Aprofundando a escuta de Animals (1977), fica cada vez mais claro que este é um dos álbuns mais coesos e radicais da discografia do Pink Floyd não apenas pelo discurso, mas pela forma como música, letra e estrutura trabalham juntas para transmitir desconforto. Trata-se menos de um álbum conceitual clássico e mais de um manifesto sonoro, onde cada escolha estética reforça a visão amarga de Roger Waters sobre a sociedade e, em certa medida, sobre a própria trajetória da banda.
Diferente de The Dark Side of the Moon (1973), que usa metáforas universais, ou de Wish You Were Here (1975), que se ancora na melancolia e na ausência, Animals é direto, acusatório e pouco interessado em sutilezas. Waters assume o controle criativo quase total, e isso se reflete tanto na agressividade das letras quanto na rigidez estrutural do disco. Aqui, não há espaço para abstrações confortáveis: tudo é conflito, hierarquia e sobrevivência.
A sonoridade é mais seca, menos espacial, com uma presença maior de guitarras cortantes e linhas rítmicas tensas. David Gilmour, longe de ser apenas um contraponto melódico, atua como um narrador emocional: seus solos em “Dogs” não oferecem catarse, mas prolongam a sensação de desgaste e paranoia. É um virtuosismo a serviço do conceito, não da beleza.
“Dogs” é, talvez, o coração do álbum. A faixa descreve a lógica da ascensão corporativa como um processo de desumanização progressiva. O personagem central vence, mas termina isolado, traído por aqueles que reproduzem o mesmo sistema que ele ajudou a sustentar. A música cresce, se fragmenta e se reconstrói diversas vezes, como se refletisse a própria instabilidade moral do “vencedor”. É uma crítica feroz à meritocracia e à ilusão de controle.
“Pigs (Three Different Ones)” desloca o foco para o topo da pirâmide social. O sarcasmo domina a narrativa, e o uso do talk box na guitarra reforça a ideia de uma autoridade grotesca, caricata e, ao mesmo tempo, ameaçadora. Aqui, Waters não esconde o desprezo: os porcos são figuras públicas identificáveis, alvos diretos de sua indignação. Não há ambiguidade, apenas confronto.
Já “Sheep” talvez seja a faixa mais perturbadora do álbum. Ao retratar as massas como obedientes e anestesiadas, a música constrói uma tensão crescente que culmina em uma revolta tardia, violenta, caótica e sem promessa de redenção. Mesmo a subversão parece vazia, como se o ciclo de dominação estivesse condenado a se repetir. A adaptação irônica do Salmo 23 é um dos momentos mais sombrios da obra de Roger Waters, transformando fé em ferramenta de controle.
Nesse contexto, “Pigs on the Wing (Parts 1 & 2)” ganha um peso ainda maior. Essas duas faixas curtas não são meros interlúdios acústicos, mas o único gesto de empatia do álbum. Elas sugerem que, em um mundo estruturado por opressão e competição, o amor e a conexão pessoal ainda podem funcionar como abrigo.
Animals também antecipa conflitos internos que se tornariam explícitos em The Wall (1979). A centralização criativa, a rigidez conceitual e o tom cada vez mais autoritário das letras refletem não só uma crítica ao mundo externo, mas uma tensão crescente dentro do próprio Pink Floyd. É um álbum que denuncia sistemas de poder enquanto, paradoxalmente, nasce de um processo criativo cada vez menos democrático.
Talvez por isso Animals continue sendo um disco desconfortável até hoje. Ele não oferece respostas fáceis, nem se preocupa em agradar. Sua força está na recusa ao consenso e na coragem de expor contradições sociais, políticas e artísticas. Um álbum que exige escuta atenta, envolvimento e, acima de tudo, disposição para encarar verdades nada agradáveis.
.jpg)

Comentários
Postar um comentário
Você pode, e deve, manifestar a sua opinião nos comentários. O debate com os leitores, a troca de ideias entre quem escreve e lê, é que torna o nosso trabalho gratificante e recompensador. Porém, assim como respeitamos opiniões diferentes, é vital que você respeite os pensamentos diferentes dos seus.