O dia em que o heavy metal morreu


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

A morte de Ronnie James Dio pegou todo mundo que gosta de hard rock e heavy metal de surpresa. É claro que a gente sabia que o mítico vocalista, figura fundamental na história do som pesado, lutava contra um câncer de estômago desde novembro de 2009, mas ninguém imaginava que ele fosse perder essa batalha. Infelizmente, isso aconteceu.

Todos os veículos estão tratando a morte de Dio como a morte de um gênio da música – e isso é verdade. Ronald James Padavona foi uma das maiores vozes do heavy metal, e transformou-se em ícone do estilo. Seu timbre era único, poderoso, agradável, transmitindo com exatidão todos os sentimentos que suas letras, repletas de figuras mitológicas e batalha históricas, faziam surgir diante de nossos olhos.

A carreira de Dio se confunde com a trajetória e a consolidação do heavy metal como gênero musical. Sua passagem pelo Rainbow rendeu discos emblemáticos, sendo que um deles – Rising, de 1976 – é um dos álbuns mais influentes da história do som pesado, responsável direto pela sonoridade seguida por boa parta das bandas surgidas durante a década de oitenta.

Sua entrada no Black Sabbath, além de provar que era possível substituir um vocalista tão emblemático quanto Ozzy Osbourne, renovou o som da mais importante banda de metal de todos os tempos. O álbum Heaven and Hell, de 1980, encara sem medo qualquer disco gravado na fase clássica do grupo, ainda com Ozzy, e é um disco fundamental em qualquer coleção que se preze.

Mas ser uma figura de importância fundamental para dois dos maiores grupos da história do heavy metal não era o sufuciente para Dio. Ele queria mais. Em 1983 chegou às lojas Holy Diver, disco de estreia de sua própria banda, batizada apenas como Dio. O álbum foi muito recebido, e colocou os holofotes, de forma definitiva, sobre o nosso herói. Holy Diver não é apenas um dos melhores trabalhos lançados durante os anos oitenta, mas sim um dos grandes discos da história do som pesado.

E, para fechar com chave de ouro sua jornada, Ronnie James Dio aceitou o desafio e topou tocar novamente com Tony Iommi, Geezer Butler e Vinnie Appice no Heaven and Hell, saciando o apetite de milhões de fãs do Black Sabbath espalhados - e famintos - pelo mundo. The Devil You Know, lançado em 2009, mostra que o quarteto envelheceu como o vinho, mantendo sua qualidade mesmo com a passagem do tempo.

Falar da importância e da influência de Dio para a música é desnecessário. Qualquer pessoa que consome hard rock e heavy metal já ouviu seus discos e sabe que ele foi o responsável por divulgar e popularizar o principal símbolo do estilo, a mão em forma de chifrinhos.

O heavy metal é relativamente recente. Foi de 1970 pra cá que o gênero se desenvolveu e se consolidou, gerando seus ícones, clássicos e clichês. Tudo que é considerado “clássico” hoje em dia surgiu nas décadas de setenta e oitenta. As figuras mais emblemáticas do estilo estão envelhecendo. Personagens que cresceram ao nosso lado estão hoje com 50, 60 anos. O que isso quer dizer? Quer dizer que a morte de Dio demonstra que mesmo os deuses da música não são imortais. É claro que a obra de um artista com a envergadura de Ronnie James Dio permanecerá viva por muitos e muitos anos, mas dá medo imaginar o que virá pela frente. Não imagino a minha vida sem o Metallica, assim como não consigo conceber o mundo sem Bruce Dickinson. Meus dias seriam mais tristes sem a companhia de Paul McCartney, e incompletos sem a genialidade de Jimmy Page. Infelizmente, estou começando a perceber que, ao contrário do que eu pensava, meus heróis não são imortais, e um dia terei que aprender a viver sem eles.

Vá em paz meu brother Ronnie. Siga o seu caminho com a mesma força e energia que sempre nos contagiou. Estaremos sempre ao seu lado, e certamente nos encontraremos no futuro.

… and find the sacred heart ...

Comentários

  1. Faço todas as suas palavras as minhas Cadão. Em especial o último parágrafo. Fiquei pensando nisso e me pergunto: como será nossa relação com a música daqui vinte anos? Sei que vc e muitos outros companheiros de blog e comunidade gostam de coisas novas, de bandas mais recentes. Mas a grande maioria idilatra as décadas de 60, 70 e 80. E as bandas dessa época começaram a rarear. Por isso um show com o Focus, por exemplo, é algo que provavelmente o Brasil nunca mais terá. O Scorpions está em sua derradeira turnê. Não teremos mais Black Sabbath e nem o Heaven and Hell... O David Bowie resolver que quer cuidar da família. Talvez muitos de nós viverão de assistir DVDs daqui a 20 anos.

