16 de jul de 2011

15 de jul de 2011

Enquete da semana: ninguém bate o true-headbanger-from-hell!

sexta-feira, julho 15, 2011


Por Ricardo Seelig


O resultado da nossa enquete da semana foi o esperado. Perguntamos qual fã é mais chato, e demos três opções aos leitores. Veja abaixo o resultado:


O headbanger radical – 46%
O indie modernoso – 41%
O prog cabeção – 13%


Ou seja, o cara mais cabeça fechada do mundo, que, ao invés de apenas curtir a música faz do metal um gênero musical com mais regras e normas e proibições que uma seita formada por religiosos radicais, ganhou mais uma.


É o que eu sempre digo: o heavy metal é muito legal, o que estraga é o fã!


E daí, concorda com o resultado final?

Conheça a coleção de Luiz Gustavo, o capitão da New Wave of British Heavy Metal!

sexta-feira, julho 15, 2011


Por Ricardo Seelig


Luiz Gustavo, em primeiro lugar, apresente-se aos nossos leitores: quem você é e o que você faz?


Meu nome é Luiz Gustavo Diogo Ribeiro, sou natural de Alterosa (MG), uma cidade bem interiorana, mas bastante acolhedora, com apenas 11 mil habitantes. Tenho 33 anos, sou casado, tenho dois filhos e atualmente moro em São Miguel do Oeste (SC). Sou militar do Exército há 15 anos - possuo atualmente a patente de Capitão -, e graças a minha profissão tive a oportunidade de morar em várias cidades do Brasil, como Alterosa (MG), Campinas (SP), Resende (RJ), Rio de Janeiro (RJ), Recife (PE), Quaraí (RS) e agora no interior de SC.


Estou ajudando, no momento, meu amigo Filipe Slatanick na reconstrução do site Metalzone.


Qual foi o seu primeiro disco? Como você o conseguiu, e que idade você tinha? Você ainda tem esse álbum na sua coleção?


Meu primeiro disco foi o Restless and Wild do Accept. Já de algumas mãos, bem velho, e o pior que eu não tinha nem aparelho de som para botar ele para tocar. Tinha que ir para a casa de alguns amigos. Consegui de um cara de 24 anos, que disse, na época, “não tenho mais idade para ouvir metal”. Comprei bem baratinho. Tinha na época 12 anos, e ficou escondido por um bom tempo em casa. Este disco, quando mudei de Minas Gerais para Resende, deixei com um cara que estava começando.


Você lembra o que sentiu ao adquirir o seu primeiro LP?


Na minha cidade, na época - e acredito que em toda cidade pequena -, existia
uma coleção de discos comunitária. Alguns tinham LPs do Black Sabbath, outros do AC/DC, Metallica, enfim. Todos emprestavam seus discos, mas era preciso possuir material para fazer parte desta comunidade. Quando comprei o Restless and Wild entrei na turma. Comprei logo depois o Melissa do Mercyful Fate e o Blizzard of Ozz do Ozzy. A partir daí, entrei de cabeça no mundo do metal.




Porque você começou a colecionar discos, e com que idade você iniciou a sua coleção? Teve algum momento, algum fato na sua vida, que marcou essa mudança de ouvinte normal de música para um colecionador?


Eu comecei a colecionar a partir de 1994, com a explosão do CD. Foi paixão à primeira vista: som limpo, sem chiado, prático, não riscava quando você tomava uma cerveja e ia escutar som, etc. Passei todos os discos de vinil para frente e comecei a comprar os CDs. Eu tinha tanto ciúme destes CDs, pois eram bem mais caros que os discos de vinil, que acho que virei um colecionador aí, sem saber. O ciúme dura até hoje. Inclusive, prefiro guardar os CDs em gavetas fechadas, pra ninguém ficar mexendo.


Alguém da sua família, ou um amigo, o influenciou para que você se transformasse em um colecionador?


Família não - pelo contrário, sempre reclamaram, até já me acostumei. Hoje, minha esposa reclama e nem ligo. Nada muda, parece que é sempre a mesma história: som alto, CD caro, porque todos estes discos, você não escuta tudo. Como já viram que não adianta reclamar, na maioria das vezes fazem cara de 'paisagem'.


Agora amigos, sim: sempre tive amigos que incentivaram e ajudaram a comprar os CDs certos. Inclusive, eles que me incentivaram a mandar um e-mail para a Collector's Room.


Legal, cara! Inicialmente, qual era o seu interesse pela música? De que gêneros você curtia? O que o atraía na música?


A primeira banda de rock que ouvi foi o Queen. Gostei tanto que ganhei um fita k7 do álbum Live Killers. Apesar disso, o acesso, no meio da década de 80, a álbuns de rock para um garoto de 9-10 anos, era muito restrito. E eu, para piorar, não fazia parte do 'circulo de confiança' da comunidade de discos da cidade. Eu ouvia o que chegava até mim. Mas o rock sempre chamou a minha atenção.


Numa dessas idas e vindas bateu na minha mão uma fita do primeiro álbum do Iron Maiden. Eu já tinha uns 11 anos e achei aquilo superior a tudo que eu tinha ouvido, visto, acompanhado: “Prowler”, “Transylvania”, “Charlotte the Harlot”. Era muito som, nada se comparava com aquilo até então. Não sabia o que era NWOBHM, Iron Maiden, heavy metal, mas sabia que aquilo ali faria parte de minha vida para sempre. Passei a consumir o que tinha de metal disponível: Iron Maiden, Accept, Van Halen, Metallica, W.A.S.P., Saxon. Quando comecei a trabalhar, em 1994, gastei meu primeiro salário com CDs do Iron Maiden. O segundo e o terceiro também.


Sempre me atraiu no rock e, principalmente, no heavy metal, a energia que é passada nas músicas. A atitude, a rebeldia e, principalmente, a personalidade forte de muitos músicos, como Steve Harris, sempre me atraíram.






Quantos discos você tem?


Tenho cerca de 900 CDs, quase todos voltados para o heavy metal e hard rock oitentista. Não possuo mais nenhum vinil e poucos DVDs.


