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Colecionismo, identidade e vida adulta: por que o hobby parece mais presente entre pessoas solteiras


O colecionismo é um hobby que atravessa gerações, estilos de vida e perfis sociais. Discos, quadrinhos, livros, action figures e objetos de memória ocupam estantes, caixas e prateleiras de milhares de pessoas, sendo elas solteiras, casadas ou em relacionamentos. Ainda assim, uma percepção recorrente surge tanto em conversas informais quanto em comunidades especializadas: o colecionismo parece mais presente, intenso ou visível na vida de pessoas solteiras.

Essa associação nasce de fatores práticos e simbólicos que ajudam a explicar por que o hobby tende a ganhar mais espaço quando não há um relacionamento estável em jogo.

Um dos principais elementos por trás dessa percepção está na autonomia. Pessoas solteiras, em geral, têm maior controle sobre o próprio tempo, orçamento e rotina. O colecionismo exige dedicação contínua: pesquisar edições, acompanhar lançamentos, comparar versões, organizar acervos e, muitas vezes, investir valores significativos ao longo do tempo. Sem a necessidade de conciliar agendas ou prioridades financeiras com outra pessoa, o hobby pode ocupar uma posição central na vida cotidiana, funcionando como atividade de lazer, projeto pessoal e até identidade.

Outro ponto determinante é o espaço. Coleções crescem, ocupam paredes, estantes e cômodos inteiros. Para quem mora sozinho, a decisão sobre onde e como esses itens serão armazenados costuma ser mais simples. Já em relacionamentos, o espaço passa a ser negociado. Isso não significa que pessoas casadas deixem de colecionar, mas que o hobby frequentemente precisa se adaptar: menos peças expostas, áreas delimitadas ou escolhas mais criteriosas sobre o que entra e o que sai da coleção.

Para muitos colecionadores solteiros, a coleção vai além do acúmulo de objetos. Ela se torna uma forma de expressão, memória e organização do mundo interno. Cada item carrega histórias, fases da vida, referências culturais e afetivas. Nesse contexto, o colecionismo pode ocupar um espaço emocional importante, não como substituto de relações, mas como prática que estrutura o cotidiano e reforça a identidade individual.

A ideia de que o colecionismo não sobrevive a um relacionamento está longe da realidade. Há inúmeros colecionadores casados, assim como casais que compartilham o mesmo hobby. A diferença costuma estar menos no ato de colecionar e mais na intensidade, na visibilidade e na centralidade que a coleção ocupa na vida da pessoa. Relacionamentos tendem a transformar o colecionismo em um exercício de diálogo: acordos, limites e adaptações passam a fazer parte da rotina, sem que isso signifique abandono do hobby.

O estereótipo do colecionador solitário, isolado e excessivamente apegado aos seus objetos ainda persiste, mas não resiste a uma análise mais cuidadosa. O colecionismo é, acima de tudo, uma forma de relação com a cultura, com a memória e com a própria história pessoal. Seja na vida solo ou compartilhada, ele se reinventa conforme as fases da vida, acompanhando mudanças, prioridades e afetos.

 

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