Beco do Rosário, de Ana Luiza Koehler, é uma daquelas graphic novels que dialogam com a história de forma profundamente incisiva. Ambientada na Porto Alegre dos anos 1920, a obra reconstrói um espaço real, o antigo Beco do Rosário, para refletir sobre memória urbana, exclusão social e os custos humanos dos projetos de modernização das cidades brasileiras.
A narrativa acompanha Vitória, uma jovem negra que vive no beco e sonha em ser jornalista, em meio a um contexto marcado por racismo estrutural, desigualdade de gênero e transformações urbanísticas que empurram comunidades inteiras para fora do centro. A cidade cresce, se “europeíza”, mas deixa para trás histórias, afetos e identidades. Esse contraste entre progresso e apagamento é o eixo central do quadrinho.
O grande diferencial de Beco do Rosário está na forma como texto e imagem se complementam. O traço delicado aliado à aquarela suave cria uma atmosfera contemplativa, quase melancólica, que convida o leitor a observar cada página com atenção. Nada ali é gratuito: a arquitetura, os figurinos e até os enquadramentos revelam o olhar de uma autora com sólida formação em Arquitetura e Urbanismo. O quadrinho, inclusive, nasceu a partir de uma pesquisa acadêmica sobre os becos de Porto Alegre.
Não se trata de uma leitura guiada por ação ou reviravoltas dramáticas. O ritmo é calmo, reflexivo, e exige envolvimento do leitor com os personagens e com o contexto histórico. Em troca, a obra oferece uma experiência rara nos quadrinhos brasileiros: a de enxergar a cidade como personagem viva, contraditória e profundamente política.
Beco do Rosário é mais do que uma graphic novel histórica. É um registro sensível de um Brasil urbano que preferiu apagar seus becos e as pessoas que os habitavam em nome de uma ideia de progresso. Uma leitura essencial para quem se interessa por quadrinhos autorais, memória social e histórias que continuam ecoando muito além das páginas.



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