Todo
mundo ficou empolgado quando, em 11 de novembro do ano passado, o
Black Sabbath anunciou o retorno de sua formação original com Ozzy
Osbourne, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward para a gravação de
um disco produzido por Rick Rubin e uma turnê mundial. Era o sonho
de milhões de headbangers ao redor do planeta virando realidade. Mas
será, mesmo, que ele se transformou em um pesadelo?
A
doença de Iommi, diagnosticado com um câncer no sistema linfático
no início de 2012, ligou a luz vermelha não apenas pelo possível
cancelamento de tudo que havia sido anunciado, mas, principalmente,
pela real possibilidade de o guitarrista, o pai do heavy metal,
perder a vida. No entanto, as notícias que chegam dão conta que
Iommi está reagindo bem ao tratamento e que, inclusive, já compôs
duas músicas inéditas desde que começou a árdua batalha contra o
câncer.
Mas
daí surgiu a questão Bill Ward. O baterista divulgou um comunicado
dizendo que não concordava com os termos do contrato proposto pelos
músicos restantes, e que se não houvesse a divisão em partes
iguais entre os quatro – ou seja, 25% para cada um dos músicos -,
ele sairia fora. Bem, vamos aos fatos. Em primeiro lugar, se o
contrato ainda não havia sido assinado, porque diabos a banda
divulgou a reunião então? Precipitação? É claro que não. Em uma
marca tão forte e gigante quanto o Black Sabbath, não há espaço
para o amadorismo. A notícia da reunião só foi anunciada porque as
quatro partes estavam de acordo. Se não fosse assim, ela jamais
teria sido confirmada. O que acontece é que Ward voltou atrás no
que havia concordado, querendo mais do que havia pedido.

Aqui,
é preciso fazer um parágrafo a parte. Quem trabalha com música
sabe que a carreira solo de Ozzy Osbourne é muito maior, em termos
comerciais – ou seja, venda de discos, shows e tudo mais que
envolve o Madman -, do que toda a trajetória do Black Sabbath. Ozzy
conseguiu extrapolar os limites do heavy metal e se transformou em um
ícone da cultura pop, reconhecido tanto pelo mais radical fã de
black metal quanto pela menininha de 13 anos que só ouve Lady Gaga.
Nos Estados Unidos, Ozzy é uma entidade em todos os aspectos –
artística, iconográfica e, principalmente, comercial. Traduzindo:
sob o comando de sua esposa Sharon, Ozzy Osbourne é uma das maiores
máquinas de fazer dinheiro do mundo da música. Porém, a maioria
dos fãs, sempre cega e burra, não consegue entender isso. Mas Tony
e Geezer, mais do que entender, sabem muito bem o que Ozzy significa.
E, a julgar pelas declarações de Ward, o baterista ou não está
bem informado, ou está posando de mártir, com uma postura romântica
pra lá de inapropriada.
O
fato é que bandas gigantescas como o Black Sabbath, o Iron Maiden e
o Metallica são, antes de tudo, grandes empresas. Os músicos não
são “brothers que tocam juntos”, mas sim sócios de um mesmo
empreendimento. Pode doer para você que acredita que o mundo da
música é guiado somente por aspirações artísticas, mas é assim
que funciona. E mais: isso não anula a validade dos trabalhos destes
grupos. Steve Harris, o dono e chefão do Iron Maiden, por exemplo, é
um cara pra lá de fechado. Na formação atual do Maiden, o único
músico que mantém uma relação próxima com Harris é o
guitarrista Janick Gers, além de Rod Smallwood, empresário da
banda. Os demais tem uma relação apenas profissional com Harris,
conversando sobre tudo o que envolve o Maiden, compondo juntos
algumas vezes, mas os caras não são amigos próximos. Com o
Metallica é a mesma coisa. Imaginem pessoas que são sócias em uma
empresa e querem torná-la cada vez maior, gerando lucros sempre
crescentes. É assim que é, por mais chocante que possa parecer.
