11 de abr de 2019

Discoteca Básica Bizz #151: Funkadelic - Maggot Brain (1971)


Assim como James Brown, George Clinton é referência obrigatória e objeto de zilhões de samples, não só no meio do rap como na música pop em geral. Porém, muitos dos que balançam ao som de "What's My Name?" (releitura do rapper Snoop Doggy Dogg para "Atomic Dog", de Clinton) não conhecem a real extensão do trabalho do mestre do funk espacial.

A primeira investida musical de Clinton - até então um pacato cabeleireiro de Nova Jersey - na virada dos anos 1950 para os 1960 foi com os Parliaments. O grupo emplacou a singela canção de amor "(I Wanna) Testify" na parada de R&B americana. Animado, o artista mudou-se para Detroit e foi tentar a carreira como compositor da Motown.

Em Detroit, Clinton entrou em contato com a psicodelia e o som de garagem de bandas como MC5 e Stooges. Os donos dos cigarros Parliament não queriam ver o nome de seu produto associado a um grupo de doo wop e entraram na justiça contra o cantor. Era o que faltava para Clinton mudar o nome da banda e seu estilo musical. Sob a alcunha de Funkadelic, o combo psicodélico do Dr. Funk assinou com a Westbound em 1967. Quatro anos depois, lançaria sua obra-prima: Maggot Brain. O disco é um exemplo perfeito do caleidoscópio sonoro que é a obra do artista, clássico da black music, além de um dos melhores álbuns lançados na década de 1970.

As gravações dessa maravilha rolaram em festas regadas a ácido - denunciado pelo clima viajante do disco. O ouvinte desavisado com certeza vai estranhar a primeira faixa, uma viagem guitarrística de mais de dez minutos executada em um único take por Eddie Hazel (guitarrista do P-Funk, morto em 1994 e que era uma espécie de reencarnação de Jimi Hendrix). "Maggot Brain" é até hoje marca registrada dos shows da banda.


Encerrada a psicodelia melancólica da faixa título, "Can You Get to That" entra para o deleite dos funkeiros. Manhosa e malaca ao extremo, a composição faz parte de qualquer top 10 do grupo. Preste atenção em "Hit It and Quit It", em que também fica clara a influência de Hendrix não só no som da guitarra, mas sobre a sonoridade do Funkadelic como um todo. Já "You and Your Folks, Me and My Folks" é um groove chapadão que explora as raízes gospel e R&B, cuja batida é daquelas que fica o tempo todo na mesma levada sem encher o saco.

"Super Stupid" é um caso à parte. Serviu de base para pelo menos umas cinco canções dos Red Hot Chili Peppers, antecipando em vinte anos aquilo que ficaria conhecido no começo dos anos 1990 como funk-o-metal. Comandada pelo baixo (que ainda não era tocado por Bootsy Collins, considerado o braço direito de Mr. George), "Back in Our Minds" é a penúltima faixa, a mais hippie do disco. Com tanta lisergia rolando, o maluco Dr. Funk não resistiu à tentação de fechar o registro com outra de suas viagens conceituais. Ainda bem, pois os quase dez minutos de "Wars of Armageddon" não podem ser definidos com outro termo que não funkadélicos.

E, no fim das contas, essa é a virtude que torna Maggot Brain tão especial: o improvável equilíbrio entre rock psicodélico e funk music.

Texto escrito por Rodrigo Brandão e publicado na Bizz 151, de fevereiro de 1998

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