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29/08/2014

Opeth e o disco do ano

O Opeth cansou de ser uma banda de heavy metal. Encheu o saco. E se reinventou. Se transformou em um combo com o melhor que o prog rock setentista produziu, vivo e em plena década de 2010. 

Heritage já era ótimo. Pale Communion é sublime. Mikael Akerfeldt é único. Um geniozinho em um mar cada vez mais sem sal e raro em personagens com talento similar ao seu.


Não ganha nota 10. Ganha nota 14. Porque agora é oficial: podem fechar o ano porque ninguém irá lançar um disco melhor.


Explorando, sugando e lucrando com a paixão dos fãs

O Iron Maiden anunciou o relançamento de sua discografia em discos de vinil de 180 gramas. Os discos clássicos, até o Seventh Son (1988), mais os singles do período. Deve ser a décima vez que isso ocorre. A centésima, ou talvez até mesmo a milésima. Em CD, em LP, no caralho a quatro.

E sempre nesses oito primeiros álbuns - os sete de estúdio e mais o Live After Death. É a banda atestando que o resto da sua carreira não importa. Nada, nem pra eles. Apesar de discos muito bons como Brave New World e The Final Frontier.

E os fãs, cegos, idiotas e todos os demais adjetivos possíveis, vão comprar de novo. E mais uma vez. E quantas vezes a banda decidir relançar.

Ninguém mais compra discos. Não há mais razão para ter discos. O formato físico morreu, e já faz tanto tempo que nem cheirar mal ainda cheira.

Mas o Maiden segue investindo nesse formato. Bem, não necessariamente nesse formato. O Maiden segue investindo na exploração da paixão cega de seus fãs, fiéis desde sempre. Lança cerveja, camiseta, poster, o que der na telha, todos os anos. E novas versões de seus discos de tempos em tempos. 

Já deu. Invistam em outra coisa, Steve e Bruce. Já ficou chato bater na mesma tecla, sempre e cada vez mais. Parem. Todo mundo já tem esses discos. E no mínimo em umas três ou quatro versões diferentes. Olhem para frente. Desapeguem do passado. 

Mas aí vai ser preciso desapegar da grana. E essa, vamos admitir, vai ser difícil.

Postura lamentável de uma banda que parece mais preocupada em ficar sentada vendo os números de suas receitas aumentarem do que em produzir algo novo. 


Vou ali tomar uma Coca-Cola. Ouvindo Ali Farka Touré, bluesman africano falecido em 2006 e que atualmente tem muito mais a me dizer do que Harris, Dickinson e companhia.


Rádio Mas Que Nada

Sempre quis ter um programa de rádio. Apresentar, tocar, falar. Compartilhar o amor sempre crescente que sinto pela música. O prazer que se renova a cada dia como ouvinte.

Já fiz das minhas. Um amigo tinha um programa em uma rádio nos tempos da adolescência, e frequentemente a programação ficava por minha conta. Por uns tempos, supri essa necessidade com um podcast semanal, que acabou chegando ao fim por incapacidade técnica e de tempo.

Tudo isso pra dizer que a coisa está mais viva do que nunca. Ainda que não do jeito que você imagina. O Spotify, serviço de streaming de música, é uma maravilha. Mudou o meu modo de consumir música. Não lembro a última vez que coloquei um CD pra tocar, e nem quando o toca-discos lá de casa deu o seu último giro. E, apesar disso, vivo um dos momentos em que mais tenho escutado música. O dia todo. Todo dia.

No iPhone, o Spotify me acompanha em qualquer lugar, com o fone de ouvido sempre esquentando as orelhas. Em casa, o iPad tem o seu bluetooth sincronizado com o som, e pronto: o mundo se abre.

Gosto de utilizar esses serviços de streaming fazendo playlists, criando seleções musicais sobre estilos e épocas. Criei uma chamada Mas Que Nada, e lá fui jogando músicas que gosto, que fizeram história, que estou conhecendo, que estou pesquisando. Sou um nerd musical, em alguns momentos beirando a fixação doentia. Tal qual ir de página em página no livro 1001 Discos para Ouvir Antes de Morrer, ver que álbum está ali, ir no Spotify e ouvir faixa por faixa, inserindo as que gosto na playlist do MQN. Fiz a mesma coisa com o meu perfil no RYM

E assim a coisa foi, e continua indo. Até o momento já são quase 2.600 músicas, totalizando 158 horas de música. O que dá seis dias e meio tocando direto, sem repetir nenhuma faixa. 

Tem rock, uns jazz-funk, bastante blues, pop, funk, soul. Coisa boa, que eu gosto, e que não assusta ninguém. 

