27 de ago de 2012

Pink Floyd: crítica de A História de Wish You Were Here (2012)

Lançado em 12 de setembro de 1975, Wish You Were Here é o nono álbum do Pink Floyd e o sucessor do multi-platinado The Dark Side of the Moon, de 1973. Um dos discos preferidos dos fãs, é também o favorito de David Gilmour e do falecido Richard Wright, que declararam em entrevistas a sua predileção pelo trabalho.

A História de Wish You Were Here é um documentário escrito e dirigido por John Edginton, que já havia abordado a trajetória da banda em The Pink Floyd and Syd Barrett Story, produção de 2003 onde atuou como produtor. O filme, lançado agora no Brasil pela ST2, conta com entrevistas e depoimentos de Gilmour, Wright (cenas captadas em 2001, sete anos antes de sua morte, em 15/09/2008), Roger Waters, Nick Mason, Roy Harper, Brian Humphries (engenheiro de som do trabalho), Nick Kent (na época jornalista da NME e autor de uma crítica dura e agressiva a uma apresentação da banda, que teve um grande impacto junto aos músicos), Storm Thorgerson (um dos cérebros do Hipgnosis, estúdio que fez várias capas de discos clássicos ao longo dos anos, e autor da capa de The Dark Side of the Moon) e outras figuras que mantinham uma relação próxima à banda durante o período.

Ao passo que The Dark Side of the Moon transformou profundamente a vida dos músicos - a frase de Mason explicando que esperava que a coisa mudasse de figura quando a banda se apresentou no Top of the Pops no final dos anos 1960 é esclarecedora -, Wish You Were Here expôs a fissura entre as opiniões cada vez mais conflitantes de Roger Waters e David Gilmour. A dupla compôs várias faixas em parceria no disco, incluindo as mais do que clássicas “Shine On You Crazy Diamond” e a canção que dá nome ao álbum, mas divergiu enormemente sobre o direcionamento que a música do Pink Floyd deveria seguir dali para frente. 

O ápice desse desacordo aconteceu, provavelmente, na gravação da canção que abre o lado B de Wish You Were Here, “Have a Cigar”. Nem Waters nem Gilmour conseguiam chegar a um resultado satisfatório em seus vocais, levando a banda ao extremo. Roy Harper, que era chapa dos caras e estava gravando na sala ao lado dentro do amplo estúdio Abbey Road, passou para ver como estavam as coisas e, diante do conflito entre David e Roger, sugeriu que ele mesmo cantasse a letra, o que acabou sendo aceito pela banda. Mesmo assim, muita gente acabou nem percebendo a mudança, já que o timbre de Harper ficou muito parecido com o de Waters.


Mas o ponto principal de Wish You Were Here é Syd Barrett. O fundador e primeira força criativa do Pink Floyd esteve presente em tudo que envolveu a gravação do álbum, mesmo que não fisicamente. A primeira faixa gravada pelo grupo para o disco foi a arrepiante “Shine On You Crazy Diamond”, onde a letra brilhante de Waters fala de forma direta sobre o que aconteceu com Barrett. O depoimento de Richard Wright sobre a situação de Barrett, contando como, do dia para a noite, o músico se apagou e entrou em um limbo mental devido ao consumo excessivo de ácido, é arrepiante. O mesmo vale para os diversos momentos em que David Gilmour e Roger Waters falam sobre Barrett. Apesar de terem se passado mais de quarenta anos do acontecimento que literalmente apagou o cérebro de Syd, Gilmour e Waters se mostram claramente abalados com o fim que o parceiro levou, chegando quase às lágrimas ao recordar das suas experiências e amizade com Barrett. Esse ponto faz do documentário uma obra, ainda que curta - são pouco mais de uma hora de filme -, extremamente profunda, pois exterioriza de maneira clara a importância e onipresença que Syd Barrett sempre teve na obra do Pink Floyd.

Quando o grupo fala sobre a aparição repentina de Syd no estúdio, olhando os equipamentos sem que ninguém se tocasse de que era ele, é impossível conter a emoção. Barrett apareceu um dia em Abbey Road e ficou lá parado observando tudo com o seu olhar perdido, e só depois de um longo tempo o quarteto percebeu que era ele. O relato dessa situação pelas palavras de Mason, Gilmour e Waters é um dos momentos mais fortes do vídeo.

A estrutura do documentário é bastante semelhante aos itens da série Classic Albums, com o produtor ou engenheiro de som revisitando as fitas originais e tecendo comentários sobre a gravação, enquanto os músicos contam histórias do estúdio e tocam trechos das músicas. Outro ponto alto ocorre quando Storm Thorgerson conta como concebeu a capa de Wish You Were Here, relatando a maneira como foram produzidas as fotos de todo o encarte. 

Entre os extras, o ponto alto é a interpretação de Waters para “Wish You Were Here”. Sozinho em estúdio, acompanhado apenas pelo seu violão, Waters canta de forma cínica e seca, em uma versão que remete ao universo de Bob Dylan.


A História de Wish You Were Here relata uma das fases mais conturbadas e importantes da carreira do Pink Floyd, e mostra como a imensa capacidade criativa da banda foi capaz de superar um momento complicado e fazer surgir um de seus melhores discos. Assistir o documentário faz a gente entender ainda mais as delicadas engrenagens que mantém unida e fazem uma grande banda seguir em frente. Sem romantismo e expondo suas diferenças, o quarteto revê o seu passado e analisa como ele definiu o seu futuro. Sem meias palavras, sem máscaras e de maneira franca, é possível perceber como, muito mais do que um disco, Wish You Were Here se tornou uma declaração de amor a um amigo perdido e um manifesto da forma como o Pink Floyd acreditava que deveria ser a indústria musical.

Excelente, e ponto final!

Nota: 9

Um comentário:

ATITUDE disse...

Simplesmente linda e maravilhosa história... O Wish you were here é perfeito demais... Me arrepio no solo da have a cigar... Todas as músicas são perfeitas.

ONLINE

PAGEVIEWS

PESQUISE