20 de abr de 2017

Metal Open Air: há cinco anos acontecia a maior picaretagem do metal nacional

quinta-feira, abril 20, 2017

Era para ser um festival histórico. Mais de 40 bandas tocando em três dias em São Luiz, no Maranhão, no maior evento dedicado ao heavy metal já realizado no Brasil, tendo como mestre de cerimônias o ator Charlie Sheen e a presença de bandas como Megadeth, Symphony X, Exodus, Destruction, Blind Guardian, Grave Digger, Anthrax, Rock and Roll All Stars, Obituary, Fear Factory, Saxon, Venom e outras. Mas é o Brasil, né, então tudo é possível - menos o que foi anunciado.

Sem receber o pagamento previamente combinado, as bandas começaram a cancelar suas apresentações no MOA por não terem recebido o cachê. Já os fãs, as chegarem no local do show, vendido como um ambiente diferenciado e com ótimas acomodações, foram surpreendidos, entre outros absurdos, com um camping montado dentro de um estábulo e com o cheiro de excrementos de cavalo impregnado em cada centímetro quadrado. 

O Metal Open Air foi promovido por Felipe Negri, da Negri Concerts, e pela Lamparina Produções. A Lamparina era uma produtora maranhense com operação regional e que ficou responsável pelo sistema de som - que não funcionou, e teve que ser substituído às pressas por equipamentos locados de bandas de forró locais. Já a Negri Concerts era, em 2012, uma das maiores produtoras e agências de casting de shows internacionais do país. Localizada em São Paulo, tinha relação próxima com toda a cena de metal brasileira, incluindo aí bandas, revistas, sites, jornalistas e todo aquele povo que troca opiniões isentas por credenciais para shows.

As coisas começaram a sair dos trilhos dois dias antes do início do festival, com a chegada dos primeiros fãs em São Luiz e a constatação, in loco, de que tudo que havia sido vendido não passava de uma ilusão. Simultaneamente, as bandas começaram a cancelar os seus shows em um efeito cascata. Dia 19 de abril de 2012, um dia antes do início do MOA, publicamos este texto, que recebeu inúmeras críticas de outros veículos por “não estar apoiando a cena nacional”. E aqui é importante citar um ponto crucial: até o cancelamento do festival, ocorrido somente no sábado, dia 21/04, NENHUM veículo do jornalismo musical especializado em heavy metal aqui no Brasil estava publicando nada sobre o absurdo que estava ocorrendo no Maranhão. As únicas excessões eram a Collectors Room e a Van do Halen - não por acaso, dois sites cujas redações ficam distantes do principal centro metálico do país, São Paulo (a CR em Florianópolis e a Van no interior do RS), e longe da influência e da política “uma mão lava a outra” da qual o senhor Felipe Negri e seus brothers eram tão fãs.

Dia 20/04 explicitamos todos os problemas que estavam acontecendo no MOA, com relatos que recebemos de amigos que haviam se deslocado e viajado milhares de quilômetros para assistor ao festival. Tudo está neste texto aqui, não apenas um dos mais acessados mas também um dos mais importantes da história do site. À medida que mais informações iam chegando, seguimos informando nossos leitores com uma série de posts relatando as condições do local e como os fãs estavam sendo tratados - leia aqui e aqui.

A cobertura de todos os acontecimentos que aconteceram no Metal Open Air em primeira mão foi um dos pontos mais importantes da trajetória da Collectors Room nestes quase dez anos de vida, mas, acreditem ou não, gerou grandes dores de cabeça para o site. Um texto escrito pelo amigo Bruno Sanchez criticando a postura dos vocalistas Thiago Bianchi e Edu Falaschi sobre o evento - ambos se divertiam pra valer e faziam posts em suas redes sociais elogiando o festival enquanto os fãs cheiravam a merda de cavalo na frente do palco - teve que ser retirado do ar após recebermos uma intimação judicial movida por ambos os vocalistas, onde nos ameaçavam de processo caso não calássemos a boca. Diversos jornalistas da cena de São Paulo, amigos do queridão Felipe Negri e que até então tinham uma relação amistosa com a CR, fecharam a cara e começaram a fazer campanha contra o site, cujo ponto alto foi uma peregrinação pelos selos e gravadoras especializados em metal aqui no Brasil solicitando que essas empresas não se relacionassem mais conosco (uma prévia do nós ou eles tão em voga no Brasil atualmente) - fato que nos foi relatado pelos próprios lojistas da Galeria do Rock e por donos de gravadoras amigos nossos.

