5 de fev de 2010

Em 2010, gravadoras brasileiras deixam de tocar projetos de reedições de seus acervos

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Marcus Preto
Jornalista
(matéria publicada originalmente na Folha Online)

O baú está fechado. É quase insignificante o número de álbuns históricos da música popular brasileira que, ainda inéditos em CD, chegarão legalmente às prateleiras das lojas no formato digital em 2010.


Neste ano, as gravadoras brasileiras não devem lançar em CD álbuns perdidos na era dos LPs. Das cinco gravadoras que detêm os direitos sobre quase todos os fonogramas produzidos no Brasil no século 20 - Universal, EMI, Sony, Warner e Som Livre -, apenas uma, a Sony, tem projetos que envolvem recuperação do acervo analógico.

Nos outros quatro casos, álbuns ainda perdidos na era do LP continuarão assim - e por tempo indeterminado. O que mais atravanca esses relançamentos, segundo as gravadoras, é a burocracia. Contratos muito antigos e defasados com os envolvidos nos respectivos discos fazem projetos se arrastarem por anos.

Mas a raiz do problema é mais profunda. O mercado das reedições chegou ao ápice de produção e vendas entre 2002 e 2003, quando a pirataria já afetava grandes lançamentos (Ivete Sangalo, Maria Rita, a série
Acústicos MTV), mas ainda não atingia o consumidor de catálogo.

Naquele momento, chegou a se tornar parte importante na receita das gravadoras. Hoje, com a difusão da troca de arquivos MP3 pela internet, seu consumidor se dissipou. E os investimento passou a não interessar mais aos departamentos comerciais das empresas.
"A conta não fecha mais", diz Alice Soares, gerente de marketing estratégico da Universal, empresa que comanda os acervos da Philips, da Polydor, da Polygram e da Elenco. "Com isso, o mais sensato agora é trabalhar para recolocar o catálogo que já está digitalizado - como fizemos recentemente com Jorge Ben Jor e pretendemos fazer neste ano com Tim Maia e Gal Costa."

Alice conta que, nessa seara, as caixas que reúnem obras completas de artistas ainda têm saída relativamente boa, mas que o mercado não consome títulos avulsos. Exemplo: a Universal lançou recentemente, como experiência, títulos soltos da discografia de Elba Ramalho. O impacto sobre o consumidor foi quase nulo.

"Não adianta querer botar um disco antigo na loja sem mote para isso, sem um conceito bem amarrado", afirma Fernanda Brandt, coordenadora de marketing estratégico da Warner, que também detêm direitos sobre os tapes da Continental e da Chantecler. "Esses lançamentos não seguem mídia tradicional, não têm single, não têm rádio para tocar. Dependem exclusivamente da mídia impressa. Se lançados soltos, essa mídia não dá atenção, e eles encalham mesmo", completa.

Mesmo a Sony - que tem os direitos sob os catálogos da BMG e da CBS e, indo contra a corrente, deve lançar neste ano uma série de CDs ainda inéditos no formato - toca o barco cheia de dúvidas. "
Tudo o que era comercialmente oportuno já foi digitalizado no passado", diz Marcus Fabrício, diretor de marketing e vendas da gravadora. "Os álbuns que ainda não saíram em CD são para um público bem mais segmentado."

Segundo Fabrício, por questões industriais é preciso produzir pelo menos mil unidades de cada título que vá ser lançado, e não existe mais essa demanda para o produto. Nos próximos meses, a Sony pretende trazer para o CD álbuns de Amelinha, Elba Ramalho, Dominguinhos, Sandra de Sá, Elza Soares e Walter Franco, entre outros.

Luiz Garcia, gerente de marketing estratégico da EMI - que possui o catálogo da Odeon -, diz que a empresa deve lançar, em 2010, apenas uma caixa com tapes garimpados em acervo analógico. Trata-se da obra completa da cantora e compositora Dolores Duran. O material, no entanto, já está pronto desde o ano passado. "
Se fôssemos começar neste ano, talvez nem esse saísse", diz. "O negócio é difícil. Fabricamos os mil CDs, mandamos 100 à imprensa, vendemos 200 ou 300. O resto fica parado no meu estoque. E, se não sai em dois anos, tenho que mandar quebrar. Não posso ficar pagando para guardar aquilo."

Responsável por séries memoráveis de reedições nos últimos três anos, a Som Livre, dona também do acervo da RGE, é ainda mais radical. "
Ainda não temos nenhum lançamento de catálogo planejado", diz Leonardo Ganem, presidente da empresa. "É melhor concentrarmos nossos esforços em artistas novos."

Os do passado esperam por melhores dias. No futuro.

Ringo Starr - Y Not (2010)

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Por Anderson Nascimento
Colecionador

Galeria Musical


Cotação: **** 

Ringo Starr abre a década lançando mais um álbum que faz bonito em sua discografia. Y Not é o primeiro disco a ser produzido pelo próprio Ringo, e o batera optou por um álbum de rock básico, bem diferente de riquíssimas produções mais recentes como Ringo Rama (2003) ou, um pouquinho mais para trás, Vertical Man (1998).


A proposta de Ringo fica evidente logo pelo encarte basicão do CD e pelo número reduzido de faixas - apenas dez -, com um total de pouco mais de trinta e seis minutos. Quando o disco rola, fica ainda mais claro que o ex-Beatle quis optar por um álbum de rock, pois o play já abre com a estrondosa e barulhenta "Fill in the Blanks", que conta com uma estridente guitarra e um belo solo pilotado por Joe Walsh (Eagles).

Nessa linha roqueira, o disco traz ainda "The Other Side of Liverpool", com um refrão forte e cantado a altura por Ringo. Essa canção foi escolhida, juntamente com "Walk With You", para apresentar o trabalho à imprensa nos shows de lançamento do disco.

Com o disco pulsando e respirando rock and roll sobrou pouco espaço para os tradicionais baladões de Ringo Starr. Mas, quando o fez, Ringo criou uma das mais belas canções de sua carreira. Trata-se de "Walk With You", uma faixa que fala de amizade e traz Paul McCartney em uma participação para deixar qualquer um arrepiado. Além de Paul e Joe Walsh, outra participação especial é a da cantora Joss Stone, fechando o álbum e cantando a maior parte de "Who´s Your Daddy", escrita em parceria com Ringo em um estilo confortável para a bela e talentosa cantora - o soul.

