16 de jan de 2009

Trivium - Shogun (2008)

sexta-feira, janeiro 16, 2009

Por Ricardo Seelig
Colecionador
Cotação: ****

Passados quase dez anos de sua formação (o grupo nasceu em Orlando, na Flórida, em 2000), não é exagero algum apontar o Trivium como uma das principais bandas de heavy metal do cenário atual. Grandes vendedores de discos e donos de uma reputação sólida devido aos seus animalescos shows, o quarteto chega agora ao quarto álbum, "Shogun", que sucede os muito bem sucedidos "Ascendancy" e "The Crusader".

Musicalmente, o que fica claro nas onze faixas do trabalho é que o Trivium encontrou a sua personalidade, o seu som. As influências de sempre - o thrash da Bay Area (notadamente dos primeiros discos do Metallica) e a New Wave Of British Heavy Metal (principalmente a fase inicial do Iron Maiden) - continuam presentes, mas, diferentemente dos álbuns anteriores, que forneceram munição para alguns críticos apontarem o grupo como mera reciclagem desses dois gigantes da história da música pesada, em "Shogun" elas se unem de maneira sólida na construção de uma sonoridade avassaladora e contagiante, que tem tudo para agradar tanto fãs saudosistas do metal oitentista quanto as gerações mais jovens de headbangers.

Matt Heafy, seguindo o que havia feito em "The Crusader", alterna vocais guturais com passagens limpas nos refrões, causando um contraste muito legal e que já é uma marca registrada do Trivium. As guitarras de Heafy e de Corey Beaulieu honram toda a tradição de quase quarenta anos de som pesado entregando riffs inspirados (ah, como é bom ouvir canções baseadas em riffs, em um cenário dominado por guitarras afinadas em tons baixos e instrumentistas que tocam, ad infinitum, as mesmas passagens) e solos repletos de melodia. Resumindo, o que Heafy e Beaulieu fazem, com precisão cirúrgica, é unir os riffs certeiros do thrash metal às melodias intrincadas e inspiradas da NWOBHM, gerando um som contagiante.

A cozinha do Trivium, formada por Paolo Gregoletto e Travis Smith, mostra domínio técnico invejável, aliado a uma pegada feroz e precisa. Gregoletto alterna momentos em que segue as linhas de guitarra de Heafy e Beaulileu a outros em que cria as bases seguras para as viradas inspiradas de Smith, que evoluiu mais ainda nesse novo álbum, mostrando um trabalho seguro nos dois bumbos e muita criatividade na construção de batidas que dão ainda mais peso às composições.

Entre os destaques estão a abertura selvagem com "Kirisute Gomen", a empolgante "Torn Between Scylla and Charybdis", a melodiosa "Into the Mouth of Hell We March", o arregaço de "Throes of Perdition", a energia de "Like Callisto to a Star in Heaven" e os quase doze minutos de riffs e mudanças de andamento da faixa-título.

"Shogun" mantém o Trivium com uma das principais bandas de heavy metal da última década, e dá um passo importantíssimo na carreira do grupo, com um som repleto de personalidade e inspiração.


Faixas:
1. Kirisute Gomen - 6:26
2. Torn Between Scylla and Charybdis - 6:49
3. Down from the Sky - 5:34
4. Into the Mouth of Hell We March - 5:51
5. Throes of Perdition - 5:53
6. Insurrection - 4:56
7. The Calamity - 4:57
8. He Who Spawned the Furies - 4:40
9. Of Prometheus and the Crucifix - 4:40
10. Like Callisto to a Star in Heaven - 5:25
11. Shogun - 11:53

Dica de site: Liverpool Camisetas

sexta-feira, janeiro 16, 2009

Por Ricardo Seelig
Colecionador

Eu gosto de camisetas de bandas, mas confesso que não curto muito o figurino preto padrão associado ao rock. Por isso, curti muito as camisetas da Liverpool. Os caras são de Florianópolis, e fazem t-shirts com temas que vão do rock à cultura pop, sempre com muito estilo.


Comprei duas: a que traz o cartaz de Woodstock e a com os nomes das músicas dos Beatles. Já usei ambas, e posso dizer que, além do estilo muito legal, a malha é da melhor qualidade e vale a compra.


Acesse o site dos caras, veja os vários modelos disponíveis e peça a sua. Ah, quase esqueci: a Liverpool tem todos os modelos disponíveis para ambos os sexos, ok?  Uma toque: agora só falta eles lançarem uma linha de camisetinhas para que nós, pais rockers e babões, possamos também deixar nossos filhos bem na foto.

Tá dada a dica, peça já a sua!