Hoje, olhando para trás, fica claro que tudo o que aconteceu há cinco anos pode acontecer novamente. E a razão é bem simples: praticamente nada mudou desde então. A política de uma mão lava a outra segue firme e forte. A principal revista especializada em metal do Brasil, ainda que tenha evoluído nos últimos meses, segue oferecendo planos de mídia promocionais onde a compra de um pacote de anúncios em suas páginas garante um nota elogiosa em uma futura resenha. E uma parcela dos fãs, que foram os principais prejudicados por tudo isso, ainda prega que “ao menos foi legal assistir aos show que rolaram, valeu muito a pena, cara …”. Isso sem falar no inócuo Felipe Negri, cuja Negri Concerts fechou as portas mas tentou voltar alguns meses depois com uma empresa batizada de maneira prepotente como Indestructible Productions mas foi descoberto pelos fãs. E que, quero estar enganado, acredito piamente que segue operando na cena acobertado pelos brothers que, como dito antes, seguem vendendo a opinião por meras credenciais para shows.

Infelizmente, ainda seguem sendo poucos os veículos sérios e isentos na imprensa que cobre o heavy metal aqui no Brasil. A Collectors Room teve suas idas e vindas, e segue em frente como pode. A Van do Halen, ao que tudo indica, encerrará as suas atividades nos próximos meses. Poucas novas opções tem surgido nos últimos anos, e a renovação no modo de cobrir a cena é necessária, sempre. Um novo olhar sobre o nosso cotidiano se faz necessário.

Há cinco anos, um enorme capítulo negativo marcou o metal nacional. Passados quase 2 mil dias, pouca gente lembra, pouca gente se importa sobre o que aconteceu e, mais alarmante do que tudo, pouca coisa mudou desde então. Na boa, né gente: dá pra fazer tudo isso com menos jeitinho brasileiro e seguindo práticas mais corretas.

Até lá, o conto do vigário do metau nassionau segue firme e forte …


19 de abr de 2017

Podcast Collectors Room #003: groove, blues rock e Mastodon

quarta-feira, abril 19, 2017

Terceira edição do nosso podcast no ar. Neste programa, tocamos muito groove setentista, passamos pela cena atual do blues rock, hards cheios de riffs e mergulhamos no disco mais recente do Mastodon, Emperor of Sand. No meio disso tudo, uma dica legal de HQ e respostas para as dúvidas e perguntas dos leitores.

Ajude a divulgar o Podcast Collectors Room compartilhando este post com seus amigos e chegados, e nos comentários conte o que está achando dos programas e o que espera ouvir nos próximos.

Para ouvir nosso terceiro podcast - e também baixá-lo -, utilize o player abaixo:

18 de abr de 2017

Primavera no deserto: uma análise detalhada do novo disco do Mastodon

terça-feira, abril 18, 2017

Eu ouço Mastodon desde 2015. Já tinha escutado uma coisa ou outra da banda anteriormente e não tinha gostado tanto. Mas, num belo dia, ouvi “The Motherload” e fui conquistado. Virei fã e criei um vínculo especial com as músicas, que me acompanharam em momentos felizes e ajudaram a lidar com situações ruins. 

Portanto, estava bastante ansioso com o lançamento do novo CD do grupo. O que já sabia é que a obra abordaria a relação dos músicos com o câncer, que, infelizmente, acabou vitimando a mãe do guitarrista Bill Kelliher, além de ter afetado membros das famílias de outros integrantes. 

Para tanto, montou-se uma história na qual um personagem que vaga por um deserto é sentenciado a morte por um sultão. Foi assim que nasceu Emperor of Sand, sétimo álbum de estúdio do Mastodon. 

