02/04/2010

Discos Fundamentais: Frank Zappa - Hot Rats (1969)


Por Ricardo Seelig
Colecionador

Lançado no dia 10 de outubro de 1969,
Hot Rats é o sétimo álbum de Frank Zappa. Além disso, possui algumas de suas composições mais emblemáticas, e é comumente indicado como porta de entrada para neófitos no universo do genial guitarrista e compositor norte-americano.

Artisticamente,
Hot Rats marca uma mudança considerável na carreira de Zappa. Após gravar os álbuns Freak Out! (1966) e We're Only in It for the Money
(1968) ao lado de sua banda Mothers of Invention (ambos frequentemente citados como alguns dos maiores clássicos da história da música, mas, paradoxalmente, discos que não alcançaram um grande número de vendas), Frank Zappa estava em uma situação financeira delicada.

Diz a lenda que, em uma passagem por sua gravadora, a Reprise Records (que hoje pertence ao grupo Time/Warner), Zappa presenciou Duke Ellington, um dos maiores músicos da história do jazz, implorando um adiantamento de meros 10 dólares para os executivos da Reprise e não ser atendido. Esse fato chocou de tal maneira o guitarrista que ele tomou uma decisão radical e rompeu definitivamente os seus laços com a gravadora. Assim, os Mothers of Invention foram dissolvidos, e Zappa foi à caça de novos músicos para o seu novo grupo. Os escolhidos foram os violinistas Don "Sugarcane" Harris e Jean-Luc Ponty, o tecladista Ian Underwood e o chapa de longa data Don Van Vilet, o lendário Captain Beefheart.

Assim nasceu
Hot Rats
, um disco quase totalmente instrumental (a exceção é “Willie The Pimp”, com os vocais característicos e chapados de Captain Beefheart), onde todas as seis faixas foram compostas por Zappa. Estilisticamente, suas músicas estão muito próximas do jazz, com estruturas mais soltas e que se assemelham a inspiradas jams entre os músicos.

Hot Rats
abre com “Peaches En Regalia”, uma das canções mais conhecidas de Zappa, e presença quase obrigatória nos set lists dos shows de 1969 em diante. “Peaches En Regalia” dá as pistas da exuberância instrumental que o ouvinte encontrará no trabalho. Com pouco mais de três minutos, é uma obra compacta e concisa, direta ao ponto, um petardo na cabeça da então já decadente geração flower power. Seu ataque furioso, demostrando a técnica estonteante de Zappa, Harris, Ponty e Underwood, até hoje soa impressionante, fazendo qualquer pessoa que goste de música e não a conheça parar, respirar fundo e perguntar que diabos está acontecendo.

Apesar da popularidade de “Peaches En Regalia”, pessoalmente prefiro outras faixas de
Hot Rats. “Willie The Pimp” é uma delas. Sob um riff mezzo rock mezzo
blues, Captain Beefheart coloca seu vocal característico, que introduz um dos melhores solos gravados por Frank Zappa, com mais de sete minutos de duração. Zappa usa magistralmente o wah-wah em uma explosão sonora que faz sua guitarra soar como várias em uma só.

O arranjo peculiar de “Little Umbrellas”, calcada em uma linha de baixo sob a qual os demais instrumentos evoluem, soa estranho a princípio, mas é uma daquelas faixas que quanto mais você ouve, mais você curte.

Hot Rats
nos reserva ainda mais um ápice musical com a incrível “The Gumbo Variations”, um rhythm and blues peculiar que serve de cama para performances arrebatadoras de Frank Zappa, Ian Underwood e Don "Sugarcane" Harris. Ouvir seus quase treze minutos de duração é uma experiência única, e que deveria ser recomendada para toda e qualquer pessoa que tem a música como um dos elementos principais da sua vida.

Encerrando, uma curiosidade histórica: a figura da capa de
Hot Rats até hoje é apontada por muitos como o próprio Frank Zappa, mas na verdade é Christine Frka, uma das integrantes do grupo exclusivo de groupies que seguia Zappa e sua banda, as G.T.O.'s – Girls Together Outrageously. A foto, com Christine esperando na surdina dentro de uma piscina, foi tirada em uma mansão de Beverly Hills, e não deixa de ser uma metáfora para o que Hot Rats
faz com o ouvinte: o pega de surpresa, no susto, e o leva a uma viagem fantástica, da qual ele jamais se esquecerá.

Faixas:
A1. Peaches en Regalia - 3:58
A2. Willie the Pimp - 9:25
A3. Son of Mr. Green Genes - 8:58

B1. Little Umbrellas - 3:09
B2. The Gumbo Variations - 12:55
B3. It Must Be a Camel - 5:15


01/04/2010

Os 10 Discos Essenciais do Hard Setentista


Por Ronaldo Rodrigues
Colecionador
Apresentador do Programa Estação Rádio Especial

Nunca levo esse papo de listas a ferro-e-fogo. Ao contrário, prefiro levar a coisa para o lado da utilidade – listas são ótimas fontes para se aprimorar o conhecimento musical. Tentar descobrir o porque daquele disco X e não do disco Y que você já conhece é um interessante exercício de senso crítico e uma ótima maneira de ampliar horizontes.

Assim, dessa forma gostaria que o estimado leitor entendesse essa relação que segue abaixo, sobre o hard rock dos anos 70. Se você não conhece algum dos discos relacionados e gosta do estilo ou tem interesse por ele, corra atrás porque são trabalhos que valem a pena!

O hard do começo dos anos 70, período quase que indiscutivelmente áureo para o estilo, é bastante diferente da ideia geral que se tem sobre o hard feito nos anos 1980 e 1990, que é a denominação que se diferenciou do rótulo heavy metal, cunhado inicialmente para bandas de rock pesado, independentemente de suas particularidades. Diferente na conceituação musical, no modus-operandi da coisa.