Qual gênero musical domina a sua coleção? E, atualmente, que estilo é o seu preferido? Essa preferência variou ao longo dos anos, ou sempre permaneceu a mesma?


Como disse acima, o gênero que domina minha coleção é o metal oitentista, com ênfase para a NWOBHM. Dentre esses CDs, tenho álbuns de 89 bandas diferentes da New Wave of British Heavy Metal, num total de 231 CDs do movimento. Tenho algumas coisas, ainda, de rock clássico.


A NWOBHM parece ser uma fonte inesgotável de ótimas bandas. É impressionante a quantidade de grupos que apareceram naquela época, e com boa qualidade. Assim, sempre acompanhei o movimento de perto. Mas com o tempo, a idade aumentando, comecei a ter acesso a mais bandas e, com certeza, o horizonte abriu. Mas a preferência pelo heavy metal oitentista se manteve inalterada.


Vinil ou CD? Quais os pontos fortes de cada formato, para você?


Vinil: o forte é a parte gráfica. O tamanho da capa, por exemplo, do Powerslave e do Somewhere in Time, permite uma imensidão de detalhes inimaginável num CD. Para alguns, é cult.


CD: é prático, o som é limpo, sem chiado, fácil, a conservação é muito mais simples, e quando você ouve tomando uma cerveja com os amigos não tem perigo de riscar quando troca a música.


Existe algum instrumento musical específico que o atrai quando você ouve música?


A guitarra, com certeza. Um bom guitarrista faz uma diferença danada. É só você ouvir o Tygers of Pan Tang antes de John Sykes (Wild Cat) e depois de John Sykes (Spellbound).






Qual foi o lugar mais estranho onde você comprou discos?


Digamos que não foi o mais estranho, mas o mais improvável de achar alguma coisa. Foi na Livraria Siciliano do Barra Shopping, no Rio de Janeiro. Fui com a família dar uma passeada e resolvi dar uma olhada nos CDs, só para constar. Tinha uma coletânea do Soldier, lançada pela Hellion em 2004, que eu já procurava há muito tempo e nada. Já tinha olhado em todas as lojas da Galeria do Rock e nada. Fui achar numa livraria de shopping, por R$ 9,99. De vez em quando vejo leilões, por esse CD, terminarem em mais de 100 dólares no eBay. Detalhe: passei lá um ano depois e ainda tinha um exemplar deste CD na livraria!


Qual foi a melhor loja de discos que você já conheceu?


A Blackout, em Recife, é ótima. Seu dono, o João Marinho, é um legionário do heavy metal, conhece tudo e tem muita coisa boa. Em São Paulo, na Galeria do Rock, é claro, tem a Mechanix, onde você acha muitas coisas dificílimas e até improváveis. O atendimento do dono da Mechanix, o Robson, é um diferencial.


Conte-me uma história triste na sua vida de colecionador.


Pode até ser nostálgica a época daquelas 'comunidades de discos', mas era muito triste. Alguém que queria começar, ouvir discos, só conhecer, ter que ter alguma coisa em troca para fazer parte. Hoje em dia é muito fácil, baixa-se tudo e coloca num pen-drive. Mas no final dos anos 80, início dos anos 90, era muito difícil.


Quando comecei a escutar som de verdade, minha família, como a de boa parte dos brasileiros no final dos anos 80, passava por muita dificuldade. Como as comunidades eram restritas a quem tinha material, somente fui conhecer algumas bandas quando comecei a trabalhar e fechei a coleção do Iron Maiden. Aí fui aceito pela comunidade.


Quando me mudei de Minas Gerais, passei todos os vinis, de graça, para um amigo que estava começando.





Como você organiza a sua coleção? Dê uma dica útil de como guardar a coleção para os nossos leitores.


Faço o que todos fazem: ordem alfabética, cronológica, protejo os digipaks, etc. A grande diferença é que não exponho os CDs. Coloco em gavetas de estantes que minha esposa projetou. Não tem perigo de criança mexer, amigo pedir emprestado, ficar metendo a mão, a esposa não vê o tempo inteiro, 'olho gordo', 'mão leve'. É menos bonito, mas mais seguro. Sou mineiro, desconfiado por natureza.


Além da música, que outros fatores o atraem em um disco?


Digamos que colecionar é bacana. Conseguir alguma coisa que você busca há muito tempo dá um prazer muito grande. Mas tem que ser original. Disso não abro mão. Não posso, com pirataria e downloads, matar aquilo que mais gosto.


Sobre coleção, eu gostaria de dizer que, diferente de muitos outros, eu coleciono música, heavy metal, NWOBHM. Prefiro ter vinte CDs diferentes a ter vinte de um mesmo título em versões diferentes. A música para mim sempre está em primeiro lugar.


Quais são os itens mais raros da sua coleção?


Esse negócio de raro é muito relativo, até porque, com um pouco de grana, você consegue quase tudo na internet. Às vezes o CD é raro, de repente é relançado, com bônus, encarte cheio de fotos, digipak, muito melhor que o original. Acredito que, no conjunto, tenho coisas difíceis, como a coleção Limited Edition do Iron Maiden de 1995 com o Eddie Archive, os CDs da British Steel (gravadora inglesa), algumas coleções, como do Tokyo Blade e do Tygers of Pan Tang. Hoje em dia existe apenas mais difícil e mais caro.


Você tem ciúmes da sua coleção?


Como disse anteriormente, nela nem minha esposa mexe. Passo um grande sufoco nas constantes mudanças por conta de minha profissão, mas, graças a Deus, até hoje nada aconteceu.





Quando você está em uma loja procurando discos, você tem algum método específico de pesquisa, alguma mania, na hora de comprar novos itens para a sua coleção?


O ideal é ir com uma relação, até para você comprar o que realmente quer. Depois de comprar o que está nesta relação, se sobrou dinheiro, vale a pena conversar com o vendedor ou dar uma procurada com calma. Ir no branco, e pior, em promoções, só serve para comprar o que não quer e encher a sua coleção de porcarias.


