14 de nov de 2014

Criolo e o milagre da música

sexta-feira, novembro 14, 2014
Ainda estou atordoado com Criolo. Já havia desfeito o nó da minha orelha há um tempo, mas agora convoquei meu Buda e todos os outros santos. Ouço o terceiro disco do rapaz todos os dias, várias vezes por dia, desde que ele foi lançado, em 4 de novembro. Já se passaram 10 dias. Já bati as 100 audições, com certeza absoluta. 

Em casa. Na rua. No trabalho. Na vida. Convoque Seu Buda é uma obra de arte. Um álbum fantástico, com letras afiadas, batidas contagiantes, instrumental refinado, arranjos cheios de detalhe.

É bom perceber que, em um mundo onde a música em formato físico caiu em desuso, ainda consigo sentir o coração bater mais forte, a boca ficar seca e a mente esperta com um disco. Do início ao fim, do fim ao começo.

Criolo é único. Escrevi isso em meu review. Assim como é único, é especial e é inesquecível ter a vida capturada por canções que fazem todo o sentido, em todos os sentidos.

Daí você tem um blog pra falar sobre música, que é o que você mais gosta na vida, o que você não vive sem. E sente a necessidade imperativa e imediata de aumentar o volume do play enquanto coloca na tela o que essas canções fazem seu corpo sentir. 

Talvez eu ande meio emotivo por uma série de fatores. Pelo medo do que está por vir, e de como isso pode mudar tudo. O que sei é que Convoque Seu Buda, em diversos momentos, traz o coração à boca e quase faz as lágrimas escorrerem pelo rosto. Uma sensação que sempre é mágica, e que há tempos não sentia.

Hoje, não tem boca pra se beijar, não tem alma pra se lavar, não tem vida pra se viver. Mas tem música pra se ouvir. Sempre.

Checklist #001

sexta-feira, novembro 14, 2014
Retomando o nosso clipping com as capas das principais revistas sobre música do mundo. Destaque para as belíssimas novas edições da The Blues Magazine e da Metal Hammer norueguesa, além do especial da Decibel com os 100 melhores álbuns de doom da história. E tem mais coisas boas, como você pode ver abaixo:










Crítica de James Hetfield - O Lobo à Frente do Metallica

sexta-feira, novembro 14, 2014
É sempre um problema quando lemos uma biografia de um personagem e ele não está entre as fontes entrevistadas. No caso de James Hetfield - O Lobo à Frente do Metallica, de Mark Eglinton (o autor também escreveu em parceria com Rex Brown o livro Official Truth, 101 Proof - The Inside Story of Pantera), isso se estende também aos demais integrantes do Metallica. Ninguém da banda está entre os personagens consultados para a confecção da obra. O lado bom é que trata-se de uma visão independente. O ruim é que passa quase batido e trata de maneira superficial aspectos marcantes da carreira do grupo, como a batalha com o Napster, a ruptura com Dave Mustaine e a morte trágica de Cliff Burton.

Curto, o livro tem apenas 208 páginas e é daqueles que você lê em uma sentada. Totalmente focado na figura de Hetfield, mostra um personagem apaixonante, dono de uma personalidade marcante e com algumas histórias para contar. Estão em suas páginas a infância cercada de conflitos religiosos e com uma visão de mundo provinciana, a adolescência rebelde pelo afastamento do pai e a morte da mãe e como esses fatores levaram o jovem James ao encontro da música.

Obstinado, apaixonado, dono de uma força sobre-humana e de uma loucura condizente - principalmente pelo álcool, consumado no apelido dado para a banda no início de sua carreira (Alcoholica) - Hetfield se transformou na cara e no coração do Metallica, o contraponto perfeito de Lars Ulrich. Juntos, a dupla transformou um quarteto de jovens cheios de espinha na maior banda de heavy metal da história, e isso não é pouca coisa.

Ainda que relativamente breve e com passagens rápidas e superficiais sobre aspectos chaves da trajetória do Metallica - como os citados no primeiro parágrafo -, O Lobo à Frente do Metallica é uma leitura divertida e complementar à Metallica - A Biografia, obra de Mick Wall que conta toda história do gigante norte-americano.

Se você já leu o livro de Wall, pegue esse também. Se ainda não, invista o seu dinheiro no título de Mick que vale mais a pena.


Edição nacional da Editora Gutenberg, preço médio de 30 reais.

