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27 de mar de 2015

Von Hertzen Brothers - New Day Rising (2015)

Uma boa forma de definir a música da banda finlandesa Von Hertzen Brothers é imaginar uma mistura entre o Queen e o Gentle Giant, adornada por uma refinada camada pop. No entanto, não é suficiente para colocar em palavras toda a musicalidade do grupo formado pelos irmãos Von Hertzen (Kie na guitarra, Mikko no vocal e guitarra e Jonne no baixo) e completada por Juha Kuoppala (teclado) e Mikko Kaakkuriniemi (bateria). É preciso ir um pouco mais fundo.

New Day Rising, sexto álbum do quinteto, distancia a banda de sua herança progressiva e leva o Von Hertzen Brothers para uma sonoridade próxima do pop com elementos barrocos. Um processo que já havia sido iniciado no trabalho anterior, Nine Lives (2013), e continha sementes no disco que o antecedeu, o ótimo Stars Aligned (2011). 

Este afastamento do prog e do próprio peso, presente nos álbuns anteriores, pode gerar também um afastamento de fãs das antigas, mas é um risco consciente que a banda assume ao levar a sua música para terrenos até então inéditos. Por mais que, em certos aspectos, o som do grupo tenha se tornado mais simples e menos sofisticado - e até mesmo menos interessante, dependendo do ponto de vista -, a escolha em acentuar o inegável potencial comercial presente na música do Von Hertzen Brothers deve levar a banda muito além da fronteira de seu país natal e do nicho prog, onde estava inserida.

Mantendo o seu estilo único, que consegue unir momentos etéreos, sofisticados, agressivos e intrincados na construção de uma sonoridade pop, o Von Hertzen Brothers gravou um álbum que merece chegar aos ouvidos de uma maior parcela do público. Uma das características principais dos finlandeses, o jogo de vozes criando harmonias agradáveis nas composições, mantém-se forte e significativa, como já deixa claro a faixa-título, que abre o play. Há grandes momentos em Ne Day Rising, como a música que dá nome ao disco, “You Don’t Know My Name”, “Sunday Child” e “The Destitute”, e elas fazem o álbum valer a pena. 

Ainda que, pessoalmente, continue preferindo o que o VHB fez em seu passado, a banda segue produzindo boa música, e isso é o que importa.


Nota 8


Pyramids - A Northern Meadow (2015)

Na lenda babilônica da ‘queda’ do paraíso, o abismo representa a regeneração, a redenção, a expiação e outros termos similares, significando algo como a união do humano com uma mente divina; implicando neste caminho um silenciamento do intelecto e uma entrega à consciência. Se há alguma forma de exemplificar isto musicalmente, certamente é possível que a resposta seja no som desses texanos. Ao transitar em um ambiente escuro, frio e claustrofóbico, nossos olhos e membros congelam-se e a angústia se encarrega de abraçar qualquer esforço emocional. É sim um passeio sinuoso, mas severamente construtivo.

Em 2008, o Pyramids estreava com o seu álbum auto-intitulado, misturando junto os diferentes elementos do shoegaze, post-rock, post-black metal, dark ambient, drone e experimental; seu primeiro álbum foi nada menos do que fascinante. Após o lançamento, houve uma variedade de artistas e bandas avant-garde – incluindo James Plotkin, Colin Marston e Blut Aus Nord – remixando o material do Pyramids; e tempos depois ocorreram algumas colaborações com nomes como Nadja, Wraiths, Horseback e Mamiffer, até enfim lançarem o seu segundo full-length, A Northern Meadow.

A grande e emblemática diferença no som da banda para qualquer outra, é que eles não podem ser enquadrados como uma banda de metal usando texturas shoegaze; ou uma banda emo utilizando texturas de metal; ou ainda uma banda avant-garde utilizando texturas pop, mas sim uma mistura uniforme e completa de todos os componentes.

Auxiliando o quarteto formado por M. Dean, D. William, M. Kraig e R. Loren, estão William Fowler Collins – um prolífico músico de dark ambient -, o guitarrista Colin Marston (Gorguts, Krallice) e Vindsval (Blut Aus Nord) na bateria eletrônica. A arte da capa merece destaque: uma mulher com mechas de cabelo espalhadas como tentáculos e presas na parede. Enigmática? Assustadora? Não. Apenas agonizante, suável e afrontante como uma rigidez catatônica.

“In Perfect Stillness, I’ve Only Found Sorrow” começa o álbum de uma forma fria e opressora, parecendo levar-nos a um labirinto onde os caminhos ficam cada vez mais escuros. Já em “The Substance of Grief Is Not Imaginary”, a música em si tem um pouco mais de black metal em uma forma épica, embora ainda com aqueles vocais limpos lindamente cantados. No entanto, há uma tendência de distorção no melhor estilo industrial e de amostragem que adiciona uma ‘crise’ perturbadora para esta faixa. E muitas vezes percebe-se que a utilização dos vocais ‘gritados’ – típicos do screamo – são uma inclusão para enfatizar as emoções.

