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Tex Willer Especial 7: Tex, Zagor e o Velho Oeste à beira do abismo (2025, Mythos)

A sétima edição de Tex Willer Especial , com o título de Presságios de Guerra , parte de uma promessa poderosa: o reencontro entre Tex Willer e Zagor, dois dos maiores ícones da Sergio Bonelli Editore, inseridos em um contexto histórico tenso, marcado pelos ecos da Guerra Civil Americana e pelos conflitos com as nações indígenas. Mauro Boselli constrói a narrativa como um grande painel de transição, no qual alianças frágeis, decisões políticas e interesses militares anunciam um conflito inevitável. Vale lembrar que o primeiro encontro entre os personagens foi publicado em Tex Willer Especial 3 , com o título de Encontro de Heróis . A trama se organiza a partir da ameaça de uma nova guerra envolvendo os Comanches, com destaque para a figura histórica de Quanah Parker. Tex e Zagor surgem como mediadores naturais, personagens que transitam entre mundos distintos como o da lei, o do exército e o das nações indígenas, tentando evitar um derramamento de sangue que parece já escrito no hori...
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Siegfried: fantasia épica em estado puro (2025, Comix Zone)

Em Siegfried , Alex Alice não está interessado apenas em recontar a lenda dos Nibelungos, mas em traduzir para os quadrinhos a lógica do mito: personagens maiores que a vida, ações guiadas menos pela psicologia individual e mais por forças inevitáveis como destino, herança e transgressão. O protagonista nasce marcado por uma origem híbrida, filho de um deus e de um humano, e essa condição liminar atravessa toda a narrativa, funcionando como metáfora para o próprio mito, sempre situado entre o humano e o divino, o racional e o simbólico. A estrutura do roteiro reflete essa proposta. Alice evita explicações didáticas e diálogos excessivos, apostando em uma narrativa fragmentada e contemplativa, que exige participação ativa do leitor. Muitos acontecimentos são sugeridos mais pela imagem do que pelo texto, e o silêncio ocupa um papel fundamental. Essa escolha aproxima Siegfried menos da fantasia de aventura tradicional e mais de uma tragédia clássica, em que o desfecho parece conhecido ...

1984 (1984): quando o Van Halen conquistou o mundo

1984  (1984) não é apenas o álbum mais bem-sucedido do Van Halen com David Lee Roth. É o ponto em que a banda expõe, de forma quase involuntária, a tensão entre expansão criativa e identidade. Ao contrário da narrativa simplificada que costuma reduzir o disco à “fase dos teclados”, o que se ouve aqui é um grupo tentando redefinir seus próprios limites em um cenário musical que já não comportava apenas virtuosismo e excesso. A decisão de Eddie Van Halen de gravar no estúdio 5150, sob seu controle direto, é central para entender o disco. Pela primeira vez, o guitarrista não apenas dita o vocabulário musical, mas também o ambiente em que ele é construído. Isso se reflete na sonoridade: mais limpa, mais espaçosa, menos dependente da urgência crua dos primeiros álbuns. Os sintetizadores não surgem como ornamento oportunista, mas como extensão lógica da curiosidade harmônica de Eddie, algo que já se insinuava em trabalhos anteriores, mas que aqui assume papel estrutural. “Jump” sinte...

Voodoo Lounge (1994): o disco que trouxe os Rolling Stones ao Brasil

Em Voodoo Lounge , os Rolling Stones operam com a consciência de quem atravessou mudanças internas profundas sem intenção de reinventar a própria linguagem. Lançado em 1994, o álbum é o primeiro gravado sem o baixista Bill Wyman, encerrando silenciosamente uma formação que havia sustentado décadas da identidade rítmica do grupo. Em vez de transformar essa ausência em ruptura, a banda opta por reforçar seus próprios códigos, apostando em solidez e familiaridade. “Love Is Strong” abre o disco em clima denso e arrastado, mais preocupado com atmosfera do que impacto imediato. Já “You Got Me Rocking” cumpre o papel oposto: um rock direto, funcional, claramente moldado para o palco. Essa dinâmica define Voodoo Lounge . Entre esses extremos, surgem momentos introspectivos como “Out of Tears” e “Blinded by Rainbows”, nos quais Mick Jagger abandona o cinismo habitual em favor de um tom mais melancólico, enquanto faixas como “Sweethearts Together” e “New Faces” evidenciam o problema central ...

Gullivera: erotismo, ironia e jogo de escalas no traço de Milo Manara (2006, Pixel Media)

Gullivera , de Milo Manara, chegou ao Brasil em 2006 pela Pixel Media como parte de uma aposta da editora em quadrinhos europeus voltados ao público adulto. A edição nacional, em formato de álbum e com bom padrão gráfico, apresenta ao leitor brasileiro uma das obras mais leves e irônicas do autor italiano, livremente inspirada em As Viagens de Gulliver , de Jonathan Swift, mas reinterpretada a partir de um olhar declaradamente erótico. Aqui, o protagonista clássico dá lugar a Gullivera , uma jovem que naufraga e passa a vivenciar encontros com povos diminutos e gigantes, sempre em situações que exploram o contraste de escala como motor narrativo e, sobretudo, visual. Manara usa essa estrutura para criar cenas que misturam humor, fantasia e sensualidade, apostando menos na crítica social afiada de Swift e mais em jogos de sedução, voyeurismo e composição corporal. O roteiro é simples, quase episódico, funcionando como fio condutor para uma sucessão de quadros pensados para valorizar o...