13 de nov de 2014

Crítica de AC/DC - A Biografia, de Mick Wall

quinta-feira, novembro 13, 2014

Mick Wall é o melhor biógrafo do rock. Tá, tá bom, é o meu preferido, talvez você prefira os livros de outro escritor. Minha predileção pelo trabalho do jornalista inglês se dá principalmente pelo que ele fez em Quando os Gigantes Caminhavam Sobre a Terra, livro de quase 600 páginas que detalha a trajetória do Led Zeppelin, e também pela excelente biografia que Wall escreveu sobre o Metallica. Há deslizes: Run to the Hills, por exemplo, livro que conta a história autorizada do Iron Maiden, achei bem fraquinho e chapa branca em demasia.

Com duas dezenas de obras nas costas, Mick Wall está no jornalismo musical há décadas e no ramo das biografias desde 1986, ano em que o seu primeiro livro foi publicado - a saber: Diary of a Madman - The Official Biography of Ozzy Osbourne.

A boa notícia é que o aquecimento do segmento de biografias musicais no mercado editorial brasileiro fez com que, ao contrário do que acontecia há não muito tempo atrás, diversos títulos de qualidade fossem lançados em edições nacionais. É o caso de Hell Ain’t a Bad Place to Be, biografia sobre o AC/DC assinada por Wall publicada originalmente em 2012 e que ganhou versão brasileira este ano através da Globo Livros.

As 456 páginas de AC/DC - A Biografia apresentam uma banda extremamente fechada ao redor dos seus integrantes, notadamente os irmãos Malcolm e Angus, fundadores e líderes do grupo. Discretos e nada alinhados com a figura do rock star egocêntrico e faminto por holofotes, os integrantes do grupo mantém suas vidas privadas longe do alcance dos tabloides - ou pelo menos tentam, vide o recente caso do baterista Phil Rudd. A dupla de irmãos divide com Brian Johnson os rumos da carreira da banda, enquanto Rudd e o baixista Cliff Williams são quase coadjuvantes neste processo.

O AC/DC não se reinventa, não precisa disso, e uma renovação está longe de ser algo que os milhões de fãs do grupo desejem. A banda sabe disso, e entrega exatamente o que o seu público deseja. 

Marcada pela morte trágica do vocalista Bon Scott, a trajetória do AC/DC é contada com o detalhismo habitual de Wall, tendo como base para isso dezenas de entrevistas realizadas pelo escritor com os músicos e pessoas próximas ao grupo.

Não há grandes revelações em AC/DC - A Biografia, e isso é uma boa notícia. O livro explica como a banda cresceu sempre ao redor da família Young, e como esse modo de gerir a sua carreira foi fundamental não apenas para o crescimento do grupo mas, sobretudo, para superar momentos complicados como a morte precoce de Scott e o alcoolismo de Malcolm Young.

Assim como as músicas e os discos do AC/DC, o livro é uma ótima dica pra quem curte o bom e velho rock and roll. E isso, como você bem sabe, é mais do que suficiente.


AC/DC - A Biografia custa cerca de 30 reais nas livrarias, e vale cada real investido.

26 Bandas para o Matias: M de Metallica

quinta-feira, novembro 13, 2014
Quando era adolescente, eu tinha um tipo de música dentro da minha cabeça. Aos 14, 15 anos, estava descobrindo o rock, o heavy metal, e um turbilhão de sons invadia meus poros todos os dias. Mas, mesmo assim, a música que eu queria ouvir, que estava dentro do meu cérebro, não chegava até os meus ouvidos.

Então, em uma tarde ensolarada, fui até a minha loja de discos favorita em Passo Fundo (RS) e lá encontrei o disco azul daquela banda que eu lia sem parar na Rock Brigade, mas ainda não havia tido a oportunidade de escutar. Fui ouvir o Ride the Lightning, fui ouvir o Metallica. E, para minha surpresa, para minha alegria, para a plenitude dos meus dias, encontrei nos sulcos deste álbum a música que antes só estava dentro de mim.

As palhetadas. As guitarras cavalgadas. Os riffs. As mudanças de andamento. Os arranjos. Os vocais. Os solos. O Metallica fazia o tipo de metal que eu não sabia que existia, mas sonhava que existisse. O impacto, é claro, foi gigantesco e eterno. Ouvi Ride the Lightning durantes meses. Só parei quando descobri o Kill ‘Em All. Que só parei quando ouvi o Master of Puppets. Essa trinca de álbuns compõe um dos trios iniciais mais impactantes do rock - pelo menos do rock que faz parte da minha vida.

