10 de mai de 2017

Minha coleção: o amplo universo discográfico de Mário Orestes, de Manaus


De colecionador pra colecionador, faça uma breve apresentação para os nossos leitores.

Me chamo Mário Orestes Silva, nascido em 1972 na cidade de Manaus (AM). Sou administrador autônomo e em minhas horas vagas produzo arte gráfica e escrita. Em meu blog pessoal dá pra se ter ideia da personalidade do produtor do lido agora. Audiófilo apaixonado pelo formato analógico, não conseguiria viver sem música, que considero tão vital quanto alimentação ou sexo.

Quantos discos você tem em sua coleção?

Sinceramente, não tenho o número exato. Em planilha do Excel tenho listados 1.639. Contudo, na planilha não incluo os singles promocionais, destinados a divulgação em rádios, nem os compactos de 7 polegadas. Então, no chute, deve ser por volta de 1.800 a 1.900 exemplares de LPs, incluindo um pouco mais de 100 CDs. O que não é grande coisa, visto colecionadores que possuem 10 mil, 20 mil itens. 

Porém, não saio catando tudo que se encontra, só pra dizer que possuo milhares de exemplares, como fazem alguns hipsters. Só adquiro aquilo que me interessa. Jamais terei discos de escolas de samba, de apresentadora de programas infantis ou com hinos de times de futebol. Não tenho nada contra os estilos variados e respeito seus lugares no mercado. Apenas procuro adquirir aquilo me agrada. Posso dar como exemplo disto o Pink Floyd. Não curto a fase sem Roger Waters, apesar de ainda gostar de algumas músicas do Division Bell. Porém, minha coleção deles acaba no The Final Cut. Por mais que um dia encontre um LP da fase de David Gilmour, em bom estado, a preço acessível, não o comprarei.

Também tenho o sério problema com falta de espaço. Então evito fazer compras em grandes proporções, o que já usado como argumento pra economia (risos).

Nas fotos que envio pra ilustrar este bate papo é possível se ver roupas por cima de discos e outras coleções dividindo praticamente o mesmo espaço que os LPs. Isto não se deve a desorganização de minha parte, mas sim pura falta de espaço mesmo. Hoje, mais do que nunca, sou obrigado a priorizar a qualidade, em vez de quantidade.

Quando você começou a colecionar discos?

Ainda na adolescência, quando conheci o rock and roll. De lá pra cá, já tive duas gerações de coleção de discos que me foram perdidas devido a furtos, empréstimos mal sucedidos etc. Quando comecei a montar a terceira coleção, passei a tomar o cuidado de não emprestar e não vender, mantendo a austeridade até a presente data.

Você lembra qual foi o seu primeiro disco? Ainda o tem em sua coleção?

Meu primeiro vinil foi o compacto de 7 polegadas "Jailbreak" do AC/DC. Já o meu primeiro LP foi o Love at First Sting dos Scorpions. Ambos se perderam junto com a minha primeira coleção. Hoje já consegui recomprar o "Love at First Sting". Já o 7 polegadas do AC/DC jamais consegui readquirir.

Quando caiu a ficha e você percebeu que não era só um ouvinte de música, mas sim um colecionador de discos?

A síndrome teve alguns sintomas (risos). O primeiro foi quando comecei a ir atrás de discos que faltavam nas discografias das bandas que curto. O segundo foi quando passei a fazer (quase) tudo pra adquirir um exemplar em específico.

Para um colecionador, quando ele procura um item por anos e, por acaso, este item aparece na frente dele injustamente quando ele se encontre sem dinheiro pra comprá-lo, não há dor pior. É o próprio viciado dependente, sem dinheiro para aquele placebo.

O sintoma mais hilário foi quando minha mãe começou a reclamar que os discos estavam ocupando o lugar das roupas no guarda-roupas. 

Vale lembrar que o colecionismo está muito próximo da Síndrome de Diógenes (termo clínico para a doença do acumulador compulsivo). Logo, é sempre bom ter noção de limites, em todos os sentidos.


