6 de jun de 2013

Como surgiu a letra de “Faroeste Caboclo”, clássico da Legião Urbana?

Aproveitando a estreia do filme baseado na canção da Legião Urbana, vale a pergunta: de onde veio e como surgiu a letra de “Faroeste Caboclo”, clássico da banda brasiliense?

A resposta é difícil e nebulosa, mas aponta caminhos interessantes. Em uma entrevista dada em 1995 e presente no livro Letra, Música e Outras Conversas, de Leoni, Renato Russo falou o seguinte: “‘Faroeste Caboclo’ escrevi em duas tardes, sem mudar uma vírgula. Foi ‘não tinha medo o tal João de Santo Cristo ...’ e foi embora. Eram coisas que, mesmo sem perceber, já vinha trabalhando há muito tempo, e na hora que fui escrever veio tudo direto. Eu sei porque foi fácil. Ela tem um ritmo muito fácil na língua portuguesa. É em cima da divisão do improviso do repente. As coisas foram aparecendo por causa das rimas. Se eu falo do professor, ele tem que parar em Salvador. Se fosse outra rima, ele ia parar em outro lugar. Basicamente já sabia que tipo de história ia ser. É aquela mitologia do herói, James Dean, rebelde sem causa. Mas se você prestar atenção, tem um monte de falhas. Como é cantado, as pessoas não percebem. Uma vez, um pessoal queria fazer um filme em cima da letra. Foi quando deu pra perceber como tem furo na história. Parece que faz sentido, mas porque cargas d’água esse homem encontraria um boiadeiro em Salvador? Que história é essa de trocar as passagens, ‘eu fico aqui, você vai pra Brasília’? Por causa da filha? Por que Maria Lúcia fica com Jeremias? Não dá pra entender! Você tem que bolar sua própria história. O máximo que cheguei é que ela era uma viciadona e o Jeremias era tão mal que disse: ‘Se você não casar comigo, vou matar o João’. Mas também não justifica. E o Santo Cristo, é um banana? A menina é apaixonada por ele e ele fica andando com o Pablo pra cima e pra baixo. Ele é gay? Tem uma porção de coisas na história que não batem, mas quando a gente ouve funciona muito bem”.

Como se viu, o próprio Renato tinha suas críticas em relação à letra. História que vai para outro ponto na versão de Flávio Lemos, baixista do Capital Inicial e companheiro de banda de Renato no Aborto Elétrico. Em entrevista à revista Flashback, em 2004, Flávio falou o seguinte: “Nunca contei essa história pra ninguém. Estava no Rio de Janeiro, na Ilha do Governador, na casa da tia do Renato. Ele gostava de uma prima dele, a Mariana, e eu sabia, mas não rolava nada entre os dois. Fomos viajar para Búzios, a turma toda, menos o Renato. E eu fiquei com a prima dele, transei com ela. Foi a minha primeira vez, eu era virgem. A menina voltou antes pra casa e contou a história pra todo mundo. Quando eu voltei pra Ilha ele já sabia, e considerou aquilo uma traição. Cheguei de madrugada, tinha viajado a noite toda, e ele me acordou bem cedinho, eu estava morrendo de sono. Renato tinha passado a noite inteira escrevendo a música. Ele me disse que eu era o Jeremias, o maconheiro, o sem vergonha. E ele era o Santo Cristo - olha o nome que ele deu a si mesmo! E a prima era a Maria Lúcia. Renato criou um épico com essa história. A gente continuou amigo depois. Pode aparecer alguém que conteste, mas é a mais pura verdade”.

A princípio duas histórias diferentes, mas que, ao analisarmos com um pouco mais de calma, se entrelaçam e parecem apontar para a verdadeira origem da canção.

Com 168 versos e sem refrão, “Faroeste Caboclo” era, nas palavras do próprio Renato Russo, a sua “Hurricane” - alusão a clássica canção de Bob Dylan presente no álbum Desire (1976) e que conta a história do boxeador - também negro, como João de Santo Cristo - Rubin Carter. Segundo o jornalista e historiador Marcelo Fróes, no manuscrito original com a letra de “Faroeste Caboclo” havia uma anotação de Renato dizendo que imaginava a música como um baião cantado por Luiz Gonzaga.

