7 de nov de 2018

Discoteca Básica Bizz #126: Gilberto Gil - Expresso 2222 (1972)


Quando começou a circular o Expresso 2222, em 1972, a luz no fim do túnel era a locomotiva da ditadura vindo em sentido contrário. Como Caetano, Gilberto Gil voltava de um exílio de dois anos em Londres após uma prisão arbitrária, e recomeçava a carreira a todo o vapor unindo as duas pontas básicas do ideário tropicalista. De um lado, o regionalismo fundador da tosca e revolucionária Banda de Pífanos de Caruaru ("Pipoca Moderna"). De outro, uma canção do exílio universalista, "Back in Bahia", que ao invés de palmeiras e sabiás, planta Celly Campelo e um velho baú de prata.

Entre os extremos dessa arqueologia há espaço para o nordeste agreste de João do Vale (mais Ayres Viana e Alventino Cavalcanti) turbinado por guitarras em "O Canto da Ema", e a parábola da contaminação cultural, do repertório de Jackson do Pandeiro, "Chiclete com Banana". A que fala em samba/rock antes de Lobão nascer e mistura Miami com Copacabana, quando a Era Collor ainda era um brilho fugidio nos olhos psicopatas de seus genitores. Com anos luz de antecedência, o forró-core e o manguebeat já pulsavam nos hormônios ferventes da sucinta "Sai do Sereno" (Onildo de Almeida), em duo com Gal Costa, edificada numa única estrofe poética.


Antes da trilogia Re do autor (o ruralista/macrô Refazenda de 1975, o funkeado Refavela de 1977 e o pop Realce de 1979), este expresso para depois do ano 2000 já falava em estrada do tempo pré infovias de Bill Gates. A clássica faixa-título foi repaginada no recente Acústico de Gil com uma acentuação de sua pisada de xaxado implícita na versão original.

O disco de 1972 também faz um inventário ideológico da geração do desbunde com palavras de ordem com "O Sonho Acabou". Ao mote de John Lennon, Gil acrescenta pitadas tropicalistas ("Dissolvendo a pílula de vida do Dr Ross / na barriga de Maria") e um atestado de que os caretas perderam o bonde da história. "Quem não dormiu no sleeping bag / nem sequer sonhou / e foi pesado o sono pra quem não sonhou". Além de uma distinção de perfis com o xifópago estético Caetano em "Ele e Eu" ("Ele vive calmo / e na hora do Porto da Barra / fica elétrico"), Gil manda o editorial do disco obra-prima em "Oriente": "Se oriente rapaz / pela constatação de que a aranha / vive do que tece / vê se não se esquece".

De tão sólida, a teia do Expresso 2222 sobreviveu ao vírus do tempo.

Texto escrito por Tárik de Souza e publicado na Bizz #126, de dezembro de 1995


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