O que significa ser um colecionador de discos?


Significa manter acesa uma chama. É dedicação por muitos anos. É algo meio passional, sem explicação em palavras. Só quem recebe aquele disquinho que procurava há muito tempo e bota pra tocar sabe o que é.


O que mudou da época em que você começou a comprar discos para os dias de hoje, onde as lojas de discos estão em extinção? Do que você sente saudade?


Não tenho saudades do início. Era tudo muito difícil. Começar era difícil. Havia muitas lojas, mas também muita gente amadora. As boas lojas da Galeria do Rock ainda estão de pé. O João Marinho, da Blackout, está forte como nunca em Recife. O público do heavy metal é muito fiel e não deixa de comprar. Abomino o download e a pirataria, que atenta contra aquilo que tanto gosto, mas eles não atingem tanto o metal quanto os outros estilos musicais. O que sinto saudade daquela época é que apareciam mais bandas boas do que hoje.


O que o levou a focar grande parte da sua coleção na New Wave of British Heavy Metal?


Sempre adorei o Iron Maiden. Mas quando descobri que outras bandas (várias, inclusive) gravaram CDs tão bons como os do Maiden (Tokyo Blade, Diamond Head, Elixir, Tygers of Pan Tang, Jaguar, …) vi um filão que, com certeza, supriria minha necessidade de heavy metal tradicional durante os hiatos de lançamento dos medalhões da NWOBHM.




Pra você, que diferenciais as bandas da NWOBHM tinham que levam pessoas como você, passadas três décadas da explosão do movimento, ainda cultuar aqueles grupos?


O metal inglês é diferente. É simples, mas é intenso, passa muita energia. Até a falta de produção, não sei, faz o som diferente. Aqueles riffs de guitarra puros, o vocal tipicamente inglês, o baixo pulsante, os solos. Você pega um CD de umas bandas desconhecidas como o Salem, Milenium, Chain Lightning, Chevy, e percebe que faltou oportunidade e divulgação. Capacidade elas tinham de sobra.


Fora os medalhões, quais são, pra você, as melhores bandas da NWOBHM?


Vou mandar as tradicionais dez. Vou julgar como medalhões o Iron Maiden, Saxon, Diamond Head, Angel Witch, Raven, Tank e o Def Leppard. Estou cometendo injustiças, mas vá lá:


1. Tokyo Blade
2. Chateaux
3. Pagan Altar
4. Elixir
5. Grim Reaper
6. Holocaust
7. Witchfinder General
8. Jaguar
9. Fist
10. Spartan Warrior


Qual foi, na sua opinião, a banda mais injustiçada da New Wave of British Heavy Metal, aquela que merecia ser muito maior do que realmente acabou se tornando?


Quase todas essas bandas, citadas anteriormente, estão na ativa, menos o Chateaux e o Grim Reaper. Quem conhece o Chateaux sabe que seus três álbuns são espetaculares. Seu fim foi muito prematuro. Com certeza merecia melhor sorte. Os álbuns são dificílimos de serem encontrados, mas tem uma coletânea da Sanctuary que engloba tudo que a banda fez. Quem tiver a oportunidade de achar, pode pegar com certeza que não vai se arrepender.


O Grim Reaper acabou também, mas chegou a fazer algum sucesso, e seu vocalista, Steve Grimmett, vem lançando grandes álbuns até hoje.


O que você acha desse papo de que música boa só existiu nos anos 1960 e 1970, e de que hoje não se faz música de qualidade?


Minha coleção é calcada nos anos oitenta. Os anos noventa foram meio fracos, com grandes bandas como o Iron Maiden e o Judas Priest passando por entressafras. Exceção feita ao Talisman, com Jeff Scott Soto e Marcel Jacob. Mas a partir de 2000, muitas bandas, incluse da NWOBHM, lançaram ótimos CDs. Podem acompanhar os novos álbuns do Saxon, Tygers of Pan Tang, Pagan Altar, Fist, Jaguar, Witchfinder General, Diamond Head e Whitfynde. Tem muita coisa interessante nestes álbuns.


Qual é o melhor disco de 2011, até o momento?


Embora esteja um pouco diferente de seus grandes álbuns (Tokyo BladeNigth of the Blade), o novo álbum do Tokyo Blade, Thousand Man Strong, é muito bom. Com produção de Chris Tsangarides (o mesmo de Painkiller, do Judas Priest) e  com quatro de seus cinco membros originais, vale a pena uma conferida. O Forevermore do Whitesnake também é um destaque. Embora não seja de 2011, sugiro ainda o relançamento de Son of Odin, do Elixir, previsto para o final de junho.


Luiz Gustavo, muito obrigado pelo papo. Pra fechar, o que você está ouvindo e recomenda aos nossos leitores?


Muita NWOBHM, e sugiro o seguinte: Grimstine (com Steve Grimmett nos vocais), David Rock Feinstein (com participação de Dio), Y&T (Facemelter), Joe Elliott's Down'n'Outs (My Generation) e Lionsheart (todos).

Iron Maiden: leia o review de 'The Final Frontier' publicado na Classic Rock Magazine de agosto de 2010!

sexta-feira, julho 15, 2011


Por Dom Lawson
Tradução de Ricardo Seelig


Nota: 9


Se alguma vez houve um anúncio afirmando o poder da música pesada, o Iron Maiden estava nele. É claro que muitas bandas em um posição similar, com trinta anos de álbuns e turnês nas costas e avistando a aposentadoria no horizonte, teriam há muito tempo abandonado qualquer pretensão de que o processo criativo continuaria sendo a sua principal força motivadora, mas, de alguma forma, o Maiden, apesar de toda a nostalgia que cercou a Somewhere Back in Time Tour, manteve o controle de suas faculdades artísticas e de sua fortíssima credibilidade.