Era típico no som os riffs dobrados entre baixo e guitarra, a influência nítida do blues na estrutura harmônica, variações rítmicas e de andamento, vocais rasgados, solos longos de guitarra e improvisos dos outros instrumentos. O peso da música era devido, em proporções similares, ao conjunto bateria-baixo-guitarra, não sendo a guitarra a estrela mor dentro do quadro musical do rock, como ocorre com constância ao longo das últimas décadas. Frequentemente também apareciam teclados fazendo um papel mais ativo no som, e também era comum o flerte com outras tendências do período – o rock progressivo, o jazz rock e toda a influência ecoante da cultura psicodélica e hippie. Diferenças essas que uma audição atenta dos diversos períodos do estilo é capaz de evidenciar com facilidade.

Não considerei álbuns das bandas mais famosas (tais como Black Sabbath, Led Zeppelin, Deep Purple, UFO, Uriah Heep, Rainbow) por entender que aqui trato com iniciados, pessoas que já possuem uma ideia da coisa toda. Os discos selecionados concentram-se nos “late 60’s/early 70’s”, período de produção muito fértil para este estilo e muitos outros dentro do rock, indubitavelmente.

Para entender bem o hard rock dos anos 70 é fundamental abrir a cuca, visto que existem poucas (relativamente) bandas/álbuns em que a gente ouve aquela coisa pura, hard em estado bruto do começo ao fim do disco. A heterogeneidade é uma marca do período. Tanto é que se ouve canções pesadas maravilhosas em discos de bandas cujo foco principal não era o hard. Pra sacar o lance todo, o ouvinte tem que mergulhar no cenário, naquela efervescência da época, passar por rock progressivo, psicodélico, jazz rock, blues, rock de garagem, r&b, enfim.

Vamos ao ponto então. A lista não tem ordem, com exceção da sensata ordem alfabética.

Bang – Bang (1971)

Power trio norte-americano, da Filadélfia. Esse primeiro disco é de longe seu mais pesado e expressivo trabalho, trilha obrigatória para quem quiser se aventurar no lado B do hard rock setentista. Fizeram uma linha de hard próxima à do Black Sabbath, sem muita referência explícita ao blues, abusando de distorções agressivas e mão pesada na execução de petardos bem construídos e raivosos, muito raivosos. Sonzeira garantida com “Come With Me”, “Our Home” e “Questions”.

Buffalo – Volcanic Rock (1973)

"Visceral" é um adjetivo razoável para definir este álbum. Mas tem momentos em que essa palavra fica pequena e pobre diante da grandiosidade do som desse disco. Um vulcão em erupção derramando peso e distorção por todos lados, arrasando com qualquer ouvido que se meta em sua fronte. A abertura com "Sunrise" já é uma covardia em termos de hard rock. O vocal de Dave Tice é sensacional, rasgado, potente ao extremo. Em cinco faixas a banda consegue, além de muito peso, aliar momentos viajantes com seus riffs hipnóticos. Se você quiser uma dica de qual dessa lista começar a procurar, comece por este.

Cactus – Cactus (1970)

Em poucas palavras: rock n’ roll de muito peso! Aquela pegada blueseira de raiz somada ao trabalho insano de uma dupla explosiva: Carmine Appice (bateria) e Tim Bogert (baixo). Sujo e rebelde, como todo bom rock n’ roll soa, esse trabalho poderia ser definido, numa visão mais restrita e até medíocre, como uma versão norte-americana do som do Led Zeppelin dos dois primeiros álbuns. Mas essa semelhança tem mais a ver com a abordagem que os dois grupos fazem do blues, que é, sim, similar. De resto, existem muitos elementos subjetivos que provam fácil fácil que "uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa". Cactus é uma bandaça, que faz um rock arrasador neste disco, quente e venenoso.

Captain Beyond – Captain Beyond (1972)

Objeto de adoração para muitos fãs do rock setentista. Tem uma sonoridade muito atraente e elaborada, mesmo sendo um trabalho de rock pesado. Músicos experientes e dispostos a fazer rock de muita qualidade e impacto é o que se encontra neste álbum. Tem gente que diz até que é progressivo, mas seu som vai além dos rótulos. Inegavelmente, o norte do trabalho é o rock de peso. Além dos timbres, das composições, dos solos, da capa do disco, um ponto de destaque é que este é um álbum conceitual perfeito – você pode escutá-lo como um todo ou ouvir as faixas aleatoriamente, tendo um grande barato em todas elas, pois não ficam amarradas ao conceito do álbum. Riffs incríveis, bateria e baixo arrasadores e o timbre característico de Rod Evans no vocal, além de belos instrumentais climáticos.

Dust – Dust (1971)

Rock n’ roll de peso cheirando hormônio. Um trio de garotos bem jovens tocando como gente grande, ou até melhor. Um super guitarrista/vocalista que tocava com os captadores de Hendrix, um baixista que parecia um Jack Bruce norte-americano e um batera “cavalo” detonando (que depois virou punk no Ramones). Sem contar as composições e a qualidade da gravação. Desse disco poderiam ter saído vários hits, por serem músicas curtas, pegajosas e todas de alto impacto, com exceção de "From a Dry Camel," que é viagem pura! Espetacular!

Leslie West – Mountain (1969)

Esse pode até ser incoerente na lista sob certa ótica, por que o Mountain é uma banda razoavelmente famosa. Mas creio que o disco não é tanto assim e merece ser mais comentado. Além do mais, não vou me ater a uma "pseudo-regra" que eu mesmo criei. Este é o primeiro e genial trabalho da dupla West/Pappalardi. A guitarra de Leslie West é emotiva, agressiva, crua. O baixo de Felix Pappalardi só falta falar neste álbum, tamanha presença. Músicas perfeitas, trabalho instrumental excelente, rock simples e de impacto, timbres maravilhosos junto com a potente voz do gorducho Leslie West. Soa um pouco como o Cream, porém tem sua vida própria. Algo que vem de dentro e reflete anseios mais profundos da alma rocker.