Outra surpresa interessante é a regravação da excelente "Everyone Wins", canção lançada como lado B do single "Dont Go Where the Road Don´t Go", em 1992, mas pouco conhecida por se tratar de um raro single do baterista. Nessa versão, Ringo modernizou a canção com uma bateria mais rápida e um arranjo mais roqueiro. Seu relançamento faz justiça a essa faixa, que sempre foi considerada uma jóia obscura no repertório de Ringo.

"Mystery of the Night" é outra boa composição, a apresenta uma linda letra feita em parceria com Richard Marx, além de contar com uma excelente interpretação de Ringo. Já a faixa-título é daquelas canções tradicionais que Ringo vem fazendo em seus últimos discos, com aqueles refrões que não saem da cabeça. "Y Not" é uma divertida canção pop, que traduz o espírito de Ringo em seus discos.

Falando nisso, como não poderia deixar de ser, Ringo gravou mais uma faixa no estilo "
peace and love". Trata-se de "Piece Dream", porém essa é especialíssima, figurando entre as mais belas canções em ode à paz já gravadas pelos Beatles e seus remanescentes. A faixa, que cita John Lennon, está também entre as melhores do álbum, e apresenta uma bela performance vocal de Ringo.

Para quem não conhece a carreira solo de Ringo Starr - que fez muito sucesso por aqui nos anos setenta -, vale a pena ouvir os últimos discos do baterista, sobretudo
Vertical Man, Ringo Rama e, agora, Y Not, todos trabalhos bastante autorais, mas sempre recheados de participações especiais que dão um tempero muito especial às belas canções de um dos bateristas mais ativos de toda a história da música.

Faixas:
1 Fill in the Blanks 3:15
2 Peace Dream 3:35
3 The Other Side of Liverpool 3:23
4 Walk With You (with Paul McCartney) 4:43
5 Time 3:50
6 Everyone Wins 3:54
7 Mystery of the Night 4:05
8 Can't Do It Wrong 3:45
9 Y Not 3:50
10 Who's Your Daddy (with Joss Stone) 2:30

4 de fev de 2010

Living Colour - The Chair in the Doorway (2009)

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

Por Luiz Felipe Carneiro
Jornalista

Cotação: ****

Quando fazia os shows de abertura da turnê Steel Wheels, dos Rolling Stones, no final dos anos oitenta, o Living Colour podia ser chamado de "moleque folgado". Como é que aquela banda novinha podia fazer um som capaz de deixar Mick Jagger (que produzira o primeiro álbum da banda, Vivid, de 1988) de queixo caído?

O tempo passou, e o Living Colour lançou, pelo menos, mas dois discaços - Time's Up (1990) e Stain (1993). A receita era a mesma: uma mistura de rock com funk que ninguém conseguia fazer - pelo menos de forma tão satisfatória. Além da originalidade de suas músicas, o Living Colour podia (e ainda pode) se gabar de contar em sua formação com um dos melhores guitarristas (Vernon Reid) e bateristas (Willian Calhoun) do planeta. O tempo passou, a banda se separou para um retorno com Collideoscope, em 2003.

No ano passado, foi a vez de The Chair in the Doorway, um álbum que, se não chega a ser tão vigoroso quanto Time's Up, mantém o Living Colour como uma das melhores bandas de rock da atualidade. The Chair in the Doorway não pode ser considerado um álbum fácil. Mas, se o ouvinte tiver um pouco de paciência, certamente descobrirá detalhes interessantes nele. Na verdade, nesse novo disco, o Living Colour permanece na rota traçada a partir de Stain, quando partiu para um som mais pesado e industrial, diferentemente do rock puxado para o funk dos seus dois primeiros álbuns - os melhores da carreira da banda, por sinal.

The Chair in the Doorway pode funcionar como uma continuação de Stain, desviando-se do "acidente de percurso" Collideoscope, um álbum menor na discografia da banda de Vernon Reid. A diferença é que as novas canções soam um pouco mais comerciais do que as de Stain. E isso não é uma crítica, pelo contrário, tendo em vista que o Living Colour sabe contrabalançar muito bem o seu hard rock com um pop mais simples. O grande destaque do álbum, e que liga esses dois extremos, é "Hard Times", uma canção na qual dá para entender perfeitamente o poder de fogo do quarteto de Nova York, com uma ótima linha de guitarra de Reid. "Behind the Sun" é um outro bom exemplo, dessa vez com destaque para os ótimos vocais de Corey Glover.

No funk rock "Bless Those" é a vez do baixista Doug Wimbish (que, aliás, originalmente cantava essa canção nos shows que antecederam o lançamento do disco). Em "Young Man", o Living Colour investe novamente em um rock misturado ao funk. O resultado não decepciona, como já era de se esperar. E quando a banda decide atacar com o puro hard rock, também não há decepções, conforme pode ser ouvido em petardos como "Burning Bridges", "DecaDance" e "Out of Mind". E mesmo no pop rock - caso de "That's What You Taught Me", o quarteto mostra que pode fazer boa música sem parecer banal.

Enfim, para os iniciados em Living Colour, The Chair in the Doorway é um prato cheio. Será mais um álbum para ser apreciado por um longo tempo. Para quem não conhece a banda direito, talvez seja melhor fazer antes o dever de casa, ouvindo os clássicos Vivid e Time's Up.



Faixas:
1 Burned Bridges 3:37
2 The Chair 2:09
3 DecaDance 3:20
4 Young Man 2:53
5 Method 4:20
6 Behind the Sun 3:40
7 Bless Those 5:04
8 Hard Times 2:48
9 Taught Me 3:45
10 Out of Mind 3:42
11 Not Tomorrow 3:01
12 Asshole 2:51

3 de fev de 2010

Lefties Soul Connection - Hutspot (2006)

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

Por Ricardo Seelig
Colecionador

Cotação: ****1/2

Parece improvável, e realmente é. Explico: você coloca Hutspot, disco de estreia dos holandeses do Lefties Soul Connection para rolar, e o que sai dos alto-falantes é um delicioso e contagiante funk/soul setentista, influenciado por nomes do porte de The Meters e Booker T & The MGs.

