27 de set de 2016

Metal cristão: a história do white metal e uma lista com os melhores discos do gênero

terça-feira, setembro 27, 2016

Poucos gêneros da música contemporânea são tão abrangentes quanto o heavy metal. É de fácil percepção que o gênero abarca diversas categorias em seu escopo. Musicalmente falando, peso, melodia, influências folclóricas, eruditas e sinfônicas costumam ser absorvidas pelo metal com maestria, sendo, costumeiramente, parâmetro para a divisão do estilo em subgêneros. Podemos observar que o metal pouco faz discriminação com as mais diversas influências utilizadas pelas bandas pertencentes a cada um desses gêneros. 

O tema do presente artigo, por sua vez, escapa simultaneamente às duas "regras" supracitadas. Em primeiro lugar, sua separação dentro do heavy metal é dado perla temática de suas letras, e não por variação musical. E, em segundo, este subgênero é um dos mais marginalizados e controversos dentro do próprio metal. Estamos falando do metal cristão, também chamado de white metal.

UM SUBGÊNERO?

Inicialmente, faz-se necessário expor que o white metal, definitivamente, não segue a lógica de subdivisão do metal. Sua temática lírica, no entanto, tem agregado as bandas que tratam da mesma de forma mais contundente do que outras, ao longo da história do gênero. O metal cristão reúne bandas de todos os subgêneros do heavy metal, tendo representantes até mesmo no black metal, campo comum de temas relacionados ao ocultismo, satanismo e anti-cristianismo. 

Apesar de, visivelmente, não pertencer ao mesmo campo estrutural dos subgêneros do metal, o white metal acabou assumindo um caráter identitário que partiu anteriormente como instrumento de marginalização e exclusão, mas funcionou como escudo e mecanismo condensador para as bandas do gênero. Em outros termos, o que era usado de maneira pejorativa acabou sendo admitido como imagem real de tais bandas.


A MÚSICA RELIGIOSA: UM BREVE HISTÓRICO

É fato que a música está presente desde os primórdios da humanidade e não há registro do que sejam as primeiras músicas. Atualmente, não se conhece nenhuma civilização ou agrupamento que não possua manifestações musicais próprias. Embora nem sempre seja produzida com esse objetivo, a música pode ser apontada como uma forma de arte, considerada por muitos como sua principal função. 

Como qualquer manifestação ou tribo urbana, os grupos religiosos também detém seus ritos próprios e adaptações de diversas manifestações artísticas para a expansão e divulgação de seus dogmas. A música é um dos principais instrumentos para tal exercício. Segundo Marius Schneider, historiador musical: ”A religião tem, na música, um dos principais métodos de divulgação de seus movimentos sacros, enquanto a música tem, na religião, um de seus principais métodos de propagação." Dessa forma, é possível perceber que a música desenvolve-se, também, na medida em que é utilizada pelos grupos religiosos.

Claramente, cada religião possui formas específicas de manifestações musicais, tais como a música sacra católica, o gospel das igrejas evangélicas, a música judaica, os tambores do candomblé ou outros cultos africanos, o canto do muezim no Islamismo, entre outras. 

Maior expressão religiosa do mundo, com cerca de 2 bilhões de adeptos, e a mais influente na composição ocidental - donde advém o heavy metal - o Cristianismo desempenhou papel fundamental na evolução musical, sendo, por isso, objeto de nosso interesse nesse estudo. Precisamos saber que a origem da música cristã é comumente relacionada aos salmos. Segundo J. Gonzáles Echegary: ”Salmos ou Tehilim é um livro do Tanakh (fazendo parte dos escritos ou Ketuvim) e da Bíblia Cristã, e constitui-se de 150 (ou 151 segundo a Igreja Ortodoxa) cânticos e poemas que são o coração do Antigo Testamento. É a grande síntese que reúne todos os temas e estilos dessa parte da Bíblia, utilizados pelo antigo Israel como hinário no Templo de Jerusalém, e hoje são utilizados como orações ou louvores no Judaísmo, Cristianismo e também no Islamismo."

É óbvio que existem diversas outras manifestações religiosas também dentro do metal, possíveis objetos de estudo no futuro.