Jeronimo - Jeronimo (1971)

Pauleira de chutar o traseiro do power trio alemão Jeronimo. Banda que teve certa fama no cenário da época, tendo o disco lançado em vários países. Um som vigoroso, sem muitas pretensões, com alguns adereços típicos do rock do começo dos anos 70, mas tudo muito bem construído e cativante. “Sunday’s Child” já dá boas vindas para um deleite de muito peso e um rock muito honesto. Bons vocais e som de alta energia.

Lucifer’s Friend - Lucifer’s Friend (1970)

A abertura do disco parece até uma canção heavy metal dos anos 80, com aquele ar ligeiramente progressivo propiciado pela presença do órgão Hammond. Que coisa sensacional! "Ride in the Sky” é uma faixa mitológica que abre o lar de maravilhas dessa jóia do rock, feita na Alemanha e cantada pelo inglês John Lawton (que também foi vocalista do Uriah Heep em um período posterior). Existe aquela velha sina de que houve um plágio no começo de “Ride in the Sky" com "Immigrant Song" do Zeppelin, ou vice-versa, mas a verdade é aquele fraseado era inspirado em uma vinheta de um programa de TV. Ademais, o disco mescla climas tétricos com passagens muito pesadas conduzidas por um sempre onipresente Hammond e um som vigoroso de bateria e baixo. Os vocais de Lawton são precisos e as composições são ótimas dentro do estilo. Pérola!

Sir Lord Baltimore – Kingdom Come (1970)

Power trio norte-americano em que a palavra “POWER” deveria ser escrita toda em letras maiúsculas. Um dos álbuns mais pesados do período, em que a dupla bateria-baixo faz toda diferença. A maneira como foi capturado o disco o transforma num mito para toda banda que deseja se aventurar pelo estilo. Os riffs de guitarra e a estrutura das canções são até tradicionais dentro do estilo, mas a energia com que a engrenagem toda pulsa torna-o incomparável, extremamente pesado, urgente, ácido, um soco no estômago, pode se dizer assim. Soa como se fosse um cruzamento dos melhores momentos do Stooges com os melhores momentos do Mountain, e pesado como Black Sabbath! Um disparate, um atentado sonoro, um desbunde pesado total!

Toad – Toad (1971)

Não tenho medo em afirmar que Jimi Hendrix é o pai do rock pesado. Sua influência como guitarrista e compositor é impossível de ser negada, é evidente. Este power trio suíço é filho dessa influência. O guitarrista e vocalista Vic Vergeat era um
freak desbundado que abusava de todos os recursos de sua guitarra para extrair delas os gemidos mais viscerais. Werner Fröhlich não deixava por menos e caprichava em suculentos improvisos em seu baixo, e o baterista Cosimo Lampis mandava ver nas baquetadas. Eis a receita para a pauleira. Toad é intenso, rápido, nervoso, som direto. Em oito faixas os caras arrebentam e mandam pra longe qualquer sinal de caretice.

Leia também: Blue Cheer, os inventores do rock pesado?


31/03/2010

Rigotto´s Room: ZZ Top, os barbudos estão chegando


Por Maurício Rigotto
Escritor e Colecionador
Collector´s Room

No próximo mês de maio, em um intervalo de menos de duas semanas, Porto Alegre receberá nada menos que quatro shows internacionais. A maratona de espetáculos terá início no dia 20 no Bar Opinião, com a apresentação da cantora norte-americana de folk rock Cat Power. No dia seguinte, o guitarrista albino Johnny Winter, do Texas, toca pela primeira vez na capital gaúcha, no Teatro do SESI. Dois dias depois, no dia 23, no Pepsi on Stage, será a vez dos barbudos, também texanos, do ZZ Top, fazerem seu primeiro show em Porto Alegre em mais de quarenta anos de carreira. O último desses quatro concertos será no dia 1° de junho, quando o guitarrista inglês Mick Taylor, ex-membro dos Rolling Stones, se apresentará no Teatro Bourbon Country.

E haja grana, pois são shows imperdíveis para quem aprecia o melhor do rock e blues. Descartando Cat Power, de quem não sou tão fã, embora aprecie o seu trabalho, Johnny Winter, ZZ Top e Mick Taylor são figuras lendárias no universo do rock e do blues há mais de quatro décadas; e como esses artistas nunca se apresentaram por aqui, estamos diante de oportunidades únicas de presenciar as performances ao vivo dessas lendas. Hoje e nas próximas colunas vamos falar um pouco sobre as suas trajetórias, iniciando pelo ZZ Top.


O power trio ZZ Top foi formado em Houston, Texas, em 1969, por Billy Gibbons (vocal e guitarra), Dusty Hill (baixo, teclados e vocal) e Frank Beard (bateria). O nome da banda a princípio seria ZZ King, em homenagem aos bluseiros B.B. King e ZZ Hill. Pouco tempo depois, optam em mudar para ZZ Top, em alusão a duas das mais populares marcas de
rolling paper – os papéis de seda usados para fechar baseados – Zig Zag e Top.

No ano seguinte lançam o ZZ Top’s First Album, e em 1972 o álbum Rio Grande Mud, que traz a faixa "Francine", o primeiro sucesso da banda. Em 1973 lançam Tres Hombres, que alcança grande êxito nas rádios com a faixa "La Grange", incluída na trilha do musical A Melhor Casa Suspeita do Texas. As faixas "Waitin’ for the Bus" e "Jesus Just Left Chicago" também fazem sucesso radiofônico, e o grupo é convidado para fazer a abertura de três shows dos Rolling Stones no Havaí.

Em 1975 é lançado Fandango!, com um lado ao vivo e um de estúdio. "Tush" é o hit do disco. Seguem com uma turnê ininterrupta até 1977, quando lançam o disco Tejas e a coletânea The Best of ZZ Top, e anunciam que estão entrando em férias por tempo indeterminado.

