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1 de abr de 2015

Debate Collectors Room: consumir gêneros musicais variados faz surgir ouvintes melhores?

Veja a música da seguinte maneira: quanto mais você ouve, quanto mais você consome, mais você aprende. Sempre tive essa relação com ela, e foi essa atitude que me fez - e continua fazendo - descobrir novos sons e manter o meu ouvido sempre curioso.

Consumo predominantemente heavy metal. Mas a minha coleção está repleta de outros gêneros. Amo o jazz surpreendente de Miles Davis. Adoro funk dos anos 1970. O pop da década de 1980 foi fundamental na minha formação como ouvinte. Gosto de samba, de soul, de rock e de tudo mais. E entendo que tudo está relacionado. A desconstrução e a improvisação de um Miles me fazem entender melhor o que o Yes propõe. A agressividade do Black Sabbath me soa similar à violência de alguns artistas de jazz e fusion. Para mim, ouvir vários gêneros musicais, estilos distintos, faz surgir um ouvido melhor, mais completo, fornecendo mais subsídios para que eu possa analisar e compreender de maneira mais certeira cada disco e cada música que ouço.

Mas existe o outro lado, de pessoas que se dão por satisfeitas com apenas um gênero. Elas estão erradas? Não necessariamente, ainda que eu acredite que seja um desperdício colocar de lado 300, 400, 500 anos de evolução musical em troca de escutar sempre a mesma coisa. Mas cada um é cada um.

E ainda há um terceiro nicho, formado principalmente por ouvintes mais radicais e que vem, em sua grande maioria, do cenário do metal, que entende que um pessoa que elogiou um álbum da Lady Gaga jamais poderia analisar um disco do Behemoth - esse que vos escreve, no caso, fez as duas coisas, e gostou dos dois extremos.


Na sua opinião, manter o ouvido sempre curioso e consumir diferentes estilos e formas de música o torna um ouvinte mais completo? Participe do nosso bate-papo, da nossa troca de ideias, do nosso debate, nos comentários, e conte pra gente como você vê tudo isso.


31 de mar de 2015

O Tidal e os músicos no comando dos serviços de streaming. Ou não.

Os serviços de streaming de música são uma realidade. Quem aderiu ao Spotify, Rdio, Deezer, Google Play e qualquer outro, não volta atrás. Quem ainda não aderiu, chegará o dia que utilizará um destes aplicativos. As razões são muitas: catálogo imenso e praticamente infinito, custo baixo, praticidade, facilidade. Não faltam qualidades para os ouvintes. Para os músicos, no entanto, a história é outra.

Há uma grande discussão sobre a forma de pagamento que o sueco Spotify, o líder e principal serviço de streaming do planeta, utiliza para remunerar os músicos. Robert Fripp brigou com a empresa e retirou todo o catálogo do King Crimson do app. O AC/DC não se acertou com os suecos e não permitiu que o seu catálogo fosse disponibilizado no serviço. Os Beatles fecharam um acordo milionário com a Apple e colocaram todos os seus álbuns, de forma exclusiva, apenas no iTunes (as carreiras solo de John, Paul e Ringo estão disponíveis, menos a de George). Um dos maiores nomes do pop atual, Taylor Swift, comprou briga com o Spotify e conseguiu retirar todos os seus discos do aplicativo.

Como funciona a remuneração do Spotify? Segundo informações divulgadas pela própria empresa, o artista recebe, em média, meio cêntimo de euro a cada execução de uma música sua no serviço. O valor é variável, e é calculado através de fatores como a porcentagem de royalties negociada com cada artista, sendo que uma parte vai para a sua gravadora. Outro fator que influencia o cálculo é se o play foi dado por um usuário que assina o serviço ou um que usa o app de forma gratuita. Todas essas variáveis fazem com que, em média, cada execução no Spotify renda ao artista algo entre US$ 0,006 e US$ 0,0084 dólares. Como exemplo, se um músico tem uma faixa sua tocada 1 milhão de vezes, receberá aproximadamente 1.500 dólares do Spotify. Peguemos o Daft Punk, um dos artistas mais populares do app: o single “Get Lucky” já foi tocado, no momento em que escrevo essa matéria, 185.868.973 milhões de vezes no aplicativo, o que dá, pelos valores revelados pelo próprio Spotify, algo em torno de 279.000 dólares, cerca de 1 milhão de reais. Parece muito, mas não é, já que estamos falando de quase 200 milhões de execuções.