Para entender melhor toda essa história, segue uma análise faixa a faixa de todas as músicas do disco.


Sultan’s Curse 

O CD começa dando a perspectiva do personagem que se encontra vagando pelo deserto, “cansado e perdido”. Eis que uma notícia toma o indivíduo de surpresa, gerando apreensão. Trata-se de uma provável menção à “maldição do sultão”, título da música. 

A partir daí, o protagonista vislumbra o fim da própria vida, como quando diz-se que “memórias de pessoas amadas passam pela mente”, situação comum em experiências que aproximam da morte. Além disso, transmite-se uma sensação de impotência ante um destino do qual não se pode fugir (“seus pés foram amarrados”, “você está de joelhos”). 

Do ponto de vista sonoro, a faixa de abertura é uma pedrada. Riff pesado e uma pegada sludge, bem próxima de algumas canções de Crack the Skye, quarto álbum do quarteto. 

Show Yourself 

Em uma reviravolta em relação à primeira música, “Show Yourself” se revela uma canção bem mais leve. A levada não chega a ser suave mas não há aquela tensão que marca a faixa anterior. Típica música para tocar na rádio, e isso não é demérito. 

Passado o choque trazido pela fatídica notícia, o personagem parece juntar os cacos e, entendendo a inevitabilidade do que está por vir, decide “se mostrar”, revelar quem realmente é. Sabendo que “não está seguro” - e quem está, na vida? - afirma-se que só o indivíduo pode salvar a si próprio. Interpreto essa “salvação” não como uma fuga literal da morte, mas como a vivência de momentos que façam a existência valer a pena, o que “salvaria” sua alma. Essa é uma tendência que irá se repetir logo a seguir. 

Destaque para os vocais da dupla Brann Dailor e Troy Sanders, o que evidencia um maior cuidado e a evolução do aspecto cantado no som mastodônico. Os integrantes confirmaram recentemente que, para esse trabalho, se prepararam para elevar o próprio nível como cantores, o que, segundo eles, nunca fora o foco da banda. Deu certo, o upgrade é nítido. 

Precious Stones 

Seguindo a tendência de sua antecessora, “Precious Stones” reforça a urgência em viver de alguém sentenciado à morte. Até por isso o ritmo acelerado que marca a canção. Os versos “não perca seu tempo/não deixe que ele fuja de você” são bem literais nesse sentido. 

Além disso, a referência às pedras preciosas no título e no corpo da música podem ser interpretadas como o valor atribuído a esse tempo de vida, cada vez mais escasso. 

Steambreather 
Logo de cara, um elemento que faz o Mastodon ser uma banda tão única: é feita menção às linhas de Nazca, localizadas no atual Peru. É a primeira menção a cultura latino-americana, que será abordada novamente mais à frente. 

Na estrofe de abertura, o personagem demonstra que ainda mantém a esperança de escapar da sentença de morte, usando a chuva como elemento que “traria vida”, em contraposição ao deserto que o cerca. Nota: acredita-se que as figuras das linhas de Nazca poderiam ter como significado rituais praticados pelos povos nativos para evocar a chuva. 

O refrão reforça que o personagem continua perdido com a nova condição que lhe foi imposta ("Me pergunto onde estou / reflexões nada oferecem"). 

Do meio para o fim da canção, interpreto que o protagonista passa a enxergar a sua situação em terceira pessoa, fora do próprio corpo (“separação do meu espírito”). Em um primeiro momento, o personagem tenta fugir de tudo, negando o que se passa (“Assistir você desmoronando / me fez querer correr para longe”), para, depois, aceitar as circunstâncias (“deixe as árvores caírem onde for”). 

O mais interessante é observar como a banda joga aqui com os estágios do luto, especialmente a negação e a aceitação. Complexo, porém genial. 

Roots Remain 

A faixa mais forte, liricamente falando, do álbum. Aqui, a história ganha ares épicos, retratando, nos primeiros versos, o início de uma guerra apocalíptica. Vida contra morte. 

