Discos Fundamentais: Ringo Starr - Ringo (1973)


Por Anderson Nascimento
Colecionador

Quando falamos em discos de Ringo Starr, pode parecer protecionismo de quem gosta dos Beatles - mas é verdade, houve um tempo em que o baterista mais querido do mundo tocava (e como!) nas rádios do mundo inteiro, inclusive (muito) no Brasil!

Quando os Beatles ainda eram uma banda na ativa nos anos 60, era de praxe que Ringo assumisse os vocais de uma das faixas dos álbuns lançados pelo quarteto inglês. Só que os fãs de Ringo queriam mais, pois o jeito irreverente e "esforçado" do baterista cantar era admirado por muitos, aumentando cada vez mais o seu carisma junto ao público.

Quando os Beatles separaram-se oficialmente em abril de 1970, a expectativa foi grande, afinal de contas o mais óbvio era que John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr lançassem álbuns e iniciassem suas respectivas carreiras como artistas solo. Isto de fato aconteceu, porém, para surpresa de todos, Ringo soltou dois discos no primeiro ano sem os Beatles: Sentimental Journey e Beaucoups of Blues. O primeiro, trazendo uma inimaginável coleção de standards como "Stardust" e "Night and Day" na voz anasalada do Ringo, e o outro uma coleção de clássicos da country music. E aí, o povo perguntou: cadê o Ringo de rocks como "Honey Don’t", "Boys" e "Don’t Pass Me By"?

Em abril de 1971, porém, o baterista novamente surpreendeu a todos com o compacto "It Don’t Come Easy", de sua própria autoria. O sucesso foi estrondoso, dando início a uma grande carreira fonográfica nos anos 70.

Lançando mais um compacto ("Back of Boogaloo", em 1972) e atuando em dois filmes (200 Motels e Blindman), Ringo começava a se preparar para lançar o seu primeiro álbum solo de rock propriamente dito. Porém, ninguém imaginava que o disco seria o sucesso que foi. De forma surpreendente, Ringo recrutou grandes artistas da época - o tecladista Billy Preston, o baixista Klaus Voormanm, Harry Nilsson, o pessoal do The Band, entre outros. Só isso já era o suficiente para termos um trabalho ao menos interessante. Mas a grandiosidade não parou por aí.

No dia 13 de março de 1973, no meio das gravações do LP, uma banda juntou-se para gravar a canção que abriria o disco, "I’m the Greatest", composição de John Lennon feita especialmente para o seu amigo Ringo. Essa banda foi composta por Ringo Starr na voz e na bateria, John Lennon nos vocais e piano, George Harrison na guitarra, Billy Preston no órgão e Klauss Voorman no baixo. Em termos práticos, a gravação dessa faixa foi uma reunião dos Beatles sem Paul, que foi substituído pelo conhecido de longa data (desde os tempos dos shows dos Beatles na Alemanha, no início dos anos sessenta) Klauss Voorman, acrescidos de Billy Preston - quem não lembra dele na gravação do filme/disco Let it Be? A faixa, fazendo jus à sua própria gravação, é grandiosa, cheia de efeitos e referências explícitas à "Sgt Pepper´s", composição dos Beatles.

O rock nada humilde era apenas a primeira faixa de um álbum caprichosamente preparado: a capa trazia ilustrações de todas as pessoas que participaram do disco, em uma espécie de plateia (também lembrando a capa de Sgt Pepper´s) para ver o grande Ringo. Um detalhe interessante é a presença dos três Beatles no centro do desenho, sem dúvida uma alusão à participação dos quatro no trabalho. Além disso, o disco vinha encartado com um belíssimo livreto de 24 páginas com desenhos de Klaus Voorman (que fez a capa de Revolver e da série Anthology, entre outras) para cada música do LP.

