Rock Forever: os 16 maiores álbuns do rock brasileiro


A música brasileira possui uma riqueza incrível. Sua dimensão é múltipla e sua afinidade às ramificações que o próprio rock produziu desde a década de 1950 também refletem aqui na nossa terrinha. É possível de se dizer que existem vários “rocks” pelo mundo, e no Brasil também existem inúmeros movimentos, cantores, cantoras e estéticas ligadas ao rock. E dentro da história do rock no Brasil, há duas grandes correntes que dominam os melhores momentos deste estilo por aqui: Jovem Guarda e BRock ou Rock 80. Mas além destes movimentos, houve também outras bandas e outros cantores e cantoras que se colocaram na história do rock brasileiro de uma forma genial sem necessitar fazer parte de um movimento. Por exemplo, Raul Seixas, que se tornou um “movimento musical autônomo”.

Basicamente, esta lista que você lê se trata mais de uma louvação ao rock brasileiro do que propriamente uma “lista dos melhores álbuns”. Muitas bandas poderiam ter entrado, muitos outros cantores e cantoras com grande influência poderiam estar nela, mas por se tratar de “apenas” 16 álbuns, eu tentei apreciar o que de melhor houve no rock brasileiro em suas grandes fases. Tim Maia, Novos Baianos, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Skank, 14Bis, Garotos Podres, Los Hermanos, Ratos De Porão, Replicantes e muitos outros são importantes, entretanto, ou são “inferiores” no valor artístico e na importância história ou mesmo se distanciam do rock propriamente dito por apresentarem poucas características dentro estilo musical, como é o caso de Novos Baianos, Caetano Veloso e Gilberto Gil (estes três possuem muito mais características de MPB do que de rock).

E sem enrolação, vamos à lista:

16 Carlos, Erasmo (1971) - Erasmo Carlos

Erasmo Carlos é muito conhecido por suas parcerias com Roberto Carlos. E esta constatação é ótima por fazer parte de uma riquíssima participação da história da música brasileira, mas também, às vezes, causa um certo incômodo. Sua carreira solo possui vários álbuns excelentes e que deveriam ser revistos por adoradores de música brasileira por apresentarem uma estética mais visceral e cotidiana: A Pescaria (1965) e Sonhos e Memórias (1972) são exemplos. Mas seu maior trabalho é Carlos, Erasmo (1971). Desenvolvendo samba-rock, rock psicodélico, soul e até riffs que lembram heavy metal, canções como “É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo”, “Agora Ninguém Chora Mais” (Jorge Ben Jor) e “Maria Joana” fazem deste álbum uma coletânea musical que apresenta a estética de Erasmo Carlos. E com as participações dos Mutantes Sérgio Dias, Dinho e Liminha e arranjos do maestro e mestre Rogério Duprat, Carlos, Erasmo é um clássico!

15 A Máquina Voadora (1970) - Ronnie Von

O “príncipe” Ronnie Von é talvez o maior brilho polido do rock brasileiro. Elegante, educado, inteligente, artista de TV, cantor, compositor, grande lançador de músicos históricos (Os Mutantes, Eduardo Araújo, Os Vips, Martinha, Jerry Adriani e Gal Costa) e capaz de expor pensamentos diversos sobre todos os assuntos, Ronnie Von passou pela Jovem Guarda, pelo psicodelismo e por momentos românticos impressionantes. Sua melhor fase é de longe os álbuns do final da década de 1960 e começo de 1970: Ronnie Von (1968), A Misteriosa Luta do Reino do Parasempre Contra o Reino do Nuncamais (1969) e A Máquina Voadora (1970). E esse terceiro é sua grande obra. Psicodélico, apoteótico, aberto e conceitual, canções como “O Verão Nos Chama”, “Continentes e Civilizações” e “Águas de Sempre” são eternas. Ouça “Máquina Voadora” e voe: “Combustível, metal e poema / Minha máquina voadora / Vejo os homens de cima em cena / Entre a música de um motor / Vou vagar em pleno o ar / Vou voar / Vou voar... / Em meu brilhante pássaro de prata / Vou navegar pelas nuvens soltas / Leve para o alto toda minha vida / Meu aeroplano”.

