história não consegue acompanhar o tamanho daquilo que as imagens estão contando. Vencedora do Eisner de Melhor Minissérie em 2020, Little Bird nos leva a um futuro devastado por décadas de guerra. O continente norte-americano está sob o domínio de um regime autoritário e teocrático chamado Império Americano, enquanto a resistência canadense tenta sobreviver e reagir à opressão. Nesse cenário está Little Bird, uma jovem indígena que precisa enfrentar não apenas o inimigo, mas também descobrir quem é e qual é o seu lugar naquele conflito. A premissa é excelente. Melhor ainda é a maneira como Van Poelgeest mistura política, religião, nacionalismo, colonialismo, genética, tecnologia e espiritualidade. Há uma quantidade i...

Tartarugas Ninja – Coleção IDW Vol. 3: a grande virada da melhor coleção das Tartarugas (2026, Pipoca & Nanquim)

Toda grande releitura precisa, em algum momento, provar que consegue caminhar com as próprias pernas. É exatamente isso que acontece em Tartarugas Ninja – Coleção IDW Vol. 3 , publicado no Brasil pela Pipoca & Nanquim. Depois de dois volumes estabelecendo as bases dessa nova continuidade, Kevin Eastman e Tom Waltz colocam os personagens diante de uma crise que transforma profundamente a dinâmica da família. O grande destaque é a saga A Queda da Cidade . O Destruidor amplia seu domínio sobre Nova York, mas o verdadeiro alvo é a própria estrutura que mantém as Tartarugas unidas. A ameaça deixa de ser apenas física e passa a envolver confiança, lealdade, identidade e família. Leonardo ocupa o centro da narrativa e protagoniza um dos momentos mais interessantes de sua trajetória. Sua disciplina e responsabilidade, características que tradicionalmente fazem dele o líder do grupo, são transformadas em pontos de vulnerabilidade. As consequências atingem Mestre Splinter e os demais irmão...

The Visitor (2026): Sienna Spiro entrega uma das estreias mais promissoras da música britânica nesta década

Sienna Spiro desafia a lógica da indústria musical contemporânea. Em uma época dominada por produções eletrônicas, refrões pensados para as redes sociais e vocais excessivamente processados, a cantora inglesa escolheu seguir o caminho oposto. Seu álbum de estreia, The Visitor , aposta em piano, cordas, metais, interpretações viscerais e um repertório que coloca a emoção acima de qualquer tendência. O resultado é um trabalho que parece ter atravessado décadas para chegar até 2026, sem soar preso ao passado. O conceito do álbum gira em torno da sensação de ser apenas um visitante: na vida de alguém, em um relacionamento ou até dentro da própria identidade. Essa ideia permeia as dez faixas da edição original e se expande naturalmente na versão deluxe, que amplia o repertório para quinze músicas sem perder a unidade temática. Sienna encontra um equilíbrio raro entre soul, jazz, pop e R&B. A comparação com Adele e Amy Winehouse é inevitável, mas, embora as influências sejam evidente...

City Hunter Vol. 1: um dos maiores mangás da história finalmente chega ao Brasil (2026, Pipoca & Nanquim)

Antes de tudo, é preciso reconhecer a importância histórica desta publicação. Durante décadas, City Hunter figurou entre os grandes clássicos do mangá nunca lançados oficialmente no Brasil. Enquanto séries contemporâneas conquistavam sucessivas edições nacionais, a obra-prima de Tsukasa Hojo permanecia restrita às importaçõess. Coube à Pipoca & Nanquim corrigir essa lacuna com uma edição à altura de sua relevância, baseada na consagrada XYZ Edition japonesa e apresentada em um luxuoso formato omnibus. Lançado originalmente entre 1985 e 1991, City Hunter acompanha Ryo Saeba, um solucionador de casos que atua como detetive, guarda-costas e mercenário nas ruas de Tóquio. Contratado por meio da misteriosa mensagem "XYZ", deixada em um quadro de avisos na estação de Shinjuku, ele aceita missões que envolvem organizações criminosas, corrupção, tráfico de drogas e todo tipo de perigo urbano. Após a morte de seu parceiro Hideyuki Makimura, Ryo passa a trabalhar ao lado de Kao...

Hades (2026): Melanie Martinez mostra que o inferno é aqui

Depois de construir um dos universos conceituais mais bem-sucedidos do pop contemporâneo com Cry Baby (2015), K-12 (2019) e Portals (2023), Melanie Martinez chega a Hades (2026) decidida a abandonar a segurança de sua mitologia para encarar o mundo real. O inferno que dá nome ao álbum não é um lugar imaginário, mas uma metáfora para a sociedade atual. Se seus trabalhos anteriores utilizavam personagens fantásticos para falar sobre traumas pessoais, amadurecimento e identidade, Hades troca a jornada individual por uma crítica às estruturas de poder. Religião, extremismo político, misoginia, capitalismo, redes sociais, vigilância digital e exploração econômica surgem como peças de um sistema que a cantora enxerga como opressor. O conceito é resumido pela própria artista ao definir o álbum como um "espelho rachado": uma obra que não imagina uma distopia futura, mas revela a distopia que já vivemos. Essa mudança de perspectiva também aparece na música. O pop alternativo...

