Colecionador
O mundo do heavy metal foi sacudido, novamente, por uma revelação bombástica. Gaahl, vocalista do Gorgoroth, anunciou hoje que é gay. Em pleno século XXI, uma declaração como essa deveria passar batida, afinal cada um é livre para seguir a sua própria opção sexual. Mas, no cenário do heavy metal, ela causa comoção.
Para quem nunca ouviu falar do Gorgoroth, vale um breve histórico a respeito do grupo. A banda foi fundada em 1992 na cidade norueguesa de Fjaler. Seu line-up original contava com Hat nos vocais, Infernus na guitarra, Samoth no baixo e Goat Pervertor na bateria. O grupo foi um dos principais nomes da chamada segunda geração do black metal, que teve o seu berço na Noruega no início dos anos noventa e ficou conhecida por três fatores: a qualidade inegável e influência gigantesca de bandas como Mayhem, Burzum, Darkthrone, Immortal, Emperor e o próprio Gorgoroth, entre outros; o surgimento do Inner Circle, grupo fechado encabeçado por Euronymous, guitarrista e líder do Mayhem, que causou controvérsia por promover a queima de igrejas históricas norueguesas; e, por último, o desentendimento entre Euronymous e Varg Virkenes, líder do Burzum, que culminou com o assassinato do primeiro pelo segundo, com Virkenes sendo condenado à prisão, onde está até hoje.

O Gorgoroth, em sua carreira, gravou alguns álbuns clássicos do black metal, como "Pentagram" de 1994, "Antichrist" de 1996 e "Under the Sign of Hell" de 1997, que ajudaram a definir a estética sonora do estilo, com os instrumentos soando propositadamente abafados e mal mixados, vocais urrados e bateria à velocidade da luz.
Gaahl entrou no grupo em 1998, e com sua postura radical foi um dos principais responsáveis pelo acentuamento da visão da banda, uma das mais controversas do metal extremo, e que sempre fez questão de deixar clara a sua crença no satanismo. Por fim, um dos shows mais controversos que o heavy metal já teve notícia foi uma apresentação do Gorgoroth na cidade polonesa de Cracóvia, em 2004, onde a banda tocou coberta de sangue de animais, além de trazer diversas mulheres nuas presas em cruzes em todo o palco, fatos esses que chocaram os poloneses, um dos povos mais católicos do mundo.

Ou seja, estamos falando de um dos ícones do black metal, e que finalmente resolveu assumir ao público a sua opção sexual. Não há mal nenhum nisso, muito pelo contrário. Rob Halford já havia causado debate semelhante quando, no início dos anos 90, resolveu sair do armário. Aliás, aqui cabe um comentário: Halford, à frente do Judas Priest, foi uma das figuras fundamentais não só na evolução e definição do que hoje conhecemos como heavy metal, mas também, e principalmente, foi um dos artífices do modo de vestir dos headbangers ao redor do planeta, que copiaram seus trajes de couro sem perceber que, na verdade, aquelas roupas estavam muito mais próximas de um visual gay sadomasoquista do que de qualquer outra coisa ...
É de se esperar que vários fãs do Gorgoroth, e de black metal, venham à público falar um monte de declarações homofóbicas, crucificando Gaahl, cujo nome verdadeiro é Kristian Espedal, e seu parceiro, o estilista e agente de modelos Dan DeVero. Várias pessoas vão jogar fora os discos do grupo. Essa reação vai apenas atestar, além de ignorância, uma negação aos seus próprios desejos sexuais.
Para essa parcela do público não há muito que possa ser feito, apenas lamentar que, em pleno 2008, o trabalho de um artista ainda seja avaliado tendo como parâmetro principal a sua escolha sexual. Já outra parcela, muito mais madura, não se deixará influenciar pela declaração de Gaahl e continuará curtindo o Gorgoroth, uma das máquinas sonoras mais avassaladoras da música pesada.
Concluindo: é preciso ter coragem para se expor como Gaahl está se expondo, deixando a confortável posição de ícone inconteste de um gênero musical para ser apedrejado em praça pública. E é quase inacreditável que, no mundo em que vivemos, a revelação da opção sexual de uma pessoa ainda cause tanta discussão.
Vamos em frente, livres como sempre!




8 comentários:
Vixi...
Essa vai dar o que falar hein!
Vixi...
Essa vai dar o que falar hein!
essa revelaçao foi muito inesperada mesmo, o cara mo pinta de malvadão... e foi se juntar com um estilista... pra mim isso foi comico...com relação ao texto, achei ótimo o assunto foi bem abordado, sem preconceito... bem profissional. parabens ao autor
Ramon, obrigado pelo elogio em relação ao texto. É difícil escrever sobre esse assunto e não soar tendencioso, me esforcei bastante para que o texto apresentasse os vários lados da moeda. Espero ter conseguido. Abração.
A entrevista do cara pra Rock Hard (olha só a ironia) é uma das matérias do ano… e teu texto também ficou excelente (pra variar), brother!
Glauco, valeu pelo elogio. É um tema espinhoso para se escrever, mas como não vi nada nos sites nacionais, tive que expor o meu ponto de vista. Abração.
Cara corajoso, tem que ser muito "homem" para assumir num meio como o Black Metal.
Não sou nem de longe fã de metal e muito menos do black metal, mas ao ler esse texto foi impossível não me manifestar. Acho todos estes terrenos extremamente perigosos, queimar igrejas, assassinatos, crucificações. O que esse pessoal quer chegar com isso? simplesmente chocar as pessoas, tal qual os terroristas? o que eles reivindicam? Basta lembrar uma das maiores verdades deste mundo, violência gera violência. Este vocalista hoje é algoz da própria geração de malucos radicais que ele alimentou e que demonstram altas doses de intolerâncias em vários campos. Meus respeitos aos fãs da música black metal, mas esse tipo de comportamento discriminante é digno de pena.
Postar um comentário