O refrão é belíssimo: “A beleza se esvai / a morte decai”, “galhos quebram/ raízes continuam”. Tanto a letra como a interpretação de Brann Dailor são transcendentais, sublimes, brilhantes, insira-qualquer-adjetivo-elogioso. 

Adiante, em tom de despedida, o personagem coloca sua vida em perspectiva, relembrando suas derrotas, cada vez mais distantes, e suas vitórias, que o acompanharão até o “amargo fim”. Em outro trecho emocionante, manda uma espécie de mensagem a um ente querido, pedindo que se recorde de momentos “sentados ao sol” e de “dança na chuva” para posteriormente afirmar que “o fim é apenas o reconhecimento de uma memória”. Tocante. 

Em seguida, uma voz macabra anuncia o “fim”, dando lugar a um solo espetacular de Brent Hinds – o melhor do CD, na minha opinião -, que desemboca em uma linha de piano melancólica e sutil, dando fim à obra-prima. 

Clássico instantâneo. 

Word to the Wise

A música trata de nutrir esperança (“mergulhando no pensamento positivo”) para depois se deparar com a desilusão (“a sirene soou / eu não ouvi”). 

Ao tentar enxergar uma solução para problemas irremediáveis, o personagem “cai em um poço de mentiras”. No contexto da batalha contra o câncer, esse verso pode se referir a uma tentativa de cura que não deu certo. 

Retorna-se à relação da chuva com a esperança presente em “Steambreather”. Contudo, para a surpresa do protagonista, que já dava tudo como perdido, subentende-se que a chuva começa a cair. 

Mais um refrão marcante na voz de Dailor. 


Ancient Kingdom 

Mais uma faixa com ares épicos. Uma espécie de outra face de “Roots Remain”, sendo a primeira marcada pela melancolia e esta pela exaltação de uma vida que não tem fim. 

A canção se inicia com o trajeto do personagem para escapar da sentença de morte dada pelo sultão. Volta-se então ao cenário de guerra retratado duas faixas antes. Dessa vez, porém, é feito um paralelo entre a batalha que se desenha do lado de fora com um conflito interno do personagem. 

A chuva, que começou a cair na música anterior, agora representa a tristeza pela despedida da vida “terrena” e a revelação de uma nova vida: o início da imortalidade (“Faíscas explodindo pelo ar / viver para sempre / sons eternos nunca morrem / e eu continuarei”). 

Excelente performance vocal de Troy Sanders, transmitindo a emoção catártica que a música pede. 

Clandestiny 

Pedrada do começo ao fim e o refrão mais marcante do CD. Simples assim. 

A música mostra o “caminho cego” a ser percorrido pelo protagonista, prestes a adentrar o terreno da pós-vida. Nesse cenário, vozes do “outro lado” tentam acalmar o protagonista, assegurando que, nesse novo mundo, não há doenças e dor. 

Porém, o medo faz com que a parte humana do personagem, separada do espírito, peça para que a outra metade abdique dessa nova vida e, consequentemente, salve o “eu” por inteiro. 

Dentro do contexto motivador do álbum, pode-se interpretar o conflito narrado pela canção com o esgotamento causado pelo tratamento do câncer, que, em alguns casos, pode levar o paciente a querer desistir em vista de um pretenso descanso. 

Andromeda 

Na esteira da faixa anterior, essa música continua a reproduzir o conflito interno do protagonista. E se as vozes que o incitam a fazer a passagem sem resistir só querem sugar sua força vital? E se, do lado de lá, não existir nada? 

Há, então, uma divagação sobre a mortalidade, com o “tempo” e a “luz” se aproximando do personagem vindo “do passado” e “do futuro”, se encontrando em um presente que representa o fim da vida. 

Mas e se, por outro lado, há algo depois? “Não há como entender”. 

Participa da música Kevin Sharp, vocalista do Brutal Truth. 

Scorpion Breath 

A penúltima canção conta com a participação nos vocais de Scott Kelly, do Neurosis, como já é tradição desde Leviathan, segundo álbum do Mastodon. 