Improvável por duas razões: primeiro por a banda ser, como eu já disse, natural da Holanda, e executar com competência ímpar um gênero musical nascido das dores, frustrações e sonhos da população negra norte-americana; e segundo porque, ao contrário do que tudo indica, o primeiro disco dos caras não foi lançado na primeira metade dos anos setenta e ficou escondido anos a fio em sebos e no submundo dos colecionadores - pelo contrário, o CD é de 2006!

Vamos lá então: o Lefties Soul Connection foi formado em Amsterdam, capital holandesa, em agosto de 2001 pelo guitarrista Onno Smit e pelo organista Alviz (assim mesmo, sem sobrenome algum). No final daquele ano o batera Cody Vogel juntou-se à dupla, e o line-up foi completado em meados de 2002, quando o baixista Bram Brosman completou o quarteto (esse último deixou o combo em 2008, sendo substituído por Pieter Bakker).

A banda ganhou destaque na mídia dos Países Baixos através da ótima repercussão alcançada pela versão que fizeram de "Organ Donor", do DJ Shadow, lançada pela gravadora Meltin Pot. O single chamou a atenção da Excelsior, que assinou com os caras, colocando o primeiro play do grupo na praça.

O som, como eu já disse, é um funkão de remexer o esqueleto, repleto de groove e com elementos de soul music, principalmente devido à onipresente e muito bem-vinda influência de Booker T. O disco é totalmente instrumental, com exceção de uma faixa, "It´s Your Thing / Hey Pocky A-Way", que conta com vocais - não por acaso, a "menos boa" do CD. As outras composições levam o ouvinte em um embalo constante, sempre com o órgão Hammond de Alviz à frente.

Momentos empolgantes são garantidos através de pérolas como "Doin´ the Thing", que abre o play com um quebradeira danada; "V2", que nos transporta sem cerimônia para meados dos anos sessenta; a já citada versão de "Organ Donor", onde o grupo desconstrói a composição do DJ Shadow, com destaque para a guitarra de Onno Smit; o groove cheio de malícia de "Generator Oil"; e a energia bruta da faixa-título. A bem da verdade, todas as composições apresentam um nível bastante elevado, e essas citadas são apenas as minhas favoritas.

Depois de Hutspot o Lefties Soul Connection lançou mais um disco, Skimming the Skum, em 2007, e desde então está na estrada, fazendo frequentes turnês pela Europa.

Se você gosta de The Meters, Booker T & The MGs, Kashmere Stage Band e toda aquela cena funk/soul norte-americana do final dos anos sessenta e início dos setenta, vai pirar com esse primeiro disco do Lefties Soul Connection. Uma grata surpresa, que irá descer redondo pelos ouvidos, cabeças e pés de todo e qualquer amante da boa música.

Enfim, um baita disco, extremamente recomendável!


Faixas:
1 Doin' The Thing 2:23
2 Bouncing Ball 3:27
3 It's Your Thing / Hey Pocky A-Way 5:02
4 Peacock Strut 3:50
5 V2 2:39
6 Organ Donor 3:33
7 Sling Shot 3:18
8 Generator Oil 3:28
9 Bam Bam 3:51
10 Welly Wanging 2:28
11 Hutspot 1:58


2 de fev de 2010

King Biscuit Flower Hour: tradição roqueira dominical

terça-feira, fevereiro 02, 2010

Por Vitor Bemvindo
Historiador e Colecionador
Mofodeu

As noites de domingo são caracterizadas por um tédio e mau-humor de quem já está pensando na fatídica segunda-feira. Normalmente, tira-se esse momento peculiar da semana para relaxar, procurando-se algum programa de entretenimento nos meios de comunicação. O baixo nível de nossa produção dominical, ao contrário, frequentemente deixa o sujeito mais entediado e mal-humorado ainda. Mas, durante mais de vinte anos, os norte-americanos que apreciavam rock and roll de alta qualidade tinham uma oportunidade de começar a semana de uma maneira mais agradável: era o King Biscuit Flower Hour.

Inaugurado em 1973, o King Biscuit Flower Hour era um programa de rádio, transmitido para diversas partes da América do Norte, que reunia a nata do rock mundial em apresentações ao vivo exclusivas. O programa virou uma tradição norte-americana. Bruce Pilato, produtor e empresário, compara a tradição de ligar o rádio para ouvir o Biscuit com o hábito das famílias se reunirem em frente à TV para assistir I Love Lucy, uma das mais populares séries televisivas da história.

O alcance do programa era enorme, já que o mesmo chegou a ser retransmitido para todos os estados americanos por cerca de 300 estações de rádio, chegando à casa de mais de três milhões de pessoas. A popularidade era tamanha que ele se tornou referência até mesmo para as bandas, que sabiam que estar no Biscuit era estar divulgando sua arte de maneira amplamente massiva.

Mas, nem por isso, o King Biscuit Flower Hour era focado somente em grupos consagrados e populares. Ao contrário, o programa foi responsável por lançar e disseminar o trabalho de diversos artistas que normalmente não tinham grande espaço na mídia. Exemplo disso foi o episódio de estreia, que contou com os woodstoquianos do Blood, Sweat & Tears, com o novato Bruce Springsteen e com os experimentos da The Mahavishnu Orchestra.

O espectro de bandas era bastante amplo, conseguindo englobar um universo de mais de 450 artistas durante o tempo em que o programa esteve no ar. Estima-se que haja cerca de mil horas de shows gravados, de grupos que variam entre Black Sabbath e U2, Frank Zappa e The Police e Beach Boys e Motorhead.

