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Siegfried: fantasia épica em estado puro (2025, Comix Zone)


Em Siegfried, Alex Alice não está interessado apenas em recontar a lenda dos Nibelungos, mas em traduzir para os quadrinhos a lógica do mito: personagens maiores que a vida, ações guiadas menos pela psicologia individual e mais por forças inevitáveis como destino, herança e transgressão. O protagonista nasce marcado por uma origem híbrida, filho de um deus e de um humano, e essa condição liminar atravessa toda a narrativa, funcionando como metáfora para o próprio mito, sempre situado entre o humano e o divino, o racional e o simbólico.

A estrutura do roteiro reflete essa proposta. Alice evita explicações didáticas e diálogos excessivos, apostando em uma narrativa fragmentada e contemplativa, que exige participação ativa do leitor. Muitos acontecimentos são sugeridos mais pela imagem do que pelo texto, e o silêncio ocupa um papel fundamental. Essa escolha aproxima Siegfried menos da fantasia de aventura tradicional e mais de uma tragédia clássica, em que o desfecho parece conhecido desde o início e o interesse está no caminho, não na surpresa.

Visualmente, a obra opera em um nível de ambição raro mesmo dentro da BD europeia. O desenho de Alex Alice não busca realismo estrito, mas uma idealização épica: corpos esculpidos, paisagens grandiosas e criaturas que parecem emergir diretamente do imaginário mitológico. A composição das páginas alterna momentos de explosão visual com sequências abertas e silenciosas, criando um ritmo que lembra o de uma ópera, evidenciando a influência wagneriana que vai além da fonte literária e se manifesta na própria encenação da narrativa.

As cores cumprem um papel decisivo. Tons quentes e frios são usados não apenas para ambientação, mas para marcar estados emocionais e forças em conflito: o mundo selvagem, o divino, o humano e o monstruoso. Não há aqui uma paleta neutra, cada escolha cromática reforça a sensação de que estamos diante de um mundo regido por símbolos, não por regras naturalistas.



Se há um ponto que pode afastar parte dos leitores, ele está justamente nessa opção estética e narrativa. Siegfried não se preocupa em facilitar a entrada no universo mitológico, nem em desenvolver personagens segundo parâmetros psicológicos contemporâneos. Figuras como Mime, por exemplo, funcionam mais como arquétipos do que como indivíduos complexos, o que pode gerar estranhamento para quem espera uma fantasia mais convencional. Ainda assim, essa aparente rigidez é coerente com a proposta: trata-se de um mito encenado, não de uma reinterpretação modernizante.

A edição da Comix Zone reforça o caráter grandioso de obra. O formato integral em capa dura e o cuidado gráfico transformam Siegfried em um objeto que dialoga diretamente com o público colecionador. É o tipo de HQ que se beneficia da leitura pausada e da releitura, permitindo que o leitor observe detalhes de composição, ritmo e simbolismo que passam despercebidos em um primeiro contato.

Siegfried ocupa um espaço específico dentro do quadrinho contemporâneo: não é uma obra de entretenimento imediato, mas um exercício de linguagem, em que narrativa e imagem se unem para recriar a experiência do mito. Para leitores interessados em quadrinhos que desafiam expectativas e apostam na força do gesto autoral, trata-se de um lançamento excepcional, daqueles que permanecem na memória por anos.


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