14/05/2010

McCartney (1970)


Por Cezar “Dudy” Duarte
Roqueiro e English Teacher

Coube a ele oficializar o que já era mais do que iminente. Em 10 de abril de 1970, a separação da banda mais emblemática da história do rock, The Beatles, era anunciada, por aquele que, ironicamente, foi quem mais queria levar o grupo de Liverpool adiante. Paul McCartney, naquele momento, lançava seu primeiro disco solo, apenas com seu famoso sobrenome.


Primeiro solo? Usando uma linguagem jurídica, há quem diga que o primeiro trabalho individual de fato, não de direito, foi “Yesterday”, em 1965. Primeira gravação só com um beatle, sem mencionar que praticamente toda composição é de Paul, apesar dos créditos incluírem o nome de Lennon (questão contratual). Em “Yesterday”, Paul canta e toca violão acompanhado por um conjunto de cordas arranjado pelo produtor George Martin. Na época, pensou-se em lançá-la em forma de compacto, como um projeto paralelo do baixista. A ideia foi rapidamente descartada. No entanto, “Yesterday” chegou ao mercado americano como compacto, mas com o nome dos Beatles.

No ano seguinte, 1966, antecedendo as primeiras gravações de Sgt.Pepper’s, Paul recebe a proposta para fazer a trilha sonora do filme The Family Way, dirigido por Roy Boulting. Para enfrentar a empreitada, Paul pede auxílio ao amigo George Martin para composição dos temas instrumentais. A faixa principal é “Love in the open air”, que ganharia 13 variações ao longo do LP, além de mais duas versões diferentes lançadas em um compacto. Salienta-se que Paul não toca nenhum instrumento, há, porém, algumas fontes que dizem que ele teria tocado baixo e piano. George Martin acaba sendo o verdadeiro regente através de sua própria orquestra. O lançamento da trilha ocorre em 12 de junho de 1967.


Voltando para a concepção do solo McCartney. Os primeiros passos foram dados em dezembro de 1969, em um estúdio montado em sua casa, até que o disco pronto chegasse às lojas em 17 de abril de 1970. A grande força motora que o fez partir sozinho para as sessões foi um dolorido sentimento de abandono em relação aos seus companheiros.


Nos idos de 69, John, George e Ringo queriam, a todo custo, que o empresário espertalhão, Allen Klein, tomasse conta dos confusos negócios da empresa do grupo chamada Apple. Paul se recusava, terminantemente, assinar o contrato que daria plenos poderes à Klein para fazer o que quisesse em nome dos Beatles. O desacordo foi parar na justiça, até que a dissolução judicial ocorresse em meados da década de 70. Para combater as feridas criadas pelo embate entre ele e os outros beatles, McCartney se dedica de corpo e alma à música, tendo ao seu lado, o total apoio de sua amada companheira, Linda McCartney, grande responsável por manter a veia musical de Paul pulsando em uma longa e promissora carreira solo, com e sem os Wings.

O Disco

Paul toca todos os instrumentos sozinho em McCartney. Como já foi exposto, a maior parte das gravações aconteceu em sua residência, em Londres. Algumas faixas foram finalizadas nos estúdios Morgan e Abbey Road. Para evitar o assédio do público e da imprensa, Linda reservou os dias e horários para as sessões usando o pseudônimo Billy Martin. Assim, Paul teria a tranqüilidade suficiente para se dedicar às gravações da maneira que achasse mais conveniente. Linda, também, emprestou sua voz em algumas faixas fazendo backing vocal e harmonias. Foi incluído na embalagem do disco – edição especial para imprensa da época – um questionário produzido por Derek Taylor e Peter Brown (assessores de imprensa da Apple) no qual, Paul responde a várias questões. Entre suas respostas, está a declaração mais bombástica: Paul diz que está fora dos Beatles e, consequentemente, a banda deixava de existir.


As Músicas

“The Lovely Linda” (0:44) - Ode de Paul à sua adorável companheira. Existe uma versão mais longa que permanece inédita.

“That would be something” (2:37) - Inicialmente, era uma faixa mais curta e mais próxima de um folk. Simples e cativante.

“Valentine Day” (1:40) - Instrumental usado para testar o gravador caseiro Studer de quatro canais, portátil, que acabou sendo incluído no disco.

“Every Night” (2:31) - Chegou a ser tocada pelos Beatles, mas não aproveitada pelo grupo. A letra teve sua origem na Escócia, em 1968, e foi finalizada na Grécia. Balada acústica dentro dos padrões dos Beatles.

