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23 de fev de 2017

Show: Renato Bandeira & Som de Madeira | 17 de fevereiro de 2017 | Paço do Frevo | Recife

quinta-feira, fevereiro 23, 2017

Na sexta-feira pré-carnaval, quarteto pernambucano apresentou sua potência monolítica em vibrante apresentação ao vivo no templo do frevo.

A definição de uma identidade. O duro empreendimento de prover contornos nítidos a um todo cultural tão difuso quanto possível. Se tem uma coisa que impressiona no show deste grupo é a constatação de sua insólita e aparentemente espontânea habilidade de encontrar sua unidade no exercício da dispersão.
Dito isto, esqueça o rótulo "música regional", pois no final das contas, ele não se mostrará nada mais que uma camisa de força usada para amarrar as mil e uma nuances que este quarteto pernambucano explora com sete fôlegos e ampla coragem.

O chassis é, de fato, o regionalismo, o explorar do encanto, mágica e carisma que possui a cultura popular. Só que no lugar de seguir reto nesta via única, os pernambucanos acabam por buscar seu caminho próprio na torta e incerta trilha que leva o regional ao universal.

A formação é exuberante. Na linha de frente há Renato Bandeira, proeminência da guitarra brasileira que ao longo de mais de três décadas de uma sólida carreira, tem se estabelecido como um dos maiores expoentes não só no seu instrumento, como também no campo da composição, arranjo, produção e direção musical.

Compondo a tapeçaria sonora junto ao guitarrista, temos o sanguíneo acordeon do excelente Júlio César, um dos máximos denominadores entre os contemporâneos talentos da música nordestina. Na cozinha, uma dupla dos sonhos: o originalíssimo Hélio Silva, com seu inominável estilo serpenteante, por vezes funkeado ao contrabaixo e o sobrehumano Augusto Silva, dono de uma técnica excêntrica a tal ponto que atinge as raias do inclassificável.

Uma excentricidade: todos os instrumentistas compõe a base sonora, ao passo que cada um destes também detêm a liberdade para alçar vôos em solos, não raro, mais de um por vez. Algo ainda mais excêntrico: cada solo realizado pelos músicos denota um claro e genuíno exercício de expressão da individualidade intrínseca a cada componente a tangenciar de maneira curiosa a entidade coletiva. Anos luz do lugar cada vez mais comum entre músicos virtuosos de render-se ao insosso exercício da auto-indulgência. Aqui não há espaço para o trivial ou para o fútil. Cada nota significa algo.

De fato, os maiores trunfos do grupo residem no inusitado: conseguem ser extremamente acessíveis sem em momento algum cederem às tentações dos atalhos fáceis e banais. Sua música não ficaria deslocada num bloco de carnaval de rua, nem numa requintada apresentação num restrito club. Fazem parte, para encerrar este prelúdio, do cada vez mais restrito ecossistema de artistas cuja arte produzida detêm apelo tanto sobre as massas, quanto sobre o público mais seleto e crítico.

O minucioso exercício do tecer de sua música, a despeito de ser minucioso num nível preciosista, ocorre de forma natural e absolutamente fluida. A guitarra e o acordeon se dividem em sofisticadas interações, ora revezando-se no tecer das texturas sonoras, ora distribuindo-se em solos dos mais expressivos.


Sobrepondo-se em camadas, os instrumentos viajam por diferentes níveis hipnóticos repletos de vastidão gerando uma perspetiva visual a partir do som. Uma experiência sensitiva.


A gama sonora é de tal maneira abrangente que qualquer tentativa de interpretação crítica acaba caindo invariavelmente de cabeça no ridículo. As referências ao rico imaginário da cultura nordestina abundam, só que o tratamento que recebem é de tal maneira inusitado que estas acabam por se tornarem capazes de soar igualmente familiares tanto ao nativo quanto aquele completamente alheio a este universo.

A apresentação teve início pouco depois do meio dia na tradicional Hora do Frevo, excelente programa no qual o célebre museu abre espaço para a tão negligenciada, porém efervescente cena de música instrumental brasileira. A beldade pernambucana Naara Santos, produtora cultural e cantora de expressivo talento- que ainda há de ser descortinado ao grande público- dá as boas vindas à audiência, cuja composição sempre é realmente diversa, constatação que me fez pensar, durante a ocasião, que programas como este são os que verdadeiramente promovem o democrático acesso à cultura, sem as demagogias que costumeiramente cercam o tema.