14 Raimundos (1994) - Raimundos 

O primeiro álbum do Raimundos rejuvenesceu a música brasileira. Antes do ano de 1994, o rock brasileiro era uma lembrança ambulante da década de 1980 com bandas com mais de dez anos de carreira e sem muita criatividade. E foram quatro jovens vindos de Brasília usufruindo de influências do punk (Ramones e Dead Kennedys) e com temas jovens e ligados ao sexo de forma ostensiva e clara que estouraram pelo Brasil. Canções como “Palhas do Coqueiro”, “MM’s”, “Rapante”, “Nega Jurema”, “Cajueiro & Rio das Pedras”, “Bê A Bá” e “Selim” transbordaram originalidade e colocaram o Raimundos num estágio que nenhuma outra pode estar: a melhor da década de 1990 por aqui. Ouça o hino “Puteiro em João Pessoa” e entenda porque a fase sexual da adolescência é a melhor fase da vida!

13 Jovem Guarda (1965) - Roberto Carlos

O primeiro astro do rock brasileiro. Seu programa de TV chamado Jovem Guarda era um dos maiores expoentes de cultura jovem da década de 1960 e Roberto Carlos estourava em popularidade musical a cada canção e disco lançado. E nada mais justo do que um álbum com o nome do seu programa e do movimento cultural na qual era o principal símbolo. Com a banda The Youngsters - Carlos Becker (guitarra base), Carlos Roberto (guitarra solo), Sérgio Becker (sax tenor e barítono), Jonas (baixo) e Romir (bateria) - e com o gênio Lafayette nos teclados, é possível de se dizer que a voz de Roberto estava centrada numa força rítmica impressionante. Resultado: um disco praticamente perfeito. A estética jovem, as incríveis composições de Roberto Carlos e a escolha de canções que se tornaram clássicas tornam este álbum maravilhoso. “Lobo Mau”, “O Feio”, “Pega Ladrão” e “Não é Papo Pra Mim” são inesquecíveis. E além do hino “Quero Que Vá Tudo Pro Inferno” (hoje renegada pelo próprio Roberto Carlos!), ouça a impressionante “O Velho Homem do Mar” com sua obscura e triste história de amor!   

12 Cabeça Dinossauro (1986) - Titãs

Se existe um termo que melhor simboliza oTitãs é multicultural. Sua história, seus membros e sua excessiva concentração aberta de temas elegem a banda como uma das maiores aparições musicais da música brasileira. Em sua melhor fase, o grupo contava com oito membros: Arnaldo Antunes, Paulo Miklos e Branco Mello (vocal), Sérgio Britto (vocal e teclado), Nando Reis (vocal e baixo), Tony Belloto e Marcelo Fromer (guitarra) e Charles Gavin (bateria). Seus dois primeiros álbuns, Titãs (1984) e Televisão (1985), trouxeram hits que se tornaram clássicos como “Sonífera Ilha” (1984) e “Televisão” (1985). Mas com o terceiro disco, Cabeça Dinossauro (1986), houve uma mudança drástica. New wave deixada de lado, as crônicas leves também de lado e um rock pop sendo esquecido são alguns dos ingredientes que mudaram. Punk, “sujo”, com uma acidez crítica com seus temas e uma estética musical mais bruta trouxeram ao público da década de 1980 canções cortantes como “AA UU”, “Igreja”, “Polícia”, “Bichos Escrotos”, “Família”, “Homem Primata” e até o pequeno manifesto concretista “O Que”, dando luz ao maior compositor da banda: Arnaldo Antunes!

11 Da Lama ao Caos (1994) - Chico Science & Nação Zumbi

É possível de se observar que pelo menos duas bandas na década de 1990 são exemplares e até “melhores” do que Chico Science & Nação Zumbi: Mundo Livre S/A e Skank. Contudo, o primeiro álbum Da Lama ao Caos (1994) apresenta um furor crítico e social pouco visto na história do rock brasileiro. Dentro do magnífico e raro movimento Manguebeat, o compositor e mestre crítico Chico Science se tornou um símbolo icônico. E canções como “Banditismo Por Uma Questão de Classe”, “Rios, Pontes & Overdrives”, “A Cidade”, “A Praieira”, “Samba Makossa”, “Maracatu de Tiro Certeiro” e “Risoflora” refletem uma mescla musical com maracatu, embolada, heavy metal, psicodelia e música afro. O hino “Da Lama ao Caos” é, com toda certeza, uma das melhores músicas já feitas sobre o que significa a situação brasileira na qual a elite oprime sentencialmente o povo de forma histórica: “Comecei a pensar / Que eu me organizando / Posso desorganizar / Da lama ao caos / Do caos a lama / Um homem roubado / Nunca se engana”.

