21 de set de 2012

Steve Harris: crítica de British Lion (2012)

sexta-feira, setembro 21, 2012
Stephen Percy Harris é um idealista. Fiel ao que acredita, fundou o Iron Maiden em 1975 e conduziu a banda com mão de ferro até o topo do heavy metal, influenciando profundamente o gênero e tornando-se referência para qualquer grupo que queira se aventurar pelo estilo. Atravessou a turbulenta segunda metade da década de 1970 (quando o punk rock era a ordem do dia na Inglaterra), manteve o leme firme quando praticamente todas as principais bandas pesadas alteraram a sua música para agradar o público norte-americano no final dos anos 1980, sobreviveu ao período com Blaze Bayley no posto de Bruce Dickinson (quando o Maiden viu a sua popularidade desabar e trocou os shows em grandes estádios por casas muito mais modestas) e aceitou de volta o falante e hiperativo vocalista colocando a banda em primeiro plano, deixando de lado as várias questões pessoais que envolvem a sua eternamente turbulenta relação com Dickinson. E tudo isso sem cortar nenhum centímetro de sua longa cabeleira, mesmo quando cabelos curtos passaram a ser a ordem do dia no heavy metal :-)

Harris sempre soube o que quis e fez tudo para transformar o Iron Maiden em uma das maiores bandas da história do heavy metal. Se nem quando era apenas um músico iniciante o baixista abria mão de suas convicções, não seria agora, aos 56 anos e com o status de lenda viva, que ele faria isso. Por isso, a sua surpreendente estreia solo com British Lion deve ser analisada tendo como ponto de partida essa visão: trata-se do som que ele queria fazer, e da maneira que imaginou fazer. Não há nenhuma pressão por sucesso ou concessão mercadológica, é apenas um dos maiores músicos da história do rock homenageando o seu passado na forma de um álbum com canções inéditas que bebem diretamente nas bandas que o influenciaram e serviram de base para a sua formação.

Steve cercou-se de músicos desconhecidos - o vocalista Richard Taylor, os guitarristas Graham Leslie e David Hawkins (esse também responsável pelo teclado) e o baterista Simon Dawson - e gravou um disco que não soa nada parecido com o Iron Maiden. Não há aqui nada que remeta à banda principal de Harris, e esse é o primeiro ponto que pode causar estranhamento em quem estava esperando, de maneira equivocada, um som na linha do que o Maiden fazia, por exemplo, na década de 1980. O negócio aqui é outro. Trata-se de um álbum de hard rock, com algumas passagens mais pesadas que podem ser classificadas como heavy metal. A influência é a escola setentista do hard, com canções baseadas em riffs - algo que, infelizmente, o Iron Maiden não vem mais fazendo nos últimos anos - e reminiscências de ícones do período e favoritos confessos do baixista como Wishbone Ash, Thin Lizzy, Rainbow, UFO, Scorpions e Judas Priest.

De maneira consciente, Steve escolheu um vocalista que possui um timbre totalmente diferente de Bruce Dickinson. A voz de Richard Taylor é aguda e remete a Glenn Hughes e ao jovem Klaus Meine. Segundo tombo para quem esperava ouvir algo semelhante ao Iron Maiden. Há uma enorme quantidade de melodia nas composições, com ótimas passagens de guitarras gêmeas e grandes refrões por todo o álbum. Faixas como “Eyes of the Young”, por exemplo, tem potencial para fazerem bonito como single se bem trabalhadas.

As dez faixas de British Lion transparecem um frescor que não é encontrado nos discos recentes do Maiden. Esse é um ponto extremamente positivo e digno de elogios, pois demonstra o tesão de Harris, que do topo do mundo ainda mostra uma vitalidade juvenil para desvendar novos caminhos.


O início do álbum aponta para um lado mais experimental, com Steve trilhando caminhos até então inéditos em sua carreira. “This is My God” é um hard pesadão na linha do Alice in Chains, enquanto “Lost Worlds” vai pelo lado mais moderno do gênero. A coisa esquenta com “Karma Killer”, construída a partir de um riff turbinado de wah-wah e com o baixo bem na cara. Aliás, esse é outro fator que chama a atenção em British Lion. Se você acha o volume do baixo alto nos discos do Iron Maiden, prepare-se para conhecer outra padrão no disco solo de Harris. O baixo conduz todas as canções, e em vários momentos está mais alto até que o vocal. Isso, somado ao fato de o timbre de voz de Richard Taylor não ser dos mais potentes, incomoda um pouco.

Há grandes momentos e ótimos acertos em British Lion. “Us Against the World” conta com guitarras gêmeas que, em um piscar de olhos, nos levam diretamente a Somewhere in Time, disco lançado em 1986 pelo Iron Maiden. Essa é a música mais próximo do universo do Maiden em todo o trabalho, e é impossível ouvi-la e não imaginar a canção com a voz de Bruce Dickinson. Pra falar a verdade, parece uma faixa perdida saída diretamente daquela época. No outro extremo, “The Chosen Ones” é Steve mostrando que sabe compor um hard grudento e empolgante, que não faria feio no repertório de bandas como o Bon Jovi, por exemplo. 

Mas o grande momento de British Lion, ao meu ver, se dá com a estupenda “A World Without Heaven”, que ao longo de seus mais de sete minutos derrama generosas doses de melodia e inspiração. As linhas vocais são agradáveis, e as longas passagens instrumentais levam ao paraíso. Uma canção ensolarada, com um refrão muito bom. O nível segue alto com o hard cheio de classe de “Judas”, enquanto “These Are the Hands” é praticamente um pop rock temperado com um pouco mais pesado.

De maneira geral, British Lion é um bom disco. Tudo é focado no prazer em produzir música, em fazer um som. É bem diferente do Iron Maiden, e é justamente esse contraste que irá fazer com que os fanáticos seguidores da banda provavelmente não curtam muito o álbum. Steve Harris leva ao pé da letra a ideia de um disco solo e mostra uma faceta totalmente diferente e até então inédita de sua musicalidade, indo por um caminho novo e que não seria possível explorar em sua banda principal. Essa postura, essa coragem de se expor, é digna de elogios a um músico como Harris, idolatrado em todo o mundo e no qual sempre são despejadas grandes expectativas.

E aí está o único ponto negativo de British Lion. Por tratar-se de um disco solo justamente de Steve Harris, a expectativa da maioria das pessoas era, mesmo de forma inconsciente, que surgisse um trabalho revolucionário e, no mínimo excelente. British Lion não é esse disco. Trata-se de um trabalho totalmente despretencioso, despido da grandiosidade do Iron Maiden e com uma pegada mais intimista e saudosista. Essas características certamente desapontarão quem estava esperando um álbum excepcional e que mudasse o rumo das coisas.

