Pular para o conteúdo principal

Postagens

A Little Ain’t Enough (1991): David Lee Roth e o hard rock no limite de uma era

A Little Ain’t Enough (1991) é um álbum que pede escuta atenta e distanciamento histórico. Quando observado além do rótulo de “disco lançado na hora errada”, ele se revela como um retrato bastante preciso e até mesmo inconsciente do esgotamento de uma estética e da tentativa de reafirmação de uma identidade artística em meio a um cenário que mudava rapidamente. Do ponto de vista sonoro, a produção de Bob Rock é central para entender o álbum. Diferente do brilho quase hedonista de Eat ’Em and Smile (1986) ou da abordagem mais arejada de Skyscraper (1988), aqui David Lee Roth entrega um som mais pesado, comprimido e musculoso, antecipando a estética hard rock que dominaria os primeiros anos da década de 1990. As guitarras são espessas, os grooves têm peso físico e a mixagem privilegia impacto em detrimento de leveza. É um disco que soa “grande”, mas não exatamente expansivo. Há uma sensação de densidade constante, quase claustrofóbica. Nesse ambiente, a guitarra de Jason Becker as...
Postagens recentes

Dream Theater, David Lee Roth, Alice Cooper e Saxon ganham novas edições em CD no Brasil pela Wikimetal

A Wikimetal, em parceria com a Kanto do Artista e a Oporto da Música, acaba de colocar no mercado brasileiro uma leva especial de novos lançamentos em CD que resgata alguns dos álbuns mais clássicos, marcantes e representativos da história do metal e do hard rock. São títulos que, até então, estavam fora de catálogo no Brasil por muitos anos ou simplesmente nunca haviam sido lançados oficialmente em CD no país, tornando essas edições especialmente relevantes para fãs e colecionadores. Todos os álbuns estão disponíveis na loja da Kanto do Artista , além de poderem ser encontrados nas principais lojas físicas e online do Brasil , ampliando o acesso a obras fundamentais de artistas como Dream Theater, David Lee Roth, Alice Cooper e Saxon. A iniciativa reforça o papel da Wikimetal como uma gravadora atenta à história do rock pesado, investindo em edições cuidadosas, com excelente qualidade e conteúdo extra , sempre valorizando o formato físico. Com essa curadoria criteriosa, a Wikimeta...

Permanent Waves (1980): entre virtuosismo e clareza, o álbum que redefiniu o Rush para os anos 1980

Permanent Waves (1980) é o álbum em que o Rush redefine, de forma consciente e madura, sua relação com o próprio virtuosismo. Se nos trabalhos anteriores a complexidade estrutural era parte central da identidade do trio, aqui ela passa a ser internalizada, funcionando como base invisível para canções mais diretas, sem jamais ser abandonada. O resultado é um disco que soa mais fluido, mais humano e, paradoxalmente, mais sofisticado. A decisão de encurtar as músicas e torná-las mais acessíveis não representa uma rendição ao formato radiofônico, mas uma resposta crítica ao próprio contexto cultural do fim dos anos 1970. Neil Peart, em especial, parece atento à necessidade de diálogo com um mundo em transformação. Suas letras continuam densas, filosóficas e reflexivas, mas agora se comunicam com maior clareza. “Freewill”, por exemplo, traduz debates existenciais sobre determinismo e escolha individual em versos diretos e memoráveis, enquanto “Entre Nous” aborda relações humanas com uma ...

O álbum que nunca saiu de cena: como Greatest Hits (1988) redefiniu o legado do Journey

Greatest Hits (1988) ocupa um lugar singular não apenas na discografia do Journey, mas na própria história das coletâneas de rock. Seu impacto não se explica somente pelos números impressionantes de vendas ou pela longevidade nas paradas, mas pela forma como o álbum reorganiza e redefine a percepção pública da banda. Aqui, o Journey deixa de ser visto como um grupo com fases distintas para se tornar uma entidade quase atemporal reduzida, no melhor sentido, a um conjunto de canções que parecem existir fora de qualquer contexto histórico específico. Há uma inteligência silenciosa na curadoria do repertório. Ao evitar uma sequência cronológica, Greatest Hits cria uma escuta baseada em tensão e liberação, alternando momentos de exuberância melódica com explosões de energia. “Only the Young” abre o disco com um senso de urgência juvenil que funciona como manifesto: o Journey que se apresenta aqui é direto, confiante e acessível. A partir daí, faixas como “Any Way You Want It” e “Separat...

Led Zeppelin (1969): o blues como ato de ocupação

Led Zeppelin (1969) é menos um ponto de partida e mais um ato de ocupação. O álbum não tenta negociar espaço com a cena britânica do fim dos anos 1960: ele chega impondo volume, textura e intenção. O que se ouve não é uma banda em busca de identidade, mas um grupo que já se entende como força dominante, mesmo antes de o mundo concordar com isso. O disco lida com o blues enquanto matéria-prima. O Led Zeppelin absorve estruturas, frases e climas do blues tradicional, mas os submete a um processo de distorção e amplificação que altera completamente sua função emocional. Em vez da melancolia contida ou da narrativa pessoal, surge uma música de confronto físico, quase performática em seu excesso. “You Shook Me” e “I Can’t Quit You Baby” não soam como homenagens: soam como apropriações deliberadas, nas quais o peso instrumental redefine o significado do material original. Essa abordagem explica tanto as críticas iniciais quanto o impacto duradouro do álbum. A acusação de falta de origin...