Por Ricardo Seelig
Com informações do Pensar Enlouquece

10 comentários:

Guimara disse...

Eu sempre reparei as falhas desta música, mas infinitas outras também tem.
O que importa, como o próprio Renato disse, é que soa bem quando cantado.
Quem dera que os "quadradinhos de oito" da música brasileira fossem dignos de ser falhos como "Faroeste Caboclo".

Cristiano Olderground disse...

Muito legal essa história, Cadão! Toda música tem sua história e cada uma delas daria um livro infinito...Certamente, gostando ou não da música, saber da história que há por trás da canção, no mínimo, a torna bem mais interessante, mais viva e mais humana tb, pois o artista vive suas histórias cotidianas como qualquer um de nós e é desse cotidiano, dessa vida real, que surgem muitas criações fantásticas (no sentido amplo do termo "fantásticas", inclusive). Valeu!

Ricardo Seelig disse...

É por aí mesmo, Cristiano. A diferença do artista é justamente transformar o cotidiano em obras como essa.

Bruno Storty disse...

Cadão sempre achei que ele misturou Bob Dylan, com versões de música sertaneja dos anos 70/80, se você ver tem várias músicas sertanejas lançadas nesse periodo que "rodeiam" histórias bem parecidas com Faroeste. Músicas de Sergio Reis, da dupla Milionário E José Rico( a do caminhoneiro que morre num acidente e não vai ver o filho é parecida com Faroeste) Léo Canhoto e Robertinho, quase todas as músicas tinha esse quinhão de desgraceira no tema, assim como mais tarde o que pontuou a música sertaneja foi o "amor de corno", antigamente era a desgraça da vida.
Ps:. Nunca curti Legião

Elisson Carlos disse...

Só sei que o Renato gostando ou não, quando ouço essa música ela soa muito bem aos meus ouvidos. Quem dera ainda tivéssemos obras iguais a essa hoje em dia. Agora só ouvimos lançamentos de "quadradinho de 8", uma vergonha pra essa nova geração de artistas que se acham superiores aos mais antigos. Parabéns aos artistas como Renato Russo, Zé Ramalho, Fagner, entre outros que também tem canções sensacionais. E detalhe, tenho apenas 23 anos, mas sei o que é bom de se ouvir, afinal meu ouvidos não são penicos.

nilton cesar bueno chaves Chaves disse...

Bem não sou e nem nunca serei digno de jugar algo, ainda mais se tratando de RENATO RUSSO, gente o que este cara fez não tem p/ ninguém
agora só uma observação respeito todos estilos de musicas, nem por isso quer dizer que goste de todos mas aonde ja si vil transformar um puta som desse em samba, Ai revelação da licença não po crie seus sambas e deixe nossos sons bon do jeito que eles são, vamos respeitar minha gente para nós sermos respeitado, valeu

Ricardo Seelig disse...

Não entendi, Nilton. Quem transformou "Faroeste Caboclo" em samba?

Tommy Stringher disse...

De fato, é nos furos que se faz a costura das ideias da música. Sobre a história da rodoviária de "Eu fico aqui, você vai no meu lugar", a explicação pode ser: o cara não teria como viajar e pra não tomar prejuízo, vendeu a passagem pro João. O "tô precisando visitar a minha filha" pode ser algum lamento de bêbado, como é de praxe em rodoviárias e congêneres.

A parte de Maria Lúcia ter "casado" com Jeremias e tudo o mais é também facilmente explicável: dominação. O cara apareceu como inimigo-mor de Santo Cristo, e quer coisa melhor pra humilhar seu inimigo que tomar a mulher dele? Principalmente no contexto de faroeste.

Mas o maior dos furos, ninguém nunca entendeu, e foi justamente o que cimentou a história. Por que Jeremias apareceu como inimigo e "resolveu" acabar com Santo Cristo? Rebobina um pouco... Lembram da parte em que aparece "um senhor de alta classe com dinheiro na mão"? Poisé, daí surgiu o Jeremias. Ele nada mais era que um mandado por este senhor pra fazer o serviço. O que se seguiu a partir daí foi apenas consequência.

Danilo Duarte disse...

Mano Renato Russo o cara era um gênio olha o lixo q se chama música hoje em dia

Danilo Duarte disse...

Mano Renato Russo o cara era um gênio olha o lixo q se chama música hoje em dia

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