Desde 2000, quando o recém reformulado line-up “clássico” lançou Brave New World e deu início a uma escalada constante de volta ao todo da montanha do metal, o Iron Maiden tem mostrado características que bandas com esse tempo de estrada raramente são capazes de alcançar. Através do variado - porém fascinante - Dance of Death (2003) e do sombrio - mas progressivo - A Matter of Life and Death (2206), Steve Harris e seus colegas conseguiram reinventar o seu som característico. Mas, até mesmo dentro dos altos padrões estabelecidos pelo Maiden, The Final Frontier é um salto ousado e surpreendente para o desconhecido.


Tudo começa com “Satellite 15”, um turbilhão, uma tempestade meio industrial com riffs e sons destinados a confundir tudo na cabeça dos fãs. A introdução sombria, estranha e maliciosamente confusa é astutamente compensada pela pancada da faixa-título, que entra em ação abruptamente após alguns minutos caóticos. Como sempre, graças em parte à produção vibrante de Kevin Shirley, o Iron Maiden soa fantástico: uma grande banda revelando sua própria linguagem bombástica e colocando-a para fora de seu corpo.


Mas como este álbum de 76 minutos move-se para frente, é óbvio que ele não soa como de costume. Na verdade, como A Matter of Life and Death e mais ainda, The Final Frontier leva a banda para tantos novos caminhos musicais e bombardeia o ouvinte com tantas características peculiares que nos sentimos no início de um novo capítulo e não na mera continuação de uma saga em curso.


Até mesmo o single do disco, “El Dorado”, que foi recentemente disponibilizado para download gratuito e estreou na turnê americana que antecedeu o lançamento do trabalho, desvia-se acentuadamente da fórmula de composição habitual do Iron Maiden, oferecendo frescor a uma sonoridade que admiravelmente tem resistido a três décadas de modismos. Há outras canções que também misturam o familiar com o inesperado. “Mother of Mercy” entra em erupção como a angústia de um vulcão, com sua avalanche de riffs sendo contida pelos ótimos vocais de Bruce Dickinson, enquanto “The Alchemist” se encaixaria perfeitamente em Fear of the Dark (1992). Da mesma forma, a balada “Coming Home”, com um coro crescente, certamente irá reduzir homens adultos a destroços choramingantes quando for tocada ao vivo.


Mas é nos grandes épicos que The Final Frontier realmente ilumina o fogo ardente no coração do núcleo criativo da banda. Com o guitarrista Adrian Smith tendo um papel de destaque como compositor no Iron Maiden atual, a banda voltou a explorar texturas que foram deixadas de lado durante a sua ausência do grupo nos anos 90. Como resultado, canções como “Isle of Avalon” e “Starblind” trazem cores variadas e profundidade para o álbum. Enquanto isso, as mudanças de ritmo selvagens e as harmonias articuladas de “The Man Who Would Be King” e “The Talisman” oferecem um equilíbrio sublime entre a coragem de seguir novos caminhos e os riffs pesados que os desbravam.


O melhor de tudo, porém, é o encerramento com “When the Wild Wind Blows”, um épico de 11 minutos escrito por Steve Harris que brilhantemente evoca o horror mundano do conto de Raymond Briggs, celebrando o apocalipse com uma série de reviravoltas, delicadas melodias e mudanças de atmosferas suficientes para atordoar um dos amados Boeings de Bruce Dickinson.


Extremamente denso e rico em camadas sonoras, The Final Frontier não é um álbum para ser digerido em uma única audição e testa a vontade do ouvinte casual – mas o Iron Maiden nunca precisou do apoio dessas pessoas. Os fiéis, aos milhões, vão adorar até o último segundo.

14 de jul de 2011

Ghost: resenha do álbum 'Opus Eponymous' (2011)!

quinta-feira, julho 14, 2011

Por Ricardo Seelig


Nota: 9


Não há muita informação a respeito do Ghost. O que se sabe é que a banda surgiu na Suécia em 2008, gravou uma demo em 2010 e lançou o seu primeiro álbum, Opus Eponymous, em 18 de outubro do ano passado na Europa. O disco chegou ao mercado norte-americano em janeiro de 2011, e desde então o nome e a reputação do grupo vêm crescendo entre os aficcionados por heavy metal.


Ninguém sabe quem são os músicos que formam o conjunto, já que eles só aparecem em público embaixo de pesada maquiagem e figurinos que variam entre monges para os instrumentistas e o mais alto posto da Igreja Católica para o vocalista, o que dá ao cantor um ar de 'papa satânico'. Em uma linha evolutiva do estilo, o Ghost seria uma espécie de filho bastardo de Alice Cooper e do Kiss.


Mas o impacto visual não seria suficiente caso a música também não fizesse a sua parte, e ela impressiona. O primeiro ponto que salta aos ouvidos é que o álbum parece ter sido gravado no final dos anos 70, soando próximo de alguns dos principais nomes daquela década e sem um pingo da evolução pela qual passou o heavy metal nos últimos trinta anos. As principais influências do Ghost são bandas clássicas como Black Sabbath, Judas Priest, Pentagram, Blue Oyster Cult e Coven, além de algumas pitadas do rock psicodélico do final dos anos sessenta. O resultado é uma música relativamente simples, sem arranjos complicados ou passagens exageradamente técnicas, e que retoma algumas características marcantes do metal setentista, como a melodia e a acessibilidade – sim, a acessibilidade, no sentido em que as composições cativam o ouvinte de primeira, grudando na cabeça e tornando a audição do trabalho um ato contínuo.




O som é orgânico, vivo, pulsante. O peso não está somente nas guitarras, mas sobretudo na atomosfera das composições. O vocalista Papa Emeritus não grita, não distorce a sua voz, apenas canta de forma limpa, explorando falsetes que remetem a King Diamond. Os guitarristas despejam riffs e solos na melhor escola do metal clássico, enquanto o tecladista é o principal responsável por dar um clima único às faixas com o seu instrumento, fazendo as composições, todas com letras claramente satânicas, soarem com um clima religioso instigante.