Como você organiza a sua coleção? Por ordem alfabética, de gêneros ou usa algum outro critério?

Por ordem alfabética. Fica mais fácil e rápido pra localizar um item. Quando passa de 1.000 itens, se não houver critérios de ordem, fica complicado. Mantenho uma planilha no Excel que é dividida em abas de Nacional, Internacional, Regional, CDs, LPs e Geral. Cada aba com as colunas de Banda/Artista, Título do Álbum e Ano de Lançamento.

Interessante que só mantenho a ordem de organização na coleção de discos. Já a coleção de gibis (que tem quantidade equivalente a dos discos) está toda misturada e sempre demoro pra localizar um item quando preciso. (risos)

Onde você guarda a sua coleção? Foi preciso construir um móvel exclusivo pra guardar tudo, ou você conseguiu resolver com estantes mesmo?

Guardo no mesmo cômodo que eu durmo. Como não é um cômodo grande, tenho limitação esgotada de armazenagem. A limitação não comporta estantes grandes, então tenho de separar as coleções em espaços milimetricamente calculados. Pretendo conseguir um lugar maior, não pra me dar mais conforto, mas sim pra poder voltar a adquirir mais discos e alimentar a fome de meu colecionismo.


Que dica de conservação você dá para quem também coleciona discos?

Nunca guarde-os na horizontal. Mantenha-os mais verticalmente possível. Isso impede que o produto envergue. No caso de discos em vinil, logicamente. Conserve os plásticos internos e externos limpos, sendo os internos guardados com a "boca" pra dentro da capa, evitando que o vinil tenha contato com poeira. Estoque de plástico é imprescindível pra quando há aquisições na coleção.

Nunca coloque os dedos na área dos sulcos dos vinis. Pegue-os sempre pelas bordas e pelo selo no centro. Esqueça os scratches que os DJs fazem! Pode ser o melhor DJ do mundo, mas que ele faça scratches nos discos dele, não nos seus. Por mais legal que possa ser, o contato com os dedos sempre deixa partículas de poeira, gordura ou outras impurezas que certamente entrarão nos sulcos e comprometerão a qualidade do som.

Pra quem compra em sebos, inevitavelmente terá que lavar os discos e limpar as capas e os encartes. A limpeza pode se dar através de líquidos específicos (loções de silicone e equivalentes) ou com água e sabão (sempre sabão neutro) e com secagem natural. Nada de passar toalhas ou flanelas, que também soltam partículas minúsculas que ocupam os sulcos. Já com as capas e encartes o maior problema é o mofo, que pode proliferar se não extraído. Pior ainda quando se trata de lugar com o clima muito úmido. Há aparelhos desumidificadores, mas manutenção é crucial.

Você já ouviu tudo que tem? Consegue ouvir os títulos que tem em sua coleção frequentemente?

Pra aquisição tenho o seguinte ritual: quando chego com o disco, coloco-o separado dos outros. Ele será analisado por completo. Cada centímetro de encarte é aberto e a capa é verificada. Se algum vestígio de sujeira ou impureza for encontrado, é imediatamente limpo. Se o disco estiver sujo, segue pra lavagem.

Em seguida tento eliminar (caso haja, na parte gráfica) rasuras a lápis ou canetas, para na sequência já tentar reparar de danos. Às vezes uma capa rasgada pode ser reparada com cola e paciência. Um trabalho artesanal, mesmo de recuperação. Na sequência coloco plásticos novos, que sempre tenho em estoque.

Após toda a frescura, o álbum será catalogado pra finalmente ser escutado. Terminada a audição, ele poderá ser "despachado" pro seu devido lugar dentre os demais na coleção. Claro que todo o processo pode levar vários dias. Quando o álbum me agrada muito, escuto-o por algum tempo seguido.