A voz de Richard Taylor é outro ponto que merece discussão. Entendo a escolha de Steve por um cantor bem diferente de Bruce Dickinson, mas a pegada de certas composições parece não combinar com o timbre de Taylor, pedindo um vocal mais rasgado e grave. É o caso de “Karma Killer”, por exemplo. O trabalho de composição é muito bom, mas a voz de Taylor puxa algumas faixas para baixo. De maneira geral, tem-se a impressão de que, com um vocalista mais potente, o resultado final seria muito melhor e mais forte.

Mesmo assim, British Lion é um bom disco, com músicas interessantes e que, em sua maioria, agradam o ouvinte. Steve Harris mostra que tem várias cartas na manga no seu vasto vocabulário como compositor, e a banda revela-se inegavelmente competente. 

Não é o Iron Maiden, até mesmo porque só existe um Iron Maiden e não faria sentido copiar a banda, soando como um clone. Mas é justamente a diferença em relação à banda principal de Harris que torna British Lion legal e faz a audição valer a pena.

Nota: 7


Faixas:
  1. This is My God
  2. Lost Worlds
  3. Karma Killer
  4. Us Against the World
  5. The Chosen Ones
  6. A World Without Heaven
  7. Judas
  8. Eyes of the Young
  9. These Are the Hands
  10. The Lesson

Dio em dose dupla em lançamentos da Hellion Records

sexta-feira, setembro 21, 2012
A Hellion Records anunciou o lançamento para o final de outubro de dois títulos que abrangem períodos distintos da carreira do falecido vocalista Ronnie James Dio. 

And Before Elf ... There Were Elves é um deleite para os colecionadores, pois traz faixas gravadas pelo The Elves, banda de Dio anterior ao Elf. O grupo era formado por Ronnie, que respondia também pelo baixo, e por Nick Pantas (guitarra), David Feinstein (guitarra, primo de Dio e mais tarde líder do The Rods), Doug Thaler (teclado) e Gary Driscoll (bateria). O Elves lançou apenas dois singles de forma oficial, então todo o material registrado pela banda era inédito até a chegada desta compilação.

O CD traz 12 músicas gravadas pelo The Elves em 1971, todas canções raras e até então de acesso restrito. Nelas, é possível identificar o poder que a voz de Dio já ostentava, e que iria alcançar o seu ápice alguns anos mais tarde no Rainbow e no Black Sabbath. And Before Elf ... There Were Elves é um item histórico, obrigatório para os fãs de Dio e para quem quer saber mais sobre os primórdios da carreira de uma das maiores vozes da história da música pesada.


The Very Beast of Vol 2 é a segunda parte da compilação que traz o melhor da carreira da banda Dio, fundada e liderada por Ronnie depois que ele deixou o Black Sabbath, em 1982. Estão aqui 17 faixas que cobrem a segunda parte da trajetória do Dio, sons como “Killing the Dragon”, “Push” e “Better in the Dark”, todas devidamente acompanhadas por raridades há muito tempo desejadas pelos fãs. É o caso de “Elektra”, composição que havia sido lançada somente no raro box Tournado (2010), “Prisoner of Paradise” e a emocionante “Metal Will Never Die”, uma das últimas músicas gravadas por Dio e lançada anteriormente somente no álbum Bitten by the Beast (2010), de David Feinstein - esse disco também foi disponibilizado no Brasil pela Hellion.

A coletânea conta com textos escritos pelo jornalista e amigo de longa data de Ronnie, Eddie Trunk, apresentador do programa That Metal Show, e sua capa foi criada por Marc Sasso, responsável pelas artes dos discos Killing the Dragon (2002) e Master of the Moon (2004), ambos também do Dio.



Gravadora americana lança disco com faixas raras de Tim Maia

sexta-feira, setembro 21, 2012
Se estivesse vivo, Sebastião Rodrigues Maia completaria 70 anos no próximo dia 28 de setembro - o músico faleceu em 15 de março de 1998, aos 55 anos. Em comemoração a essa, a gravadora norte-americana Luaka Bob anunciou o lançamento de uma compilação com faixas raras de Tim.

Intitulada The Existencial Soul of Tim Maia - Nobody Can Live Forever, o disco foi compilado por David Byrne (líder do finado Talking Heads), o dono do selo, e consumiu 10 anos de trabalho, tempo necessário para desembaraçar os complicados nós que envolvem os direitos das faixas presentes. O álbum traz quinze músicas gravadas durante 1970 e 1976. A maioria das composições abrange a cultuada fase racional de Tim, e algumas são extremamente raras.


The Existencial Soul of Tim Maia chegará às lojas em 28/09, e não há previsão de lançamento no Brasil.

Confira abaixo o tracklist, e também um vídeo produzido pela Luaka Bop para promover o disco:

  1. Imunização Racional (Que Beleza)
  2. Let’s Have a Ball Tonight
  3. O Caminho do Bem
  4. Ela Partiu
  5. Quer Queira, Quer Não Queira
  6. Brother Father Mother Sister
  7. Do Leme ao Pontal
  8. Nobody Can Live Forever
  9. I Don’t Care
  10. Bom Senso
  11. Where is My Other Half?
  12. Over Again
  13. The Dance is Over
  14. You Don’t Know What I Know
  15. Rational Culture

tim maia preview from Luaka Bop on Vimeo.

Discografia dos Beatles relançada em box com 16 LPs

sexta-feira, setembro 21, 2012
Colecionadores de vinil, boa notícia: a discografia completa dos Beatles será relançada em um box com 16 LPs! 

A caixa chegará às lojas dia 13 de novembro e trará os álbuns Please Please Me (1963), With The Beatles (1963), A Hard Day’s Night (1964), Beatles For Sale (1964), Help! (1965), Rubber Soul (1965), Revolver (1966), Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967), Magical Mystery Tour (1967), o duplo The Beatles (1968, também conhecido como White Album), Yellow Submarine (1969), Abbey Road (1969), Let It Be (1970) e Past Masters (compilação dupla lançada originalmente em 1988).

Todos os LPs são em vinil de 180 gramas, e a caixa já está em pré-venda pelo valor de 450 dólares.

Por enquanto, essas novas edições em LP serão lançadas apenas neste box e não separadas. Resta torcer para que também sejam disponibilizadas edições avulsas.

Mais Led Zeppelin: Celebration Day será lançado em 6 formatos diferentes

sexta-feira, setembro 21, 2012
Foram revelados mais detalhes sobre Celebration Day, novo lançamento do Led Zeppelin que remonta o lendário show de 2007, no O2 Arena. A edição padrão é dupla e traz um DVD - ou um blu-ray - acompanhado por um CD. A edição de luxo inclui vídeo bônus de ensaios e imagens de noticiários da BBC. Há também um edição com CD duplo e blu-ray em alta resolução com som HD, mas sem vídeo.

Fãs do vinil também pode comprar o LP triplo com 16 músicas em três LPs, assim como o pacote completo também pode ser baixado em lojas digitais.