“Hot as Sun/Glasses” (2:07) - Segunda faixa instrumental, composta em 1959. É na verdade, a junção de duas partes instrumentais distintas. No final, Paul canta alguns segundos da música “Suicide” que teria sido composta para Frank Sinatra.

“Junk” (1:54) - Começou a ser escrita em Rishikesh, India. “Jubilee” e “Junk in the yard” foram os primeiros títulos. Os Beatles chegaram a ensaiá-la e, fora cogitada para fazer parte de álbuns como White Album e Let it Be. Lenta, nostálgica com arranjo envolvente.

“Man We Was Lonely” (2:57) - A sétima faixa (em CD), conta com as harmonias de Linda que, também, teria tido uma pequena participação na letra. Música mais embalada, conta com um belo coro de Paul e Linda no refrão.

“Oo You” (2:48) - A princípio, era para ser uma faixa instrumental, até Paul criar a letra. O elogiado trabalho de guitarra e os agudos do vocal dão destaques à esta gravação.

“Momma Miss America” (4:05) - Fusão de dois temas instrumentais. O primeiro nome pensado foi “Rock’n’Roll Sprintime” . Paul toca, com maestria, “apenas” sete instrumentos neste número.

“Teddy Boy” (2:23) - Mais uma faixa vinda das últimas sessões dos Beatles. Uma versão foi incluída no projeto Get Back até que este se transformasse no disco Let it Be, sem a referida faixa. Balada acústica de bonita melodia, típica do talento de Paul.

“Singalong Junk” (2:35) - Variação instrumental mais longa que a faixa seis (“Junk”). Ela faria parte da trilha sonora do filme Jerry Maguire, em 1995.

“Maybe I’m Amazed” (3:50) - Pode ser considerada o carro-chefe do disco. Uma das melhores músicas que Paul já fez em toda sua carreira, sem exagero. O próprio já admitiu ser uma de suas canções favoritas. A letra é dedicada à Linda, no qual, ele pede a presença dela para ajudá-lo a superar a difícil adaptação aos novos tempos como ex-Beatle. A versão ao vivo no disco triplo, Wings Over America, de 1976, pode ser considerada a execução definitiva.

“Kreen-Akrore” (4:14) - Paul encerra o disco com mais um instrumental. O título foi inspirado em um documentário chamado The Tribe that Hides From Man (A tribo que se esconde do homem). No caso, Kreen-Ákrore é o nome de uma tribo de nativos da selva amazônica, defensores ferrenhos de seu território. Paul tenta criar sons com base naquilo que ele captou vendo o programa.

Curiosidade: Duas faixas ficaram de fora de McCartney e continuam inéditas: “Indeed I do” e “1982”.


A importância do debut solo de Paul McCartney não se credita, apenas, por se tratar de um trabalho de um ex-beatle. A musicalidade ao longo das 13 faixas justifica, de sobremaneira, a exuberância deste multiinstrumentista que domina, como poucos, o ofício de construir magníficas melodias para o deleite dos ouvidos receptivos à boa música.

O disco é igualmente especial por manter, de alguma forma, a atmosfera dos Beatles. É quase um registro do quarteto feito por apenas um integrante. As canções geradas ainda com os Beatles se encaixam perfeitamente com o restante do repertório. Sim, a qualidade das primeiras gravações dos ex-beatles, provam que Abbey Road e Let it Be não seriam o limite do que eles ainda podiam fazer juntos. De certa maneira, a saga dos Beatles continuou com muito da qualidade que os quatro produziram separadamente em suas respectivas carreiras. McCartney não é exceção.


Créditos:
Paul McCartney: baixo, guitarra, violão, piano, mellotron, bateria, órgão, xilofone de brinquedo, gravação, produção.
Linda McCartney: Vocais, teclados, fotos e capa.

Data de Lançamento:
17 de abril de 1970 (RU)
20 de abril de 1970 (EUA)

Posição nas paradas:
EUA: 1º lugar (Billboard), tendo permanecido por 47 semanas no Top 200.
RU: 2º lugar (UK Albums Chart), tendo permanecido 32 semanas do Top 200.

Este texto é uma parte de um grande especial sobre o fim dos Beatles e o primeiro disco solo de cada integrante após o término, feito para o site Os Armênios. Confira a íntegra em www.osarmenios.com.br


War Room: King Crimson - Red (1974)


Por Fernando Bueno
Colecionador
Collector´s Room

A algum tempo estamos tentando apresentar algumas bandas de progressivo para o Daniel. Nas conversas virtuais entre alguns leitores do blog e membros da comunidade da Collector´s Room comentamos de vários discos e esse disco do King Crimson foi uma unanimidade. Assim foi decidido que a próxima edição seria feita com ele. Para isso foram convocados duas pessoas para participar, afinal a tarefa de fazer o Daniel gostar e respeitar a história das bandas de progressivo está sendo árdua. A iniciativa de fazermos com esse disco foi feita por um membro da comunidade: o cearense Adriano KCarão e ele apresenta o disco.