Palavras iniciais trocadas, clima agradável, todos em seus lugares e o show começa. O primeiro bloco da apresentação é um rolo compressor. A começar pela exclamativa "De Cabeça pra Baixo", com suas finas e singulares células rítmicas se alternando em momentos de suavidade e vigor; fazendo uso de uma métrica de tal maneira entortante que no exercício de tentar seguir cada sagaz movimento de sua intensa trama, acaba de fato por deixar o atônito ouvinte de cabeça pra baixo.

A versão dos pernambucanos para "Mexe Com Tudo" do lendário Levi Fernandes, com arranjo próprio da banda, nada mais é que um pujante comboio sonoro, uma locomotiva desvairada indo em sua direção. Neste momento de plena celebração e reverência aos mestres, grupo e audiência entram em sublime sinergia. Todos em estado de extâse, músicos possessos. Renato se debulhando em seu vibrante estilo desconcertantemente intuitivo, o acordeon de Júnior a transpirar sangue e suor, Hélio distribuindo-se entre golpes percusivos, marcações angulares e solos sinuosos e sincopados numa peformance de independência de espírito simplesmente arrasadora e um prodigiosamente detonador Augusto a disparar rajadas potentes com um estilo que une a um só tempo, o vigor sanguíneo do frevo de rua e a genuína e intrínseca sofisticação oriunda do jazz.

A seguir, mais uma pérola de Levino Ferreira, "Último Dia", mais que merecidamente considerada o frevo mais belo do século. Nas mãos do grupo, a composição sai a navegar por toadas ricamente atmosféricas no mar de uma noite recifense como que deslizando por sobre um espelho embaçado.


Sem dar tempo para respirar, o grupo saiu emendando com mais uma notável composição histórica. Desta vez, investiram por sobre "Forró Novo", notável gema de Mestre Camarão. Júlio assume a direção predominante na canção e segue pegando fogo numa intensidade frenética. Há uma verdadeira cartase em ação. Os mais velhos se emocionam, os mais novos vibram ao descortinar de uma nova descoberta. Difícil é conter o impulso de sair dançando e se segurar no assento (como brinde, tivemos ainda um irreverente senhor bradando ao cabo da canção palavras de excitação no melhor do léxico nordestino: "É pra lascar, meu filho! Aqui é madeira! Bota pra lascar!!").

O momento máximo da apresentação vem a seguir com mais uma homenagem. Desta vez ao professor Nilton Rangel, com "Morena". Encostando a guitarra, Renato assume a viola de dez cordas numa arrepiante introdução solo com timbres ressoantes numa intensidade maníaca. Seus escudeiros asseclas o acompanham passado certo tempo e no break, um alucinado Augusto comete o mais expressivos dos solos de bateria que já ouvi em minha vida, que acaba por arrancar do público fogosas palmas antes mesmo da canção findar. Incrível! (alguém conserve o material genético deste homem para termos a matéria-prima para clona-lo num futuro em que tivermos tecnologia necessária para isto!).

Contra qualquer acusação tola possível de trilharem um percurso estritamente dentro da casinha, o grupo ainda tira um ás da manga, com a execução em primeira mão de novíssima composição própria, o excelente frevo de bloco "Duas Estrelas". 
Na fração final da apresentação temos mais um clímax com a tresloucada "Maluvida".

O bis veio magro, porém apoteótico, com os quatro colocando a casa abaixo novamente com um número de "Mexe Tudo" ainda mais energético, e então ao remate, as palavras finais de agradecimento e então uma exultante platéia explode em comoção como um estádio na hora do gol com a tradicional apresentação dos componentes da banda.

Sigo meu caminho. Na saída dois rapazes imberbes atônitos com o que presenciaram gesticulam e falam animadamente, quase saltitando. Da conversa deles, flagro um trecho no qual um deles diz para o outro: "Meu irmão, que cacete da mulesta!!!"- como eu amo o léxico nordestino!

É um trabalho magnífico, é um belo dia, a paisagem do Recife Antigo é tão lírica quanto sempre. Sou um homem de sorte e é isso aí.

Renato Bandeira e seu Som de Madeira estão indo para um lugar diferente na música. Mesmo em versão para composições alheias, as idéias são sempre surpreendentes e arejadas, e quando em fruto próprio, sente-se o sabor cada vez mais raro da inventividade. É isso aí, é vida que segue, só que agora mais bela.

