Show: Slash | 21 de maio de 2019 | Pepsi On Stage | Porto Alegre



É óbvio que grande parte das pessoas que vieram nesta terça-feira até o Pepsi On Stage, em Porto Alegre, estavam em busca de resquícios do Guns N' Roses. Em torno das 17h30, filas consideráveis se formaram no entorno do evento, assim como as camisetas com Armas e Rosas proliferavam por todos os lados. Afinal, Slash, o inglês mais americano do rock, 53 anos bem vividos, e o grupo que o tornou uma lenda, fazem parte do universo do rock como uma de suas castas mais valorizadas.

E os números do Guns são superlativos. Após nova reunião da banda o grupo esteve na estrada por dois anos, varrendo os quatro cantos do planeta na mega bem sucedida turnê Not in This Lifetime. A tour passou por América do Norte, América do Sul, América Central, Ásia, Oceania e Europa, num total de 156 concertos que rolaram de 1 de abril de 2016, no Troubador em West Hollywood, até 8 de dezembro de 2018, no Aloha Stadium, em Honolulu, no Havaí. Porto Alegre recebeu a Not in This Lifetime em 8 de novembro de 2016, com o Beira-Rio lotado (leia review AQUI).

Estima-se que Slash já tenha colaborado com mais de cem artistas, isso além do que realizou com GnR, Slash's Snakepit, Velvet Revolver e com a atual banda. Não há dúvidas, estamos falando de um dos homens mais ocupados no ramo do rock and roll. E pra que se tenha uma ideia de como o guitarrista é um legítimo working man, entre brechas da digressão seu novo álbum foi gravado, para logo depois se juntar a Myles Kennedy & The Conspirators e dar início o Living the Dream Tour em 11 de setembro de 2018, dois meses antes da Not in This Lifetime chegar ao fim. Haja fôlego! E desde lá, foram quase 50 shows até o músico novamente tocar o solo gaúcho, dois anos e meio após a última estada por aqui. 

Ao lado de seu parceiro favorito no crime, Myles Kennedy (vocal), ele tem a companhia de Frank Sidoris (guitarra base e vocais de apoio) e dois músicos canadenses - Todd Kerns (voz principal em duas músicas, baixo e vocais de apoio) e Brent Fitz (bateria). Juntos, já gravaram Apocalyptic Love (2012), World on Fire (2014) e Living in the Dream (2018), álbuns que formam a base da atual tour.


21h. Som no palco, luzes azuis sinalizam o início do espetáculo. Sem depender de telões, truques cenográficos ou adereços, a primeira bola de fogo advém do último álbum da banda, "The Call of the Wild". No palco, Slash, a lenda - o homem com uma Les Paul, o anel de caveira e sua inseparável cartola. O guitarrista entrega ao público o retrato iconizado de sua persona artística - 'óculos Ray-Ban espelhado, o piercing no nariz, os cabelos escondendo traços de suas expressões' - o texto que escrevi em 2016 no show do GnR em Poa não precisa ser reescrito. Enquanto isso, Myles Kennedy ronda o palco e ocupa todos os espaços possíveis, apesar do foco principal obviamente estar sempre no guitarrista.

Uma baita sacada de Slash foi escolher Myles como o frontman de sua banda. O ex-professor de guitarra é respeitado não apenas por sua invejável extensão vocal - "A abordagem de Jeff Buckley me ajudou a aceitar o fato de que eu era um tenor. Devo muito a ele", disse em entrevista recente. Essa veia fica exposta já em "Halo”, da mesma maneira em que percebemos uma banda que vive o seu melhor momento. Não se pode negar, Myles Kennedy está no front da atual linhagem dos vocalistas de rock, e além de suas atribuições como cantor, estamos falando de um grande performer. Veja o desenho de sua atuação na falsa balada "Shadow Life" e entenda essa afirmação.


A versão ao vivo de "Back From Cali" é o ponto do alto do início da apresentação, instante exato em que a audiência deixa o deslumbramento de lado e revela que também está pronta para cantar os refrães. Esse mesmo coro da plateia retorna afiado em canções como "Mind Your Manners". O som cru da guitarra de Slash brilha no início de "Serve You Right", assim como ganha toneladas de volume em "Boulevard of Broken Hearts". O solo de "Wicked Stone" é interminável, uma performance que alcança cerca de 10 minutos de execução, para alegria de qualquer amante da guitarra.