No dia 16 de abril chegavam ao estúdio Paul e Linda McCartney para a gravação de outra grande música de Ringo, a balada "Six O’Clock", com uma letra inspirada de Paul e que, segundo o próprio, é sua melhor balada desde "The Long and Winding Road". Pronto, estava completa a participação dos Beatles no disco. E é assim mesmo que a divulgação de Ringo foi anunciada mundo afora: "Os Beatles estão de volta!". E este LP foi sim, com certeza, o momento mais próximo de uma reunião do quarteto.

Tirando a já citada "Six O’Clock", "Step Lightly" (composição de Ringo), "You and Me", e adicionando o mega sucesso "Photograph" - que é na verdade mais uma participação Beatle, pois a canção é de autoria de George Harrison e Ringo, além de ter a guitarra de George na música -, o restante do play é recheado de rock and rolll. Falando em "Photograph", vale lembrar que a canção permaneceu dezesseis semanas no topo das paradas, tornando-se um dos singles mais bem sucedidos daquele ano. Não à toa, Ringo até hoje toca a faixa em seus shows.

O álbum gerou ainda mais dois singles: "You’re Sixteen" - que assim como "Photograph" ainda é executada nos shows - e "Oh My My". A primeira permaneceu várias semanas na primeira posição, e a segunda chegou ao quinto lugar nas paradas. Isso gerou uma verdadeira overdose de Ringo Starr nas rádios. O episódio foi tão inusitado que John Lennon enviou-lhe um telegrama com a seguinte mensagem: "Por favor, escreva-me uma canção de sucesso."

Na maioria dos rocks contidos no disco vemos as referências de Ringo e sua já treinada voz para esse tipo de som. É o caso de "Have You My baby", uma porrada de arrasar, principalmente pela introdução de guitarra de Marc Bolan, do T.Rex. Outro momento de tirar o fôlego é "Devil Woman", com vocal rasgado e bateria e guitarras também pesadas - mais um entre os grandes mometos do play.

Ringo é um disco que entrou para a história, tanto pelo seu formato quanto pelas participações especiais - e, principalmente, pelas suas grandes canções. Depois disso, Ringo manteve a fórmula de participações especiais em seus trabalhos posteriores, lançandobons discos como Goodnight Vienna (1974) e Ringo´s Rotogravure (1976), último disco seu a fazer sucesso no Brasil.

Na década de oitenta Ringo Starr não teve tanto êxito musical, porém retornou com tudo em 1992 com Time Takes Time e criou a sua All Starr Band, que o levou de volta aos palcos de todo o mundo, até que lançou Vertical Man (1998) e Ringo Rama (2003), dois discos que trouxeram de volta o alto nível de Ringo para a carreira do baterista.


Faixas:
A1 I'm the Greatest 3:23
A2 Have You Seen My Baby (Hold On) 3:43
A3 Photograph 3:58
A4 Sunshine Life for Me (Sail Away Raymond) 2:44
A5 You're Sixteen 2:50

B1 Oh My My 4:17
B2 Step Lightly 3:15
B3 Six O'Clock 5:26
B4 Devil Woman 4:01
B5 You and Me (Babe) 4:48

Comentários

  1. Curioso, esses dias assisti um filme (500 dias com ela) em que a mocinha era super fã do Ringo e o namorado tirava um sarro dela.

    Já na minha opinião, acho ele o menos talentoso dos Beatles: canta mal e na bateria só sabe o "arroz com feijão". Deve ser melhor só que a mocinha do White Stripes, que provavelmente é a pior baterista do mundo.
    Mas sabe como é, gosto é gosto!


    Abç!

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  2. Empolgado pela ótima resenha escrita pelo Anderson, corri para escutar novamente o "Ringo" (1973).

    Confesso que não consegui me empolgar muito.

    Continuo achando que o maior talento do Ringo é o carisma. Musicalmente ele não tem muito o que acrescentar.

    Mas parabéns pela resenha, muito bem feita.

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  3. Um grande baterista... Subestimado... E com m uma voz muito peculiar... Tocou na maior banda e nos melhores slvalbergns do mundo... Só isso basta...

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