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26 de mar de 2015

Finsterforst - Mach dich frei (2015)

Ouvi certa vez, não lembro ao certo onde: quando o heavy metal é lindo, ele é lindo mesmo. Mesmo não recordando a origem da frase, aplico-a com certeza absoluta em Mach dich frei, quarto álbum da banda alemã Finsterforst. Sucessor de Rastlos (2012), o disco foi lançado em 23 de janeiro passado pela Napalm Records (aqui vai uma dica: essa gravadora invariavelmente coloca ótimos trabalhos no mercado, vale uma checada no catálogo do selo) e merece os elogios rasgados que vem recebendo mundo afora.

Vamos a eles: o Metal Storm deu um 8.1 para o disco, classificando o álbum como o encontro da temática pagã com elementos mais modernos. O Metal Underground deu quatro estrelas e afirmou que o trabalho traz uma atmosfera florestal para o ouvinte. Já o exigente - e por isso mesmo, excelente - Angry Metal Guy classificou o álbum como excelente musicalmente, mas fez críticas à produção do material (particularmente, essa questão apontada por eles não me pareceu tão evidente).

São apenas 8 faixas, sendo que duas delas são introduções e outras duas - “Schicksals End” e a canção baseada com o nome da banda - levam o ouvinte por jornadas superiores a 14 e 23 minutos, respectivamente. Porém, quando estas faixas de longa duração parecem mais curtas aos ouvidos e não soam repetitivas e com trechos desnecessários, percebe-se que a proposta da banda foi atingida com perfeição. 

O que temos aqui é um álbum de viking metal, com melodias cuspidas ao lado de orquestrações, vocais guturais e coros épicos. Ou seja, uma mistura que já se mostrou eficiente em diversos outros momentos, e que reafirma a sua força. Agradável e muito bem executado e composto, Mach dich frei é um álbum de uma beleza fria e congelante, cuja audição convida ao confronto direto, preferencialmente ostentando sua pintura de guerra favorita e sua espada de estimação.

Cheio de detalhes, mudanças de andamento e sonoridades de inegável bom gosto, este quarto trabalho do Finsterforst tem tudo para cativar não apenas os apreciadores do metal com temática viking, mas toda e qualquer pessoa que curte música pesada.

Audição recomendada!

Nota 8,5




25 de mar de 2015

Solefald - World Metal: Kosmopolis Sud (2015)

Quando o heavy metal vai ao encontro de sonoridades distantes de seu universo, o resultado costuma variar entre dois extremos: o desastre completo ou o nascimento de uma música inspirada e de inegável qualidade. Felizmente, o caso da banda norueguesa Solefald se enquadra no segundo grupo.

Nascida na cidade de Kristiansand em 1995 e formada pela dupla Cornelius Von Jakhelln Brastad (vocal, guitarra e baixo) e Lars Nedland (vocal, teclado e bateria), o Solefald sempre caminhou pelos lados do metal avant-garde, com experimentações e inovações constantes em seus sete discos anteriores. World Metal: Kosmopolis Sud, oitavo trabalho do duo, foi lançado no início de fevereiro e é um dos álbuns mais inovadores em que coloquei meus ouvidos nos últimos anos. Tendo como ponto de partida o black metal, Cornelius e Lars levam a sua música a caminhos distantes, inserindo as mais variadas infuências no processo.

Sem restrições, sem preconceitos e com muita criatividade, o Solefald entrega um álbum cuja sonoridade irrestrita soa às vezes metal, às vezes eletrônica, às vezes jazz, às vezes pop - mas sempre excelente, não importa o caminho seguido. Essa ausência de pudor é a principal qualidade do duo, que usa com inteligência as influências do passado na criação de uma música singular e cativante.

Iniciando com uma melodia de piano que remete ao jazz, o álbum logo despeja uma quantidade massiva de peso sobre o ouvinte, acompanhada de sinuosas inserções das mais variadas influências, esculpindo um som plural e inovador. Há reminiscências de nomes como Kraftwerk, Herbie Hancock, a cena dance music do final da década de 1990 e início dos anos 2000, Rammstein e outros, além do já mencionado background black metal.

