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Angra e o Efeito Big Brother: quando a narrativa vira mais importante que a música

A casa mais vigiada do metal O Big Brother Brasil não é apenas um reality show. É uma máquina de narrativa. A cada semana, a edição escolhe o que mostrar, o que esconder, quem vira herói, quem vira vilão e qual tensão será explorada. Nada acontece de forma isolada, tudo é apresentado em blocos dramáticos. Nos últimos meses, o Angra parece ter entrado em uma dinâmica parecida. Não pela música, mas pela forma como sua história recente vem sendo contada ao público. Anúncios fragmentados. Postagens enigmáticas. Saídas e retornos divulgados em sequência. A sensação não é de planejamento estratégico, mas de episódios semanais de um reality show sendo liberados para manter a casa movimentada. O paredão de Fabio Lione No BBB, o paredão é construído com tensão crescente. Primeiro a indicação, depois o contragolpe, o discurso e, por fim, a eliminação. A saída de Fabio Lione aconteceu em um timing curioso: em meio ao entusiasmo causado pela reunião da formação da era Rebirth. A euforia no...
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Entre o pântano e o horror: Voodoo (1998) e a maturidade sombria de King Diamond

Voodoo (1998) representa um momento particularmente interessante na trajetória de King Diamond. Distante do impacto revolucionário de Abigail (1987), mas igualmente comprometido com a narrativa conceitual, o álbum mostra um artista maduro, consciente de sua estética e disposto a aprofundar sua linguagem teatral dentro de uma moldura mais sombria e densa. A história ambientada na Louisiana de 1932 não é apenas pano de fundo exótico. O uso do vodu como elemento central permite a King explorar atmosferas pantanosas, quase sufocantes, que se refletem na construção musical. Há menos ênfase em refrões imediatos e mais investimento em climas prolongados, interlúdios narrativos e transições dramáticas. A abertura com “LOA House” já apresenta riffs cortantes e uma tensão constante, enquanto “Life After Death” desacelera para criar uma sensação espectral que dialoga diretamente com o enredo. O disco é guiado pelo trabalho refinado de Andy LaRocque, cujos riffs equilibram peso tradicional e...

Days of Ash (2026): o EP urgente e político que marca a volta do U2

Days of Ash chegou de surpresa na Quarta-feira de Cinzas de 2026, gesto simbólico que já aponta para seu eixo central: luto, memória e reconstrução. Em vez de um simples EP, o novo trabalho do U2 funciona como um documento artístico sobre um mundo em combustão, e cada faixa parte de histórias reais. “American Obituary” é inspirada em Renée Good, mãe de família morta em confronto com agentes do serviço de imigração dos Estados Unidos (ICE). A letra questiona a narrativa oficial que rotula vítimas como ameaças e transforma o lamento em denúncia. Musicalmente, a faixa resgata o U2 mais direto: guitarras incisivas de The Edge, batida firme e um Bono inflamado, operando no território clássico das canções de protesto. “The Tears of Things” dialoga com o pensamento do frade Richard Rohr e constrói uma reflexão espiritual sobre sofrimento coletivo. A canção utiliza imagens simbólicas como a metáfora envolvendo o Davi de Michelangelo para discutir poder, vulnerabilidade e compaixão. É um ...

Angel of Retribution (2005): o retorno do Metal God ao Judas Priest

O lançamento de Angel of Retribution (2005) representou a volta de Rob Halford ao posto de vocalista do Judas Priest, posição que sempre foi sua por direito, reunindo novamente a formação responsável por alguns dos momentos mais emblemáticos do heavy metal. Produzido por Roy Z, o disco veio após dois álbuns com Tim “Ripper” Owens nos vocais, Jugulator (1997) e Demolition (2001). A expectativa era enorme, e a banda sabia disso. A abertura com “Judas Rising” funciona quase como uma declaração de princípios: riffs cortantes, bateria precisa e Halford explorando agudos que remetem diretamente à fase oitentista. É um cartão de visitas eficiente, que estabelece o tom de retomada. “Deal With the Devil” e “Hellrider” reforçam essa proposta. A primeira aposta em refrão forte e andamento direto, enquanto a segunda é mais ambiciosa, com mudanças de dinâmica e um clima épico que dialoga com o peso de Painkiller (1990), mas sem tentar copiá-lo. Há uma energia renovada, porém consciente da ...

Sláine - O Deus Guerreiro: a fantasia pintada como um álbum de heavy metal (2025, Mythos)

A nova edição de Sláine: O Deus Guerreiro , lançada pela Mythos Editora em 2025, recolocou nas livrarias brasileiras um dos maiores clássicos da fantasia dos quadrinhos britânicos. Trata-se da edição de aniversário que celebra os 35 anos de The Horned God , arco originalmente publicado na revista 2000 AD e considerado o ponto mais alto da trajetória do personagem criado por Pat Mills . A trama acompanha Sláine em sua missão de unir as tribos de Tir-Nan-Og contra os sinistros Lordes Drunes, sacerdotes que corrompem a terra com magia negra e dominação religiosa. Para isso, o guerreiro precisa recuperar artefatos sagrados e assumir um papel que ultrapassa a brutalidade bárbara: ele se torna símbolo, mito e divindade viva. A narrativa combina mitologia celta, crítica à opressão teocrática e reflexões sobre poder e liderança, tudo embalado por batalhas violentas e momentos de lirismo inesperado. Se o roteiro de Mills constrói uma fantasia épica com densidade política e mítica, a arte ...