Trata-se, aqui, da “meia-noite” que antecede o “momento da verdade” para o qual o protagonista se prepara desde o “nascimento”. Mais uma metáfora sobre vida e morte. 

O fim, finalmente, chegou. 

Jaguar God 

Primeiramente, o título diz respeito ao “deus-jaguar” Tezcatlipoca, presente no panteão asteca. Vale lembrar que a mitologia dos povos que habitavam a atual América Latina já fora abordada em “Steambreather”, sendo mais uma vez evocada na faixa de encerramento. 

Essa entidade era considerada o deus da morte, sendo representada por um jaguar que carregava em seu peito um espelho fumegante no qual refletia toda a humanidade. Essas referências são necessárias para compreensão do contexto, visto que a divindade é caracterizada no decorrer da música. 

Observações histórico-culturais à parte, preciso dizer que nunca fui grande fã do Brent Hinds como cantor. Para mim, ele era “só” o melhor guitarrista da atualidade. Até ouvir os dois primeiros minutos de “Jaguar God”. Neles, Hinds consegue traduzir o sentimento de um “vagabundo” que viveu em seus próprios termos se aproximando do final da vida. A interpretação é de uma sensibilidade absurda. 

A sensação, a essa altura, é que a vida do protagonista está por um fio, em seus últimos instantes. É aí que o ritmo acelera, talvez representando um último delírio do personagem. A voz de Brann Dailor passa a descrever o “deus-jaguar”, conforme mencionado acima. Caracteriza-se a morte. 

Chega-se então ao trecho cantado por Troy Sanders, em que, no último suspiro, o personagem avista o “trono de doenças”. Mais uma referência ao câncer, a maldição do sultão que lhe tirou a vida. Duas conclusões são possíveis e conciliáveis, tendo em vista toda a narrativa desenvolvida: o protagonista realmente morre e, simultaneamente, continua a viver, tomando conhecimento, ao chegar do outro lado, do que de fato aconteceu para que sua vida terrena tivesse chegado ao fim. 

A história é finalizada com um solo espetacular de Hinds, remetendo ao compasso lento do começo da canção. Um final digno para um álbum genial, com um conceito fortíssimo mas, proporcionalmente, tocante. 


Emperor of Sand representa uma explosão criativa, propulsionada por episódios dolorosos, de quatro músicos brilhantes no ápice. Prova de que os obstáculos forjam e que da areia do deserto podem nascer lindas flores. Obra de arte, na real acepção do termo. 

A nota que eu dou para o disco? Um belo e merecido 9,5!

Por Luiz Guilherme Ferreira 

1981: quando o post-punk precedeu o gothic rock

terça-feira, abril 18, 2017

Muito já foi falado sobre como o punk rock, capitaneado por bandas como The Clash e principalmente o Sex Pistols, virou a Inglaterra de cabeça para baixo no final dos anos 1970 – nos Estados Unidos chegou até a ter um certo hype, mas não obteve grande sucesso comercial num mercado dominado pela disco music e pelo soft rock. Mas algo que ainda hoje não é tão comentado como deveria é o quanto esse movimento serviu como um start para vários outros grupos, cujo estilo foi denominado simplesmente como post-punk e que acabaram indo muito além dos três acordes, da simplicidade musical e do sentimento de “no future”.

Com referências que iam de art/glam rock (T-Rex, David Bowie, Roxy Music), proto-punk (Stooges, Velvet Underground) e krautrock (Can, Neu!) até estilos como reggae, dub e funk, surgiram bandas como PIL, Magazine e Gang of Four, algumas delas incluindo ex-punks como John Lydon (antes conhecido como Johnny Rotten no Sex Pistols) e Howard Devoto (ex-Buzzcocks), e que a partir de 1978 começaram a chamar a atenção da crítica britânica. E o que é interessante notar é o quanto toda essa liberdade criativa e a vasta gama de influências oriundas da época também seriam fundamentais para o início - quase que paralelamente - de outros estilos como o o synthpop, o industrial e, especialmente, o gothic rock.