Entrevista exclusiva: Buddy Whittington - O guitarrista dos Bluesbrakers conta sua história e sua parceria com o lendário bluesman inglês John Mayall

sexta-feira, janeiro 16, 2009

Nosso especialista em blues, Ugo Medeiros, bateu um papo exclusivo com Buddy Whittington. guitarrista dos Bluesbrakers do lendário John Mayall, um dos pioneiros do blues inglês, e em cujo grupo passaram lendas como Eric Clapton, Peter Green e Mick Taylor. 

Por Ugo Medeiros
Colecionador e Jornalista

Integrante dos Bluesbreakers há quase 15 anos, o texano de 52 anos honra a tradição de excelentes guitarristas a frente da banda de John Mayall. Apontado como um dos grandes nomes do blues, gravou recentemente seu primeiro trabalho solo (homônimo). Em turnê pelo Brasil ao lado do lendário grupo, concedeu uma entrevista exclusiva momentos antes do grande show pelo 6º Rio das Ostras Jazz & Blues Festival.


Ugo Medeiros - Você começou a tocar guitarra após escutar bandas como Rolling Stones e Beatles. Pode-se dizer que o rock te levou para o blues?

Buddy Whittington - Eu cresci no Texas e o blues sempre esteve no meio musical. Eu comecei a tocar aos oito anos e aos quatorze já tocava profissionalmente. Naquela época, início dos anos 70, surgiam bandas de classic rock, como ZZ Top e Allman Brothers, e todos tocavam blues. Quando era criança ouvia Eric Burdon cantar "Boom Boom", do John Lee Hooker, e outros nomes como Slim Harpo. Quando escutei o Allman Brothers tocando "Statesboro Blues" comecei a pesquisar mais sobre o que já tinha ouvido e passei a conhecer Taj Mahal, onde entrei em contato com a guitarra de Jesse Ed Davis. A partir daí quis ir a fundo nas raízes e estudei mais sobre Blind Willie McTell. É muito importante ir às raízes. Na verdade, eu ainda estou aprendendo muito sobre o blues...

Quando Eric Clapton e John Mayall gravaram "Beano" você tinha apenas dez anos. Você se lembra daquele momento? Essa gravação foi uma das suas grandes influências?

Foi uma influência sim, pois a minha irmã mais velha tinha os LPs dos Bluesbreakers. Além de bandas da invasão inglesa, como Beatles, Stones e The Who, ela tinha muitos discos do Paul Butterfield e Michael Bloomfield. Eu me lembro muito disso pois me marcou profundamente.


Como começou a parceria com John Mayall?

Eu o conheci em Dallas por volta de 1992. Eu tocava guitarra para um músico que abriria o show dos Bluesbreakers. Naquele momento a guitarra estava nas mãos do Coco Montoya, que estava prestes a abandonar a banda e começar a carreira solo. Naquela época, o John estava sem contrato com gravadora, porém ele me avisara que quando conseguisse um precisaria de um guitarrista. Fomos para Califórnia e gravamos algumas faixas, de forma independente. Dois anos depois, ele me chamou. E já estamos nessa parceria há quinze anos.

É possível dizer que você deu uma sonoridade mais texana aos Bluesbreakes?

Talvez. Possivelmente, devido aos caras que escutei na minha juventude. Eu gostava de Johnny Winter, Billy Gibbons e todos esses com pegada texana. Você sabe, Stevie Ray Vaughan era grande na época que entrei para a banda, porém naquele momento não foi uma influência tão forte porque nós tínhamos, mais ou menos, a mesma idade. Mais tarde, com certeza, o Vaughan se tornaria uma importante influência.

Você já gravou mais de dez discos com os Bluesbreakers. Qual foi o mais importante?

Eu não sei. Eu gosto de todos. Eu penso que o próximo disco será sempre o mais importante.

Você sempre usa sua Stratocaster 63 e um amplificador Dr. Z. Por quê?

Porque essa combinação funciona perfeitamente comigo. A guitarra Stratocaster com a Dr. Z extraem uma sonoridade que me agrada muito.

Como foi a gravação do último disco, "Palace of the King"?

Eu sempre toquei muito Freddie King, porém tinham músicas que eu nunca havia ouvido. O John procurou e achou algumas bem antigas, de quando Freddie começou. Deu certo porque tínhamos Lon Price e Lee Thornburg nos metais. Foi muito divertido gravá-lo. Fizemos correndo, mas nos divertimos muito.


Você gravou, ano passado, o seu primeiro disco solo. O que você pode falar sobre ele?

