Review: Deep Purple – Fireball (1971)



De todos os discos da fase clássica do Deep Purple com Ian Gillan nos vocais, Ritchie Blackmore nas guitarras, o maestro Jon Lord  nos teclados, piano e no mais que envenenado órgão Hammond, Ian Paice na bateria e Roger Glover no baixo, este Fireball é de longe o mais experimental e diversificado de todos. Lançado em julho de 1971, o disco veio como um cometa direto nos ouvidos de quem amava o som pesado que a banda criou no álbum anterior, In Rock (1970), e de quebra trouxe novos admiradores que ficaram surpresos com tamanha variedade de estilos que o grupo conseguia tocar.

E com um disco tão variado, nada melhor do que ir direto ao ponto! A abertura da bolacha fica por conta da rápida e feroz canção que dá nome ao álbum. “Fireball” é certeira e traz o som de um gerador sendo ligado (não, não é um sintetizador) antes do ataque frontal de Paice com dois bumbos. Agressividade latente que traz um solo fantástico de Roger Glover no baixo pra lá de distorcido e que em nada deve ao genial e maluco solo de Lord com seu Hammond. Uma canção curta, mas que deu o recado aos desavisados: esse disco não seria para amadores!

“No No No” é uma faixa mais lenta, cheia de classe,  porém nem de longe a mais tranquila. Ian Gillan mostra que era uma das melhores vozes daquele início de anos 1970, com um poderio incrível e cristalino que ganha contornos surpreendentes conforme a canção avança. O ponto alto é o duelo entre piano elétrico de Lord e passagens inspiradas de Blackmore - que foi perfeccionista em cada detalhe.

A terceira canção, pelo menos na versão lançada em disco aqui no Brasil, foi “Strange Kind of Woman” - em outras partes do planeta a escolhida foi “Demon's Eye”, mas vamos falar do que saiu aqui, ok? Estamos falando de uma canção cadenciada e que virou titular em todas as apresentações da banda com esta formação, com direito ao famoso duelo entre guitarra e voz que Blackmore e Gillan travavam nos palcos. A versão de estúdio tem momentos sublimes e Gillan alcançando notas nas alturas só no gogó.  

“Anyone’s Doughter” é a primeira grande surpresa do disco em temos de estilo. Um country com piano bar e slide guitar, no melhor estilo velho oeste e aquele clima de saloon recriado de maneira soberba. Blackmore é versátil com um solo limpo, mostrando uma nova faceta aos seus fãs. O Purple tinha muito mais para oferecer do que apenas música pesada e distorcida. 


No lado dois temos logo de cara “The Mule”, uma canção psicodélica que também virou outra peça importante ao vivo - desta feita para servir como desculpa para Ian Paice socar seu kit com toda a força do mundo. Logo após uma série de pandeiros e percussão, a banda ataca com um riff inspirado, sons assombrosos de órgão e uma levada insistente de Paice que não para ao longo de toda a canção. Com letra curta e um solo igualmente rápido (porém certeiro) de Blackmore , a canção segue seu fluxo até um final caótico, dando ao repertório da banda mais uma nova alternativa de estilo. 

Outra grande surpresa - e para mim a melhor do disco - é a progressiva “Fools”.  Incrivelmente e criminalmente desvalorizada por muitos fãs, a banda consegue atingir quase que a perfeição na segunda música do lado dois do disco. Tudo começa com uma introdução calma e instrumental suave até explodir em um riff pesadíssimo e a voz rasgada de Gillan. A banda surge impiedosa como um rolo compressor até que tudo fica novamente cadenciado, com uma batida de Paice que vai ganhando um novo elemento a cada compasso, conforme a faixa avança em silêncio. Então Blackmore cria com solo único utilizando apenas o volume de sua guitarra, intercalando com passagens de Lord. Um momento erudito que a banda já estava acostumada a fazer em trabalhos anteriores. Após alguns minutos, o grupo explode novamente e segue até o seu final marcante com um Hammond distorcido anunciando o fim da epopeia.

