Review: Prince and the Revolution – Around the World in a Day (1985)



Durante os anos 1980, o mundo presenciou uma série de lançamentos que foram nada menos que revolucionários para a música, onde bandas e artistas surgiram levando para as massas diversos álbuns cujas influências seriam claramente percebidas daquele ponto em diante, em uma infinidade de gêneros. Um dos nomes mais notáveis dessa geração foi Prince, que apesar de ter estreado pela Warner Bros. Records no final da década de 1970 teve o seu ápice criativo e comercial ao contar com a banda de apoio The Revolution nos álbuns 1999 e Purple Rain (lançados em 1982 e 1984, respectivamente) – discos que, a essa altura, dispensam apresentações, tamanho o legado musical que deixaram com sua mistura explosiva de rock, pop, R&B, soul, funk e até mesmo elementos eletrônicos,como o uso primoroso de sintetizadores, elementos esses que se tornaram marca registrada de Prince e o seu “som de Minneapolis”.

Partindo do sucesso arrebatador que estes álbuns tiveram e do som que apresentaram, Prince decide se aventurar um pouco mais dentro do seu próprio som, agora explorando uma veia mais psicodélica mas não menos pop (em alguns momentos) no brilhante Around the World in a Day, lançado em 22 de abril de 1985 sem muito alarde, a pedido do próprio artista. Dado o conteúdo apresentado no álbum, fica a impressão desta ter sido uma decisão muito bem calculada: uma vez que ele já não estava interessado em obter reconhecimento da mídia, o foco foi direcionado para a música, onde ele não só manteve o estilo estabelecido em seus trabalhos anteriores como também passou a explorar cada vez mais novos territórios, uma característica que se tornaria notória daquele ponto em diante na sua obra.

O álbum abre de uma maneira um tanto quanto inusitada com a faixa-título, que traz elementos de world music (com um toque especialmente oriental e indiano) e já apresenta toda uma atmosfera que anuncia a “viagem musical” pela qual Prince está nos levando, onde a primeira parada é nada menos que “Paisley Park”, uma canção onde o seu estilo próprio de som abraça um doce tom psicodélico e faz uma apropriada referência ao estúdio particular onde – daquele álbum em diante – ele passaria a gravar seus discos, além de também ser uma das poucas canções neste álbum com um toque mais pop, inclusive tendo sido lançada como single.

“Condition of the Heart” começa com uma introdução de piano que é por vezes sombria, quase progressiva, e é uma das baladas do álbum, um tipo de canção que Prince sabe fazer como poucos, carregada por um toque emocional profundo e expressado magistralmente pela combinação simples, porém eficaz, dos vocais e piano no decorrer da canção. Uma vez encerrada, chega a ser interessante o contraste entre o tom dela para o da faixa seguinte, “Raspberry Beret”, faixa que foi sem dúvida o maior sucesso do álbum e, musicalmente, uma possível sucessora espiritual de “Take Me With U” do anterior Purple Rain, porém dona de um refrão muito mais contagiante.

Na curta “Tamborine” Prince parece voltar um pouco no tempo na sua própria carreira, e apresenta um funk animado com uma letra de duplo sentido, numa faixa que poderia facilmente pertencer a discos como Dirty Mind (1980) ou Controversy (1981). E ele continua ainda mais afiado em “America”, que mantém o estilo musical da faixa anterior porém fazendo mais uso das guitarras e trazendo uma letra movida por um ácido comentário político e social dos Estados Unidos à época, principalmente com a obsessão pelo comunismo na Guerra Fria e a tensão de uma eventual guerra nuclear (tema esse já explorado em canções como “1999”). A crítica social continua em “Pop Life”, embalada por uma primorosa e dançante linha de baixo acompanhada por um piano e sons de palmas vindos de bateria eletrônica, que se consagrou como outro dos grandes sucessos do álbum.

Em “The Ladder” Prince volta para o campo das baladas, dessa vez apresentando uma marcada por uma letra de tom mais espiritual e introspectivo, acompanhada de backing vocals num tom quase gospel e uma performance vocal inspiradíssima. Por último, mais uma vez contrastando com uma faixa anterior, a viagem chega ao fim em “Temptation”: uma longa e sexy incursão com tons de blues, jazz e rock, que encerra a obra em grande estilo.

Around the World in a Day não chegou a ser o mesmo sucesso de crítica em relação aos seus predecessores (apesar de também ter sido um sucesso comercial à época), mas é um álbum essencial para quem quer conhecer o quão diverso, genial e influente foi o trabalho de Prince, em uma de suas melhores fases. Uma verdadeira viagem musical que vale a pena ser feita.

Por Rodrigo Façanha


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