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O marketing como inimigo: como o Angra meteu os pés pelas mãos na divulgação de suas mudanças


Há exatamente uma semana, no dia 22 de novembro de 2025, a comunidade metal brasileira viveu um daqueles raros momentos de unanimidade. O Angra anunciava um show histórico de reunião no festival Bangers Open Air, trazendo de volta ao palco a formação responsável pela fase Rebirth (2001): Edu Falaschi, Kiko Loureiro e Aquiles Priester. Era, para uma parcela enorme dos fãs, a concretização de um sonho cultivado por quase duas décadas. E por algumas horas, tudo pareceu possível.

Não era apenas um show. Era um gesto simbólico. Uma celebração do legado. Uma reaproximação que muitos jamais imaginaram ver acontecer. Um Angra olhando para sua própria história com orgulho, e convidando o público a participar desse reencontro. O clima era de festa, catarse e verdadeira euforia. Mas bastaram dois dias para que a banda começasse, sem perceber, a desmontar essa onda positiva.

No dia 23/11, veio o segundo anúncio: Fabio Lione estava deixando o Angra. Embora surpreendente, a notícia ainda podia ser encaixada em uma narrativa coerente. A despedida do vocalista italiano, somada à celebração da fase Rebirth, podia funcionar como uma transição natural entre passado, presente e futuro.


Só que, no dia 24/11, o Angra apertou o botão de autossabotagem. Foi quando a banda informou que Alírio Netto estaria no palco do Bangers Open Air. Mas o anúncio, em vez de esclarecer, levantou ainda mais dúvidas. Alírio seria um convidado especial apenas para esse show? Ou estaria sendo apresentado, de forma velada, como o novo vocalista do Angra? A comunicação não dizia, e, em um momento tão sensível, isso só ampliou a confusão. Pior: a notícia chegava poucos meses depois de o próprio Angra anunciar um hiato, levantando outra questão entre os fãs: a banda voltou atrás e seguirá em frente com uma nova formação? Ou o show histórico seria um evento isolado, desconectado de qualquer futuro imediato? Nada estava claro.

A mensagem, que deveria consolidar a empolgação criada pelo reencontro com a formação de Rebirth, acabou parecendo um recado truncado, lançado no pior momento possível: exatamente durante o evento que, até então, havia sido vendido como uma celebração da era Rebirth.

O problema nunca foi Alírio. Ele é talentoso, experiente e querido. O problema foi o timing catastrófico. A banda passou uma semana sem conseguir capitalizar sobre o impacto positivo da reunião anunciada dia 22/11 — porque, ao invés de fortalecer a narrativa da reunião, passou os dias seguintes assassinando a própria expectativa que tinha criado.

O sonho anunciado de ver Edu, Kiko e Aquiles juntos novamente sob a bandeira do Angra perdeu força quase imediatamente. A sensação geral entre os fãs foi a de que alguém havia puxado o tapete da emoção coletiva. Primeiro veio a despedida abrupta de Lione. Depois, a revelação ambígua sobre o papel de Alírio no show. A reconstrução virou ruído. A celebração virou confusão.


O Angra, que poderia ter vivido uma semana inteira de celebração, especulação positiva e fortalecimento emocional com o público, acabou gerando ruído, frustração e incerteza. Em vez de uma construção narrativa bem planejada, apresentou ao mundo uma sucessão de anúncios desalinhados, feitos na ordem errada e sem qualquer cuidado com o impacto acumulado sobre o fã.

Sete dias depois, o contraste é gritante: a euforia absoluta do anúncio da reunião deu lugar a debates, críticas e uma sensação generalizada de desorganização. O que deveria ser uma celebração histórica virou um caso de estudo sobre como o marketing pode se tornar o inimigo de uma banda.

E é impossível não concluir que, em 2025, o Angra não foi sabotado por crises internas, disputas de ego ou decisões artísticas polêmicas. Foi sabotado pela própria comunicação. Porque, no metal — talvez mais que em qualquer outro gênero — matar a expectativa dos fãs é um pecado que custa caro.

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