Pular para o conteúdo principal

Postagens

Lição de Anatomia: a obra que redefiniu o Monstro do Pântano e mudou os quadrinhos (2025, DC de Bolso, Panini)

Existem momentos na história dos quadrinhos em que um personagem deixa de ser apenas um produto editorial para se tornar um território de experimentação artística. Monstro do Pântano: Lição de Anatomia , volume 9 da coleção DC de Bolso publicada pela Panini, documenta exatamente um desses momentos. Reunindo as edições 20 a 27 de A Saga do Monstro do Pântano , a HQ apresenta o início da lendária fase escrita por Alan Moore, um trabalho que não apenas redefiniu o personagem mas também ajudou a expandir os limites narrativos dos quadrinhos mainstream. Embora Moore assuma oficialmente o título na edição 20, é em Lição de Anatomia , publicada na edição original norte-americana número 21, que acontece a virada histórica. Esse capítulo é um dos momentos mais brilhantes da escrita de quadrinhos no século XX. Ao revelar que o Monstro do Pântano não é Alec Holland transformado em criatura, mas sim uma entidade vegetal que absorveu suas memórias e acreditou ser humana, Moore promove uma mudança...
Postagens recentes

Quadra (2020): o impressionante capítulo final da monumental história do Sepultura

Concebido como um álbum conceitual, Quadra (2020) se inspira na ideia do Quadrivium , conjunto de quatro disciplinas clássicas — aritmética, geometria, música e astronomia — e utiliza o número quatro como eixo estrutural e simbólico. O Sepultura dividiu o disco em quatro segmentos sonoros que dialogam com diferentes abordagens musicais, criando uma experiência que vai além da simples sequência de faixas e assume contornos narrativos e atmosféricos bastante definidos. A primeira parte apresenta o Sepultura em sua forma mais agressiva e direta. Faixas como “Isolation” e “Means to an End” entregam riffs cortantes, andamento veloz e uma energia que remete à herança thrash metal da banda, mas com produção moderna e extremamente detalhada, assinada por Jens Bogren. O peso surge renovado, com uma precisão que ressalta o entrosamento do quarteto. Nos segmentos seguintes, o disco amplia sua paleta sonora. O groove característico da banda ganha mais espaço, acompanhado por uma forte presen...

Dampyr Vol. 7: quando mitologia, história e sobrenatural transformam o terror em aventura (2021, Editora 85)

Publicado no Brasil pela Editora 85, Dampyr Vol. 7 reforça o motivo pelo qual a série criada por Mauro Boselli e Maurizio Colombo se tornou um dos títulos mais consistentes do catálogo da Sergio Bonelli Editore. Reunindo as edições originais italianas 25 a 28, o volume apresenta um mosaico bastante representativo da proposta narrativa da HQ: combinar horror sobrenatural, aventura e referências históricas em tramas acessíveis e envolventes. A abertura com Pesadelo Flamengo trabalha um dos elementos mais recorrentes da série: o passado que retorna como força sobrenatural. A trama ambientada em Gante aposta em uma atmosfera melancólica e progressivamente inquietante, explorando memórias, culpa e o peso do tempo. O roteiro de Boselli constrói bem o suspense, enquanto os desenhos de Luca Rossi reforçam o clima soturno que domina a narrativa. O Jardim Proibido mergulha em uma abordagem mais clássica do horror europeu. Ambientada em Praga, a história mistura assassinatos brutais, lenda...

A Different Kind of Truth (2012): o retorno de David Lee Roth na despedida do Van Halen

Quando o Van Halen lançou A Different Kind of Truth em 2012, o disco chegou cercado por expectativas gigantescas e por uma carga emocional inevitável. Afinal, tratava-se do primeiro álbum de inéditas com David Lee Roth desde o clássico 1984 , encerrando um hiato de quase três décadas dessa formação histórica. Mais do que isso, o trabalho também representava o primeiro material novo da banda em 14 anos e apresentava Wolfgang Van Halen assumindo o baixo no lugar de Michael Anthony, o que já colocava o projeto sob forte escrutínio dos fãs. O que A Different Kind of Truth entrega é, essencialmente, um reencontro com a essência mais crua e energética do Van Halen. Grande parte do repertório vem da revisitação de demos compostas ainda nos anos 1970 e início dos anos 1980, lapidadas com produção moderna e executadas com a maturidade técnica que Eddie Van Halen desenvolveu ao longo da carreira. Esse resgate funciona como uma ponte entre o passado e o presente da banda. O álbum aposta em ...

Quando falar sobre quadrinhos virou falar sobre consumo?

Nos últimos anos, a produção de conteúdo sobre quadrinhos no YouTube brasileiro cresceu de forma impressionante. Surgiram novos canais, novas vozes e uma expansão significativa do alcance do hobby. Em muitos aspectos, esse movimento ajudou a popularizar a leitura de HQs e aproximar novos leitores de obras clássicas e contemporâneas. Mas, ao mesmo tempo, essa expansão trouxe uma transformação perceptível na forma como os quadrinhos são discutidos. Cada vez mais, falar sobre HQs parece significar falar sobre compras, coleções e lançamentos. Vídeos de unboxing, listas de aquisições e rankings de edições se tornaram formatos dominantes. Não há nada de errado nisso por si só. O colecionismo sempre foi parte importante da cultura dos quadrinhos. O problema começa quando o ato de possuir passa a ocupar um espaço maior do que o ato de ler. Em muitos casos, a lógica do consumo acelerado cria uma narrativa em que a relevância parece estar associada ao tamanho da coleção ou à quantidade de tí...

