13 de fev de 2010

Quer ganhar o DVD And Blood Was Shed in Warsaw, do Vader?

sábado, fevereiro 13, 2010

Por Ricardo Seelig
Colecionador

É fácil ter esse ótimo DVD do grupo polonês Vader na sua coleção. Para isso, basta se cadastrar como seguidor do blog da Collector´s Room, ou adicionar o editor da Collector´s no twitter (@ricardoseelig) ou escrever algo legal sobre o site nos comentários.

O DVD será sorteado entre todas as pessoas que realizarem uma dessas três ações (ou as três juntas, você que sabe) e enviarem um email para ricardoseelig@gmail.com confirmando a sua participação na promoção.

A promoção vale até o final do mês de fevereiro, e o sorteado será avisado via email.

Então, mexa-se, não perca mais tempo e concorra já ao DVD And Blood Was Shed in Warsaw, do Vader.

12 de fev de 2010

Korn - See You on the Other Side (2005)

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Por Ricardo Seelig
Colecionador

Cotação: ***1/2

See You on the Other Side é um disco diferente. Diferente de tudo o que o Korn já fez em seus seis álbuns anteriores. Diferente do que os fãs estavam esperando. E diferente de tudo o que os seus ouvidos estão acostumados a escutar. A banda, que sempre apontou a sua música - e por extensão todo o chamado new metal - para a busca de novos caminhos sonoros, em See You on the Other Side soa mais inovador do que nunca.

A faixa de abertura (e primeiro single), “Twisted Transistor”, une guitarras repletas de distorção à uma batida dançante, e o resultado é ótimo. A pesada “Politics” traz um Jonathan Davis cantando um refrão que soa como os primeiros discos de Max Cavalera com o Soulfly.

O grupo, que perdeu um guitarrista e trocou de gravadora, aproveitou a turbulência e elevou à milésima potência a vontade de experimentar. Andamentos estranhos, elementos eletrônicos, instrumentos não tão comuns ao rock (gaitas de fole e violinos podem ser ouvidos em várias faixas), estão presentes em abundância. Tudo isso deu ainda mais poder de fogo para faixas como “Hypocrites” e “Souvenir”.

Em See You on the Other Side o Korn parte de onde parou em Untouchables (2002), e coloca guitarras distorcidas, vocais guturais e elementos eletrônicos unidos para formar verdadeiras pauladas musicais. Ainda que as linhas vocais de Jonathan Davis soem mais harmônicas e melodiosas em alguns momentos, o que torna a audição do álbun agradável é o peso presente em todas as faixas.

A influência industrial, que anteriormente marcava presença de forma tímida nas composições do grupo, aqui está escancarada. Isso deu uma cara ainda mais gélida e mórbida ao trabalho, tornando o resultado final interessantíssmo.

Merece menção também a bela e fantasmagórica arte da capa, que dá uma prévia do que iremos ouvir nas quatroze faixas do disco.

Não vou indicar esta ou aquela canção como destaque porque See You on the Other Side é daqueles álbuns que funcionam realmente como obras com início, meio e fim, com suas faixas soando extremamente coesas, em um resultado final que é uma verdadeira manifestação artística sonora.

Um CD viciante, excelente, e, mais do isso, um grande e incontestável argumento para a enorme quantidade de fãs brasileiros de música pesada que ainda pensam que o Korn não faz música. Uma pena, já que deixarão de ouvir um dos melhores álbuns dos anos 2000.



Faixas:
1 Twisted Transistor 4:12
2 Politics 3:17
3 Hypocrites 3:50
4 Souvenir 3:50
5 10 or a 2-Way 4:42
6 Throw Me Away 4:41
7 Love Song 4:19
8 Open Up 6:15
9 Coming Undone 3:20
10 Getting Off 3:25
11 Liar 4:15
12 For No One 3:37
13 Seen It All 6:19
14 Tearjerker 5:05

Prateleira do Cadão: Fuga, uma jóia perdida do hard rock gaúcho, desconhecida no resto do Brasil

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Por Ricardo Seelig
Colecionador

Quando se fala do rock gaúcho dos anos oitenta, o que vem à mente das pessoas são bandas como Engenheiros do Hawaii, Nenhum de Nós, TNT, Replicantes, Cascavelettes, Garotos da Rua e DeFalla. Alguns mais informados lembrarão também de Tarantiriça, Astaroth, Bandaliera, Pupilas Dilatadas e Os Eles. Mas poucos, mesmo dentro do Rio Grande do Sul, fazem ideia que o estado foi o berço de uma das melhores bandas de hard rock surgidas no Brasil naquela década: a Fuga.

O grupo nasceu no coração do RS, na cidade de Santa Maria, e era formado por Edson Kroth (o popular Pylla) nos vocais, Rafael Ritzel e Zezinho Cacciari nas guitarras, o excelente baixista Gonçalo Coelho e o baterista Pipoca. O som do quinteto era um hard rock refinado, com ótimas passagens instrumentais e grandes melodias, que conquistou uma grande legião de fãs entre a juventude gaúcha do final dos anos oitenta.

A Fuga começou a chamar a atenção da galera através dos shows constantes em Santa Maria. Para quem não sabe, a cidade é um grande pólo estudantil, graças a universidade federal que lá existe e que atrai milhares de estudantes de todos os cantos do estado, e também do Brasil. Ou seja, viver em Santa Maria no final dos anos oitenta, época em que centenas de bandas explodiam Brasil afora e o rock brasileiro ganhava cada vez mais destaque nos mais variados veículos, era o paraíso para qualquer jovem fã de rock and roll.

Um fato chamava a atenção na cidade: enquanto Porto Alegre sempre primou por possuir uma cena de bandas influenciadas pelo rock inglês sessentista de Beatles, Stones e afins, Santa Maria tradicionalmente sempre possuiu grupos mais pesados e tremendamente influenciados pelo heavy metal e pelo hard rock californiano.