Até hoje, passados quase 30 anos de toda essa experiência, ainda mantenho o Metallica no play. Master of Puppets volta e meia toca na íntegra por aqui. É um dos meus discos favoritos de todos os tempos. E, pra mim, ele ainda está longe de envelhecer.

O Matias tem uma história engraçada com o Metallica. Meu filho nasceu no final de março de 2008. Death Magnetic, último álbum de estúdio do Metallica, chegou às lojas em setembro daquele ano. E eu, na seca devido ao longo período sem nada de inédito e ainda na ressaca de St. Anger, ouvi o álbum direto. Até que, certo dia, estávamos eu, o Matias e a mãe dele no carro e nosso pequeno não parava de chorar. A solução foi simples: aumentei o volume de Death Magnetic e ele ficou tranquilo na hora. Curtindo um som no alto dos seus 6 meses de idade.

Já assistimos alguns shows juntos, já ouvimos alguns discos juntos, o Metallica faz parte da nossa relação pai e filho. E é bom demais poder dividir essa paixão não apenas pela banda, mas pela música como um todo, com o menino que você colocou no mundo. 

É uma alegria imensa, uma satisfação que não tem fim.

Playlist Collectors Room: Rock 2014

quinta-feira, novembro 13, 2014
O rock segue firme e forte em 2014, como tem que ser. Novos nomes, outros mais recentes já na estrada há algum tempo e alguns veteranos incansáveis mostraram que a qualidade não tem data de validade.

Abaixo, um leve apanhado com um pouco do que de melhor rolou no rock durante estes últimos 12 meses, na nossa opinião. Não se trata de uma lista dos melhores do ano, mas sim um levantamento pra ouvir e se divertir.

Nos comentários, dê dicas do que faltou na nossa seleção.

Boa audição!

Playlist Collectors Room: Metal 2014

quinta-feira, novembro 13, 2014
Chega o fim de ano e começamos a avaliar tudo o que foi lançado nos últimos 12 meses. Iniciando os trabalhos, elaboramos uma playlist com canções que, na nossa opinião, trazem muito do que de melhor aconteceu no heavy metal durante 2014. Não se trata de um best of definitivo, mas sim um apanhado de faixas marcantes que fizeram nossas cabeças neste ano que caminha para a reta final.

Ouça em alto e bom som, e também conte pra gente quais canções lançadas por bandas de metal em 2014 mais cativaram os seus ouvidos.

12 de nov de 2014

Playlist Collectors Room: Masters of Thrash

quarta-feira, novembro 12, 2014
Um apanhado pra bater cabeça, deslocar a coluna e obter um orgulhoso torcicolo. São 37 faixas em pouco mais de 3 horas de música, indo dos ícones dos anos 1980 até as bandas que estão fazendo bonito hoje em dia quando o assunto é o thrash metal - e, claro, as suas várias ramificações.

Tem banda faltando, eu sei e você também, mas o negócio aqui é se divertir com a música e não montar um painel cronológico e evolutivo.

Aumente o volume e caia no som!

Foo Fighters: crítica de Sonic Highways (2014)

quarta-feira, novembro 12, 2014
Sonic Highways, oitavo álbum do Foo Fighters, chegou para fazer história, mas não pelo motivo esperado. Trata-se de um disco decepcionante, com oito faixas fracas, ruins, preguiçosas e qualquer outro adjetivo semelhante que você quiser aplicar.

O que é um tanto estranho, pois a banda de Dave Grohl vinha de um bom álbum, o enérgico e cheio de hits Wasting Light (2011). Talvez o vocalista, guitarrista e baterista tenha vestido a carapuça de salvador do rock que sites e revistas mundo afora o aplicaram e isso o tenha tirado do curso. Talvez os problemas internos que foram mostrados no documentário de alguns anos atrás não tenham sido superados completamente e a banda voltou a se corroer. Sei lá. O que sei é que Sonic Highways é um álbum sofrível, pra dizer o mínimo.