Por Artur Barros

22 de fev de 2017

Review: Edenbridge - The Great Momentum (2017)

quarta-feira, fevereiro 22, 2017

O nono álbum da banda austríaca de metal sinfônico Edenbridge, The Great Momentum, foi lançado com a excelência do selo Lanvall de qualidade. Posso estar enganado, mais o multi-instrumentista Lanvall (pianista, guitarrista, baixista, violinista e sabe-se mais lá o quê) deve ter sido aquele menino que passou a infância ouvindo e estudando música clássica, jazz e tinha um poster do Iron Maiden na parede do quarto.

Lanvall faz do seu Edenbridge um daqueles tipos de sons que dá vontade de ouvir sem cansar, onde todo o peso colocado nas canções é sempre meticulosamente equilibrado com a melodia e harmonia, sem tirar nem por. Aqui nem um som é em vão, não há nenhuma "barulheira" nem "gritaria", tudo é muito bem composto, arranjado por ele e entoado e cantado pela regularíssima vocalista Sabine Edelsbacher, uma daquelas cantoras que com seu timbre aveludado na nota alta e na baixa nos despertam a vontade de ouvi-las cantar da noite até amanhecer o dia.

E assim é o álbum The Great Momentum já na primeira canção "Shiantara", aquela música certeira, para abrir o disco sem erro. Na segunda, "The Die Is Not Cast", a coisa pesa um pouco mais, mas não menos elaborada, com Lanvall aplicando bons acordes de violão no seu decorrer.

Como nada ou quase nada é perfeito, a terceira música, "The Moment is Now", é o ponto fraco deste trabalho. Não que seja uma música ruim, mas fica aquém do todo, talvez Lanvall estivesse com sono ou cansado ao compô-la, fazendo uma água com açúcar dispensável e infelizmente foi um susto quando justamente essa música deu vida a um videoclipe ainda nesta semana. Felizmente todas as outras canções são bem melhores.

A quarta faixa é uma música lenta belíssima, na qual Sabine ganha a companhia ao microfone do cantor  Erik Martesson, da banda sueca Eclipse, com Lanvall novamente abusando de seus rebuscados arranjos ao piano guitarra e violão. Sequenciando, "The Visitor" nos traz uma canção mais rápida e com bela vocalização de Sabine e um marcante coral. A próxima, "Return To Grace" é a maior pancada do disco, aqui a dupla Lanvall e Dominik Sebastien discorrem suas habilidades como exímios guitarristas.

Seguindo com "Only a Whiff Of Life", predominantemente voz e piano, um duo que dá extremamente certo no Edenbridge, com Sabine e Lanvall, a exemplo do que fizeram no projeto de ambos "Voiciano".

O seguimento final é a parte mais sinfõnica propriamente dita deste álbum e que nos traz as duas mais longas músicas. A penúltima, "A Turnaround in Art", se inicia com um riff imponente temperado com a orquestração, desembocando na voz de Sabine, que entoa uma melodia inebriante e bonita. Aqui o peso e o lírico casam perfeitamente.

A canção "The Greatest Gift of All" é a mais longa de todas e fecha a obra magistralmente, fazendo a linha de "Arcana", clássico do grupo do álbum homônimo de 2001. Esta é uma canção completa, com todos os bons elementos inerentes ao Edenbridge, o belo canto de Edelsbacher, a orchestração impecável e as inúmeras váriações de andamento que Lanvall sabe fazer como ninguém.

Concluindo, The Great Monentum é, acima de um ótimo álbum de symphonic metal, um disco de música de alta qualidade.

Lanvall não erra, apenas comete pecadilhos (tais como a terceira faixa).


Por André Floyd, da Confraria FloydStock

21 de fev de 2017

Música Urbana, a loja de discos de João Pessoa

terça-feira, fevereiro 21, 2017

Gosto de imaginar que cada cidade possui um templo da resistência, um lugar - normalmente tocado por um guerreiro da cena - que se recusa a morrer, apenas pela lacuna que deixaria na cidade.  Sem seu templo, a cidade finalmente terá cedido ao progresso predador que uniformiza e engole as tribos urbanas. Por isso, esses sujeitos são mais do que microempreendedores, eles cumprem uma função social messiânica:  enquanto viverem, e seus templos, a cidade viverá. Não sei se é exatamente assim em toda cidade. Nem sei quantos pequenos Messias ainda resistem. 

