12 de abr de 2019

Estamos matando nossos ídolos?


Se há algo que resume a situação perigosa vivida no circuito da nostalgia musical, os Rolling Stones saíram fora do New Orleans Jazz Festival devido à doença e seu substituto, o Fleetwood Mac, teve que cancelar a sua apresentação pelo mesmo motivo.

O rock está ficando velho e ninguém se aposenta.

A atual turnê de Ozzy, No More Tours II, tem sido afetada por doenças e lesões, fazendo shows serem cancelados e a turnê ser esticada até 2020.

Quando Bob Seger lançou sua turnê Runaway Train em 2017, ela durou apenas 13 dos 32 shows anunciados, até que suas vértebras pediram socorro e as apresentações restantes precisaram ser canceladas. Após meses de fisioterapia, ele está de volta à estrada ainda cumprindo essas datas.

Brian May tem uma longa lista de datas para cumprir com o Queen e Adam Lambert, mas há apenas dois anos cancelou uma tour pelo Reino Unido para lidar com uma doença persistente que ele descreveu como “algo que estava destruindo minha energia e minha vontade”.

Nós poderíamos continuar. E nós vamos. Dê uma olhada na terrível lista de músicos que perdemos nos últimos anos, e o denominador comum em quase todos os casos é o mesmo: eles ainda estavam ativos. Eles poderiam não estar gravando, mas estavam na estrada, ao contrário de todos nós. Enquanto esperamos ansiosamente por aposentadorias sedentárias, eles estão acumulando milhagem, indo de hotel em hotel e transbordando milhas aéreas. Não é um estilo de vida saudável e não é de admirar que muitos sejam suscetíveis a doenças.


Ninguém está negando o direito de um músico fazer turnê. Uma vez que você tenha experimentado o amor não diluído que uma multidão pode oferecer, deve ser algo difícil de esquecer. E quanto ao argumento “eles não precisam de mais dinheiro para a aposentadoria”, bem, quando isso se aplica a qualquer um? Nunca?

A culpa é nossa. Toda vez que uma banda faz tours, nós temos uma versão reduzida da experiência anterior, e ainda assim pagamos pra ver. Os Rolling Stones de 2018 podem ter sido uma explosão, mas as datas da No Filter realmente foram tão boas quanto as da Bigger Bang, uma década atrás? Ou de Voodoo Lounge, dez anos antes? Em algum ponto, retornos decrescentes devem ser afetados, e tocar com uma banda é uma tarefa bastante atlética. Usain Bolt se aposentou aos 31 anos, então por que esperamos que nossos astros do rock sigam na estrada aos 70 anos?

Por que nós ainda vamos assisti-los? Só para estar no mesmo local que essas lendas uma última vez, e até a próxima? É para prestar homenagem a quem eles costumavam ser? Olhe para Brian Wilson: não há como duvidar de sua genialidade, mas se você filtrar a sua carreira até as partes que realmente importam, estará olhando para um período de dezoito meses a mais de meio século atrás. No entanto, como uma lenda vida, ele está maior do que nunca.


Porque não podemos deixar os rock stars se aposentarem?

A verdade é que sabemos o motivo. Nós construímos barganhas com nossos músicos favoritos. Nós demos a eles uma carreira, e eles nos deram uma vida cheia de memórias. E essa é a palavra chave: vida. Eles têm sido uma parte íntima de nossos relacionamentos, estando sempre ao nosso lado quando outras pessoas não estiveram. Eles estavam perto no nascimento de nossos filhos. Eles encheram nossas casas e fizeram a trilha de nossos verões. E eles ainda estão fazendo isso.

Não há um estatuto que estipule limitações nesse ramo. Ele continua até o final, e só é rasgado quando uma ou outra parte desce do palco uma última vez e vai para a escuridão.

Rock stars não queimam. Elas não desaparecem. Elas apenas param. Geralmente sem aviso. Normalmente, quando menos esperamos. E nunca quando estamos prontos.

Por James Cleveland, da Classic Rock Magazine
Tradução de Ricardo Seelig

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