Tudo isso faz de World Metal: Kosmopolis Sud um disco apaixonante, daqueles que mostram que tudo é possível e permitido na música quando a criatividade é forte e a inovação marca presença. 

Se você gosta de música, eis aqui um disco que irá agradar em cheio os seus ouvidos.

Nota 9




Checklist #014: que animal de estimação combina com o rock?

O Faith No More estampa a nova capa da Revolver acompanhado de seus gatinhos. Inspirados na imagem, perguntamos: quais animais de estimação combinam com o rock e o metal?

E tem também o retorno do Blur na NME, Brian Wilson na Classic Rock holandesa, Van Morrison na Uncut e muito mais.







23 de mar de 2015

Steven Wilson - Hand. Cannot. Erase. (2015)



Há dois anos, escrevi que Steven Wilson era um sujeito incansável. E nesse meio tempo, continuando com o seu trabalho de dar um novo tratamento aos clássicos do rock progressivo em meio à uma de suas mais bem sucedidas turnês, pouca coisa mudou.

The Raven That Refused To Sing se tornou uma das obras mais importantes de sua carreira, no mesmo patamar do que a discografia do Porcupine Tree. O que torna Hand. Cannot. Erase. um trabalho ainda mais interessante: a megalomania da amálgama de jazz e rock progressivo setentista, principais condutores do álbum anterior, abrem espaço para uma sonoridade mais moderna, menos complexa, porém focada na criação de uma atmosfera pesada, condizente com seu conceito: baseado no caso real de Joyce Carol Vincent, que permaneceu desaparecida por três anos e ninguém sentiu sua falta, nem mesmo família e amigos. Wilson escreve uma história sob o ponto de vista da própria, a sua vida desde o início, suas experiências, seu isolamento e como tudo se encerrou, em uma impactante reflexão sobre a humanidade nos dias de hoje. 


As camadas de ruídos, programações e notas dispersas se acumulam gradativamente no nascimento em “First Regret”, a representação de uma vida que surge e cresce para “3 Years Older”. Ainda com reminiscências do jazz do passado, ela se inicia com reverência ao Rush, até ser bruscamente interrompida pela simplicidade de arranjos acústicos combinados com piano, de inevitável semelhança ao Porcupine Tree quando este se aproximava mais de suas influências tranquilas e eletrônicas. A violência com que o instrumental se desenvolve proporciona o início de uma imersão em lembranças que já ilustram de forma clara o tom do álbum.


A repetição à exaustão de uma mesma melodia, sobre loops eternos de dedilhados e percussões robóticas fazem de “Hand Cannot Erase” uma sucessão de sutis mudanças, a atmosfera criada apresentando resquícios do Anathema recente em um ensaio sobre como estamos cada vez mais solitários (ou talvez mais egoístas), o tema de ligação entre todas as faixas. Isso se torna ainda mais evidente na nostálgica narração de “Perfect Life”, o meio termo entre o belo e o brutal capaz de transportar e fazer imaginar cada verso, um sentimento carregado pelo ritmo marcial sob a incessante lembrança de uma época melhor, que jamais abandona.


A sempre presente considerável dose da ironia inglesa aparece em “Routine”, com a combinação das vozes de Wilson e da cantora israelense Ninet Tayeb presas ao seu cotidiano, ao processo que subtrai cada vez mais o inesperável da vida. Há a sensação de saber que tem algo de errado na situação, mas ao mesmo tempo há o desespero de não saber como seria diferente. A alternância entre a tranquilidade conduzida pelo piano, uma seção que remete diretamente ao experimental mais soturno e assustador (um fantasma do Storm Corrosion, talvez), e o desenvolvimento que atinge o seu clímax e sua queda em forma de total desespero (novamente lembrando Anathema, principalmente quando Lee Douglas toma a frente), soa extremamente real e perturbadora, um questionamento inevitável pelo qual todos passam.


