10 de abr de 2019

Discoteca Básica Bizz #150: Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta: Sessão das 10 (1971)


Entre a anarquia tropicalista dos Mutantes e a mistura feita pelos Novos Baianos no disco Acabou Chorare (1972), um quarteto virou a MPB de pernas pro ar. Foi a Sociedade da Grã-Ordem Kavernista, formada por Raul Seixas, Miriam Batucada, Sérgio Sampaio e Edy Star. O único disco da turma, Sessão das 10, trouxe um deboche típico do mais endiabrado mutante.

O ano era 1971. Raulzito ainda não tinha pousado na sopa da música brasileira e defendia um troco produzindo artistas como o lendário Jerry Adriani. Sérgio Sampaio ainda não tinha botado seu bloco na rua. Miriam Batucada fazia pouco barulho. Edy Star, que assinava apenas Edy, se juntou ao trio de pé-rapados e malditos para fundar a Sociedade, ainda sob os ecos tropicalistas.

O LP, corrosivo, saiu pela CBS (atual Sony Music), mas encalhou nas prateleiras. Difícil imaginar esse trabalho consumido em larga escala. A começar pela vinheta circense que abre o disco, anunciando que tudo ali não passa de uma saudável palhaçada. E o que dizer da vinheta final, em que se ouve com nitidez o som de uma descarga levando tudo esgoto adentro?


Sessão das 10 estava longe de ser uma bosta. Entre o circo e a merda, há vida inteligente nas onze músicas do grupo. "Êta Vida" é um pop descarada e deliciosamente comercial, no pior sentido do termo. A faixa título, em clima seresteiro, sacaneia com todos os boêmios que levavam as serenatas a sério. Era deboche puro - a diferença é que com material próprio, enquanto os Mutantes, um ano antes, jogavam pedra no até então intocável "Chão de Estrelas".

O samba "Eu Vou Botar Pra Ferver" denuncia a alegria burocratizada que reinava (e ainda reina) nos salões carnavalescos. O quarteto queria era rir, como deixa claro em outro sambinha, "Eu Acho Graça". A vinheta que precede a faixa cutuca a mania in de ser hippie que alucinava, com um certo atraso, parte da juventude brasileira. "Chorinho Inconsequente" já diz tudo desde o título, na voz linda, leve e solta de Miriam Batucada, que acabaria encontrada morta em São Paulo, no começo dos anos 1990, sem nunca ter alcançado o sucesso que tanto perseguiu.

Sessão das 10 tem um repertório eclético. Em "Quero Ir", a turma pinta seu pop com umas tintas rurais sem desbotar a música. "Soul Tabarôa", assinada pela dupla Antônio Carlos e Jocafi, mistura coco e embolada, enquanto "Aos Trancos e Barrancos" traz a típica batucada dos morros cariocas.

A anarquia sonora era pretexto para o quarteto denunciar a doença de uma sociedade que perdera a alegria e a descontração - artigos que sobravam na Ordem Kavernista. Os tempos eram negros, Médici transformava o Brasil num imenso porão, mas havia luz no túnel escavado pela turma liderada por Raulzito.

Texto escrito por Mauro Ferreira e publicado na Bizz #150, de janeiro de 1998

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