10 Ideologia (1988) - Cazuza

A primeira canção do primeiro álbum do Cazuza é sintomática, “Exagerado”: “Exagerado / Jogado aos teus pés / Eu sou mesmo exagerado / Adoro um amor inventado”. Sim! Cazuza era um exagerado, debochado, crítico, irônico, “porra loca” e, claro, um incomum cantor e compositor. E, ao lado de Renato Russo, o grande compositor da década de 1980. Sua carreira começa no grande Barão Vermelho. Faz e acontece nos três primeiros álbuns, Barão Vermelho (1982), Barão Vermelho II (1983) e Maior Abandonado (1984), causando um frisson intelectual/musical. Depois, por várias incompatibilidades, segue sua carreira solo. Seus dois primeiros discos, Exagerado (1985) e Só Se For a Dois (1987), apresentam uma dimensão ainda maior do que sua experiência no Barão Vermelho – ouça as belíssimas canções “Codinome Beija-Flor” (1985) e “O Nosso Amor a Gente Inventa” (1987). Mas com seu terceiro álbum solo, Ideologia (1988), Cazuza se sobressai e dá à música brasileira uma obra-prima. Canções como “Boas Novas”, “O Assassinato aa Flor”, “A Orelha ae Eurídice”, “Brasil”, “Um Trem Para as Estrelas”, “Vida Fácil”, “Blues aa Piedade” e “Faz Parte ao Meu Show” são crônicas musicais que expõem um Brasil pós-abertura política em decadência. E a canção “Ideologia” é o carro-chefe perfeito (e extremamente atual): “Pois aquele garoto que ia mudar o mundo / Mudar o mundo / Agora assiste à tudo em cima do muro, em cima do muro / Meus heróis morreram de overdose / É, meus inimigos estão no poder / Ideologia / Eu quero uma pra viver / Ideologia / Eu quero uma pra viver”.

9 Roots (1996) - Sepultura

Durante a década de 1980 o metal pesado era um leme, uma regra que se adentrou na história do rock de forma poderosa, principalmente na região da Califórnia. Bandas como Metallica e Slayer impuseram uma estética de rock, no caso uma agressividade nova ao metal, e condicionaram muitas mudanças. E uma delas, claro, apareceu no thrash metal. E é aí que a maior banda de rock pesado da história do Brasil apareceu. Com sua formação clássica, Max Cavalera (vocal e guitarra), Andreas Kisser (guitarra), Paulo Jr. (baixo) e Igor Cavalera (bateria), o Sepultura apresentou três discos sensacionais e que demonstram uma evolução ano após ano: Morbid Visions (1986), Schizophrenia (1987) e Beneath the Remains (1989). Mas foi com Arise (1991) que o Sepultura conseguiu não apenas demonstrar evolução, como também uma produção beirando requintes raros no metal (e não apenas no Brasil). Depois de turnês pelo mundo afora, sai Chaos A.D. (1993). Um petardo ainda melhor e com uma produção mais elevada. Contudo, em Chaos A.D. se tem algo novo: a musicalidade brasileira, mesmo que de forma sucinta. Agora, se você pensa que Sepultura é uma banda distante do rock brasileiro, ou mesmo da música brasileira, você se engana. Com Roots (1996), o que era um sopro se tornou uma marca, um símbolo. Canções como “Roots Bloody Roots”, “Attitude”, “Cut-Throat”, “Ratamahatta” (com Carlinhos Brown!), “Breed Apart” e “Itsári” colocam o álbum em “pé de guerra” com todos os discos produzidos no metal brasileiro e no mundo como um dos melhores. Além da capa antológica, os versos de “Roots Bloody Roots” são libertadores: “Raízes, sangrentas raízes / Eu acredito em nosso destino / Não precisamos disfarçar / É tudo que queremos ser / Me veja enlouquecer / Eu digo estamos crescendo todo dia / Ficando fortes de todas as formas / Vou te levar para um lugar / Onde devemos achar nossas”.