O disco fecha com “No One Came”, uma canção funkeada com Glover dando as cartas para que o restante da banda desfile seu talento. Nem preciso dizer que Paice segura a batida de maneira extremamente competente para  Lord e Blackmore brilharem enquanto Gillan canta dentro de uma métrica absurda, sem sair do complicado compasso que a música traz.

Fireball convence a todos. Muitos fãs classificam o trabalho como um álbum de transição entre o já citado In Rock de um ano antes e o super aclamado Machine Head do ano seguinte, mas de uma coisa podemos  ter certeza: este é o disco que traz a MK II pingando suor e transpirando talento em diversos estilos. Este é, meus amigos e minhas amigas, um trabalho de referência para toda a discografia do Purple.

Ah, e sobre “Demons's Eye” (que esteve em algumas versões em outros países no lugar de “Strange Kind of Woman”), tudo  o que posso dizer é que foi outro grande momento da banda e que não deve em nada à sua substituta: órgão insistente, riffs perfeitos de Blackmore calcados no blues, Glover desfilando nas quatro cordas e Ian Paice mais solto do que nunca em um festival de  viradas - uma atrás da outra - para Gillan cantar como nunca. Faz falta ao disco? Como eu cresci ouvindo apenas a versão nacional, não muito. Mas esta é uma grande canção também!

Por Aroldo Antonio Glomb Junior 

Aroldo Antonio Glomb Junior tem 41 anos, é jornalista, Athleticano e fanático por boa música desde que completou seus 10 anos de idade. É o autor do projeto SOBRE O SOM DOS SETENTA, que reúne resenhas de diversos discos lançados durante os anos 1970, escrevendo desde clássicos da década até discos mais obscuros, independente do estilo.  

Comentários

  1. grande post, parabéns. cresci durante o final dos 70s e 80s aprendendo que o lugar dessa banda era entre os maiores, principalmente no nicho hard/heavy onde sempre figurava "apenas" atras do Led e na frente do Sabbath. Com a chegada dos 90s o Purple foi sendo, vagarosamente, criminalmente subestimado em algumas partes do mundo (principalmente a bosta dos Estados Unidos), sendo caracterizado como "one hit wonder" (banda de um só sucesso) ou mesmo de segunda divisão no classic rock, subdivisão que ganhava espaço no final dos 90s junto com o famigerado, burro e cretino termo "hair metal". Triste, pelo menos no Brasil o enorme valor desses gênios da musica contemporânea sempre foi reconhecido, azar dos amigos do Trump...

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  2. Sensacional, parabens!
    a Demons's eye faz muita falta.

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  3. Considero o "Fireball " o melhor disco do Deep Purple. "No One Came" é, para mim, um dos melhores momentos do grupo britânico. Levada irresistível, letra muito interessante. "Fools " também é outro momento de destaque, com letra inspiradora.
    "Fireball " se destaca na discografia do Purple por sua diversidade e ousadia. Trata-se de um disco de 1971 e sucessor do "In Rock"! Ressalte-se, aqui, que não era tarefa fácil lançar algo tão forte quanto o "In Rock" , um dos mais pesados lançamentos da história do rock.
    Respeito a opinião do leitor Fábio Braz, mas acho o Deep Purple a banda mais completa e sofisticada das que ouvi até hoje (ouço-a desde os meus 11 anos - tenho 58). Sobre o disco em questao, fecho com o vocalista Ian Gillan, que o classifica como o melhor trabalho da banda.


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  4. Nasci em 1975 e quando fui apresentado ao rock me deram na escola duas fitas que continham Led Zeppelin - IV, Black Sabbath - Black Sabbath, AC/DC - Black e o saudoso é destruidor Deep Purple - Machine Head. Essas bandas são meus pilares que abriram caminho para eu conhecer UFO, Leaf Hound, Scorpions, etc. Pra mim Deep Purple é aquele som sujo, estradeiro, Blues Pesado, na mesma linha do Black Sabbath porém mais trampando. Deep Purple é simplesmente sensacional ! Indico: In Rock, Machine Head e Fireball, os três cavaleiros do apocalipse !!!

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