KCarão: Gente, o disco que escolhi para essa War Room histórica foi o Red, do King Crimson. Escolhi o disco pra mostrar ao Daniel que o prog não é apenas aquele estereótipo que ele tem formado na cabeça. Espero que ele ao menos fale menos besteira sem fundamento de agora em diante.

Assunto: King Crimson - Red (1974)
Convidados especiais: Adriano KCarão e Diogo Bizzoto

Faixa 1 – “Red”
KCarão: A faixa-título é instrumental, mas já mostra que o prog feito pelo King Crimson não pode ser facilmente relacionado a sinfonismos, magos e duendes. Acredito eu que o Robert Fripp [guitarrista] foi muito importante pra dissociar o peso do blues, antecipando o advento do Metal britânico dos anos 80.

Daniel: Começo mais movimentado, mas já tá demorando o vocal. Uma guitarra mais evidente que os outros progs que escutamos aqui. Se for intrumental, já começo a não gostar. É instrumental, não gostei. Gostei do batera!!

Diogo: Já começa mostrando ao que veio. Começa de cara com a música mais pesada do King Crimson até então. Não apenas isso, mas a ênfase no formato tradicional guitarra+baixo+bateria está mais evidente do que nunca. Esse riff inicial é hipnótico, apesar de estar um pouco fora dos padrões esperados em uma música mais hard rock. Som mais orgânico que isso impossível. Entrou um cello agora e caiu como uma luva na música. Fantástico!

KCarão: Esse riff é viciante! A música tá sofrendo as primeiras alterações mais significativas, justificando o título de prog. Interessante como o King Crimson é considerado por alguns o legítimo pai do prog, tendo lançado o In the Court of the Crimson King, mas o som dos caras transcendem bastante os padrões mais sinfônicos do prog! O baterista desse disco é o Bill Bruford, originalmente baterista do Yes.

Diogo: Bill Bruford, só pra variar, dá show, mostrando que não é à toa considerado um dos grandes bateristas em todos os tempos. Seu instrumento está por todos os lugares, o cara espanca com violência mesmo. Sou suspeito pra falar do cara, é um dos meus bateristas favoritos em todos os tempos.

Fernando: Essa música é um clássico! É muito interessante como uma base tão simples pode ser tão legal. Isso chama atenção vindo de uma banda de prog, que sempre primou pela técnica nas músicas. É o tipo de música que pode tocar “para sempre”. Gosto demais do baixo e bateria. Nessa época da banda eles eram um trio apenas, mas que trio hein!?!?

Faixa 2 – “Fallen Angel”
Diogo: A timbragem da guitarra do Fripp é toda atípica, errada, e linda! Agora entrou nosso amigo John Wetton. Sempre coloco em dúvida qual o melhor vocalista que passou pelo King Crimson, se Wetton ou Greg Lake. É uma parada duríssima. Agora um raro momento onde um violão aparece no disco.

KCarão: Essa música é uma das melhores do King Crimson. Ela me lembra Silverchair, principalmente no refrão [Tô preparado pras pedradas dos prog-xiitas!]. O vocal do refrão, associado à barulheira meio indistinta e ao clima melancólico pesado de toda a música me fazem relacionar essa música com o Grunge. Mais do que isso: eu acho que essa música É um grunge! A guitarra repetindo sempre a mesma nota, com algumas variações... Isso junto com esse metal, que nem sei qual é... Simplicidade genial do mestre Fripp!

Daniel: Não é o tipo de musica que gosto de ouvir. É mais legal que os outros que ouvimos, mas muito parado! Depois da faixa instrumental já fico esperando o pior. Não é ruim, só gosto de outro estilo. É, não gostei, to me esforçando. O batera e as viradas são o que salva!

Diogo: Já vi gente do grunge citando esse disco como influência, e até entendo, mas os discípulos jamais fizeram algo que se comparasse ao que os mestres fizeram nesse disco. Agora entraram vários metais, cortesia de ex-membros, como Ian McDonald e Mel Collins. Gosto muito principalmente do primeiro, que também é um dos fundadores do Foreigner.