Era algo que eu precisava fazer há muito tempo. O disco é composto por nove faixas próprias e um cover do ZZ Top, "Sure Got Cold After the Rain Fell". Gravei com ótimos músicos. Fiquei muito orgulhoso com o resultado. Recebi boas críticas (risos)!



Rolling Stones - It´s Only Rock´n Roll (1974)

sexta-feira, janeiro 16, 2009

"It´s Only Rock´n Roll" é o último álbum dos Rolling Stones com Mick Taylor. O guitarrista sairía da banda algum tempo depois, dizendo-se esgotado pela estrada e pelo relacionamento sufocante com Mick Jagger e Keith Richards. Extremamente inseguro, na verdade Mick Taylor nunca se sentiu totalmente à vontade com os Stones, fato que se acentuou ano após ano pela recusa eterna de Jagger e Richards em dar crédito a Taylor nas composições que ele ajudou a criar. A única exceção é "Ventilator Blues", do "Exile on Main St.", mas isso é assunto para outro dia.

Gravado no Musicland Studios, em Munique, na Alemanha, o disco traz influências generosas de soul e funk, acrescentando ainda mais tempero ao som sacolejante dos Stones. Além disso, é o primeiro trabalho do grupo cuja produção é creditada aos The Glimmer Twins (alcunha de Mick e Keith), que, propositalmente ou não, tornaram o timbre das guitarras bastante pesado - para o grupo -, tornando a audição ainda mais interessante.

Apesar de contar com apenas dez faixas, como é de hábito nas sessões de gravação da banda muitas mais foram registradas. Entre elas, três covers para clássicos do R&B e do soul: "Drift Away" de Dobie Gray, "Shame, Shame, Shame" de Shirley & Company e "Ain´t Too Proud to Beg" dos Temptations, sendo que apenas essa última entrou no álbum.

O LP abre com "If You Can´t Rock Me", uma tentativa de seguir a tradição do grupo de sempre apresentar grandes faixas de abertura, mas aqui o resultado é apenas satisfatório. "If You Can´t Rock Me" não é uma faixa ruim, está longe disso, mas colocá-la no mesmo patamar de "Brown Sugar" e "Sympathy for the Devil" - faixas que davam início a "Sticky Fingers" e "Beggar´s Banquet", respectivamente - é covardia. Como destaque vale mencionar o baixo distorcidíssimo de Bill Wyman no meio da canção, ganhando um destaque pouco comum nos trabalhos da banda.


A já citada "Ain´t Too Proud to Beg" dá sequência aos trabalhos, e sua audição contagia, principalmente pelo refrão pra lá de grudento, na melhor tradição dos singles da Motown. Uma das melhores do álbum, sem dúvida. Vale citar que "Ain´t Too Proud to Beg" foi lançada como single em 31 de outubro de 1974, duas semanas após o álbum chegar às lojas, com "Dance Little Sister" no lado B, e alcançou a décima-sétima posição nos charts da Billboard.

O grande clássico do disco vem a seguir. "It´s Only Rock´n Roll" é um dos maiores hinos dos Stones, e resume com perfeição o espírito da banda: é apenas rock and roll, mas a gente gosta! O que pouca gente sabe é que Ron Wood, naquela época apenas um amigo da banda, foi fundamental na concepção da faixa. Mick Jagger e Keith Richards haviam dado uma força para Wood na gravação e composição de "I´ve Got My Own Album to Do", primeiro disco solo de Ron, lançado em 13 de setembro de 1974. A convivência aproximou Wood da dupla criativa dos Rolling Stones, e Jagger trabalhou na surdina com Ron Wood na confecção da faixa que dá nome ao disco dos Stones. Apesar de nos créditos do álbum haver uma citação a Ron Wood como o inspirador da canção, ele não aparece como autor da mesma, cuja criação é creditada apenas a Jagger e Richards. E, apesar de não creditado, Wood toca violão de doze cordas na faixa.


A faixa foi o primeiro single do álbum, chegando às lojas no dia 26 de julho daquele ano, alcançando a décima-sexta posição do Top 100 da Billboard e a décima nos charts ingleses. O álbum, em compensação, foi fácil para o primeiro posto nos Estados Unidos e alcançou a segunda posição na Inglaterra.