8 Revoluções por Minuto (1985) - RPM

A década de 1980 pode ser considerada o auge do rock brasileiro. Por aqui, nenhuma outra época deu tantas bandas, canções e álbuns que não fossem louváveis. Mas em toda época e em todo movimento cultural/musical sempre houve e haverá uma banda que se destaca como um símbolo POP e acaba por ser um norte, seja como for. O RPM, que significa Revoluções por Minuto, uma ideia que também vem dos 45 RPM dos vinis de antigamente, tinha a seguinte formação clássica: Paulo Ricardo (vocal e baixo), Luiz Schiavon (piano e sintetizador), Fernando Deluqui (guitarra e violão) e Paulo P.A. Pagni (bateria e percussão). E se tem uma banda que condicionou toda a ânsia de um Brasil ressuscitando dos tempos negros da ditadura militar para amar e consumir cultura, essa foi o RPM. Com um ótimo vocalista e que se destacava também pela aparência, com um guitarrista competente, com um gênio nos teclados e um baterista técnico, dá para dizer que poucas bandas (será que existe outra?) puderam expor música, sentimentos, técnica e temas inteligentes de uma forma tão implacável. Seu primeiro álbum, Revoluções por Minuto (1985), é um primor. Clássicos instantâneos de FM surgiram em canções como “Rádio Pirata”, “Olhar 43”, “A Cruz e A Espada”, “Louras Geladas” e aquela que pode ser considerada uma das melhores músicas de toda a década de 1980: “Revoluções por Minuto”. Uma grande crônica social e crítica de uma realidade sofrida pela sociedade brasileira numa época onde a Guerra Fria dava o tom: “Nos chegam gritos da Ilha do Norte / Ensaios pra Dança da Morte / Tem disco pirata, / Tem vídeo cassete até / Agora a China bebe Coca-Cola / Aqui na esquina cheiram cola / Biodegradante / Aromatizante tem” (ouça com atenção as teclas de Luiz Schiavon!).

7 Fruto Proibido (1975) - Rita Lee & Tutti Frutti

Rita Lee é a cantora número 1 do rock brasileiro. Existem muitas cantoras na história da nossa música, mas nenhuma chegou no nível desta paulistana que fez parte d'Os Mutantes e, depois, apresentou uma das maiores carreiras solos do Brasil. Muitas cantoras podem ser apreciadas como Baby Consuelo, Marina Lima, Virginie Boutaud, Paula Toller, Fernanda Abreu, Fernanda Takai e Pitty, mas nenhuma pode ser elencada como a rainha do rock no Brasil. Até mesmo Celly Campello, precursora do rock ainda na década de 1950, não possui a força de Rita Lee. Explodindo um vocal impressionante com Os Mutantes, Rita, quando foi para a carreira solo, pôde expandir ainda mais seu estilo e suas composições. E seu grande álbum, mesmo antes de sua brilhante parceria com Roberto de Carvalho, é Fruto Proibido (1975). Canções como “Dançar Pra Não Dançar”, “Agora Só Falta Você”, “Esse Tal de Roque Enrow” e o hino “Ovelha Negra” são mostras desse mundo crítico e inteligente de Rita Lee. E nada melhor do que ter uma espetacular banda coadjuvante regrando as sessões rítmicas como era a Tutti Frutti. Clássico absoluto da década de 1970! 

6 As Quatro Estações (1989) - Legião Urbana

Muitos podem dizer que o quarto álbum da Legião Urbana, As Quatro Estações (1989), é seu melhor. Talvez podem alegar que a venda de mais de 2 milhões de cópias, que canções como “Há Tempos”, “Pais e Filhos”, “Feedback Song For a Dying Friend”, “Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto”, “Eu Era um Lobisomem Juvenil”, “1965 (Duas Tribos)”, “Monte Castelo”, “Maurício”, “Meninos e Meninas”, “Sete Cidades” e “Se Fiquei Esperando Meu Amor Passar” são excepcionais, que mesmo sem o baixista Renato Rocha o trio remanescente deu muita conta do recado, que os sentimentos humanos dando luz a temas como “Pais e Filhos” são possessos, que Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá deixam de ser “simples músicos” para se tornarem elevados, que a produção de Mayrton Bahia tenha se superado em tudo que ele tinha feito até o momento, que a intenção de se criar um hit leve e, ao mesmo tempo, profundo, como “Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto” fosse levado ao extremo, que a voz de Renato Russo pudesse ser ainda mais poética do que se costuma ouvir... É, dá mesmo para se pensar que As Quatro Estações é o melhor álbum da Legião Urbana. Talvez seja. Talvez não seja. Mas a briga é tão intensa quanto os temas de “Há Tempos” e “Monte Castelo”. E para não esquecer: a composição de Renato Russo nesta última música pode ser considerada perfeita? Talvez só o amor que conhece a verdade pode responder!