Os 42 minutos do disco demoram quase 2 horas pra passar, e isso nunca é um bom sinal. O riff chupado de “Holy Diver”, do Dio, em “Something for Nothing” já prenunciava algo de errado no reino de Davi, e isso fica claro com a audição completa. Melodias fracas, ideias repetitivas, um ar de preguiça - e repito, preguiça mesmo, no pior sentido - misturado a um tanto de prepotência e arrogância levaram a banda a gravar um disco que, sem muito esforço, figura entre os piores registros de sua carreira.

O que é uma pena, pois é impossível não simpatizar com Grohl e sua gangue, que passam um ar de gente boa, de serem bons de papo e de copo, daqueles brothers que sempre garantem a diversão quando reunidos.

Pra não dizer que tudo se perde, “Outside" merece destaque, com lampejos da banda que conquistou fãs em todo o mundo unindo energia, agressividade e melodia. As melodias vocais grudentas, os backing vocals e os trechos instrumentais fazem com que essa faixa seja um ponto fora da curva de Sonic Highways, contrastando totalmente da mediocridade que impera em todo o trabalho. O que, convenhamos, é muito pouco em um disco com oito novas canções.

Sonic Highways é um dos piores discos que ouvi nos últimos anos. Ele redefine o conceito de álbum de rock ruim. Muito ruim. 

Acho que não era isso que Dave queria …

Nota 3

11 de nov de 2014

Enrow, Roque Enrow

terça-feira, novembro 11, 2014
A melodia torta de “A National Acrobat”, a doçura de “Something to Talk About”, a energia primitiva de “Summertime Blues”. Seja com o Black Sabbath, com Badly Drawn Boy ou com Eddie Cochran, a música sempre dá o tom.

O coração que pulsa pra fora do corpo em “I Can See for Miles” do The Who transcreve a sensação de encontrar pela primeira vez o amor da sua vida, nessa vida. Que, ao acordar pela manhã, soa como “Alison”, de Elvis Costello: doce, preguiçosa no travesseiro, espichando os braços e as pernas para o ar.

Mesmo que tenhamos dias em que a trilha mais apropriada seja algo como “Hit the Road Jack” e nos sentimos como Ray Charles, sem conseguir ver o futuro e como se vivêssemos em uma comédia involuntária. Se estamos ou não muito velhos para o rock and roll mas mesmo assim ainda jovens para morrer, como certa vez cantou Ian Anderson.

O fato é que, pelo simples fato de termos a música correndo em nossas veias como o combustível que nos faz crescer, evoluir e sempre aprender, somos os campeões cantados por Freddie Mercury e nos sentimos livres para fazer o que bem entendermos, como um certo Jack White.

Afinal, “Esse Tal de Roque Enrow” cantado por Rita Lee vai, volta e segue sempre fazendo sentido.

Robert Plant está certo

terça-feira, novembro 11, 2014
Todos os sites de música e entretenimento estão noticiando, de maneira bombástica, a suposta negativa de Robert Plant a uma oferta milionária pelo retorno do Led Zeppelin. Algo em torno de 800 milhões de dólares, aproximadamente 2 bilhões de reais, para 35 shows ao lado de Jimmy Page, John Paul Jones e Jason Bonham.

A resposta para a negativa de Plant está no livro Quando os Gigantes Caminhavam Sobre a Terra, excelente biografia do Led Zeppelin escrita pelo jornalista inglês Mick Wall e publicada em 2008. Está tudo nas mais de 500 páginas do livro. Mas eu dou uma palhinha aqui.

O Led Zeppelin foi algo extraordinário. Uma banda gigantesca, e tudo ao seu redor obedeceu proporções bíblicas. Em apenas dez anos, o grupo de Page, Plant, Jones e Bonzo redefiniu o rock, a indústria, o blues, o metal. Criou o estereótipo do guitar hero com a figura de Jimmy Page carregando sua guitarra nos joelhos (Slash que o diga), a figura icônica do vocalista transbordando sex appeal e lançando gripos orgásticos em cada canção, do baixista discreto que sustenta a banda com a sua classe e elegância e do mastodonte incontrolável espancando as peles da bateria atrás de todos. Tudo isso administrado pelo cara que reinventou a função de manager musical: Peter Grant. A dimensão gigantesca do Led Zeppelin fez os palcos mudarem, levou à inclusão de telões nos shows, da criação de equipamentos de PA e afins muito mais potentes, e dezenas de outras inovações.

Esse foi o lado bom. O não tão saudável assim foi o mergulho em drogas - principalmente Page e Bonham -, os sanguessugas que cercavam todos os passes dos quarteto, e, para os supersticiosos, os aspectos sombrios que o fascínio de Jimmy Page pela obra de Aleister Crowley trouxeram para o grupo. 