Celebration Day está disponível para pré-venda a partir de hoje, e será lançado em todos os formatos em 19 de novembro. Além disso, a Omniverse Vision organizou um avant-premiere do concerto para o próximo dia 17 de outubro em 1.500 salas de cinema em 40 cidades do mundo. Bilhetes e detalhes sobre esses filmes estão disponíveis em LedZeppelin.com.

A apresentação de 2007 teve a presença dos três integrantes originais vivos e Jason Bonham ocupando o posto de seu falecido pai, John Bonham. Naquela noite a banda mostrou-se em forma, interpretando grandes sucessos como "Whole Lotta Love", "Black Dog", "Dazed and Confused", "Kashmir", "The Song Remains the Same" e "Stairway to Heaven". Foram cerca de nove milhões de pessoas disputando 18 mil ingressos sorteados online.

Box de 4 discos traz o melhor da relação entre Amy Winehouse e a BBC

sexta-feira, setembro 21, 2012
Será lançado dia 12 de novembro o box Amy Winehouse At the BBC. Trata-se de uma caixa com 1 CD e 3 DVDs que reunem diversos momentos da falecida cantora em programas da tradicional emissora inglesa.

A caixa traz desde as primeiras aparições de Amy na BBC, em 2003, passando por programas como o de Jools Holland e diversos outros. Há entrevistas, vídeos raros, faixas inéditas, covers e versões para as músicas presentes nos dois discos lançados pela vocalista, Frank (2003) e Back to Black (2006).


O CD tem o título de The BBC Sessions e traz quatorze faixas gravadas entre 2004 e 2006. Um dos DVDs é totalmente dedicado ao programa de Holland, também com 14 músicas e participações especiais do próprio Jools e de Paul Weller, líder do The Jam. Outro DVD traz um show completo no Porchester Hall, e o último disco conta com um documentário intitulado Arena: Amy Winehouse - The Day She Came to Dingle.

Ainda não há previsão de lançamento de Amy Winehouse At the BBC no Brasil.

Assista o trailer abaixo:

Led Zeppelin: assista trecho de “Black Dog” do DVD Celebration Day

sexta-feira, setembro 21, 2012
Só para atiçar a curiosidade dos fãs, o Led Zeppelin divulgou um pequeno clipe da clássica “Black Dog”, faixa de abertura do álbum Led Zeppelin IV (1971), gravada durante o show realizado no O2 Arena em 2007. A apresentação será lançada em CD, DVD e blu-ray em 19 de novembro em todo o mundo.

A banda se apresentou neste dia com Robert Plant, Jimmy Page e John Paul Jones acompanhados de Jason Bonham, baterista do Black Country Communion e filho do batera original do grupo, John “Bonzo” Bonham, atrás dos tambores.

Assista ao pequeno trecho de “Black Dog”, onde já dá pra sacar a qualidade das imagens, do som e como será a edição do vídeo, abaixo:

Assista “Goliath”, o novo clipe do Graveyard

sexta-feira, setembro 21, 2012
A ótima banda sueca Graveyard divulgou o clipe do primeiro single de seu novo disco. “Goliath”, faixa do álbum Lights Out, ganhou um vídeo com uma estética retrô, com os caras tocando em uma espécie de programa de auditório enquanto uma pequena trama paralela se desenvolve.

Lights Out é o terceiro disco do quarteto e será lançado em 26 de outubro. Vale lembrar que o grupo colocou no mercado um dos melhores álbuns de 2011, o sensacional Hisingen Blues, e a julgar pelo primeiro single, Lights Out manterá a qualidade lá em cima.

Assista abaixo:

20 de set de 2012

Documentário conta a história do The Replacements

quinta-feira, setembro 20, 2012
Uma das mais cultuadas bandas do rock alternativo norte-americano, o The Replacements tem a sua história contada no documentário Color Me Obsessed. Dirigido por Gorman Bechard, o filme fez a sua estreia nos cinemas em 2011 e agora está sendo lançado em DVD.

Color Me Obsessed chegará nas lojas em 20 de novembro. O filme tem duas horas de duração e traz trechos de nada mais nada menos que 140 entrevistas com músicos (Colin Meloy, Grant Hart, Tommy Ramone e outros), jornalistas (Jim DeRogatis, Robert Christgau), atores (Tom Arnold, Dave Foley e mais) e fãs.

A versão em DVD traz como extras 19 cenas que não entraram na montagem final, bem como as entrevistas completas com Grant Hart, Robert Christgau e Jim DeRogatis, cenas de bastidores, comentários do diretor e quatro trailers.

Não há ainda informação se Color Me Obsessed será lançado no Brasil, mas seria uma boa se saísse por aqui.

Assista abaixo o trailer, e depois ouça uma das melhores músicas da banda:

Clique e ouça British Lion, o disco solo de Steve Harris, baixista do Iron Maiden

quinta-feira, setembro 20, 2012
British Lion, a aguardada e cercada de expectativas estreia solo de Steve Harris, baixista do Iron Maiden, teve a sua audição liberada em streaming nesta quinta-feira, 20 de setembro.

Você pode ouvir o disco na íntegra clicando no player abaixo:



Minha opinião, baseada em apenas uma audição: é inegavelmente um bom trabalho. As composições são fortes e bastante diferentes do que o Iron Maiden vam gravando nos últimos anos. Há um frescor em British Lion, característica que agradará quem não gostou dos últimos discos do Maiden. O clima é, não sei se é bem essa a palavra, um tanto saudosista. O hard rock setentista dá o tom de todo o trabalho, e é possível ouvir claramente reminiscências de várias das bandas favoritas de Harris, como Wishbone Ash, Thin Lizzy, Scorpions, UFO e Judas Priest.

A voz de Richard Taylor fica em um meio termo entre os timbres de Glenn Hughes e Klaus Meine. É um timbre agudo, porém sem exageros. O cara sabe cantar e saca das coisas. Todas as faixas partem de riffs, característica que, infelizmente, passou a ser pouco utilizada pelo Iron Maiden nos últimos anos. As guitarras gêmeas também são constantes,  o que, pessoalmente, me agradou bastante. Há melodia transbordando pelos cantos.

De modo geral, o mais correto é classificar British Lion como um disco de hard rock e não de heavy metal. Várias das composições possuem refrões grudentos e poderiam tranquilamente virar hits se bem trabalhadas, como é o caso de “Eyes of the Young”, por exemplo.

No final das dez faixas o saldo é muito positivo, e mostra uma faceta da musicalidade de Steve Harris que, surpreendentemente, ainda não havia sido explorada no Iron Maiden, que é a sua banda e onde ele é o chefão. Apesar de ter um pouco em comum com o Maiden, como as guitarras gêmeas e o baixo cheio de personalidade de Steve, British Lion não lembra, em nenhum momento, a banda principal de Harris. Essa é a primeira surpresa. 