O que eu sei é que, como qualquer experiência religiosa, a primeira epifania é inesquecível. O meu momento da revelação veio quando eu tinha 14 anos. Um jovem adulto, com trocados no bolso, que saía do colégio bradando ser uma enciclopédia do metal com a arrogância típica de quem não conhece nada. Foi quando fui levado por um amigo - sempre um sujeito mais velho, sempre um guru - ao templo da resistência  da cidade de João Pessoa. A Música Urbana fica no coração do centro da cidade, numa região já abalada pelo crescimento da cultura dos shoppings e ainda mais pela decadência da indústria musical.


Eu costumava comprar meus CDs nas grandes lojas online, Submarino e Americanas eram as favoritas. Eu já conhecia seus estoques, limitados, de cor, por isso, atravessar aqueles portões causou uma verdadeira revolução espiritual em mim. Ter a oportunidade de conhecer um desses templos faz parte do crescimento musical de qualquer colecionador ou admirador da música. As conversas, recomendações, amizades que surgem, só se comparam às descobertas que ocorrem ao dedilhar as prateleiras. Essa comunhão, para mim, passou a surgir semanalmente. Uma passadinha rápida, uma olhadinha nas prateleiras, novidades, e sempre um tesouro levado pra casa.



Vez por outra se ouve a voz do messias, do sacerdote que cuida do templo. Nesse caso, o quieto Robério, que sempre achava espaço para dizer algo do tipo "chegou um power metal aqui...". Poucas visitas foram necessárias para que ele compreendesse o meu gosto musical. Nunca me recomendou um disco que não fizesse sentido. O pastor é assim, conhece as ovelhas pelo nome. Lembro de cada disco que comprei na Música Urbana, outros tantos que deixei por lá. Nunca paguei caro por um disco lá, por vezes, me perguntei como aquilo era possível. Com o tempo, entendi que o dinheiro tinha uma função secundária na Música Urbana. Importante, mas não fundamental.


Hoje, tenho uma coleção grande, são mais de 400 itens. Me especializei, li, fiz um doutorado. Mergulhei no mundo da música e me tornei mais entendido e, curiosamente, menos arrogante. Quando piso nesse templo, no entanto, volto a ser um moleque de 14 anos que perguntava "esse tal de Kamelot é bom?". Como fiz na primeira vez, com o primeiro disco que comprei por ali.



Com o tempo, a cidade murchou, migrou em direção à praia, e o centro foi ficando empoeirado. Os CDs e vinis da Música Urbana continuam lá. O sacerdote, Robério, continua os organizando, ao lado de HQ's, livros e miniaturas. O templo ampliou os horizontes, mas manteve seu espírito. Continua um lugar humilde, até meio apertado pelas prateleiras e clientes. Parece que não foi feito para caber muita gente. E nem precisa. As lojas ao redor já estão de portas fechadas. A economia não foi gentil com elas. O que só prova que a Música Urbana é mais do que um estabelecimento comercial. O templo se mantém vivo pela fé. A fé na música como um elo que conecta aqueles que acreditam nela. Que tem suas experiências auditivas solitárias, em casa, com fones, mas que sentem a necessidade de externar e compartilhar essa fé e que, por isso, precisam de um altar. Sei bem da quantidade de fiéis que encontro na rua, e trocamos aquela saudação silenciosa, um balançar de cabeça de quem não é íntimo, mas sabe, e na cabeça ouve "nos vemos no sábado, na Música Urbana".


Hoje, a loja que é mais que loja é mais que um templo. É um reduto formal da resistência pessoense. Tornou-se espaço para shows, no espaço que nem tem. Seu altar é do lado de fora, sua plateia são os fiéis clientes e amigos, sua comunhão são os vinis, CDs e, eventualmente, uma cervejinha. E o sermão vem sempre de uma tirada sarcástica e não menos espiritual do seu sacerdote, Robério.


Não sei dizer por quantos anos mais a Música Urbana estará viva, bem no centro de João Pessoa, mas arrisco dizer que, enquanto correr música na veia de alguém, por aqui, ela será bombeada para o coração da cidade. E como o homem é feito de corpo e de alma, ela irá convergir para esse templo, e a fé não morrerá.


