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A Obsolescência Programada dos Nossos Sentimentos: uma história que mostra que envelhecer não significa deixar de viver (2026, Pipoca & Nanquim)

A Obsolescência Programada dos Nossos Sentimentos , de Zidrou e Aimée de Jongh, coloca no centro da história uma situação pouco explorada nos quadrinhos: o que acontece quando duas pessoas que já passaram dos 60 anos se apaixonam? A resposta poderia resultar em uma história romântica convencional, apenas trocando personagens jovens por protagonistas mais velhos. Mas a HQ publicada pela Pipoca & Nanquim vai além ao usar esse relacionamento para discutir envelhecimento, solidão, desejo, luto e a maneira como a sociedade determina, muitas vezes, quando uma pessoa deveria deixar de desejar, sonhar e experimentar coisas novas. Ulisses tem 59 anos, é viúvo e trabalhou durante décadas como carregador em uma empresa de mudanças. Quando perde o emprego, também perde uma parte importante da rotina e da identidade que construiu ao longo da vida. Mediterrânea, de 61 anos, administra uma queijaria familiar e acaba de perder a mãe, depois de acompanhá-la durante uma longa doença. Os dois vivem...
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Cesta Básica (1996): Warner resgata capítulo importante da história dos Raimundos

Depois de conquistar o público com o álbum de estreia, em 1994, e ampliar seu alcance com Lavô Tá Novo (1995), os Raimundos aproveitaram o momento de popularidade para apresentar um lançamento que fugia do formato convencional. Cesta Básica (1996) chegou ao mercado em uma caixa que reunia CD, VHS com bastidores e apresentações e uma história em quadrinhos desenhada por Angeli. Três décadas depois, a Warner recupera o disco em uma edição em CD slipcase, devolvendo às lojas um registro interessante de uma das fases mais fortes do rock brasileiro dos anos 1990. O CD reúne dez faixas que transitam entre músicas inéditas, releituras, remix e gravações ao vivo. A diversidade do material é justamente o que define sua personalidade, mas também impede que o trabalho tenha a unidade de um álbum de estúdio convencional. Cesta Básica funciona melhor como um retrato dos Raimundos naquele momento, documentando diferentes aspectos da identidade musical que transformou a banda em um fenômeno. E...

Rever Paris: é possível sentir saudade de um lugar onde nunca estivemos? (2026, QS Comics)

Rever Paris , de Benoît Peeters e François Schuiten, parte de uma ideia tão simples quanto fascinante: como é possível sentir saudade de um lugar onde nunca estivemos? É a partir dessa contradição que a primeira obra da dupla responsável por As Cidades Obscuras publicada no Brasil constrói uma história de ficção científica que fala menos sobre o futuro do que sobre a maneira como inventamos o passado. Estamos em 2156. Kârinh nasceu na Arca, uma colônia espacial formada por descendentes de pessoas que abandonaram a Terra. Ela nunca esteve no planeta, mas passou a vida fascinada por Paris, cidade que conhece através de livros, imagens e registros antigos. Quando finalmente parte em direção à Terra, leva consigo uma ideia de Paris construída inteiramente pela imaginação. O problema é que a cidade que ela sonhou não existe e talvez nunca tenha existido daquela maneira. É nesse ponto que Rever Paris encontra seu melhor tema: a diferença entre conhecer um lugar e conhecer a imagem que ...

Renato Russo: 30 anos sem a voz que marcou o rock brasileiro

Em 11 de outubro de 1996, o rock brasileiro perdeu Renato Russo. Ele tinha apenas 36 anos e uma carreira que, embora relativamente curta, havia sido suficiente para transformar a música popular brasileira e estabelecer a Legião Urbana como uma das bandas mais importantes da história do país. Trinta anos depois, suas músicas continuam sendo cantadas, regravadas, descobertas por novas gerações e, principalmente, utilizadas para dizer aquilo que muitas pessoas não conseguem colocar em palavras. Renato Manfredini Júnior nasceu no Rio de Janeiro em 27 de março de 1960, mas foi em Brasília que encontrou o ambiente que moldaria sua personalidade e sua música. Ainda adolescente, passou por uma grave doença óssea que o deixou durante longo período sem poder se locomover. Foi nessa fase que começou a escrever compulsivamente, desenvolvendo a relação com a palavra que mais tarde se tornaria uma de suas principais ferramentas artísticas. Em 1978, aos 18 anos, formou o Aborto Elétrico, ao lado ...

Frontier: uma ficção científica sobre os limites da humanidade (2026, Comix Zone)

Frontier , de Guillaume Singelin, usa a ficção científica para discutir problemas muito mais próximos de nós do que seus planetas distantes, estações espaciais e naves podem sugerir. Em um futuro no qual a Terra teve seus recursos naturais praticamente esgotados, a humanidade se espalha pelo espaço em busca de novas fontes de matéria-prima. Nesse novo cenário, grandes corporações concentram poder e riqueza, enquanto trabalhadores e colonos enfrentam as consequências de um sistema que privilegia o lucro acima de tudo. É nesse contexto que Singelin acompanha três personagens de origens distintas. Ji-Soo Park é uma cientista interessada nas possibilidades de descoberta oferecidas pelo espaço, Alex é um minerador que cresceu nesse novo mundo, enquanto Camina carrega as marcas de um passado como mercenária. O encontro entre os três conduz uma aventura que, embora tenha elementos clássicos da ficção científica espacial, aborda muito mais a relação entre as pessoas do que a tecnologia. A ...