A segunda é a inegável qualidade não só da banda, mas também das composições. Um hard rock honesto, despretencioso em vários momentos, focado puramente no prazer em tocar aquilo que se gosta e não dando a mínima para alguma pretensão de sucesso comercial. Será um sucesso, mas pela qualidade do trabalho e pelo carimbo de Steve Harris na capa, e não por fazer disso a razão do trabalho.

Preciso ouvir mais vezes para emitir uma opinião mais profunda e concreta, mas gostei muito do que ouvi em British Lion. Steve Harris acertou a mão mais uma vez, para alegria de quem gosta de música!

Master of Puppets eleito o melhor álbum de heavy metal pelos leitores da Rolling Stone

quinta-feira, setembro 20, 2012
A Rolling Stone perguntou para seus leitores qual seria o melhor disco de heavy metal de todos os tempos. A enquete rolou durante a última semana e contou com participação maciça de fãs de todo o mundo.

O resultado final foi o seguinte:

  1. Metallica - Master of Puppets
  2. Black Sabbath - Paranoid
  3. Black Sabbath - Black Sabbath
  4. Iron Maiden - The Number of the Beast
  5. Metallica - ... And Justice for All
  6. Slayer - Reign in Blood
  7. Guns N’Roses - Appetite for Destruction
  8. Metallica - Black Album
  9. Led Zeppelin - Led Zeppelin II
  10. Metallica - Ride the Lightning

De modo geral, achei o resultado coerente e correto. Porém, vou fazer algumas observações. A primeira é sobre o Metallica: Master of Puppets no topo é justíssimo, mas a lista tem quatro álbuns da banda. Tiraria facilmente ... And Justice for All dali e abriria espaço para Kill ‘Em All ou outro trabalho de outro grupo. Porque? Porque, para mim, ... And Justice for All é um disco superestimado, técnico ao extremo e abaixo do que o Metallica vinha produzindo e produziu logo depois, como o ótimo Black Album. Podem jogar as pedras e preparar os xingamentos, mas é o que eu penso.

O disco do Guns N’Roses não é, estilisticamente, um álbum de heavy metal. O que temos em Appetite for Destruction é um hard rock selvagem e que moldou grande parte da sonoridade oitentista. Entendo a sua presença na lista como uma prova da popularidade da banda e da força que o trabalho ainda possui, já que trata-se de um daqueles discos que extrapolam gêneros e fazem parte da memória e do inconsciente coletivo.

Led Zeppelin II possui um dos maiores arsenais de riifs de guitarra já gravados. Trata-se de um álbum de hard rock, porém a influência do trabalho de Jimmy Page aliado ao sublime trampo de Robert Plant, John Paul Jones e John Bonham justifica a sua inclusão.

Mexeria pouco na lista da Rolling Stone. Para mim, a lista com os 10 melhores álbuns de heavy metal de todos os tempos seria assim:

  1. Iron Maiden - Powerslave
  2. Metallica - Master of Puppets
  3. Black Sabbath - Master of Reality
  4. Metallica - Ride the Lightning
  5. Black Sabbath - Paranoid
  6. Rainbow - Rising
  7. Black Sabbath - Sabbath Bloody Sabbath 
  8. ron Maiden - The Number of the Beast
  9. Slayer - Reign in Blood
  10. Metallica - Black Album

E para vocês, como ficaria a lista?

19 de set de 2012

Ouça “RNR Affair”, o novo single de Prince

quarta-feira, setembro 19, 2012
Surpresa do dia: uma nova música de Prince, ou seja lá como ele quer ser chamado hoje em dia, foi divulgada hoje. “RNR Affair” é um rhythm & blues grudento e cheio de groove, com instrumentação na medida certa e o toque de Midas pop do artista.

Não foram divulgadas maiores informações sobre a música, se ela fará parte de um possível novo álbum de Prince ou não. 

Curta abaixo, porque vale a pena!

Novo álbum do Kiss ganha fanpack em edição limitada produzido pela Classic Rock

quarta-feira, setembro 19, 2012
Monster, o aguardado vigésimo disco de estúdio do Kiss, chegará às lojas dia 9 de outubro. O trabalho contará também com uma limitadíssima edição especial produzida pela revista inglesa Classic Rock. 

O pacote contém a última edição da publicação - a número 177, com o Iron Maiden na capa -, mas em quatro versões diferentes, cada uma com uma foto de um integrante do Kiss estampando a capa. Cada uma dessas edição traz uma entrevista exclusiva com o músico que está na capa e mais quatro cards, tudo devidamente acondicionado em um luxuoso box. Ah, a edição em CD de Monster vem junto no pacote.

Para comprar essa edição especial - que é limitada a apenas 1.000 cópias -, clique aqui.

Steve Harris na capa da nova Sweden Rock Magazine

quarta-feira, setembro 19, 2012
A estreia solo de Steve Harris, baixista e dono do Iron Maiden, é o assunto mais comentado no momento pela mídia especializada em heavy metal em todo o mundo. A Sweden Rock Magazine é mais uma publicação a estampar o músico em sua capa, e traz uma matéria que destrincha o álbum British Lion.

A revista sueca tem também matérias com Witchcraft, Muse, Danko Jones, Down, Kamelot, Dokken e Steve Vai, entre outros.

Para comprar, acesse o site oficial da Sweden Rock.

Assista “Elephant”, o novo clipe do Tame Impala

quarta-feira, setembro 19, 2012
A banda australiana Tame Impala divulgou o primeiro clipe do seu novo álbum, Lonerism, com lançamento durante o mês de outubro. 

A faixa “Elephant” ganhou um vídeo repleto de cores saturadas e efeitos psicodélicos, reforçando ainda mais o clima lisérgico da canção. Musicalmente, soa como uma espécie de cruzamento entre o Black Sabbath e o Pink Floyd, contagiante pra caramba!

Assista abaixo:

Black Country Communion divulga nova música em meio a rumores que apontam para o fim das atividades da banda

quarta-feira, setembro 19, 2012
O Black Country Communion divulgou o primeiro single de seu terceiro disco, Afterglow, que tem data de lançamento marcada para 30 de outubro. “Confessor” é um rock direto com ótima performance vocal de Glenn Hughes e um grande solo de Joe Bonamassa, apesar do riff meio genérico que permeia a canção. Jason Bonham e Derek Sherinian também fazem o dever de casa em seus intrumentos.

A música surge em torno a rumores cada vez maiores sobre o fim das atividades da banda. O motivo para isso é o descontentamento de Hughes com Bonamassa, que dá prioridade total à sua carreira solo e coloca o Black Country Communion em segundo plano. A situação chegou a um ponto tal que, apesar de Afterglow chegar às lojas em 30/10, há apenas um show marcado para promover o álbum, em 5 de janeiro, na cidade inglesa de Wolverhampton. Os meses de outubro, novembro e dezembro estão ocupados com dezenas de shows solos de Bonamassa, e há uma folga na agenda do guitarrista apenas em janeiro - a turnê de Joe retorna com tudo em fevereiro de 2013. Vale lembrar que ele acabou de lançar o ao vivo Live From New York, gravado no Beacon Theatre.