Aí, entra-se em um outro fator, que diz respeito a quem está do lado de cá, como eu e você: os consumidores de música. Há muito tempo - uns 10 anos, por cima, mas podemos chegar tranquilamente a 15 ou mais -, o negócio da música mudou drasticamente. Antigamente, a grande maioria da receita dos artistas vinha dos contratos fechados com as gravadoras e, por consequência, da venda de seus discos. Quanto mais discos um músico vendia, mais valioso ele era. Só que, hoje em dia e já há alguns anos, ninguém mais compra discos. A venda de música no formato físico despencou drasticamente, com a popularização dos arquivos MP3 e afins, o que levou a indústria, a passos de tartaruga e de forma confusa, buscar outra maneira de continuar fazendo o seu negócio ser lucrativo. Aí entram nomes populares na conta, como Napster, torrents, sites de download e outros, que disponibilizavam de maneira gratuita a música entre os ouvintes, algo que revolucionou o mercado e, sinceramente, não tem volta. Depois de experimentar este outro lado, ninguém quer mais pagar para ouvir música, certo?

Nem tanto. O surgimento dos serviços de streaming, tendo o Spotify à frente, mostrou que havia uma enorme parcela de pessoas em busca de facilidade e qualidade, e que estavam dispostas a pagar um valor para ter acesso a isso. A equação praticidade e preço acessível popularizou o formato, e hoje temos essa realidade relatada lá no início do texto, com o Spotify tendo, sozinho, mais de 60 milhões de usuários em todo o planeta.

É neste mercado que surge o Tidal, serviço de streaming comandado por Jay Z e que teve o seu lançamento oficial realizado ontem, 30/03. Z reuniu uma parcela do PIB da música, incluindo aí Beyoncé, Rihanna, Coldplay, Madonna, Jack White e Taylor Swift, e anunciou o lançamento do Tidal em uma coletiva de imprensa transmitida online para todo o planeta. Com a tag #TIDALforALL, o Tidal se apresentou como um serviço acessível a todos, onde os músicos teriam uma remuneração mais justa e condizente com o seu trabalho. Só que a coisa não é bem assim.

Pra começo de conversa, o Tidal está disponível por enquanto em apenas 31 países, e seu acesso é restrito a usuários que receberam convites de outros usuários. Ele não terá uma versão gratuita, como todos os seus concorrentes tem, e só estará disponível mediante o pagamento de uma mensalidade. A principal diferença em relação ao Spotify é que, enquanto o app sueco tem as suas músicas de “alta qualidade” transmitidas em arquivos de 320 kbps, o Tidal terá uma plano onde as canções serão disponibilizadas no formato loss less, onde, teoricamente, não há perda na qualidade do áudio, já que estamos falando de arquivos com 1411 kbps. 

Tudo muito bem, tudo muito bom, mas voltamos à questão levantada alguns parágrafos acima: não adianta pensar apenas no lado dos músicos e dar um passo atrás, tendo com única opção o pagamento de uma mensalidade para se ouvir música online. O ouvinte já se acostumou em não pagar para isso, e abre uma exceção aos serviços de streaming pelo baixo valor cobrado. Se fosse mais caro, as pessoas não assinariam. É o mesmo esquema no Netflix: você faz a conta e percebe que vale a pena ter uma mensalidade em torno de 20 reais por tudo que o serviço oferece. Se esse valor subir muito - como o valor proposto pelo formato loss less do Tidal, de 19,99 dólares, quase 80 reais -, as coisas começam a ficar inviáveis. Vou pagar quase 100 reais todos os meses para ouvir música online, não tangível? Por esse valor, volto a comprar mídias físicas, então.

E ainda há outro ponto: a disputa feroz no segmento do streaming musical pode levar ao surgimento de diversos serviços concorrentes, cada um oferecendo exclusividades específicas e estilos musicais, e, por consequência, causando a diminuição dos catálogos online que hoje temos acesso - só no Spotify, são cerca de 30 milhões de faixas. No futuro, vou ter que assinar três ou quatro streamings para ouvir o que eu quero? Se isso acontecer, o negócio se tornará inviável para quem tem mais interesse nisso tudo: nós, os ouvintes. 

O fato é que não adianta resolver o lado dos artistas, com uma remuneração mais justa, se isso implicar no aumento do valor pago pelos usuários. A remuneração do Spotify não é justa? Ok, então deve-se focar a discussão nesse ponto. A gratuidade no consumo de música online já está consolidado, isso é um fato. 

