Ao longo de entrevistas com músicos e a partir de experiências pessoais acumuladas ao longo de anos, uma constatação tem se tornado cada vez mais frequente: há um número crescente de músicos que não colecionam discos, não se interessam por mídia física e, em muitos casos, sequer demonstram curiosidade por álbuns como obras completas.
Para quem cresceu entendendo a música como algo que se descobre, se pesquisa e se acumula não apenas em quantidade, mas em significado, essa realidade soa profundamente estranha. É quase como se escritores afirmassem não se interessar por livros.
Durante décadas, fazer música e ouvir música eram atividades indissociáveis. Colecionar discos fazia parte do processo de formação do músico: conhecer referências, entender linhagens estéticas, perceber evoluções técnicas e criativas. O disco não era apenas um suporte, mas um espaço de aprendizado.
Hoje, essa relação parece rompida. Muitos músicos se formaram em um ambiente no qual a música nunca precisou ser possuída. Ela sempre esteve disponível, infinita, imediata e desmaterializada. O ato de ouvir passou a ser funcional: busca-se um timbre, uma ideia de arranjo, uma referência pontual, e não mais uma obra inteira.
O álbum, enquanto narrativa, perde espaço para faixas isoladas, trechos e exemplos técnicos. A escuta deixa de ser contemplativa e passa a ser utilitária. Não é raro ouvir músicos dizerem que “ouvem mais arquivos do que discos”. A estante foi substituída por pastas, playlists e links temporários. Nesse contexto, a música deixa de ser memória e passa a ser ferramenta.
Esse comportamento não nasce necessariamente de desprezo pela arte, mas de uma mudança profunda na forma como ela é consumida. O problema é que, ao eliminar o objeto, elimina-se também o ritual: o tempo dedicado à escuta, a ordem pensada das faixas, o encarte, os créditos, o contexto histórico. Sem esse ritual, perde-se algo essencial: a compreensão da música como resultado de um tempo, de um lugar e de escolhas artísticas conscientes.
Colecionar discos sempre foi um exercício ativo de curiosidade. Exigia pesquisa, comparação, descoberta. Hoje, grande parte da formação musical acontece por meio de recomendações automáticas. O algoritmo decide o que vem a seguir, não a inquietação pessoal. Isso produz músicos tecnicamente competentes, mas muitas vezes desconectados de uma tradição mais ampla. Sabem tocar, gravar e produzir, mas desconhecem trajetórias, movimentos, cenas e contextos. A música passa a existir em um eterno presente.
Há também uma mudança de identidade. Muitos músicos contemporâneos se veem menos como parte de uma história coletiva e mais como produtores de conteúdo. O foco está no próximo lançamento, no próximo single, no próximo engajamento. Nesse cenário, o passado pesa. Colecionar discos parece um gesto inútil, nostálgico, improdutivo. O legado deixa de ser uma preocupação, tanto o próprio quanto o dos que vieram antes.
A comparação com escritores não é exagerada. Um escritor pode até escrever sem gostar de ler, mas sua relação com a linguagem tende a ser limitada. Da mesma forma, um músico pode criar sem ouvir profundamente, mas sua obra dificilmente dialogará com algo além de si mesma.
Colecionar discos não é fetiche por objeto. É um gesto de escuta atenta, de respeito à obra e de consciência histórica. É entender que a música não começa nem termina em quem a executa.
No fim das contas, não é apenas a mídia física que está em declínio. O que se perde é uma forma de relação com a música: mais lenta, mais profunda, mais comprometida. Uma relação que ensinou gerações inteiras a ouvir antes de tocar, a absorver antes de criar.
Talvez o estranhamento diante de músicos que não se interessam por discos seja, na verdade, o incômodo de perceber que a música, para muitos, deixou de ser um território de memória e passou a ser apenas fluxo. E isso, para quem acredita na música como obra, não deixa de ser um sinal de alerta.

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