Já pra audição do que já tenho, é outro ritual. Gosto de escutar disco apropriado pra datas, pra sentimento no momento e em saudação a artista que vão falecendo. Mas também gosto de fazer as chamadas "saladas". Por exemplo, escutar um álbum de punk rock, depois um de MPB, depois um thrash metal, depois um jazz, depois uma ópera, depois um reggae, etc. Neste aspecto, a lógica esperada me é tão apropriada quanto o non sense. Só procuro escutar o álbum escolhido, por inteiro. Dificilmente escuto músicas soltas.


Qual o seu gênero musical favorito e a sua banda preferida?

O que mais preenche o coração é o punk rock com o classic rock. Mas escuto quase todos os estilos. Jazz, reggae, música erudita, metal extremo, jovem guarda, grindcore, techno, new age, etc. Contudo, o estilo, por muitas vezes, me é adequado conforme o momento. Por mais que eu ame punk rock, na solidão da madrugada me é consolador um Miles Davis. Após a ingestão de Ayahuasca, nada melhor do que Björk. Para acasalar, Vangelis na trilha sonora de Blade Runner. Quanto estou com raiva o Reek of Putrefaction do Carcass, e por aí vai.

Ainda consigo escutar e ter títulos escolhidos a dedo de estilos que não curto. Por exemplo, não gosto de pagode, mas tenho alguns discos, gosto e escuto Bezerra da Silva. Não gosto de forró, mas tenho alguns discos, gosto e escuto Luiz Gonzaga. Exceções, mas não tenho problema nenhum em assumi-las.

A banda internacional que mais gosto é o Ramones. Nacional, Marcelo Nova. Mas não significa que escuto-os direto. Ao contrário, raramente escuto um deles, porque estou sempre escutando e conhecendo coisas novas. Outro fator condicionante é que tenho medo de enjoar do que gosto muito. Logo, quando se deixa passar um bom tempo sem escutar, a audição fica mais prazeirosa, do que a executada frequentemente.

De qual banda você tem mais itens em sua coleção?

Ramones, com 25 discos no total (incluindo LPs e CDs, sendo alguns repetidos em mídias diferentes. O Mondo Bizarro é o único que tenho em LP, CD e fita-cassete originais). Sem considerar camisetas, pôsteres, quadros, revistas, livros, bottons, etc. Não é muito, mas há várias outras bandas/artistas que tenho quantidade próxima de discos oficiais.

No mundo em que vivemos, pra se ter quantidade consumível basta se ter dinheiro o suficiente pra isso. Eu não tenho muitos, porque não tenho dinheiro pra isso. Bem que gostaria de ter a coleção completa de todos. 

Você quer comprar a coleção completa dos Ramones? Dos Stones? Dos Paralamas do Sucesso? De qual banda você quer? Você encontra o site! Tem forma de pagamento no cartão, Paypal ou código o barras. Você escolhe.

Quais são os itens mais raros, e também aqueles que você mais gosta, na sua coleção?

Acredito que os mais raros sejam os autografados pelos artistas. Nomes como Ira!, Inocentes, Taurus, Marcelo Nova, Blues Etílicos, Kid Vinil, Ressonância Mórfica, Vulcano, Garotos Podres, Autoramas, Rock Rocket e Cólera (ainda com Redson). São alguns que consegui autógrafos, sem considerar a enorme quantidade de artistas locais. Alguns destes já tiveram seus autores titulares falecidos. Naturalmente que estes se tornam mais raros. O vinil A Amazônia Canta com Anísio Mello (de 1976), autografado pelo saudoso mestre, com certeza é um dos mais raros.

Os que particularmente mais gosto? Bem, há vários discos que amo em minha coleção. Considero estes álbuns perfeitos, sem pontos baixos. Discos que da primeira à última faixa, pode deixar tocar que me agradarão plenamente. Dois que eu coloco como os maiores amores sem dúvida nenhuma são o Setting Sons do The Jam (de 1979) e o Halfway to Sanity dos Ramones (de 1987). O Jam tenho em LP e CD importados. Infelizmente o Halfway dos Ramones só o tenho em CD importado.

