Review: Rise of the Northstar – The Legacy of Shi (2018)



Vez ou outra nos deparamos com algumas bandas novas que apresentam propostas inusitadas, e os franceses do Rise of the Northstar são um exemplo disso. Fundado em 2008 na cidade de Paris, o grupo traz uma interessante fusão de hardcore, groove metal na linha dos anos 1990 (por vezes puxando alguns elementos de thrash e do nu metal) e hip-hop, mas com uma temática explicitamente influenciada pela cultura pop japonesa (o nome artístico do guitarrista Eva-B e até o mesmo o próprio nome da banda são só alguns dos muitos exemplos).

Esse curioso encontro de ideias já vem dando as caras há um bom tempo, desde os excelentes EPs Tokyo Assault (2009) e Demonstrating My Saiya Style (2012), além do álbum Welcame (2014), todos produzidos e lançados de maneira independente. The Legacy of Shi é o primeiro trabalho da banda a contar com lançamento e distribuição por um grande selo a nível global – no caso, pela Nuclear Blast – e que obviamente também representa o primeiro contato que muitos terão com sua proposta musical, que dessa vez contou com o auxílio na produção de ninguém menos que Joe Duplantier, dos compatriotas do Gojira – uma escolha que parece ter sido muito bem acertada, levando em consideração algo em comum no som de ambas as bandas: o aspecto “explosivo”.

Uma curiosidade adicional sobre The Legacy of Shi é que se trata, vagamente, de uma espécie de álbum conceitual que narra o contato e a luta da própria banda contra uma espécie de antigo demônio. Por mais que isso soe como algo que não dê pra levar muito a sério, o som em si não tem ares tão necessariamente juvenis: faixas como “Here Comes the Boom”, “Nekketsu” e “This is Crossover” ficam no mesmo nível de algumas das melhores pedradas que bandas da velha guarda como Biohazard, Sickof it All e Hatebreed já fizeram (se eles também incluíssem várias referências à animes e mangás nas letras, é claro), com direito a “gang shouts” empolgados durante os refrãos e toda a fúria característica do hardcore com um toque bem encaixado de thrash.

“Step by Step” é um dos raros momentos onde a pancadaria sai do foco para dar espaço a um clima um pouco mais melódico e até mesmo melancólico, com uma letra que traz um dos paralelos mais interessantes na proposta musical do grupo: as histórias de superação frequentes em muitos trabalhos da cultura pop japonesa têm na verdade bastante em comum com o conteúdo lírico muitas vezes inspirador do hardcore. Porém, chegando perto do refrão a banda retoma o tom furioso do estilo, novamente com “gang shouts” bem encaixados e vocais inflamados berrados à plenos pulmões.

“Kozo” tem uma veia um pouco mais experimental e uma levada que lembra bastante o som do Korn – mais especificamente em “All in the Family”, de Follow the Leader (1998) – mas com muito mais peso e um uso interessante de samples e vocais que reforçam o lado conceitual do álbum. “Cold Truth”, “Furyo’s Day”e “Teenage Rage” também trazem à tona o lado mais hip-hop do som do grupo – inclusive com ocasionais versos cantados em francês – sem nunca deixar de lado todo o peso das guitarras afinadas em tom baixíssimo, com vários momentos que não ficariam fora de lugar em algum trabalho do Machine Head nos anos 1990, por exemplo. Já a intensa “All for One” traz vocais distorcidos que conferem uma atmosfera meio death metal, e no geral chega até a remeter um pouco ao estilo do que o Slipknot fez na virada do século. Encerrando o álbum de forma magistral temos a faixa-título que traz mais uma vez a explosiva combinação de hardcore, groove e thrash e uma semelhança inconfundível com o som dos veteranos do Hatebreed.

Ainda que o som do Rise of the Northstar não seja exatamente tão repleto de novidades, o grupo prova que, muitas vezes, tão importante quanto o conteúdo é também a embalagem. Eles têm tudo para se tornarem uma referência moderna do crossover/hardcore, e se The Legacy of Shi é algum indicativo, este álbum é uma prova disso e eles estão no caminho mais do que certo.

Por Rodrigo Façanha


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