29 de jun de 2016

Review: Cavera - Until for Rational Consumption (2016)



Until for Rational Consumption é o primeiro disco do quarteto gaúcho Cavera, natural da cidade de Carlos Barbosa. O álbum foi precedido pelo EP Mental Killer, de 2013. A sonoridade é um metal contemporâneo, que não tem medo de trilhar os caminhos mais atuais da música pesada. Isso é traduzido em canções logicamente agressivas, mas que trazem passagens que buscam fugir do convencional, além da constante experimentação com andamentos fora do comum.

Nas críticas que li a respeito do disco encontrei alusões ao System of a Down, com textos relacionando o Cavera ao quarteto norte-americano. Confesso que essa associação não passou nem próxima de meus ouvidos. O que me chamou a atenção foi a similaridade sutil, em alguns aspectos, com o Slipknot (mas bem de leve, mesmo). 

Muito bem produzido, Until for Rational Consumption traz treze faixas bem desenvolvidas, que mostram o ótimo estágio que a banda se encontra. Alguns pontos ainda podem melhorar, principalmente nos vocais de Rodrigo Rossi (também guitarrista), que soam melhores quando mais agressivos e guturais. Não que seu timbre natural seja ruim, mas quando Rossi explora timbres um pouco mais agudos e menos graves a coisa parece meio fora de lugar. Musicalmente tudo soa muito coeso, com riffs que em alguns momentos bebem do thrash e em outros buscam inspiração em nomes mais atuais da cena norte-americana. A dupla baixo e bateria trabalho em harmonia, sustentando as composições com um groove pesado e sólido, enquanto a dupla de guitarristas traz abordagens que levam a música do Cavera para paisagens bastante distantes do metal mais tradicional.


No final, Until for Rational Consumption revela-se um trabalho mediano, com bons momentos como “Collision" e “Glistening Lips”. O uso de vocais mais agressivos e guturais em trabalhos futuros, sem a alternância com vozes limpas, pode ser um caminho para tornar a música do Cavera ainda mais forte. Além disso, o excesso de faixas faz com que a audição seja um pouco cansativa. Um número menor de canções traria mais foco e um caminho mais definido para o disco, que acaba saindo dos trilhos em alguns momentos.

Apesar desses aspectos, trata-se de um álbum bastante interessante, e que mostra uma banda com talento e potencial inegáveis.


Novas bandas pra você ouvir: Rebel Machine, Seven Days War e Bruno Mansini



O Rebel Machine vem de Porto Alegre e o negócio aqui é hard rock direto ao ponto, agressivo e sem firulas. Esbanjando energia e testosterona, o quarteto lançará o seu primeiro disco, Nothing Happens Overnight, dia 11 de julho. Produzido pela própria banda, o álbum traz oito faixas em 32 minutos de boa música, com influências que vão de Danko Jones a Monster Truck. Grande potencial e previsão de um futuro promissor para os caras!

Facebook - https://www.facebook.com/rebelmachineofficial/





O Seven Days War vem de Canoas, e também trilha as praias do hard rock. A banda acaba de disponibilizar o seu EP de estreia, que traz uma sonoridade contemporânea e que equilibra influências clássicas com elementos mais atuais, como o groove de nomes como Five Finger Death Punch. Com excelente produção, instrumental afiado, ótimo trabalho de guitarras e boas composições, a banda é uma novidade suculenta pra quem curte o gênero.

Ouça o disco de estreia aqui -> A New Beginning 




O multi-instrumentista paulista Bruno Mansini lançará seu novo álbum, The Golden Soul, em agosto deste ano. Pra sentir o clima já é possível ouvir o que o cara preparou em “Enlightned Skies”, prévio do novo trabalho. O som é um prog rock temperado por elementos de hard e new age, além de referências à música oriental. The Golden Soul é o terceiro disco de Mansini e encerra a trilogia que conta com Dreams from the Earth (2013) e Secret Sings of Green (2015).




Review: Zakk Wylde - Book of Shadows II (2016)



Lançado em junho de 1996, Book of Shadows foi uma anomalia na carreira de Zakk Wylde. Um disco calcado no country e na rica tradição do cancioneiro popular ianque, com uma sonoridade totalmente diferente da que consagrou o guitarrista norte-americano. E é justamente nesse contraste em relação a tudo que Wylde gravou com o Black Label Society e com Ozzy Osbourne que está a principal qualidade de Book of Shadows, que mostrou uma faceta até então inédita de Zakk, e de uma maneira incrivelmente espontânea e autêntica.