Reza a lenda que, durante esse hiato, a banda visitou uma cigana que profetizou que teriam uma carreira de grande sucesso, bem maior do que haviam alcançado até então, mas que em troca teriam que jamais voltar a se barbear. Lenda ou não, o ZZ Top voltou a se reunir em 1979 para o lançamento de
Degüello, e Gibbons e Hill apareceram irreconhecíveis ostentando impressionantes barbas que desciam até a altura do umbigo. Ironicamente, o único que não aderiu a barbudagem foi o baterista Frank Beard ("beard" quer dizer barba em inglês). O hit do disco é a faixa "Cheap Sunglasses", e desde então Gibbons e Hill passaram a se vestir de modo similar e excêntrico, sempre com óculos escuros e chapéus de cowboy ou bonés de baseball. Abusando da excentricidade, passaram a utilizar guitarras e contrabaixos customizados e chamativos, incluindo instrumentos com luzes de neon em seus contornos.


Em 1981, o disco
El Loco causa estranheza nos fãs ao incorporar sintetizadores e exagerados efeitos eletrônicos à sonoridade do grupo. No ano de 1983 a banda alcança o seu maior êxito comercial com o álbum Eliminator. Impulsionado pelo mega-hit "Gimme All Your Lovin’", Eliminator rende milhões de dólares ao grupo e ainda apresenta um novo ícone à imagem do trio, um cherry-red Ford Coupe 1933 hot rod que ilustra a capa do álbum, sendo utilizado também em vídeoclipes e material publicitário do grupo.

Em 1984, a Gillette Company, a maior fabricante de lâminas de barbear do mundo, oferece um milhão de dólares para Gibbons e Hill se barbearem em um comercial de televisão. Os barbudos recusam a oferta argumentando que “
ficam muito feios sem suas barbas”.

No ano seguinte, o álbum
Afterburned recrudesce as experiências em fundir sintetizadores e elementos eletrônicos com o blues rock, com um resultado difícil de digerir. Em 1990 lançam Recycler e aparecem em uma cena do filme De Volta para o Futuro – Parte III.


Em 1993 a banda tem a honra de introduzir o grupo inglês Cream ao
Rock and Roll Hall of Fame. Na ocasião, o ZZ Top declara que o trio de Eric Clapton, Jack Bruce e Ginger Baker foi a maior influência que tiveram desde o início de sua carreira. Seguem com os bons discos Antenna (1994), Rhythmeen (1996) e XXX (1999), que comemora os trinta anos de atividade do conjunto.

Em 2003 lançam o álbum Mescalero e a caixa com quatro CDs Chrome, Smoke & BBQ. No ano seguinte é lançada a coletânea Rancho Texicano e a banda é introduzida por Keith Richards ao Rock and Roll Hall of Fame. Em 2008 o grupo lança o seu primeiro DVD ao vivo, Live From Texas. No ano passado fizeram uma turnê em conjunto com o Aerosmith, que teve seu final antecipado devido a uma acidental queda do palco que tirou temporariamente de circulação o vocalista do Aerosmith Steven Tyler.

O ZZ Top segue se apresentando pelo mundo e em maio desembarca pela primeira vez no Brasil para dois shows em São Paulo e um em Porto Alegre. Os shows aconteceriam em dezembro de 2009, mas foram adiados. Agora finalmente poderemos conferir o desempenho dos barbudos ao vivo.


30/03/2010

War Room: Yes - The Yes Album (1971)


Por Fernando Bueno
Colecionador

Vamos dar início a mais uma edição do War Room. Gostaria de agradecer o meu amigo Adriano KCarão por ter aceitado participar. Como sei que ele gosta de progressivo, fico tranquilo em saber que não vou estar sozinho.

Daniel: Lá vem bomba para meu lado!

Fernando: Sempre quis colocar um disco do Yes na coluna, mas eu pensava que o Close to the Edge seria um choque muito grande para o Daniel. Então lembrei-me que esse disco é um bom começo para a banda.

KCarão: Mas algumas pessoas dizem que esse disco ainda não é progressivo.

Assunto: Yes - The Yes Album (1971)

Convidado especial: Adriano KCarão
(segundo Régis Tadeu, "um notório Zé Ruela")

Faixa 1: "Yours is No Disgrace"

Fernando: A introdução da música é ótima. Depois que encerra a primeira passagem e todos os instrumentos começam para valer, a gente percebe porque o Yes é respeitado. Musicalmente os caras são demais! As partes cantadas por todos são características da banda, e eles tem vozes que se encaixam. Para variar, o baixo de Chris Squire é o destaque. Muita gente fala que o Tony Kaye não é um músico à altura do Yes, mas eu não concordo.

Daniel: Já comecei aumentando o som para ver se o lance "prog" fica mais animado. Com certeza absoluta o Dream Theater bebeu e muito nessa fonte. O vocal entra, a musica pára, depois muda. Não gostei do vocal. Que é isso? Esperava mais do Yes. Não gosto do teclado muito em evidência. Nunca escutei um disco do Yes, só as mais famosas, e dessa aqui eu não gostei. Muita viagem e faltam quatro minutos ainda!

KCarão: Não gosto muito dessa música. Para falar a verdade, acho ela bem esquisitona. Tem um “que” de jogo de corrida. É um dos principais motivos pra esse disco não ser um dos meus preferidos do Yes. Mas a composição é perfeita, com todos os instrumentos mostrando como será o Yes daqui em diante. Mas ela é cantada em coro, e acho que o forte do Yes é o vocal solo ou o contraponto entre as diversas vozes

Daniel: O baixo é legal mesmo!

KCarão: Esse solo do Howe é muito bacana! O cara sabe dar expressão à guitarra. Ainda não é um Tales from Topographic Oceans, mas já dá pra ter uma ideia. Gostaria de pedir ao Daniel que não inserisse Dream Theater na conversa.

Fernando: As variações da música são característica da banda e do próprio estilo. Dá espaço para todos os instrumentos se destacarem. No fim ela muda totalmente, fica meo folk, mas sem perder o clima da música. A voz do Jon cantando sozinho aparece e ele como vocalista é fora de série. Essa guitarra do Howe é excepcional mesmo.

Faixa 2: "Clap"

Daniel: Que é isso? Começo tosqueira total! Tá brincando que é instrumental? O cara quer TRETA mesmo! Vai começar a chover aí de novo, seu micro vai pro saco outra vez!

