Review: The Cult - Electric (1987)


Ian Astbury e Billy Duffy são os responsáveis por um dos melhores discos lançados durante os anos 1980. Terceiro álbum do The Cult, Electric é um registro único na carreira deste quarteto inglês, apresentando em suas onze faixas um hard rock vigoroso, direto e repleto de energia, que bebe no melhor que o estilo produziu na década anterior.

Ao lado de Astbury e Duffy estavam o baixista Jamie Stewart e o baterista Les Warner. O quarteto juntou forças ao produtor Rick Rubin para transformar a sonoridade anterior da banda, um rock com influência gótica e uma bem-vinda dose de peso e que rendeu o igualmente ótimo Love (1985), em um arregaço regado a inspirados riffs de guitarra e interpretações vocais antológicas.

Billy Duffy estava possuído em Electric. O guitarrista louro pegou para si o posto de legítimo herdeiro da nobre linhagem de riffmakers do rock, que inclui nomes lendários como Angus Young, Jimmy Page e Tony Iommi, e, banhado de luz e inspiração, pariu uma sequência sensacional de notas que colocam Electric na categoria daqueles discos onde a guitarra, mais do que qualquer outro instrumento, é a espinha dorsal, a alma e o sangue que escorre pelos sulcos.

As cinco primeiras faixas não deixam espaço para o ouvinte respirar. O The Cult entrega um dos melhores lados A da década de 1980 e também de todos os tempos, jogando o ouvinte contra a parede com o ataque frontal e selvagem de "Wild Flower", "Peace Dog", "Lil' Devil", "Aphrodisiac Jacket" e "Electric Ocean", todas devidamente abençoadas por riffs faiscantes que brotam como água da guitarra de Duffy. As duas primeiras são pedradas hard certeiras, influenciadas claramente pelo AC/DC. Já "Lil' Devil" coloca um certo groove na jogada, e era essa faixa que, do alto dos meus dezesseis, dezessete anos, eu tocava feito louco nas festinhas que minha turma de amigos promovia no interior do Rio Grande do Sul - bons tempos aqueles.

Entretanto, foi o riff de "Aphrodisiac Jacket" que me fez comprar o disco, pois foi ouvindo essa canção que me vi obstinado atrás do LP. Mais cadenciada, ela exemplifica a inspiração absurda do The Cult em Electric, cativando qualquer pessoa que tenha o rock correndo nas veias e, ao mesmo tempo, honrando os grandes nomes que foram fundamentais para o surgimento e desenvolvimento do hard rock como Cream, Jimi Hendrix Experience, Led Zeppelin, Mountain, Grand Funk Railroad e inúmeros outros.

O lado B, apesar de não ser tão iluminado quanto o primeiro, possui as duas faixas mais conhecidas de Electric: o single "Love Removal Machine" e o cover de "Born to Be Wild", do Steppenwolf. A primeira tocou feito louco nas rádios desde o momento em que o play foi lançado, e é uma das trilhas mais marcantes das lembranças de um tempo de descobertas, onde éramos felizes sem ao menos saber. E, em um disco cujas composições nos transmitem sensações sublimes, sendo uma das mais fortes a liberdade, a escolha da clássica "Born to Be Wild" como releitura não poderia ser mais apropriada. Aliás, o peso que o The Cult imprimiu transformou a sua versão em uma das preferidas entre as milhares de interpretações que "Born to Be Wild" já ganhou - inúmeras delas, diga-se de passagem, pra lá de dispensáveis.

Quando um disco nos faz sentir certas coisas, é preciso abrir os olhos e ouvi-lo com atenção. Electric nos faz primeiro aumentar o volume de maneira progressiva. Em seguida, já estamos empunhando nossa Les Paul e tocando air guitar alucinadamente. E, quando vemos, cantamos os solos das faixas a plenos pulmões - "Wild Flower" e "Love Removal Machine" que o digam. Por fim, quando o CD acaba já estamos ouvindo-o novamente.

Enfim, Electric é um discaço de rock, daqueles que cativam novos adeptos e fazem rockers veteranos como eu se apaixonarem, de novo e mais uma vez, pelo gênero que os viu crescer. 

Agora, chega de papo furado porque a minha Les Paul já está apitando aqui do lado... 

Comentários

  1. Rapaz, tamo junto, tb sou fã incondicional desse disco, que eu ainda tenho em vinil.

    Eu já li algumas críticas malhando a escolha de "Born to Be Wild" - o que é uma injustiça, pq é uma baita versão! Aliás, todas as faixas são, no mínimo, muito boas, não tem música meia-boca (minha favorita é a excelente"King Contrary Man"). Deveriam ter mantido Rick Rubin como produtor do Sonic Temple, na minha humilde opinião.

    Troquei meu "Appetite for Destruction" por esse, lá pelos meus 13 anos e não me arrependi (deveria ter mantido os dois, mas sabe como é, a grana era curta). Quando ouvi "Tales Of Brave Ulysses" uns anos mais tarde, saquei a influência do Billy Duffy em "Aphrodisiac Jacket", o que me fez admirar o cara mais ainda.

    ResponderExcluir
  2. Um bom disco, mas "inferior" na discografia da banda...Foi a partir dele que o CULT se tornou um grupo genérico de olho no mercado norte americano, que foi conquistado enfim no disco seguinte, o também bom SONIC TEMPLE. O CULT se entupiu de dinheiro com esses dois discos, mas foram eles que iniciaram a descendente da banda em termos criativos, independente do "valor sentimental" que eles possuam para mim...

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Você pode, e deve, manifestar a sua opinião nos comentários. O debate com os leitores, a troca de ideias entre quem escreve e lê, é que torna o nosso trabalho gratificante e recompensador. Porém, assim como respeitamos opiniões diferentes, é vital que você respeite os pensamentos diferentes dos seus.