So Far, So Good… So What! (1988) é, talvez, o álbum mais controverso da fase clássica do Megadeth, e justamente por isso um dos mais interessantes de revisitar. Lançado entre dois marcos absolutos do thrash metal, os clássicos Peace Sells… But Who’s Buying? (1986) e Rust in Peace (1990), o disco costuma ser tratado como um elo problemático na discografia da banda. Mas essa leitura simplifica demais um trabalho que carrega méritos próprios e uma identidade bastante específica.
Gravado em meio a um período turbulento, com mudanças de formação e conflitos internos, o álbum apresenta um Megadeth mais cru, agressivo e instável. A produção é frequentemente apontada como um ponto fraco, com som áspero e pouco polido, mas esse aspecto também contribui para a atmosfera de urgência e tensão que atravessa o disco. Aqui, o thrash é menos técnico e mais visceral, refletindo um momento em que Dave Mustaine parecia interessado em provocar e confrontar mais do que em refinar.
Musicalmente, o álbum alterna momentos de violência sonora direta com composições mais elaboradas. “Set the World Afire” tem um clima apocalíptico, combinando peso e temática nuclear, enquanto “Hook in Mouth” fecha o álbum com uma das letras mais ácidas da carreira do grupo, atacando censura e controle governamental. No centro de tudo está “In My Darkest Hour”, inspirada na morte repentina do baixista Cliff Burton, colega de Mustaine nos tempos do Metallica. É uma das canções mais emblemáticas do Megadeth, equilibrando melancolia, fúria contida e um senso de dramaticidade raro no thrash da época.
Embora algumas faixas sejam vistas como irregulares e a presença do cover “Anarchy in the U.K.”, dos Sex Pistols, ainda divida opiniões, o álbum não carece de identidade. Pelo contrário: ele soa como um retrato honesto de um Megadeth em conflito consigo mesmo, ainda perigoso, ainda afiado, mas longe da precisão quase cirúrgica que viria depois.
So Far, So Good… So What! pode não ser o disco definitivo da banda, mas é um capítulo essencial para compreender sua evolução. Um álbum imperfeito, sim, porém intenso, provocador e muito mais relevante do que sua reputação costuma sugerir.
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