5 Os Mutantes (1968) - Os Mutantes

A primeira grande banda da história do rock brasileiro. A banda que deu luz a maior cantora do rock brasileiro: Rita Lee. A banda que teve a genialidade plena do maior músico do nosso rock: Arnaldo Baptista. Sim! Os Mutantes foi até muito mais do que isso. Mesclando psicodelismo, MPB, rock progressivo, letras ácidas com críticas ao conservadorismo brasileiro (principalmente contra a família brasileira), riffs de guitarras surpreendentes, harmonias alucinógenas e todo um aparato técnico, comandado por Baptista, não é surpresa de se observar que poucas bandas são tão incomuns pelo Brasil como Os Mutantes. Os Mutantes (1968) pode ser considerado não apenas um dos melhores álbuns do rock brasileiro, como também um dos melhores exemplos da Tropicália, movimento cultural que reuniu gênios como Caetano Veloso e Gilberto Gil. Com uma produção antológica de Manoel Barenbein e com arranjos únicos do gênio Rogério Duprat (além da ilustre participação de Jorge Ben), o trio Rita Lee (vocal), Arnaldo Baptista (baixo, teclado e vocal) e Sérgio Baptista (guitarra e vocal) produziu um álbum para ser entendido e apreciado por décadas a fio. Ouça “Bat Macumba” e filosofe!

4 Secos & Molhados (1973) - Secos & Molhados

Antes de qualquer nota, o Secos & Molhados é sempre lembrada por ser “a banda de Ney Matogrosso”. Bom, Ney Matogrosso é para muitos (como para mim!) o maior cantor da música brasileira. Sua participação nos Secos & Molhados é imortal e sua carreira solo possui tanta diversificação e inteligência musical que beira o absurdo. Contudo, o Secos & Molhados é ainda maior do que se pensa. A formação era Ney Matogrosso (vocal), João Ricardo (violão e vocal) e Gérson Conrad (violão e vocal). E neste primeiro álbum, Secos & Molhados (1973), a participação de Marcelo Frias (bateria) e Zé Rodrix (piano) também dizem muito. Numa estética folk, tendo o folclore brasileiro e a MPB como pano de fundo, há em canções como “Sangue Latino”, “O Vira”, “Amor”, “Primavera nos Dentes” e “Rosa de Hiroshima” (uma linda versão musicada do poema de Vinícius de Moraes) uma força sublime. Dentre o underground do rock brasileiro da década de 1970, este é um dos poucos álbuns que conseguem superar uma década abafada por um sistema político mórbido e transpõe músicas acima de qualquer censura para as massas. E como a falácia de um sistema político na qual as elites eram realmente as que se aproveitavam, a canção “O Patrão Nosso de Cada Dia” é um belo quadro social e histórico do que se transformou o capitalismo num sistema político opressor e assassino. Ouça com atenção os sinos. Lembram-te de algo medieval?: “Eu vivo preso / À sua senha / Sou enganado / Eu solto o ar / No fim do dia / Perdi a vida”.