Just a Game (1979): quando o Triumph aprendeu a jogar o jogo do AOR

Just a Game (1979) marca o momento em que o Triumph deixa de ser apenas um nome promissor do hard rock canadense para se afirmar como uma banda capaz de dialogar diretamente com o grande público do rock norte-americano sem abrir mão de sua identidade. O terceiro álbum do trio representa um ponto de equilíbrio raro entre ambição criativa e pragmatismo radiofônico, algo que definiria o auge comercial do grupo nos anos seguintes. O disco suaviza parte das inclinações mais progressivas dos trabalhos iniciais em favor de uma escrita mais direta, orientada ao formato AOR que dominava as FMs da época. Ainda assim, o Triumph evita a pasteurização. Canções como “Hold On” e “Lay It on the Line” combinam refrões fortes, linhas melódicas bem delineadas e guitarras firmes, sustentadas pela voz segura de Rik Emmett. Não à toa, “Hold On” se tornaria o primeiro grande sucesso da banda nos Estados Unidos, funcionando como porta de entrada para um público mais amplo. Há também espaço para variedade...

Tex Willer Especial 7: Tex, Zagor e o Velho Oeste à beira do abismo (2025, Mythos)

A sétima edição de Tex Willer Especial , com o título de Presságios de Guerra , parte de uma promessa poderosa: o reencontro entre Tex Willer e Zagor, dois dos maiores ícones da Sergio Bonelli Editore, inseridos em um contexto histórico tenso, marcado pelos ecos da Guerra Civil Americana e pelos conflitos com as nações indígenas. Mauro Boselli constrói a narrativa como um grande painel de transição, no qual alianças frágeis, decisões políticas e interesses militares anunciam um conflito inevitável. Vale lembrar que o primeiro encontro entre os personagens foi publicado em Tex Willer Especial 3 , com o título de Encontro de Heróis . A trama se organiza a partir da ameaça de uma nova guerra envolvendo os Comanches, com destaque para a figura histórica de Quanah Parker. Tex e Zagor surgem como mediadores naturais, personagens que transitam entre mundos distintos como o da lei, o do exército e o das nações indígenas, tentando evitar um derramamento de sangue que parece já escrito no hori...

Siegfried: fantasia épica em estado puro (2025, Comix Zone)

Em Siegfried , Alex Alice não está interessado apenas em recontar a lenda dos Nibelungos, mas em traduzir para os quadrinhos a lógica do mito: personagens maiores que a vida, ações guiadas menos pela psicologia individual e mais por forças inevitáveis como destino, herança e transgressão. O protagonista nasce marcado por uma origem híbrida, filho de um deus e de um humano, e essa condição liminar atravessa toda a narrativa, funcionando como metáfora para o próprio mito, sempre situado entre o humano e o divino, o racional e o simbólico. A estrutura do roteiro reflete essa proposta. Alice evita explicações didáticas e diálogos excessivos, apostando em uma narrativa fragmentada e contemplativa, que exige participação ativa do leitor. Muitos acontecimentos são sugeridos mais pela imagem do que pelo texto, e o silêncio ocupa um papel fundamental. Essa escolha aproxima Siegfried menos da fantasia de aventura tradicional e mais de uma tragédia clássica, em que o desfecho parece conhecido ...

1984 (1984): quando o Van Halen conquistou o mundo

1984  (1984) não é apenas o álbum mais bem-sucedido do Van Halen com David Lee Roth. É o ponto em que a banda expõe, de forma quase involuntária, a tensão entre expansão criativa e identidade. Ao contrário da narrativa simplificada que costuma reduzir o disco à “fase dos teclados”, o que se ouve aqui é um grupo tentando redefinir seus próprios limites em um cenário musical que já não comportava apenas virtuosismo e excesso. A decisão de Eddie Van Halen de gravar no estúdio 5150, sob seu controle direto, é central para entender o disco. Pela primeira vez, o guitarrista não apenas dita o vocabulário musical, mas também o ambiente em que ele é construído. Isso se reflete na sonoridade: mais limpa, mais espaçosa, menos dependente da urgência crua dos primeiros álbuns. Os sintetizadores não surgem como ornamento oportunista, mas como extensão lógica da curiosidade harmônica de Eddie, algo que já se insinuava em trabalhos anteriores, mas que aqui assume papel estrutural. “Jump” sinte...

Voodoo Lounge (1994): o disco que trouxe os Rolling Stones ao Brasil

Em Voodoo Lounge , os Rolling Stones operam com a consciência de quem atravessou mudanças internas profundas sem intenção de reinventar a própria linguagem. Lançado em 1994, o álbum é o primeiro gravado sem o baixista Bill Wyman, encerrando silenciosamente uma formação que havia sustentado décadas da identidade rítmica do grupo. Em vez de transformar essa ausência em ruptura, a banda opta por reforçar seus próprios códigos, apostando em solidez e familiaridade. “Love Is Strong” abre o disco em clima denso e arrastado, mais preocupado com atmosfera do que impacto imediato. Já “You Got Me Rocking” cumpre o papel oposto: um rock direto, funcional, claramente moldado para o palco. Essa dinâmica define Voodoo Lounge . Entre esses extremos, surgem momentos introspectivos como “Out of Tears” e “Blinded by Rainbows”, nos quais Mick Jagger abandona o cinismo habitual em favor de um tom mais melancólico, enquanto faixas como “Sweethearts Together” e “New Faces” evidenciam o problema central ...