Devido à situação, não será surpresa se o Black Country Communion anunciar o encerramento de suas atividades nos próximos meses.

Enquanto as coisas não se resolvem, ouça “Confessor” abaixo e conte pra gente o que achou:

18 de set de 2012

Novos livros sobre Jimmy Page e Neil Young chegam ao Brasil

terça-feira, setembro 18, 2012
Boa nova para quem curte livros sobre música. A Globo Livros anunciou o lançamento no mercado brasileiro de dois novos livros sobre Jimmy Page e Neil Young. 


Luz e Sombra - Conversas com Jimmy Page, de Brad Tolinski , é uma biografia baseada em diversas entrevistas do autor, editor da respeitada revista Guitar World desde 1989, com o lendário guitarrista e comandante do Led Zeppelin, realizadas nos últimos 20 anos. A obra abrange toda a carreira de Page, iniciando nos seus primeiros anos como guitarrista na Inglaterra, onde ainda como músico de estúdio trabalhou com artistas como Tom Jones, Shirley Bassey e Burt Bacharach, passa pelos anos gloriosos e recheados de excessos ao lado de Robert Plant, John Paul Jones e John Bonham, que transformaram o Led Zeppelin na maior banda de rock do mundo durante a década de 1970, e detalha toda a atividade pós-Led de Jimmy. 

O livro também analisa e esmiuça as composições mais emblemáticas do Led Zeppelin, como “Stairway to Heaven”, “Kashmir” e “Whole Lotta Love”, e mergulha na paixão de Page pelo ocultismo. Há ainda a transcrição de conversas com o velho amigo Jeff Beck e com o pupilo Jack White. Construído através das palavras do próprio Jimmy Page, Luz e Sombra apresenta uma visão em primeira pessoa sem precedentes de um dos maiores músicos da história e será lançado em todo o mundo durante o mês de outubro.


Neil Young - A Autobiografia é a tradução de Waging Heavy Peace, livro escrito pelo músico canadense onde ele conta a sua vida. Na obra, Neil fala sobre a sua trajetória pessoal e a sua carreira, passando por bandas como Buffalo Springfield, CSNY e Crazy Horse. A obra, cujo lançamento mundial - incluindo o Brasil - acontecerá em 25 de setembro, tem sido comparada pela imprensa estrangeira às elogiadíssimas autobiografias de Bob Dylan e Keith Richards.

Separe espaço em sua biblioteca musical, porque tratam-se de dois livros obrigatórios!

Leia o review da Classic Rock para o disco solo de Steve Harris

terça-feira, setembro 18, 2012
Bem, o que esperar deste disco? Steve Harris é um dos personagens mais emblemáticos do heavy metal. Sua banda - e vamos falar claramente, trata-se da SUA banda, que isso fique bem claro -, o Iron Maiden, vendeu mais de 85 milhões de cópias de seus 15 álbuns, e Harris deixou a sua marca em cada um deles.

Muitos destes 15 discos apresentam a repetição de uma mesma fórmula, e não há nada de errado com isso, como Steve sempre diz. Mas há um sentimento de que, talvez, este seja o trabalho da vida de Harris. Ele e o Iron Maiden criaram um som e uma imagem duradoura, e se havia algo a acrescentar nisso tudo, que fosse antes do seu aniversário de 56 anos - Steve completou 56 em 12 de março passado.

Isso faz de British Lion uma supresa, e muuio bem-vinda. O disco é em grande parte uma homenagem às influências de Harris: Deep Purple, UFO, Scorpions, The Who, Rainbow e Judas Priest. Todos esses grupos são reconhecidos em algum momento, sintetizados em um som poderoso que celebra uma época. Não seria justo chamar de simples, mas é uma música descomplicada e despretenciosa, um exercício de nostalgia produzido por alguém formado pelo tempo. 

Com a confiança inabalável de Harris em seu julgamento musical, ele transmite uma certa arrogância no material de British Lion, evitando que as músicas pareçam datadas. E esse é um belo truque.

De acordo com o press release, o primeiro encontro de Steve com o vocalista Richard Taylor e com o guitarrista Graham Leslie aconteceu há muitos anos atrás, quando a dupla entregou uma fita para o baixista. E, aparentemente, Harris gostou do que ouviu. Taylor tem uma voz na linha de Glenn Hughes, e Leslie possui algo que remete a Glenn Tipton e K.K. Downing. 

As três primeiras faixas de British Lion soam como um manifesto: o heavy metal pesadíssimo de “This is My God”, toques de ficção científica em “Lost Worlds” e um clima hard rock em “Karma Killer”. O processo se repete por todo o disco. “Judas” transpira Judas Priest. “The Chosen Ones” poderia ser um outtake do UFO da era Misdemeanor (1985). “The Lesson” segue a linha das baladas clássicas escritas por Ronnie James Dio e Ritchie Blackmore.

Liricamente, Harris não é tão bem sucedido. Clichês permeiam as letras e 30% das faixas tem a palavra “world” no título. Mas isso é Steve Harris e não Bob Dylan, então as expectativas devem ser moderadas.

De modo geral, British Lion é um álbum que vai além do que todo mundo estava imaginando, entregando mais do que o esperado. Belo acerto, Steve!

Nota: 7

(texto escrito por Jon Hotten)
(tradução de Ricardo Seelig)
(matéria publicada na edição 177 da Classic Rock Magazine, de outubro de 2012)

O inferno de Randy Blythe na capa da nova edição da Metal Hammer

terça-feira, setembro 18, 2012
A nova edição da principal revista de heavy metal do mundo, a Metal Hammer, traz o vocalista Randy Blythe, do Lamb of God, em sua capa. O músico escreveu uma longa matéria sobre o que passou na República Checa recentemente, quando foi preso acusado da morte de um fã em um show do grupo.


A revista inglesa traz também matérias com Steve Harris, Down, Cancer Bats, While She Sleeps e outros grupos, e dois brindes especiais. O primeiro é uma revista bônus totalmente dedicada à primeira edição do Knotfest, o festival promovido pelo Slipknot. E o segundo é o tradicional CD, aqui intitulado Ghoul Britannia, e que conta com 15 faixas de novas bandas inglesas como Demoraliser, Monument, Hang the Bastard e Whitemare.

A Metal Hammer é encontrada com facilidade nas bancas das principais cidades brasileiras e em grandes redes de livrarias como a Saraiva e a Cultura. É possível também comprar a edição diretamente através do site da revista.

Abaixo você confere algumas páginas internas da nova edição da Metal Hammer.