Gimme Shelter: o documentário sobre Altamont inspirou o Biscuit

O curioso é que os idealizadores do projeto tiveram a inspiração para o programa após assistir o filme
Gimme Shelter, que retrata o fracasso da organização do Festival de Altamont, em 1969, que tinha a pretensão de ser o Woodstock do oeste. Aquele evento, idealizado pelos Rolling Stones, simbolizou a queda de um ideal de transformação política e cultural através da música, e os produtores viram na possibilidade de criar um programa de rádio um meio de resgatar a credibilidade do lema hippie “paz e amor” (saiba mais sobre o Altamont Free Concert, ouvindo o MOFODEU #077)

O nome do programa foi inspirado em outro grande sucesso radiofônico surgido nos anos 1920, chamado
The King Biscuit Time. O Biscuit original levava esse nome por ser patrocinado pela King Biscuit Flour Company, e reunia grandes expoentes do blues, como Sonny Boy Williamson. A ideia de trocar o “flour” (farinha) por “flower” (flor) serviu justamente para resgatar os ideais do flower power, ruídos pela tragédia de Altamont.

Ao contrário de diversos programas, tanto televisivos quanto radiofônicos, que recebiam os artistas para performances em auditórios ou estúdios, o
King Biscuit Flower Hour ia atrás das bandas, durante as suas turnês, registrava as apresentações e depois as reproduzia. Isso conseguia trazer um ar mais autêntico para o programa, já que os artistas não estavam apenas se apresentado para a audiência de casa, mas também para uma plateia de pessoas que pagaram ingressos para assistir mais um show de determinada excursão daquele artista.

Esse formato, no entanto, não foi sempre assim. Nos primeiros programas, o
Biscuit reunia um compilado de gravações ao vivo de diversos artistas. Aos poucos, a produtora responsável conseguiu montar uma estrutura móvel capaz de ir aos shows e executar gravações com qualidade, podendo reproduzir os shows praticamente na íntegra.

Alguns artistas eram habitués do
Biscuit, entre eles os Rolling Stones, que por ironia haviam inspirado a criação do programa. O grupo londrino registrou pelo menos três apresentações nos Estados Unidos para o King Biscuit, que compiladas circularam durante muito tempo no mercado negro como objeto de desejo dos fãs.

Uma das capas do bootleg do Biscuit da The Band

O programa, por sinal, foi um dos responsáveis pela disseminação da cultura de bootlegs nos Estados Unidos. Os bootlegs são, geralmente, discos não-oficiais que são distribuídos, trocados e vendidos entre fãs, e que acabaram criando um grande mercado. As gravações do
King Biscuit Flower Hour giravam o mundo de forma clandestina, sendo distribuídas na base de trocas ou através do mercado informal.

Outro bootleg que possui grande valor no mercado é a gravação de uma apresentação da The Band, registrada durante a última turnê do grupo canadense pelos Estados Unidos (a banda interrompeu sua carreira em 1976, mas depois se reuniu novamente por diversas ocasiões). Esses bootlegs começaram a ser disseminados através de fitas cassetes e, com o advento do CD, ganharam impulso com a distribuição através de CD-Rs.

Alguns álbuns da primeira série da King Biscuit Records

Notando esse mercado informal das gravações do
Biscuit, os produtores do programa resolveram, nos anos noventa, fundar uma gravadora para lançar alguns dos shows gravados para o rádio. A King Biscuit Flower Hour Records lançou entre meados e fim daquela década uma série de CDs oficiais com as gravações de diversos dos shows veiculados pelo programa. Entre os mais populares estiveram os lançamentos do Uriah Heeo, Bachman-Turner Overdrive, Robin Trower, Rick Wakeman, Deep Purple, Motorhead, Humble Pie, entre muitos outros. Por motivos de direitos autorais a Biscuit Records não conseguiu lançar os populares bootlegs do The Band e dos Rolling Stones.

No começo dos anos 2000, a mesma gravadora começou a lançar uma nova série de álbuns chamada
Greatest Hits Live, formada de compilações de apresentações de vários artistas, entre eles o Mountain, David Crosby e Molly Hatchet, entre outros.

Álbuns da série “Greatest Hits Live” da King Biscuit

O programa deixou de ser produzido em 1993, mas até 2007 ele era reprisado por diversas rádios em todo os Estados Unidos. Hoje em dia, a produtora responsável pelo
Biscuit concentra-se no lançamento dos álbuns com as gravações e na distribuição dos mesmo pela internet. Através do site Wolfgangs Vault é possível escutar praticamente todos os shows do King Biscuit Flower Hour, mas a qualidade sonora deixa a desejar (é transmitido em 96 Kbps). Porém, alguns desses shows podem ser baixados (download pago), em uma qualidade melhor.

Para acessar o catalogo da King Biscuit no Wolfgangs Vault, clique aqui.

O MOFODEU produziu um podcast inteiramente dedicado ao
King Biscuit Flower Hour, somente com gravações originais do programa. Há tantos shows bons que vimos que um só episódio não será capaz de reproduzir o quanto o Biscuit era importante, portanto, em breve, faremos um segundo volume.

Para ouvir, acesse:
www.mofodeu.com

Cadillac Records (2008): a história da gravadora Chess agora em DVD

terça-feira, fevereiro 02, 2010

Por Cezar “Dudy” Duarte
Colecionador
Os Armênios

Um dos mais elogiáveis DVDs lançado em 2009, relacionados à boa música, é
Cadillac Records. O filme versa sobre a ascensão da gravadora Chess e alguns dos principais artistas que passaram por lá. O cenário é a Chicago dos anos 40 até o início década de 60.

Leonard Chess, imigrante polonês disposto a se estabilizar na vida, quer ter o seu próprio negócio. A primeira atitude é abrir um bar com música ao vivo. Leonard, branco, não era a favor da forte segregação racial da época e, assim, dá oportunidade a músicos negros de se apresentarem em seu bar.


Em pouco tempo monta sua gravadora, batizada com o seu sobrenome. Descobre Muddy Waters e o convida a gravar. "I Can’t Be Satisfied" (1948) é um dos primeiros registros e alcança enorme sucesso. Little Walter, exímio tocador de gaita de boca, junta-se à banda de Muddy, refinando os arranjos das canções e, posteriormente, tem também sua própria carreira, prejudicada pelas encrencas em que se metia em virtude de seu temperamento intempestivo.

Com o blues ganhando terreno, o público branco começa a prestar mais atenção a esse gênero musical. No rastro de Muddy Waters outros artistas são contratados, e também conseguem carreiras de destaque. Etta James (interpretada pela bela e talentosa cantora Beyonce) e Howlin’ Wolf são dois bons exemplos.