Com apenas nove faixas e 35 minutos, Opus Eponymous é um disco inesperado, que entrega uma surpresa agradável a cada composição. Na contramão das generosas doses de agressividade e rapidez que assolam o heavy metal atual, traz uma sonoridade rica em climas, o que torna a sua audição próxima a uma experiência sensorial. Os maiores destaque estão em faixas como “Con Clavi Con Dio”, a excelente e já hit “Ritual”, a ótima “Elizabeth” - dedicada à Condessa Elizabeth Bathory -, “Stand by Him”, “Prime Mover” e a admirável instrumental “Genesis”, que encerra o álbum de maneira perfeita.


Ninguém estava esperando por algo como o Ghost. Talvez, justamente por causa disso, seu álbum de estreia soe tão bem aos ouvidos. A banda não reinventou a roda, apenas gravou um senhor disco, que traz para 2011 algumas das principais características do heavy metal que, com o passar dos anos, foram sendo deixadas para trás. Esse é o principal mérito de Opus Eponymous.


Se você gosta de metal, não dá pra deixar passar!




Faixas:
1 Deus Culpa 1:33
2 Con Clavi Clon Dio 3:33
3 Ritual 4:28
4 Elizabeth 4:01
5 Stand by Him 3:56
6 Satan Prayer 4:38
7 Death Knell 4:36
8 Prime Mover 3:53
9 Genesis 4:03

Entrevista que dei para o amigo Thiago Cardim, do blog Observatório Nerd!

quinta-feira, julho 14, 2011




Thiago Cardim - Os recentes avanços digitais definitivamente mudaram o mundo da música, para o bem ou para o mal, seja entre os artistas, seja nas salas dos executivos engravatados, seja na forma de consumir a música como produto. Estas mudanças também trouxeram algum tipo de mudança para a atividade de crítico musical?


Ricardo Seelig - Hoje, o acesso à informação é muito mais fácil. Até pouco tempo atrás, um lançamento chegava bem antes na mão de um crítico do que do público em geral. Hoje, discos vazam toda semana, mas a opinião diferenciada de um bom crítico musical continua sendo importante. A diferença principal que eu vejo é que essa nova realidade permite uma troca de informações muito interessante com os ouvintes, que ao lerem uma crítica podem ouvir o álbum no mesmo momento e compartilhar as suas impressões com o autor do texto. Escrever sobre música é uma atividade muito prazerosa, mas ao mesmo tempo vem com uma responsabilidade imensa. Um crítico tem que conquistar a sua reputação junto ao ouvinte, que vai percebendo que tal jornalista tem opiniões parecidas com as suas e, assim, vai aprendendo a confiar mais em determinados críticos do que em outros. Em termos práticos, a principal mudança é que antes as gravadoras enviavam os álbuns ou os promos em formato físico para as resenhas, e hoje muitas delas apenas disponibilizam arquivos digitais para audições, o que, ao meu ver, torna a avaliação do material incompleta não só pela qualidade sonora inferior, mas também porque um álbum não se resume somente à música que ele contém, mas também a todo o conceito gráfico por ele proposto.


Num mundo no qual qualquer um pode postar sua opinião em qualquer canto da web de qualquer canto do mundo, você acha que se "desvalorizou" ou "descredibilizou" de alguma forma o trabalho dos críticos mais profissionais, digamos assim?


Acho que não, Thiago. Essa nova realidade democratizou mais a coisa, tornando possível a qualquer um dar a sua opinião sobre qualquer assunto, mas é preciso separar o joio do trigo. No geral, a opinião do fã vem carregada de uma paixão e uma parcialidade imensas, o que torna a sua avaliação bastante questionável. Já com um crítico musical – pelo menos com os que levam essa atividade a sério – isso não acontece. E mais: não é porque a internet tornou possível qualquer um publicar um texto que a atividade do crítico musical caiu em descrédito. Um crítico diferenciado, além do conhecimento musical privilegiado, tem um estilo próprio em seu texto, uma forma ímpar de analisar uma obra, uma bagagem por trás de cada resenha. Não dá para comparar, por exemplo, a opinião e o texto de um fã ou internauta qualquer com o que escrevem caras como Ricardo Batalha, Bento Araújo, Sérgio Martins, Regis Tadeu, Fábio Massari e Kid Vinil, por exemplo. O conhecimento e a experiência fazem uma grande diferença no resultado final, e continuarão sempre fazendo.


Ser crítico e ao mesmo tempo um fã tão apaixonado por música é, de alguma forma, um contrasenso? Você consegue equilibrar estes dois lados e, se for o caso, ser duro com o lançamento de uma banda favorita, caso seja necessário?


Acredito que esse é um processo pelo qual toda pessoa que resolve escrever sobre música passa. A maturidade e a experiência fazem com que a gente aprenda a separar as coisas. É claro que isso se dá com alguns erros e pisadas de bola pelo caminho (no meu caso, procurem uma resenha do álbum Dance of Death do Iron Maiden no Whiplash e percebam isso), mas esse processo faz parte do aprendizado de cada um. Falando exclusivamente da minha experiência pessoal, sou um grande fã do Iron Maiden, e, tendo isso em mente, sempre procuro me policiar quando escrevo sobre a banda. Não quero que meus textos sobre o Maiden sigam o caminho daqueles publicados sobre a banda na Rock Brigade, por exemplo, onde, por mais questionáveis que fossem os trabalhos lançados pelo grupo, eles sempre era elogiados. É um processo demorado e difícil, mas necessário para quem se propõe a escrever sobre música.


Na sua opinião, quais são as três principais virtudes que um bom crítico musical precisa ter - e qual é aquele pecado mortal que ele jamais poderia cometer?