Kiss na capa da nova Metal Hammer alemã

terça-feira, setembro 18, 2012
A nova edição da Metal Hammer alemã traz o Kiss na capa. A matéria fala sobre o novo disco do grupo, Monster, com data de lançamento marcada para o dia 5 de outubro. Com a provocativa chamada Gene Não É o Chefe!, retirada de uma declaração de Paul Stanley, a revista conta tudo sobre o vigésimo álbum de estúdio da banda.

Além disso, matérias com Steve Harris, Def Leppard, Grave Digger, Enslaved, Danko Jones e Judas Priest, entre outros, mais pôster com Behemoth e Anthrax, cobertura do festival Summer Breeze e um CD de brinde com sons de bandas como As I Lay Dying, Evocation e The 69 Eyes.

Para comprar a revista, acesse o site oficial da revista

17 de set de 2012

A Casa

segunda-feira, setembro 17, 2012
O dia era frio. O vento cortava o rosto. O correto seria ficar em casa, aquecido sob um cobertor, mas não era bem isso que ele tinha em mente. Andando praticamente sozinho àquela hora da manhã, enquanto todos ainda dormiam, Curtis pensava no que teria que fazer. Não que ele fosse muito apegado a essas questões sentimentais, a bobagens como o tal do sentimento de culpa e frescuras como não conseguir dormir tranquilo devido a seus atos. Ele só andava meio cansado, talvez um pouco desiludido, provavelmente de saco cheio com a rotina de sempre. As mesmas pessoas, as mesmas ruas, os mesmos sons, todos os dias. Uma mudança de ares se fazia necessária, e era exatamente isso que ele buscava naquela fria manhã de inverno.

A cidade era pequena, mas simpática. Alguém já disse que quem cresce em uma cidade do interior é mais sincero e menos dissimulado do que aqueles acostumados com o cotidiano de uma metrópole. Em uma cidade pequena todos se conhecem, todos sabem quem você é, de onde você vem e o que você faz. É preciso olhar nos olhos de quem passa por você, dar bom dia, se comunicar com os seus, às vezes, nem tão semelhantes. Para quem nunca viveu no interior isso parece apenas uma metáfora romântica, mas quem passou grande parte da sua vida ouvindo e presenciando, mesmo sem querer, o aparentemente bucólico vai e vem de uma cidade pequena, sabe que isso é uma verdade incontestável.

Suas botas já estavam gastas. Seus jeans eram rasgados e desbotados. O chapéu de cowboy ajudava a proteger do frio, bem como o velho cachecol, que balançava ao sabor do vento. Mais que lembranças de tempos passados, faziam parte do seu DNA. Ele queria começar uma vida nova, mas precisava se agarrar em elementos que mantivessem sua identidade viva e forte.

Cheio de energia e decidido, Curtis enfrentou a temperatura gelada a passos firmes. O caminho não era longo, mas havia evitado-o por bastante tempo. Sabia que, ao chegar ao seu destino, não haveria volta. Enquanto viajava em seus pensamentos, aos poucos a velha casa ia tomando forma à sua frente. Toda de madeira e com dois pisos, com um aspecto que denunciava a sua idade a todos, transpirava histórias e sentimentos, alguns agradáveis, outros nem tanto. Curtis a mantinha viva em sua memória, assim como tudo o que havia feito e presenciado ali dentro. Não sabia se sentia orgulho, desprezo ou saudade, só sabia que se sentia bem ao tê-la ao alcance de seus olhos mais uma vez.

Quando você é adolescente quer experimentar, conhecer e viver tudo. Quer ter contato com todas as cores. Quer reencontrar velhos camaradas de outras vidas, apaixonar-se perdidamente, sentir a adrenalina a mil e o coração na boca. No alto dos seus dezessete anos isso parece a melhor coisa do mundo, mas a distância que a idade traz faz com que, ao reviver tudo aquilo, nos sentimos não mais que andando em círculos. Ok, isso pode até ser verdade, mas respirar novamente o mesmo ar, ver os velhos discos no mesmo lugar, os pôsteres gastos na parede e os fantasmas de sua juventude vagando animados com a sua presença traz um frio na barriga bom demais para ficar apenas nas lembranças do passado.

Curtis estava com 35 anos agora. Não era mais jovem, mas também estava longe de ser um respeitado senhor, alguém cuja simples presença faz a sociedade sentir orgulho. Os cabelos longos caindo pelos ombros, a barba sempre presente e as diversas tatuagens pelo corpo compunham uma figura soturna, que todos conheciam mas poucos sabiam quem realmente era.

Alto e forte, com pouco mais de 1,90, Curtis tinha poucos, porém verdadeiros amigos: Bonzo era um daqueles caras que não param de falar, que fazem amizade fácil e são conhecidos por todo mundo; Kim era linda, com longos cabelos loiros cacheados, e sua figura era semelhante a dos personagens que fantasiamos encontrar no paraíso; Adrian costumava falar pouco, mas sua afinidade com Curtis era tamanha que frequentemente os confundiam como irmãos, o que, pelos menos nesta vida, não eram; e Alice era a mais nova de todos, uma morena de cabelos vermelhos e dezenas de tattoos que não aparentava mais do que vinte anos. Os cinco estavam sempre juntos, e, com a ingenuidade particular de uma cidade pequena, eram conhecidos pela provinciana alcunha de "os cinco malucos".

Ainda submerso em lembranças, Curtis ficou espantado em perceber como a casa havia se conservado ao longo dos anos. Tirando o ar denso dos ambientes fechados, parecia a mesma de tantas aventuras e segredos. Calmamente procurou sua cadeira preferida, aquela que ficava no canto da sala, ao lado do imenso sofá de couro, e esperou, sem pressa, o que estava por vir.

O primeiro a chegar foi Bonzo, gritando do lado de fora, como sempre anunciando a sua presença a plenos pulmões. Deu um grande abraço em Curtis, e, enquanto relembravam o porque de estarem ali, foram interrompidos com o barulho da porta se abrindo. Emoldurada pelos típicos raios de sol dos dias frios, avistaram a silhueta de Kim. Por mais que não a vissem há um bom tempo, sua figura conservava o mesmo ar angelical de sempre. Como não poderia deixar de ser, sua presença veio acompanhada pelo doce aroma de seu corpo, o que fez com que Curtis e Bonzo, por um momento, se sentissem não naquele cenário tão familiar e repleto de histórias, mas sim próximos da concepção do que suas mentes julgavam ser o paraíso.

A beleza arrebatadora de Kim contrastava com seu modo particular de ver as coisas. Qualquer pessoa, ao avistá-la pela primeira vez, instintivamente a associava a uma meiga garota, mas bastava trocar algumas ideias com Kim para perceber que ela poderia ser tudo, menos isso. Dona de um senso humor negro que beirava o doentio, de uma fome selvagem que a fazia experimentar tudo sem medo, parecia imune aos seus próprios excessos e devaneios. Se do lado de fora poderia facilmente ser definida como um anjo, seu interior era escuro e repleto de surpresas.

