Discoteca Básica Collectors Room #001: Led Zeppelin - Physical Graffiti (1975)


A ideia dessa nova seção foi inspirada na Discoteca Básica Bizz, coluna que era publicada sempre na última página da revista Bizz e trazia a análise de um álbum clássico e obrigatório na coleção de quem gosta de música. A premissa é semelhante, porém com o foco naqueles títulos que eu, Ricardo Seelig, julgo importantes e essenciais que qualquer pessoa ouça e conheça. O ponto será em rock e heavy metal, mas isso não quer dizer que não possamos ter algum álbum de outros gêneros presente. Então, vamos começar a Discoteca Básica Collectors Room.

Sempre que alguém me pergunta qual seria o melhor disco de rock de todos os tempos, a resposta é sempre a mesma: Physical Graffiti. E tenho essa convicção desde a primeira vez que ouvi o sexto trabalho do Led Zeppelin. O popular “disco das janelinhas” literalmente abriu várias janelas na minha cabeça e me mostrou que o rock poderia seguir qualquer direção.

Lançado em 24 de fevereiro de 1975, Physical Grafiiti é a prova definitiva da capacidade criativa da banda formada por Jimmy Page, Robert Plant, John Paul Jones e John Bonham. O quarteto transita pelo rock, pelo metal, pelo blues, pelo prog, pelo funk, pelo country, pelo folk e até pela música oriental em suas quinze faixas. O resultado é o álbum mais completo da carreira da banda britânica.


Physical Graffiti nasceu de oito canções registradas no início de 1974 em Headley Grange, casarão localizado em Hampshire e que era utilizado frequentemente pelo Led Zeppelin, sempre amparado pelo estúdio móvel dos Rolling Stones. Foi no hall de entrada da mansão que Jimmy Page posicionou a bateria de John Bonham e registrou “When the Levee Breaks”, música que encerra Led Zeppelin IV (1971). Na sessão de 1974, a banda gravou algumas novas canções, fez algumas improvisações e experimentos e, ao contabilizar o material, percebeu que tinha músicas para encher três lados de um LP. Então, decidiu que o disco seria duplo e resgatou músicas não lançadas mas compostas na época de Led Zeppelin III (1970), IV (1971) e Houses of the Holy (1973). O álbum marcou também o primeiro lançamento do grupo pelo seu próprio selo, o Swan Song Records - curiosidade: o primeiro álbum lançado pelo selo do anjo voador foi a ótima estreia do Bad Company, que saiu em junho de 1974.

Musicalmente, Physical Graffiti está estruturado sobre três grandes tours de force: o pesadíssimo blues “In My Time of Dying”, a viagem ao oriente proporcionada por “Kashmir" e a experimentação unindo prog e música indiana que encontramos em “In the Light”. No meio disso tudo, uma explosão criativa que levou a banda aos mais variados extremos musicais.

O blues rock “Custard Pie” abre os trabalhos mostrando o tradicional refinamento instrumental do quarteto, com um andamento todo quebrado e com o teclado de John Paul Jones em evidência ao lado da guitarra de Page. “The Rover”, composta em 1972 e que quase entrou em Houses of the Holy, vem na sequência e é um dos exemplos mais fortes da qualidade de Jimmy Page como guitarrista. A música se desenvolve através de uma sucessão de riffs inspiradíssimos e que mostram que o Led Zeppelin também fazia, sim, heavy metal. 

“In My Time of Dying” é a interpretação da banda para uma das mais tradicionais composições da música gospel, que ao longo dos anos ganhou gravações de nomes como Bob Dylan, John Sebastian e outros ícones. O Led injetou doses enormes de peso na canção, intensificadas pelo timbre absolutamente incrível da bateria de John Bonham, que conduz a banda através de explosões rítmicas que demonstram toda a sua capacidade técnica. O solo de Page na parte central, com camadas de guitarras se sobrepondo umas às outras, é uma das maiores provas da sua capacidade também como produtor. Uma curiosidade: “In My Time of Dying” é canção mais longa registrada pelo Led Zeppelin em toda a sua carreira, com 11:08 minutos de duração.


“Houses of the Holy” abre o lado B do vinil e é um delicioso e pegajoso hard rock. E sim: a música foi composta durante as sessões do quinto álbum da banda, mas não foi incluída em Houses of the Holy porque os músicos chegaram à conclusão de que ela não se encaixava na proposta do álbum de 1973. “Tramped Under Foot” vem a seguir e mostra mais uma vez como o Led Zeppelin era uma banda superior ao seus pares. Decidido a brincar com o funk, o grupo mergulha no groove do gênero e, seguindo o riff do teclado de Jones, balança as estruturas até do mais duro dos rockers. A letra foi inspirada em “Terraplane Blues”, composta por Robert Johnson em 1936.