O METAL CRISTÃO E SUA EVOLUÇÃO

Como qualquer expressão da música cristã, o heavy metal cristão começa a desenvolver-se junto do próprio estilo. O título de primeiras bandas de white metal é creditado normalmente a Resurrection Band, Messiah Prophet e Jerusalem. Mas a primeira grande banda de metal cristão, decididamente, foi o Stryper, o primeiro grupo do gênero a receber um disco de platina. No início dos anos 1990, o Mortification ganhou destaque por se tornar a primeira banda de death metal com temática cristã.

Bandas mais extremas também começaram a se interessar pela temática. Pouco depois, a banda Living Sacrifice estava tocando um thrash/death cristão, O Paramaecium se tornou uma das maiores bandas de doom metal cristãs e influenciaria mais tarde bandas também cristãs como  o Pantokrator. Dentro do mais polêmico, pesado e fechado subgênero da música pesada, o black metal, algumas bandas também passaram a adotar o cristianismo como temática de suas letras, assumindo o duro desafio contra a postura fechada do meio. 

O Horde é considerada a primeira banda de black cristã, e o lançamento de Hellig Usvart em 1994 - que significa Sacro unBlack - gerou reações muito negativas entre a maior parte dos fãs e bandas de black metal. Unblack metal passou a ser usado algumas vezes usado por cristãos para se referir ao black metal cristão, para se livrar da conotação negativa do termo black metal. A ideia de "unblack" ou "não-preto" foi lentamente sendo substituída pelo termo white metal. Os noruegueses do Antestor também enfrentaram a duras penas o preconceito dentro do cenário, adquirindo, posteriormente, certa fama e lançando álbuns muito bem recebidos pela crítica. 


Contemporaneamente, o metal cristão conseguiu derrubar certas barreiras e passou a ser veiculado juntamente às bandas de cunho secular num único mercado, frequentando festivais e realizando turnês ao lado de grandes bandas tradicionais do heavy metal. Muito dessa aceitação se deve a incorporação da temática no meio da explosão do power metal nos anos 1990, e deve ser creditada, especialmente, à figura do vocalista Rob Rock. Inicialmente, Rob fez fama como vocal e guitarrista virtuoso da banda de Chris Impellitteri. Durante os anos 1980 e 1990 ele concentrou-se em seu trabalho solo, lançando o ótimo álbum Rage of Creation, e também fez parte dos vocais da banda Warrior. 

Muitas bandas de metalcore, um estilo já bastante marginalizado dentro do heavy metal, também fundamentaram suas bases líricas no Cristianismo, tais quais Zao, As I Lay Dying, The Devil Wears Prada, Still Remains e Demon Hunter. O crescimento da popularidade do metalcore, durante a primeira metade dos anos 2000 se deve muito à força da música cristã nos Estados Unidos.

No Brasil, o metal cristão segue discreto, mas possui alguns nomes de peso considerável. Os pioneiros do estilo no país são os evangélicos do Stauros, banda prog de Santa Catarina. Mas o maior nome do gênero no Brasil até hoje são os católicos do Eterna, banda paulista muito premiada especialmente com o disco Epiphany - mais tarde dissolvida no que seria o atual Ceremonya. Uma banda atual, ainda tentando espaço e que merece destaque, é o Destra. Apesar de ser o maior nome da música religiosa brasileira, há controvérsias sobre a inclusão do Oficina G3, musicalmente, dentro do heavy metal.

Seventh Avenue, Theocracy, Narnia, Audiovision e Divinefire são as mais proeminentes bandas de power metal cristão. Existem muitas outras notáveis bandas, incluindo Ultimatum, Becoming the Archetype, Temple of Blood, Aletheian, Crimson Thorn, Dynasty, Harmony, Saviour Machine, Majestic Vanguard, Soul Embraced, Visionaire, Ikarian, Sympathy, Virgin Black, Century Sleeper, Disciple, Veni Domine, entre outras.


ACEITAR, INCORPORAR, REJEITAR?

O metal é, até hoje, um dos gêneros musicais mais marginalizados e discriminados do mundo. É comum presenciarmos interpretações ignorantes e preconceituosas sobre o estilo e seus ouvintes. O ouvinte de heavy metal, o fã do gênero, é, por sua vez, aquele que mais faz juras de pertencimento e irmandade entre aqueles que adoram o estilo.