Enquanto “I Am So Sorry, Goodbye”, como sugere o título, é uma canção extremamente triste e com as guitarras pingando melancolia; “My Father, Tall as Goliath” traz um trabalho com atmosferas e harmonias mais leves. “Consilience” provavelmente se encaixa no projeto de ser a ‘canção de exposição’, mostrando um pouco de tudo que o álbum já teve, mas fazendo isto de maneiras novas, menos abruptas e interessantes.

Nota 9

Por Giovanni Cabral, do Trajeto Alternativo



26 de mar de 2015

Finsterforst - Mach dich frei (2015)

Ouvi certa vez, não lembro ao certo onde: quando o heavy metal é lindo, ele é lindo mesmo. Mesmo não recordando a origem da frase, aplico-a com certeza absoluta em Mach dich frei, quarto álbum da banda alemã Finsterforst. Sucessor de Rastlos (2012), o disco foi lançado em 23 de janeiro passado pela Napalm Records (aqui vai uma dica: essa gravadora invariavelmente coloca ótimos trabalhos no mercado, vale uma checada no catálogo do selo) e merece os elogios rasgados que vem recebendo mundo afora.

Vamos a eles: o Metal Storm deu um 8.1 para o disco, classificando o álbum como o encontro da temática pagã com elementos mais modernos. O Metal Underground deu quatro estrelas e afirmou que o trabalho traz uma atmosfera florestal para o ouvinte. Já o exigente - e por isso mesmo, excelente - Angry Metal Guy classificou o álbum como excelente musicalmente, mas fez críticas à produção do material (particularmente, essa questão apontada por eles não me pareceu tão evidente).

São apenas 8 faixas, sendo que duas delas são introduções e outras duas - “Schicksals End” e a canção baseada com o nome da banda - levam o ouvinte por jornadas superiores a 14 e 23 minutos, respectivamente. Porém, quando estas faixas de longa duração parecem mais curtas aos ouvidos e não soam repetitivas e com trechos desnecessários, percebe-se que a proposta da banda foi atingida com perfeição. 

O que temos aqui é um álbum de viking metal, com melodias cuspidas ao lado de orquestrações, vocais guturais e coros épicos. Ou seja, uma mistura que já se mostrou eficiente em diversos outros momentos, e que reafirma a sua força. Agradável e muito bem executado e composto, Mach dich frei é um álbum de uma beleza fria e congelante, cuja audição convida ao confronto direto, preferencialmente ostentando sua pintura de guerra favorita e sua espada de estimação.

Cheio de detalhes, mudanças de andamento e sonoridades de inegável bom gosto, este quarto trabalho do Finsterforst tem tudo para cativar não apenas os apreciadores do metal com temática viking, mas toda e qualquer pessoa que curte música pesada.

Audição recomendada!

Nota 8,5




25 de mar de 2015

Solefald - World Metal: Kosmopolis Sud (2015)

Quando o heavy metal vai ao encontro de sonoridades distantes de seu universo, o resultado costuma variar entre dois extremos: o desastre completo ou o nascimento de uma música inspirada e de inegável qualidade. Felizmente, o caso da banda norueguesa Solefald se enquadra no segundo grupo.

Nascida na cidade de Kristiansand em 1995 e formada pela dupla Cornelius Von Jakhelln Brastad (vocal, guitarra e baixo) e Lars Nedland (vocal, teclado e bateria), o Solefald sempre caminhou pelos lados do metal avant-garde, com experimentações e inovações constantes em seus sete discos anteriores. World Metal: Kosmopolis Sud, oitavo trabalho do duo, foi lançado no início de fevereiro e é um dos álbuns mais inovadores em que coloquei meus ouvidos nos últimos anos. Tendo como ponto de partida o black metal, Cornelius e Lars levam a sua música a caminhos distantes, inserindo as mais variadas infuências no processo.

Sem restrições, sem preconceitos e com muita criatividade, o Solefald entrega um álbum cuja sonoridade irrestrita soa às vezes metal, às vezes eletrônica, às vezes jazz, às vezes pop - mas sempre excelente, não importa o caminho seguido. Essa ausência de pudor é a principal qualidade do duo, que usa com inteligência as influências do passado na criação de uma música singular e cativante.