Eu gosto de críticas que fazem pensar, que apresentam um raciocínio a respeito da obra analisada para o leitor. Acho resenhas que se limitam apenas a listar as faixas de um álbum muito limitadas. Gosto de reviews que analisam a obra como um todo, de forma completa. Para mim, as principais virtudes de um bom crítico são a capacidade de análise de uma obra, ter um texto com identidade própria e não ter medo de falar a verdade sobre a obra analisada, seja um elogio ou uma crítica mais pesada. E o pecado mortal é produzir textos com o rabo preso, não falar mal de tal disco porque tem uma relação pessoal com a banda ou com a gravadora. Eu acho que, no geral, principalmente na crítica especializada em heavy metal aqui no Brasil, falta um posicionamento mais claro por parte da maioria dos resenhistas, que parecem ter medo de falar o que pensam sobre determinados álbuns e artistas. É preciso ter posições mais claras e sair de cima do muro. Não dá pra ter medo de falar mal de um álbum do Iron Maiden, por exemplo, se a sua opinião sobre o disco for essa. Quando uma crítica é bem escrita e tem bons argumentos, eu posso até não concordar com a opinião do autor, mas vou respeitá-la. Agora, quando ela é vazia e elogia por elogiar ou malha apenas por malhar, sem maiores justificativas, ela não serve para nada e é apenas um amontoado de palavras sem sentido.


Você já passou pela situação de ter o próprio artista do disco resenhado vindo comentar - bem ou mal, quem sabe - sobre a sua resenha?


Não. Acho que o fato de eu não morar em São Paulo – resido em Florianópólis -, onde as coisas acontecem e onde a maioria das bandas está, me dá uma certa autonomia. Não tenho relação pessoal com nenhuma banda ou veículo, e isso faz com que eu não tenha o rabo preso. Nenhuma banda veio tirar satisfação comigo sobre uma resenha até hoje, mas aí se aplica o seguinte pensamento: “você é um bom crítico até falar mal de algo que eu gosto”. O que já aconteceu, acontece e sempre acontecerá são os fãs tomando as dores de determinado grupo e partindo pra cima em fóruns e redes sociais, alguns inclusive enviando e-mails me ameaçando de agressão. Isso ocorreu recentemente devido a uma crítica que fiz para o novo álbum do Arch Enemy, e já ocorreu antes com resenhas de discos para bandas como Primal Fear e o próprio Iron Maiden. Mas, sinceramente, são reações a que nós, que escrevemos sobre música, estamos sujeitos. Outro ponto que acontece frequentemente comigo é que, por eu ouvir diversos estilos musicais e deixar isso claro, uma parcela considerável de leitores acha que eu não posso avaliar um álbum de heavy metal por já ter escrito textos sobre jazz, blues, MPB e afins. Mas, nesses casos, gosto de provocar o leitor e levar até ele textos que eu sei que causarão estranheza, como foi o caso recente de um review que escrevi para o último álbum da Lady Gaga. Enfim, concluindo, quem escreve sobre música está sujeito a reações adversas sobre o seu trabalho, e se elas vierem argumentadas e com um pingo de bom senso e educação serão levadas em conta, mas quando descambam para a agressão pura e simples acabam sendo ignoradas e viram piada.

13 de jul de 2011

12 de jul de 2011

Graveyard: review do álbum 'Hisingen Blues' (2011)!

terça-feira, julho 12, 2011


Por Ricardo Seelig


Nota: 9,5


O Graveyard surgiu em 2006 na Suécia. Formado por Joakim Nilsson (vocal e guitarra), Jonatan Ramm (guitarra), Rikard Edlund (baixo) e Axel Sjöberg (bateria), o grupo lançou em 25 de março o seu segundo álbum, o espetacular Hisingen Blues (infelizmente não há previsão de uma versão nacional para o trabalho). A qualidade apresentada pelo Graveyard em Hisingen Blues leva o ouvinte às alturas, em uma viagem sonora não menos que incrível.


O que sai das caixas de som é um hard rock com pitadas de blues que parece ter sido gravado por alguma banda obscura no início da década de 70 e permanecido inédito até agora. Há influências de nomes como November e Groundhogs na sonoridade do Graveyard, mas os caras vão muito além. Ao dar o play, o clima retrô invade o ambiente de tal maneira que é impossível não se sentir em 1971, com os cabelos caindo pelos ombros, calças boca de sino e tudo mais. Os timbres, a produção, o clima, as composições, tudo remete à estética setentista, mas sem soar como uma mera cópia. A identidade da banda é essa, como se fossem músicos deslocados no tempo – ou, em outro ponto de vista, caras com a missão de fazer o rock soar como ele deve soar, e não com toda a maquiagem e falsa atitude dos tempos atuais.


A principal diferença entre o Graveyard e outros nomes que exploram essa estética anos 70 está no fato de que, ao contrário de nomes como Wolfmother, por exemplo, onde essa característica é apenas mais um elemento na identidade da banda, no caso do Graveyard a sonoridade setentista é a alma, a essência, o núcleo através do qual tudo se desenvolve.




As faixas se alternam entre momentos mais acelerados e outros mais viajantes. No primeiro caso, destaque para a ótima faixa-título, com ecos de Led Zeppelin e guitarras envenenadas. Mas é nas canções mais lentas que todo o poderio do Graveyard vêm à tona. A capacidade da banda em criar atmosferas esfumaçadas e climáticas é atordoante, inserindo pequenas pitadas de psicodelia ao seu hard rock com uma precisão cirúrgica. O resultado são composições brilhantes, que fazem o ouvinte partir sem rumo por dimensões desconhecidas ao encontro de todas as suas vidas passadas. “No Good, Mr Holden”, a transcedental “Uncomfortably Numb”, a instrumental “Longing” e “The Siren” nasceram para serem tocadas pela agulha virgem de um toca-discos, para despertar em cada adolescente a paixão pelo rock, para reunir os amigos ao redor do aparelho de som em uma comunhão coletiva, para colocar ambientes em câmera lenta, para fazer filhos mostrarem com orgulho uma banda do seu tempo que soa como seus pais sempre quiseram, e para pais se unirem aos seus filhos não apenas pela herança biológica, mas também por uma aliança tão forte quanto: a afinidade musical.


Com certeza absoluta e sem medo de errar, Hisingen Blues será presença certa não só na minha lista de melhores álbuns de 2011, mas também na de muita gente por aí. Dê um presente a si mesmo e ouça um dos melhores álbuns gravados nos últimos anos!