Robert Plant foi, muito provavelmente, o integrante mais afetado por tudo isso. Plant sofreu um grave acidente de carro com a sua família no dia 4 de agosto de 1975 no interior da Grécia, com todos tendo graves lesões. O vocalista ficou em uma cadeira de rodas durante um longo período, chegando a gravar o álbum Presence (1976) nessas condições. Quando tudo parecia estar entrando nos trilhos novamente, Karac, seu filho de apenas 5 anos, contraiu um vírus misterioso no estômago e faleceu apenas alguns dias depois, afetando o vocalista profundamente, como esperado.

A vida de Plant mudou para o bem e também para um lado não tão bom assim com o Led Zeppelin. Wall explica isso em Quando os Gigantes Caminhavam Sobre a Terra, deixando claro que Plant jamais voltará a sair em turnê com o Led Zeppelin novamente por uma série de motivos. As razões de Robert Plant transcendem questões financeiras. Elas são muito mais profundas e envolvem amizade, família, a dor de uma perda inexplicável e muitos outros fatores. 

Olhem para a frente, para o que está acontecendo agora, em 2014, e deixem o passado como está. Estão com saudades do Led Zeppelin? Deliciem-se com as reedições dos álbuns da banda que estão sendo lançadas nos últimos meses. Ouçam Robert se reinventar disco após disco, como fez mais uma vez no seu último trabalho. Escutem as milhares de bandas influenciadas pelo Led, que pipocam em cada esquina. Opções não faltam, é só ter vontade e colocar os ouvidos para funcionar.

Deixem Robert em paz, fazendo o seu som, torcendo para o seu time do coração (o Wolverhampton, que briga para retornar para a primeira divisão inglesa) e curtindo os seus três filhos - Carmen Jayne, Logan Romero e Jesse Lee.

Para entender: groove metal

terça-feira, novembro 11, 2014
O groove metal surgiu no final dos anos 1980 e início dos 1990 através de bandas como Pantera, Sepultura, Machine Head e White Zombie, que começaram a criar uma sonoridade totalmente nova onde o groove andava lado a lado com o peso do heavy metal. As influências iniciais do gênero estão no thrash, que foi o ponto de partida de onde diversas bandas, principalmente norte-americanas e brasileiras, evoluíram para algo até então inédito. A principal características do estilo são os riffs curtos e sincopados, mais concentrados no groove e no peso do que na velocidade. Percebe-se também uma onipresente influência do hardcore permeando os nomes do gênero.

Ainda que comumente o surgimento do groove metal seja apontado para duas bandas em particular, o Pantera e o Sepultura, alguns grupos já haviam lançado as sementes e as estavam desenvolvendo paralelamente. Entre os pioneiros menos conhecidos estão a banda norte-americana Exhorder, a inglesa Reign, o também americano Creeper, a canadense Varga, a japonesa Outrage e a norte-americana Psychosis. É preciso citar também o Bad Brains, que influenciou o desenvolvimento do gênero com os seus discos lançados a partir da década de 1980 e que colocaram doses maciças de balanço ao peso de suas canções.

No entanto, apesar dessa variedade de grupos que, de alguma maneira, estavam na vanguarda do que viria a ser um dos estilos mais populares do metal, indiscutivelmente os trabalhos mais populares e influentes do groove metal estão na discografia de quatro bandas: Pantera, Sepultura, White Zombie e Machine Head. A guitarra singular de Dimebag Darrell é um dos instrumentos mais icônicos do estilo, assim como as batidas desenvolvidas pelo Sepultura a partir de Chaos A.D. (1993), os flertes com a eletrônica e o industrial de Rob Zombie e sua turma e o desdobramento de uma nova sonoridade para o thrash levada a cabo pelo Machine Head.


