Discoteca Básica Bizz #025: Jimi Hendrix - Electric Ladyland (1968)


Hendrix transformou a linguagem e expandiu os horizontes da guitarra elétrica no rock. Sua concepção musical transpunha as fronteiras das classificações, resgatando toda a tradição da música negra, ao mesmo tempo que apontava as principais tendências que viriam a emergir na década de 1970 (heavy metal, jazz rock, progressivo). A naturalidade com que arrancava - de inúmeras maneiras - inacreditáveis solos de sua Fender e criava melodias com efeitos de pedais e microfonias, era espantosa. Jimi ao vivo - incendiário em Monterey ou lançando bombas no hino nacional americano em Woodstock - fazia de sua guitarra uma extensão de seu próprio corpo e alma.

Mas também existia um outro Jimi, aquele dos estúdios e jam sessions, um experimentador fascinado pelo desenvolvimento das técnicas de gravação e efeitos, e que mais tarde montaria seu próprio estúdio (o Electric Lady, em Nova York). 

A interação mais perfeita dessas duas facetas de Jimi ocorre exatamente no terceiro e último álbum que ele gravou com o Experience, o duplo Electric Ladyland. O seu primeiro LP era pura explosão, uma transposição para o vinil da energia em estado bruto que emanava do som de Hendrix. Depois veio Axis: Bold as Love com seus temas lisérgicos e maior elaboração no trabalho de estúdio, através de recursos técnicos então inovadores como o pan (efeito de estéreo em que um som passa de um canal ao outro).


Em Electric Ladyland estes experimentos de estúdios foram levados adiante. Mais do que nunca, Jimi sentia-se à vontade para ousar. Isso já se nota na superposição de efeitos da vinheta introdutória "And the Gods Made Love". "Você já esteve na terra das mulheres elétricas / O tapete mágico espera por você / Então não se atrase", canta Jimi na faixa título. É o convite para uma imagem que segue através do tráfego da cidade e depois envereda pelo blues rasgado em "Voodoo Chile". 

O lado 2 começa com duas boas canções, mas menores em relação ao conjunto: "Little Miss Strange" (do baixista Noel Redding) e "Long Hot Summer Night". Mas ganha corpo novamente a partir de uma versão de "Come On" de Earl King, e torna a brilhar no funk sincopado de "Gipsy Eyes" e nas linhas melódicas de "The Burning of the Midnight Lamp".

O segundo disco começa com a longa introdução tendendo para o blues de "Rainy Day, Dream Away”. O lado 3 conta apenas com mais duas músicas, que na verdade são uma única suíte, na qual vários climas se sucedem de maneira sublime. 

No último lado do disco há "Still Raining, Still Dreaming" - uma recriação da faixa que abre o lado 3 - que é seguida pelo pique de "House Burning Down", para encerrar-se com duas faixas geniais: "All Along the Watchtower", a versão definitiva da canção de Dylan, e "Voodoo Child (Slight Return)", outra recriação estupenda que abre espaço para novos vôos de Hendrix. 

Esse disco expõe as drogas mais pesadas que fizeram sua cabeça: blues, funk e rock and roll. Uma fórmula simples, que ele dosava com sua guitarra, seu fuzz e seu wah-wah. Só mesmo Syd Barrett conseguiu (um ano antes) pintar com cores psicodélicas um painel tão significativo, tão adiante das manias musicais da época - como o blues branco e o rhythm & blues.

O lançamento de Electric Ladyland coincidiu com o fim do Experience (Jimi, Noel e Mitch Mitchell na bateria). Hendrix iria montar a Band of Gypsys com o baixista Billy Cox e batera Buddy Miles (ex-Electric Flag), gravando um álbum ao vivo no show realizado no Fillmore East (em Nova York) na noite de ano novo de 1969/1970. Novamente com Mitchell no lugar de Buddy Miles, Jimi faria The Cry of Love, seu último disco antes de morrer repentinamente aos 27 anos em 18 de setembro de 1970. Uma vida curta, um enorme legado.

(Texto escrito por Celso Pucci, Bizz #025, agosto de 1987)

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