Por Fábio Nobre, do Unlimited Decibels

A última loja de CDs

terça-feira, fevereiro 21, 2017

Eu compro CDs. Compro vinis também, mas compro muito mais CDs. Quando menciono o fato em qualquer conversa, não há quem consiga disfarçar a surpresa. É uma frase que desperta a curiosidade alheia. As reações variam de “Mas por quê?” a “Nossa, mas por quê…?”, passando por “Eu hein, por quê?”. Pagar por música nos dias hodiernos é um conceito meio alienígena à maioria das pessoas. Sobre o compact disc, em tempos de playlists, torrents e streamings, a fidelidade a um formato fonográfico dado como morto e enterrado causa estranheza ainda maior. (Eu mesmo,  já em 2002, escrevia sobre a “morte do CD”.) Ninguém tem mais CD player, nem no computador. Ninguém mais quer CDs, nem de graça.

Ninguém, não; eu os quero. E sigo comprando-os, principalmente usados, mas de vez em quando novos também. Por sua praticidade, pelo fato de eu ser um cara apegado ao formato físico e sobretudo pela relação custo/benefício. Por que dar R$ 80 num LP se o CD custa R$ 20, ou às vezes menos?

Para achar CDs novos por R$ 20, ou às vezes menos, eu vou à loja Escuta Som, no Centro do Rio. Fica (ou ficava — o futuro agora é incerto, como vocês verão) na Rua do Rosário, quase esquina com Primeiro de Março, pertinho de onde tinha um (lindo) prédio antigo com uma agência do Bradesco que foi demolido. Nenhuma ida ao Centro é completa sem uma passadinha na Escuta Som. O espaço é pequeno e fica menor ainda com os balcões apinhados de CDs, organizados hoje da seguinte forma: na parede à esquerda de quem entra, artistas internacionais; no balcaozão no meio, de um lado, mais discos internacionais; do outro, nacionais. Na parede à direita, CDs brasileiros. Tudo a R$ 10. Coisas novas, algumas até lacradas, misturadas a usados e, eventualmente, uma ou outra raridade. No último cantinho à direita, algumas ofertas especiais: lançamentos recentes em CD, DVD e blu-ray, discos que na Cultura ou na Fnac não saem por menos de R$ 35 ou R$ 40 oferecidos a R$ 18, R$ 20, R$ 25. Transbordados para a calçada, outros dois balcões oferecem mais pilhas de CDs, esses a R$ 5 cada. Aí a tranqueira impera, mas se você tiver tempo disponível, sempre dá pra pegar alguma coisa. Na minha última visita, por cinquinho eu descolei essa pequena pérola. Importado, hein!


O dono da loja era o Cláudio. Eu conheci o Cláudio quando minha coleção de CDs, que hoje me causa sérios transtornos por falta de espaço, cabia toda numa única e pequena prateleirinha. Pelos idos de 1994, eu vivia duro, tinha acabado de comprar meu primeiro CD player (um discman genérico vagabundíssimo) e tentava catar todo e qualquer trocado para atravessar a Baía de Guanabara e ir à loja do Cláudio. Era a época em que eu brincava de ser DJ em uma boate em Niterói, botando som toda quinta-feira; o nome da festa era Quinta dos Infernos. Chegava em casa na madruga e acordava cedo, contava os trocados arrecadados na noite anterior e partia para o Cláudio. Havia até uma aura de clandestinidade nessas excursões. Pois a loja ainda não era a Escuta Som, era apenas uma portinha no terceiro andar de um prédio de escritórios na Buenos Aires (a uma esquina da Rua do Rosário). O porteiro olhava desconfiado e perguntava: “Vai lá no Cláudio, né?”, enquanto verificava meu RG. Claro. O dia bom de ir era a sexta-feira, quando, segundo o próprio Cláudio, “chegavam as novidades”. Era quando, milagrosamente, os CDs que na Grammophone ou nas Americanas custavam R$ 18, R$ 21 eram vendidos a R$ 5 (importados a R$ 10). Como? Além de alguns esquemas meio nebulosos com as gravadoras, Cláudio ainda revendia CDs de segunda mão… e era um dos principais revendedores dos discos “promocionais” recebidos pelos jornalistas cariocas.