Em seu período inicial, o groove metal foi popularizado e teve as suas bases divulgadas e fincadas profundamente no universo do metal através de discos como:

- Cowboys From Hell (1990), Vulgar Display of Power (1992), Far Beyond Driven (1994) e The Great Southern Trendkill (1996), do Pantera
- Chaos A.D. (1993) e Roots (1996), do Sepultura
- Burn My Eyes (1994), do Machine Head
- La Sexorcisto: Devil Music, Vol. 1 (1992) e Astro-Creep: 2000 - Songs of Love, Destruction and Other Synthetic Delusions of the Electric Head (1995), do White Zombie
- Power of Inner Strength (1995), do Grip Inc.
- Prove You Wrong (1991) e Cleansing (1994), do Prong
- The Law (1992), do Exhorder

O crescimento imenso de bandas como Pantera e Sepultura no período tornou o groove um dos gêneros mais populares do metal, principalmente no maior mercado fonográfico do planeta, os Estados Unidos. A influência que a então nova sonoridade teve sobre jovens de todo o planeta, notadamente os norte-americanos, foi a faísca e o ponto de partida para o nascimento de outro estilo que marcou a década de 1990, o nu metal.

Porém, a separação da Sepultura em 1996 - que levou ao surgimento do Soulfly, liderado por Max Cavalera - e a hibernação do Pantera causada por conflitos internos a partir do mesmo ano - quebrada apenas pelo lançamento de Reinventing the Steel (2000) e retomada definitivamente com a morte de Dimebag, em 2004 -, somadas às experimentações do Machine Head com o nu metal e o fim do White Zombie, fizeram com que houvesse uma troca de lugares nos postos mais altos da hierarquia do estilo. Com criatividade de sobra e levando a cabo os ensinamentos dos pioneiros, grupos como Lamb of God, DevilDriver, Throwdown e Chimaira deram novo fôlego ao gênero. No que podemos chamar de segunda geração de bandas desta corrente, destaque para os álbuns abaixo:

- Primitive (2000), Prophecy (2004) e Dark Ages (2005), do Soulfly
- As the Palaces Burn (2003), Ashes of the Wake (2004) e Sacrament (2006), do Lamb of God
- The Fury of Our Maker’s Hand (2005), do DevilDriver
- 1919 Eternal (2002) e Hangover Music Vol. VI (2004), do Black Label Society
- Chimaira (2005) e Resurrection (2007), do Chimaira
- ... And They Shall Take Up Serpents (2005), do Byzantine
- The Onslaught (2007), do Lazarus A.D.
- Vendetta (2005) e Venom & Tears (2007), do Throwdown


Com as suas características consolidadas no DNA do heavy metal, o groove metal tornou-se um gênero bastante influente, com seus elementos sendo facilmente identificados na maioria das bandas atuais e até mesmo em grupos veteranos, como é o caso do Anthrax (ouça Sound of White Noise, de 1993) e do Exodus (a fase mais recente, a partir de Tempo of the Damned, de 2004), que usaram com inteligência essas influências para levar a sua música para outros caminhos.

Nos anos mais recentes, alguns gigantes paridos pelo groove entraram em uma espiral ascendente de qualidade. O Machine Head retomou a sua popularidade e hoje é uma das maiores bandas de metal do planeta, tudo isso graças a álbuns sensacionais como Through the Ashes of Empires (2003), The Blackening (2007) e Unto the Locust (2001). O Lamb of God deixou meio mundo sem palavras com Wrath (2009) e o estonteante Resolution (2012). E o Soulfly gravou o seu melhor disco, Enslaved (2012). Isso mostra o quanto ainda é possível desenvolver uma das sonoridades mais cativantes do metal, e o quanto ela ainda está longe de soar estagnada.

Para entender o groove metal e saber mais sobre o estilo, ouça a playlist que preparamos - Spotify e Rdio. E, nos comentários, poste o seu top 10 com os seus discos preferidos do gênero.


Groove, baby!

Por Ricardo Seelig

10 de nov de 2014

Machine Head: crítica de Bloodstone & Diamonds (2014)

segunda-feira, novembro 10, 2014
Existem casos em que a história está sendo escrita diante dos nossos olhos e nem nos damos conta disso. É o que ocorre com o Machine Head já há algum tempo. Após um início promissor com Burn My Eyes (1994) e The More Things Change … (1997), a banda liderada pelo vocalista e guitarrista Robb Flynn entrou no furacão nu metal e lançou seus trabalhos mais discutíveis, The Burning Red (1999) e Supercharger (2001).

A mudança de curso custou a lealdade dos fãs, mas foi a centelha que fez surgir uma banda mais amadurecida e extremamente surpreendente. O marco zero que marcou o início do melhor capítulo da história do grupo norte-americano se deu em 2002, com a entrada do guitarrista Phil Demmel, parceiro de Flynn nos tempos do Vio-lence. Afinado e com uma entrosamento excelente com Robb, Demmel logo se transformou no parceiro ideal do líder do Machine Head. E isso ficou claro já no seu disco de estreia com a banda, Through the Ashes of Empires (2003), onde o quarteto retomou o thrash épico e repleto de groove e endireitou o curso de sua carreira.