Com
o Black Sabbath as coisas também são dessa maneira. Ozzy e Tony
compuseram a maioria das faixas do novo disco. Porém, Bill Ward quer
que a banda divida os créditos nas composições, como faziam nos
anos setenta. Isso, somado ao fato de que Iommi, segundo o que se
fala nos bastidores, está descontente com o trabalho de Ward há
anos e não esconde isso de ninguém, azedou de vez as coisas. E o
baterista, ao invés de seguir o que já estava acordado – sim,
porque ele assinou um contrato aceitando os termos antes do anúncio
da reunião, em 11/11 -, resolveu posar de mártir e colocar a boca
no trombone. É claro que a reação natural da maioria dos fãs do
Black Sabbath em todo o mundo foi, instintivamente, se posicionar a
favor de Bill Ward, mesmo sem saber de um décimo do que está
rolando nos bastidores.
Eu,
particularmente, acho essa martirização de Bill Ward em praça
pública pra lá de ridícula. Como já disse, fã cego e burro
acredita em tudo, até em Papai Noel e Coelhinho da Páscoa, mas a
verdade é que Ward, há décadas, não tem mais saúde para aguentar
o tranco que é tocar com o Black Sabbath. Porém, para os fãs é
mais fácil romantizar a coisa e colocar a culpa toda em Sharon
Osbourne – antipática, porém uma empresária genial – do que
enxergar o que realmente está acontecendo. Basta pegar qualquer
livro sobre a banda – e eles existem aos montes por aí, é só
pesquisar – para perceber que Bill Ward sempre foi um coadjuvante
na história do Sabbath. Ele é um ótimo baterista, isso é
inegável, mas, artisticamente, quem sempre deu as cartas e fez a
diferença foi o trio Ozzy, Tony e Geezer. Todas as ideias para as
músicas nasceram da mente dos três. É claro que seria legal ter a
formação original junta novamente, mas isso não vai mais rolar e
não é, como estão pintando por aí, o fim do mundo e o mico do
ano. Eu - e acredito que vocês também - quero ouvir o novo disco da
banda, e não vejo a hora disso acontecer. Para mim, pouco importa de
Ward vai estar ou não nele. É uma história similar ao ótimo novo
álbum do Van Halen: tem fã chato reclamando da ausência de Michael
Anthony, mas ela não é sentida no disco, que é espetacular.

As
alternativas mais óbvias para substituir Bill Ward são Vinny Appice
e Tommy Clufetos. Vinnie, como você bem sabe, assumiu o posto de
Ward na turnê de Heaven and Hell (1980) e gravou os clássicos
Mob Rules (1981) e Dehumanizer (1992) com a banda, além
de The Devil You Know (2009), do Heaven and Hell. Ou seja, tem
química e experiência com Iommi e Butler, mas nunca tocou com Ozzy.
Já Clufetos é o baterista da atual – e ótima – banda do
Madman, e, pelo que vazou, assumirá o posto de Ward em questão de
dias. Pessoalmente, acho a escolha de Tommy Clufetos, além de mais
fácil, também arrojada e apropriada. O heavy metal atual é muito
diferente daquele que o Sabbath tocava na década de 70. Ele é mais
agressivo e pesado hoje em dia, além de muito mais rápido. Acredito
que Clufetos daria uma renovada no som do Sabbath, tornando moderno
sem descaracterizá-lo, afinal os donos da batuta são Ozzy e Iommi.
Concluindo,
acalmem-se e deixem as paixões e, principalmente, o romantismo de
lado. A volta do Black Sabbath só será um fracasso se o disco for
ruim, e, na boa, não acredito que isso acontecerá. Estamos falando
de músicos experientes e talentosos, que sabem exatamente o que
estão fazendo. Além disso, o produtor Rick Rubin tem um toque
especial e sabe como tornar o som de uma banda atual sem distanciá-lo
de suas raízes. O sonho continua vivo, e ele está muito longe de
virar pesadelo.
Quanto
a Bill Ward, sugiro que fique em casa fazendo ovos mexidos e
mamadeiras para os seus netos, sobrevivendo dos royalties que ainda
recebe referentes aos álbuns do Sabbath dos quais participou.
As
coisas funcionam assim, quer você queira ou não.