Com a Fuga não era diferente. Todos bons músicos, os integrantes do grupo desde o início executaram um som pesado, cuja principal característica, além da excelência instrumental inédita até então, eram as linhas vocais grudentas criadas pelo vocalista Pylla. Isso fica claro já no primeiro disco dos caras, batizado apenas com o nome do grupo e lançado em 1989. Nele estão os principais sucessos da banda, e pelo menos duas faixas que marcaram época na cena gaúcha do final dos anos oitenta: "Sentimento Perdido" e "Sem Medo".


O play abre com a música mais emblemática da carreira da Fuga. "Sentimento Perdido" é um hard cadenciado, com um arranjo que vai crescendo aos poucos, até culminar em um refrão pra lá de grudento, que não sai da cabeça tão cedo. Nessa faixa já ficam claras as principais qualidades do grupo: a ousadia instrumental, buscando caminhos diferentes daqueles que a maioria das bandas gaúchas trilhava na época - lembre-se, naquele período vivíamos o apogeu dos Engenheiros e Nenhum de Nós -, com arranjos complexos e ricos trechos instrumentais; o timbre vocal de Pylla, muito similar ao de Geddy Lee, do Rush, cantando letras interessantes com interpretações carregadas de feeling; e a habilidade excepcional para compor refrões antológicos, feitos sob medida para cantar a plenos pulmões.

"Sentimento Perdido" virou hit cult em todo o estado, e explodiu de tal maneira que levou a banda a tocar até na principal rede de rádios do RS, a Atlântida, pertencente ao Grupo RBS, afiliado da Rede Globo no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Sem dúvida, um dos melhores sons desconhecidos do hard brasileiro oitentista.

Mas a estreia da Fuga tem outros grandes momentos. "Jogos de Imagens" foi feita sob medida para pegar a estrada, e tem uma letra sensacional adornada por grandes linhas vocais. "Laranja Mecânica" é uma das melhores composições do grupo, e costumava levantar o público nos shows. A energética "Dama da Noite" fez a cabeça da galera com o seu inesquecível refrão - "
menina de dia, dama da noite" - e pelas excelentes guitarras de Ritzel e Cacciari.

A linda balada "Sem Medo" foi outra que tocou direto nas rádios e puxou as vendas do disco. Contando mais uma vez com uma bela letra, a faixa contém uma interpretação soberba de toda a banda, principalmente de Pylla, que canta de maneira sublime. Trilha sonora de inúmeros primeiros encontros, de beijos inesquecíveis e declarações de amor eternas, "Sem Medo" faz parte das lembranças afetivas de uma considerável parcela da juventude gaúcha do final dos anos oitenta.

Após o lançamento do álbum, o grupo, embalado pela sua boa repercussão junto às rádios e pela fama de bons de palco que sempre possuíram, tocou por todo o estado, levando o seu som aos mais variados recantos do Rio Grande do Sul. O impacto foi muito positivo, e a banda deu mais um passo importante ao participar do primeiro
Circuito de Rock, evento promovido pela RBS TV que contou com eliminatórias em todo o estado. A Fuga, como era de se esperar, venceu a etapa de Santa Maria, e foi até Porto Alegre tocar na final do evento, que ocorreu na Usina do Gasômetro e foi transmitida ao vivo pela TV para todo o RS. A imagem de Pylla no palco, com o Rio Guaíba ao fundo e o sempre belo sol de Porto Alegre como moldura, é antológica. Infelizmente a Fuga não venceu o evento, mas foi lançado um LP com as bandas finalistas do Circuito de Rock, e o grupo participa com "Sentimento Perdido".

Em 1992 chegou às lojas o segundo álbum,
Crime ao Vivo. Apesar do título, trata-se de um disco de estúdio contendo dez novas e inéditas canções. Entre as músicas, destaques para a faixa que abre o LP, "Peças de Desilusão"; a ótima "Intimidade" - outra que rolou direto nas rádios -; "Quem é Você" e a pesadíssima "Santo Inocente".

Mas o melhor momento do play é "Saudade", uma excepcional balada que mais uma vez levou o grupo a conquistar corações e mentes. Letra esperta, Pylla cantando como nunca e belas melodias tornaram a faixa um dos grandes hinos da carreira da Fuga, dando combustível para a banda continuar tocando incessantemente por todo o estado. Apesar da repercussão, o disco não é tão bom quanto o primeiro, mas mesmo assim vale a pena.

Mas o que parecia apenas o início de uma carreira promissora, revelou-se um caminho sem volta. Brigas internas, desorganização e falta de estrutura, somados aos excessos de Pylla, levaram a banda a encerrar suas atividades em 1994.

Depois de anos cheirando montanhas de cocaína e bebendo oceanos de whisky, Pylla passou a viver quase como mendigo, até que teve um colapso a cerca de dois anos. Após semanas internado na UTI de um hospital em Passo Fundo e ser dado como praticamente um caso perdido pelos médicos, o vocalista milagrosamente se recuperou, e atualmente tenta levar uma vida de cara limpa e retomar a sua carreira.

Com o passar dos anos, a Fuga foi sedimentando cada vez mais o seu status de cult, sendo redescoberta por novos ouvintes gaúchos mas, infelizmente, continuando desconhecida no resto do Brasil. Para quem se interessar, os dois discos do grupo volta e meia aparecem no
Mercado Livre, e a preços decentes. Se você encontrar algum deles, compre sem medo, pois tratam-se de grandes álbuns que irão fazer a alegria de qualquer apreciador de um bom hard rock.

Novo parceiro da Collector´s Room: Tenho Mais Discos que Amigos!

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Por Ricardo Seelig
Colecionador

A Collector´s Room acaba de fechar uma parceria com o site Tenho Mais Discos que Amigos, editado pelo colecionador e músico Tony Aiex. A partir de agora, os dois únicos sites dedicados aos colecionadores de discos no Brasil trocarão matérias entre si, um divulgando o trabalho do outro, alcançando assim muito mais pessoas em todo o país.