Em 1955 aparece um guitarrista, compositor e cantor que resolve misturar as bases do blues com outros ritmos, como o country e o rhythm´n´blues. Sedimentava-se o rock and roll graças a Chuck Berry, a quem todo o apreciador do autêntico rock deve, obrigatoriamente, conhecer.

Durante o filme, é interessante observar o relacionamento afetivo que Leonard Chess nutria por seus contratados. A relação transcendia a fria formalidade da relação patrão-empregado. Havia um envolvimento emocional pela vida do artista. Leornard sabia reconhecer o esforço de cada um e chegava a presenteá-los com carros - os Cadillacs do título do filme.

O fio condutor da trama é sustentado pela narração em off de outro grande talento da Chess, Willie Dixon, baixista que compôs imortais clássicos do blues para que outros músicos os gravassem e garantissem promissoras carreiras. Na verdade, não só os bluesmen serviram-se do talento de Willie, muita gente do rock não resistia a incluir suas composições nos repertórios de discos e shows. Uma dessas bandas eram os Rolling Stones, que têm uma rápida aparição no filme - representados por atores, é claro.

Junto com a lendária Sun Records, fundada em 1952 em Memphis, Tennessee, a Chess foi o pólo seminal responsável pela afirmação do blues e pela explosão do rock and roll, que continuamente reivindicam seus espaços, que outrora eram por demais boicotados.

A seguir, a ficha técnica e o trailer desta admirável película que te leva às origens do blues e do rock:

Título: Cadillac Records
Direção: Darnell Martin
Gênero: Drama Musical
Produtora/Distribuidora: Parkwood & Sony Pictures
País/Ano de Produção: EUA/2008
Duração: 109 minutos
Elenco principal:
Adrian Brody como Leonard Chess
Jeffrey Wright como Muddy Waters
Beyoncé Knowles como Etta James
Cedric the Entertainer como Willie Dixon
Mos Def como Chuck Berry
Columbus Short como Little Walter


Leia também: Chuck Berry - The Chess Box (1988)

1 de fev de 2010

Rigotto´s Room: As Pin Ups de David Bowie

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Maurício Rigotto
Colecionador e Escritor
Collector´s Room

Semana passada, escrevi uma resenha aqui publicada acerca do lançamento do CD dos Hot Rats, o projeto de covers de dois dos integrantes do Supergrass. No texto, citei que a dupla, ao lançar um disco de releituras, se inspirara nos moldes do disco Pin Ups, de David Bowie. Como gosto muito desse LP, talvez o melhor álbum de covers já lançado, veio-me a centelha de que a sua dissecação seria um bom mote para essa coluna.

Era 1973. David Bowie já havia lançado discos antológicos como Space Oddity, The Man Who Sold the World, Hunky Dory, The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars e Alladin Sane, e era àquela altura o maior expoente do glam rock, faceta extravagante do rock – também conhecido como glitter – em que predominavam pesadas maquiagens, purpurinas e lantejoulas. O mundo ainda não sabia que estava diante de um dos maiores e mais completos artistas do século XX (além de fenomenal cantor, Bowie é compositor, produtor, ator, artista plástico, pintor, dançarino e mímico, além do tocar com destreza guitarra, piano e saxofone), mas já o aclamava como um dos grandes astros do rock dos anos setenta. David Bowie já havia matado o seu personagem andrógino Ziggy Stardust para se reinventar, no que seria a sua primeira drástica guinada de muitas que ainda viriam, o que lhe gerou a alcunha de “camaleão do rock”.

Em março havia lançado o álbum Alladin Sane, que trazia a cover de “Let’s Spend the Night Together”, dos Rolling Stones. Bowie já havia decidido que iria se separar da banda que o acompanhava, os Spiders from Mars. Como um último trabalho em conjunto, achou que seria divertido gravarem um disco de covers, composto apenas pelas suas canções preferidas de grupos de rock dos anos sessenta. Ao anunciar a sua intenção de lançar um álbum de releituras Bowie provocou a cólera do vocalista do Roxy Music, pois Bryan Ferry almejava lançar o seu primeiro trabalho solo - These Foolish Things, um disco de covers - exatamente na mesma semana, e pressentiu que o seu álbum seria completamente eclipsado pelo lançamento de David Bowie.

Em outubro do mesmo ano Pin Ups foi lançado, coincidentemente no mesmo dia em que These Foolish Things chegou às lojas, causando grande alvoroço entre público e crítica. Na capa, Bowie aparece retratado ao lado da magérrima modelo Twiggy, uma espécie de Gisele Büdchen da época, que mesmo com uma aparência quase anoréxica foi a primeira grande top model a alcançar projeção internacional como celebridade. Twiggy conta que a foto seria usada na capa da Vogue Magazine, mas um dos diretores vetou-a porque nunca um homem aparecera na capa da famosa revista de moda, o que ela considerou uma burrice, já que provavelmente a revista iria vender em um mês mais do que em toda a sua existência. Enquanto a direção da revista se mantinha inflexível, Bowie decidiu usar a foto na capa de Pin Ups. Na contracapa, Bowie conta que escolheu algumas de suas músicas prediletas das bandas que ele ia aos shows em Londres entre 1964 e 1967, época em que tentava em vão o sucesso liderando os grupos The King Bees (1964) e Lower Third (1965).

A primeira faixa de Pin Ups, “Rosalyn”, já demonstrava que se tratava de um disco de rocks vigorosos. A música era do Pretty Things, que foi formado pelo guitarrista Dick Taylor, um antigo colega de escola de Keith Richards que fundou os Rolling Stones ao lado de Jagger e Richards. “Rosalyn” emenda sem intervalo em “Here Comes the Night” do grupo Them, que tinha como vocalista o baixinho Van Morrison, que em minha modesta opinião é um dos melhores cantores do planeta. O blues-rock “I Wish You Would”, dos Yardbirds, precede a surpreendente interpretação de “See Emily Play”, originalmente incluída em um dos primeiros singles do Pink Floyd. David Bowie por diversas vezes se declarou um grande fã de Syd Barrett, o louco mentor do Pink Floyd. Segue mais um rock eletrizante: “Everything’s Alright”, do obscuro grupo de Liverpool The Mojos. O lado 1 se encerra com uma versão bem mais lenta para a canção de Pete Townshend “I Can’t Explain”, em um arranjo diferente do The Who, mas não menos brilhante.