Iniciando com uma melodia de piano que remete ao jazz, o álbum logo despeja uma quantidade massiva de peso sobre o ouvinte, acompanhada de sinuosas inserções das mais variadas influências, esculpindo um som plural e inovador. Há reminiscências de nomes como Kraftwerk, Herbie Hancock, a cena dance music do final da década de 1990 e início dos anos 2000, Rammstein e outros, além do já mencionado background black metal.

Tudo isso faz de World Metal: Kosmopolis Sud um disco apaixonante, daqueles que mostram que tudo é possível e permitido na música quando a criatividade é forte e a inovação marca presença. 

Se você gosta de música, eis aqui um disco que irá agradar em cheio os seus ouvidos.

Nota 9




Checklist #014: que animal de estimação combina com o rock?

O Faith No More estampa a nova capa da Revolver acompanhado de seus gatinhos. Inspirados na imagem, perguntamos: quais animais de estimação combinam com o rock e o metal?

E tem também o retorno do Blur na NME, Brian Wilson na Classic Rock holandesa, Van Morrison na Uncut e muito mais.







23 de mar de 2015

Steven Wilson - Hand. Cannot. Erase. (2015)



Há dois anos, escrevi que Steven Wilson era um sujeito incansável. E nesse meio tempo, continuando com o seu trabalho de dar um novo tratamento aos clássicos do rock progressivo em meio à uma de suas mais bem sucedidas turnês, pouca coisa mudou.

The Raven That Refused To Sing se tornou uma das obras mais importantes de sua carreira, no mesmo patamar do que a discografia do Porcupine Tree. O que torna Hand. Cannot. Erase. um trabalho ainda mais interessante: a megalomania da amálgama de jazz e rock progressivo setentista, principais condutores do álbum anterior, abrem espaço para uma sonoridade mais moderna, menos complexa, porém focada na criação de uma atmosfera pesada, condizente com seu conceito: baseado no caso real de Joyce Carol Vincent, que permaneceu desaparecida por três anos e ninguém sentiu sua falta, nem mesmo família e amigos. Wilson escreve uma história sob o ponto de vista da própria, a sua vida desde o início, suas experiências, seu isolamento e como tudo se encerrou, em uma impactante reflexão sobre a humanidade nos dias de hoje. 


As camadas de ruídos, programações e notas dispersas se acumulam gradativamente no nascimento em “First Regret”, a representação de uma vida que surge e cresce para “3 Years Older”. Ainda com reminiscências do jazz do passado, ela se inicia com reverência ao Rush, até ser bruscamente interrompida pela simplicidade de arranjos acústicos combinados com piano, de inevitável semelhança ao Porcupine Tree quando este se aproximava mais de suas influências tranquilas e eletrônicas. A violência com que o instrumental se desenvolve proporciona o início de uma imersão em lembranças que já ilustram de forma clara o tom do álbum.


A repetição à exaustão de uma mesma melodia, sobre loops eternos de dedilhados e percussões robóticas fazem de “Hand Cannot Erase” uma sucessão de sutis mudanças, a atmosfera criada apresentando resquícios do Anathema recente em um ensaio sobre como estamos cada vez mais solitários (ou talvez mais egoístas), o tema de ligação entre todas as faixas. Isso se torna ainda mais evidente na nostálgica narração de “Perfect Life”, o meio termo entre o belo e o brutal capaz de transportar e fazer imaginar cada verso, um sentimento carregado pelo ritmo marcial sob a incessante lembrança de uma época melhor, que jamais abandona.


A sempre presente considerável dose da ironia inglesa aparece em “Routine”, com a combinação das vozes de Wilson e da cantora israelense Ninet Tayeb presas ao seu cotidiano, ao processo que subtrai cada vez mais o inesperável da vida. Há a sensação de saber que tem algo de errado na situação, mas ao mesmo tempo há o desespero de não saber como seria diferente. A alternância entre a tranquilidade conduzida pelo piano, uma seção que remete diretamente ao experimental mais soturno e assustador (um fantasma do Storm Corrosion, talvez), e o desenvolvimento que atinge o seu clímax e sua queda em forma de total desespero (novamente lembrando Anathema, principalmente quando Lee Douglas toma a frente), soa extremamente real e perturbadora, um questionamento inevitável pelo qual todos passam.


Em uma sucessão que vai de um início dreamtheatesco e atravessa uma seção que mais lembra o Opeth em sua personificação mais rústica, “Home Invasion” é carregadíssima de efeitos sobre um ritmo funkeado, com aura de artificialidade extremamente coerente com o conceito lírico e a noção de como a tecnologia deixa tudo ao alcance e distancia ao mesmo tempo, uma crítica à futilidade quase no mesmo nível de Kingdom of Loss, do Pain of Salvation. O mergulho se torna ainda mais profundo na jornada proporcionada pelo instrumental “Regret #9” e sua atmosfera cibernética, a base para as interpretações do Moog de Adam Holzman e da guitarra de Guthrie Govan sobre as viagens ceifadoras de realidade pelo mundo virtual.