“To The Last Breath”: o manifesto da nova era do Arch Enemy na estreia da vocalista Lauren Hart

A estreia de Lauren Hart no Arch Enemy com o single “ To The Last Breath” não soa apenas como a apresentação de uma nova vocalista, mas sim como um momento de redefinição para uma das bandas mais importantes da história do death metal melódico. A saída de Alissa White-Gluz encerrou um ciclo iniciado em 2014, quando ela assumiu o posto deixado por Angela Gossow . Se Angela consolidou o padrão brutal e técnico do grupo nos anos 2000, Alissa trouxe maior amplitude dinâmica, incorporando nuances melódicas e uma presença de palco ainda mais expansiva. Foram duas fases distintas, mas igualmente importantes na consolidação do legado da banda. A chegada de Lauren Hart, portanto, acontece sob forte expectativa. Antes de integrar o Arch Enemy, ela construiu sua trajetória à frente do Once Human , projeto criado ao lado do guitarrista e produtor Logan Mader, ex-Machine Head e Soulfly . Nos três álbuns lançados pela banda entre 2015 e 2022, Lauren demonstrou domínio técnico, alternando gut...

Como o Sepultura mudou o metal e influenciou profundamente o gênero com Roots (1996)

Quando o Sepultura lançou Roots em 1996, o metal vivia um momento de transição. O thrash havia perdido força comercial, o grunge ainda projetava sombras sobre a cena pesada e uma nova geração começava a experimentar com groove, afinações mais baixas e abordagens menos técnicas. Foi nesse cenário que um grupo brasileiro decidiu não apenas se adaptar, mas redefinir o jogo. Roots não foi apenas uma mudança sonora. Foi uma mudança de perspectiva. A banda abandonou de vez a velocidade cortante de álbuns como Arise (1991) em favor de riffs mais densos, repetitivos e tribais. “Roots Bloody Roots” já anunciava a transformação: menos virtuosismo, mais impacto. O peso vinha da cadência, da pulsação quase ritualística. O metal deixava de ser apenas agressão técnica para se tornar experiência física. Produzido por Ross Robinson , figura central no surgimento do nu metal, o álbum capturou uma crueza emocional que dialogava com o que bandas como Korn começavam a explorar. Mas ao contrário...

Biblioteca Michael Moorcock: Elric – O Campeão Eterno: as adaptações históricas reunidas pela Pipoca & Nanquim (2026, Pipoca & Nanquim)

Dentro da proposta da Pipoca & Nanquim de resgatar clássicos da fantasia em quadrinhos, a Biblioteca Michael Moorcock: Elric – O Campeão Eterno ocupa posição de destaque ao reunir duas adaptações históricas do universo criado por Michael Moorcock . O volume funciona não apenas como porta de entrada para o albino de Melniboné, mas também como documento da evolução estética das HQs de fantasia na Europa. A primeira história, Elric: O Retorno a Melniboné , com arte de Philippe Druillet , foi publicada originalmente em 1973 na revista Pilote e depois em álbum pela Dargaud . Trata-se de uma das primeiras transposições do personagem para os quadrinhos. Druillet, conhecido por sua inventividade visual, oferece uma leitura marcadamente autoral: Melniboné surge monumental, barroca e opressiva, enquanto Elric é retratado como figura trágica diluída em cenários grandiosos. A narrativa privilegia a atmosfera e o impacto visual, condensando eventos do ciclo literário em favor de uma experi...

Rock the Nations (1986): o Saxon entre o metal britânico e o sonho americano

Oitavo álbum de estúdio do Saxon, Rock the Nations (1986) consolidou a guinada iniciada em Innocence Is No Excuse (1985), aprofundando a aproximação com o hard rock de apelo mais comercial e com elementos de AOR, movimento que dividiu fãs e crítica. Produzido por Gary Lyons e lançado pela EMI, o disco traz curiosidades reveladoras: embora Paul Johnson apareça creditado como baixista, as linhas foram gravadas por Biff Byford. Outro detalhe marcante é a participação de Elton John , que toca piano em “Party ’Til You Puke” e “Northern Lady”, ampliando ainda mais o espectro sonoro da banda. Rock the Nations alterna vigor e polimento. A faixa-título, “Battle Cry” e “We Came Here to Rock” preservam riffs diretos e refrãos fortes, mantendo conexão com o passado metálico do grupo. Já “Waiting for The Night” é claramente uma tentativa de a banda soar mais radiofônica, com refrão amplo e produção calculada para dialogar com o mercado norte-americano. No entanto, a música possui uma qualida...

Innocence Is No Excuse (1985): entre o peso e as rádio, um dos álbuns mais controversos do Saxon

Innocence Is No Excuse (1985) representa um dos momentos mais debatidos da discografia do Saxon . Chegando ao mercado em um período de mudanças significativas dentro do heavy metal, o trabalho marcou a estreia da banda pela EMI e também simbolizou o encerramento de um ciclo, sendo o último álbum com o baixista original Steve Dawson. Mais do que uma simples troca de gravadora ou formação, o disco evidencia a tentativa do grupo britânico de dialogar com um cenário musical cada vez mais dominado pelo hard rock melódico e pelo metal de apelo radiofônico dos anos 1980. Desde os primeiros acordes, fica claro que o Saxon buscou um refinamento sonoro. A produção é mais polida, com guitarras limpas, vocais bastante trabalhados e um direcionamento que aproxima a banda do mercado norte-americano. Esse cuidado técnico, por um lado, trouxe maior acessibilidade às composições, mas, por outro, gerou divisão entre os fãs que acompanhavam a banda desde os tempos mais crus da New Wave of British Heavy...