Leia abaixo o release do Tenho Mais Discos que Amigos, escrito pelo Tony com exclusividade para a Collector´s:

O Tenho Mais Discos Que Amigos!, ou TMDQA!, é um blog que surgiu em 2009 criado por Tony Aiex, músico e colecionador de discos, que viu nesta mídia uma oportunidade para divulgar sobre a grande quantidade de lançamentos musicais - principalmente no formato de discos de vinil.

Com o objetivo de desmistificar a frase "não existe banda boa hoje em dia", Tony atualiza o blog diariamente com lançamentos em LP, edições deluxe e CDs, com textos de forma bem explicativa e didática, visando alcançar entusiastas de vários estilos musicais.

Além das frequentes promoções que sorteiam LPs, CDs, pôsters, camisetas e diversos outros itens para seus leitores, o TMDQA! ainda traz uma lista de bandas já mencionadas em posts com mais de 1.200 nomes, todas citadas durante a ainda curta trajetória do blog (pouco mais de 8 meses de vida). Traz também um Dicionário do Vinil, com os termos mais utilizados entre os colecionadores e fotos explicativas; a seção Chegou!, só com fotos da coleção pessoal de Tony e de leitores do TMDQA!; e podcasts que constantemente figuram entre os dez mais ouvidos do site podomatic.com

O momento é o mais propício, já que a produção e o consumo de discos de vinil no mundo explodiu novamente. Tony Aiex conseguiu juntar no Tenho Mais Discos Que Amigos! todas essas informações e ainda aliar uma fonte diária de novidades musicais, indispensável pra quem gosta de música e tem por hábito colher novidades na Internet.


Selo lança coletânea com raridades do rock psicodélico brasileiro

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Por Lester Benga

O selo Wax Poetics está lançando uma coletânea que é uma verdadeira preciosidade. Brazilian Guitar Fuzz Bananas: Tropicalista Psychedelic Masterpieces 1967-1976 reúne dezesseis músicas oriundas de compactos raríssimos do rock psicodélico nacional.

As faixas nunca foram relançadas em nenhum formato, sendo que algumas nem mesmo foram comercializadas. As músicas foram extraídas de títulos promocionais exclusivos para divulgação em rádios e entre promotores, nunca tendo chegado às lojas. Todas as faixas foram restauradas da melhor fonte possível, muitas das próprias fitas master.

O LP duplo vem ainda com um enorme encarte de 24 páginas, contendo fotos e textos detalhados em português e inglês. Com arte especial, um óculos 3D acompanha o disco para você viajar enquanto estiver lendo. O lançamento está previsto para final de fevereiro.

Enfim, uma verdadeira edição histórica! No Brasil, o disco encontra-se em
pré-venda exclusiva no site Record Collector. Confira abaixo a lista completa dos artistas e faixas:

A1. Célio Balona – Tema de Batman
A2. Loyce e Os Gnomos – Era uma nota de 50 cruzeiros
A3. The Youngsters – I Want To Be Your Man
A4. Serguei – Ourico

B1. Fábio – Lindo Sonho Delirante (L.S.D.)
B2. Tony e Som Colorido – O Carona
B3. 14 Bis – God Save The Queen
B4. Banda De 7 Léguas – Dia De Chuva

C1. Ton e Sérgio – Vou Sair do Cativeiro
C2. Ely – As Turbinas Estão Ligadas
C3. Os Falcões Reais – Ele Século XX
C4. Marisa Rossi – Cinturão de Fogo

D1. The Pops – Som Imaginário De Jimmi Hendrix
D2. Loyce E Os Gnomos – Que é Isso?
D3. Piry – Herói Moderno
D4. Mac Rybell – The Lantern



A revista
Wax Poetics é uma publicação bimestral dedicada a jazz, funk, soul, R&B, hip hop, blues, reggae e música latina. Sediada no Brooklin, também edita livros, produz filmes e conta com um respeitável selo de gravação e relançamentos. Os jornalistas da revista mantém um programa semanal na New York City’s East Village Radio.

11 de fev de 2010

A história de Geração Bendita, um clássico quase perdido da psicodelia brasileira

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

(Texto publicado no Jornal do Brasil, edição de 14 de fevereiro de 2002)

O que havia restado para o funcionário público aposentado José Luiz Caetano, 49 anos, era apenas uma fita-cassete, que ele ouvia em suas viagens de carro pela serra. ''
Chorava de alegria e tristeza. Sentia um arrepio ao ver a amplitude do trabalho que tínhamos feito. E tudo se perdera no vento, jogado em alguma prateleira'', diz José Luiz.

Na tal fita estavam as músicas do disco
Geração Bendita, gravado em 1971 com sua banda Spectrum, formada por amigos beatlemaníacos de sua cidade, Nova Friburgo. Sem repercussão alguma em sua época, o trabalho acabou vingando só trinta anos depois, e por vias tortíssimas: depois de virar raridade, cult mesmo entre colecionadores europeus, Geração Bendita foi relançado em outubro de 2001 numa caprichada edição de vinil, em tiragem limitada, pelo selo alemão Psychedelic Music. Mais: quem quiser comprar um LP original, de 1971 e em bom estado, terá que desembolsar até US$ 2.000!!!

Saudado na Alemanha como uma pérola do rock psicodélico sul-americano, o disco relançado vendeu toda a tiragem de 410 cópias em uma semana (outras 40 tiveram que ser guardadas para os clientes da internet). Em abril de 2002,
Geração Bendita ganhou sua primeira edição oficial em CD, também na Alemanha.