Ainda atordoados com aquela visão quase espiritual - "porque, mesmo a conhecendo há tanto tempo, sinto essa sensação toda vez que a vejo?", pensava Curtis mais uma vez -, a dupla abriu espaço na sala para Kim, que, com a sua ironia habitual, olhou ambos da cabeça aos pés para, em seguida, abraçá-los com carinho e sussurrar em seus ouvidos: "senti falta de estar entre vocês dois".

Adrian e Alice foram os últimos a chegar. Curtis era o único que sabia que estavam juntos. Enquanto Bonzo girava Alice pelo ar com uma alegria pura e verdadeira, Kim olhava Adrian com o mesmo desejo de anos atrás. Os dois haviam se apaixonado ainda adolescentes, em um daqueles amores arrebatadores da juventude onde as descobertas são mútuas, as promessas são eternas e a sensação de não conseguir viver um sem o outro é tão forte que parece mais do que real. Todos na cidade juravam que eles ficariam juntos para sempre, mas não foi isso que aconteceu. Apesar da paixão cada vez maior de Kim, Adrian, sem aviso, decidiu que precisava de um tempo sozinho, deixando-a sem chão. Quem a conhece diz que esse foi o seu ponto de ruptura, o marco que a transformou na mulher que é hoje, dona de uma beleza hipnótica que contrasta com a sua imensa solidão.

Com os cinco novamente reunidos, relembrar o que viveram e porque estavam ali era o próximo passo. Quando se entra na casa dos trinta anos o senso comum é que sejamos mais maduros e responsáveis. Não era esse o caso. O quinteto ainda mantinha intacto o apetite selvagem por novas experiências, sempre ansiando por colocar generosas doses de novidade em seu enfadonho e medíocre cotidiano. Por isso, estar juntos novamente, no mesmo local onde viveram as experiências mais fascinantes e importantes de suas vidas, era motivo de festa e comemoração.

Bonzo fez as honras e abriu a primeira cerveja, pegando em seguida mais quatro para Curtis, Adrian, Kim e Alice. Enquanto as garrafas verdes eram empilhadas em ritmo acelerado, as lembranças também vinham à tona, fortes e vívidas. Curtis havia colocado um disco do Lynyrd Skynyrd para rolar, e, embalados pelo álcool e pela música, os cinco se divertiam e se emocionavam relembrando tudo o que aquelas paredes e quartos haviam visto ao longo dos anos.

Haviam descoberto o sobrado por acaso. Afastado da cidade, mas não tão longe que a distância não pudesse ser vencida por uma revigorante caminhada, era um lugar evitado pelos moradores do vilarejo, que o julgavam amaldiçoado e repleto de demônios desde que uma família inteira havia sido assassinada lá dentro. Os detalhes se perderam com o tempo, mas dizem os mais antigos que ali morava um dos pioneiros a chegar por aquelas bandas, um alemão grande, forte e vermelho chamado Helmut, que havia construído o resistente casarão há quase cinco décadas, enquanto abria estradas, recrutava trabalhadores e saciava seus desejos sexuais das maneiras mais depravadas possíveis, primeiro com as mulheres de vida fácil que surgem como moscas em carne podre onde quer que haja movimento, e depois ameaçando, assediando e, por fim, estuprando toda e qualquer figura feminina, sem distinção de cor, forma e idade, que encontrava pelo caminho.

Seu fim chegou de forma violenta. Contam os mais velhos que, após ver o alemão deflorando suas filhas adolescentes, um dos peões que para ele trabalhava correu em sua direção ensandecido e com uma foice na mão, rasgando-lhe o peito e decepando sua cabeça. Enquanto suas vísceras transbordavam para fora do corpo, seu algoz, enlouquecido, desfilou com sua cabeça até o grande sobrado, enterrando-a em um local desconhecido, segredo esse que se perdeu com a mesma velocidade com que o corpo do peão foi consumido pelo fogo que ele mesmo se ateou, transtornado pelo fato de ter se igualado a sua vítima, já que, cego de ódio, havia invadido a casa e arrancado os olhos de todos os dezessete filhos do estuprador antes de matá-los, bem como crucificado sua esposa na porta, selando com sangue quente a entrada do casarão.

Certo dia, Kim, ao ouvir a história da boca de sua falecida avó, convenceu Adrian e Curtis a procurar a cabeça perdida do famigerado Helmut. Foram até a casa, que havia sido ignorada silenciosamente pelos nativos ao longos dos anos, e, ainda que tenham cavado um buraco aqui e ali de tempos em tempos, acabaram ficando tão fascinados pelos fatos ocorridos naquele local que adotaram o sobrado como ponto de fuga, esconderijo e quartel general. Foi naqueles corredores escuros, cercados por paredes opressoras que se estendiam pelo longo pé direito do casarão, que Curtis, Bonzo, Adrian, Kim e Alice descobriram seus sonhos, desejos e angústias. Foi naquele casarão antigo, no qual se chegava depois de uma boa caminhada através de uma estrada estreita emoldurada por dezenas de árvores centenárias cujos galhos lambiam o chão e deixavam o trajeto acolchoado por infinitas folhas secas, que cada um deles descobriu, de maneira lenta e definitiva, quem realmente era.

Curtis, que sempre foi o mais quieto dos cinco, gostava de ficar sozinho no porão, que havia encontrado por acaso em uma noite de verão quando, ao vagar pela casa em busca de sossego, tropeçou em algo que logo percebeu ser a alça de um alçapão escondida sob o velho tapete incrustado abaixo da escada que ligava os dois pisos do sobrado. Curioso e fascinado com sua descoberta, Curtis adotou o porão como refúgio, e nele foi tendo contato com pequenos objetos e lembranças que o fizeram reconstituir os macabros acontecimentos que haviam ocorrido sobre aquele chão, assim como proporcionaram a ele uma identificação e uma aproximação, espiritual e arrebatadora, com a personalidade do outrora forte, vigoroso e jovem Helmut, que havia dado o seu suor e o seu sangue para eregir uma das mais belas localidades que se tinha notícia naquela região.

Já Kim parecia enfeitiçada toda vez que cruzava a imensa porta de madeira do casarão. Bonzo gostava de brincar, falando que, na verdade, a bela loira era possuída pela alma perdida da esposa de Helmut, que havia sido pregada a sangue frio nas tábuas duras que levavam ao hall de entrada da casa, mas, aos poucos, o que era uma brincadeira inocente foi tomando ares de verdade absoluta aos olhos do quarteto restante. Kim, por sua vez, às vezes parecia realmente flutuar sobre os quatro com uma superioridade e uma experiência que não ostentava com frequência, enquanto em outros momentos dava pistas de estar apenas curtindo, ironicamente, as suspeitas de seus amigos.

