Poucas obras recentes dos quadrinhos europeus conseguiram articular forma e conteúdo com a mesma intensidade de O Corpo de Cristo , da autora espanhola Bea Lema . Premiada em vários países, a graphic novel se insere no território raro em que experiência pessoal, experimentação estética e leitura social se entrelaçam de maneira inseparável. A narrativa parte de uma perspectiva infantil para abordar um tema brutal: a doença mental dentro do núcleo familiar. A protagonista, ainda criança, interpreta o sofrimento da mãe através das lentes da religiosidade popular: não como um transtorno, mas como possessão. Esse deslocamento inicial é fundamental, pois estabelece um dos eixos centrais da obra: o conflito entre fé, ignorância e ciência, mediado por um ambiente profundamente marcado pelo conservadorismo e pela estrutura patriarcal. O que diferencia O Corpo de Cristo de outras HQs autobiográficas não é apenas o tema, mas a forma como ele se materializa na página. Lema constrói uma lingua...
Após o sucesso de The Real Thing (1989), impulsionado pelo mega sucesso de “Epic”, a expectativa era por uma continuação acessível e comercialmente segura. O que o Faith No More entregou, porém, foi exatamente o oposto: um álbum desafiador, instável e artisticamente ambicioso, que redefiniu não apenas sua identidade, mas também os limites do rock alternativo no início dos anos 1990. Grande parte dessa transformação passa pela atuação de Mike Patton . Em Angel Dust (1992), sua influência extrapola os vocais e se estende à própria concepção estética do disco. O resultado é uma obra que abandona de vez o rótulo de funk metal e mergulha em uma colagem sonora que incorpora eletrônica, música experimental, metal, pop e até referências eruditas. A banda passa a operar em um território onde o contraste é regra: peso e melodia coexistem de forma abrupta, enquanto o humor ácido se mistura a uma sensação constante de desconforto. Faixas como “Caffeine” e “Midlife Crisis” exemplificam essa d...