Entre a fúria e a melodia: o Kreator em Krushers of the World (2026)

Quando o Kreator chega ao seu décimo sexto álbum de estúdio, a expectativa inevitavelmente gira em torno de um ponto delicado: como uma banda com mais de quatro décadas de história consegue se manter relevante sem perder a própria identidade? Krushers of the World (2026) responde essa pergunta apostando em um equilíbrio cuidadoso entre tradição e modernização sonora, reafirmando o Kreator como um dos nomes mais consistentes do thrash metal mundial. Produzido por Jens Bogren, o disco apresenta uma sonoridade polida, pesada e extremamente eficiente, mantendo a agressividade que sempre caracterizou a banda liderada por Mille Petrozza, mas incorporando uma abordagem mais melódica e dinâmica, algo que o grupo vem desenvolvendo com maior ênfase desde Phantom Antichrist (2012). O álbum não tenta reinventar o Kreator, mas sim aperfeiçoar sua fórmula. Faixas como “Seven Serpents” e “Satanic Anarchy” apostam em riffs cortantes e andamento veloz, dialogando diretamente com a tradição do thr...

David Lee Roth e o brilho oitentista de Skyscraper (1988)

Quando David Lee Roth lançou Skyscraper em 1988, o vocalista estava diante de um desafio importante: provar que sua carreira solo tinha fôlego para ir além do impacto inicial de Eat ’Em and Smile (1986). O segundo disco solo manteve a mesma banda virtuosa, mas mostrou um artista disposto a ampliar horizontes sonoros, mesmo que isso dividisse opiniões. Skyscraper representa um passo claro rumo a um som mais acessível e polido. Se o álbum anterior apostava forte no hard rock explosivo e na técnica exuberante, aqui Roth e o guitarrista Steve Vai investem em arranjos mais variados, incorporando teclados, atmosferas mais sofisticadas e uma produção tipicamente oitentista. O resultado é um trabalho que equilibra peso, melodias radiofônicas e experimentação. Logo na abertura, “Knucklebones” mantém a energia e o espírito festivo característicos de Roth, enquanto “Just Like Paradise” surge como o grande hit do álbum. A faixa combina refrão grudento, levada ensolarada e um apelo pop irres...

Kuno: uma fábula moderna sobre identidade e pertencimento (2025, Poptopia)

Publicada no Brasil pela Poptopia, Kuno é uma graphic novel argentina escrita por Jonathan Crenovich e ilustrada por Fede di Pila que aposta em uma narrativa sensível e simbólica para discutir temas bastante contemporâneos. A obra acompanha um crash dummy que, após anos cumprindo mecanicamente sua função em testes de colisão, desenvolve consciência e decide partir em busca de identidade, propósito e pertencimento. A premissa já indica o tom da história: Kuno é uma fábula que utiliza personagens improváveis para refletir sobre dilemas humanos. Ao longo da jornada, o protagonista encontra figuras igualmente deslocadas de seus papéis originais, como um joão-bobo que deseja liberdade, um robô Polaroid obsoleto, uma pintura cansada de ser apenas observada e até uma vaca leiteira que compartilha inquietações existenciais. Esses encontros funcionam como espelhos narrativos, permitindo que o quadrinho explore questões ligadas à identidade, diversidade, amizade e aceitação. Kuno é uma ob...

Break the Silence (2026): Beyond the Black expande seu som e vai além do metal sinfônico tradicional

Em Break The Silence (2026) , o Beyond The Black deixa claro que não está interessado em repetir fórmulas nem em se acomodar no rótulo de metal sinfônico tradicional. O sexto álbum da banda alemã aposta em um equilíbrio cuidadoso entre peso, melodia e atmosfera, reforçando uma identidade própria construída ao longo da última década. A produção é um dos grandes trunfos do disco. Tudo soa limpo, moderno e bem distribuído, sem sufocar a emoção das composições. Há momentos grandiosos, quase cinematográficos, mas também espaço para sutilezas, texturas atmosféricas e arranjos que pedem atenção além do impacto imediato. É um álbum que cresce com o tempo, recompensando audições mais atentas. Jennifer Haben entrega uma de suas performances mais maduras. Sua voz transita com naturalidade entre força e vulnerabilidade, conduzindo as canções com intensidade emocional e carisma. Faixas como a própria “Break The Silence”, “Rising High” e “Let There Be Rain” mostram bem essa dualidade entre ener...

Tempo of the Damned (2004): o retorno feroz do Exodus ao trono do thrash metal

Depois de mais de uma década sem lançar um álbum de estúdio, o Exodus voltou ao jogo em 2004 com Tempo of the Damned , e não como uma banda tentando sobreviver à nostalgia, mas como um nome disposto a reafirmar sua relevância no thrash metal do século XXI. O disco não soa como um exercício de memória afetiva: ele é agressivo, direto e consciente de sua própria herança. Produzido por Andy Sneap, o álbum apresenta um som moderno e limpo, sem polir em excesso a aspereza que sempre definiu o Exodus. Os riffs de Gary Holt continuam sendo o motor central da banda: cortantes, velozes e cheios de variações, equilibrando ataques frenéticos com momentos de groove pesado. A presença de Rick Hunolt completa a parede sonora com solos intensos e bem distribuídos, mantendo a tradição guitarrística do grupo em alto nível. Steve “Zetro” Souza entrega uma performance que pode dividir opiniões, mas que funciona perfeitamente dentro da proposta do álbum. Seu vocal ácido e quase histérico reforça o car...