Também amo vários outros como o primeiro do The Stooges, o Duplo Sentido do Camisa de Venus, o London Calling do Clash, o Place Without a Postcard do Midnight Oil, o Fresh Fruit for Rotting Vegetables dos Dead Kennedys, o Vivendo e Não Aprendendo da Ira!, o The Number of the Beast do Iron Maiden, o A Verdadeira História de Um Brasileiro do Não Religião, o Never Mind the Bollocks - Here's the Sex Pistols, o Dois da Legião Urbana, o Reign in Blood do Slayer, o Adeus Carne dos Inocentes, o Nós Vamos Invadir Sua Praia do Ultraje a Rigor, o Orgasmatron do Motörhead, o Histórias de Sexo e violência dos Replicantes e o Animals do Pink Floyd.

Ainda tem aqueles que amo, mas infelizmente não os tenho, o que daria uma outra lista à parte (risos). A lista de Procura-se. (risos)

Você é daqueles que precisa ter várias versões do mesmo disco em seu acervo, ou se contenta em completar as discografias das bandas que mais curte?

Ter diferentes versões do mesmo disco me seria muito agradável, mas sempre fui limitado financeiramente para isto, então não cheguei a ter este foco, com a exceção dos Ramones, que eu demorei alguns anos pra conseguir completar a coleção da discografia de discos oficiais, sem considerar os bootlegs. Como já disse acima, tenho o Mondo Bizarro dos Ramones em três formatos oficiais. Ter toda a discografia deles assim seria um sonho, mas não corro atrás disso participando de leilões ou garimpando sites de vendas. Logo, somente alguns da coleção tenho repetidos em LP e CD

Confesso que hoje sou bem menos apegado de como era há vinte anos atrás às minhas coleções, mesmo que agora esteja mais estabilizado do que em 1997. Isso não diminuiu em nada meu amor aos discos que prezo, apenas há outro tipo de simbiose. Minha audição hoje já é compreensiva, analítica e bem menos possessiva. Coisa que veio com a idade mesmo.

Tem um outro fator amenizador da possessão colecionista, que diz respeito à facilidade de hoje devido à internet. Não existem mais "discos raros". Não apenas discos, mas qualquer raridade já ficou potencialmente mais acessível através da web. Basta você ter a quantia de dinheiro que o preço pede, porque o contato, o “encontrar", já é bem mais fácil agora do que na época que não tínhamos a internet popularizada. Com uma boa conexão, em alguns minutos você está acessando a fanpage de um antiquário localizado no outro lado do mundo. Daqui de onde digito estas palavras posso participar de um leilão lá da Suécia ou da África do Sul que esteja vendendo um item que procuro. Nos anos 1980 não tínhamos isso.


Além de discos (CDs, LPs), você possui alguma outra coleção?

Gibis e comic books, sendo muitos autografados. Tenho uma modesta biblioteca, DVDs, fanzines, pôsteres e fitas-cassete, mas não são tão significantes quanto os discos em termos de quantidade.

Da infância pra adolescência cheguei a ter coleções de chaveiros, etiquetas de roupas (risos), cartões telefônicos e selos postais, mas quando fui contaminado pelo rock and roll passei a gostar de discos e todo o resto deixou de me interessar tanto.

Em uma época como essa, onde as lojas de discos estão em extinção, como você faz para comprar discos? Ainda frequente alguma loja física ou é tudo pela internet?

Cheguei a fazer algumas compras pela internet e faria novamente, dependendo das circunstâncias, mas indiscutivelmente que visitar lojas e sebos é um tipo de compra que lhe remete ao acaso mais minimalista do que simplesmente visitar o site de uma ponto com qualquer.

Algo indispensável pra qualquer colecionador são os contatos. Conhecer outros colecionadores, participar de fóruns, visitar feiras, sebos, antiquários, sites especializados, convenções, clubes, etc. Numa dessas oportunidades você encontra um disco que procura há anos (olha de novo aí o "acaso minimalista") ou se desfaz de um repetido indesejado que seria ouro pra outro.