Em uma sucessão que vai de um início dreamtheatesco e atravessa uma seção que mais lembra o Opeth em sua personificação mais rústica, “Home Invasion” é carregadíssima de efeitos sobre um ritmo funkeado, com aura de artificialidade extremamente coerente com o conceito lírico e a noção de como a tecnologia deixa tudo ao alcance e distancia ao mesmo tempo, uma crítica à futilidade quase no mesmo nível de Kingdom of Loss, do Pain of Salvation. O mergulho se torna ainda mais profundo na jornada proporcionada pelo instrumental “Regret #9” e sua atmosfera cibernética, a base para as interpretações do Moog de Adam Holzman e da guitarra de Guthrie Govan sobre as viagens ceifadoras de realidade pelo mundo virtual.


Mais um devaneio de memórias até então perdidas, mas que representam profundas marcas no inconsciente, “Transience” é praticamente um interlúdio acústico belíssimo, como um curto conto de terror envolto por um espírito envelhecido, perigosamente próximo ao indie rock. Esse clima sombrio permanece em “Ancestral”, um dos momentos mais melancólicos e contemplativos, com algo de drone, industrial e shoegaze em pequenos detalhes se enveredando através do progressivo que se desenvolve através de muitas faces, de referências italianas e canterburianas que soam como uma torrente de pensamentos e paranoias dispersas e incontroláveis de uma mente problemática. 


“Happy Returns” e “Ascendant Here On…” encerram a obra deixando a impressão de um final feliz. Mas basta uma leitura um pouco mais cuidadosa nas entrelinhas, que é possível encontrar um desfecho antagônico e de profunda tristeza, uma carta sobre uma vida vazia deixada em aberto e extremamente impactante (principalmente em seu último verso). 


São infinitas camadas de som e instrumentos diversos, dos mais tradicionais aos mais artificiais, utilizados por um conjunto de músicos não apenas indiscutíveis em questões técnicas e de execução, mas que seguem a risca o roteiro de criar a base musical para o conceito em Hand. Cannot. Erase.. Mesmo não sendo o mais complexo trabalho de Steven Wilson (incluindo a época de Porcupine Tree), é notável como mesmo após décadas o inglês permanece aderindo a novos elementos, arriscando com influências inesperadas e desenvolvendo a sua habilidade lírica e de contar histórias. 


A dramaticidade e as metáforas aqui superam mesmo as letras de The Incident ou dos contos narrados em The Raven That Refused To Sing, talvez pela combinação muito mais natural com o instrumental. Os versos constroem uma peça reflexiva, mas ao mesmo tempo carregada de críticas sociais (em especial às gerações mais recentes – na qual eu mesmo estou incluído) que de alguma forma se adaptam a realidade de todos, com cada faixa parece representar um momento na vida da personagem - o que explica como cada faixa tem sua própria identidade.


Em 2015, Steven Wilson continua incansável. Em sua jornada pelo rock progressivo, tentando agregar diferentes itens (ainda que já utilizados esparsamente ao longo da história por outras bandas), empurrar o estilo para o cenário contemporâneo e mantê-lo interessante sem se libertar das amarras de suas raízes. Talvez nem todos encarem essa ideia com bons ouvidos, principalmente pelo esbarro no pop e no indie, pela influência que ele invariavelmente acaba tendo ao produzir outros grupos (Anathema e Opeth parecem já estar em seu DNA), ou talvez aleguem que não há aqui nada além de juntar tudo o que já foi feito antes. Mas há de se admitir que poucas artistas do estilo permanecem relevantes hoje em dia, e ainda com importantes mensagens a passar como ele.


Afinal de contas, não importa onde você esteja ouvindo o álbum. Pode ser em casa, no trabalho, no ônibus ou no metrô, no carro ou caminhando pela rua, na mais tumultuada cidade ou em uma esquecida estrada do interior. Olhe ao seu redor. 


Você já chegou a se perguntar quem realmente sentiria a sua falta se você simplesmente desaparecesse hoje?


Nota 9



Por Rodrigo Carvalho


20 de mar de 2015

Debate Collectors Room: o que deve ser levado em conta na hora de analisar um disco?