Duas décadas depois, Zakk Wylde está de volta ao universo de Book of Shadows. Neste período, além do enorme desenvolvimento como músico, o cara casou, virou pai, saiu da banda de Ozzy e adentrou uma bem-vinda fase de sobriedade, distante dos excessos etílicos de antes. É este novo homem o responsável por Book of Shadows II, lançado no início de abril nos Estados Unidos e que chega ao Brasil pela Hellion Records.



Se antes o vocalista e guitarrista explorava temas do cotidiano em suas letras, nessa segunda parte soa mais lírico e poético ao cantar a respeito de sua vida, desafios e desejos. Nesse aspecto, Book of Shadows II soa mais profundo que seu antecessor. Musicalmente, Wylde retoma a seara explorada anteriormente, revelando um elenco de influências repleto de ícones. Se o timbre de sua voz muitas vezes se assemelha ao de Gregg Allman, nos arranjos e melodias são sentidas reminiscências de Neil Young, Stephen Stills e Anders Osborne. 

A espinha dorsal está na voz e no violão de Wylde, que ganha a bem-vinda companhia do órgão Hammond, sutis linhas de baixo e bateria e melodias cortantes vindas direto do coração do country e do rock sulista. Autêntico e verdadeiro, Book of Shadows II mostra a maturidade de Zakk Wylde como músico, vocalista e compositor, além de documentar um novo período na carreira do guitarrista.

Se decidir seguir por este caminho daqui para frente, Zakk tem tudo para alcançar o sucesso e o respaldo de público e crítica também em um universo musical distinto dos riffs e solos agressivos que o levaram ao topo. 

Melancolicamente excelente!

Discoteca Básica Bizz #051: The Byrds - Younger Than Yesterday (1967)



Tentar apontar o melhor grupo do rock ianque dos anos 1960 poderia nos levar a uma infindável discussão. Mas, se em vez disto tivéssemos de eleger o mais influente, os Byrds certamente seriam um nome de consenso, graças a seu relevante papel na moldagem de boa parte das grandes bandas surgidas nos anos seguintes.

A eclosão dos Beatles e a repercussão do rock inglês nos Estados Unidos acabaram dando ao rhythm and blues - então em franca decadência - um novo alento, levando dezenas de jovens músicos a abandonarem a majoritária cena folk. Foi o que ocorreu também com os futuros membros dos Byrds, na ocasião dispersos em vários grupo acústicos: Jim (aliás, Roger) McGuinn nos Limelighters, Gene Clark nos New Christy Minstrels, Chris Hillman nos Hilmen e David Crosby nos Lex Baxter Balladeers.

Assim, McGuinn, Clark e Crosby formaram o Jet Set em Los Angeles, que, com a entrada de Hillman no baixo e Michael Clarke (um velho amigo de Crosby) na bateria, originou o Beefeater. McGuinn descreveu o som deste embrião como uma síntese de Dylan e Beatles, algo que se comprova pelos tapes mais tarde reunidos no LP Preflyte (1969). Já como The Byrds, um remake de Dylan - "Mr Tambourine Man" - os levou ao topo das paradas dos dois lados do Atlântico. Ao misturar dois itens até então tão imiscíveis quanto óleo, esta gravação foi a irrefutável gênese do folk rock.

The Byrds foi considerado um grupo de singles até 1966, quando tornou-se precursor do som ácido californiano. Esta nova fase pautou-se pelo abandono da primazia folk (Gene Clark, autor principal nos álbuns Mr. Tambourine Man e Turn! Turn! Turn!, ambos de 1965, os deixou aí) em favor de trucagens eletrônicas e outras inovações, como a introdução da cítara no rock e o primeiro light show de que se tem notícia (no Village Gate, em Nova York).



Apesar da aparente bizarria, tal momento catalisou três discos que capturaram os Byrds no auge da criatividade: Fifth Dimension (1966), Younger Than Yesterday (1967) e The Notorious Byrd Brothers (1968). Destes, o segundo foi o mais bem-sucedido, não só pela maturação de Crosby e Hillman como compositores, mas também por elevar as harmonias vocais, o padrão "Rickenbacker doze cordas" (especialmente através de McGuinn) e o requinte instrumental do grupo como um todo, em nível jamais igualado. Ofuscado pelo lançamento de Sgt Pepper's e com os Byrds passando por um período de baixa popularidade e rusgas internas, Younger Than Yesterday acabou se tornando um dos mais subestimados discos da história do rock.