Onde a rádio entra nisso tudo? Assim, ó: todo dia, acesso essa playlist, coloco no modo aleatório e ela me faz companhia o dia todo. Não sei o que irá tocar, o que virá a seguir. É sempre bom, sempre surpreendente. 

E assim a vida segue, com muita música, em todo lugar e cada vez mais.


Usando (e abusando) da ilusão

Isso não acontece mais. Mas uma vez aconteceu. Uma, pelo menos.

O ano era 1991. Lembro bem. O Guns N’ Roses, então indo a passos largos ocupar o posto de maior banda de rock do mundo, lançava o seu terceiro disco, Use Your Illusion. Na verdade, os seus terceiros discos, já que a obra veio em dois volumes, ambos duplos, totalizando 30 canções inéditas espalhadas por 4 LPs. Um orgasmo auditivo.

Lá no interior, em uma cidade perto de onde nasci, anunciaram uma festa no clube local. A atração principal era a seguinte: iriam tocar o novo disco do Guns na íntegra, na ordem, pela primeira vez. Não havia internet, não havia download, não existia streaming. Ninguém havia escutado ainda. E lá fomos nós.

UYI tocou na íntegra. Primeiro o 1, depois o 2. E de novo. E mais uma vez.

Uma experiência muito legal e, no mínimo, curiosa, principalmente para quem não viveu a época e hoje tem todas as músicas do mundo na ponta dos dedos.


Lembrei agora disso tudo, enquanto ouvia “Pretty Tied Up”, uma das minhas preferidas de Axl, Slash e companhia.


A música faz do mundo um lugar melhor

A música torna a vida mais lúdica. Deixa tudo mais mágico. Viver com uma trilha sonora é mais divertido. As canções nos confortam, nos lembram momentos, acompanham nossos dias. 

Sempre gostei de música. Não sei porque, não faço ideia do motivo, não sei dizer quando começou. Só sei que não consigo conceber a minha vida sem música. Não tive alguém que me inspirasse a seguir esse caminho quando estava entrando na adolescência, não me espelhei em ninguém. Meus pais nunca se obtiveram a essa paixão, mas ela não é uma característica marcante em nossa família.

Sou pai de um menino de 6 anos, o Matias. Desde 2008, ele faz parte dos meus dias. Assim como a música. E, pouco a pouco, foi descobrindo os sons, a magia e a força das canções. Lembro que, quando ele era apenas um bebê, o pegava no colo e o embalava cantarolando a melodia de “In My Life”, dos Beatles. Lembro de um dia em que ele chorava sem parar e eu e sua mãe, sem saber o que fazer, o colocamos na sala e ligamos um som, que o acalmou na hora. Detalhe: não era nada soft, era Cachorro Grande em alto e bom som mesmo.

Acostumei o Matias a dormir no carro, em sua cadeirinha. Sou pai sozinho, não vivo com a mãe do meu pequeno, então desenvolvi meus próprios métodos de carinho, de atenção e aconchego. Teve uma fase em que ele pegava no sono ouvindo continuamente “Gimme All Your Lovin’”, aquela do ZZ Top com a introdução de bateria. Depois, passou um tempo entrando em transe junto comigo com o Time Out, disco lançado pelo Dave Brubeck Quartet em 1959.

E, desde que nasceu, foi descobrindo o rock. E, é claro, criando caracterizações para defini-lo. Na sua cabeça, o rock se divide em dois grandes grupos: rock feliz e rock brabo. O feliz é formado por nomes como Beatles, Stones, Pink Floyd e outros. O brabo, por Black Sabbath, Iron Maiden, Metallica e por aí. Simples, objetivo e autoexplicativo, como tem que ser.

Seus comentários são sempre uma delícia. Certa vez coloquei uma versão ao vivo de “Stairway to Heaven” para ouvir enquanto ele brincava com outra coisa. Do nada, o Matias me olhou e soltou essa: “Bom esse guitarrista, hein? A música dele evolui”. Eu, é claro, abri um largo sorriso cheio de orgulho.

Tudo isso pra dizer que não consigo imaginar a vida sem música. A minha, a do meu filho, a de todo mundo. Tudo fica mais completo, as coisas fazem mais sentido. Gosto de rock. E de jazz. E de blues. E de pop. Tudo que meus ouvidos acham bom. E aprendo sempre com as canções. 


Um dia vou lançar um box com a trilha da minha vida. Terá vários discos e muitas histórias. Até lá, vou encontrando novas canções em cada esquina, a cada momento.


Playlist: 54 versões diferentes para "Take Five"

"Take Five", do Dave Brubeck Quartet, é uma das minhas músicas favoritas.

Ouço toda semana. Várias vezes.

Está na trilha da vida.

Gosto tanto que montei uma playlist no Spotify com mais de 50 versões diferentes.

Tem de tudo, com várias abordagens diferentes.