''
O tempo ficou curto e a cabeça pequena'', diz José Luiz, que, com toda a satisfação, deixou a pacata vida de lado e hoje vive em meio a uma frenética troca de e-mails e telefonemas com representantes de selos fonográficos e colecionadores no exterior. Em 1998 ele estava completamente desanimado, depois de tentar promover uma reunião da banda, que rendeu apenas uma edição caseira do disco em CD. Tudo indicava que se perderiam na memória as músicas, feitas para a trilha sonora do inacreditável filme Geração Bendita, anunciado como ''o primeiro filme hippie brasileiro'', feito em ''uma comunidade hippie autêntica''. Até que um dia o músico foi procurado pelo colecionador Luiz Antônio Torge, que mantém um site com capas de discos brasileiros raros, o Vinyl Tree.

''
Há uns oito anos, um peruano que mora em Burbank, nos Estados Unidos, me enviou uma lista de discos brasileiros que procurava. No final da lista, havia um tal de Geração Bendita, que ninguém conhecia'', diz Torge. Um amigo conseguiu então para ele a obscura bolacha psicodélica. ''Escutei e foi aquela paulada. Ele não perde para nenhum baita disco americano ou europeu do mesmo estilo.'' O colecionador só conseguiu chegar a José Luiz por intermédio do diretor do filme, Carlos Bini, o único nome completo na contracapa do disco original, que fora lançado pelo extinto selo Todamérica, especializado em cantores de rádio.

Logo a descoberta chegou a Thomas Hartlage, do Psychedelic Music, em uma fita enviada por Torge. ''
Fiquei tão impressionado com o som e com as composições que passei um ano tentando comprar o LP original. Por fim, consegui uma cópia no Brasil, pela qual paguei US$ 1.500'', diz Hartlage. E a fama de Geração Bendita se espalhou. ''Ele é uma jóia da música psicodélica'', elogia Hans Pokora, autor da série de livros Record Collector Dreams, que compila capas de raridades roqueiras do mundo inteiro. ''Além de ser ótimo, ele é raro também, o que torna a obra ainda mais cultuada'', acrescenta Luiz Antônio Torge. ''E o fato de as músicas não serem covers de bandas da Europa ou Estados Unidos deixa os colecionadores loucos.''

Ouvir os poucos mais de 29 minutos do álbum surpreende qualquer roqueiro, até o mais experimentado. Apesar do som precário (os instrumentos eram de terceira mão e as novas cópias do disco tiveram que ser tiradas de um LP, já que as fitas master desapareceram), trata-se de um excelente disco de rock, com ecos do psicodelismo de Jimi Hendrix, o peso de Cream e Steppenwolf (a grande paixão da banda) e das impecáveis harmonias vocais de Simon & Garfunkel e The Mamas & The Papas. As guitarras falam alto em faixas como "Quiabos" (nome do sítio onde vivia a comunidade hippie do filme), "Pingo é Letra" e "Trilha Antiga".

Há também belas baladas, só com as vozes dos integrantes e o acompanhamento de uma viola caipira (substituindo o violão de 12 cordas, inacessível para os garotos), que José Luiz Caetano comprou em 1970 e guarda até hoje. Entre elas, "Mary You Are", "Tema de Amor", "Mother Nature" e "Maria Imaculada". A faixa mais psicodélica mesmo é "Concerto do Pântano", com a combinação da viola com slide e guitarra com efeito wah-wah. O hino hippie "A Paz, O Amor", Você" encerra o disco em grande estilo - nada a dever, por exemplo, aos Mutantes de
Jardim Elétrico.

Produzido por Carl Kohler, dono do Quiabos, o filme
Geração Bendita era a grande oportunidade que o Spectrum tinha de entrar na mídia. ''Uma história nunca vista no Brasil! Uma geração simples, divertida, humana, bela e inteligente! Você vai fundir a cuca, bicho!'', anunciava o trailer do filme, que originalmente seria um documentário, mas acabou virando ficção com a entrada no projeto do diretor Carlos Bini. ''O filme não é nenhuma obra-prima, mas retrata uma época'', diz hoje José Luiz Caetano. Bondade dele: Geração Bendita poderia ser exibido hoje em dia como uma curiosidade trash, com cenas de hippies queimando um aparelho de TV, tocando flauta à beira do rio, queimando fumo e destroçando com fúria um leitão assado.

Com interpretações constrangedoras e um fiapo de roteiro, centrado na história de um burocrata que larga tudo para viver com os hippies que acampam na praça principal de Nova Friburgo,
Geração Bendita, o filme, tem uma cena antológica, em que todos tomam banho nus num rio, no qual um treslocado vai derramando um balde de tinta para colorir a água. ''Alguns dizem que a minha bunda está ali, mas eu não me vejo'', brinca José Luiz, que jura não ter ido fundo na onda daquela época. ''Minha droga era a música'', assegura.

Proibido a princípio pela censura,
Geração Bendita acabou sendo lançado só em 1972, e em poucos cinemas, com o título de É Isso Aí, Bicho!. E nada aconteceu. Frustrados e sem empresário, os músicos do Spectrum se separaram - isso, apesar de terem recebido elogios e uma convocação de um de seus ídolos, o radialista Big Boy. Com nova formação, chegaram a tentar a sorte em boates de Ipanema, numa onda meio Cream. Mais tarde, com a adesão do vocalista (já falecido) Wirley, embarcaram numa onda Led Zeppelin. Nessa, gravaram a trilha de outro filme de Bini, Guru das 7 Cidades. Depois acabaram mais uma vez, só que definitivamente.

Com o fim do sonho roqueiro, José Luiz se casou, foi trabalhar como professor de shiatsu e teve dois filhos. Mais tarde, um concurso o levou a ser funcionário público. No meio tempo, cursou dois anos de Direito, que o ajudaram bastante na hora de se meter no complicado trâmite legal para a liberação dos direitos do disco, quando do convite da Psychedelic Music para o relançamento. Foi uma longa peregrinação que envolveu todos os músicos de
Geração Bendita ainda vivos: o baterista Fernando (que trabalha com informática no Rio) e os guitarristas Sérgio (desenhista da construção civil em Friburgo) e David (pecuarista em Bom Jardim). O baixista do disco, Toby, morreu no começo dos anos 90 num acidente de carro.