Fernando: Gravada ao vivo. Mostra o quanto o Howe é gênio. É um conjunto de violões? Não!!! É o Steve Howe. É instrumental, eu sei. Mas não é interessante ouvir um cara que toca tão bem?

Daniel: Não!

KCarão: Mais uma que eu não curto. Aqui o Howe mostra a influência que ele teve do Chet Atkins. Li certa vez que o Steve Howe tocou essa música pro filho e ele bateu palmas ao final. Por isso, o título da música. Prefiro mil vezes a clássica "Mood for a Day". Como o Daniel não saca de prog, vou esclarecer que "Mood for a Day" é a música que o Di Ferrero do Nx Zero roubou e pôs na introdução de uma música dele com o Tulio Dek.

Faixa 3: "Starship Trooper"

KCarão: Eu costumo dividir o Yes Album em três grupos de duas músicas cada. O primeiro grupo são as músicas menos boas, menos "Yes": "Yours is No Disgrace" e "The Clap". O segundo são as músicas que funcionarão bem melhor ao vivo: "Starship Trooper" e "I've Seen All Good People". O terceiro grupo são as clássicas, são o Yes na essência, são o que faz desse disco, apesar de não ser 100%, um ótimo álbum: "A Venture" e "Perpetual Change".

Daniel: Preparem as pedras!!! Não gostei do vocal, me lembrou uma espécie de "Geedy Lee com sono". Não gostei do instrumental. Só realmente o baixo que aparece bem mesmo. E o baixista toca, hein? Mas o resto da música eu não gostei. E o "NXrosca" roubou a música? Que maravilha!!! Não gostei do vocal mesmo, no meio isso fica claro para mim, mesma sensação que tenho ao ouvir o Dream Theater.

KCarão: Esse trecho meio desconexo na metade da faixa pertence a uma música mais antiga do Yes chamada "For Everyone". Esse trecho ficava no final e era cantado pelo Chris Squire. Esse final da música, chamado "Wurm", é o momento mais lindo nos shows do Yes. É quando a guitarra começa a solar e improvisar, inclusive duelando com o teclado. Como eu disse, é uma música que ficará muito bem ao vivo, mas aqui ainda não está "acabada". Essa parte da guitarra, ainda assim, é linda aqui e em qualquer lugar!

Fernando: Um dos clássicos do Yes. Jon Anderson detona nessa. Sempre me impressiona o quando cada instrumento é claro nas gravações da banda. Não me lembro de nada que fique embolado. Melodia boa, timbre bonitos, tudo se encaixa. O que dizer dessa parte de violão e vozes?!?! Sensacional!!! A variação da música não é tão evidente quanto em outras. Tem variação, mas é mais natural. Solo lindo no fim.

Faixa 4: "I've Seen All Good People"

KCarão: Essa também vai ficar muito boa ao vivo. Eu sou um desafortunado que conheci essas músicas ao vivo e me frustrei ao ouvir as originais de estúdio. Mas já conheci músicas do Gentle Giant ao vivo (e olha que eles são muito bons ao vivo) e não me decepcionei quando ouvi as originais. Acho essas do Yes meio que faltando algo. Mas esse tecladinho do Tony Kaye tá bacana. Essa música é linda, apesar de tudo. Esse conjunto de vozes é celestial! No último momento do "refrão", os vocais de fundo vão cantar "all we are saying is give peace a chance" ... John Lennon. Agora entra a mudança pra segunda parte, composta pelo Chris Squire. Ao vivo fica uma entrada muito boa, com uma super quebrada da bateria, mas aqui ficou meio desconexo.

Daniel: Legal esse começo só cantando! Depois entra um clima legal nessa aqui. Gostei! Olha aí, tenho salvação! Não gosto do jeito que fazem as dobras na voz, mas até agora é a melhor do disco. Um clima viagem, mas sem as variações sem sentido. Legal isso do "give peace a chance". Depois do meio, mudam o instrumental e estragaram o clima que eu gostei.

KCarão: Isso são o que??? Duas guitarras e um baixo?! Não acredito que seja só uma guitarra e só um baixo. Cortaram o clima do Daniel. Que sacrílego (risos)!

Fernando: Clássico!!! Essa foi a primeira da banda, que depois que conheci eu queria escutar todo dia. Essa música é linda. Backing vocals detonando. Como já falei, as vozes encaixam muito bem. Na metade muda tudo. Na verdade a música continua a mesma, mas de um jeito diferente (risos). Uma música tão linda não poderia ficar sem a bateria do Bill Brufford, para mim o melhor de todos os bateristas.

Faixa 5: "A Venture"

KCarão: Essa é a primeira das peças que aqui já se encontram da forma mais perfeita possível. É bastante parecida com algumas coisas que o Yes vai fazer depois. O Anderson mostra a que veio de fato. Tudo perfeito! Esse refrão me deixa doido, como em todas as grandes músicas do Yes! O compasso é ternário, e eles se aproveitam disso bastante. Ficam mudando a localização do tempo forte pra gerar uma certa "instabilidade" no ritmo. Se fosse o Rick Wakeman nesse final ... Deixo em aberto (risos).

Fernando: Instrumental ótimo, mas não sei se é porque vem depois de um clássico, mas não me desce muito. Porém, não tenho do que falar mal. A música em si é ótima. Todos os instrumentos aparecendo, e bem. Bastante piano no fim, para deleite do Daniel.

Daniel: Intro legal. Isso que sempre imaginei ouvir no Yes. Não é o que eu escutaria em casa normalmente, mas aqui é o que esperava ouvir pensando no Yes. O vocal está bem encaixado e a música tem um clima "pra cima". Essa quebrada no ritmo parece que cada um está tocando uma coisa, em salas diferentes.

