Review: Opeth – In Cauda Venenum (2019)



O Opeth mudou o seu som em Heritage (2011), seu décimo disco, deixando para trás o passado death metal e apostando em uma sonoridade fortemente influenciada pelo prog rock produzido nos anos 1970. Ainda que ricamente harmônica e farta em belas melodias e ótimas composições, a nova fase da banda sueca conquistou novos fãs na mesma medida que decepcionou devotos mais antigos. O fato é que o quinteto liderado pelo vocalista e guitarrista Mikael Åkerfeldt não dá o menor indício de que pretende retornar para a música que fazia outrora, e isso fica claro de forma definitiva em In Cauda Venenum, seu novo trabalho.

Lançado em 27 de setembro, In Cauda Venenum (Cauda Amaldiçoada, em latim) foi produzido por Stefan Boman e teve todas as suas músicas compostas por Åkerfeldt durante o período sabático que o músico tirou após Sorceress (2016). Com todas prontas, Mikael as apresentou ao grupo. Segundo o líder do Opeth, o objetivo da banda com In Cauda Venenumnão é chegar ao próximo nível de popularidade, mas sim ao próximo nível de criatividade”. O trabalho traz dez faixas e foi lançado no Brasil pela Shinigami Records em duas edições: CD jewel case com as canções cantadas em inglês e uma versão especial dupla em digipack com as faixas em inglês e sueco, língua natal da banda.

In Cauda Venenum é um disco denso e que faz uso constante da alternância de dinâmicas. Trechos mais calmos contrastam com momentos de maior peso, seja na parte instrumental ou nos vocais - sempre limpos, caso alguém ainda tenha essa dúvida. Os arranjos são ricos e trazem grande destaque para o teclado de Joakim Svalberg, que divide a linha de frente com as guitarras de Mikael Åkerfeldt e Fredrik Åkesson. A sessão rítmica formada pelo baixista Martín Méndez e pelo baterista Martin Axenrot segue como um dos pontos fortes da banda, tanto pela coesão quanto pela criatividade em criar andamentos fora do convencional. Um ponto que ganha destaque imediato em “Dignity”, que entra após a climática introdução “Garden of Earthly Delights”, são as linhas vocais de Åkerfeldt, sempre devidamente amparadas por coros que remetem à referências excelentes como o Gentle Giant, por exemplo.

Engana-se quem pensa que, no entanto, o Opeth abandonou por completo o peso. O que a banda fez foi distanciar-se do metal extremo, mas ainda possui o metal em suas veias. O peso que introduz “Heart in Hand” é um exemplo disso, assim como a abordagem da bateria de Axenrot nessa canção, repleta de viradas e um trabalho percussivo que não esconde o passado death metal, unindo-o ao prog que permeia o presente da banda.

O que senti em In Cauda Venenum foi um equilíbrio mais efetivo entre o novo Opeth e o antigo Opeth. Os discos anteriores são excelentes – Heritage (2011), Pale Communion (2014) e Sorceress (2016) -, mas em In Cauda Venenum parece que tudo conversa de forma mais natural e fluída, resultando em canções fortíssimas e donas de uma beleza que fica ainda mais inebriante devido à onipresente melancolia.

O Opeth vive um de seus momentos mais criativos e ricos, e In Cauda Venenum eterniza a ótima fase da banda sueca. Sem sombra de dúvidas um dos grandes momentos da música em 2019.

Comentários

  1. Cacete, a aproximação com Steve Wilson liberou todo o potencial do Opeth. O Mikael é um cara do progressivo, a melhor cartada foi mesmo abandonar os guturais, já não eram acolhidos pelo novo som da banda. E que vocais expressivos nesse Play, magistral!

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