É por tais motivos que parece inconcebível que o fã de heavy metal metal, que conhece o preconceito e a marginalidade midiática tão bem, pregue o mesmo preconceito para com os seus companheiros dentro do próprio gênero. O heavy metal derivou do rock clássico, absorvendo influências diversas, entre elas da música negra e gospel americanas. Grandes ídolos do gênero tem forte vínculo religioso, como é o caso de Dave Mustaine, Tom Araya e Alice Cooper. Por tais motivos, o Cristianismo deveria ser aceito como tema tão facilmente como qualquer outra temática ou mitologia.

O adepto do metal cristão encontra-se comumente à margem e sem força de pertencimento dos dois grupos. Por ser um ouvinte de um estilo usualmente relacionado ao ocultismo e paganismo, muitas bandas e fãs enfrentaram forte rejeição dentro dos grupos religiosos. Ao mesmo tempo, por se utilizarem de uma temática não tradicional, vista por muitos como anti-ética aos preceitos do heavy metal, foram escanteados e ridicularizados pelos headbangers.

À parte do enquadramento filosófico das bandas, o claro é que tais grupos são os responsáveis por grandes álbuns da história do heavy metal, e devem ser levados em consideração pela sua grande contribuição na propagação do gênero.

GRANDES ÁLBUMS

A seguir, apresentamos uma lista com os álbuns essenciais do metal cristão ou white metal. Seguimos critérios pessoais de preferência e os álbuns não se encontram essencialmente em ordem de importância, mas sim em ordem alfabética:

Antestor - Omen (2012)
Eterna - Epiphany (2004)
Horde - Hellig Usvart (1994)
Jerusalem - Dancing on the Head of the Serpent (1987)
Mortification - Scrols of the Megilloth (1992)
Narnia - Long Live the King (1999)
Rob Rock - Eyes of Eternity (2003)
Stryper - To Hell With the Devil (1986)
Veni Domine - Fall Babylon Fall (1991)
Virgin Black - Requiem Mezzo Forte (2007)

E quanto a vocês, amigos? O que acham do metal cristão? Que algum álbum deveria constar na lista? Comentem, debatam.



Triumph encontra o Rush: Rik Emmett lança música com participação de Alex Lifeson

terça-feira, setembro 27, 2016

Rik Emmett, que fez história no Triumph, está de banda nova. A Resolution9 traz o vocalista e guitarrista ao lado de Dave Dunlop (guitarra), Steve Skingley (baixo e teclado) e Paul DeLong (bateria).

O primeiro disco, intitulado RES9 e creditado a Rik Emmett & Resolution9, traz participações especiais de nomes como Ales Lifeson (Rush) e James LaBrie (Dream Theater). O álbum será lançado dia 11/11 pela Mascot Label Group.

Pra dar um gostinho do que vem por aí, o primeiro single do projeto, “Human Race”, ganhou um lyric video. A faixa conta com a participação do conterrâneo Alex Lifeson.

Ouça abaixo:

Mais de 200 bateristas tocam clássicos do rock em Florianópolis

terça-feira, setembro 27, 2016

Pelo quarto ano consecutivo, aconteceu em Florianópolis o encontro da Orquestra de Baterias da cidade. O evento rolou domingo, dia 25 de setembro, em frente à tradicional Praça XV, no cento de Floripa.

Mais de 200 bateristas de 2 a 68 anos tocaram clássicos do rock e da música local, em uma festa emocionante e de puro amor à música.

Abaixo estão alguns vídeos pra você sentir como foi a quarta edição da Orquestra de Baterias de Florianópolis:

Iron Maiden lança máscaras de Eddie para você apavorar no Helloween

terça-feira, setembro 27, 2016

O Iron Maiden desenvolveu junto com o Trick or Treat Studios, empresa especializada na confecção de máscaras de ícones pop, cinco modelos especiais em comemoração ao Helloween deste ano.

Você poderá apavorar no dia 31 de outubro usando máscaras do Eddie alusivas a cinco álbuns específicos da banda inglesa: a estreia, Killers, Piece of Mind, Powerslave e The Book of Souls. Com exceção das peças inspiradas nos dois primeiros discos, que pessoalmente achei meio trash, as restantes parecem ser animais.

Para mais informações ou adquirir a sua, acesse o site do Trick or Treat.