Hora de virar o disco e largar a agulha nos primeiros sulcos do lado 2. Ouve-se então uma empolgante versão de “Friday On My Mind”, maior sucesso da ótima banda Easybeats, que tinha como líder o guitarrista George Young, irmão mais velho dos guitarristas do AC/DC Malcolm e Angus. Segue a versão de “Sorrow” do The Merseys e “Don’t Bring me Down”, outra canção dos Pretty Things. A sequência final traz mais Yardbirds com “Shapes of Things” e mais The Who com “Anyway, Anyhow, Anywhere”, desta vez com o mesmo arranjo original do quarteto inglês, precedendo a última faixa, uma ótima versão para a música de Ray Davies “Where Have All the Good Times Gone”, sucesso dos Kinks.

David Bowie e banda ainda gravaram uma versão de “White Light, White Heat” de Lou Reed, que costumavam tocar ao vivo, mas a música ficou de fora de Pin Ups provavelmente por o Velvet Underground ser um grupo nova-iorquino e Bowie desejar dar ênfase às bandas inglesas.

Em 1990 um relançamento em CD remasterizado trouxe como bônus à inédita cover de “Growin’ Up”, de Bruce Springsteen, gravada na primeira sessão de Diamond Dogs, seu disco seguinte, com a participação do então guitarrista dos Faces, Ron Wood; e “Port of Amsterdam”, de Jacques Brel, que havia sido incluída no lado B do compacto “Sorrow”, em 1973.

Pin Ups é um discão de rock and roll. Não é exagero dizer que várias de suas canções foram imortalizadas em suas versões definitivas nesse LP, algumas até em detrimento às suas gravações originais.

Metallica, São Paulo, 30/01/2010: uma banda renovada e novamente com crédito junto aos fãs

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Por Fernando Bueno
Colecionador
Jogando por Música

Depois de onze anos de sua última passagem pelo Brasil, tivemos novamente a oportunidade de assistir um grande show do Metallica em São Paulo. Esqueçamos o desapontamento que todos tivemos no famoso show que não aconteceu no começo da década. A banda naquela época passava por problema, que conhecemos através do DVD Some Kind of Monster. Talvez até tenha sido bom aquela apresentação ter sido cancelada, afinal a banda não estava bem e isso certamente refleteria em uma performance ruim, e poderíamos ficar com mais má impressão do grupo do que ficamos depois do lançamento do famigerado álbum St Anger, em 2003.

Chegamos no começo da tarde aos arredores do Morumbi, e fiquei preocupado, porque achei que tínhamos chegado tarde. A fila de todos os setores estava enorme, e já estava me acostumando com o fato de que teria que ver o show de um local mais longe do que costumo ficar. Porém, devido ao tamanho do palco, percebi que não seria tão complicado assim conseguir bons lugares, e fiquei mais tranquilo. Entramos no estádio por volta das 16:30 hs e sabíamos que o show do Sepultura começaria apenas as 20:30 hs, ou seja, teria tempo e tranqulidade para tomar algumas cervejas e fazer as consequentes visitas frequentes ao banheiro.

Quando a noite começou a cair em São Paulo percebemos que o show iria começar. Com a movimentação do público, rapidamente conseguimos chegar bem próximos lá do pessoal da frente. O Sepultura começou seu set com uma música do novo disco que, se não era conhecida por todo mundo, mesmo assim conseguiu animar o público. Depois tivemos um set list bem escolhido, com bastante clássicos como "Troops of Doom", "Arise", "Inner Self" e "Roots Bloody Roots".

Fazia alguma tempo que não me interessava pela banda, já que achei os discos mais recentes bem irregulares, mas talvez eu tenha que apenas dar uma nova chance a eles. É evidente que o grupo nunca mais conseguiu ser a mesmo depois da entrada do Derick Green no lugar de Max Cavalera, porém a simpatia do cara faz você esquecer a decréscimo na qualidade musical que a banda teve após sua entrada. Fiquei impressionado com o peso da guitarra de Andreas Kisser, por se tratar de apenas um instrumento. Porém, fui lembrado que Paulo Jr toca seu baixo com distorção, e isso ajuda a dar mais peso. Mesmo assim surpreende, já que eles não estavam usando a mesma capacidade dos equipamentos utilizados pela atração principal. Resumindo, um ótimo show de abertura feita por uma banda competente. Cantei tanto que achei que não teria voz para o show do Metallica.

Depois da abertura, os roadies começaram a fazer os ajustes para a banda principal. Achei que esses ajustes levaram muito tempo. Talvez tenha sido a ansiedade que fez com que o tempo demorasse para passar. O empurra-empurra estava fora do normal! Já fui a muitos shows e sempre tentei ficar lá no gargarejo, mas dessa vez estava realmente apertado. Eu já estava com a roupa ensopada e sabia que teria ainda umas três horas de show pela frente.

Então as luzes se apagaram, um vídeo de introdução começou a rolar nos telões, o aperto ficou maior, e a banda surgiu tocando "Creeping Death". O público entrava em êxtase e não sabia o que fazer, se cantava, se balançava os braços, se pulava ou se simplesmente tentava se manter em pé. Dessa vez não consegui encostar na grade, mas fiquei colado ao primeiro da fila. Foi o máximo que consegui e hoje estou com o corpo tão dolorido que parece que tomei uma surra!

O set list do show foi um pouco diferente do set list de Porto Alegre. E, para uma banda com a quantidade de clássicos como é o Metallica, sempre vai ter alguma música que sentimos falta. No meu caso achei que faltou "Battery" e "Whiplash". Ao todos foram três faixas do Kill ´Em All, três do Ride the Lightning, uma do Master os Puppets, três do ...And Justice for All, três do Metallica e quatro do Death Magnetic, além de um cover do Queen.