''
O Geração ainda é um disco atual, em letra e música'', acredita José Luiz, que montou um site do Spectrum e trabalha agora pelo seu relançamento em CD no Brasil. Ele sonha inclusive fazer um videoclipe, com cenas que estão em poder de Carl Kohler, hoje recluso e desiludido com o meio cinematográfico. Trinta anos depois, o músico continua no clima paz e amor do filme - em sua opinião, o sonho não acabou e os anos 70 sequer começaram. ''O objetivo final do homem tem que ser o humanismo'', prega José Luiz.

Faixas:
1 Quiabo's
2 Mother Nature
3 Trilha Antiga
4 Mary You Are
5 Maria Imaculada
6 Concerto do Pântano
7 Pingo e Letra
8 15 Years Old
9 Tema de Amor
10 Thank You My God
11 On My Mind
12 A Paz, o Amor, Você


Iron Maiden - Live After Death (2008)

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

Por Ricardo Seelig
Colecionador

Cotação: ****1/2

Finalmente! Passados vinte e três anos de seu lançamento original em 1985, o antológico Live After Death ganhou, em 2008, uma versão em DVD digna de sua importância. É claro que a maioria dos fãs do Iron Maiden já possuía a versão “cachorra” pirata que era encontrada com facilidade nas bancas de revistas de todo país há alguns anos atrás, o que só serve para perceber o quanto foi exemplar o trabalho realizado nessa versão oficial.

O show principal, que está no disco 1, já foi analisado milhares de vezes e está na mente não só dos fãs do grupo, mas de todo e qualquer fã de heavy metal. Registro definitivo da emblemática World Slavery Tour, maior e mais importante turnê da carreira do Maiden, responsável por elevar o grupo ao Olimpo da música pesada (de onde nunca mais saiu, diga-se de passagem), traz todos os elementos que fizeram da Donzela uma banda única: a performance incendiária de um grupo em seu auge; um vocalista performático, carismático e, mesmo que ainda não estando em seu ápice técnico vocal, dando uma aula de interpretação (digo isso porque, se você comparar, por exemplo, a performance de Bruce Dickinson em Live After Death e em Rock in Rio, perceberá como ele aprendeu a usar a sua voz com o tempo, levando-o a cantar melhor hoje do que na década de oitenta, o que não tira, em hipótese alguma, o brilho de sua atuação); uma dupla de guitarristas que elevou o conceito de guitarras gêmeas a outro nível, escrevendo um capítulo à parte na história do heavy metal; e uma cozinha altamente técnica e criativa, que soube usar toda a sua força para criar e definir algumas das passagens mais marcantes da história do som pesado.

Entre as músicas, destaques óbvios para os clássicos “Aces High”, “The Trooper”, “Revelations”, a soberba “Rime of the Ancient Mariner”, “Powerslave” (na minha opinião uma das cinco melhores músicas do grupo), “The Number of the Beast” e o hino “Hallowed Be Thy Name”.

Na parte técnica do DVD, fica claro como o vídeo e, principalmente, o áudio do mesmo, receberam um exemplar tratamento, adequando-se às novas tecnologias. O som 5.1 que sai dos alto-falantes é puro e cristalino, proporcionando um imenso prazer ao ouvinte. Uma curiosidade: quem está acostumando com o CD Live After Death poderá estranhar algumas faixas, já que, ao contrário do que muitos pensam, os shows do CD e do DVD são diferentes.

No disco 2 estão algumas jóias que irão fazer a alegria dos fãs. A primeira, e principal, é a segunda parte do documentário The History of Iron Maiden, que teve seu início no DVD The History of Iron Maiden, Part 1: The Early Days, lançado em 2004. Cobrindo justamente o período mostrado no show principal, ou seja, os anos de 1984 e 1985, época do lançamento dos discos Powerslave e Live After Death, o documentário traz inúmeras histórias e curiosidades, como o hilário causo do baterista Nicko McBrain, que em um show da banda pelo interior dos EUA resolveu dar um pulo na piscina que havia atrás do palco durante a passagem de baixo de “Rime of the Ancient Mariner”, tamanho o calor que fazia naquele dia. Não fosse um roadie o chamar de volta, Nicko perderia o tempo da música …

Pela primeira vez a banda fala do quão difícil e extenuante foi a tour, que, segundo eles próprios, quase levou o grupo ao fim, devido a enorme quantidade de shows e o consequente desgaste, tanto fisico quanto de convivência entre os integrantes e todas as demais pessoas que formam a equipe técnica e administrativa do conjunto.

Mais alguns extras completam o DVD, com destaque para o lendário documentário Behind the Iron Curtain, que mostra a passagem do Iron Maiden pela Polônia em uma época onde a Cortina de Ferro ainda existia, sendo que a Donzela foi um dos primeiros grupos a tocar no fechado leste europeu. O momento em que a banda, completamente bêbada diga-se de passagem, toca em uma festa de casamento (?!) uma versão de “Smoke on the Water”, do Deep Purple, beira o inacreditável ...

Há também o curto vídeo ´Ello Texas, com entrevistas, os clipes de “Aces High” e “Two Minutes to Midnight”, galeria de ilustrações e fotos, as datas da tour e um programa da turnê repleto de detalhes curiosos a respeito da excursão.