A amargura com este estado de coisas surge logo na faixa "So You Want to Be a Rock ’n' Roll Star" que, com frases como "venda sua alma para a companhia" tornou-se uma cáustica exceção em meio às boas vibrações da nascente "hippielândia". Levando ao máximo o uso da eletrônica apenas insinuado no LP Fifth Dimension, "CTA 102", por sua vez, era uma curiosa homenagem de McGuinn aos Quasars. 

Também a fixação com os Beatles se resolveria aí, num par de baladas de Hillman, "Have You Ever Seen Her Face?" e "Time Between", enquanto Crosby criaria épicos barrocos em "Renaissance Fair" e "Everybody's Been Burned", além da surpreendente tecnologia de "Mind Gardens". Num clássico destes, Dylan não poderia faltar e "My Back Pages" foi uma das mais sensíveis releituras feitas pelo grupo.

Os Byrds nunca soaram tão coesos como em Younger Than Yesterday e, ainda que suas produções seguintes tivessem sido apenas medianas, seu legado já estava consolidado de forma seminal no rock das duas décadas seguintes.

(Texto escrito por Arthur G. Couto Duarte, Bizz #051, outubro de 1989)

28 de jun de 2016

Review: Denner / Shermann - Masters of Evil (2016)



Masters of Evil é um presente para os fãs do Mercyful Fate. O álbum é o primeiro full-length da dupla Hank Shermann e Michael Denner, ambos ex-guitarristas da lendária banda dinamarquesa. A parceria entre os dois músicos foi responsável pela criação de uma das marcas registradas do Mercyful Fate: as melodias de guitarra contagiantes, sempre presentes nas canções e que contrastavam com as letras repletas de histórias de terror escritas por King Diamond.

Devo dizer que nunca fui muito fã do MF. Reconheço com sobras a influência dos caras na história e na evolução do metal, mas nunca consegui digerir os vocais de Diamond, com aqueles agudos que sempre soaram exagerados e desnecessários aos meus ouvidos. Opiniões à parte, este é um aspecto que não se repete em Masters of Evil (o CD é o sucessor do EP Satan’s Tomb, disponibilizado em 2015). 

Tendo o norte-americano Sean Peck (ex-Cage) nos vocais (o baixista Marc Grabowski e o baterista Snowy Shaw completam o time), o Denner / Shermann consegue agradar os orfãos de Diamond e também quem nunca foi muito fã dos seus característicos vocais. Peck canta de uma forma mais agressiva, encaixando alguns agudos aqui e ali, como que marcando território e mostrando do que á capaz. Liricamente, escreve letras que não fogem muito da temática habitual de King Diamond, situando as canções no já conhecido terreno das histórias de terror.

Musicalmente, Michael Denner e Hank Shermann entregam a sonoridade em que se tornaram mestres: agressiva e pesada, sempre adornada por melodias que tornam tudo ainda mais macabro e assustador. De maneira geral, Masters of Evil é um consistente trabalho de heavy metal tradicional lançado em pleno 2016, o que, convenhamos, não é uma tarefa das mais fáceis de se conseguir. 



Com uma formação experiente e com apetite para provar que ainda tem muito o que mostrar, o Denner / Shermann está sendo justamente aclamado pela imprensa especializada (9/10 na RockHard, 5/5 no Skulls ’n Bones e 9/10 no Metalized). Destaque para a faixa de abertura, para a excelente “The Wolf Feeds at Night” (com grande influência da carreira solo de Ozzy nos anos 1980) e para a dobradinha final, com as ótimas “The Baroness” e “Servants of Dagon”.

O disco acabou de sair lá fora (chegou às lojas dia 24 de junho) e também ganhará edição nacional. No Brasil, Masters of Evil será disponibilizado pela Abigail Records, nova gravadora especializada em metal que está chegando ao mercado.

Se você é fã de Mercyful Fate e de metal tradicional, Masters of Evil irá agradar em cheio seus ouvidos.

Tô ouvindo: Graveyard, Blackberry Smoke, Quarteto Novo e Return to Forever



Toda semana, dicas do que está rolando por aqui, com indicações de discos que estão habitando os meus ouvidos. Neste vídeo falo sobre o Graveyard, Blackberry Smoke, Quarteto Novo e Return to Forever.