Menos badaladas, algumas faixas de "It´s Only Rock´n Roll" se transformaram, com o tempo, em preferidas entre os fãs e em pequenas jóias da carreira da banda. A doce balada "Till the Next Goodbye", com uma interpretação primorosa de Mick Jagger, é uma delas. A excelente "Time Waits For No One", outra. Com mais de seis minutos de duração, traz Jagger divagando sobre os anos que passaram e os que estão por vir, e conta com um solo sensacional de Mick Taylor, que faz toda a diferença na canção. Aliás, Taylor, com sua insegurança, se sentia pouco valorizado nos Stones, mas é só ouvir faixas como "Time Waits For No One" para ver o quanto ele elevou a música do grupo a um outro nível. Ainda que não tivesse a inventividade de Brian Jones, Mick Taylor era um guitarrista muito mais técnico, extremamente sensível, que conseguia, com poucas notas, transmitir um mar de sensações com o seu instrumento.

Há ainda "Luxury", um rock arrastado com um grande refrão, que precede "Dance Little Sister", uma paulada digna dos melhores momentos dos Stones. Com o baixo de Wyman e as guitarras em primeiro plano, é daquelas faixas típicas do grupo, extremamente contagiantes, feitas sob medida para levantar estádios.

A parte final do álbum traz ainda a bela "If You Really Want to Be My Friend", uma das grandes baladas da carreira dos Stones, cantada por um Jagger com o coração na mão. Outro destaque da faixa são os backing vocals, que fazem toda a diferença.

E, fechando o play, "Fingerprint File" é um funk psicodélico e hipnótico, mais uma vez com uma grande performance de Mick Taylor, que se contrapõe perfeitamente a Keith Richards. Interessante notar que, ao contrário das outras relações de Keith com seus companheiros de seis cordas - Brian era a exuberância, Richards era o lado cru da primeira fase dos Stones; e, ao lado de Wood, Keith desenvolveu um entrosamento tão grande que é praticamente impossível saber que partes cada um dos dois executa, já que suas guitarras soam como uma só -, com Taylor, um instrumentista muito mais técnico, Keith mostra uma aprimoramento e uma evolução palpáveis em cada uma das faixas que gravou enquanto Mick Taylor esteve na banda, caminhando a passos largos em direção a um caminho que nem ele saberia dizer qual é. A influência de Taylor sobre Richards foi tão grande que moticou até mesmo uma carta de agradecimento de Keith ao guitarrista quando ele se desligou dos Stones, o que levou Mick Taylor às lágrimas.

Um assunto que não pode deixar de ser abordado quando se fala do disco é a ótima ilustração da capa, desenvolvida por Guy Peellaert, trazendo os Stones em uma escadaria do que parece ser um tempo grego ou romano, rodeados por dezenas de mulheres, como que sendo recebidos no Olimpo do rock, seu lugar de direito.

Concluindo, apesar de não estar no mesmo nível de clássicos intocáveis como "Beggar´s Banquet", "Let it Bleed", "Sticky Fingers" e "Exile on Main St.", "It´s Only Rock´n Roll" apresenta uma banda com fome ainda para experimentar, trilhando caminhos até então inéditos, com sede de provar que continuavam revelantes para a cena rock dos anos setenta. De maneira geral, "It´s Only Rock´n Roll" é um trabalho muito bom, com ao menos três composições excelentes (a que dá nome ao álbum, "Time Waits For No One" e "Fingerprint File") e que possui o seu lugar e a sua importância na longa discografia daquela que sempre será a maior banda de rock do mundo.

Line-up:
Mick Jagger - Vocal e Guitarra
Keith Richards - Guitarra, Baixo e Vocal
Mick Taylor - Guitarra, Sintetizador, Baixo, Congas e Vocal
Bill Wyman - Baixo e Sintetizador
Charlie Watts - Bateria

Músicos adicionais:
Billy Preston - Piano
Nicky Hopkins - Piano
Ian Stewart - Piano
Ray Cooper - Percussão
Blue Magic - Backing Vocal
Charlie Jolly - Tabla
Ed Leach - Cowbell

Faixas:
1. If You Can´t Rock Me - 3:46
2. Ain´t Too Proud To Beg - 3:30
3. It´s Only Rock´n Roll (But I Like It) - 5:07
4. Till the Next Goodbye - 4:37
5. Time Waits For No One - 6:37
6. Luxury - 5:00
7. Dance Little Sister - 4:11
8. If You Really Want To Be My Friend - 6:16
9. Short and Curlies - 2:43
10. Fingerprint File - 6:33

15 de jan de 2009

Cynic - Traced in Air (2008)

quinta-feira, janeiro 15, 2009

Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room
Why Dontcha

Cotação: ****

"Traced in Air" ostenta o título de um dos álbuns mais aguardados da história do heavy metal. O motivo para tamanha expectativa é simples: "Focus", estréia e único trabalho (até então) desse grupo norte-americano natural de Miami chegou às lojas em 13 de junho de 1993 e foi aclamado pela crítica e pelos fãs, e hoje é considerado um dos maiores clássicos da música pesada e um dos primeiros discos a explorar, com extrema maestria, a união entre a violência e a brutalidade do death metal com a exuberância técnica e os intricados arranjos do prog.