Pouco antes de grupos como Sisters of Mercy, The Mission e The Cult (nos primeiros discos) tomarem a cena em meados da década de 1980, já haviam bandas post-punks precedendo o que seria tido como gótico nos anos seguintes – e não apenas na parte sonora, como se pode ver pelas imagens aqui presentes – influenciados também por bandas/artistas como The Doors, Nico e Lou Reed, e algumas vezes quase que seguindo o que foi apresentado em Unknown Pleasures (1979) e Closer (1980), do já na época finado Joy Division. E em 1981, três álbuns fundamentais para a criação do estilo foram lançados em um intervalo de seis meses, mostrando que certas cabeças derivadas daquela cena surgida na boutique de Malcolm McLaren já estavam tendendo para algo mais obscuro.


The Cure – Faith
Lançamento: abril de 1981

Após o início quase como uma banda punk propriamente dita, o Cure surpreendeu com Seventeen Seconds (1980), com uma sonoridade mais calcada em climas e texturas, além de uma óbvia influência de Joy Division. Em Faith, essa abordagem ganharia contornos ainda mais obscuros, aproximando de vez o (na época) trio do gothic rock – ainda que Robert Smith só fosse se render ao lápis no olho e ao batom nos próximos anos. A produção meio simples e até datada passa longe de ser um primor, mas consegue fornecer o clima ideal para o disco, com a bateria quase tribal de Lol Tolhurst complementando o baixo de Simon Gallup – que brilha em músicas como “The Holy Hour” e “Other Voices” – e o vocal de Smith (que aqui também toca guitarra, baixo de seis cordas e teclados) tendo um destaque considerável na mixagem – algo que seria rotineiro no futuro. No repertório, a urgência de músicas como “Primary” e “Doubt” contrasta com a melancolia de “All Cats Are Grey” e a faixa-título, essa o verdadeiro magnum opus do LP, com sua letra quase doentia ("Estupre-me como uma criança / batizada em sangue / pintada como um santo desconhecido"). A banda ainda iria além nessa linha melodramática no ano seguinte com o cultuado Pornography, e mais tarde atingiria o mainstream no mundo inteiro com álbuns como The Head on the Door (1985) e Disintegration (1989), mas já se mostrava acima da média por aqui.


Siouxsie and The Banshees – Juju
Lançamento: junho de 1981

Fundado por dois seguidores dos Sex Pistols nos primórdios do punk – Steve Severin (baixo) e Siouxsie Sioux (vocal) – o Siouxsie and the Banshees já havia lançado dois discos fundamentais para o pós-punk no final dos anos 1970. Mas o ápice criativo só seria atingido quando Budgie (ex-Slits) e John McGeoch (ex-Magazine e Visage) assumiram os postos de baterista e guitarrista, respectivamente, na provável melhor formação entre os grupos que formavam a cena à época. Com as guitarras dedilhadas e repletas de efeitos de McGeoch – influência óbvia de guitarristas como The Edge e Johnny Marr – e letras cada vez mais “darks”, não era de se duvidar que o quarteto estivesse pronto para gravar seus melhores trabalhos, e após o bom Kaleidoscope (1980) isso ficou mais do que comprovado em Juju. Abrindo com o clássico single “Spellbound”, o álbum junta tanto canções emblemáticas do grupo (“Arabian Knights”, “Halloween”, “Sin in My Heart”) com alguns de seus melhores deep cuts (“Into the Light”, “Monitor”), todas com um clima gélido e sombrio que influenciaria milhares de bandas nos anos seguintes. Mudanças de guitarristas e até sonoridades viriam no futuro, mas o grupo que levava o nome de sua vocalista poucas vezes soou tão bem quanto nesse disco, até hoje retrato de um line-up extremamente talentoso que, infelizmente, não durou muito.