Abaixo, textos sobre cada um dos álbuns citados no vídeo:

Graveyard - Hisingen Blues (2011)

Blackberry Smoke - The Whippoorwill (2013)

Quarteto Novo - Quarteto Novo (1967)

Return to Forever - The Mothership Returns (2012)

Para acompanhar o Sala de Som e a Collectors Room:
Instagram - https://www.instagram.com/ricardoseelig/

Discoteca Básica Bizz #050: The Clash - London Calling (1979)



Três anos depois do verão punk, o establishment pop ainda lambia suas feridas. Aqueles Sex Pistols de Malcolm McLaren eram uma brincadeira de mau gosto? E - impensável - se eles fossem importantes, mesmo sendo uma brincadeira de mau gosto? Aliás, se tudo aquilo fosse importante exatamente por ser uma brincadeira de mau gosto?

Desde os Beatles, os anos 1960 e a politização/psicodelização do rock, a indústria não via questões tão profundas e tão graves ameaçando as regras do (seu) jogo. A primeira metade dos anos 1970 trouxe uma paz confortadora, em que bons negócios eram possíveis com um mínimo de tumultos e confrontos. A indústria tinha um produto de aceitação certa e imediata, e os consumidores pareciam felizes. Por que e de onde vinha essa insurreição? E que momento péssimo haviam escolhido para atacar: exatamente quando, dos clubes gay underground, a disco music avançava sobre as hordas de adolescentes. Mas o pior ainda estava por vir: em 1979 o establishment descobriu que a rebelião tinha um cérebro além de uma voz. E foi London Calling, do Clash, que proclamou isto.

O Clash surgira na primeira hora do verão londrino de 1976, reunindo Joe Strummer, com uma carreira de performances no metrô e à frente de uma banda de pubs (os 101'ers); Paul Simonon, um estudante de arte que jamais havia pegado num baixo; e Mick Jones, que também vinha da cena de pubs. Primeiro Tory Crimes, e depois com Topper Headon na bateria (e por pouco tempo com o guitarrista Keith Levene, futuro PIL, completando um quinteto), o Clash abriu concertos dos Pistols em 1976 e, um ano depois, assinou um contrato vultoso para a época, com duzentos mil dólares de adiantamento. 



Os dois primeiros discos desse contrato, The Clash (1977) e Give 'Em Enough Rope (1978) - já revelavam claramente o que o Clash pretendia: de dentro da barragem alucinante de decibéis erguida por Jones, Strummer cantava articuladamente uma inquietação social e política que os Pistols conheciam, mas tratavam com um ódio brutal e amorfo. Mas, na época, a forma triunfou sobre o conteúdo, iludindo a todos, sem sequer antecipar o que seria London Calling.

Lançado em meados de 1979, o disco foi um clarão de lucidez e coerência que nem o rock nem o Clash conheceriam depois. As dezenove faixas do álbum duplo - a última, "Train in Vain", não está creditada na capa - interligam-se para formar ao mesmo tempo um painel da Inglaterra sobre Margaret Thatcher - relutantemente multirracial, bacia de fermentação de ódios e frustrações - e de um mundo apenas aparentemente sob controle, mas impulsionado por armas, drogas e guerras sob encomenda. A música tem uma riqueza de texturas que o punk desconhecia. O Clash canta o ska e o reggae pesado da Londres negra ("The Guns of Brixton", "Rudie Can't Fail". "Wrong 'Em Boyo") e puxa o longo fio ancestral que vai até os anos 1950 ("Brand New Cadillac") e o jazz ("Jimmy Jazz").

O impacto de London Calling abriu clareiras em todas as frentes. Para as platéias punk ele disse que a fúria podia e devia ser organizada, e que a lucidez e a curiosidade eram as únicas saídas estéticas possíveis antes da caricatura e da dissolução. Para o resto do público, o álbum restaurou a fé num gênero em visível decadência, o rock. Para o próprio Clash o disco foi a bateria energética que o impulsionou freneticamente durante um inacreditável par de anos - e o álbum triplo Sandinista! (1980) - até caírem exaustos ao chão das realidades mesquinhas do business, ícaros modernos deixando no ar o traço do seu vôo.

(Texto escrito por Ana Maria Bahiana, Bizz#050, setembro de 1989)