E então temos “Kashmir”, a música que fecha o primeiro disco de Physical Graffiti. Provavelmente a mais ousada composição da carreira do Led Zeppelin, levou três anos para ser concluída. A faixa é conduzida por um riff de Jimmy Page inspirado na música árabe e oriental, e que segue uma estrutura modal inspirada nos ensinamentos perpetuados por Miles Davis em A Kind of Blue (1959). A letra de Robert Plant nasceu de uma viagem que ele e Page fizeram ao Marrocos em 1973. A parte central conta com orquestrações registradas por músicos indianos, e que dão ainda mais originalidade para a música. Passados mais de quarenta anos de sua gravação, “Kashmir" segue impressionante e é uma das peças mais incríveis que o Led Zeppelin deu ao mundo.


Se fosse apenas um disco simples, Physical Graffiti já teria um lugar de destaque na discografia do Led Zeppelin pela sua ousadia e quantidades enormes de experimentação. Mas ainda havia muito mais. “In the Light” é uma das faixas menos faladas da banda, porém é uma das composições mais experimentais do grupo. A criação foi de John Paul Jones, com Plant e Page entrando na sequência. A introdução traz Jimmy tocando a sua guitarra com um arco, como fez em “Dazed and Confused” e em “How Many More Times”, presentes no disco de estreia da banda, lançado em 1969. A estrutura é baseada na música indiana, com fortes tons orientais durante toda a duração. “In the Light” é semelhante a uma obra de música clássica, e tem em John Paul Jones o seu grande maestro. O baixo e, notavelmente, o teclado de Jones, são a espinha dorsal da composição e conduzem os demais músicos. Sobre Plant, o vocalista tem uma de suas melhores performances vocais aqui, seja na condução da canção ou na parte em que, praticamente sozinho, declama o título de maneira arrepiante.

A instrumental “Bron-Yr-Aur”, registrada de forma acústica por Page em julho de 1970 durante as sessões de Led Zeppelin III, funciona como linda introdução para a igualmente bela “Down by the Seaside”. A balada country é uma das mais subestimadas gravações da banda e veio direto das sessões de Led Zeppelin IV. Melancólica e com um arranjo muito bonito, tem Plant e Page dividindo o protagonismo com belas performances individuais, além da presença certeira do teclado de Jones. A explosão em sua parte central, quando o country dá lugar a um rock com acento folk e com um trabalho exemplar da guitarra de Page, é um dos trechos mais transcendentais da carreira do grupo.

O lado 3 se encerra com a sinfonia guitarrística chamada “Ten Years Gone”. Essa é uma das criações mais profundas do Led Zeppelin e possui um arranjo de guitarras que une o talento como instrumentista e produtor de Jimmy Page. Guitarras sobrepostas funcionam como uma espécie de orquestra, conduzindo a banda através de um andamento hipnótico. Para se ter ideia, Page utilizou nada mais nada menos que 14 guitarras sobrepostas no arranjo de “Ten Years Gone”.


O álbum encaminha a sua parte final com o hard de “Night Flight”, sobra dos tempos de Led Zeppelin IV. Na sequência temos o peso de “The Wanton Song”, rockão conduzido por Bonham e que possui uma das grandes performances do baterista. Já “Boogie with Stu” é uma das raras faixas em que o Led Zeppelin contou com a participação de músicos de fora da banda. No caso, o convidado foi Ian Stewart, o “sexto Stone”, e a canção nada mais é do que uma divertida jam com o pianista. “Black Country Woman” é uma faixa acústica que veio das sessões de Houses of the Holy. O disco fecha com “Sick Again”, onde a letra de Plant fala sobre um grupo de groupies adolescentes que acompanhava a banda, e que foram homenageadas na figura da personagem Penny Lane no filme Quase Famosos (2000).

Desde o seu lançamento, Physical Graffiti foi aclamado tanto pelo público quanto pela crítica. O álbum chegou ao primeiro lugar na Inglaterra e nos Estados Unidos e é o segundo disco mais vendido da carreira do grupo com mais de 16 milhões de cópias comercializadas, ficando atrás apenas de Led Zeppelin IV. O álbum venceu o Grammy de 1976 na categoria Best Recording Package, eternizando a icônica arte da capa, que trazia as janelas recortadas e que se encaixavam de maneira diferente de acordo com a maneira que o encarte era colocado na embalagem. Physical Graffiti está na 70ª posição da lista Os 500 Maiores Álbuns de Todos os Tempos publicada pela Rolling Stone, no quinto posto dos 100 Maiores Discos de Todos os Tempos da revista Classic Rock, na 47ª posição dos 100 Maiores Discos Já Gravados da Mojo e na posição 93 do Top 200 Álbuns de Todos os Tempos, do Rock and Roll Hall of Fame.

Após Physical Graffiti, o Led Zeppelin jamais conseguiu gravar algo tão forte. Ainda que Presence (1976) e In Through the Out Door (1979) sejam discos sólidos e com ótimas canções - principalmente o primeiro -, já mostravam uma banda caminhando para o estágio final de sua grandiosa carreira, que acabou sendo abreviada pela morte de John Bonham em 1980. Porém, o nível estratosférico atingido em Physical Graffiti, onde o Led Zeppelin tocou as estrelas e abriu caminhos para outras dimensões sonoras, é um dos elementos que eternizou a banda como uma dos maiores nomes da história do rock.

Comentários

  1. Led Zeppelin é a melhor Vanda de rock que já pisou nessa terra. Esse album é fodastico

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