O que me chamou a atenção foi que apenas uma música do Master of Puppets foi tocada . Isso é um pouco estranho, já que a grande maioria dos fãs têm esse disco como o melhor do grupo - eu sempre achei o Ride the Lightning o melhor. Como não senti o público pedindo músicas tão diferentes das que foram tocadas, penso que os fãs, mesmo que inconcientemente, já mudaram de opinião. Também é de se notar que nenhuma faixa dos discos contestados tenha sido tocada. Temos que analisar se isso é porque nenhuma daquelas composições possui a mesma importância das presentes nos outros discos, ou se isso foi simplemente pensado no sentido de agradar o público com faixas mais conhecidas.

Do mesmo modo que o som do Sepultura me impressionou, o som do Metallica foi algo surpreendente, além de eles estarem usando o som completo. Peso e definição em todos os instrumentos. Apenas em uma música achei que a guitarra do James encobriu o solo do Kirk, mas na mesma faixa isso logo foi corrigido. Isso acontece devido a intensa troca de guitarras. É normal que em uma delas haja alguma falha, mas nada que afete o resultado final. Também gostei da pirotecnia que rolou durante quase todo a apresentação, principalmente antes de "One".

Gostaria também de citar a ligação da banda com o público. Em todos os shows as bandas vêm com um discurso de que estão gostando, que estão se divertindo e que o local do show tem o público mais vibrante. Porém, dessa vez achei que os caras estavam realmente felizes de tocar ali, principalmente James Hetfield. A todo momento ele se referia ao público demonstrando satisfação de estar ali. Ou seja, achei que o discurso foi sincero. Também não seria diferente, já que o estádio estava lotado e o público também deu show, com as músicas sendo cantadas em uníssono. Em alguns momentos as arquibancadas estavam lindas de se ver. No fim do show James pediu para acenderem todas as luzes do estádio, e conseguimos ver como o local estava. Foi muito legal!

O Metallica mostrou que esse último disco renovou o seu som e trouxe novamente credibilidade a uma das maiores bandas de todos os tempos, fazendo-a angariar novos fãs e resgatando aqueles que foram se distanciando ao longo da década de noventa e em boa parte dessa primeira década do século XXI.

Metallica em São Paulo, dia 30/01/2010: fazendo tiozinhos de 50 anos tornarem-se adolescentes novamente!

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Por Thiago Cardim
Colecionador e Jornalista

O ótimo André Forastieri, um dos jornalistas brasileiros que mais admiro (e indico) na área cultural, escreveu dia destes em seu blog um post listando 32 razões pelas quais ele acha o Metalica uma banda “chata”. Posso não concordar com 99% do que ele escreveu – mas é inegável que, além de ser um mestre da ironia e do sarcasmo, Forastieri sabe criar polêmica, dando aquelas boas cutucadas para levantar a poeira no marasmo internético. E preciso dizer ainda que uma das coisas que Forastieri disse naquele texto faz todo o sentido: o Metallica é uma banda que fala com o “
moleque espinhudo, inseguro e rancoroso que existe dentro de todos nós”.

Na primeira apresentação do quarteto em São Paulo, como parte da turnê do disco
Death Magnetic, eles fizeram milhares de tiozinhos de trinta, quarenta e até cinquenta anos tornarem-se adolescentes novamente, relembrando as camisetas velhas e os cabelos compridos de outrora, sempre ao lado daquele grupo de amigos fiéis e com uma cerveja na mão. Foi um espetáculo de ferocidade e fúria, um exorcismo metálico público, uma catarse de pura gritaria e bate-cabeça que teve como ápice a música-título de Master of Puppets, o disco mais importante da discografia do grupo e um dos pilares fundamentais do heavy metal. No estádio do Morumbi, uma banda que passou por muitos anos tumultuados e turbulentos lavou a alma diante de mais de 60 mil brasileiros – recompensados pela ausência de onze anos com um show inesquecível.

A noite de céu limpo e sem qualquer sinal daquela chuva que anda castigando quase diariamente a capital paulista começou pontualmente às 20h, com a abertura dos brasileiros do Sepultura. Repetindo a dobradinha de 1999, quando o Metallica passou pelo nosso país pela última vez, agora Andreas Kisser e companhia não puderam reclamar do volume do som, bastante adequado à porrada sonora que se seguiria. Ok, o set list do Sepultura não foi exatamente uma novidade para os paulistanos que andaram conferindo as passagens dos quatro músicos pelos palcos da cidade – como no caso do
Maquinaria Festival, por exemplo. Uma mistura de canções do disco A-Lex ("Moloko Mesto", "Filthy Rot", "We’ve Lost You") com clássicos como “Refuse/Resist”, “Dead Embryonic Cells”, “Troops of Doom”, “Territory” e “Arise”.

Todavia, e me perdoem aqueles que já leram isso por aqui alguma vez, repito: vê-los ao vivo é uma senhora experiência! As viúvas dos Cavalera podem se morder de raiva, mas estamos falando de uma formação bastante sólida e que fica muitíssimo à vontade no palco, sem dever nada a ninguém e disparando um poderoso (e pesado) bloco sonoro. O Sepultura estava tão em casa, levando tão na boa a pressão de abrir para o Metallica, que o fanático são-paulino Andreas Kisser provocou os torcedores de outros times ao chamar o Morumbi de casa do “
maior time do mundo”, enquanto Derrick Green arriscou e brincou de bossa nova ao evocar “Aquarela do Brasil” antes de “Inner Self”, para surpresa dos bangers fanáticos. Para fechar a apresentação de uma hora, nada melhor do que “Roots Bloody Roots”. Se você está de saco cheio da canção, que pode parecer meio óbvia e repetitiva, bastava ver o resultado: um público completamente entregue e incendiado, ovacionando os brasileiros com bastante entusiasmo. Trabalho muito bem executado.

Quando uma bela lua cheia surgiu por cima do estádio, por volta das 21h 30min, foi a vez do Metallica assumir seu papel – devidamente precedido pela instrumental “The Ecstasy of Gold”, composição de Ennio Morricone para o clássico western
O Bom, O Mau e O Feio. A brasileirada alucinou assim que James Hetfield, Kirk Hammett, Lars Ulrich e Robert Trujillo (este último, em sua estreia em palcos tupiniquins) adentraram sem muitas firulas, lascando pancada com “Creeping Death” – e enfiando na sequência “For Whom the Bell Tolls” e “The Four Horsemen”.