Eightball Completo: o desconforto como linguagem no mundo segundo Daniel Clowes (2025, Darkside)

Eightball Completo revela Daniel Clowes no momento em que os quadrinhos alternativos deixam de ser apenas reação ao mainstream e passam a se afirmar como linguagem própria. Publicada originalmente entre 1989 e 1997, a série funciona como um laboratório contínuo, no qual Clowes testa limites narrativos, estéticos e morais. A leitura integral deixa claro que Eightball não foi pensada como uma obra coesa desde o início, mas como um espaço de liberdade total, e é justamente essa falta de unidade aparente que se transforma em sua maior força. O leitor acompanha um autor em permanente estado de inquietação, alternando entre o escárnio absoluto e uma sensibilidade surpreendentemente delicada. O aspecto mais incômodo e mais potente de Eightball está na forma como Clowes encara seus personagens. Quase ninguém é apresentado de maneira simpática ou redentora. São figuras patéticas, ressentidas, socialmente deslocadas, muitas vezes cruéis ou ridículas. Mas, ao contrário de uma simples postura...

From the First Sting (2024): seis décadas de veneno e melodias do Scorpions

Lançada como parte das comemorações pelos 60 anos do Scorpions, From the First Sting existe em duas edições distintas: uma versão enxuta com 16 faixas, que é foco desta resenha, e uma edição mais abrangente, com 31 canções, que se propõe a cobrir a carreira do grupo de forma ainda mais detalhada. A edição de 16 faixas funciona como um recorte curatorial, quase um “best of essencial”, pensado para oferecer uma experiência mais direta e coesa. O percurso começa nos anos 1970, com “In Search of the Peace of Mind”, resgatando o Scorpions do disco de estreia, Lonesome Crow (1972), ainda fortemente influenciado pelo rock psicodélico e progressivo, e avança por momentos-chave da discografia até chegar a “Rock Believer”, representando a fase mais recente da banda. Nesse trajeto, o álbum consegue condensar mais de cinco décadas sem soar apressado ou meramente protocolar. Os grandes pilares da carreira estão bem representados. “The Zoo”, “No One Like You”, “Rock You Like a Hurricane”, “Big...

100 Discos para Conhecer Aguardela: uma carta de amor à musicologia do imaginário e ao espírito do colecionismo musical (2024, Pipoca & Nanquim)

A força de 100 Discos para Conhecer Aguardela está na forma como ele compreende e subverte a lógica da historiografia musical. Daniel Lopes e Raphael Salimena não apenas criam discos fictícios: eles constroem um ecossistema cultural completo, onde cada álbum funciona como documento histórico, vestígio emocional e peça de um mosaico maior. É um livro que pensa a música como linguagem social, não como produto isolado. Ao optar por cem discos fictícios, os autores eliminam qualquer fetiche nostálgico por títulos consagrados e deslocam o foco para aquilo que realmente sustenta a cultura fonográfica: contexto, circulação, conflitos, cenas locais e memória coletiva. Aguardela não é apenas um cenário, mas um organismo vivo, moldado por transformações políticas, mudanças de gosto, crises de mercado, disputas artísticas e reinvenções estéticas, exatamente como qualquer cidade real com tradição musical. O leitor mais atento percebe que o livro opera em várias camadas simultâneas. Na superfí...

O sucesso improvável de America’s Least Wanted (1992) e o lugar do Ugly Kid Joe nos anos 1990

America’s Least Wanted (1992) marcou a estreia do Ugly Kid Joe em um momento de transição no rock pesado. O grunge já começava a ocupar o centro do palco, mas ainda havia espaço para bandas que apostavam em riffs diretos, grooves funkeados e uma atitude irreverente, quase debochada. O disco nasceu desse espírito: excessivo, acessível e pouco preocupado em parecer sofisticado. E esse é justamente o ponto: o álbum funciona melhor quando assume seu caráter despretensioso, feito para divertir e provocar, não para buscar profundidade artística. O som do Ugly Kid Joe se sustenta em refrões grudentos e uma produção moldada para o rádio e a MTV. “Everything About You” resume bem essa proposta, com sarcasmo escancarado e energia juvenil. Faixas como “Busy Bee” e “Neighbor” reforçam o flerte com o funk metal e o hard rock herdado dos anos 1980. Nesse conjunto marcado por ironia e atitude quase caricata, a presença de “Cats in the Cradle” se torna o ponto mais discutido. A canção original, d...

As melhores HQs de 2025 na opinião da Collectors Room

O ano de 2025 foi especialmente fértil para os quadrinhos, com obras que exploraram o meio em toda a sua potência narrativa, estética e emocional. A lista de m elhores do ano da Collectors Room reflete esse momento singular, reunindo HQs que não apenas se destacaram pela qualidade técnica, mas que também provocaram, inquietaram e permaneceram com o leitor muito além da última página. São histórias que transitam entre horror, fantasia, suspense, western, drama psicológico e introspecção, sempre com identidade forte e propostas autorais bem definidas. Mais do que um ranking, esta seleção é um recorte curatorial que valoriza obras capazes de usar os quadrinhos como linguagem, explorando ritmo, silêncio, composição visual e densidade temática. De títulos consagrados internacionalmente a produções nacionais marcantes, passando por edições brasileiras cuidadosas e relevantes, esta lista celebra HQs que ajudaram a definir 2025 como um ano memorável para leitores atentos e apaixonados pelos ...