Qualidade de contato é quando este te satisfaz alguma demanda, seja qual for a sua natureza. Comprei por muito tempo de um ex-colecionador que se desfez de sua coleção, vendendo-a aos poucos. Ele me telefonava com uma lista, eu separava o que queria e ele me entregava em casa, nas minhas mãos. Tinha muita pérola dos anos 60, 70 e 80.

Outra dica é ficar atento também à vendas inesperadas. Loja que fecha as portas geralmente queima estoque a preço promocional. Quando um colecionador falece e os herdeiros vendem a coleção, também é um filé. Adoro quando algum "rockeiro" vira crente e vende sua coleção. Geralmente eu compro um monte deles (risos). Ruim é quando eles queimam os discos.

Quando tenho oportunidade de visitar outra cidade também sempre procuro lojas ou sebos locais. Em algumas viagens a trabalho às vezes não dá tempo pra se fazer isso, mas quando se é possível, garimpar pode trazer ouro.

Que loja de discos você indica para os nossos leitores?

Bem, não frequento lojas com frequência. Como moro na cidade de Manaus, não tenho muitas opções. Então a saída é partir pros independentes. Posso indicar daqui do green hell a Oficina Rock Underground Wear, a Underground Brasil Distro, os malucos do Mama Records, a Distro dos Infernos, o sebo Edipoeira, a Garagem do Disco, a Manaós Distro, o sebo Alienígena e o sebo Império. Como também consumo livros, gibis e DVDs, vez ou outra visito a sessão de discos das grandes comerciantes Saraiva e Leitura.

Qual foi o lugar mais estranho em que você já comprou discos?

Não lembro de ter comprado disco em algum lugar especificamente estranho. Já comprei em lugares não convencionais como banco de praça, mesa de bar, dentro de um carro em movimento e festa de aniversário.


O que as pessoas pensam da sua coleção de discos, já que vivemos um tempo em que o formato físico tem caído em desuso e a música migrou para o formato digital?

Há pessoas que sabem valorizar uma coleção, mas pra outras não passa do acúmulo de material obsoleto, um elefante cor de rosa que não serve pra nada. Tenho um sobrinho que está saindo da adolescência, começando a gostar de rock, já arranha uma guitarra. Este provavelmente será o herdeiro da minha coleção. Mas por questões de segurança, prefiro que todos pensem que eu tenho apenas um elefante cor de rosa.

Você se espelha em alguma outra coleção de discos, ou outro colecionador, para seguir com a sua? Alguém o inspira nessa jornada?

Não me espelho ou inspiro em outros colecionadores, mas o colecionismo é, no mínimo, curioso. Há alguns casos que valem ser lembrados, como por exemplo o gringo Rutherford Chang que coleciona somente exemplares do White Album dos Beatles. Esse cara conseguiu apurar a loucura saudável do colecionismo.

O caso de Selva Raja (especializado em trilhas sonoras de cinemas) chega a impressionar, porque a Malásia tem uma censura severa que proíbe a veiculação de muito material. Ele tem muita dificuldade em manter sua coleção.

No Brasil, o caso que mais chama atenção é o de Zero Freitas, que leva o colecionismo a uma seriedade profissional, de estrutura empresarial com um quantitativo universal. Quem conhecer a Biblioteca de Babel, de Jorge Luis Borges, pode imaginar o equivalente a uma discoteca. O Zero deve ter vinil gravado até por ET.

Na minha cidade natal (Manaus) o caso mais notável é o de mestre Joaquim Marinho, que não possui apenas uma coleção de discos. Ele coleciona coleções. Ele tem coleção de discos, de cartões postais, de cartões telefônicos, de VHS, de DVDs, de carrinhos, de objetos sexuais, de selos postais e de algo mais que eu desconheço. Ele mesmo assume que sua casa é uma loucura. E é mesmo (risos).

Qual o valor cultural, e não apenas financeiro, que você vê em uma coleção de discos?