Enquanto a plateia recuperava o fôlego, Hetfield aproveitou para estabelecer a primeira das muitas interações com os fãs, esbanjando simpatia para acabar de vez com aquele papo de que o Metallica não vai muito com a cara da América Latina. “Esta noite estou sentindo a energia”, disse James. Depois de um momento arrepiante, quando milhares de vozes cantaram “Fade to Black” junto com o frontman - que começa a música apenas com um violão acústico -, ele voltou ao assunto: “Vocês conseguem sentir esta energia?”. Impossível não senti-la, James!

Por se tratar de uma turnê do álbum
Death Magnetic, que não é exatamente uma unanimidade entre os ouvintes do trabalho dos caras, era de se esperar que as faixas mais recentes não causassem assim tanta comoção. O bloco formado por “That Was Just Your Life”, “The End of the Line” e “The Day That Never Comes”, apresentadas assim, na sequência, foi o grande ponto baixo, quando o headbangin’ deu uma bela esfriada. Mas “Broken, Beat and Scarred” teve melhor repercussão, talvez até pela introdução emocionada de James, que abriu o coração: “Esta é uma música dedicada à família do Metallica no Brasil. Vocês, que ficaram ao nosso lado nos piores e também nos melhores momentos, como este”, disse. “O que não nos mata, nos torna mais forte”, completou, evocando o refrão da faixa, que claramente foi incorporado aos berros pelos brasileiros.

O grupo ainda mostrou respeito à banda de abertura, dizendo que era uma honra estar ali e tocar novamente ao lado dos amigos do Sepultura. E para Derrick, Andreas, Paulo e Jean, eles dedicaram “Sad But True”.

Sem necessidade de uma milionária produção de palco, eles reservaram a maior parte do fogaréu e dos fogos de artifícios para a introdução de “One”, outro momento dos mais pungentes da performance dos norte-americanos. Enquanto cada palavra da letra era repetida com exatidão pelos fiéis brasileiros, as imagens do grupo no telão eram transmitidas em preto e branco, para dar uma atmosfera de filme de época. Com aquele contraste de luz e sombra, era possível ver nitidamente as marcas do rosto envelhecido de James, o que dava ainda mais força à história do soldado mutilado e preso em seu próprio corpo durante a Primeira Guerra Mundial.

O fogo continuou com a fúria de “Blackened”, escolha inesperada e muito bem-vinda – mas deu uma trégua assim que Kirk (e suas guitarras tematizadas com pôsteres de filmes de terror estrelados por Boris Karloff) começaram o show de sutileza que é o riff inicial de “Nothing Else Matters”. E assim que a câmera se focou nas mãos de James, mostrando a palheta com a arte de capa de
Death Magnetic, os mais atentos entenderam a dica, já que a imagem tem sido constante ao longo desta turnê: era a hora de “Enter Sandman”, que encerrou a primeira parte do show em grande estilo. Os puristas podem achar que esta música tocou demais nas rádios e na MTV, que foi uma das responsáveis pela “pasteurização” da sonoridade do Metallica. Bobagem! Ao ver a empolgação daquele Morumbi lotado, cantando junto a plenos pulmões, fica claro o porquê de “Enter Sandman” continuar no set das apresentações dos caras. Agradecimentos rápidos, vivas e urras, o Metallica sai de cena. Mas era por pouco tempo.

O bis, sempre obrigatório, não demorou. A grande curiosidade era saber qual seria a escolha da vez para o espaço reservado ao cover, uma releitura de uma banda clássica que teria influenciado o Metallica. Se em Porto Alegre eles tocaram sua ótima versão para “Die Die My Darling”, dos Misfits, os paulistanos não puderam reclamar de ouvir a igualmente empolgante e energética “Stone Cold Crazy”, rendição que já é clássica para um hit do Queen. A adrenalina continuou em alta quando, sem qualquer anúncio prévio, veio uma versão em alta velocidade para “Motorbreath”. Pescoços doendo, pernas em frangalhos, os fãs queriam mais uma. Aquela música que James sabia muito bem qual era. O vocalista, evidentemente, não ia perder a chance de provocar seu público. “
Vocês querem esta música?”. Sim. “Aquela que tem apenas três palavras simples?”. Sim. “Pois então que se acendam as luzes. Porque vocês passaram a noite toda olhando para nós. Agora somos nós que queremos ver vocês”, completou. E eis que vem “Seek & Destroy”, resultando em uma sucessão de pulos que fez o estádio tremer. Não à toa, Kirk rapidamente sacou seu smartphone para registrar o momento.

Ao fim do show, os quatro cavaleiros do apocalipse passaram um tempão agradecendo, indo de um lado ao outro do palco fazendo sinais para todos os lados, jogando dezenas de baquetas e palhetas para os sortudos da linha de frente. Enquanto James cobria a bateria de Lars com bandeiras do Brasil jogadas pelos fãs, levando a galera ao êxtase ufanista máximo, típico de shows internacionais, cada um dos músicos foi ao microfone agradecer, dizendo aquele macarrônico “
obrigado” em português. E justamente do baterista Lars Ulrich, considerado bastante anti-social, é que veio o que todos os presentes queriam de fato ouvir: “Podem ter certeza de que o Metallica vai demorar muito menos do que onze anos para voltar ao Brasil”. Bingo!

Pois é, Forastieri. Naquele sábado, saímos todos meio moleques daquele Morumbi. Mais do que “
espinhudos, inseguros e rancorosos”, estávamos todos cansados, suados, quase roucos e surdos. E muito felizes.

Set list:
Creeping Death
For Whom the Bell Tolls
The Four Horsemen
Harvester of Sorrow
Fade to Black
That Was Just Your Life
The End of the Line
The Day That Never Comes
Sad But True
Broken, Beat and Scarred
One
Master of Puppets
Blackened
Nothing Else Matters
Enter Sandman

Bis:
Stone Cold Crazy
Motorbreath
Seek & Destroy

Veja aqui as 32 razões pelas quais André Forastieri acha o Metallica uma banda “chata”.

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