Passaram-se as décadas. De lá pra cá, o CD, que estava no auge naqueles distantes anos 1990, veio levando lambadas que o feriram de morte: pirataria física, Napster, iPod, Spotify. Até o vinil levantou da tumba para pisar no irmão mais novo. Suas vendas não param de cair e entre 2000 e 2015, o número de unidades comercializadas encolheu quase 75%. E eu com isso? Eu continuei indo ao Cláudio. Acompanhei-o em suas andanças (acho que antes da Escuta Som ele chegou a abrir uma outra loja, ali pelas redondezas) e sempre fazia uma visitinha. Seus concorrentes sumiram. Quer dizer, ainda existe um ou outro sebo no Centro, mas nunca chegaram a ser concorrência ao Cláudio, nem em preço, nem em acervo. Com o tempo, passei não apenas a comprar, mas também levava umas coisinhas pra vender e trocar.

Em pleno ano 2017, quem visita a Escuta Som tem motivos para duvidar desses papo de “o fim do CD”. A loja está sempre lotada. Tem a freguesia habitual, malucos como eu, que frequentam a loja pra ver as novidades e jogar conversa fora. A maioria é de cinquentões e quarentões, mas de vez em quando aparece uma molecada. E tem gente que, pasmem, ainda entra em loja de disco cantarolando uma música e pergunta ao vendedor quem é o artista que a interpreta, e se ele tem o disco pra vender.

Quer dizer, quem visitava. Hoje, uma segunda-feira, 13 de fevereiro, fiquei sabendo que o Cláudio morreu no fim de semana. Teve uma trombose, parecia ter se recuperado, mas piorou de repente e se foi. Eu estive na Escuta Som menos de duas semanas antes, bati um papo rápido com ele, e levei o Shabba e mais umas tranqueiras. Parei para olhar minhas estantes de CDs e nem consegui dimensionar exatamente quantos títulos foram comprados na mão do Cláudio. Centenas, decerto. É quando você percebe que o cara, a quem na verdade você não conhecia — só via ali, nas visitas ocasionais — faz, sim, parte importante da sua vida, por ter lhe proporcionado o acesso a outras partes importantes da sua vida. O azulzinho do Weezer eu comprei lá (e depois dei pra uma garota e tive que comprar outro). O Grand Prix do Teenage Fanclub, eu comprei lá. Muita MPB. Uma leva boa de discos do Sinatra da fase Capitol. Muitos discos de black music (aliás, o estilo favorito do Cláudio). Uma caixa com todos os álbuns do Madness (e que custou, adivinhem, R$ 10). Montes de trilhas sonoras. A edição de 45º aniversário do The Velvet Underground and Nico. Paixões mais recentes, como Kendrick Lamar e Tame Impala.

Pois é, falam tanto do fim do CD, há tantos anos, e o CD não acabava nunca porque o Cláudio não deixava. Agora, já não sei mais.

Por Marco Antonio Barbosa




20 de fev de 2017

O grunge matou o hard rock?

segunda-feira, fevereiro 20, 2017

Esse assunto polêmico permeia os debates e as rodinhas de conversa de tempos em tempos. Sempre que algum disco clássico do grunge de sucesso faz aniversário é levantada a questão: qual foi a importância do estilo no mundo? O gênero matou o hard rock e o heavy metal? Kurt Cobain e sua turma merecem estar no hall de bandas grandes? Em alguns momentos tal discussão é levada como um Fla-Flu, cada um levantando a bandeira para o seu lado sem analisar algumas questões relevantes.

O contexto histórico

No inicio dos anos 1990, novas tecnologias que eram introduzidas no mercado forçavam a mudança no estilo de vida dos consumidores de música. Os jovens necessitavam de uma maneira de curtir suas músicas em qualquer lugar, sem a necessidade de levar uma vitrola para todos os lados. Surgia assim o compact disc, que nós conhecemos como CD. O CD colocou no mundo a possibilidade de qualquer pessoa que tivesse um microcomputador (outra tecnologia que começava a se popularizar) pudesse salvar e reproduzir suas músicas sem a necessidade de comprar uma cópia original do disco. Na época, a indústria musical era focada exclusivamente na venda de vinis e as bandas excursionavam para divulgar seu trabalho e suas músicas, e com isso vender mais discos, já que não havia internet e a forma de consumir música era bem diferente do que nos dias de atuais.

O que parecia ser uma revolução para as gravadoras se tornou uma verdadeira dor de cabeça. As bandas passaram a vender muito menos que costumavam e a rentabilidade das empresas caía vertiginosamente. A indústria musical precisava assim de uma nova fórmula que retomasse o lucro e evitasse a falência.