A máxima que vinha impressa na contracapa de muitos discos (Disco é cultura!) é verídica. Um disco é um registro cultural, feito em determinada época, por determinadas pessoas, em determinado local. Mesmo os álbuns de um só artista são feitos com o trabalho de vários profissionais envolvidos. Lógico que em se tratando da indústria cultural, alguns exemplos são de banalidade inegáveis, mas em contraponto há aqueles registros que são verdadeiras obras de arte. Alguns indiscutivelmente ajudaram a moldar a cultura pop mundial.

Particularmente amo a arte gráfica dos discos em vinil, que jamais serão reproduzidas em outras mídias com o mesmo expressionismo dos long plays. Por exemplo, a capa do disco psicodélico de Milton Nascimento (Milagre dos Peixes, de 1976). Aquilo em CD deve ficar ridículo se comparado com o poster, quase gigante, do vinil. Há dezenas de álbuns pensados pro formato analógico que jamais terão esse minimalismo equivalente nos formatos digitais. O Stand Up do Jethro Tull, Come Out and Play do Twisted Sister, o encarte do Fresh Fruit dos Kennedys, E Pluribus Funk do Grand Funk, Metal Box do Public Image LTD, o Physical Graffiti do Led, o Sticky Fingers dos Stones e por aí vai. E isso não se limita à música velha. Jack White nos provou em Lazaretto que a tecnologia, além de ajudar a manter e a ampliar a qualidade, inovou o conceito de execução do vinil.

Especificamente divulgando apenas as artes gráficas de álbuns em vinil é que, uns anos atrás, eu joguei no ar este blog. Como eu fazia postagens diárias de imagens, rapidamente preenchi o espaço virtual gratuito cedido pela prestadora Blogger. Depois de um tempo, a administração deles me fez contato, alegando que eu já tinha esgotado o espaço virtual gratuito e que se eu quisesse mais espaço, teria de comprar um plano assim e assado. Pra contornar a situação eu simplesmente abri outro blog. Como continuei com postagens diárias, logo esgotei o espaço do segundo também. Um dia penso em abrir um terceiro, só pra fechar uma trilogia. Detalhe curioso é que optei por colocar os blogs com tudo em inglês, visando um público mais amplo. As estatísticas do Blogger mostram que os acessos nos dois endereços são mais efetivados pelos gringos do que pelos brasileiros. Também não é segredo que os estrangeiros adoram a música brasileira e tem muita coisa de música brasileira nos blogs.


Vai chegar uma hora em que você vai dizer "pronto, tenho tudo o que queria e não preciso comprar mais discos", ou isso é uma utopia para um colecionador?

Ter tudo o que se quer é meio utópico, sim. É latente no ser humano contemporâneo sempre desejar mais do que se tem. Se o ser humano for um colecionador, então ele está fadado a ser surpreendido a qualquer momento pela disponibilização de um item novo, ou uma nova versão daquilo que ele coleciona. Lá vai ele adquirir. No meu caso em particular, não compro discos com a mesma frequência e quantidade de décadas atrás, mas também não sei se um dia pararei definitivamente de comprar. Isso é bem relativo.

O que significa ser um colecionador de discos?

Subjetivo isto. Conheci um cidadão que tem uma coleção enorme de trilhas sonoras de telenovelas. A coleção dele é só isso, mas são centenas. Pra ele, colecionar discos é algo totalmente diferente do que pra mim. Assim como o significado pra mim já é diferente do significado pra Luiz Calanca. Voltamos pra máxima do Disco é Cultura!

Posso arriscar genericamente que se trata de uma preservação cultural. Discos estão relacionados diretamente a áudio e isto engloba não apenas música, mas cinema, teatro, poesia, jornalismo, etc. Há discos de entrevistas, há discos que são recitais, discos só com efeitos sonoros, discursos gravados, só com rezas, ruídos de animais, etc. Colecionar isto já é categorização juntada conforme o perfil buscado pelo coletor.