A partir de então, o Machine Head entrou em uma espiral ascendente e que ainda não chegou ao seu ápice. The Blackening (2007) foi um disco excelente. Unto the Locust (2011) soou espetacular, um clássico instantâneo. E Bloodstone & Diamonds (2014) mantém a qualidade na estratosfera. 

O principal diferencial do Machine Head é fazer algo extremamente difícil de se ouvir e praticamente único no cenário do heavy metal. A banda consegue soar simultaneamente intensa, pesada e agressiva, mas sempre com um lado emocional muito evidente. Robb Flynn, o cérebro do grupo, se transformou em um ourives da composição, e o resultado é um metal pesadíssimo e emocionante, sempre e em todos os aspectos. É a beleza da violência elevada à sua máxima potência.

Bloodstone & Diamonds apresenta menos melodias que Unto the Locust. O Machine Head soa mais agressivo em seu novo trabalho, mas igualmente belo. As doze faixas apresentam uma banda dona do seu destino, que sabe o que faz, como faz e o que quer fazer. Um quarteto de músicos cheios de si, que ostentam uma segurança e uma confiança inquebráveis. As canções são fortes, bem construídas, com arranjos cheios de detalhes. Percebe-se o cuidado com as pequenas coisas, o detalhismo quase neurótico de Flynn, esculpindo cada faixa até a perfeição.

A abertura com cordas de “Now We Die” dá um ar solene ao disco, para em seguida contrastar com uma canção repleta de groove e um refrão fortíssimo. “Killers & Kings” é thrash moderno e grudento, com uma grande melodia no refrão, feito para ser cantado a plenos pulmões. “Ghosts Will Haunt My Bones” é uma aula prática de como a guitarra deve ser utilizada no heavy metal, com riffs e solos de arrepiar. Já “Night of Long Knives” traz a história de Charles Manson e os crimes que chocaram Los Angeles e os Estados Unidos em agosto de 1969 em uma das melhores canções gravadas pela banda.

E então, após quatro excelentes faixas, o Machine Head entrega a primeira grande obra de arte de Bloodstone & Diamonds. Densa e sombria, “Sail Into the Black” é uma faixa belíssima, cheia de nuances, com um arranjo arrepiante e um crescendo que faz qualquer um renovar a fé no ser humano, na vida, na música e em tudo mais. Antológica, como foi “Darkness Within” no disco anterior. 

Citar faixa por faixa acaba sendo meio maçante, então vou dar só algumas pinceladas. “Eyes of the Dead” é outro arregaço. “Beneath the Slit” traz um riff na escola Tony Iommi e vocais etéreos e um tanto experimentais, mostrando o quanto Robb Flynn se tornou, além de ótimo guitarrista, um cantor e tanto. A melodia anda lado a lado com o peso em “In Comes the Flood”, enquanto “Damage Inside” introduz o outro grande momento do álbum. “Game Over” é uma faixa espetacular, onde Flynn despeja na letra tudo o que sente em relação a Adam Duce, antigo baixista que deixou o grupo em 2013. A seguir, outro interlúdio com “Imaginal Cells” e um final em grande estilo com outra excelente canção, “Take Me Through the Fire”.

Confesso que quando escutei Bloodstone & Diamonds pela primeira vez achei o disco um pouco longo. Porém, com o passar das audições fui me ambientando ao trabalho, que me absorveu por completo. É um álbum diferente tanto de The Blackening quanto de Unto the Locust, um passo adiante na história que está sendo contada pelo grupo. Um disco dono de uma beleza tão forte, tão profunda, que emociona e quase leva às lágrimas quem tem a capacidade de deixar a música invadir as suas veias e conduzir as suas emoções.

O Machine Head é uma banda única. Uma banda impressionante. Uma banda que está fazendo história disco após disco, como os grandes nomes que escreveram a trajetória do heavy metal fizeram no auge de suas carreiras. O Machine Head vive o seu ápice há pelo menos 7 anos, e é uma benção presenciar e ouvir discos como esse.

Nota 9,5

ONLINE

PAGEVIEWS

PESQUISE