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  2. Texto emocionante Cadão. Ainda não consegui assimilar a morte de Dio. Lembro até hoje o dia em que conheci Black Sabbath, 01 de julho de 1992. Com 9 anos, as palavras "satanismo", "magia negra" e "adoradores do diabo" me chamavam a atenção, tanto que eu era fã assíduo de Possessed e Slayer, e o jornal Zero Hora daquele dia estampava na contra-capa "O demonio estara entre nós". Lendo a matéria, vi que o Black Sabbath tocaria naquela noite em Porto Alegre, e que a Rádio Atlântida iria fazer um especial sobre a banda no decorrer da noite. Achei uma fita k7 toda esfolada, no meio da rua, indo assistir a minha aula da terceira série, e aquela fita passei limpando durante a aula para registrar o programa da atlantida. Pedro Osório acabará de sofrer a maior enchente da cidade, e ainda estavamos recuperando nossas coisas. Lembro direitinho de convencer o meu pai a arrumar o som de qualquer forma, no quarto mesmo, só para ouvir "o som do demonio". O programa começou com "The Wizard", passou por "National Acrobat", "Never Say Die" e várias outras clássicas da fase Ozzy. Curti pacas, mas não achei nada demoniaco, até surgir a voz de Dio com "Heaven and Hell", exatamente quando acabava minha fitinha. Meu corpo gelou! corri para meu armário e peguei a primeira fita que apareceu, uma com gravações do Metallica (cara, como a gente não esquece isso) e que também tinha Gipsy Kings. Foi naquela fita que fiz o registro de "Neon Knights", a música que mudou meu pensamento sobre o metal. Infelizmente só consegui gravar ela da fase Dio, pois depois veio "Trashed" e acabou o programa.
    Meses depois, comprava o Paranoid, e depois o Dehumanizer, que foi amor a primeira ouvida. "I", "TV Crimes" e "Computer God" são canções que lideram na minha preferencia do Sabbath. Com o passar dos anos descobri a carreira de Dio solo e também no ELF e no Rainbow, e virei mais fã ainda. Sempre que me perguntam "Dio ou Ozzy", respondo na lata "Deus!". Enfim, o paraíso está recebendo a Deus de forma prematura, deixando todos os bangers do mundo com saudades!

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  3. Fernando e Mairon, a morte de Dio definitivamente pegou todo mundo de surpresa. Também não assimilei ainda, acho que vou levar um tempo para isso acontecer.

    Muito legal o seu relato, Mairon. É impressionante como lembramos em detalhes, mesmo com o passar dos anos, aquelas experiências que marcaram nossas vidas.

    Long live rock´n´rol, e vamos em frente!

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  4. BElíssimo texto, Cadão! O último parágrafo então é sensacional, e nos faz pensar sobre algo que nunca desejamos enfrentar, a vida sem os personagens que dela fazem parte, sejam ídolos, amigos ou parentes...

    São situações que sabemos que virão, mas que nunca estaremos preparados quando elas chegarem. O mundo sem Dio fica menos "mágico", a música com certeza menos interessante, mas temos de seguir o caminho e superar as barreiras que se atravessam na estrada...

    Tomara que demore até enfrentarmos outras, e que elas não venham uma perto da outra (só este ano foram Peter Steele e Dio até agora... quem mais será? Tomara que ninguém...)

    Ah, se alguém duvidar de algo no relato do Mairon, eu assino em baixo, pois vivenciei o dia com ele...

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  5. Ivanildo Berardo18 de maio de 2010 18:03

    Parabéns pelas palavras, Cadão. Depoimento sincero e emocionante, assim como é a Música que nos legou o falecido Mestre. Estamos de luto.

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  6. Triste! Muito triste com a morte do Dio, fez parte de minha adolescência e saber que se foi, mas sua obra fica e irei ouvir bem Alto O LP Holy Diver!

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  7. Sem nenhum exagero, o heavy Metal está no mínimo orfão. Pelo menos a música de Dio permanecerá!

    abraços

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  8. Assisti ao Heaven & Hell ano passado, no dia 16/05, dia do meu aniversário de 30 anos. E, exatamente um ano depois, no dia do meu aniversário de 31, Dio morre. Muito triste isso.

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  9. Dio não morreu! Apenas deixou de gravar e fazer shows ;)

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  10. Não entendi. Tudo bem que essa é uma homenagem ao Dio, mas qual a coerência de escrever um ótimo texto sobre a renovação do estilo meses atras e depois colocar este ultimo paragrafo? Medo de imaginar o que vem pela frente depois de tanta empolgação e trabalho pra mostrar coisas novas e passar a ideia de que o estilo está vivo e saudavel?

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  11. A explicação é bem simples, Philipe: este texto sobre o Dio é de 2010, portanto bem antigo e muito anterior a este outro texto sobre a renovação do estilo que você cita em seu comentário.

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  12. Vi no facebook e achei que era texto novo... então tah certo ...

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  13. Pô, Ricardo. Não tinha visto esse texto lá em 2010, ou vi na época entre muitos que prestaram (a justíssima e inquestionável) homenagem ao grande Mestre DIO!

    Mas, realmente, vc fez soar meio "alarmista" e até saudosista, meio "GOL CONTRA" em relação ao que vc prega - e que, via de regra, é o que mais gosto do site.

    Tanto que costumo comentar aqui, e vc costuma ao menos nisso concordar, que, OBVIAMENTE, saudar o que há de novo e original no estilo JAMAIS significará renegar coisas feitas no passado, originais à sua época inclusive - e DIO é dessa figuras com um trabalho sempre muito sólido, acima da média e atemporal...

    tanto ficou contraditório que, recentemente, muitos concordaram que, apesar do álbum do Heaven And Hell ser muito competente (até por contar com o mestre!), ficava em tese muito atrás de outros trabalhos bombásticos e mais modernos daquele ano, e acabou "levando" a enquete mais no 'nome', em cima de outros como Mastodon, Lamb of God, DSO, etc.

    Com certeza, esses novos nomes apreciam DIO, como toda a cena. Mas "dar saudades" de outros tempo, com certeza não, ou não necessariamente... tampouco "temer pelo que vem pela frente", pelo contrário...

    abço!

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