Fernando: Finalmente, para alívio do Daniel aparece a voz. E que voz!!! John Wetton é um gênio. É só ver o currículo do cara: King Crimson, UK, Uriah Heep, Roxy Music, Ásia e outros. Essa música é lenta e calma, mas tem um clima tenso pontuado pelo instrumento de sopro que é uma corneta, ao meu ver. As guitarras tomam conta desses disco ao contrário dos outros discos da banda até então.

KCarão: Já ouvi uma história de que o Kurt fez o In Utero totalmente baseado no Red... Mas não sei até onde isso é lenda. O segundo refrão demora a entrar. Isso me faz lembrar "Cirkus", do terceiro disco do King Crimson, o Islands. Nessa música um dos momentos em que o refrão entra ele também entra atrasado. Pequenos detalhes que constróem um clássico!

Daniel: PQP, Nirvana, é uma bosta!

Diogo: Não gosto de Nirvana, reconheço sua importância, mas não adianta voir um pessoal e tentar me empurrar goela abaixo... não desce de jeito algum

Faixa 3 – “One More Red Nightmare”
Diogo: Minhanossasinhora!!! Essa é destruidora! Sério, o que esse Bil Bruford faz é um absurdo! Em meio a Robert Fripp e John Wetton ele consegue se destacar, ele brinca com a bateria. Esse riff da guitarra junto com a bateria é coisa pra nunca mais esquecer, mesmo quando velho e gagá. O Bruford "tempera" a música com uma orgia percussiva. O cara é um cavalo.

KCarão: Essa arrepia até os cabelos do mouse! Um riff viciante, um pouco parecido com o riff da faixa-título, mas que vem sempre seguido de umas variações na percussão. Acho que o Bruford merece muito mérito nessa faixa. Uma pequena variação de ritmo e tema. Pra piorar, é instrumental. Coitado do Daniel!

Fernando: Eu sempre acho que essa música deveria estar logo após a faixa título. Ela tem um seguimento com riff e andamento que poderia muito bem ser um sequência, inclusive tem a palavra “Red” no título também. A variação no meio dela é bem legal e também com passagens mais simples como é a toada do disco. O solo de saxofone também encaixa muito bem. Engraçado que quando eu era moleque e radical eu não gostava de instrumentos de sopro. Hoje vejo que isso é uma bobagem.

Daniel: Olha só, cada vez mais desisto de ouvir coisas "prog". A bateria é muito boa, a musica é mais pesada, mas a gravação e mixagem (talvez pelo ano do disco) não me agrada.

KCarão: Sax e guitarra. Uma ótima combinação em se tratando de King Crimson! Mas eu ainda prefiro a combinação guitarra-violino do disco anterior.

Diogo: Imagino que essa produção e mixagem mais crua seja até proposital. É só comparar com os discos anteriores, que também contavam com praticamente a mesma formação. Eu gosto muito. É orgânico, passa longe dessas merdas que se fazem hoje em dia, com aqueles bumbos "clicados", se sobrepondo a tudo. O som de caixa do Bill Bruford então...é coisa pra tese de doutorado.

KCarão: Esse som de palmas, são palmas de fato?!

Diogo: Não faço idéia...de repente...mas lembre-se que o Jamie Muir não estava mais na banda!

KCarão: Sim... Mas os membros restantes também tinham mãos... (risos)!

Daniel: Hahahahahahaha!!!

Diogo: Já sentiram a falta do mellotron? Algo quase impensável anos atrás em se tratando de King Crimson

KCarão: Agora eu imaginei o Daniel sentindo falta do mellotron! Hahah!

Diogo: Hehehehe!!!

Daniel: Hahaha!!! Mellotron para mim é aquele brinquedo que a Eliana lançou...

Fernando: O Daniel nunca sentiria falta do mellotron, afinal o Warrant não e o Poison nem devem saber o que é isso...

Faixa 4 – “Providence”
Diogo: Bom, nos preparemos para as pedras, pois essa o Daniel vai odiar. Ao contrário das outras músicas do disco, essa foi gravada ao vivo, na cidade de... Providence(!!), nos EUA.

KCarão: Essa aqui a gente deveria pular, se a intenção for realmente mostrar ao Daniel algum aspecto positivo do prog... Nem eu entendi essa música perfeitamente bem. Ela ainda é meio que uma incógnita pra mim. O Diogo está com o ProgArchives aberto! Não vale!

Fernando: Quem disse que o disco seria só guitarra/baixo/bateria. Olha aí uma introdução de violino. Música perfeita para o Daniel falar que prog é ruim. A música “não começa” e é instrumental (risos). Na verdade é um total improviso. Resultado da época que a banda entrava no palco sem ter um set list montado. Os caras iam tocando o que desse na telha. Tenho alguns ao vivo dessa época e acho sensacional.

