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Pele de Homem: identidade, desejo e liberdade em uma fábula provocadora (2021, Nemo)

Pele de Homem, HQ escrita por Hubert e desenhada por Zanzim , é daquelas obras que parecem simples à primeira vista, mas revelam camadas cada vez mais densas conforme avançamos na leitura. Publicada originalmente na França e lançada no Brasil pela Editora Nemo , a HQ rapidamente se tornou um dos títulos mais comentados e premiados de sua geração, e não por acaso. Ambientada em uma Itália renascentista marcada por convenções sociais rígidas e forte moral religiosa, a história acompanha Bianca, uma jovem prestes a se casar com um homem que mal conhece. O que poderia ser apenas mais um drama de época ganha um rumo inesperado quando ela descobre um segredo guardado pelas mulheres de sua família: uma pele que permite assumir a forma de um homem. Ao vestir essa “pele de homem” e se transformar em Lorenzo, Bianca passa a circular livremente por um mundo que, até então, lhe era proibido. É a partir desse dispositivo fantástico que a HQ constrói sua força. O que está em jogo aqui não é apen...
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Vivid (1988): a estreia explosiva e a transformação cultural do Living Colour

Vivid (1988), álbum de estreia do Living Colour, chegou às lojas quando o rock vivia uma espécie de acomodação. O hard rock dominava as paradas, mas raramente se permitia sair de sua zona de conforto. Foi nesse cenário que a banda apareceu como um corpo estranho e absolutamente necessário. Logo de cara, o disco impressiona pela identidade. A guitarra de Vernon Reid é o eixo central: técnica, inventiva e inquieta, ela atravessa o álbum costurando riffs pesados com texturas vindas do funk, do jazz e até da música experimental. Ao lado dele, a banda funciona como uma engrenagem precisa, com destaque para o vocal expressivo de Corey Glover , que alterna agressividade, soul e melodia com naturalidade. Mas é nas músicas que Vivid realmente se impõe. “Cult of Personality” abre o álbum como um manifesto: groove irresistível, refrão explosivo e uma letra que discute a fabricação de ídolos políticos e midiáticos, um tema que só ficou mais atual com o tempo. “Glamour Boys” traz uma crítica d...

O peso da impunidade: O Desaparecimento de Josef Mengele transforma horror histórico em narrativa inquietante (2026, Pipoca & Nanquim)

Adaptar o romance de Olivier Guez não era uma tarefa simples. O livro já carregava em si uma abordagem rigorosa e incômoda ao reconstruir a vida de Josef Mengele após a queda do Terceiro Reich. Nas mãos de Matz e Jörg Mailliet, essa história ganha uma nova dimensão: mais visual, mais direta e não menos perturbadora. A HQ acompanha a trajetória de Mengele a partir de 1949, quando desembarca na Argentina sob identidade falsa. O que se desenrola a partir daí não é uma narrativa de perseguição tradicional, mas sim o retrato de uma fuga sustentada por redes de proteção, silêncio e conveniência política. A América do Sul surge como cenário ambíguo: ao mesmo tempo refúgio e prisão psicológica. O roteiro de Matz opta por uma construção fragmentada, alternando o presente da fuga com lembranças de Auschwitz. Esses retornos ao passado não buscam aprofundar os crimes — já conhecidos —, mas reforçar o contraste entre o monstro e o homem que tenta desaparecer. A escolha é eficaz porque evita qua...

Rush em estado puro: o peso e a alma de Snakes & Arrows (2007)

Quando o Rush lançou Snakes & Arrows em 2007, a expectativa não era necessariamente por reinvenção, mas por consistência. Depois de um período turbulento e de um retorno ainda irregular com Vapor Trails (2002), o trio canadense parecia buscar algo mais sólido. O que encontrou foi um disco que soa como reconexão: com sua essência, com sua dinâmica interna e, principalmente, com sua própria identidade sonora. Produzido por Nick Raskulinecz , o álbum é uma das obras mais coesas da fase final da banda. Há aqui uma clara valorização das guitarras de Alex Lifeson , que retomam protagonismo sem abrir mão de texturas acústicas e arranjos mais orgânicos. Ao mesmo tempo, o baixo e os teclados de Geddy Lee funcionam menos como elementos de experimentação e mais como sustentação melódica, enquanto a bateria de Neil Peart mantém o nível técnico elevado, mas com foco na musicalidade. Logo de cara, “Far Cry” estabelece o tom: riffs fortes, refrão marcante e uma urgência que remete à melho...

Arizona em Chamas: o mais brutal dos Tex Gigantes (2026, Mythos Editora)

Entre os chamados Tex Gigantes, poucos volumes deixam uma impressão tão imediata quanto Arizona em Chamas . Publicado originalmente em 1992, o álbum é um exemplo claro de como a série pode expandir seus limites quando coloca lado a lado um roteirista experiente e um artista com identidade visual forte. O ponto de partida é clássico dentro do universo de Tex: o conflito entre colonos brancos e povos indígenas. Mas aqui, Claudio Nizzi conduz a narrativa por um caminho mais sombrio e político do que o habitual. Em vez de uma oposição simplificada entre mocinhos e vilões, o roteiro apresenta uma engrenagem de interesses econômicos, manipulação e violência institucionalizada. O grupo dos chamados Voluntários do Arizona funciona quase como uma milícia legitimada pelo silêncio — ou pela cumplicidade — de figuras influentes. A tensão cresce de forma gradual, sustentada por diálogos que revelam mais do que aparentam e por uma sensação constante de que a situação está prestes a explodir. Qua...

