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Voodoo Lounge (1994): o disco que trouxe os Rolling Stones ao Brasil


Em Voodoo Lounge, os Rolling Stones operam com a consciência de quem atravessou mudanças internas profundas sem intenção de reinventar a própria linguagem. Lançado em 1994, o álbum é o primeiro gravado sem o baixista Bill Wyman, encerrando silenciosamente uma formação que havia sustentado décadas da identidade rítmica do grupo. Em vez de transformar essa ausência em ruptura, a banda opta por reforçar seus próprios códigos, apostando em solidez e familiaridade.

“Love Is Strong” abre o disco em clima denso e arrastado, mais preocupado com atmosfera do que impacto imediato. Já “You Got Me Rocking” cumpre o papel oposto: um rock direto, funcional, claramente moldado para o palco. Essa dinâmica define Voodoo Lounge. Entre esses extremos, surgem momentos introspectivos como “Out of Tears” e “Blinded by Rainbows”, nos quais Mick Jagger abandona o cinismo habitual em favor de um tom mais melancólico, enquanto faixas como “Sweethearts Together” e “New Faces” evidenciam o problema central do álbum: o excesso.

Com mais de uma hora de duração, Voodoo Lounge se mostra resistente a qualquer tipo de edição mais rigorosa. Há consistência técnica e domínio absoluto da linguagem do rock, mas nem todas as ideias justificam sua permanência no repertório. O disco funciona melhor em recortes do que como experiência contínua, algo que ajuda a explicar por que parte da crítica o considerou competente, porém pouco inspirado, apesar do Grammy de Melhor Álbum de Rock em 1995.


O contexto histórico, no entanto, amplia seu peso simbólico. Foi durante a turnê de Voodoo Lounge que os Rolling Stones tocaram pela primeira vez no Brasil, em janeiro de 1995. Após mais de três décadas de carreira, a chegada tardia da banda transformou aqueles shows em eventos históricos, e muitas faixas do álbum ganharam nova dimensão ao vivo. Para o público brasileiro, Voodoo Lounge passou a existir não apenas como disco, mas como memória concreta.

Olhado hoje, Voodoo Lounge se afirma menos como um retorno às origens e mais como um álbum de transição silenciosa: marca o fim de uma era com Bill Wyman, sustenta a identidade da banda nos anos 1990 e aceita a previsibilidade como parte do processo de permanência. Não é um clássico, mas é um documento essencial para compreender como os Rolling Stones aprenderam a continuar sendo os Rolling Stones.

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