Deixei por último o extra que provavelmente mais vai interessar aos fãs brasileiros, que é o vídeo do grupo tocando no Rock in Rio de 1985. Este registro tinha tudo para ser o mais legal do DVD, mas acaba frustrando os telespectadores. A qualidade, tanto de som quando de imagem, é ruim e decepcionante. Tudo bem que a responsável pela captação do material naquela época foi a TV Globo, mas faz uma tremenda falta um acabamento e um tratamento melhores no material, seguindo o que foi feito com o vídeo original. O show é antológico, a banda toca com energia contagiante, há o famoso caso da cabeçada de Bruce na guitarra de Dave Murray, o que fez o vocalista cantar “Revelations” com o rosto coberto de sangue (caso esse que levou os repórteres da Globo na época a concluir que era mais um truque cênico da banda), e, além de tudo, possui um valor altamente histórico e sentimental para nós brasileiros, fatores esses que só aumentam a frustração de assisti-lo com uma qualidade tão irregular.

Fechando, o DVD vem com um longo encarte repleto de fotos e dados sobre a tour, mais ou menos como o encarte que saiu na versão enhanced do CD.

O lançamento de Live After Death em DVD oficial pelo Iron Maiden é uma notícia digna de elogio. O trabalho feito na adequação do vídeo original às novas possibilidades tecnológicas disponíveis atualmente foi muito bom, assim como a segunda parte do documentário que conta a história do grupo. Uma pena que justamente o extra mais aguardado por nós, brasileiros, tenha uma qualidade tão ruim, o que certamente decepcionará e frustrará uma parcela dos fãs. Live After Death é um ótimo DVD, e, não fosse por esse deslize, ganharia nota máxima.


Faixas:
Disc One: Live After Death
1 Churchill Speech / Aces High
2 2 Minutes to Midnight
3 The Trooper
4 Revelations
5 Flight of Icarus
6 Rime of the Ancient Mariner
7 Powerslave
8 Number of the Beast
9 Hallowed Be Thy Name
10 Iron Maiden
11 Run to the Hills
12 Running Free
13 Sanctuary

Disc Two: Documentary / Bonus Concert Footage
History of Iron Maiden, Part 2
Behind the Iron Curtain
Rock in Rio '85
'Ello Texax
Gallery
Promotional Clips

10 de fev de 2010

Dream Theater - Systematic Chaos (2007)

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

Por Ricardo Seelig
Colecionador

Cotação: ****

Analisar um álbum do Dream Theater é sempre complicado. Seus discos são complexos, repletos de nuances, e Systematic Chaos, nono trabalho do grupo, não foge à regra. Primeiro lançamento pela Roadrunner, a nova gravadora do quinteto, o álbum prova que o maior nome do prog metal ainda tem muita lenha para queimar.

Novamente produzido por Mike Portnoy e John Petrucci, o disco traz novos ares à carreira da banda, e com certeza irá motivar discussões acaloradas entre os fãs. O que se percebe de imediato, assim como ocorreu no trabalho anterior, Octavarium (2005), é uma maior presença de características progressivas. A boa notícia para quem curte o grupo é que a banda demonstra muito mais inspiração neste novo trabalho do que no seu último lançamento.

Prova disso é a bela abertura com “In the Presence of Enemies Pt 1”, que soa como se tivesse sido gravada na época do clássico Images And Words, de 1992. Com a guitarra de Petrucci em primeiro plano, a banda evolui sobre uma elaborada estrutura melódica, digna de seus melhores momentos. Em algumas passagens, essa música me levou de volta aos tempos de “A Change of Seasons”, uma das mais emblemáticas composições do Dream Theater.

Com nove minutos de duração, “In the Presence of Enemies Pt 1” tem uma longa e inspirada introdução instrumental, que dura mais da metade da faixa. James LaBrie só aparece lá pelos cinco minutos, e seus vocais seguem a mesma linha do que havia feito no último disco. Ou seja: muito mais ênfase na interpretação das composições do que naquela gritaria repleta de agudos de quando entrou na banda. “In the Presence of Enemies Pt 1” abre Systematic Chaos de maneira bem progressiva, com muita classe e estilo, e deixa água na boca.

Ainda bem que o restante do trabalho não decepciona. “The Forsaken” é introduzida por uma bela frase de piano de Jordan Rudess, e, assim como “I Walk Beside You” de Octavarium, possui um imenso potencial comercial. Seu refrão não sai da cabeça tão cedo. É daquelas músicas que o grupo volta e meia compõe, e que fazem quem nunca ouviu falar da banda parar para ouvir.

O peso volta com “Constant Motion”. Essa canção traz linhas vocais influenciadas claramente pelo Metallica da fase … And Justice For All, lembrando de imediato a clássica “Blackened”. Além disso, James canta de forma mais agressiva, alcançando um ótimo resultado. Aqui faço um parênteses: é extremamente agradável perceber que LaBrie está, como já ocorreu em Octavarium, explorando todas as nuances de sua voz, indo muito além dos já manjados tons agudos. Isso gera uma maior qualidade para a música do Dream Theater, e mostra que o patinho feio do grupo está, sim, no mesmo nível de Portnoy, Petrucci, Rudess e John Myung, ao contrário do que (ainda) pensam muitos fãs da banda.

Não sei o que o grupo pensou ao compor “The Dark Eternal Night”, mas o fato é que essa é, provavelmente, a canção mais pesada de sua carreira. Um riff de guitarra com um que de new metal dá início à faixa, que é seguida por uma levada rápida de Portnoy e vocais repletos de efeito. Pode soar meio diferente no início, mas é muito legal. “The Dark Eternal Night” possui diversas e surpreendentes mudanças de andamento, com destaque para o teclado de Rudess. Muito peso (mesmo), indo além do mostrado em Train of Thought. Destaque imediato!

A balada “Repentance” vem a seguir, e é a quarta canção gravada pela banda a respeito do alcoolismo do baterista Mike Portnoy (aos curiosos, as outras são “The Glass Prison”, “This Dying Soul” e “The Root of All Evil”). LaBrie canta a letra de forma bem calma, realçando a bela melodia. O lindo solo de Petrucci é o ponto alto da canção.