Bauhaus – Mask
Lançamento: outubro de 1981

Quando se fala em qual foi a primeira banda gótica, nenhuma é tão citada quanto o Bauhaus, graças ao clássico single “Bela Lugosi’s Dead” – tida como a primeira canção do gênero – e também ao visual um tanto peculiar para a época (algo característico também das outras bandas aqui citadas). E se o debut In the Flat Field (1980) já apresentava as principais credenciais do grupo – performances teatrais por parte de Peter Murphy (vocalista) ao melhor estilo Iggy Pop e as guitarras minimalistas Daniel Ash –, Mask não só sedimentou tudo isso como um estilo próprio como acrescentou novas referências ao som dos britânicos. 


Enquanto músicas como “Hair of the Dog”, “The Passion of Lovers” e “The Man With the X-Ray Eyes” demonstravam o lado mais obscuro da banda, outras como “Kick in the Eye” e “Muscle in Plastic” traziam batidas quase funkeadas, o que aliado ao baixo bastante predominante (como sempre foi de praxe nesse estilo) os fez soar quase que como uma versão mais sombria do Gang of Four. No final das contas, essas faixas, somadas a outras como a tipicamente pós-punk “Dancing” e a claramente influenciada pelo Velvet Underground “Of Lillies and Remains”, formavam um álbum, mesmo com sonoridades um tanto variadas, bastante coeso e bem amarrado, e que muitos consideram como o melhor entre os lançados pelo quarteto nesse período – a banda se separaria poucos anos depois.




17 de abr de 2017

The Cure no liquidificador

segunda-feira, abril 17, 2017

Mixed Up é um álbum de remixes lançado pelo The Cure em 1990. Na verdade, a frase anterior é um resumo preguiçoso. O disco, que chegou às lojas em 20 de novembro daquele ano, traz doze faixas remixadas, mas não apenas isso. Em muitos casos, o que temos são verdadeiras reinterpretações, com novas versões bastante diferentes das gravações originais. “The Walk” e a “A Forest”, por exemplo, foram regravadas, pois a banda não conseguiu encontrar os tapes originais.

Vale contextualizar um pouco as coisas. Naquela época, no final da década de 1980 e início dos 1990, a popularidade dos remixes estava em sem auge. Praticamente todo grande hit ganhava novas releituras produzidas por produtores de renome, renovando o fôlego de uma canção que já tinha data de validade vencida com o grande público. 

Talvez o exemplo mais emblemático desse fenômeno seja “Blue Monday”, o maior sucesso do New Order. Lançada como single em 7 de março de 1983 e presente no álbum Power, Corruption & Lies (que chegou às lojas em 2 de maio de 1983), a canção foi um hit imediato, alcançando o nono lugar no Reino Unido e o quinto posto nos Estados Unidos. Cinco anos depois, em 25 de abril de 1988, “Blue Monday” foi lançada novamente como single, agora em uma versão remixada por Quincy Jones e John Potoker que ganhou o título de “Blue Monday 88”. Foi essa versão que colocou a canção definitivamente no imaginário pop, com o início contendo apenas batidas de bumbo que serviam de introdução para a melodia que entrava em seguida. Essa nova versão alcançou o terceiro lugar no Reuno Unido e a primeira posição nos Estados Unidos.



Voltando para o The Cure, o que temos são remixagens com duração mais longa que as versões originais. Em alguns casos, Robert Smith chegou a regravar os vocais. O disco, lançado em vinil duplo, trouxe também uma canção inédita, “Never Enough”. Smith resumiu o disco como "algo divertido de se fazer depois da desgraça de Disintegration”, disco lançado pela banda em 1989.

Na prática, encontramos em Mixed Up uma das uniões mais redondas já produzidas entre o rock e a música eletrônica. Pessoalmente, considero algumas versões presentes aqui melhores que as gravações originais, caso de “The Walk” e “Fascination Street", por exemplo.

Mixed Up foi lançado em LP duplo e em CD simples. No entanto, a versão em CD veio com uma música a menos, “Why Can’t I Be You?”. O motivo: a duração do tracklist extrapolava os 80 minutos de capacidade do CD. Infelizmente, ambas as edições estão fora da catálogo, o que é uma pena, pois trata-se de um álbum sensacional. 

A dica é a de sempre: nos serviços de streaming e no YouTube é fácil encontrar as faixas. Vá lá e confira, pois vale a pena.



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