Faixa 6: "Perpetual Change"

Daniel: Começo meio pesado, bem tenso. A guitarra aparece em destaque. E o que acontece? Mudam o ritmo e entra o vocal que o Labrie tenta imitar descaradamente. Acho que essa música ficaria legal ouvindo sob efeito de entorpecentes. As paredes sairiam do lugar, o mundo rodando e você lá, firme e forte ouvindo o som e as coisas dançando. E faltam 5 minutos ainda!!! Tô ficando maluco sem as drogas (risos)!

KCarão: Essa é a minha favorita do disco, uma das melhores músicas do Yes! Inclusive, era o toque do meu despertador (risos)! Esse tema meio "abertura de jornal" é uma maravilha à parte. Aliás, cada uma das partes em que essa música se divide é uma maravilha à parte. São trechos totalmente diferentes uns das outros, mas funcionam perfeitamente em conjunto. Interessante que o título da música é "mudança perpétua", o que talvez seja esclarecedor nesse sentido. Os vocais em resposta ao Anderson são demais!!! Fica aquela coisa de variação entre tensão e repouso.

Fernando: Gosto demais dessa introdução. Ouvir isso ao vivo deve/deveria ser uma sensação incrível. A voz entra num clima bem calmo, apenas com uns comentários dos outros instrumentos. Deve ser fantástico ter um domínio tão grande de um instrumento. O Jon Anderson canta demais. A voz dele encaixa tão bem na banda que fico puto de saber que hoje os caras estão excursionando com um Jon Anderson cover.

KCarão: O Labrie perde mais tempo tentando imitar o Hetfield.

Daniel: O Labrie deveria sumir, mas guarda isso para outro War Room (risos)!

KCarão: Poxa! (Segurei um palavrão!) Esse momento mais rápido na segunda metade da música é simplesmente delirante! Várias melodias totalmente diferentes tocando simultaneamente! E, no fim, a guitarra pára, e o teclado e a bateria se entendem, abrindo pra volta do vocal! Demais!

Daniel: Tô ainda imaginando as paredes e o teto dançando. Tudo rodopiando!!! E a música rolando. Agora tudo parou e a música continua. Tô tonto! (ou sou tonto, sei lá) (risos).

Fernando: Que baixo!!! Daniel, para você entender um pouco, o Chris Squire é o Steve Harris do Yes. É o chefe.

Daniel: O baixo é a melhor coisa do disco! Comentários da capa! Horrível!

KCarão: A voz e o baixo talvez sejam os maiores destaques. O final parece que vai ser meio "Hey Jude" repetindo esse coro, mas aí por duas vezes há uma quebrada. É o Yes sempre surpreendendo! E depois eles surpreendem mais ainda, porque a coisa acaba ficando realmente "Hey Jude" (risos)!

Considerações e comentários finais

KCarão: Bem, esse não é um dos meus favoritos. E eu acho que o Fragile seria uma melhor introdução ao Yes. Mas as duas últimas músicas salvam o disco, tornando-o ótimo, apesar de tudo. Dizem que aqui é a transição do Yes ao prog. Na minha opinião, eles fizeram a transição nos dois primeiros discos. Este é prog e ponto final!

Fernando: Esse disco meio que prepara para o que viria depois. O Tony Kaye sai e entra o mago dos teclados Rick Wakeman. Tudo bem que não acho o Tony Kaye ruim, longe disso, mas percebemos que os caras queriam explorar todos os limites musicais, e ninguém melhor para ajudar ele que o Rick Wakeman. Esse é um ótimo disco para os "não-iniciados".

Daniel: Um disco prog ao extremo. Não gosto do estilo. Prefiro ouvir um prog metal no lugar disso. O ponto de destaque é o baixo, que simplesmente detona do começo ao fim. As constantes mudanças e viagens devem fazer a alegria dos fãs, mas não é o que gosto de ouvir. Achei a gravação fraca quando se leva em conta os vocais e os backings. Não compraria o disco e, na verdade, vou deletá-lo agora (risos).

Fernando: A capa é fraquinha mesmo.

KCarão: Realmente, o Daniel ia desmaiar se ouvisse o Close to the Edge.

Fernando: Com certeza. Ainda bem que não coloquei ele.

Daniel: Tenho que descobrir algo que o Fernamdo não goste para torturá-lo e retribuir as gentilezas!

Fernando: E, para falar a verdade, queria que fosse o Close to the Edge, a obra-prima suprema do progressivo.

KCarão: Obrigado ao Bueno pelo convite e ao Daniel pelos comentários tão lisonjeiros à minha banda preferida!

Daniel: Desculpa aí (risos)!

Fernando: Na verdade, os agradecimentos deveriam vir primeiro da minha pessoa. O KCarão, para variar, atrapalhando o andamento das coisas.

KCarão: Sugiro ao Daniel que saia do comodismo. Aquilo que não agrada hoje pode agradar com o tempo.

Fernando: Mas na verdade não posso agradecer ninguém por escutar esse disco. Vocês que deveriam me agradecer por escolher esse que é um dos três melhores do Yes.

Daniel: Não é comodismo, juro que não é. Simplesmente tenho uma ideia quando quero escutar algo. Tenho certeza que o clima ideal pede a musica ideal. E esse disco pode ter a hora certa!

Fernando: Daniel, fico no aguardo de uma nova sugestão e do próximo War Room. Adriano, obrigado novamente pela participação.

Daniel: Abraço pessoal! Até a próxima!

KCarão: Até!


29/03/2010

Podcast Collector´s Room #27 - Covers desconhecidos


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

A nova edição do podcast da Collector´s Room está muito especial! Mergulhamos fundo no baú do rock and roll, tiramos a poeira, limpamos o mofo e selecionamos alguns dos covers mais desconhecidos da história da música pra você!

Nessa edição #27 do podcast da Collector´s Room você vai conhecer releituras de clássicos do rock que estavam cobertas por toneladas de teias de aranha! Você vai ouvir sons que pouca gente conhece, pescados do lado mais obscuro do rock pelo editor da Collector´s, Ricardo Seelig.


Nos comentários, deixe sua opinião sobre as faixas e conte se você já conhecia alguma delas!

Aumente o volume e faça essa viagem pela tempo com a gente!

