Muddy Waters & The Rolling Stones: crítica de Checkerboard Lounge - Live Chicago 1981 (2012)

Este DVD contém uma aula de história. Deixa eu explicar: durante a turnê do álbum Tattoo You (1981), os Rolling Stones fizeram três shows seguidos em Chicago. No intervalo entre as apresentações, resolveram visitar o amigo Muddy Waters, influência e inspiração para o nome do grupo, que estava tocando com sua banda no Ckeckerboard Lounge, clube da cidade. E é justamente este encontro que está documentado em Checkerboard Lounge - Live Chicago 1981, DVD que a ST2 está lançando agora aqui no Brasil em edição dupla, incluindo um CD com o áudio da apresentação.

Não há grandes requintes técnicos no vídeo. As câmeras mostram os músicos amontoados no minúsculo palco, enquanto garçons atendem as mesas. Já em relação ao áudio, ele é cristalino e conta com fidelidade o que aconteceu naquela noite, realçando os acertos e não escondendo os erros. Tudo é verdadeiro, improvisado, em clima de jam. E é justamente essa veracidade que torna este encontro entre dois artistas importantíssimos e  emblemáticos para o blues e para o rock imperdível, histórico e arrepiante.

Pra começo de conversa, a banda que acompanhava Muddy Waters na época era excelente, com destaque para o guitarrista John Primer e para o gaitista George “Mojo” Buford - completavam o time o panista Lovie Lee, o guitarrista Rick Kreher, os baixistas Earnest Johnson e Nick Charles e o sorridente baterista Ray Allison. Aliás, vale mencionar o figurino de Buford, com uma surreal “cartucheira” carregada com várias gaitas de boca diferentes. Outro ponto importante a ressaltar é que trata-se de um show de Muddy Waters e não dos Rolling Stones, portanto você irá assistir a um dos maiores bluesmen da história no final de sua carreira, pouco mais de dois anos antes de sua morte - Waters faleceu em 30 de abril de 1983 -, e não a um show dos Stones.


O clima é tão intimista e acolhedor que flagra a entrada dos Stones no boteco, enquanto Muddy e banda mandam ver. Os caras se acomodam na mesa em frente ao palco, pedem suas bebidas, conversam. E então Muddy Waters chama Mick Jagger, Keith Richards e Ron Wood para a bagunça. Jagger, vestido com um espalhafatoso agasalho vermelho, divide os vocais com Waters em “Baby Please Don’t Go”, deixando claro logo de saída porque é o frontman da maior banda de rock da história. Richards, convocado em seguida, caminha sobre a mesa com o cigarro no canto da boca e pega a sua guitarra, em uma cena antológica. E Wood, naquela época com uma performance muito mais presente e eficiente da que costuma ter nos últimos anos, mostra o porque de ter sido escolhido como braço direito de Keith. Ian Stewart, o sexto Stone, assumo o piano, e a festa começa.

Checkerboard Lounge está repleto de grandes momentos. O principal deles é “Mannish Boy”, onde Muddy e Jagger dividem os vocais, com o pupilo inglês tacando fogo na performance de Waters, que pula pelo palco com a energia de um adolescente enquanto Keith, Wood e a banda seguram tudo de maneira firme lá atrás. E, no meio disso tudo, Waters ainda chama Buddy Guy e Junior Wells para o palco. O momento em que Muddy Waters, Mick Jagger e Buddy Guy se abraçam, com os dois bluesmen dividindo os vocais sob o olhar embasbaco de Mick, é como presenciar a história sendo escrita, e por seus principais protagonistas.


Outros momentos sublimes acontecem em “Hoochie Coochie Man” e “Long Distance Call”, ambas com a participação de Jagger. Junior Wells dá um descanso para Muddy e assume os vocais na clássica “Got My Mojo Working”, enquanto o inquieto e intenso Lefty Dizz toma conta da parte final da apresentação.

Para completar o pacote, como já disse, a versão lançada pela ST2 vem com um CD bônus com todo o áudio da apresentação, além de um encarte - todo em inglês - com detalhes desse show antológico.

Checkerboard Lounge - Live Chicago 1981 é daqueles DVDs que você colocará em lugar de destaque em sua coleção. Empolgante e histórico, é o registro magnífico do encontro entre duas forças titânicas - Muddy Waters e os Rolling Stones -, artistas fundamentais que ajudaram a definir o blues e o rock. 

Fundamental, e não se fala mais nisso!

Nota: 10


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