O foco da mídia

Numa era sem internet, a única forma de saber sobre bandas e novos grupos era através da TV, rádio e revistas. Durante os anos 1980, a MTV e a imprensa em geral se apaixonou pela fórmula glam e headbanger. Todo adolescente na época sonhava em ser como Rocky Balboa ou adentrar um bar ao som de "Looks That Kill” do Mötley Crüe, quebrar uns copos na cabeça de uns valentões e conseguir conquistar o coração de uma loira de parar o trânsito. Além disso, é preciso lembrar que estávamos no meio da Guerra Fria e o estilo estadunidense de vida precisava se sobressair - logo, festas, bebidas, consumismo e excessos eram bem-vindos.

Porém, as coisas começaram a mudar com o passar dos anos e a fórmula glamurosa que vendia como água outrora passou a não funcionar mais, principalmente devido às próprias gravadoras que empurravam bandas e mais bandas com nome e estilo semelhante. Na época existiam bandas como Big Wolf, Big Heat, Big Cock, Big Mouth, Bigg Mouth, Big Chill ou até mesmo China Blue (do Canadá), China Blue (dos Estados Unidos) e China Doll (do Reino Unido). Todas com nomes parecidos e som mais idênticos ainda, sem falar que a indústria tentavam empurrar “novos Guns N' Roses, Whitesnake, Def Leppard”, além de outras cópias que não tinham a mesma qualidade dos originais.

Era preciso, então, oxigenar a música trazendo novos estilos e referências. Logo, a mídia virou sua atenção para novas bandas que traziam uma fórmula de fazer música completamente diferente do estilo glam. As festas, bebidas e sorrisos nos rostos foram substituídos pela depressão, melancolia, aflição, angústia e outros sentimentos totalmente opostos.


Mas e aí, matou ou não matou?

Não, querido leitor, ninguém matou ninguém. Um movimento artístico com a grandiosidade e importância como o hard rock não desaparece de um dia para o outro. Pode, sim, em alguns momentos não lançar trabalhos expressivos, como foi durante os anos de 1995-1999, época em que diversas bandas clássicas tentaram reinventar seu estilo e derraparam vergonhosamente como os Scorpions, Def Leppard e até mesmo o Kiss, além de bandas novas e desconhecidas que surgiam e não conseguiam explodir devido à mudança do foco da mídia. Entretanto, o gênero não morreu, conseguiu se reinventar e trouxe novas características.

A importância do grunge e o renascimento de um estilo

É inegável a importância do grunge no mundo. As épocas mudam, as pessoas mudam e novos estilos são inseridos e ganham popularidade. O grunge abriu as portas para que toda pessoa pudesse fazer sua própria música sem estar preso às garras e vontades das gravadoras. Sem falar que o estilo proporcionou mudança para muitas bandas que estavam sentadas no comodismo, obrigando assim com que elas buscassem novas sonoridades e referências, além de gerar novas bandas e novos estilos - por exemplo o movimento stoner, que agregou a sujeira que o grunge redescobriu com o hard rock dos anos 1970.

Com a globalização e a internet, não é mais necessário o foco da mídia para que um estilo obtenha reconhecimento e popularidade. Atualmente o foco esta na música pop e o rock foi deixado de lado. Há espaço para todos e atualmente descobrimos diversas bandas de hard rock que lançam álbuns todo mês, em diversos segmentos. Há bandas revivalistas dos anos 1970, bandas de AOR, entre outras fórmulas dentro do mesmo estilo, mantendo assim viva a chama do movimento mais importante e popular da história do rock and roll.




Soldados norte-americanos são proibidos oficialmente de ouvir KoRn e Slipknot

segunda-feira, fevereiro 20, 2017

Em um memorando compartilhado no Twitter por Geoffrey Ingersoll, um marine norte-americano, vemos a curiosa mensagem informando aos integrantes das forças armadas dos Estados Unidos que cinco bandas estão banidas e proibidas de serem escutadas nas instalações do Exército, Aeronáutica e Marinha: KoRn, Nickelback, Slipknot, Smash Mouth e Creed.

O assunto do memorando fala em “terríveis grupos de rock”, que a partir do dia 14 de fevereiro estão proibidos de serem escutados nas instalações do Departamento de Defesa.

É o metal resgatando a sua tradição de ser ofensivo contra o sistema? Comente, por favor.


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