A transformação dos canais de quadrinhos brasileiros em meras (e irritantes) vitrines da Amazon


Ler é fundamental. Ler quadrinhos é divertido pra caramba. Você entra em universos incríveis, repletos de histórias apaixonantes que ajudam a deixar os dias mais fáceis e agradáveis. Sempre li muito. Tenho uma grande biblioteca sobre música e uma coleção de HQs que muito me orgulha e diverte.

Mas é preciso falar um pouco sobre o que está acontecendo no mercado de quadrinhos brasileiro. Pra começar, nunca tivemos tantos títulos disponíveis nas bancas e livrarias, e isso é muito bom. A participação cada vez maior dos encadernados na distribuição do mercado, que nos últimos anos abocanharam uma fatia cada vez maior das vendas, mostra o quanto o foco saiu do leitor casual e entrou fundo no colecionador. As revistas mensais perderam muita venda, e o fato da Panini - atualmente, a principal editora de HQs do Brasil - ainda usar o papel jornal na grande maioria dos títulos mensais não ajuda muito. Ainda mais porque, quando decide encadernar os arcos que saíram originalmente com papel inferior, sempre opta por um LWC ou couché nos encadernados, fazendo com que quem comprou a edição mensal saia sempre perdendo.

O outro fator são as coleções da Salvat e da Eaglemoss, que se mostraram um sucesso mas que são, a longo prazo, inviáveis para uma parcela considerável de leitores. Para o leitor alheio, tratam-se de coleções com histórias clássicas (e outras nem tanto) da Marvel e da DC, relançadas em arcos fechados com capa dura e preço médio de R$ 40. Com periodicidade quinzenal, atualmente são quatro coleções em andamento nas bancas - três da Salvat e uma da Eaglemoss -, o que acaba ajudando a tornar o processo meio proibitivo para quem não está com o bolso tão cheio assim.

Mas o assunto aqui, na verdade, é outro ponto. Algo que tem me incomodado bastante nos últimos meses, e que queria dividir com você que está lendo este texto. Em uma estratégia inteligente, a Amazon está utilizando os principais canais brasileiros sobre quadrinhos como veículos para suas promoções. A princípio, nada demais. O problema é que isso está interferindo na qualidade do material produzido por esses canais. Pipoca & Nanquim e 2 Quadrinhos são os dois melhores canais sobre HQs do Brasil, com ótimas pautas, dicas sempre úteis, um conhecimento imenso (principalmente o pessoal do PN) e uma facilidade enorme de comunicação (notadamente no 2Q). Só que mesmo esses canais passam a sensação de estarem forçando a mão ao inserir em praticamente todos os seus vídeos algo sobre a Amazon. E isso, pra quem acompanha o trabalho de ambos há bastante tempo, acaba não apenas ficando cansativo como, em alguns casos, irritante e desnecessário.

Não me entendam mal. Eu entendo o mercado. Eu trabalho com isso. Sou publicitário, o meu dia a dia é criar alternativas para falar com o consumidor de maneira criativa e eficiente. Então, não tenho o ranço que alguns tem com a profissão. O que me incomoda é a alteração de foco: deixa-se de produzir algo de inegável qualidade, e passa-se a entregar anúncios disfarçados de pautas. Outra coisa: é claro que produzir vídeos de qualidade, tanto tecnicamente quanto em relação ao conteúdo, demanda tempo, esforço e custo (sei disso na prática, e inclusive esse é um dos motivos para o próprio canal de vídeos da Collectors estar parado atualmente), mas acho que as coisas passaram um pouco do ponto.

Essa situação toda estava me incomodando há bastante tempo, mas a gota d’água foi a Black Friday. Todo mundo sabe que o Brasil atravessa uma crise econômica. Todo mundo está sentindo isso no bolso. Mas o que vimos nos canais de quadrinhos durante a Black Friday foi justamente o oposto: tudo era “imperdível”, todos os preços estavam “incríveis”, tudo estava “muito barato”. Um incentivo desmedido ao consumismo desenfreado, como que jogando um fósforo em um monte de folhas secas sem conseguir mensurar o tamanho do estrago que isso poderia causar. 

Voltando lá para o início deste texto, é muito legar ler quadrinhos e tudo o que for. Mas comprar apenas por comprar, pra “aproveitar" e “não deixar passar”, além de transformar leitores e colecionadores em acumuladores banais, incentiva um consumo feroz e sem limites, que contrasta de maneira violenta e incômoda com a situação que vivemos em todo o país. É claro que cada um é responsável pelo seu próprio bolso, cada um sabe quais são as suas prioridades, mas esse foco excessivo em precisar vender, em precisar anunciar, em precisar fazer isso para “viabilizar o próprio canal” está chegando no limite, fazendo com que canais interessantíssimos e que sempre abordaram temas legais estejam se transformando em vitrines de vídeo totalmente dispensáveis.

Este texto, por mais que possa ser duro e um tanto direto demais em alguns pontos, é um desabafo de quem sempre acompanhou esses canais e sente que as coisas estão saindo dos eixos, e por motivos bastante discutíveis. 

Vamos voltar a falar de quadrinhos, amigos. A paixão pelas HQs e a vontade de compartilhar e dividir esse sentimento, esse conhecimento, sempre foi o combustível que levou tanto o Pipoca & Nanquim quanto o 2 Quadrinhos ao posto que estão hoje. Não deixem que isso se perca.

Comentários

  1. Conheça o canal Nerd All Stars pra ver a diferença no conteúdo "padrão" de um canal de quadrinhos. ;)

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  2. Conheço o NAA, e acho o conteúdo ótimo.

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  3. Ricardo, eu concordo em todos os sentidos com seu texto, inclusive entendo a necessidade de ter o apoio financeiro e que quando a campanha é legal deve ser anunciada. eu mesmo já torrei o cartão por causa do PN nos últimos meses.
    No caso específico do PN era o conteúdo que mais curtia, mas o problema é que por pouco o canal não está se transformando só nisso. A coisa tem que ser mais pensada e com calma.
    Hoje eu recomendo fortemente o Kitinete HQ.
    Valeu

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