Morphine: a trágica história de uma das mais inovadoras bandas da década de 1990

terça-feira, setembro 27, 2016

Formar uma banda de rock and roll sem a presença sonora da tão amada guitarra parece algo impensável. Formar uma banda de rock, no auge da era grunge na primeira metade da década de 1990, sem a presença da guitarra, seria ainda mais inimaginável. Não para a mente genial e criativa de Mark Sandman.

O grupo formado por Sandman era composto por apenas um contrabaixo, um saxofone e um kit simplificado de bateria. A voz de barítono de Sandman, reproduzindo a beleza das notas graves, completa a sonoridade. E o resultado, acreditem, é fabuloso.

O brilhantismo do seu criador e a formação pouco usual fez do Morphine aquele tipo de banda rara, hoje extinta que, com pitadas de blues, jazz, funk e muita poesia. O trio apresentou ao mundo um rock and roll único, cheio de sensações, provavelmente nunca ouvido antes e que provavelmente nunca se escutará novamente.

A simbiose dos integrantes era perfeita. O sax de Dana Colley, ao invés dos comuns solos de sopro, produzia riffs de peso. Sim, isso mesmo, riffs saxofônicos, que fluíam harmonicamente com o timbre da poderosa voz de Sandman. O baterista Billy Conway tinha a sensibilidade exata e a competência necessária para dar sustento ao espetáculo. 

Seja com a empolgante “Honey White”, a melancólica e introspectiva “Souvenir”, a badalada “Buena” ou a embriagada “Super Sex”, o Morphine presenteou o ouvinte com pérolas texturizadas, causando sensações diversas durante a audição.   


Originários de Cambridge, em Massachusetts, o Morphine lançou seu primeiro long play, Good, em setembro de 1992 e teve uma boa receptividade do público e da crítica. Cure for Pain, que chegou às prateleiras um ano depois (em setembro de 1993), atingiu o sucesso comercial e Yes (lançado em março de 1995) consagrou a popularidade do grupo. 

A banda manteve-se praticamente independente até 1997, quando assinou com a DreamWorks Records e entregou o quarto LP, Like Swimming, em março daquela ano. Completa a discografia do grupo a excelente obra The Night, gravada em 1999 e lançada somente em fevereiro de 2000. 

Mark Sandman, tristemente, teve um colapso enquanto se apresentava num show na Itália no dia 3 de julho de 1999 e faleceu. A história detalhada do Morphine pode ser vista no ótimo documentário Journey of Dreams, lançado em 2014.   

O legado artístico deixado pelo grupo supera qualquer expectativa e vale muito a audição. 

Podem se dopar de Morphine. Essa é da boa e faz bem. 

Por Ian Pablo Gomes

26 de set de 2016

O que é solitude e o que é solidão? Steven Wilson foi atrás da resposta

segunda-feira, setembro 26, 2016

Se você simplesmente resolvesse sumir do mapa, pegasse suas coisas e partisse sem destino. Ninguém seria avisado e ninguém te veria saindo. Você sairia sem celular, rede social, ou qualquer outra forma de contato.

Quanto tempo levaria para sentirem sua falta? Será que rapidamente estariam te procurando? Questão de horas? Dias? Ou semanas? Quem perceberia primeiro? Um parente? Amigos? Seu chefe?

E se você sumisse e jamais sentissem sua falta? E se ninguém te procurasse?



JOYCE CAROL VINCENT

Parece loucura imaginar isso, né? E parece ainda mais insano quando se cogita a possibilidade de não irem atrás de você. Pois bem. Vou te contar a história da Joyce.

Tudo começa em um flat localizado em um distrito londrino chamado Wood Green. A polícia recebeu uma ordem judicial de invadir esse flat, pois o aluguel dele estava atrasado e a dívida já era bastante alta. A ordem era entrar lá e despejar o proprietário.

Após baterem insistentemente na porta, sem respostas, a solução foi arrombar. Havia alguém lá dentro, dava para ouvir o barulho da TV.

Quando entraram, a surpresa. De fato, a TV estava ligada. E no sofá, havia apenas um esqueleto “assistindo” à TV. Do lado do esqueleto, uma sacola com presentes de Natal, que nunca foram entregues.