Harem End: uma sátira grotesca da indústria do entretenimento japonesa (2026, Pipoca & Nanquim)

Harem End , de Shintaro Kago, parte de uma das fórmulas mais reconhecíveis da cultura pop japonesa para fazer exatamente o que se espera do autor: desmontá-la, distorcê-la e levá-la para um território em que romance, humor, erotismo e horror corporal passam a ocupar o mesmo espaço. A premissa parece saída de uma comédia romântica convencional. Itou Seita, um universitário, passa a viver cercado por cinco garotas que representam praticamente um catálogo dos arquétipos dos mangás de harém: a amiga de infância, a tsundere, a noiva, a irmã mais nova e até uma garota que afirma ser uma alienígena. É o tipo de situação construída para alimentar a fantasia do protagonista masculino. Só que estamos falando de Shintaro Kago. E a fantasia rapidamente começa a apodrecer. O grande mérito de Harem End está justamente em utilizar as convenções do gênero contra ele próprio. O leitor reconhece os personagens, as situações e a lógica daquele universo, mas Kago remove progressivamente o confort...

Lavô Tá Novo (1995): o momento em que os Raimundos descobriram até onde podiam chegar

O álbum de estreia dos Raimundos, lançado em 1994, havia colocado a banda de Brasília no centro do rock brasileiro com uma combinação que parecia improvável: hardcore, punk, forró, letras escrachadas e uma energia que não cabia facilmente em nenhuma classificação. Já o segundo disco do grupo, Lavô Tá Novo (1995), seria o responsável por transformar aquela explosão inicial em fenômeno nacional. Produzido pelo inglês Mark Dearnley, que já havia trabalhado com nomes como AC/DC, Black Sabbath e Def Leppard, Lavô Tá Novo apresenta uma banda mais pesada, precisa e consciente das possibilidades de sua própria música. A produção é mais robusta, as guitarras ganharam definição e os arranjos ficaram mais elaborados, mas sem domesticar a personalidade dos Raimundos. A impressão é de uma banda que descobriu como ampliar sua sonoridade sem deixar de ser ela mesma. “Eu Quero Ver o Oco” resume muito bem essa evolução. O riff é pesado, direto e memorável, enquanto a estrutura transforma uma comp...

Sibylline - Crônicas de uma Acompanhante: uma história sobre o preço da independência (2026, Comix Zone)

Sibylline: Crônicas de uma Acompanhante é uma HQ que poderia facilmente cair na armadilha do voyeurismo. Afinal, sua protagonista é uma estudante de 19 anos que começa a trabalhar como acompanhante para conseguir dinheiro enquanto cursa arquitetura em Paris. Sixtine Dano, porém, escolhe um caminho bem mais interessante: em vez de transformar a prostituição em espetáculo, usa essa experiência para construir um retrato sobre juventude, independência, dinheiro, desejo e a relação de uma mulher com o próprio corpo. Raphaëlle chega a Paris tentando construir uma vida nova. A faculdade consome tempo e dinheiro, o trabalho como garçonete não é suficiente e as despesas aumentam. Quando começa a atuar como acompanhante, usando o nome Sibylline, ela encontra uma maneira relativamente rápida de ganhar dinheiro. O que parecia inicialmente uma solução prática, entretanto, começa a interferir em diferentes aspectos de sua vida. É justamente nessa ambiguidade que a HQ encontra sua força. Dano nã...

O Cavaleiro das Trevas: a história que reinventou o Batman (2026, DC de Bolso)

Publicada originalmente em 1986, O Cavaleiro das Trevas ajudou a mudar a maneira como Batman e os próprios quadrinhos de super-heróis poderiam ser vistos. Quarenta anos depois, o mais interessante é perceber que sua importância vai muito além de ter tornado o personagem mais sombrio. Bruce Wayne tem 55 anos, está aposentado há uma década e tenta levar uma vida confortável enquanto Gotham mergulha novamente no caos. A violência cresce, uma gangue conhecida como Mutantes domina as ruas e o comissário Gordon está prestes a se aposentar. Bruce tenta resistir, mas o Batman nunca desapareceu completamente. Ele retorna às ruas mesmo sabendo que seu corpo envelhecido já não é capaz de acompanhar a mesma disposição de décadas atrás. Frank Miller transforma esse retorno em uma história sobre obsessão, envelhecimento, violência e legado. Seu Batman não é exatamente um herói convencional. É um homem consumido pela necessidade de combater o crime, cada vez mais agressivo e disposto a ultrapass...

Raimundos (1994): um dos discos mais importantes do rock brasileiro dos anos 1990

Para quem não viveu a época, não é tarefa das mais fáceis imaginar o impacto do álbum de estreia dos Raimundos quando o disco chegou às lojas em 1994. O rock brasileiro vivia um momento de renovação, e aquela banda de Brasília apareceu com uma combinação que parecia improvável até então: hardcore, punk, heavy metal, forró, baião, humor escatológico e uma energia absolutamente descontrolada. Produzido por Carlos Eduardo Miranda e lançado pelo Banguela Records, o álbum transformou uma experiência underground em um dos acontecimentos mais marcantes do rock nacional dos anos 1990. Rodolfo, Digão, Canisso e Fred não inventaram simplesmente uma fusão entre rock pesado e música nordestina. O diferencial estava em fazer esses elementos funcionarem organicamente. “Puteiro em João Pessoa”, “Nêga Jurema”, “Marujo” e “Palhas do Coqueiro” mostram uma banda que entendia o forró e o baião como parte de sua identidade musical, incorporando seus ritmos e melodias às guitarras distorcidas e à velocid...