Vamos dividir uma questão que sempre entra em pauta quando analisamos um disco, quando escrevemos um review: o que devemos levar em conta na hora de elaborar uma resenha? A criatividade? A inovação? Os novos caminhos propostos pelo artista? A releitura de elementos do passado com precisão?

Não acho que exista uma fórmula para escrever um review. Comigo, funciona assim: vou ouvindo o álbum e, com o passar das audições, vou criando raciocínios e chegando a conclusões. Depois disso, sento na frente do computador e coloco tudo na tela e, em seguida, no site. Não sei dizer o que pesa mais na minha avaliação. Tenho as minhas preferências pessoais, gosto de bandas que fogem do óbvio, não curto muito quem só recicla o passado, mas tento equilibrar as coisas.

Você não precisa ser um crítico musical para responder a pergunta, para participar deste debate. Basta contar pra gente como você chega à conclusão de que um disco é bom ou ruim, o que faz você gostar ou não de um trabalho. Tem um lance subjetivo no meio, todos sabem disso, mas vai ser interessante trocar ideias sobre o assunto.


Vamos lá, mãos à obra!


O rockeiro oco

Você conhece o tipo: o cara diz que é fã, doente pelo Led Zeppelin, e só conhece “Stairway to Heaven”, “Rock and Roll” e “Black Dog”. O indivíduo se declara apaixonado pelo Deep Purple, mas não sabe citar nenhuma canção da banda além de “Smoke on the Water” e “Highway Star”. É um fanático pelo Black Sabbath, mas não conhece nada além de “Paranoid" e “War Pigs”. É o fã do Metallica que pode escolher o que a banda irá tocar em um show, mas escolhe “Enter Sandman” e todas as de sempre pela milionésima vez. É o headbanger que tem certeza de que o heavy metal se resume a Iron Maiden, e ponto final.

Há anos o acesso à música mudou, e ficou muito mais fácil. Antigamente, era preciso comprar LPs ou qualquer outro formato, e o compartilhamento de canções de dava apenas através de outras mídias, como as fitas-cassete e os CD-Rs. Hoje, basta colocar o nome da qualquer banda no Google, no YouTube e em qualquer serviço de streaming para ter acesso instantâneo à praticamente tudo que o artista gravou.

Vai ver que a gente é que é diferente. E provavelmente seja isso mesmo. A imensa maioria das pessoas escuta música apenas de forma casual, como trilha para outras atividades. Só uma minoria se aprofunda de maneira substancial nas carreiras e trajetórias de seus ídolos.

O mais interessante disso tudo é que o estereótipo do fã de rock, a figura que está no inconsciente coletivo quando pensamos no personagem, está muita mais aliado com a imagem que o rockeiro oco citado no início do texto procura transmitir do que com o que o cara que realmente ouve música mais a fundo realmente é. Pessoas andando nas ruas com coturnos, coletes jeans e camisetas pretas do Nirvana, Legião e Raul Seixas (isso sofre apenas pequenas variações, com um Iron Maiden aqui e um Guns N’ Roses acolá) enquanto a temperatura namora os 40 graus são um clichê das ruas brasileiras, e representam com exatidão esses indivíduos.


Claro que cada um tem a sua maneira de se relacionar com a música, como já defendemos diversas vezes em outros posts aqui no site. Mas não deixa de ser estranho, e até mesmo burro e estúpido, que os doentes por Led, Sabbath e Purple ainda não tenham dado o passo além de “Stairway”, “Paranoid” e “Smoke”. E, na boa, provavelmente nunca darão …


19 de mar de 2015

Motley Crüe tocará no Rock in Rio

O Rock in Rio anunciou hoje que a banda norte-americana Motley Crüe tocará na edição deste ano do festival. O grupo subirá ao palco dia 19 de setembro, mesmo dia do Metallica.

Ótima notícia ;-)

Pergunta: o Motley Crüe já tocou alguma vez aqui no país? Não me lembro, respondam nos comentários, por favor.