3 Krig-Ha, Bandolo! (1973) - Raul Seixas

Raul Santos Seixas, conhecido como Raul Seixas, nasceu no dia 28 de junho de 1945 em Salvador, Bahia. Morreu do dia 21 de agosto de 1989 em São Paulo, São Paulo. Dentre esses 44 anos de vida, 21 anos foram dedicados à música e ao rock brasileiro. Desde seu primeiro álbum, Raulzito e Os Panteras (1968), até seu último ato musical ao lado de Marcelo Nova, A Panela do Diabo (1989), Raul foi o maior cantor popular de rock do Brasil. Sua simplicidade e objetividade de colocar canções de rock como reflexões da vida do singelo brasileiro é uma brilhante e angustiante estética musical. Amado por muitos que, talvez, nem se dão conta do que ele realmente representa na música brasileira, há em Raul Seixas um cosmo social/cultural único. Nem Renato Russo, nem Roberto Carlos e muito menos Rita Lee conseguem chegar perto da dimensão do amor e da paixão que Raul proporcionou e ainda proporciona ao brasileiro. E sua grande fase é, com certeza, a década de 1970. Álbuns como Gita (1974), Novo Aeon (1975) e Há 10 Mil Anos Atrás (1976) apresentaram canções tão fortes que era intelectuais e populares ao mesmo tempo, o que deu à Raul uma expansão radiofônica incrível. Mas foi com o álbum Krig-Ha, Bandolo! (1973) que Raul exibiu sua melhor capacidade. De onze canções, a primeira dá para ouvi-lo cantando ainda em sua infância! E as outras dez são admiráveis e clássicas: “Mosca na Sopa”, “Metamorfose Ambulante”, “Dentadura Postiça”, “As Minas do Rei Salomão”, “A Hora do Trem Passar”, “Al Capone”, “How Could I Know”, “Rockixe”, “Cachoro Urubu” e “Ouro de Tolo”. Esta última, dá para dizer que é o grande soco na cara da sociedade classe média produzida pelo “milagre econômico” militar. Tão ácida em sua época, “Ouro de Tolo” permanece como Raul para todos nós: uma reflexão musical!

2 Roberto Carlos em Ritmo de Aventura (1967) - Roberto Carlos

Qualquer lista dos melhores álbuns do rock brasileiro que não tenha um do Roberto Carlos é uma grande falácia. Roberto possui álbuns que sugerem o termo “Rei” não apenas por ser o maior cantor romântico do Brasil durante a década de 1970, mas também um dos maiores cantores/compositores da história da música brasileira. Álbuns como É Proibido Fumar (1964), Roberto Carlos Canta para a Juventude (1965), Jovem Guarda (1965), Roberto Carlos (1966), Roberto Carlos em Ritmo de Aventura (1967), O Inimitável (1968), Roberto Carlos (1969), Roberto Carlos (1970), Roberto Carlos (1971) e Roberto Carlos (1972) colocam este músico entre os maiores de todos os tempos. É claro que o álbum Roberto Carlos (1971) é sua melhor produção de longe de tudo que ele já realizou, mas por ser muito mais caracterizado por uma estética voltada para MPB, não entra nesta lista. Mas seu melhor trabalho na estética rock, é Roberto Carlos em Ritmo de Aventura (1967). Roberto faria seu primeiro filme (inspirado em Beatles) e seu sétimo disco não foi apenas uma mera trilha sonora. Usando e abusando de uma instrumentação genial, com metais, cordas, flautas e com músicos como o grupo Renato & Seus Blue Caps, além das teclas absurdamente geniais de Lafayette, as doze canções do álbum são imortais. “Como é Grande o Meu Amor por Você”, “Por Isso Corro Demais”, “De Que Vale Tudo Isso”, “Quando”, “Você Não Serve Para Mim”, “E Por Isso Estou Aqui”, “O Sósia” e a suprema “Eu Sou Terrível” são exemplos de um álbum que nunca pode ser esquecido entre os melhores do rock nacional. E mesmo que Roberto Carlos não seja assim tão agradável como pessoa, fixe sua mente em sua música e se surpreenda. Um gênio!

1 Dois (1986) Legião Urbana

O que significa ser a maior representação cultural de uma sociedade? Dá para citar as grandes representações da história cultural do Brasil assim: Machado de Assis (maior escritor), Glauber Rocha (maior cineasta), Oscar Niemeyer (maior arquiteto), Cacilda Becker (maior atriz), Rodolfo Mayer (maior ator), José Celso Martinez (maior diretor de teatro), Tom Jobim (maior e mais completo músico de MPB), Chico Buarque (maior letrista), Ney Matogrosso ou Tim Maia (maior cantor), Elis Regina (maior cantora), Antonio Candido (maior crítico literário) e etc. Dá para citar muitos nomes da cultura brasileira, mas um em especial deve sempre ser lembrado como a poeta maior do rock brasileiro: Renato Russo. Sua banda Legião Urbana nem era assim tão genial tecnicamente. Influenciados por uma mescla do punk e da música alternativa do final da década de 1970 e da primeira metade da década de 1980, os músicos Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá e Renato Rocha nunca foram gênios. Mas suas determinações tiveram envoltas a poética humana e filosófica que Renato Russo criou e, assim, se sobressaíram. Talvez o que Bob Dylan e Chico Buarque pudessem fazer juntos, acrescidos de uma pitada de filosofia existencial, dá para se ter uma vaga ideia do que são os temas desse cantor simbólico. Dentre a pequena discografia da banda - oito álbuns de estúdio, um ao vivo e outro acústico (lançado postumamente) -, não dá para imaginar uma banda maior do que essa no Brasil. Seu primeiro álbum Legião Urbana (1984), aplicava uma crítica social fortíssima. Com Dois (1986), a deslumbrante poética das composições de Renato Russo aparece e se torna eterna. Numa sucessão de 12 canções perfeitas, muitos destaques são latentes: “Quase Sem Querer”, “Eduardo e Mônica”, “Tempo Perdido”, “Fábrica” e “Índios”. Ouça a canção “Música Urbana 2” e observe uma crônica urbanística e social pouco vista na história da música brasileira e, claro, no nosso rock!