Tracklist:
Walter Rossi - Going Down
Álbum: Walter Rossi (1976)

Josefus - Gimme Shelter
Álbum: Dead Man (1970)

Euclid - Gimme Some Lovin´
Álbum: Heavy Equipment (1970)

Jody Grind - Paint it Black
Álbum: Far Carnal (1970)

Yuya Uchida & The Flowers - White Room
Álbum: Challenge! (1969)

Armaggedon - Better by You, Better than Me
Álbum: Armaggedon (1970)

Carson - Hey Joe
Álbum: On the Air (1973)

Argus - Superstition
Álbum: Argus (1973)

Billy Cox Nitro Function - You Really Got Me
Álbum: Nitro Function (1972)

Growl - Hound Dog
Álbum: Growl (1974)

Fear Itself - Born Under a Bad Sign
Álbum: Fear Itself (1969)

Heavy Cruiser - C´Mon Everybody
Álbum: Heavy Cruiser (1972)

Crow - Evil Woman
Álbum: Crow Music (1969)

Blind Ravage - Susie-Q
Álbum: Blind Ravage (1972)

Green Bullfrog - My Baby Left Me
Álbum: Green Bullfrog (1972)

Joseph - House of the Rising Sun
Álbum: Stoned Age Man (1970)

Flower Travellin´ Band - Black Sabbath
Álbum: Anywhere (1970)


Prateleira do Cadão: um furacão chamado Betty Davis


Por Ricardo Seelig
Colecionador

Linda, sensual e com uma voz única, Betty Davis é uma das figuras mais influentes da história do funk. Nomes hoje consagrados como Red Hot Chili Peppers, Prince, The Roots, Rick James, Outkast, Erykah Badu e Macy Gray apresentam inegável influência da música repleta de personalidade e sensualidade da cantora, e não soariam como soam hoje caso Betty Davis não tivesse existido.

Nascida em 26 de julho de 1945 na cidade de Durham, no estado norte-americano da Carolina do Norte, Betty Mabry (seu sobrenome de batismo) mudou-se para Nova York no início da década de 60 e lá começou a trabalhar como modelo, realizando editoriais para revistas como Seventeen, Ebony e Glamour. O trabalho como modelo a projetou no cenário de celebridades da Big Apple, e a partir de 1966 Betty passou a frequentar as festas mais disputadas da cidade. Foi nesses eventos badalados que a bela modelo topou com artistas do porte de Sly Stone, Jimi Hendrix e Miles Davis, encontros que mudaram a sua vida para sempre.

A afinidade com Hendrix e Miles foi quase instantânea. Logo transformou-se em grande amiga do primeiro, fazendo parte do seu círculo íntimo. Em relação a Miles, a amizade evoluiu para um tórrido romance, e os dois acabaram se casando em setembro de 1968. Com o casamento, Betty alterou o seu sobrenome para Davis, enquanto Miles mergulhou em uma das fases mais criativas e inovadoras de sua longa carreira.


O impacto do relacionamento entre Miles e Betty pode ser sentido com bastante evidência na trajetória do mítico trompetista. O álbum Filles de Kilimanjaro, lançado em 29 de janeiro de 1969, traz uma foto de Betty Davis na capa, além de uma faixa chamada "Mademoiselle Mabry (Miss Mabry)", gravada no mesmo mês do casamento dos dois e dedicada à cantora.

Em sua autobiografia, Miles Davis credita a Betty, sua segunda esposa, a semente fundamental que o levou a explorar novos caminhos musicais no final dos anos sessenta, apresentando-o ao rock psicodélico da Jimi Hendrix Experience e ao funk inovador de Sly & Family Stone. A influência da música de Hendrix e de Stone na obra de Miles pode ser sentida em toda a sua plenitude no fantástico álbum duplo Bitches Brew, lançado em abril de 1970. Nesse disco, Miles Davis reinventou sua música, fundindo o jazz ao rock e ao funk em um trabalho que é considerado pelos críticos como o responsável pela criação de um novo gênero, o fusion.

Betty Davis também influenciou o visual de Miles no período em que esteve casa com o músico. Seu cabelereiro e seu estilista transformaram-se também no cabelereiro e no estilista de Miles, renovando a imagem e o figurino do trompetista, que passou a desfilar com um visual que refletia as inovações sonoras que estava produzindo naqueles anos, contrastando com o modo de vestir sóbrio e elegante dos tempos de Kind of Blue, de 1959.


O casamento chegou ao fim devido aos boatos e às desconfianças de Miles a respeito de um provável caso de Betty com Jimi Hendrix, affair esse sempre negado pela cantora. O fato é que Miles e Hendrix haviam se aproximado bastante e alimentavam a ideia de gravar juntos, plano esse que não se concretizou devido à morte precoce do genial guitarrista, em 28 de setembro de 1970.

Com a separação, Betty Davis mudou-se para Londres, onde retomou a sua carreira de modelo. Os anos ao lado de Miles fizeram com que Betty, que sempre gostou de música, se interessasse ainda mais pela coisa, e ela começou a compor algumas canções ainda na Inglaterra. De volta aos Estados Unidos, rumou para Los Angeles com a intenção de gravar um álbum ao lado do guitarrista Carlos Santana, mas isso acabou não acontecendo. A cantora, então, reuniu um grupo de talentosos músicos de funk da costa oeste e, com a ajuda de feras como Neal Schon (na época na banda de Santana), Larry Graham, Sylvester e as Pointer Sisters, registrou as canções que iriam fazer parte de seu primeiro álbum.


Lançado em 1973, Betty Davis, o disco, é um clássico incontestável do funk setentista. A principal característica do play é a alquimia perfeita entre grooves cheios de balanço e guitarras pesadas, como fica claro na faixa de abertura, a antológica "If I´m Luck I Might Get Picked Up". A voz de Betty varia entre momentos mais raivosos e gritados (como na já citada faixa que abre o disco) e outros mais sensuais e sussurrados, como em "Anti-Love Song". Outros destaques são as faixas "Walkin´ Up the Road", "Your Man, My Man", "Steppin´ in Her I Miller Shoes" (que fala sobre uma jovem garota vinda do interior com grandes sonhos, mas que acaba sendo vítima da indústria do entretenimento - segundo a própria Betty, a música fala de Devon Wilson, que namorou Jimi Hendrix no período em que o guitarrista e Betty eram grandes amigos. Wilson também foi homenageada por Hendrix na canção "Angel") e "Game is My Middle Name".