Faixas:
1 Ain’t Fit to Live Here 3:06
2 No Good, Mr Holden 4:47
3 Hisingen Blues 4:13
4 Uncomfortably Numb 6:11
5 Buying Truth (Tack & Förlåt) 3:27
6 Longing 4:49
7 Ungrateful Are the Dead 3:10
8 RSS 3:49
9 The Siren 6:01

Saudades do White Stripes? Ouça duas músicas inéditas do grupo!

terça-feira, julho 12, 2011


Por Ricardo Seelig


O White Stripes encerrou as suas atividades, mas começa a surgir material inédito direto do baú de Jack e Meg White. Pintaram na rede hoje duas músicas inéditas da dupla. Ok, são dois covers, mas ambos são sensacionais.


A primeira é uma versão para a bela “Signed D.C.”, de Arthur Lee, e a segunda é uma releitura de “I've Been Loving You Too Long”, de Otis Redding.


Ambas valem o play, e deixam saudade do grupo:







Floripa blues e rock: conheça a coleção de André Leite!

terça-feira, julho 12, 2011


Por Ricardo Seelig  


André, em primeiro lugar, apresente-se aos nossos leitores: quem você é e o que você faz?


Ricardo, meu nome é André Luis Leite; tenho 40 anos, sou economista e professor universitário.


Qual foi o seu primeiro disco? Como você o conseguiu, e que idade você tinha? Você ainda tem esse álbum na sua coleção?


Como muita gente da minha geração, comecei a ouvir rock em 1983, quando o Kiss veio pela primeira vez ao país. Assim, meu primeiro disco foi Killers do Kiss, uma bela coletânea com quatro músicas inéditas na época. Hoje eu tenho em CD.


Você lembra o que sentiu ao adquirir o seu primeiro LP?


Lembro que tomei dois ônibus para ir até à loja e comprar o disco. Cheguei e pedi um disco do Kiss. Só tinham o Killers e foi o que comprei. Show de bola! Difícil falar o que senti, mas a ansiedade para chegar em casa e escutá-lo era grande. Esse disco foi muito tocado num pequeno aparelho que eu tinha no meu quarto.




Porque você começou a colecionar discos, e com que idade você iniciou a sua coleção? Teve algum momento, algum fato na sua vida, que marcou essa mudança de ouvinte normal de música para um colecionador?


O marco inicial da minha coleção foi justamente o Killers do Kiss. A partir daí eu e outros garotos do colégio começamos a ir atrás de discos em lojas e sebos. Especialmente de bandas como Iron Maiden, Led Zeppelin, Beatles, Stones, Floyd, dentre outras, que começávamos a descobrir naquela época.


Acho que comecei a me tornar colecionador de fato com o meu primeiro disco. A partir daí, não parei mais. Creio que os amigos do colégio contribuíram bastante, pois criamos uma rede na qual emprestávamos os LPs que comprávamos. Além dos discos, eu tinha muitas fitas cassetes gravadas com os álbuns que meus amigos emprestavam. Mas, só garanto que minha vontade era sempre comprar discos ou ganhá-los de presente. Era o que eu pedia sempre de presente.


Alguém da sua família, ou um amigo, o influenciou para que você se transformasse em um colecionador?


A princípio, ninguém. Embora meus pais, especialmente minha mãe, costumassem ouvir música com frequência em casa. Mas também ninguém foi contra.


Inicialmente, qual era o seu interesse pela música? De que gêneros você curtia? O que o atraía na música?


É difícil explicar um sentimento, mas como sempre passava muito tempo sozinho, a música ajudava a viajar e sonhar. Lembro que quando comprei Back in Black pela primeira vez, aos 14 anos, eu costumava ouvi-lo antes de dormir nos sábados à noite.


O rock dominou minha coleção inicialmente. No Brasil naquela época, para os mais novos entenderem, era difícil termos acessos a muitas bandas - ainda vivíamos resquícios do regime militar e o mercado fonográfico era pequeno. Lembro de certa vez em que o clipe de “The Last in Line” do Dio passou no Fantástico (isso mesmo, no Fantástico da Globo!) e, no dia seguinte fui atrás do disco, que ouvi em demasia também.


O mercado editorial também era pequeno, logo, a informação disponível para o público também era bem restrita. Há bandas dos anos 60 e 70, que só fui descobrir recentemente com a internet e com relançamentos em CD.




Quantos discos você tem?


Hoje tenho em torno de uns 1.200 CDs. Uma coleção modesta perto de outras que já apareceram na Collector´s Room, mas é minha e gosto muito dela (risos). Ainda há muita coisa que quero comprar, e quando digo para meu amigo Marcelo Peixoto que não tenho determinado CD, como, por exemplo, o primeiro do King Crimson, ele diz: “Falha grave na tua coleção”. Ainda quero consertar as falhas graves (risos)


Qual gênero musical domina a sua coleção? E, atualmente, que estilo é o seu preferido? Essa preferência variou ao longo dos anos, ou sempre permaneceu a mesma?


Em essência o rock dos anos 60 e 70, mas também tem muito blues, jazz, música brasileira e musica clássica, que escuto nas horas de estudo.


Vinil ou CD? Quais os pontos fortes de cada formato, para você?


Acho que o CD tem a praticidade do armazenamento, ocupa pouco espaço físico, e o vinil tem um charme todo especial. Hoje, com bons equipamentos, é possível extrair o melhor dos dois formatos. Aliás, acho que, independente do formato, um colecionador tem que ter um bom equipamento.


Existe algum instrumento musical específico que o atrai quando você ouve música?


Guitarra, que, com muito custo, tento aprender, mas ainda sofro com o tempo da música (risos). Sempre fui fã de grandes guitarristas.





Qual foi o lugar mais estranho onde você comprou discos?


Um dia, quando ainda estudava na UFSC, numa feira de alimentos naturais tinha uma barraquinha vendendo livros e CDs, novos e usados. Achei o Pet Sounds dos Beach Boys lacrado e por um preço muito bom. Comprei na hora!


Qual foi a melhor loja de discos que você já conheceu?