O fato é que a casa presenciou o violento florescer de Kim, faminta por novas experiências, sem medo de experimentar o que fosse, das drogas providenciadas por Bonzo às suas mais secretas perversões. Com o destemor próprio da juventude, mergulhou sem medo em suas fantasias, e esse mergulho foi ficando cada vez mais profundo à medida em que buscava afogar sua frustração, raiva e descontentamento com o final de sua relação com Adrian. Kim buscou aplacar seu furor sexual com Curtis, Bonzo e até mesmo Alice, transformando-se em amante do trio, vivendo períodos esporádicos com cada um deles, mas sempre mantendo a paixão por Adrian viva em seu coração.

E lá estavam os cinco novamente. A trilha já havia mudado, e, depois do Skynyrd, já haviam rolado Who, Stones e a banda dos irmãos Allman. Agora o que saía dos alto-falantes era a voz aguda de Neil Young, anunciando que havia algo a ser feito. Ao som de "Down by the River", os cinco secaram o que restava em suas garrafas e se prepararam para partir. O primeiro foi Bonzo, que, sem hesitar ou pensar duas vezes, apontou o cano serrado da espingarda calibre doze que Curtis havia encontrado no porão para a sua cabeça, apertou o gatilho e se foi, acompanhado pelas centenas de pedaços do seu crânio, que agora decoravam a casa. Adrian foi o seguinte, encostando o cano quente da arma no céu da boca enquanto seu dorso sem vida tombava no chão. Curtis, Kim e Alice assistiam tudo na mais serena tranquilidade, relembrando de quando, anos atrás, haviam selado um pacto de, ao perceberem suas vidas em uma estrada sem saída, seja pela plena realização de seus sonhos ou pela absoluta falta de perspectivas, se reuniriam novamente para dar cabo de suas vidas.

O chão repleto de sangue quente serviu de cama para Alice e Kim, que começaram a se acariciar manhosamente enquanto pedaços de carne fresca se desprendiam do teto. Curtis apenas observava, sentado com os olhos vidrados naqueles dois belos corpos nus. Sua distância foi quebrada apenas quando Alice, montada sobre Kim, o chamou com um pequeno gesto. O tempo parecia passar em outro ritmo, e Curtis se sentia vivendo em slow motion. Juntou-se a Kim e Alice, amando-as com uma energia que nunca pensou ter em seu corpo. Com Alice sobre o seu corpo, chegou ao clímax ao mesmo tempo em que apertou o gatilho da 12, abrindo um rombo gigantesco no corpo tatuado de Alice, que caiu sem vida na poça de sangue que inundava a sala.

Kim e Curtis foram até o gramado do lado de fora do casarão e lá se sentaram, observando o belo pôr-do-sol que se formava naquele fim de tarde. Kim aproximou-se de Curtis, colocando sua mão lentamente no bolso da calça do amigo, onde pegou o estilete que ele carregava e começou a fazer longos e profundos cortes em seu próprio corpo. Curtis deixou-a por um instante, foi até a casa e retornou com alguns utensílios. Pegou Kim em seus braços e carregou-a até a porta da casa, onde começou a pregar longos pregos em suas mãos, coxas e pés. A figura loira crucificada e banhada de sangue olhava fixamente para Curtis, e, lambendo seus lábios e esboçando um breve sorriso, deu a senha para que Curtis executasse o ato seguinte, banhando-a com jatos de álcool que penetravam a carne exposta de seu corpo, arrancando gritos que ele não sabia se eram de dor ou de prazer.

Enquanto Kim se debatia na pesada porta de madeira, Curtis sacou as duas armas que levava na cintura, aproximou-as de sua cabeça e apertou o gatilho, fazendo seu corpo sem vida cair pesadamente no chão, bem em frente ao de Kim. A outrora angelical e bela loira sentiu o silêncio que se seguiu, e, enquanto a noite escurecia o dia, seus olhos se fecharam, levando-a para um lugar desconhecido.

Os dias se passaram e, por mais que as famílias dos cinco estivessem acostumadas com seus desaparecimentos sem aviso, o ar pesado prenunciava que algo diferente havia ocorrido. Os corpos foram descobertos duas ou três semanas depois, em um cenário descrito pelos policiais locais como sendo de uma beleza horripilante.

A casa foi posta abaixo e suas histórias foram levadas pelas imensas chamas do incêndio que a consumiu. Entre as cinzas daquele antigo refúgio, cenário de tantos segredos, aventuras e descobertas, foi encontrado um sexto crânio, e hoje diz-se que o forte e grande Helmut caminha pelas noites frias de inverno acompanhado por seus cinco irmãos de sangue e espírito.

A cidade nunca mais foi a mesma. O sol nunca mais se pôs como antes. O entardecer até hoje traz em suas sombras os gritos e sons daquela data fatídica. Hoje, no lugar do casarão existe uma imensa árvore, em cuja convidativa sombra repousam todos os sonhos, desejos, amores e conquistas de Curtis, Kim, Alice, Adrian e Bonzo. Dizem que basta sentar sob ela e fechar os olhos para ver o doce sorriso de Kim, ouvir as histórias de Bonzo, dançar junto com Adrian e Alice pelo ar e sentir o aperto de mão firme e sincero de Curtis.

Por aquelas bandas, os dias continuam longos e frios, mas bem menos interessantes.



Enquete da semana: o melhor disco de hard rock de 1984

segunda-feira, setembro 17, 2012
Embate brabo essa semana! Perfect Strangers, do Deep Purple, e 1984, do Van Halen, lutaram até o último segundo pela primeira posição, mas o disco do Purple levou a primeira posição por pouquíssimos votos. Na sequência, destaque para os trabalhos do Whitesnake, Scorpions, Twisted Sister e Rush lançados naquele ano.

Não comento muito o resultado aqui, mas nesse caso gostaria de dizer que, na minha opinião, Perfect Strangers levou o primeiro posto muito mais pelo impacto que teve, por marcar o retorno da formação clássica do Purple, do que pela qualidade de suas músicas. Que fique bem claro: não estou dizendo que trata-se de um disco ruim, muito pelo contrário, mas 1984 é infinitamente superior, ao meu ver. O que vocês acham? Concordam com o meu ponto de vista?

Segue abaixo o resultado final:

Deep Purple - Perfect Strangers - 52%
Van Halen - 1984 - 51%
Whitesnake - Slide It In - 40%
Scorpions - Love at First Sting - 34%
Twisted Sister - Stay Hungry - 29%
Rush - Grace Under Pressure - 21%
Kiss - Animalize - 13%
Ratt - Out of the Cellar - 13%
Bon Jovi - Bon Jovi - 12%
Dokken - Tooth and Nail - 9%
Europe - Wings of Tomorrow - 6%
Quiet Riot - Condition Critical - 4%
Hanoi Rocks - Two Steps From the Move - 3%
Joan Jett & The Blackhearts - Glorious Results of a Misspent Youth - 2%
Sammy Hagar - VOA - 1%



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