Peter And The Wolf (1975): o supergrupo que transformou o clássico de Sergei Prokofiev em uma obra-prima do rock progressivo

Em 1936, Sergei Prokofiev apresentou ao mundo Pedro e o Lobo , uma suíte sinfônica criada para apresentar às crianças os diferentes timbres de uma orquestra por meio de uma narrativa simples e envolvente. Quase quatro décadas depois, essa obra ganharia uma das releituras mais ousadas da história do rock. Lançado em 1975, Peter And The Wolf , de Jack Lancaster & Robin Lumley, transforma o clássico da música erudita em um sofisticado exercício de rock progressivo e jazz fusion, reunindo um elenco de músicos que parece impossível até mesmo pelos padrões da época. Jack Lancaster, conhecido por seu trabalho com o Blodwyn Pig, e o tecladista Robin Lumley, que mais tarde integraria o Brand X, preservam a essência da composição de Prokofiev, mas substituem a orquestra tradicional por sintetizadores, guitarras elétricas, saxofones, baixo e bateria. A proposta poderia facilmente soar como uma curiosidade de estúdio, mas o resultado é surpreendentemente coeso. A narrativa permanece reconhec...

You Seem Pretty Sad for a Girl So in Love (2026): Olivia Rodrigo faz do fim de um relacionamento o melhor álbum de sua carreira

Depois de transformar as dores da adolescência em dois dos discos pop mais importantes da década com S our (2021) e G uts (2023) , Olivia Rodrigo dá um passo decisivo em sua evolução artística. You Seem Pretty Sad for a Girl So in Love (2026) abandona boa parte da explosão pop punk que marcou seus trabalhos anteriores para mergulhar em uma sonoridade mais sofisticada, inspirada pelo indie rock, pela new wave, pelo chamber pop e pelo pós-punk. É um álbum menos imediato, mas muito mais ambicioso. A própria estrutura do disco revela essa mudança. Dividido em duas partes, o trabalho acompanha a trajetória de um relacionamento desde a euforia da paixão até o desgaste emocional provocado pelo fim. O que começou como um álbum sobre estar apaixonada acabou sendo transformado pela própria experiência de Rodrigo, cujo relacionamento terminou durante o processo de composição. Essa mudança de perspectiva confere unidade e autenticidade ao disco. A primeira metade apresenta uma atmosfera ma...

Estrada Sem Lei: o lado mais sombrio do sonho americano em um noir francês de alma cinematográfica (2026, QS Comics)

Parece que certos quadrinhos nasceram para o cinema. Não porque dependam de grandes cenas de ação ou de efeitos espetaculares, mas porque dominam a linguagem visual a ponto de transformar cada página em uma sequência de enquadramentos precisos, ritmo calculado e tensão crescente. Estrada Sem Lei , publicado no Brasil pela QS Comics, é exatamente esse tipo de obra. Lançado originalmente na França como Les Désarmés em dois volumes, entre 1991 e 1993, o quadrinho foi reunido em uma edição definitiva pela Glénat em 2010, base da publicação brasileira. A história acompanha Jack Farell, um homem derrotado pela vida que retorna à pequena cidade de Crystal, no Texas, depois de fracassar na tentativa de construir uma vida melhor. Sem dinheiro e disposto a recuperar a própria dignidade, ele decide assaltar o banco local. O plano, que parecia relativamente simples, logo se transforma em uma espiral de violência envolvendo um xerife corrupto, criminosos locais, uma família completamente disfunc...

O Abrigo dos Animais: a fábula política de Tom King inspirada em George Orwell (2026, Taverna do Rei)

Quando George Orwell publicou A Revolução dos Bichos em 1945, sua intenção era criticar os rumos da Revolução Russa e denunciar como regimes autoritários podem se apropriar dos ideais que prometem defender. O livro rapidamente ultrapassou seu contexto histórico e se tornou uma das alegorias políticas mais influentes do século XX, permanecendo atual mesmo oito décadas depois. É justamente esse legado que Tom King revisita em O Abrigo dos Animais , publicado no Brasil pela Taverna do Rei. Em vez de adaptar ou modernizar o clássico de Orwell, o roteirista norte-americano parte de uma premissa semelhante para construir uma história própria, voltada aos dilemas das democracias contemporâneas e às disputas pelo poder que continuam moldando a sociedade. A trama se passa em um abrigo onde cães, gatos e coelhos finalmente conseguem expulsar os humanos e assumir o controle do lugar. A conquista da liberdade, porém, está longe de representar o fim dos problemas. Sem um inimigo comum, os animai...