Esse esqueleto era Joyce Carol Vincent. Ela morreu enquanto assistia TV no seu apartamento. A causa da morte é indeterminada, já que foi impossível fazer uma autópsia, mas especula-se que tenha sido uma crise de asma.

O mais assustador de tudo é que Joyce já estava morta há quase 3 anos! Isso mesmo. Por quase 3 anos ela não fez contato com absolutamente ninguém, e mesmo assim ninguém foi procurá-la.


DOCUMENTÁRIO DREAMS OF A LIFE

Comovida com a história de Joyce, a cineasta Carol Morley resolveu fazer um documentário sobre a garota. De acordo com a cineasta, a vida de uma pessoa não poderia acabar do jeito que acabou. Joyce precisava ser lembrada.

Daí surge o documentário Dreams of a Life. Nele é mostrada a vida reclusa de Joyce. Poucos amigos próximos e praticamente nenhum contato com a família. Em contrapartida, os presentes de Natal encontrados ao seu lado mostram que ela estava longe de ser um monge.

Mas o mais interessante é que quando eram entrevistados, seus amigos não acreditavam que ela havia morrido, e duvidavam que já havia se passado tanto tempo sem notícias dela. Outros acreditavam que Joyce simplesmente tivesse se mudado, ou então arranjado algo melhor para sua vida, e por isso tinha cortado os laços com o passado.


A RELAÇÃO COM STEVEN WILSON

Bem, não contei toda essa história só para te deixar pensando no significado da vida. Contei pois foi após assistir ao documentário Dreams of a Life que Steven Wilson teve a inspiração para escrever o álbum Hand. Cannot. Erase., lançado em 2015.

Steven Wilson é um nome bastante consolidado na cena prog. Ele é conhecido por seus trabalhos como produtor para algumas grandes bandas como Marillion e Opeth. Além disso, é o vocalista, guitarrista, tecladista e mais um monte de coisa do Porcupine Tree. No entanto, sua carreira solo vem ganhando cada vez mais destaque. Esse é seu quarto álbum, e todos mantém um nível impressionante.

Hand. Cannot. Erase. é um álbum conceitual, inspirado na história de Joyce. Note que inspirado não é baseado. A história que ele conta é diferente, apesar das semelhanças.

Há um livro que acompanha a versão deluxe do álbum. Nele fica claro que a personagem central do álbum é H. (uma versão ficcional de Joyce), nascida em 1978. Filha de uma mãe italiana, H. morre (ou desaparece) em 2014. H. possui uma irmã chamada J., que foi adotada por seus pais um pouco antes do divórcio deles, e um irmão distante. Os presentes de Natal encontrados com Joyce são retratados no álbum como um presente que H. daria para seu irmão distante.

Você pode conferir parte dessa trama criada por Steven Wilson em um blog que ele criou (clique aqui para conferir). Esse blog é um registro da personagem principal e funciona como um diário. Nele são mostradas algumas etapas da vida de H. e suas reflexões.


EXPERIMENTAÇÃO E ELEMENTOS CLÁSSICOS

Musicalmente falando, Hand. Cannot. Erase. é construído de uma maneira no mínimo intrigante. O álbum é recheado de loops, e enquanto possui estruturas extremamente simples em certos momentos, a virtuose e complexidade come solta em outros.

Além da mistura do simples e do complexo, Steven mistura elementos clássicos do rock progressivo com elementos mais modernos, que fizeram muitos fãs mais conservadores torcerem o nariz. Como exemplo desses elementos posso citar a forte influência eletrônica, presente em faixas como "Hand Cannot Erase" e "Perfect Life". Aliás, essa segunda possui grandes trechos em que não é cantada, e sim narrada. Por fim, o flerte com o metal em "Home Invasion" deve ter dado úlcera em muitos proggers conservadores.

Eu vejo toda essa ousadia como algo muito positivo. Os elementos clássicos do progressivo já foram explorados à exaustão, e novidades no gênero são sempre muito bem vindas.


MELANCOLIA E EXAGEROS

Uma interpretação muito comum dos ouvintes de Hand. Cannot. Erase. é a de que o álbum aborda como tema principal a solidão. Até porque a história de Joyce leva a entender esse contexto. Pode ser isso mesmo, mas eu interpreto de forma diferente. É muito mais sobre solitude do que solidão.