ACERVO OBRIGATÓRIO

Living Colour - Vivid (1988)

Lançamento: maio de 1988
Produção: Ed Stasium e Mick Jagger
Gravadora: EPIC
Formação: Coreu Glover (vocal), Vernon Reid (guitarra), Muzz Skillings (baixo) e Will Calhoun (bateria)
Músicas: “Cult of Personality”, “I Want to Know”, “Middle Man”, “Desperate People”, “Open Letter (To a Landlord)”, “Funny Vibe”, “Memories Can’t Wait”, “Broken Hearts”, “Glamour Boys”, “What's Your Favorite Color”, “Which Way to America”.

O metal da segunda metade da década de 1980 era imantado pelo glam metal. Bandas como Mötley Crüe, Dokken, Bon Jovi e Def Leppard (a melhor de todas!) esbravejavam um rock extremamente comercial e tematizado por assuntos fúteis. E foi nesse fundo do poço que algumas bandas aparecem e “tentam” sair desse estigma. O Guns N’ Roses, mesmo com características do glam metal, é uma delas. Mas com toda certeza, uma surpreendeu essa pequena época do rock com algo que a maioria não possuía, que era inteligência musical: o Living Colour. Podendo ser considerados como um dos fundadores do funk metal, apresentaram uma mescla de metal, hip-hop, funk e rock alternativo e deram o que falar. Criados e produzidos por Mick Jagger, canções como “Cult of Personality” e “Glamour Boys” trouxeram um fôlego ao metal dessa época e, também, críticas sociais pungentes. Vivid: uma raridade de seu tempo!

Por Eduardo Lima

Comentários

  1. Colocar o album dois em primeiro lugar foi ousado e correto.
    Parabéns!

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  2. Uma lista que não tem o Eng. do Hawaii entre o top 10...ou 5, não vale tanto.

    O Papa é Pop, ou Revolta dos Dandis, são discos únicos e que poderiam entrar aí facilmente.

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  3. Colocar Legião Urbana e Roberto Carlos na frente de Os Mutantes, Sepultura, Raul Seixas e Rita Lee, só pode estar de brincadeira, né? No mais, com todo respeito aos demais, não houve álbum mais perfeito e mais Rock'n roll de verdade neste país do que o "Fruto Proibido" de Rita Lee & Tutti Frutti. Os outros, por mais excelentes que são, sempre têm alguns defeitos ou não são tão roqueiros assim.

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    1. "Não são tão roqueiros assim." Essa foi a frase mais fajuta e revoltante que já li! O rock é muito mais que um estilo. Não é porque você considera um tipo de rock algo mais "roqueiro" que os outros não sejam! Inclusive, todos os álbuns que foram citados nessa lista têm defeitos e músicas que não fizeram tanto sucesso. Inclusive, Legião Urbana fez muito pelo rock nacional no período de atividade, inovando a cada álbum. E a cada inovação, mais hits a banda contava. Todos os álbuns da legião urbana tiveram ao mínimo 3/4 hit songs. Isso porque nem falei de Roberto Carlos, que por mais que eu não goste muito, tenho que reconhecer o talento que ele levou até os anos 80/90, quando começou a decair em qualidade sonora. Acho que as Legião mereceu e ainda merece ser considerada a melhor banda de rock do Brasil.

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  4. Faltou um do CBJR em

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