Diogo: Essa música também me faz pensar até que ponto o David Cross teve participação ativa no disco, dado que, além dele ter deixado a banda no meio das gravações, seu violino aparece bem mais discretamente no disco, exceção feita à essa faixa

Daniel: QUE BOSTA! E tem mais de 8 min!

KCarão: Talvez seja uma pena o Cross ter saído, afinal boa parte do que se tem no Larks Tongue in the Aspic [meu disco favorito do King Crimson] foi por conta dele. "Talking Drum" é uma das minhas músicas favoritas de todos os tempos! Finalmente o Daniel falou. Eu tava super ansioso! Achei que ele tivesse infartado. Aposto que ele ligou a TV e pôs um DVD do Babado Novo para rolar. Se não ele dorme e perde o fim do War Room.

Diogo: Esse disco tem uma coisa em comum com o primeiro, o In The Court of the Crimson King: a faixa quatro de ambos os discos é uma improvisação, nesse caso totalmente instrumental, no outro quase. E nos dois casos divide os fãs. Já vi gente diznedo que "Moonchild" é a melhor do primeiro disco, e já vi gente dizendo que é desnecessária

Fernando: Eu digo que "Moonchild" é indispensável.

Diogo: Aliás, se analisarmos bem o tracklist desses discos, encontraremos mais semelhanças, mas aí é assunto para uma análise mais aprofundada

Daniel: Fala sério, alguem consegue escutar isso? Vocês tão me zoando, não é possível.

KCarão: Eu curto "Moonchild", apesar de as improvisações dela serem um tanto misteriosas pra mim. Eu também costumava ver relação entre esse disco e o primeiro, e também com o Larks, mas não vou expor isso aqui. "Providence" me parece um retorno ao Starless and Bible Black, principalmente sabendo [agora] que ela foi gravada ao vivo!

Diogo: Daniel, essa cultura da improvisação é algo muito comum nas bandas dos anos 70, em grande parte uma herança do Jazz. Muita, mas muita gente detesta. Eu gosto, e sinto falta disso na maioria dos shows em que vou, onde as músicas são executadas “igual aos discos”.

Faixa 5 – “Starless”
Diogo: Sangue de Jesus!

KCarão: As pessoas costumam idolatrar essa faixa, mas eu prefiro as 3 primeiras. Apesar disso, acho essa música MEDONHA! E tá aí o mellotron! Para alegria do Daniel!

Diogo: O que vou falar de uma das minhas músicas favoritas de todos os tempos? Amo King Crimson, e outras músicas, como "Epitaph" e "In the Court of the Crimson King" também se encaixam nessa categoria "melhores músicas de todos os tempos". Mas isso aqui é um absurdo. Sim, o mellotron apareceu bem agora, e está combinando perfeitamente com o resto da instrumental. É muito difícil pensar um disco do King Crimson sem esse instrumento fantástico, que é uma das marcas registradas do progressivo.

Fernando: Pronto. Agora sim uma música prog/prog. Até então nós estávamos tendo um prog/fusion ou algo do tipo. Eu falo uma coisa. É impossível não gostar da voz do John Wetton. O mais engraçado é que o nome dessa música é Starless, uma das frases do refrão é ...Starless and Bible Black... e a música não está no disco chamado Starless and Bible Black. Para quem não conhece se confunde todo. Digo isso porque no início eu confundia. Eu iria deixar para falar do Bill Brufford somente nos comentários finais, mas não tem como. O cara arrasa.

KCarão: Essa música eu acho que foi feita pra dar a CERTEZA de que esse disco é Prog. Ainda assim, não é nenhum Prog sinfônico. É difícil definir o King Crimson. Alguns sequer aceitam que eles sejam prog a essa altura... Nunca vi o que o ProgArchives diz a respeito. Aliás, quero reafirmar que eu não ando lendo o ProgArchives, e eu acho essas definições bem divertidas, mas bem distantes da realidade.. Sequer servem pra apresentar uma banda a alguém que não a conhece!

Daniel: Estou tentando, me esforçando mesmo para gostar pelo meu novo amigo KCarão, mas o sono tá batendo forte! Tédio geral. Desculpe, mas não é o que gosto.