A discussão é complexa, interessante e repleta de fatores e pontos de vista. O Thiago Cardim expressou o dele de maneira brilhante no Judão, e recomendamos a leitura dessa matéria sobre o assunto. E, é claro, queremos ouvir o seu ponto de vista nos comentários deste post. 




Checklist #015: quem são os gênios do pop?

Semana boa nas bancas do mundo. Paul na Q, Ringo na Rolling Stone. Page na The Blues Magazine, Led Zeppelin na Loud!. Blur na Mojo, Kurt Cobain na Kerrang. The Who em especial da Rolling Stone e o Slipknot na sensacional capa da nova Metal Hammer.


Indique nos comentários a sua sua favorita, e responda também a pergunta: além de Paul McCartney, que está na capa da Q Magazine, quais são os outros gênios do pop?














30 de mar de 2015

Eric Clapton, 70 anos

Jimi Hendrix era fã de Eric Clapton. Quando Chas Chandler, baixista dos Animals e empresário de Hendrix, ofereceu uma turnê inglesa para ele, Jimi só aceitou porque Chandler prometeu que o apresentaria a Clapton.

Tendo como base este primeiro parágrafo, a discussão sobre a influência de Eric Clapton na evolução e na história da guitarra não tem sentido. Ele é muito mais que “Tears in Heaven”, singela canção composta em memória de seu filho Connor, morto aos 4 anos após cair da janela de um arranha-céu.

Clapton é deus. E há décadas. Ouça os discos do Cream. Ou o do Blind Faith. Ou Derek & The Dominos e os discos solo dos anos 1970. Ali está o Clapton genial. O cara que é, sem sombra de dúvida, um dos maiores guitarristas que o mundo já ouviu.

Hoje, 30 de março, Eric Patrick Clapton comemora 70 anos. Renascido, de cara limpa, livre do alcoolismo e das drogas, em um novo casamento e com duas filhas pequenas. Um pai avô, que toca o seu violão e sua guitarra diariamente, como parte do seu corpo.


Eric Clapton é um dos maiores músicos de todos os tempos. Aproveite o dia e celebre a sua música. A satisfação será garantida.

Abaixo, relembramos a sua trajetória com uma galeria de fotos que passa por toda a sua carreira.
























Fórn - The Departure of Consciousness (2014)

Este disco foi lançado em julho de 2014 pela gravadora alemã Vendetta Records, mas só agora coloquei os ouvidos nele. Trata-se da estreia do quinteto de Boston, Fórn, banda que trilha a seara do doom, black e sludge metal.

The Departure of Consciousness traz apenas seis faixas - na verdade são uma intro e um encerramento, o que dá, no final das contas, praticamente quatro canções. Com riffs lamacentos, andamentos arrastados, vocais graves e guturais, o grupo vai enterrando o ouvinte em um oceano sombrio à medida em que a audição se desenvolve. O álbum exige uma parada nas atividades, uma pausa na correria, e recompensa essa atitude com uma música que é construída camada a camada, bloco a bloco, tudo de maneira bastante climática e soturna. A escuridão se aproxima a cada compasso, e essa capacidade de alterar o ambiente externo acaba se revelando uma das principais qualidades do Fórn.

De uma beleza inquietante dentro do universo que habita, The Departure of Consciousness mostra uma banda interessante, com identidade marcante e ideias criativas que apontam para um futuro promissor. O principal destaque fica com a dupla de guitarristas, que demonstra feeling e inventividade na composição de melodias repletas de melancolia e sentimento.

Belo trabalho, que venham os próximos.

Nota 8




27 de mar de 2015

Von Hertzen Brothers - New Day Rising (2015)

Uma boa forma de definir a música da banda finlandesa Von Hertzen Brothers é imaginar uma mistura entre o Queen e o Gentle Giant, adornada por uma refinada camada pop. No entanto, não é suficiente para colocar em palavras toda a musicalidade do grupo formado pelos irmãos Von Hertzen (Kie na guitarra, Mikko no vocal e guitarra e Jonne no baixo) e completada por Juha Kuoppala (teclado) e Mikko Kaakkuriniemi (bateria). É preciso ir um pouco mais fundo.

New Day Rising, sexto álbum do quinteto, distancia a banda de sua herança progressiva e leva o Von Hertzen Brothers para uma sonoridade próxima do pop com elementos barrocos. Um processo que já havia sido iniciado no trabalho anterior, Nine Lives (2013), e continha sementes no disco que o antecedeu, o ótimo Stars Aligned (2011). 