Pra fechar: o que você está ouvindo e o que recomenda para os nossos leitores?

Gosto de pegar discografias inteiras (no formato MP3) e ir escutando com o passar dos dias. Assim, sempre estou buscando um disco que me toque, ao ponto de considerá-lo perfeito. Quando encontro, o disco passa pra lista de "procura-se" e se encontrá-lo no formato analógico, compro-o. Aplico isso pra bandas/artistas conhecidos, desconhecidos que existem ou existiram em algum lugar do mundo, a grupos novos surgidos há pouco tempo.

O que estou escutando agora? Bem, eu vou misturando em alternância aleatória os discos das discografias que pego pra escutar. Uns meses atrás estava digerindo a discografia do Polysics do Japão, a discografia do Judas Priest, discografia do Bad Religion e a discografia do CCCP Fedeli Alla Linea da Itália. No momento estou escutando a discografia do Gregorian (da Alemanha), discografia dos americanos do Radio 4 e do Godhead, discografia do Peter Pan Speedrock (da Holanda), a discografia da Plebe Rude, discografia dos Scorpions e discografia do Saxon. A média é uma audição de 4 discos por dia. Tem dias que não consigo escutar um álbum sequer, mas outros escuto até 7 ou 8 álbuns. Não sei quais discografias pegarei pra escutar depois. (risos)

Como recomendação não tem como não falar do rock local. O primeiro disco da Espantalho, homônimo a banda lançado no ano de 2003, é um dos álbuns que considero perfeitos e amo. Outros merecem audição com carinho como o Beyond the Scenes da Several de 1999 (neste primeiro disco a banda ainda tinha o nome de Several Skin), o Soda Billy de 2010, o EP Vozes do Inferno da Flash de 1988, o Tulipa Negra de 2001, o Zona Tribal de 2003, o Amazônico do Adal de 1984, o Alchemy of Chaos da Mystical Vision de 2013, o Aqui no Mato Tem Ska da Deskarados de 2001, o Chá de Flores de 2003, o Zumbi de Bar da Antiga Roll de 2015 (que tem tiragem em LP), o Paranormal Songs da Malbec de 2012 (também com tiragem em LP), o Lago das 7 Ilhas do Antonio Pereira de 1996, o Quero Ver Até Onde Vocês Vão da Playmobils de 2013, o Vale dos Suicidas da Infection de 2012, o Garota Rock n' Roll da The Mones de 2015, os dois álbuns da Luneta Mágica, o Shadows of Insanity da Evil Syndicate de 2012, qualquer coisa da banda Dpeids, o A Idéia Não Morre dos Cabanos de 2008, o Nervo da Infâmia de 2013, o Hecatombe da Gordons de 2015, o Mezatrio de 2006, o The Dark Path da Nekrost de 2014, o Escândalo Fônico de 2012, o Motim Massacre da Disritmiaa de 2009, o Sentapua de 2004, o A Divina Comédia Cabocla do Nicolas Jr. de 2005, o Regional Experimental dos Tucumanos de 2008 e o Mezatrio de 2006. 

Alguns não tiveram uma produção muito bem acabada, mas vale conferir: o Senta a Pua da banda Tudo Pelos Ares de 2010, o Holocausto Social da Auto Destruição de 2015, o Prepare Um Drink e Alguns Tragos da Rolleta Rock de 2015, o Brutal Instinct of Retalliation da Mortificy de 2003, os dois volumes da coletânea Além da Fronteira de 2001 e o Território Perdido da Brutal Exuberância de 2011.

Eis um panorama bem representativo da cena local. Há muitos outros nomes que poderiam ser recomendados, mas como seus estilos já não me agradam tanto, não saberia nem indicar. Pode parecer muito a quantidade de nomes citados e dificilmente alguém procurará escutar por se tratar de nomes não conhecidos. Porém, na audição pode ser encontrado algo que não deve muito pra medalhões do mainstream ou algo que simplesmente agradará plenamente. Basta arriscar.

Paz e saúde a todos!

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