Diogo: "Starless" tem tudo o que um ouvinte do King Crimson pode esperar da banda, ao menos até a época. Se eles tivessem encerrado a carreira aí, nada mais precisaria ser acrescentado. Ainda bem que voltaram nos anos 80 e fizeram mais e mais maravilhas, expandindo os horizontes do gênero até os mais longínquos limites, fugindo dos clichês e demonstrando muita personalidade, sem ter vergonha de admitir a influência de músicos mais jovens.

KCarão: Grato ao Daniel pelas belas palavras. Prometo que vou me esforçar pra gostar daquelas cantoras de axé!

Diogo: KCarão, você sabe se por acaso o John Wetton tocos esse disco todo com palheta??? Me parece...

KCarão: É interessante como as composições do King Crimson são construções complexas baseadas em temas bem simples que se repetem até a exaustão. Basta ver esse momento instrumental de "Starless".

Daniel: ..."as composições do KC são construções complexas baseadas em temas bem simples que se repetem até a exaustão" – Resumindo, é uma bosta!

KCarão: Diogo, não faço idéia! Esse baixo distorcido não ajuda. Pois é, o negócio é violento mesmo

Diogo: Mas dado que é um disco recheado de overdubs, ele pode ter tocado partes diferentes de maneiras diferentes.

KCarão: Olha só! Os caras reinventam o Prog! Não abandonam o peso em momento algum, mas você não pode definir o que eles tão fazendo como outra coisa senão prog! Agora o violino retoma o tema principal...

Diogo: É prog até o osso, mas mesmo assim passa longe do Yes, do Genesis, do Gentle Giant, do Moody Blues. Essa é a beleza do gênero: a variedade de tudo que pode ser abordado pelos artistas.

Fernando: A melodia do fim da música é linda. Fecha o disco convidando a ouvi-lo de novo.

KCarão: Eu não gosto muito dessa música, mas não posso deixar de admitir que é perfeita em sua construção. Tem todos os elementos que fazem uma ótima música do King Crimson!
Diogo: Esse final é mais pesado do que qualquer banda de black metal jamais sonharia em ser.

KCarão: Esse fim tá me lembrando Anekdoten! Claro que a ordem é inversa. Essas bandas dos anos 90 devem MUITO a esse King Crimson inicial.

Diogo: O primeiro disco do Anekdoten é muito calcado no Red.

Considerações finais
Daniel: EU NAO GOSTEI!!!!

KCarão: Bem, o disco acabou. Agora, o Daniel precisa baixar o Larks Tongues in Aspic!

Diogo: Na minha nem sempre tão modesta opinião, esse disco se enquadra naquilo de melhor que a humanidade já ousou fazer na música. Ele consegue me deixar em dúvida sobre qual seria o melhor disco da banda: esse ou o primeiro. É um páreo duríssimo, mas ainda bem que posso me deleitar com os dois.

Daniel: EU NAO GOSTEI!!!!

Fernando: Esse disco foi muito importante para o King Crimson. Após inúmeras trocas de componentes e diversos problemas que a banda passou eles fazem um excelente disco com uma formação reduzida, mas queiram ou não essa formação era a nata do King Crimson. Como já falaram o interessante é que eles fizeram um disco prog, mas totalmente diferente do que as outras bandas faziam. Esse disco me lembra um pouco o Van der Graaf Generator, não sei por que. Sobre o Brufford eu o acho o melhor baterista do rock em geral e já li que mesmo entre os bateristas do jazz ele se destaca. Não conheço muito o jazz, mas essa informação é muito importante. Sou fãzaço do Jonh Wetton, acho sua carreira exemplar. E não tenho o que dizer do Robert Fripp. Lembro-me do show que fui do G3 a alguns anos atrás que tinha ele, o Joe Satriani e o Steve Vai. O show dele foi o primeiro e a galera que foi lá para ver malabarismos odiou. Mas eu me senti privilegiado de poder ter visto de perto (e bem de perto) um gênio como ele brincando com o Frippertronics (que ninguem comentou aqui). Depois no fim os três guitarristas voltaram juntos e tocaram várias músicas, inclusive “Red”. Foi demais.

KCarão: Esse não é meu disco preferido do KC, mas minha intenção em escutá-lo aqui era mostrar ao Daniel como o prog pode ser pesado, como ele pode ter músicas construídas sobre estrofe, refrão, ponte ["Fallen Angel"] sem deixar de ser prog. Em outros discos do King Crimson também há ótimos exemplos da riqueza desse estilo, mas acho que o Red é o mais indicado. Não achei que ele fosse gostar de prog ao ouvir o Red, mas espero que essa experiência não tenha passado em branco. Quem sabe em vermelho? (risos).