Difícil dizer. Mas, lembro de tomar um choque positivo quando fui a Nova York no início dos anos 90 e entrei na HMV. Embora fosse uma megastore, conceito que hoje conhecemos bem no Brasil, os atendentes eram muito bem preparados e as seções de CDs muito bem distribuídas. Sai de lá endividado, após comprar uns 50 CDs.


No Rio, gostava muito da Modern Sound, em Copacabana. Seu fechamento foi até tema de reportagem do Jornal Nacional. Porém, como sempre preferi as lojas de menor porte, minha loja favorita era a Hot Music, aqui em Florianópolis, dos meus amigos Marcelo Peixoto e Fábio Alves, que infelizmente não mais existe. Mas era uma referência importante na cidade, pois os donos são experts em música e traziam discos bons, nacionais e importados. Comprei muita coisa legal lá.


Conte-me uma história triste na sua vida de colecionador.


Ter me desfeito da minha coleção em vinil. Hoje em dia, me arrependo muito de ter me desfeito da minha coleção de vinil. Embora eu tenha substituído todos meus LPs por CDs, gostaria de poder tê-los de volta pelo prazer de curtir a arte das capas. Tinha, por exemplo, todos do Led, inclusive o The Song Remains the Same com a capa original, com cenas do filme. Tinha também um vinil do Kiss promocional que só saiu no Brasil com quatro músicas, que era alusivo à turnê deles em 1983.




Como você organiza a sua coleção? Dê uma dica útil de como guardar a coleção para os nossos leitores.


Organizo por gênero e ordem alfabética. Além do mais, mandei fazer uma estante para armazená-los (que já está ficando pequena - risos). Os CDs com embalagens do tipo digipak guardo envoltos em plásticos.


Além da música, que outros fatores o atraem em um disco?


A música, sem dúvida, é o principal. A capa também é uma forma de arte à parte. Mas, sempre é legal comprar um bom disco, que contenha muitas informações sobre as músicas ali contidas, tais como letras, os músicos que participam, por exemplo. Por isso, nos últimos anos tenho procurado comprar caixas de um artista ou edições especiais de um determinado CD.


Quais são os itens mais raros da sua coleção?


Tenho poucas raridades, mas tenho um CD do Traveling Wilburys (Volume Twoque não foi lançado oficialmente, e a banda ainda contava com o grande Roy Orbison. Tenho também um CD chamado Singles do Iron Maiden, muito legal, só com covers. Tem cover do Nektar, Jethro Tull, Led, entre outras bandas.


Outros itens que gosto bastante são dois do John Mayall e um do Buddy Guy, os três devidamente autografados. E uma caixa dos Stones que saiu no Japão,  contendo todos os CDs que eles lançaram nos anos 1960 em formato de mini-vinil. Tenho também dois CDs folheados a ouro: o Abraxas do Santana e o novo do Clapton.


Você tem ciúmes da sua coleção?


Sem dúvida.




Quando você está em uma loja procurando discos, você tem algum método específico de pesquisa, alguma mania, na hora de comprar novos itens para a sua coleção?


Não tenho um método específico. Mas, quando sei o que quero, fica mais fácil. Nas grandes lojas os discos estão organizados por ordem alfabética e gênero, logo fica mais fácil ir atrás do que quero.


O que significa ser um colecionador de discos?


Colecionar é um hobby. Em primeiro lugar, discos formam uma coleção que, diferentemente da maioria dos colecionáveis, podemos usar. Além do mais, colecionar discos nos leva a outra dimensão, já que é algo que transcende o plano físico, pois, ao ouvirmos os itens de nossas coleções, nos transportamos para nossa viagem particular. Para mim, colecionar discos é valorizar e respeitar a música como uma forma de arte.


O que mudou da época em que você começou a comprar discos para os dias de hoje, onde as lojas de discos estão em extinção? Do que você sente saudade?


Hoje, compro CDs pela internet. É bacana, mas perde aquele charme da pronta-entrega e da ansiedade para chegar em casa e ouvir o disco comprado. Além do mais, na loja muitas vezes trocamos boas informações com os vendedores ou outros clientes. Fiz excelente amigos em lojas de discos, por isso tenho bastante saudades de ir a uma boa loja . Como disse o Nick Hornby, “uma loja de discos não salva sua vida, mas a torna bem melhor”.





O que você acha desse papo de que música boa só existiu nos anos 1960 e 1970, e de que hoje não se faz música de qualidade?


Acho que em todas as épocas há música boa e ruim. A questão hoje é que as gravadoras, provavelmente devido à queda no faturamento, não tomam mais risco e não gravam artistas desconhecidos ou gêneros com menor apelo mercadológico. Daí, a mídia de massa aposta em gêneros musicais de qualidade inferior, ou aquilo que está tendo sucesso na internet, assim a grande massa acaba apenas consumindo, em sua maioria, este tipo de música.


Além do mais, na maior parte das cidades há pouco espaço para músicos novos divulgarem seu trabalho autoral. Por isso, aparentemente, há muita coisa ruim sendo feita. Mas há milhares de artistas, independentes ou não, que resistem aos modismos e ainda fazem música de qualidade. A vantagem é que hoje, com a internet, podemos conhecer uma banda do outro lado do país, ou até mesmo estrangeira, e ver que há bastante gente fazendo música legal.


Qual é o melhor disco de 2011, até o momento?


O único CD de 2011 que ouvi até agora é o novo do R.E.M.. Excelente! Grande banda. Gostei muito de tê-los visto ao vivo em 2008. Poderiam voltar ao Brasil.


André, muito obrigado pelo papo. Pra fechar, o que você está ouvindo e recomenda aos nossos leitores?


Ricardo, para mim, foi uma honra. Bom, além do novo do R.E.M., tenho escutado muito rock progressivo dos anos 70 e também Iron Maiden, já que não pude ir ao show desta turnê deles aqui no Brasil.


Porém, meu atual hobby é caçar os discos que estão listados no excelente livro Rock Raro, do Wagner Xavier. Abro uma página aleatória, leio e procuro o CD na internet. Tenho encontrado discos maravilhosos!

ONLINE

PAGEVIEWS

PESQUISE