O Evangelho Segundo o Coiote: quando Grant Morrison reinventou o Homem-Animal (2026, DC de Bolso)

Quando assumiu o título do Homem-Animal em 1988, Grant Morrison não estava interessado em apenas revitalizar um personagem obscuro da DC. O que o roteirista escocês fez nas sete primeiras edições da série, reunidas no volume O Evangelho Segundo o Coiote que a Panini acabou de publicar na coleção DC de Bolso, foi algo muito mais ambicioso: transformar uma HQ de super-herói em um laboratório de ideias. Nos quatro primeiros capítulos, a estrutura ainda parece familiar. Buddy Baker é apresentado como um herói de segunda linha tentando equilibrar a vida doméstica com uma carreira instável, lidando com contas, família e uma sensação constante de inadequação. Mas já aqui surgem sinais de que algo diferente está em curso. Morrison introduz conceitos como a interconexão entre todos os seres vivos (uma espécie de “rede da vida”) e começa a deslocar o foco da ação para reflexões éticas e existenciais. A arte de Chas Truog, finalizada por Doug Hazlewood, acompanha bem essa transição. O traço ...

Mr. Bad Guy (1985): quando Freddie Mercury trocou o rock pela pista de dança

Mr. Bad Guy (1985) é um daqueles discos que revelam mais sobre o artista do que sobre sua posição na história. Único álbum solo de Freddie Mercury, o trabalho nasce de um momento de distanciamento temporário do Queen e funciona como um laboratório onde o vocalista explora caminhos que dificilmente encontrariam espaço dentro da dinâmica coletiva da banda. Gravado em Munique entre 1983 e 1985, o disco mergulha no universo do pop oitentista, com forte presença de sintetizadores, batidas programadas e uma clara inclinação para a pista de dança. Se em Hot Space (1982) o Queen já havia ensaiado essa direção, aqui Mercury leva a proposta ao extremo, assumindo o controle total do processo criativo. O resultado é um álbum que troca o peso das guitarras por texturas eletrônicas e estruturas mais diretas, aproximando-se do synth-pop e da disco music. Mas reduzir Mr. Bad Guy a um exercício de estilo seria injusto. Há, por trás da superfície, um disco bastante pessoal. As letras transitam e...

Nightfall in Middle-Earth (1998): a ópera épica em que o Blind Guardian encontra a grandiosidade de Tolkien

Nightfall in Middle-Earth (1998) é o ponto em que o Blind Guardian passa a operar com uma lógica quase cinematográfica. O álbum vai além de ser apenas conceitual: ele é uma adaptação musical ambiciosa de O Silmarillion , obra densa e fragmentada de J.R.R. Tolkien em que o escritor inglês explica em detalhes a criação do universo que deu origem à mais do que clássica série de livros O Senhor dos Anéis. O disco alterna canções completas com interlúdios narrativos que funcionam como elos dramáticos. A sensação é de acompanhar uma tragédia clássica: há ascensão, queda e consequências inevitáveis. Esse encadeamento transforma faixas como “Into the Storm” e “Nightfall” em momentos de virada narrativa, e não apenas em destaques isolados. O álbum representa uma ruptura definitiva com o speed metal mais direto da fase inicial. As guitarras de André Olbrich e Marcus Siepen continuam afiadas, mas passam a soar quase como uma espécie de quarteto de cordas a serviço do inferno. Há uma clara ...

The Devil You Know (2009): o testamento final de Dio com o Black Sabbath

The Devil You Know (2009) marca o encontro definitivo entre passado e presente para o Heaven & Hell, ou, se preferir, para o Black Sabbath . O álbum funciona como a conclusão natural da fase iniciada por Ronnie James Dio ao lado de Tony Iommi , Geezer Butler e Vinny Appice nos anos 1980, ainda que sob outro nome. O resultado é um disco denso, arrastado e carregado de atmosfera, que privilegia peso e construção em detrimento de imediatismo. Desde a abertura com “Atom and Evil”, o álbum deixa claro seu direcionamento: riffs graves, andamento cadenciado e um clima quase opressivo. A faixa funciona como um manifesto sonoro, com Iommi explorando variações minimalistas enquanto Dio conduz tudo com sua interpretação teatral, reforçando o tom sombrio que domina o trabalho. “Fear” mantém a linha, mas adiciona mais dinâmica, com mudanças sutis de ritmo e um refrão que se fixa com facilidade. Já “Bible Black” surge como um dos grandes momentos do disco, começando de forma introspectiv...

Blues (1994): a compilação que revela a verdadeira essência de Jimi Hendrix

Lançado postumamente em 1994, Blues é uma compilação que vai além do caráter arquivístico. Ao reunir gravações feitas entre 1966 e 1970, o disco funciona como uma espécie de radiografia do DNA musical de Jimi Hendrix, expondo com clareza o quanto sua arte sempre esteve enraizada no blues, mesmo nos momentos mais psicodélicos e experimentais de sua carreira. A curadoria equilibra demos, takes alternativos, jams de estúdio e registros ao vivo, criando uma audição surpreendentemente coesa. Não há aqui a grandiosidade de álbuns como Electric Ladyland (1968), mas sim algo mais cru e direto: o contato imediato com o feeling de Hendrix, com sua forma única de dobrar notas, manipular timbres e transformar estruturas simples em experiências intensas. Entre os destaques, “Hear My Train A Comin’” aparece em versão acústica e revela um Hendrix íntimo, quase vulnerável, conduzindo a faixa com precisão emocional impressionante. Já “Red House”, aqui na gravação que está no clássico Are You Exp...