Daniel: Senhores, obrigado pelo tempo e pela indicação do disco. É interessante ouvir algo que não ouviria normalmente. E agradeço pela paciência em tentar me mostrar algo que vocês gostam, mesmo sabendo que eu vou falar mal.

Diogo: Daniel, estou aqui preparando um documento onde você afirma que, mesmo após a audição desse disco, desiste de tentar gostar de prog. Preciso apenas da sua assinatura agora.

Daniel: Manda que eu assino!

KCarão: Desistiu Daniel?

Daniel: YES SIR!

KCarão: É um fracote. Eu ouvi umas 15 vezes os dois primeiros do Bon Jovi antes de desistir.

Diogo: Olha, se nem com o Yes Album e com o Red deu certo, acho melhor desistir. Já me comprometo, caso seja convocado para fazer mais um war room, não escolherei um disco progressivo.


13/05/2010

Classic Tracks: Crosby, Stills, Nash & Young - Carry On (1969)

Por Ronaldo Rodrigues

Colecionador

Apresentador do programa Estação Rádio Espacial

Solid Rock Radio


1969 foi o ápice criativo da carreira destes 4 músicos, que têm seus sobrenomes estampados nos corações e mentes de muitos apreciadores do rock dos anos 60 e 70. O supergrupo, inicialmente trio – David Crosby, Stephen Stills e Graham Nash – haviam lançado ao mundo sua fantástica estreia em maio. Naquele mesmo mês, o ex-companheiro de Stills no Buffalo Springfield, Neil Young, havia lançado o também aclamado Everybody Know this is Nowhere, creditado como Neil Young and Crazy Horse. Em agosto, Neil passou a integrar a banda.

A primeira apresentação dos quatros foi em agosto de 69, em Chicago, e logo em seguida no Festival de Woodstock. Neil Young não participou da parte acústica do show e exigiu não ser filmado.

O período, após o lançamento do disco e os primeiros shows, foi de trabalho intenso em estúdios de San Francisco e de Los Angeles, e também de vários atritos entre os quatro. Questões contratuais também interferiam, porque os músicos ainda tinham vínculos com suas antigas bandas e Neil Young entrou com total liberdade de manter uma carreira solista em paralelo.

O grupo vinha num embalo criativo imenso e até o final daquele ano gravaram quase todas as músicas que viriam a integrar o maravilhoso disco Déjà-Vu, lançado em março de 1970, que foi logo para o topo das paradas, atingindo o primeiro lugar nos EUA e o quinto lugar na Inglaterra.

A faixa em questão, “Carry On”, era a abertura deste disco e junto com “Woodstock” representava a criação coletiva do grupo. As demais eram composições solo de cada um, executadas pelo conjunto. A sessão que originou “Carry On” foi gravada sob a engenharia sonora de Bill Halverson no Wally Heider's Studio C, em San Francisco, no dia 28 de dezembro de 69.


Parida nas cavalgadas eletro-acústicas do grupo, rumo ao topo do imaginário coletivo juvenil, a canção é surpreendente logo à primeira audição, mesmo que fosse somente a primeira parte, com as vozes alinhadas do quarteto, os violões vibrantes e bandeirosos e seu clima de amanhecer ensolarado. Para os iniciados, cada audição não deixa de ser estupefante, diante da grandeza da composição, das intervenções de guitarra cheia de alma por entre os espaços acústicos, das interposições perfeitas das vozes.

No meio da canção, somente as vozes entoam um espetáculo harmônico – “Carry On, Love is coming to us all”. Entram percussões, órgão Hammond, solo de guitarra e uma versão revisitada de “Questions”, do Buffalo Springfield, com mais vocais divididos da mais fina excelência. Musicalidade ao extremo e uma comunicação tão direta com os ouvidos que é difícil expressar tamanho poder.

Ao vivo, a banda fazia vigorosas versões elétricas de “Carry On”, tirando-lhe um pouco da magia, mas acrescentando-lhe peso e força, junto a grandes jams e duelos de guitarra.

Leia também: Classic Tracks: Lady Fantasy - Camel (1974)


12/05/2010

Rigotto's Room: O Aerosmith vai pousar em Porto Alegre



Por Maurício Rigotto
Escritor e Colecionador
Collector´s Room

Como já comentei em textos anteriores, Porto Alegre está sendo brindada por uma avalanche de bons shows internacionais. No próximo dia 27, será a vez de a capital gaúcha receber uma das principais bandas de hard rock do mundo, o Aerosmith, que tocará pela primeira vez no estado no estacionamento da FIERGS, o mesmo local que recebeu o show de Axl Rose em março.