O álbum gerou reações contraditórias na imprensa. Ao mesmo tempo em que elogiavam os dotes vocais de Betty e o talento dos músicos de sua banda, os críticos reclamavam das letras sugestivas, repletas de insinuações sexuais, e da própria postura de Betty Davis, sexualmente explícita. Lembrem-se: estamos falando de uma cantora negra no início dos anos setenta nos Estados Unidos, falando abertamente de sexo. Imaginem só o reboliço que isso não causou!

O disco gerou dois singles, "If I´m Luck I Might Get Picked Up / Steppin´ In Her I Miller Shoes" e "Ooh Yeah / In the Meantime". "If I´m Luck I Might Get Picked Up" tocou bastante nas rádios, indo além dos limites da audiência negra. Mesmo assim, o disco não vendeu muito, e acabou ficando fora de catálogo por quase vinte anos, até ser relançado em 1993 pelo selo Vinyl Experience em CD e LP. Em 2007 o álbum ganhou uma bela versão em CD e LP pela gravadora Light in the Attic, que trouxe como bônus três faixas - "Come Take Me", "You Won´t See Me in the Morning" e "I Will Take That Ride".


Em 1974 chegou às lojas o seu segundo disco, com o provocativo título de They Say I´m Different, embalado em uma capa onde Betty está vestida com um figurino que remete à mitologia egípcia. Menos rock e mais funk que a estreia, They Say I´m Different abre com a sensualíssima "Shoo-B-Doop and Cop Him", recheada pelos vocais manhosos da cantora. Esse segundo disco mantém a consistência do trabalho de Betty Davis, e apresenta várias faixas de destaque, como a já citada "Shoo-B-Doop and Cop Him", "He Was a Big Freak", a sensacional "Don´t Call Her No Tramp", "70´s Blues", a balada "Special People" e a poderosa faixa-título.

Foi lançado apenas um single para o play, da faixa "Git in There", e a boa repercussão do álbum, aliada às performáticas apresentações ao vivo de Betty, fizeram seu nome crescer bastante entre os aficcionados pelo funk e pela então nascente cultura da dança, que levava multidões de jovens aos clubes noturnos de Nova York naquela primeira metade dos anos setenta e que culminaria, alguns anos mais tarde, com o surgimento da disco music, batizada aqui no Brasil como "discoteca".


O impacto positivo fez com que Betty Davis fosse contratada pela Island Records, deixando a Just Sunshine, gravadora que havia lançado seus dois primeiros discos. A estreia da cantora em uma major ocorreu com o lançamento de Nasty Gal, em 1975. O álbum mantém as características marcantes dos dois primeiros trabalhos, acrescentando marcantes tintas psicodélicas ao funk rock sensual de Betty.

A capa explorava mais uma vez seu sex appeal, e o conteúdo do disco deixava isso ainda mais evidente. Entre as dez faixas do play, destaco a que dá nome ao álbum, "Talkin´ Trash", "Dedicated to the Press", a espetacular "F.U.N.K." - uma paulada visivelmente influenciada por Jimi Hendrix, e onde Betty clama pela presença do guitarrista de forma personalíssima -, a contagiante "Shut Off the Lights" e "This is It!". Dois singles foram lançados - "Shut Off the Lights / He Was a Big Freak" e "Talkin´ Trash / You and I" -, sendo que "Shut Off the Lights" tornou-se uma faixa obrigatória nos sets dos DJs mais antenados daquela época.


Ao mesmo tempo em que caía na graça de DJs e da juventude mais mente aberta, Betty Davis sofria críticas e boicotes por parte de grupos religiosos conservadores, que não gostavam nada de sua atitude abertamente sexual e de suas performances provocativas em cima dos palcos. Betty gravou em 1976 seu quarto álbum, Crashin´ from Passion, mas o trabalho não chegou a ser lançado. Desanimada, a cantora retirou-se da cena musical.


Com o passar dos anos os discos de Betty Davis foram redescobertos por colecionadores de todo o mundo, e um culto em torno da cantora começou a surgir. Esse renascimento alcançou o seu ápice em 01 de maio de 2007, quando a gravadora Light in the Attic Records relançou os dois primeiros LPs, Betty Davis e They Say I´m Different. A demanda foi tamanha que a Light in the Attic repetiu a dose em 2009, recolocando no mercado o terceiro disco de Betty, Nasty Gal, e o até então quarto trabalho dela, cujo título original era Crashin´ from Passion mas que foi relançado como Is It Love or Desire?. Todos esses relançamentos foram remasterizados e incluem extensos encartes com muitas informações. Um fato interessante é que Crashin´ from Passion, considerado por uma grande parcela dos críticos e pelos próprios músicos que o gravaram como o melhor trabalho da carreira de Betty, não viu a luz do dia por longos 33 anos, já que foi gravado em 1976 e lançado apenas em 2009.

Para quem se interessar, em 2000 foi lançada uma excelente coletânea chamada Anti-Love Song: The Best of Betty Davis, que serve como perfeita introdução ao universo sonoro da cantora.


Betty Davis é, indiscutivelmente, uma das artistas mais influentes surgidas nos anos sessenta e setenta. Figura fundamental na transformação estética e sonora de Miles Davis, mutação essa que gerou obras-primas como In a Silent Way, Bitches Brew e Tribute to Jack Johnson, possui também uma ótima, apesar de curta, carreira solo, com discos sensacionais que merecem ser descobertos por toda e qualquer pessoa que gosta de música. Se você é uma delas, mergulhe agora mesmo em seus discos e descubra um universo repleto de balanço, groove e muita sensualidade.