Quando Todd Kerns incumbe-se dos vocais em "You're All Gonna Die" e "Doctor Alibi", uma energia contagiante toma conta do Pepsi. Como voz substituta de Iggy Pop e Lemmy Kilmister (intérpretes na gravação original de 2010), o baixista assume a liderança provisória das ações. O multi-instrumentista está acostumado a esse protagonismo, pois Todd já dividiu o tablado com nomes como Alice Cooper, Rick Nielsen, Duff McKagan, Sammy Hagar, entre outros, além de assumir a encarnação de Paul Stanley na banda tributo Black Diamond Kiss.

Myles retorna com o (quase) blues "Lost Inside the Girl", e aos poucos a temperatura vai aumentando, atingindo seu ápice em canções como "Driving Rain" e "By the Snow". Essa é uma das constatações determinantes do atual tour - Slash não precisa mais recorrer aos temas do Guns e do Velvet Revolver para montar um setlist, ele já tem canções de sobra para constituir um repertório que represente seu legado solo fora desse círculo vicioso, saindo de uma zona de conforto que muitos permaneceriam o resto da vida - "Gosto do lugar onde o rock está atualmente, em que o pop contamina todos os gêneros com seu filtro. O rock é a ovelha negra, e quem está tocando rock atualmente o faz pela paixão. É a primeira vez em muito tempo que não há dinheiro, não há fama, só o amor pela música", disse ao jornalista Gustavo Foster, da Zero Hora.  


Ok, esquecendo os idealismos, dá pra tocar apenas uma do GnR? Slash se aproxima do amp, aumenta o volume de seu instrumento, e a resposta vem com "Nightrain", rolo compressor/sonoro que Axl e sua trupe sempre utilizaram como um dos clímax das apresentações nas grandes arenas ao redor do mundo. Na sequência, para sepultar de vez essa lembrança (se é que isso é possível), "Starlight" é a prova viva de que Slash já é um hitmaker do rock, naquela que, convencionalmente falando, talvez seja sua melhor canção solo até hoje. Ao vivo, quase dez anos após a gravação original, o desempenho de Myles Kennedy soa ainda mais cristalino. Nada como o tempo para amadurecer algumas músicas.

Um detalhe: tanto a voz de Myles quanto a guitarra de Slash em alguns momentos carecem de definição/volume, um dos pontos negativos que não chegam a prejudicar o resultado final daquilo que ouvimos.

Chegando ao final da noite, "World on Fire" é também utilizada para as apresentações da banda, com destaque para o solo de bateria de Brent Fitz (eu detesto esses solos!). Até nesses momentos performáticos, temos a revelação de um grupo maduro, pois tudo fica certo quando em cerca de apenas um minuto podemos concluir que Fritz é um grande baterista. Depois de um breve intervalo, a banda retorna para o encore com "Anastasia", um riff, que segundo muitos, rivaliza com "Sweet Child ‘O Mine". Exageros à parte, temos a mesa posta para um final digno: após 2h10 de espetáculo, eis o retrato de uma formação que está pronta para alçar vôos maiores. Após o show em Lisboa, em 15 de março, o guitarrista Frank Sidoris publicou em suas redes"70 dias, 35 shows, 22 países, (apenas) 13 dias de folga, 48 mil milhas viajadas". A tour sul-americana nem havia começado ... Dez shows depois dessa postagem, os números só continuam a aumentar.  

Nossos agradecimentos a Hits Produtora pelo suporte e credenciamento. Agradecimento especial Myllena Ribeiro (Hits).


Setlist:
The Call of the Wild
Halo
Standing in the Sun
Apocalyptic Love
Back From Cali
My Antidote
Serve You Right 
Boulevard of Broken Hearts
Shadow Life
We're All Gonna Die - Todd Kerns on lead vocals
Doctor Alibi - Todd Kerns on lead vocals)
Lost Inside the Girl
Wicked Stone
Mind Your Manners
Driving Rain
By the Sword
Nightrain
Starlight
You're a Lie
World on Fire

Bis:
Anastasia


Comentários

  1. O texto menciona a musica Boulevard of Broken Dreams... essa é do Green Day... o correto é Boulevard of Broken Heart...

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    1. Corrigido, obrigado pelo toque.

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    2. Eu achei que fosse uma cover do Hanoi Rocks, o que seria bem legal também.

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