Confesso que o Aerosmith não está entre as minhas bandas preferidas. Respeito os caras e os considero como uma boa banda do segundo escalão, mas é inegável a importância do grupo no cenário roqueiro. A banda surgiu em 1970, formada por Steven Tyler (vocal); Joe Perry (guitarra); Brad Whitford (guitarra); Tom Hamilton (contrabaixo) e Joey Kramer (bateria). Gosto muito dos primeiros trabalhos da banda, principalmente os discos Toys in the Attic (1975) e Rocks (1976) – respectivamente terceiro e quarto disco do grupo. Em 1979, após uma briga com Tyler, Joe Perry deixa a banda para formar o chato Joe Perry Project. Brad Whitford sai do grupo pouco depois. Em 1982 a banda lança o péssimo Rock and a Hard Place, um grande fracasso de público e crítica. Em 1985 as desavenças foram superadas e a formação original voltou à ativa, gravando o álbum Done with Mirrors, seguido pelo bem sucedido Permanent Vacation (1987). Desde então, o sucesso do Aerosmith só recrudesceu e a banda passou a vender milhões de cópias de seus novos álbuns, graças ao apelo radiofônico de baladas açucaradas que passaram a ser o carro-chefe do grupo, embora bons rocks também permeiem o repertório desses discos. O grande estouro se deu em 1989 com o álbum Pump, que vendeu nove milhões de cópias, impulsionado pelos mega-sucessos “Janie’s Got a Gun” e “Love in an Elevator”. Em 1993 a banda repetiu o sucesso com o mega-platinado Get a Grip, que trazia as faixas “Livin’ on the Edge” e as baladas “Crazy” e “Cryin’”, que tocaram exaustivamente nas rádios e na emetevê. Quatro anos depois, mais sucessos com o bom álbum Nine Lives e em 1998, alcançam pela primeira vez o topo das paradas mundiais com melosa balada “I Don’t Wanna Miss a Think”, incluída na trilha do filme Armageddon.

Por mais que os fãs mais xiitas relutem em admitir, o Aerosmith se reinventou se tornando uma banda de baladas “tipo Bon Jovi” para FMs e de clipes com apelo adolescente voltados para a geração MTV. Mesmo assim, mantém petardos do bom hard rock em todos os seus discos. Surpreendentemente, em 2004 a banda voltou às raízes com um álbum de covers de blues, o ótimo Honkin’ on Bobo, onde brindam os fãs com vigorosas releituras.



Mesmo não sendo um fã ardoroso do conjunto, no dia 12 de abril de 2007 eu era uma das 62 mil pessoas que lotaram o Estádio Morumbi em São Paulo para assistir o Aerosmith ao vivo. Após a abertura da banda Velvet Revolver – formada por Slash e outros ex-membros do Guns N’Roses – a atração principal da noite subiu ao palco e abriu seu show com o sucesso “Love in an Elevator”, seguida da ótima “Toys in the Attic”. Após esse bom começo, devo admitir que o show que se seguiu não me empolgou, pois a banda optou em tocar várias baladinhas como “Cryin’” e “Jaded” em detrimento ao repertório setentista. Os fãs deliravam acendendo seus isqueiros, mas eu e uma boa parcela do publico esperávamos mais. Achei os solos de Joe Perry meio que burocráticos e previsíveis. Steven Tyler parecia mais preocupado com a sua pose de rock star e suas caras e bocas que com a música em si. Mesmo assim, são figuras que dominam um palco como poucos e deixaram seus fãs extasiados com seu espetáculo. Há de se levar em conta que essas são as impressões de alguém que até gosta da banda, mas não faz parte de seu vasto fã-clube. A grande multidão de fãs saiu satisfeitíssima com a performance de Tyler, Perry e cia. Ao meu ver, foi morno, aquém do que poderia ter sido, mas mesmo assim um grande e divertido espetáculo. No dia 27 irei repetir a dose em Porto Alegre.

No ano passado a banda enfrentou outra crise, com mais uma briga de Steven Tyler com o resto do grupo, que chegou a anunciar que estaria procurando um substituto para o vocalista. Não sei até que ponto isso é verossímil ou se a rixa era parte de alguma estratégia de marketing para o nome da banda se manter nos holofotes, mas seja como for, parece que as diferenças foram mais uma vez superadas e o grupo está novamente em turnê mundial. O Aerosmith tocaria em Buenos Aires no dia 27 de maio e novamente no Morumbi no dia 29. O show na capital argentina foi suspenso e Porto Alegre acabou sendo incluída no roteiro.

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