7 de nov de 2014

Criolo: crítica de Convoque Seu Buda (2014)

Kleber Cavalcante Gomes é uma pessoa diferente. O cara que você conhece como Criolo pensa e faz música de uma maneira particular, igual a ninguém. Isso já era colocado na mesa na estreia que pouquíssima gente ouviu - Ainda Há Tempo (2006) - e foi escancarado no disco que todo mundo escutou - Nó na Orelha (2011). Vindo do rap, Criolo não se prende ao gênero, seja na configuração esperada do estilo - samplers, colagens, vocais falados - como, principalmente, nos limites que ele poderia impor à sua música. Assim como Nó na Orelha, Convoque Seu Buda, lançado neste semana, parte do rap e vai ao encontro de diversas sonoridades, passando pelo afrobeat, samba, reggae, MPB e outros, resultando em mais um trabalho de primeira linha.

Gravado entre os meses de julho e setembro, o disco foi produzido por Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral, mixado por Mario Caldato Jr. e masterizado por Robert Carranza. Convoque Seu Buda traz dez canções, onde o discurso afiado de Criolo fala sobre consumismo, drogas - notadamente o flagelo social do crack, que enche as ruas das cidades brasileiras de coadjuvantes de The Walking Dead mas é sonoramente ignorado por TODAS as esferas do poder -, conflitos/contrastes entre as classes sociais e o cotidiano da periferia, realidade conhecida na pele pelo rapper.

Criolo repete um expediente que deu muito certo em Nó na Orelha e que faz a diferença mais uma vez em Convoque Seu Buda: o uso de instrumentos reais na construção das músicas. Assim, as composições, ainda que sempre tragam beats e colagens muito bem encaixadas, soam orgânicas e com muita fluidez. Estão lá guitarra, baixo, teclado, bateria e outros instrumentos como flautas, construindo uma sonoridade rica e repleta de matizes interessantes.

Entre as faixas, acertos e mais acertos, comprovando que a mente do rapaz segue transbordando boas ideias. A música que dá nome ao disco abre os trabalhos com um rap de letra forte, seguida da ótima “Esquiva da Esgrima”, com um refrão grudento como um bom chiclete. Em “Cartão de Visita”, Criolo revisita trechos da entrevista siderada que deu ao ator Lázaro Ramos alguns meses atrás enquanto declama uma letra e uma interpretação irônicas que desembocam no refrão cantado por Tulipa Ruiz.

“Casa da Papelão” fala sobre o crack com uma sutileza instrumental arrepiante. Em contraste, “Fermento pra Massa”, que vem a seguir, é um samba agradável com uma das melhores letras do disco.

Assim como aconteceu em Nó na Orelha, onde algumas das melhores faixas estavam na parte final do álbum - “Sucrilhos”, “Lion Man” e “Linha de Frente” -, em Convoque Seu Buda também somos brindados com uma sequência final do mais alto nível. “Pegue pra Ela” é um afrobeat contagiante, enquanto a densa “Plano de Vôo - Síntese” é uma das mais belas canções já gravadas pelo rapper. A já conhecida - e excelente - “Duas de Cinco” vem na sequência e prepara o clima para o grande encerramento que “Fio de Prumo (Padê Onã)” proporciona, com participação fundamental da cantora Juçara Marçal. Outro acerto violento de Criolo.

Convoque Seu Buda faz juz à espera e é uma sequência apropriada para Nó na Orelha. Ainda que não tenha em seu tracklist hits em potencial como “Não Existe Amor em SP” e “Mariô”, possui um conjunto de faixas consistente e que eu, pessoalmente, gostei muito.

Kleber segue sendo um cara diferente. Criolo segue sendo Criolo. E Convoque Seu Buda é um dos melhores discos do ano.

Nota 9


Por Ricardo Seelig

7 comentários:

Fabio disse...

Achei muito legal esse disco.

FabioRuas disse...

Que surpresa esse álbum, o rap não é um dos meus gêneros favoritos, mas o flerte com outros sons e a musicalidade que Criolo proporciona é demais, valeu a pena abrir a mente. Agora eu vou ter um "Nó na orelha" aqui. Ótima resenha Ricardo.

andrews disse...

Legal ver critica de um CD do Criolo no meu site favorito de música. Curto Metal, mas também curto Rap. Quando era moleque ouvia muito rap, depois de um tempo parei de escutar pelo fato do meu irmão ter dito um dia "Você curte isso?!"(Enquanto ouvia MV Bill) muito tímido fiquei com medo da rejeição dele, acabei desistindo de ouvir e mudeu meu gênero musical ouvindo metal, afinal ele sempre ouvia metal e afins, queria uma aprovação. Enfim, alguns anos atras começei a me interessar mais por musica, no fim encontrei este site magnifico, cada texto me abria mais a cabeça, agora tenho minhas opiniões e sigo ouvindo rap, metal e outros sem preconceito.

Bento disse...

Muito bom ver uma resenha de um disco de Rap em um dos meus sites favoritos, sugiro [sonho] que um dia desses surja uma resenha de discos clássicos do Public Enemy, Run-D.M.C, Eric B. & Rakim e guerreiros nacionais como Racionais MCs, Sabotage. Além do Metal e do Rock, também existe força no Rap e em outros gêneros, quando abrimos a mente vemos que a música tem grande força em todas as suas variações.

Ronaldo disse...

Aproveitando essa onda de Rap recomendo cegamente o CD do Inquérito "Corpo e Alma" se puder confira ele está no Spotify e é uma das melhores coisas que ouvi em Rap recentemente..

Thiago Almeida disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

Nada contra quem curte o som do Criolo, mas para mim, ele é um dos músicos brasileiros mais "hypados" do momento.
Já ouvi seus álbuns e fui num show (aqui no Rj) e sinceramente não achei tudo isso que falam sobre ele.
Qto ao review aqui no site, achei demais. Ótima diversidade de gêneros musicais.
Abraço a todos.

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