Mais um devaneio de memórias até então perdidas, mas que representam profundas marcas no inconsciente, “Transience” é praticamente um interlúdio acústico belíssimo, como um curto conto de terror envolto por um espírito envelhecido, perigosamente próximo ao indie rock. Esse clima sombrio permanece em “Ancestral”, um dos momentos mais melancólicos e contemplativos, com algo de drone, industrial e shoegaze em pequenos detalhes se enveredando através do progressivo que se desenvolve através de muitas faces, de referências italianas e canterburianas que soam como uma torrente de pensamentos e paranoias dispersas e incontroláveis de uma mente problemática. 


“Happy Returns” e “Ascendant Here On…” encerram a obra deixando a impressão de um final feliz. Mas basta uma leitura um pouco mais cuidadosa nas entrelinhas, que é possível encontrar um desfecho antagônico e de profunda tristeza, uma carta sobre uma vida vazia deixada em aberto e extremamente impactante (principalmente em seu último verso). 


São infinitas camadas de som e instrumentos diversos, dos mais tradicionais aos mais artificiais, utilizados por um conjunto de músicos não apenas indiscutíveis em questões técnicas e de execução, mas que seguem a risca o roteiro de criar a base musical para o conceito em Hand. Cannot. Erase.. Mesmo não sendo o mais complexo trabalho de Steven Wilson (incluindo a época de Porcupine Tree), é notável como mesmo após décadas o inglês permanece aderindo a novos elementos, arriscando com influências inesperadas e desenvolvendo a sua habilidade lírica e de contar histórias. 


A dramaticidade e as metáforas aqui superam mesmo as letras de The Incident ou dos contos narrados em The Raven That Refused To Sing, talvez pela combinação muito mais natural com o instrumental. Os versos constroem uma peça reflexiva, mas ao mesmo tempo carregada de críticas sociais (em especial às gerações mais recentes – na qual eu mesmo estou incluído) que de alguma forma se adaptam a realidade de todos, com cada faixa parece representar um momento na vida da personagem - o que explica como cada faixa tem sua própria identidade.


Em 2015, Steven Wilson continua incansável. Em sua jornada pelo rock progressivo, tentando agregar diferentes itens (ainda que já utilizados esparsamente ao longo da história por outras bandas), empurrar o estilo para o cenário contemporâneo e mantê-lo interessante sem se libertar das amarras de suas raízes. Talvez nem todos encarem essa ideia com bons ouvidos, principalmente pelo esbarro no pop e no indie, pela influência que ele invariavelmente acaba tendo ao produzir outros grupos (Anathema e Opeth parecem já estar em seu DNA), ou talvez aleguem que não há aqui nada além de juntar tudo o que já foi feito antes. Mas há de se admitir que poucas artistas do estilo permanecem relevantes hoje em dia, e ainda com importantes mensagens a passar como ele.


Afinal de contas, não importa onde você esteja ouvindo o álbum. Pode ser em casa, no trabalho, no ônibus ou no metrô, no carro ou caminhando pela rua, na mais tumultuada cidade ou em uma esquecida estrada do interior. Olhe ao seu redor. 


Você já chegou a se perguntar quem realmente sentiria a sua falta se você simplesmente desaparecesse hoje?


Nota 9



Por Rodrigo Carvalho


20 de mar de 2015

Debate Collectors Room: o que deve ser levado em conta na hora de analisar um disco?

Vamos dividir uma questão que sempre entra em pauta quando analisamos um disco, quando escrevemos um review: o que devemos levar em conta na hora de elaborar uma resenha? A criatividade? A inovação? Os novos caminhos propostos pelo artista? A releitura de elementos do passado com precisão?

Não acho que exista uma fórmula para escrever um review. Comigo, funciona assim: vou ouvindo o álbum e, com o passar das audições, vou criando raciocínios e chegando a conclusões. Depois disso, sento na frente do computador e coloco tudo na tela e, em seguida, no site. Não sei dizer o que pesa mais na minha avaliação. Tenho as minhas preferências pessoais, gosto de bandas que fogem do óbvio, não curto muito quem só recicla o passado, mas tento equilibrar as coisas.

Você não precisa ser um crítico musical para responder a pergunta, para participar deste debate. Basta contar pra gente como você chega à conclusão de que um disco é bom ou ruim, o que faz você gostar ou não de um trabalho. Tem um lance subjetivo no meio, todos sabem disso, mas vai ser interessante trocar ideias sobre o assunto.


Vamos lá, mãos à obra!