Mas, para decepção geral, o grupo se dissolveu durante o processo de composição do que seria o seu segundo disco, com a relação entre os seus integrantes ficando insustentável. Passados longos quatorze anos, a banda se reuniu para um giro pela Europa em 2007 e, animados com a receptividade do público, resolveram entrar em estúdio para gravar o seu tão aguardado segundo disco.

O line-up atual conta com os integrantes originais Paul Masvidal (vocal e guitarra) e Sean Reinert (bateria), agora com a companhia de Sean Malone (baixo) e Tymon Kruidenier (guitarra).

Musicalmente, o som do quarteto, como era de se esperar, evoluiu muito, mas manteve as características que fizeram a fama de "Focus", como a alquimia entre gêneros que vão do já citado metal ao rock, passando pelo jazz e o fusion. As passagens instrumentais constróem diferentes e variadas texturas sonoras, resultando em uma música muito rica e repleta de detalhes, com cada elemento se encaixando com perfeição em seu devido lugar.

A voz de Paul Masvidal está mais carregada de sentimentos do que nunca, transmitindo sensações que nos levam de um extremo ao outro, da raiva a alegria, da dor ao êxtase. Sua guitarra soa limpa até em excesso, o que faz com certas partes de algumas composições transmitam, de forma intencional, uma certa frieza ao ouvinte.

O grande destaque de "Traced in Air", para mim, é a bateria de Sean Reinert. Tocando absurdamente, Reinert espanta por sua técnica, não ficando restrito aos limites do que a banda se propõe a explorar, mas trazendo elementos de fora para tornar o som do grupo ainda mais complexo e cativante. Ele é o contraponto perfeito de Masvidal. Se a guitarra de Paul é a mente do Cynic, a bateria de Sean é o coração pulsante do grupo.

São oito faixas que trazem um heavy metal muito diferenciado, extremamente técnico e hipnótico, composto com muito detalhismo e cuidado. Uma pequena obra-prima da música pesada, que faz juz ao passado dessa ótima banda.

Grande álbum! Só espero que o próximo não leve outros quinze anos para sair ...

Faixas:
1. Nunc Fluens - 2:56
2. The Space for This - 5:46
3. Evolutionary Sleeper - 3:35
4. Integral Birth - 3:53
5. The Unknown Guest - 4:13
6. Adam´s Murmur - 3:29
7. King of Those Who Know - 6:09
8. Nunc Stans - 4:13

A discografia dos Stones em Super Audio CD

quinta-feira, janeiro 15, 2009

Por Bento Araújo
Jornalista e Editor da Poeira Zine

É PURA E TÃO SOMENTE ROCK´N ROLL, 
MAS A GENTE ADORA!!!!

São ao todo 22 discos relançados em formato digipack, todos remasterizados em SACD (Super Audio Compact Disc), uma nova tecnologia que oferece uma alta definição e resolução sonora, para essa que foi, sem dúvida alguma, a mais inventiva fase, da mais sacana (em todos os bons sentidos da palavra) banda do planeta. Os relançamentos compreendem todos os álbuns lançados pela selo Decca/London/ABCKO, ou seja, do primeiro, “England’s Newest Hitmaker’s” de 1964, até o ao vivo “Get Yer Ya-Ya’s Out” de 1970. Cada disquinho vem com um certificado de autenticidade (que mimo!), e todos eles juntos formam a capa do “Their Satanic Majesties Request”. 

Essa nova tecnologia pode ser apreciada tanto em aparelhos comuns como em próprios aparelhos SACD. O único senão é que você não poderá ouvi-lo no seu computador. É importante ficar de olho bem aberto, pois as discografias inglesas e americanas do grupo diferem bastante em alguns casos, e alguns títulos foram relançados em ambas versões. 

Não é exagero dizer que todos são essenciais em qualquer coleção que se preze, afinal trata-se de um registro de uma época única dentro do rock; uma época onde uma simples banda que tocava standarts do rhythm’n’blues, passou a agregar elementos psicodélicos no seu som, e no fim dos anos 60 voltou-se as mais puras raízes do rock n’ roll. Quarenta anos depois, tudo ainda é revolucionário, e até hoje cada vez mais garotos ainda amam os Rolling Stones. 