Parece a mesma coisa, mas não é. Solitude está muito mais relacionada a uma decisão voluntária e não necessariamente acarreta em solidão e/ou sofrimento.

Solitude ou solidão, uma coisa é certa: Hand. Cannot. Erase. é sentimental, íntimo e melancólico. Aqui vai outro ponto para Steven. Ele consegue criar esse ambiente sem soar exageradamente dramático ou emocional. Ao mesmo tempo em que há um tom reflexivo, há certa frieza.

O exagero acontece na parte instrumental. Já comentei outras vezes: é comum os proggers se perderem na própria virtuosidade. Infelizmente isso acontece nesse disco. Não é dominante, só que acontece. Dessa forma, muitas vezes eu me desconcentrava enquanto ouvia Hand. Cannot. Erase., pois alguns trechos ficavam tão maçantes que facilmente minha atenção se voltava para qualquer outra coisa que não fosse a música. E é logo no começo que temos um grande exemplo dessa situação.


FAIXA POR FAIXA

O disco começa para valer na segunda faixa, após uma música introdutória e instrumental. De maneira delicada, "3 Years Older" levanta memórias da infância da personagem, fazendo algumas misturas com memórias mais recentes. Entre elas o desejo de estar sozinha: “Você encontra uma vida mais simples quando não tem ninguém para compartilhar”. Tudo vai bem até o sétimo minuto. Depois a música persiste em um loop de virtuose que nada acrescenta. São três minutos de firula, e aí sua concentração já foi para o espaço.

Voltando à Terra após um instrumental pé no saco, Steven Wilson apresenta a faixa-título. Há a já mencionada presença de influências eletrônicas e uma levada mais simples. Repare que novamente é citado o desejo de estar só: “Se sentindo culpada por às vezes querer estar sozinha”. Por isso digo e repito: o álbum é muito mais sobre solitude do que solidão!

A boa sequência é mantida com "Perfect Life". É nesse momento que somos apresentados à voz de Katherine Jenkins narrando a relação de H. e J. (sua irmã adotiva).

"Routine" talvez seja um dos momentos mais melancólicos e marcantes de Hand. Cannot. Erase. A música conta a história de uma mãe cuja filha e marido morreram (sim, ela escapa um pouco da história do álbum). "Routine" fala da incapacidade dessa mãe lidar com suas perdas, e como resultado ela mantém sua rotina pré-luto, porque ser mãe era seu único propósito. Durante o refrão quem assume os vocais é a excelente cantora israelense Ninet Tayeb, e é difícil não se emocionar enquanto ela canta “A rotina me mantém na linha / Me ajuda a passar o tempo / Concentrar minha mente / Me ajuda a dormir”.

O quase metal de "Home Invasion" é cortado pela ponte instrumental "Regret #9". E é em "Transience" que temos um retorno ao passado. Dessa vez a infância é lembrada com um misto de saudades e amargura.

Lembrando muito o que era feito nos primeiros álbuns de King Crimson, vem o momento menos inspirado e original do disco. "Ancestral" é quase infinita. Seus 14 minutos viram horas e a música evolui sem propósito. Ok Steven, você tem crédito.

A finalização é em grande estilo. "Happy Returns" é minha música favorita. É nessa faixa que a personagem principal está conversando com seu irmão distante (na verdade ela fala com ela mesma, como se estivesse falando com ele). Então, são mencionados detalhes como os presentes de Natal que nunca foram dados, e uma alta dose de sinceridade quando ela explica os motivos de não vê-lo há tanto tempo (“Eu adoraria dizer que estava ocupada/  Mas isso seria uma mentira / A verdade é que os anos passam como trens/  Eu tento mas eles não freiam”).

Tudo se acaba em "Ascendant Here On … ”. Um clima meio fúnebre com vozes de criança ao fundo. É a clara representação do fim de H. e de sua história.


QUE SEJA

Se for sobre solitude, se for sobre solidão ... que seja. Isso pouco importa. O ponto aqui é a impressionante habilidade de Steven Wilson em causar grande desconforto e uma reflexão sobre como estão aquelas pessoas que você não vê faz tempo, e o porquê de não vê-las com maior frequência.

Pelo contrário, o que vou falar pode parecer clichê, mas quanto mais conectados estamos, mais isolados estamos.

“Another day of life has passed me by; but I have lost all faith in what's outside.”


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