A saída de Fabio Lione do Angra, após 13 anos como vocalista, não foi apenas o encerramento de um ciclo. Em entrevista recente à Rolling Stone Brasil (leia aqui), o cantor italiano deixou claro que sua decisão envolve mais do que o hiato anunciado pela banda: trata-se de uma leitura crítica sobre narrativa, legado e, principalmente, futuro artístico.
Segundo Fabio, a explicação pública dada por Rafael Bittencourt de que ele preferiu sair para continuar ativo enquanto o Angra entra em pausa, é verdadeira, mas incompleta. Para o vocalista, trata-se de uma “verdade confortável”, construída de forma diplomática, que evita aprofundar divergências internas sobre os rumos da banda. Sem ataques diretos, Fabio aponta para uma diferença de visão: enquanto ele defende movimento e criação constante, o Angra parece cada vez mais ancorado na celebração do passado.
Esse ponto se torna central quando o cantor fala de sua própria passagem pela banda. Foram três álbuns de estúdio, o trio Secret Garden (2015), Omni (2018 e Cycles of Pain (2023), extensas turnês internacionais e uma clara retomada de prestígio fora do Brasil. Fabio não hesita em afirmar que o Angra reencontrou relevância na Europa, Japão e América do Norte durante sua fase, citando grandes festivais e turnês longas como evidência concreta e não como opinião.
A frustração surge, sobretudo, na sensação de subvalorização dessa etapa. Fabio lembra que foi justamente com ele que a banda comemorou os aniversários de Angels Cry (1993), Holy Land (1996), Rebirth (2001) e Temple of Shadows (2004), sempre em afinações originais e com sets longos e exigentes. Para ele, há uma contradição evidente entre celebrar o passado ao seu lado e, ao mesmo tempo, tratar sua contribuição como algo menor dentro da história do Angra.
Musicalmente, o vocalista defende Cycles of Pain como um dos grandes álbuns da discografia, colocando-o em um top 4 ao lado de Holy Land, Temple of Shadows e Rebirth. Mais do que gosto pessoal, ele vê o disco como um esforço consciente de modernização sonora, algo que, em sua visão, é inevitável para uma banda com mais de três décadas de carreira. A crítica ao “power metal engessado”, com produções e abordagens que soam datadas, aparece como uma das chaves para entender seu desconforto.
Ainda assim, o tom da entrevista está longe de ser apenas amargo. Fabio fala com carinho do Brasil, do vínculo construído com os fãs e da importância emocional de sua trajetória no Angra. Ele reforça que participa do show especial no Bangers Open Air por amor à banda, à história e ao público, e também por reconhecer que foi o vocalista que permaneceu mais tempo no grupo.
Um dos momentos mais sensíveis da conversa surge ao mencionar Andre Matos. Fabio revela que houve, de fato, a possibilidade de um reencontro histórico antes da morte do vocalista original, com a participação de Kiko Loureiro. O projeto não se concretizou, mas adiciona uma camada melancólica ao que poderia ter sido um capítulo definitivo da história do Angra.
No fim, a fala de Fabio Lione soa menos como um acerto de contas e mais como um retrato honesto de um conflito comum em bandas longevas: o embate entre memória e movimento. Para ele, celebrar o passado é válido, mas viver apenas dele, não. E talvez seja justamente essa diferença de visão que tenha tornado inevitável sua saída.

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