E aí chegou a hora da discussão. “Prophets of War” é uma prova cabal da ousadia e da criatividade do Dream Theater. Sobre um excelente riff de Petrucci, o grupo coloca uma batida pop, influenciada pela disco music dos anos setenta. E, acreditem, não ficou estranho, pelo contrário: a música soa enérgica, possui uma melodia contagiante, e dá vontade de ouvir de novo quando acaba. Aos fãs mais ortodoxos, que provavelmente irão chiar, apenas um lembrete: a principal característica do rock progressivo é a ausência de regras, permitindo ao músico desenvolver a sua criatividade livre de quaisquer rótulos. “Prophets of War” é uma prova disso.

Systematic Chaos encerra com duas longas faixas progressivas. A primeira, “The Ministry of Souls”, possui uma abertura grandiosa e passagens instrumentais absolutamente brilhantes. Não consigo colocar em palavras, mas indico uma audição atenciosa. A segunda, “In the Presence of Enemies Pt 2”, funciona com perfeição com a composição que abre o disco, e as duas juntas formam uma suíte com mais de 25 minutos. Novamente a inspiração fala mais alto, e complexas camadas sonoras vão unindo-se umas às outras, sem cansar o ouvinte.

É fácil concluir que Systematic Chaos apresenta um Dream Theater olhando com carinho para o seu passado, e resgatando elementos que marcaram a sua carreira. É um trabalho mais consistente que Octavarium, sem dúvida alguma. A quantidade de faixas que chamam a atenção e possuem potencial para agradar em cheio os fãs é grande. Mas, muito mais importante que isso, é a inspiração que transborda em cada detalhe, mostrando que o grupo ainda tem muito tesão pela música que faz.

Um grande álbum, que não deve nada aos melhores momentos dessa banda sensacional.


Faixas:
1 In the Presence of Enemies, Pt. 1 9:00
2 Forsaken 5:36
3 Constant Motion 6:55
4 The Dark Eternal Night 8:51
5 Repentance 10:43
6 Prophets of War 6:01
7 The Ministry of Lost Souls 14:57
8 In the Presence of Enemies, Pt. 2 16:38


Dream Theater - Octavarium (2005)

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

Por Ricardo Seelig
Colecionador

Cotação: ***1/2


De certas bandas não se espera menos do que ótimos álbuns. O Dream Theater é uma delas. O grupo norte-americano foi o grande responsável pelo ressurgimento do rock progressivo no início da década de noventa, e até hoje se mantém como o maior nome do gênero em todo o mundo.


Após o já clássico e excepcional Scenes From a Memory, lançado em 1999; do excelente Six Degrees of Inner Turbulence, de 2002; e do ótimo Train of Thought, lançado em 2003 (e que foi injustamente apedrejado pelos fãs mais xiitas, que reclamaram de influências new metal em certas músicas), a banda lançou em 2005 seu oitavo álbum de estúdio, Octavarium.

Como todo trabalho do Dream Theater,
Octavarium é complexo e extremamente bem executado. A primeira música, "The Root of All Evil", inicia o disco de forma soberba, mantendo a tradição das faixas de abertura da banda, como "Overture 1928", "New Millenium" e "The Glass Prison". Com muito peso, nota-se de cara o destaque óbvio para as guitarras de John Petrucci e a bateria de Mike Portnoy, mas toda a banda mostra-se homogênea e extremamente sólida, com as intricadas linhas de cada instrumento interligando-se entre si. A letra desta canção dá continuidade ao processo de exorcismo dos problemas com álcool enfrentados por Portnoy e pelo vocalista James Labrie, já abordado em canções anteriores, como "The Glass Prison". Vale mencionar também o belo refrão, que resgata alguns trechos de "This Dying Soul", do álbum Train of Thought. Típica música do Dream Theater, abrindo o álbum exatamente com aquilo que os fãs esperam ouvir.

As primeiras notas de "The Answer Lies Within" nos remetem ao hit "My Immortal", do Evanescence, mas os fãs mais radicais não precisam torcer o nariz, já que Jordan Rudess mostra mais uma vez todo o seu talento e constrói um arranjo belíssimo, em uma das melhores baladas do grupo. Uma música agradável, que viraria hit com facilidade e levaria o nome do Dream Theater para um número muito maior de pessoas, caso este fosse o desejo da banda.

"These Walls" mais uma vez traz Jordan Rudess como destaque, principalmente no final, onde a música cresce sobre suas frases de teclado, em um resultado empolgante. A faixa seguinte, "I Walk Beside You", é a mais pop, e traz influências claras de U2, com a voz de Labrie lembrando, e muito, os vocais de Bono no refrão. Provavelmente será a faixa mais discutida de
Octavarium pelos fãs das antigas do grupo, e mais uma vez mostra a inigualável capacidade dos cinco integrantes do Dream Theater, que saem de seu habitat natural e se arriscam em um terreno totalmente diferente, mas sempre mantendo a alta qualidade do seu trabalho.

Contrastando com "I Walk Beside You", "Panic Attack" traz o tradicional Dream Theater que os fãs aprenderam a amar, em uma canção pesadíssima e cheia de andamentos quebrados, que é certamente um dos principais destaques do álbum. Mike Portnoy simplesmente destrói tudo nesta canção, enquanto Jordan Rudess e John Petrucci somam suas forças para dar ainda mais peso à canção.

Mas os grandes destaques do disco, aquelas músicas que vão fazer o fã lembrar de
Octavarium mesmo após anos de seu lançamento, ficaram guardadas para o seu final. Trechos de diversas notícias sobre fatídicos os acontecimentos de 11 de setembro de 2001 dão início aos mais de onze minutos de "Sacrificed Sons" - vale lembrar que a banda retirou do mercado a primeira edição do ao vivo Live Scenes From New York, lançado no mesmo dia dos atentados, e que trazia as torres gêmeas em chamas na capa, em uma bizarra coincidência. O clima fica tenso e melancólico até os quatro minutos, onde a música dá uma virada e o grupo começa a viajar instrumentalmente, para a alegria dos fãs. Perfeita, perfeita, absolutamente perfeita, e com direito a arranjos orquestrais que tornam o final ainda mais apoteótico.