Ladies and Gentlemen: The Rolling Stones

England´s Newest Hit Makers (1964)
(US Version) *** 1/2

Antes de qualquer comentário, é importante ressaltar que essa versão em questão é baseada na versão original americana do álbum, que difere da inglesa em alguns aspectos.

Versão americana: lançada em 29 de maio de 1964 pelo selo London, com o título de “England’s Newest Hit Makers”. Trazia a faixa “Not Fade Away” e não continha a faixa “Mona (I Need You Baby)”. Já a música “Tell Me” vinha com 2:59 minutos de duração, com um fade out (aquele tradicional efeito que vai diminuindo o volume da música em seu fim) e sem o breque da guitarra.

Versão inglesa: lançada em 17 de abril de 1964 pelo selo Decca, somente com uma foto da banda na capa, sem nada escrito. Trazia a faixa “Mona (I Need You Baby)” e não continha “Not Fade Away”. Já a faixa “Tell Me” aparecia mais longa, com 4:08 minutos, sem o fade mas com o breque da guitarra presente. 

Esclarecidas as diferenças, vamos ao disco. A estréia dos meninos não podia ser melhor. Composto basicamente de standarts do rhythm ‘n’ blues americano, como dois clássicos da Motown - “Walking the Dog” (que curiosamente outra banda, com um vocalista também “bocudo”, gravou no seu disco de estréia) e “Can’t I Get A Witness”. Apenas uma canção de composição de Jagger/Richards aparece, a balada “Tell Me”. 

E o legal mesmo, é a crueza de coisas, como “I Just Want Make Love To You” de Willie Dixon. Reza a lenda que durante algumas das sessões de gravação, Phil Spector, Gene Pitney e Graham Nash se juntaram aos Stones e criaram coisas como “Andrew´s Blues” e “Spector & Pitney Came Too”, que para o desespero geral nunca foram lançadas.

Dica: não esquente porque somente a versão
yankee do disco está disponível, a música “Mona (I Need You Baby)” aparece no disco “NOW ! ” de 1965.

12 x 5 (1964) ***

É o segundo disco norte-americano da banda, contém material gravado nos estúdios Chess, de Chicago, durante os poucos dias de descanso que o grupo tinha enquanto fazia sua primeira excursão pelo país. Nunca foi lançado na Inglaterra, somente algumas de suas faixas apareceram no mercado britânico sob forma de “Rolling Stones no. 2” e “Five By Five EP”.

Já abre com um arrasa quarteirão, a cover de “Around and Around” de Chuck Berry (que se tornou um dos pontos altos da tour inglesa), e continha também os hits “Time Is On My Side” e “It’s All Over Now”. Tem blues lamacento à vontade, ”Confessin’ The Blues” e “Good Times Bad Times”, e uma instrumental bacana, “2120 s. Michigan”.

Curiosidade: O lendário bluesman americano Muddy Waters ajudou o grupo a carregar todo seu equipamento para dentro do Chess Studios!

The Rolling Stones Now! (1965) ***

Disco lançado somente nos EUA com intuito de ser a versão americana do inglês “The Rolling Stones No. 2”. Continha gravações de 64 e 65, escolhidas a dedo pelo produtor do grupo, Andrew Oldham.

Mostra, mais do que qualquer outro disco da banda, as tão amadas influências do blues americano. Basta uma rápida ouvida em “Little Red Rooster”, “Down the Road Apiece” e “Heart of Stone” para perceber que os garotos não estavam de brincadeira. 

Versões para clássicos da soul music também aparecem, “Pain In My Heart” de Otis Redding e “Everybody Needs Somebody To Love” de Solomon Burke, essa com uma impressionante atuação de Jagger. Com certeza é um álbum que deixou Brian Jones orgulhoso!

Out of Our Heads (1965) *** 1/2

Se somente um motivo fosse necessário para justificar a aquisição desse álbum, ele seria o hino “(I Can’t Get No) Satisfaction”, aqui em sua deliciosa versão original. O disco já estreou direto no topo da parada americana, onde permaneceu por três semanas; foi também o primeiro a ser gravado totalmente em estéreo. 

As composições da dupla Jagger/Richards aumentavam cada vez mais. Dessa vez quatro faixas apareciam em meio as já tradicionais versões de clássicos do R&B.

Confusão: As versões inglesa e americana do disco estão disponíveis nessa nova leva; a versão inglesa de “Out of Our Heads” tem a mesma capa que o exclusivamente americano “December’s Children”, ou seja, aquela com Brian na frente. Já o americano traz aquela foto com Keith no centro. Quanto ao repertório, ele também difere bastante entre as versões; o jeito melhor de resolver é adquirindo ambas.