Este afastamento do prog e do próprio peso, presente nos álbuns anteriores, pode gerar também um afastamento de fãs das antigas, mas é um risco consciente que a banda assume ao levar a sua música para terrenos até então inéditos. Por mais que, em certos aspectos, o som do grupo tenha se tornado mais simples e menos sofisticado - e até mesmo menos interessante, dependendo do ponto de vista -, a escolha em acentuar o inegável potencial comercial presente na música do Von Hertzen Brothers deve levar a banda muito além da fronteira de seu país natal e do nicho prog, onde estava inserida.

Mantendo o seu estilo único, que consegue unir momentos etéreos, sofisticados, agressivos e intrincados na construção de uma sonoridade pop, o Von Hertzen Brothers gravou um álbum que merece chegar aos ouvidos de uma maior parcela do público. Uma das características principais dos finlandeses, o jogo de vozes criando harmonias agradáveis nas composições, mantém-se forte e significativa, como já deixa claro a faixa-título, que abre o play. Há grandes momentos em Ne Day Rising, como a música que dá nome ao disco, “You Don’t Know My Name”, “Sunday Child” e “The Destitute”, e elas fazem o álbum valer a pena. 

Ainda que, pessoalmente, continue preferindo o que o VHB fez em seu passado, a banda segue produzindo boa música, e isso é o que importa.


Nota 8


Pyramids - A Northern Meadow (2015)

Na lenda babilônica da ‘queda’ do paraíso, o abismo representa a regeneração, a redenção, a expiação e outros termos similares, significando algo como a união do humano com uma mente divina; implicando neste caminho um silenciamento do intelecto e uma entrega à consciência. Se há alguma forma de exemplificar isto musicalmente, certamente é possível que a resposta seja no som desses texanos. Ao transitar em um ambiente escuro, frio e claustrofóbico, nossos olhos e membros congelam-se e a angústia se encarrega de abraçar qualquer esforço emocional. É sim um passeio sinuoso, mas severamente construtivo.

Em 2008, o Pyramids estreava com o seu álbum auto-intitulado, misturando junto os diferentes elementos do shoegaze, post-rock, post-black metal, dark ambient, drone e experimental; seu primeiro álbum foi nada menos do que fascinante. Após o lançamento, houve uma variedade de artistas e bandas avant-garde – incluindo James Plotkin, Colin Marston e Blut Aus Nord – remixando o material do Pyramids; e tempos depois ocorreram algumas colaborações com nomes como Nadja, Wraiths, Horseback e Mamiffer, até enfim lançarem o seu segundo full-length, A Northern Meadow.

A grande e emblemática diferença no som da banda para qualquer outra, é que eles não podem ser enquadrados como uma banda de metal usando texturas shoegaze; ou uma banda emo utilizando texturas de metal; ou ainda uma banda avant-garde utilizando texturas pop, mas sim uma mistura uniforme e completa de todos os componentes.

Auxiliando o quarteto formado por M. Dean, D. William, M. Kraig e R. Loren, estão William Fowler Collins – um prolífico músico de dark ambient -, o guitarrista Colin Marston (Gorguts, Krallice) e Vindsval (Blut Aus Nord) na bateria eletrônica. A arte da capa merece destaque: uma mulher com mechas de cabelo espalhadas como tentáculos e presas na parede. Enigmática? Assustadora? Não. Apenas agonizante, suável e afrontante como uma rigidez catatônica.

“In Perfect Stillness, I’ve Only Found Sorrow” começa o álbum de uma forma fria e opressora, parecendo levar-nos a um labirinto onde os caminhos ficam cada vez mais escuros. Já em “The Substance of Grief Is Not Imaginary”, a música em si tem um pouco mais de black metal em uma forma épica, embora ainda com aqueles vocais limpos lindamente cantados. No entanto, há uma tendência de distorção no melhor estilo industrial e de amostragem que adiciona uma ‘crise’ perturbadora para esta faixa. E muitas vezes percebe-se que a utilização dos vocais ‘gritados’ – típicos do screamo – são uma inclusão para enfatizar as emoções.

Enquanto “I Am So Sorry, Goodbye”, como sugere o título, é uma canção extremamente triste e com as guitarras pingando melancolia; “My Father, Tall as Goliath” traz um trabalho com atmosferas e harmonias mais leves. “Consilience” provavelmente se encaixa no projeto de ser a ‘canção de exposição’, mostrando um pouco de tudo que o álbum já teve, mas fazendo isto de maneiras novas, menos abruptas e interessantes.

Nota 9

Por Giovanni Cabral, do Trajeto Alternativo