Já "Octavarium", a música, gerou comentários de que seria a nova "A Change of Seasons" pela sua duração. Mas, ao longo dos seus mais de 24 minutos, o que se vê em cada nota, em cada detalhe, é a união da genialidade, da sensibilidade e da capacidade técnica de todos os cinco integrantes do conjunto, em uma composição que, apesar de sua longa duração, não cansa o ouvinte.

Falar de Mike Portnoy, John Petrucci e Jordan Rudess é chover no molhado. Eles são as estrelas maiores do Dream Theater, o alicerce que mantém a banda viva (se alguém tem dúvida disso, é só olhar para trás e ver todo o histórico do grupo, e a nova vida que a entrada de Rudess, em 1999, deu à banda). Já o sempre discreto John Myung, que apesar da técnica incrível sempre ficou em segundo plano - mais por vontade própria e temperamento, já que assistindo ao DVD
Live at Budokan é fácil perceber o quanto as presenças e personalidades de Portnoy, Petrucci e Rudess o ofuscam -, em Octavarium sai da toca e nos entrega andamentos jazzísticos onde mostra todo o seu talento. Quanto a James Labrie, ele merece um parágrafo à parte.

Sempre apontado como o patinho feio do Dream Theater, frequentemente acusado de não estar à altura dos demais membros da banda, em
Octavarium Labrie lava a alma e mostra que é, sim, um excepcional vocalista. Deixando totalmente para trás os agudos irritantes do passado, neste álbum ele se concentra nos aspectos mais graves de sua voz, a transformando realmente em mais um instrumento na sonoridade única do grupo. Com toda a certeza está registrada em Octavarium a melhor performance de James Labrie em toda a sua carreira com o Dream Theater. Um tapa na cara dos seus inúmeros críticos, que ficarão felizes em dar o braço a torcer em troca de ver enterrados os timbres irritantes que o vocalista insistia em colocar em canções mais antigas como "Pull Me Under".

A produção mais uma vez ficou a cargo de Mike Portnoy e John Petrucci, e está excelente. Analisado com calma,
Octavarium coloca-se facilmente entre os melhores álbuns do Dream Theater, ao lado de Scenes From a Memory, Images and Words, Awake e Six Degress of Inner Turbulence.

Um disco para se ter em casa e curtir por muito tempo.
 


Faixas:
1 The Root of All Evil 8:25
2 The Answer Lies Within 5:33
3 These Walls 7:36
4 I Walk Beside You 4:29
5 Panic Attack 8:13
6 Never Enough 6:46
7 Sacrificed Sons 10:42
8 Octavarium 24:00

9 de fev de 2010

A Castle Full of Rascals: Deep Purple ´83 - ´09

terça-feira, fevereiro 09, 2010

Por Ricardo Seelig
Colecionador

Dono de um currículo invejável, com passagens como editor pela revista Brave Words & Bloody Knuckles e redator por publicações como Guitar World, Lollipop, Goldmine e Record Collector, entre outras, o canadense Martin Popoff é conhecido como o "mais famoso jornalista de heavy metal do mundo". Grande parte dessa reputação se deve aos 28 livros já publicados por Popoff, incluindo biografias do Rush, Judas Priest, Blue Oyster Cult, UFO, Rainbow, Black Sabbath e Dio, além do belíssimo e obrigatório Run For Cover: The Art of Derek Riggs - onde destrincha a obra de Riggs, criador e ilustrador das mais conhecidas imagens de Eddie, mascote do Iron Maiden - e da didática série Ye Olde Metal - onde analisa álbuns clássicos de hard e metal lançados nas décadas de 70 e 80.


A Castle Full of Rascals: Deep Purple ´83 - ´09 é a continuação de Gettin´ Tighter: Deep Purple ´68 - ´76, primeira parte da história do grupo criado por Ritchie Blackmore, Ian Paice e Jon Lord. Neste segundo volume, como o título deixa claro, Popoff tem como ponto inicial o retorno da formação clássica do Purple, com Blackmore, Paice, Lord, Ian Gillan e Roger Glover, no álbum Perfect Strangers, lançado em outubro de 1984. O livro conta a trajetória do grupo entre esse disco e Rapture of the Deep, que chegou às lojas exatamente vinte e um anos depois, em outubro de 2005.

São centenas de informações espalhadas pelas 298 páginas de
A Castle Full of Rascals. Curiosidades, histórias de bastidores, a concepção de cada álbum, comentários detalhados sobre cada uma das faixas presentes nos discos lançados no período, as eternas rixas entre Blackmore e Gillan, a entrada de Steve Morse, a saída de Jon Lord, a inclusão de Don Airey, enfim, tudo - tudo mesmo -, que aconteceu com o Deep Purple nos 26 anos transcorridos entre 1983 e 2009. O livro traz ainda dezenas de fotos da banda, itens de memorabília e anúncios veiculadas na imprensa na época do lançamento dos discos.

Dizer que se trata de uma leitura obrigatória para toda e qualquer pessoa que gosta de música é uma enorme redundância. Assim como fez em seus outros livros, Popoff une o conhecimento extraordinário que possui à paixão infinita que nutre pela hard rock e heavy metal, concebendo um texto muito agradável de se ler, o que faz com que as páginas desçam redondo, nutrindo o leitor de preciosas informações sobre uma das maiores e mais influentes bandas da história da música pesada.

Ficou interessado? Então anote aí: para comprar
A Castle Full of Rascals, bem como Gettin´ Tighter e os demais livros escritos por Martin Popoff, entre em contato com o escritor através do seu site. Além de extretamente talentoso, Martin é gente boa e irá atender você com a simpatia habitual.



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