December´s Children (And Everybody´s) 
(1965) *** 1/2

Lançamento dedicado ao mercado americano. Reunia dois singles de sucesso (“Get Off My Cloud” e “As Tears Go By”) e outras faixas inéditas até então na América. O disco foi o último a ser elaborado sobre total controle dos executivos da gravadora; o que veio a seguir já era totalmente idealizado, única e exclusivamente, pela banda.

As faixas “Talkin’ Bout You” e “Look What You’ve Done” eram sobras daquelas famosas sessões gravadas no Chess Estúdios de Chicago; já “Route 66” e “I’m Moving On” eram gravadas ao vivo.

Aftermath (1966) **** 1/2

É o pontapé do grupo em sua mais experimental e criativa fase; foi aqui que Brian passou a utilizar instrumentos exóticos (dulcimer e cítara) como peça fundamental no som da banda. Foi também o primeiro disco dos Stones a conter somente canções de Jagger/Richards, como “Under My Thumb”, “Out of Time” e “Lady Jane”.

A versão americana, além de ter uma capa mais legal, traz a maravilhosa “Paint It Black” no lugar de “Mothers Little Helper” da versão inglesa.

Mancada: ainda continuam inéditas três músicas gravadas durante as sessões de “Aftermath”. São elas: “Looking Tired”, “Aftermath” e “Track Of My Tears”.

Got Live If You Want It! (1966) ** 1/2

Primeiro e mais fraco registro ao vivo dos Stones. O duro é ter que ouvir aquelas histéricas garotinhas berrando pelos seus ídolos mais de quarenta anos depois! Parece que a banda fez questão de mostrar mais o barulho gerado por tais garotas do que as músicas em si. O pior é que sempre rolou um boato que algumas músicas do disco foram gravadas em estúdio, com o barulho da platéia adicionado posteriormente!

O disco foi lançado somente na América, e ao contrário do que diz a ficha técnica os shows aqui registrados não são do Royal Albert Hall de Londres, e sim foram tirados de duas noites no City Hall em Newcastle e mais duas no Colston Hall em Bristol.

Between the Buttons (1967) *** 1/2

A versão americana arrasa, pois traz o hino “Let’s Spend The Night Together” e a delicadeza que é “Ruby Tuesday”, no lugar de “Backstreet Girl” e “Please Go Home” da versão inglesa. Para remediar tamanha confusão, é bom esclarecer que as quatro músicas acima aparecem na coletânea “Flowers”.

A foto da capa é genial, inspirada em “Rubber Soul” dos Beatles, mostra que os Stones andavam bem no clima psicodélico da época. Desenhos do baterista Charlie Watts ilustram a contra capa.

Flowers (1967) ***

Mais uma compilação destinada ao mercado americano, que serviu para nada além do que levantar uma grana enquanto Jagger e Richards estavam detidos por porte de drogas. O que mais vale o investimento é a versão de “My Girl”, dos Temptations.

Their Satanic Majesties Request (1967) *** 1/2

Apesar de muito malhado pela crítica e pelos fãs na época, hoje pode ser condiderado uma das mais belas viagens de LSD já feitas por uma banda. Suavemente esquisito na primeira audição, traz maravilhas do quilate de “She’s A Rainbow”, que contava com John Paul Jones (futuro Led Zeppelin) no piano e arranjos; “2.000 Man”, que foi regravada pelo Kiss alguns belos anos depois; “2.000 Light Years From Home”, escrita por Jagger numa prisão em Brixton; e “Sing this Altogether”, com backing vocals de Lennon e McCartney. O título era uma paródia à inscrição contida nos passaportes britânicos: “Her Britannic Majesty Requests”. 

Pena que essa reedição em SACD não reproduz o genial efeito holográfico contido na capa do LP original, onde até os quatro Beatles aparecem.

Beggar´s Banquet (1968) ****

Uma primeira volta às raízes rock n’ roll, que mescla sabiamente algumas faixas acústicas, como “No Expectations”, “Dear Doctor” e “Prodigal Son”, com as vicerais “Sympathy For The Devil” (nada mal para uma abertura de um disco de rock) e “Street Fighting Man”.

A famosa capa censurada do banheiro grafitado foi motivo de muita confusão entre a banda e a gravadora Decca, e na verdade funcionou como a gota d’água para que os Stones procurassem uma gravadora nova assim que o contrato expirasse. Só para se ter uma idéia do pique da banda durante as gravações, basta lembrar que dessas sessões também saíram coisas como “Jumpin’ Jack Flash”, “Love In Vain” e “Sister Morphine”; usadas ou em forma de singles, ou em álbuns posteriores.

Curiosidade: a capa (fotografada pelo marido da “Mary” do Peter, Paul and Mary) trazia insultos grafitados num banheiro imundo, escritos por Jagger e Richards; a dupla atacava Bob Dylan, Herb Alpert e o próprio manager deles, Allen Klein.

Let It Bleed (1969) *****

Quem ouvir aquela introdução de “Gimme Shelter” e não sentir um arrepio subindo pela espinha não merece nunca mais ouvir um disco de rock na vida!  Que abertura de disco, meu!  A faixa foi escrita por Keith Richards enquanto ele esperava em seu carro por sua namorada Anita Pallenberg, que estava transando com Mick Jagger.

Um fator importante é que o disco trazia as últimas gravações de Brian Jones (nessa altura ele já não fazia mais parte do grupo), que morreu justamente enquanto o disco era finalizado em Londres; e trazia também as primeiras gravações de seu substituto, Mick Taylor.

Alguns meses antes, a banda estourava com o single de “Honky Tonk Woman” (gravada na primeira sessão de Taylor com o grupo), e no disco eles satirizavam eles próprios com “Country Honk”. Fora isso o disco ainda tinha “You Can’t Always Get What You Want”, “Midnight Rambler” e “Love In Vain”.

Uma das sessões para o álbum tinha Ry Cooder como guitarrista convidado (parte disso está registrado no disco “Jamming With Edwards”), e até hoje muitos acusam a banda de ter roubado várias partes de guitarra tocadas por Cooder sem sequer ter dado devido crédito ao moço. Coisas do rock and roll.

Get Yer Ya-Ya´s Out (1970) ****

O melhor dos muitos discos ao vivo lançados pela banda, simplesmente por mostrar o grupo no auge e com muito tesão pelo palco. Basta conferir versões potencializadas de “Midnight Rambler”, “Jumpin’ Jack Flash” e “Carol”.

Os shows aqui registrados foram realizados no Madison Square Garden, em Nova Iorque, durante a
tour de 1969, porém até hoje existem dúvidas quanto à inclusão de algumas faixas tiradas de shows também no Boston Garden e no Baltimore Civic Center.

Singles Collection - The London Years ****

Que tal uma compilação de todos os lados A e B dos singles da banda de 1963 até 1971? Pois é isso que oferece essa atraente coletânea tripla.

De bom, o que temos aqui é a fiel ordem da seleção das faixas, acompanhando exatamente a ordem dos singles lançados. E muitos dos lados B´s e mesmo dos lados A’s não aparecem nos álbuns originais (principalmente nas versões britânicas).

De ruim, o fato das maiorias das faixas estar em mono, fazendo com que coisas como “Sympathy For The Devil” percam muito em relação à versão em estéreo contida no disco original (nesse caso, no “Beggar’s Banquet”).

More Hot Rocks (1972) ****

Relançamento daquela compilação dupla de 1972, com três faixas bônus incluídas: “Everybody Need’s Somebody To Love”, “Poison Ivy”(version 2) e “I’ve Been Loving You To Long”. Funciona como complemento da “Singles Collection”, com inúmeras faixas raras e difíceis de arranjar, mesmo em singles do grupo.

Through the Past Darkly - Big Hits Vol. 2 (1969) ****

Compilação norte-americana que nada mais é do que uma continuação do item anterior, cobrindo o período de 1966 até 1969. Foi dedicada a Brian Jones e trazia uma inovação para o formato vinil; a capa era cestavada, com seis lados! Infelizmente nessa reedição a arte gráfica não foi fiel à original.

Musicalmente era um primor, pois tinha
hits do calibre de “Jumpin’ Jack Flash” e “Paint It Black”, e obscuridades como “Dandelion” e “Sittin On A Fence”.

Metamorphosis (1975) *****

Talvez o mais esperado de todos esses relançamentos, simplesmente pelo fato de que é a primeira vez que o álbum é lançado no formato digital!

Se trata de uma compilação de irresistíveis
out-takes e faixas não aproveitas dos anos 60. Outra boa notícia é que o título em questão foi baseado na versão inglesa de 1975, que tinha duas músicas a mais do que a norte-americana.

A qualidade sonora é surpreendente, a o disco pega fogo do meio em diante, pois lá estão escondidas sobras das sessões do “Beggar’s Banquet” e do “Let It Bleed”; coisas como o gostoso
boogie sulista de “Jiving Sister Fanny”; o nervoso hard rock que é “I’m Going Down” e o cover de “I Don’t Know Why” de Stevie Wonder, que curiosamente foi gravada na noite da morte de Brian Jones.

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